quinta-feira, 4 de maio de 2017

Resistência reformada

Os reformados devem resistir e lutar bravamente:
1. Contra o pragmatismo
2. Contra o anticonfessionalismo;
3. Contra a sedução do crescimento a qualquer custo;
4. Contra a heresia e o espírito da época;
5. Contra o abandono da pregação cristocêntrica;
6. Contra o "evangelismo" por meio de outro evangelho;
7. Contra o culto de entrenimento antropocentrista;
8. Contra o a pseudo-reforma que deforma e deturpa a verdade;
9. Contra a ortodoxia fria e divorciada da vida;
A fé reformada exige homens e mulheres comprometidos com Cristo, firmes e seguros de suas crenças e convicções. Dispostos a sofrer por Cristo, pelo evangelho e pela Igreja. Se alguém se diz reformado e não está num campo de batalha, não sabe ainda o que é a fé reformada.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

SÍNTESE HISTÓRICA DA HERMENÊUTICA

(parte iv)

Silas Roberto Nogueira

Notas de Aula


O Período da Reforma
O movimento a Reforma foi em muitos sentidos um movimento hermenêutico. O domínio da interpretação alegórica que durava séculos é finalmente quebrado. O retorno aos princípios de interpretação antioqueno marca a pregação, o ensino e os princípios dos reformadores. Os reformadores:
·        Criam que a Bíblia era inspirada Palavra de Deus. Assim, consideravam a Bíblia a mais alta autoridade, e a corte final de apelação em todas as questões teológicas. Contra a infabilidade da Igreja, eles puseram a infabilidade das Escrituras.
·     Rejeitaram o sentido quádruplo da Palavra, se opondo à alegorização. Para os reformadores a Bíblia tem apenas um sentido. Quebraram o domínio da alegoria que dominava a interpretação há tantos séculos. Lutero dizia: “as alegorias são especulações vãs...”
·       Deram ênfase ao sentido literal, sentido gramático-histórico do texto. Havia uma preocupação entre os reformadores em chegar ao sentido claro, óbvio e simples de cada passagem das Escrituras. E isto seria feito pela observação cuidadosa da gramática e do contexto. No trato com textos difíceis o caminho comum era a alegorização, mas os reformadores rejeitavam essa via, partiram então para a harmonização desses com textos mais claros. Dizia Lutero “se são obscuras num lugar, são claras em outros”. A Escritura é seu próprio intérprete.
·         Criam na necessidade de iluminação do Espírito Santo. Como os reformadores enfatizavam a natureza sobrenatural das Escrituras, viam na sua natureza espiritual a principal barreira à interpretação. Assim sendo, enfatizavam o papel indispensável do Espírito Santo no processo de interpretação da mensagem bíblica. Tanto para Lutero como para Calvino, nenhuma pessoa poderia interpretar corretamente as Escrituras sem a ação iluminadora do Espírito santo através da própria Palavra.  
·         A necessidade de estudo das Escrituras. Uma das características da Idade Média era a ignorância em relação à Bíblia, não somente por parte do povo em geral, mas especificamente por parte dos líderes religiosos. Naqueles dias eram muito comum doutores em teologia completamente ignorantes da Bíblia. Além disso, os reformadores reconheciam que havia entre as Escrituras e o intérprete o abismo cultural e lingüístico e muito embora reconhecessem a clareza das Escrituras sabiam que algumas dificuldades existiam em relação a alguns textos e que isso só poderia ser superado se o intérprete estudasse e pesquisasse com afinco o texto nas línguas originais e a cultura da época.
·     Linguagem figurada. Embora recusassem o sentido alegórico, não significava isso que repudiavam a alegoria própria das Escrituras. Os reformadores estavam cientes que determinados textos eram mais bem interpretados como sendo figurados. Um dado curioso quanto a isso é que nestes mesmos textos, o romanismo tão achegado à alegorização, fez caminho inverso, ou seja, apelou à literalidade do texto. Por exemplo, os textos referentes à ceia do Senhor. Os reformadores insistiam, com exceção de Lutero, que o sentido da expressão “isto é o meu corpo” deveria ser entendida não literalmente, ao contrário dos adeptos da transubstanciação.

Martinho Lutero (1438-1546) – dizia “quando monge, eu era perito em alegorias. Eu alegorizava tudo. Mas, depois de fazer preleções sobre a Epístola aos Romanos, passei a conhecer a Cristo. Foi assim que percebi que ele não é nenhuma alegoria e aprendi a saber o que Cristo realmente é”.

João Calvino (1509-1564) – dizia “o texto bíblico interpreta a si mesmo”. E mais “a primeira preocupação do intérprete é deixar o autor dizer o que realmente diz, em vez de atribuir-lhe o que achamos que ele deveria dizer”. Este princípio é o da intenção autoral.

Ulrico Zuinglio (1484-1531) – enfatizava a interpretação contextual, por isso dizia que remover um texto do seu contexto  “é como separar uma flor da raiz”.  Quanto ao ministério do Espírito Santo no processo de interpretação acrescenta “a certeza vem pelo poder e pela nitidez da atuação criadora de Deus e do Espírito Santo”. 


William Tyndale (1494-1536) – famoso por sua tradução do Novo Testamento para o inglês, em 1525. Dizia ele “as Escrituras têm apenas um sentido, que é o literal”. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

SÍNTESE HISTÓRICA DA HERMENÊUTICA

(parte III)

Notas de Aula

Silas Roberto Nogueira



A Idade Média
Para alguns a Idade Média foi um deserto sem proporções no campo da interpretação bíblica, para outros, no entanto, havia intensa atividade hermenêutica.
Atribui-se a João Cassiano (370-435) a famosa distinção entre os quatro usos das Escrituras chamada “quadriga” que de certo modo deu o tom da interpretação da Idade Média:
·         -- Histórico (literal) – o sentido óbvio do texto

·         -- Alegórico (cristológico) – o sentido mais profundo, que apontava para Cristo

·    -- Tropológico (moral) – sentido que determinava as obrigações dos cristãos e sua conduta

·         -- Anagógico (escatológico) – sentido que apontava para as coisas vindouras

Gregório, o Grande (540-604) – o primeiro papa da Igreja Católica Romana. Gregório fundamentava a sua interpretação da Bíblia nos pais da Igreja, especialmente Orígenes. Gregório se preocupava com o sentido moral das Escrituras. Suas palestras em Jó são caracterizadas por três níveis de interpretação, a literal, a alegórica e a moral. Jó 1:1-5 é o homem histórico, um homem de grande fé, mas seus sete filhos são os 12 apóstolos (chega-se a isso multiplicando-se 4 e 3), seus três amigos são hereges, as 7 mil ovelhas são os pensamentos inocentes, os 3 mil camelos as concepções vãs, 500 juntas de bois são as virtudes e os 500 jumentos, as tendências lascivas.

Bernando de Claraval (1090-1153)– escritor prolífico do séc. 11 era adepto da quadriga. Em sua obra “Sobre o Amor a Deus”, ele expõe o amor da Igreja a Cristo interpretando Cantares no uso alegórico da quadriga. Um exemplo do exagero de Bernando é a interpretação de Cantares 1:3 onde as “donzelas” (hb ‘almah – virgens) são considerados anjos e a espada em Lucas 22:38 representava o aspecto espiritual (o clero) e material (o imperador).

Tomas de Aquino ( 1225-1274) – alegorizava constantemente, mas também, pelo menos em teoria, considerava o sentido literal o fundamento necessário de toda as exposição das Escrituras.

Nicolau de Lira (1279-1340) – também usava a quadriga, contudo, enfatizava o aspecto literal das Escrituras. Insistia na necessidade de referências ao original, queixando-se do sentido místico “permitido para sufocar o literal”, e exigiu que o último só fosse usado para demonstrar a doutrina. Seu trabalho influenciou profundamente Lutero e consequentemente afetou a Reforma.

Uma das preocupações dos intérpretes medievais era justificar as inovações litúrgicas da Igreja.  O ponto interpretativo central era o lugar da Lei de Moisés nas cerimônias litúrgicas da Igreja. Para justificar seu uso, era preciso alegorizar o texto do VT de forma a permitir que as cerimônias do culto do VT pudessem ser aplicadas ao contexto cristão. Por exemplo, Salmo 74:13 “esmagaste sobre as águas a cabeça dos monstros marinhos” era usado para justificar o exorcismo  através do batismo!

Outra preocupação dos interpretes medievais era o de justificar os dogmas eclesiásticos. Por exemplo, a ressurreição da filha de Jairo diante de poucas testemunhas era usado para justificar a confissão auricular privada  a um sacerdote! De acordo com alguns a passagem “do Senhor são as colunas da terra” (1 Sm 2.8) defendia a existência de cardeais. O Salmo 7.8,8 foi usado por Antônio, bispo de Florença, para provar que Deus havia posto todas as coisas debaixo dos pés do papa.

Ainda outro objetivo da interpretação medieval era justificar o surgimento de ordens monásticas. Por exemplo, as duas varas mencionadas em Zacarias 11.7 eram interpretadas como se referindo aos franciscanos e aos dominicanos.


Com objetivo de proteger a usurpação hierárquica, os monges, bispos e padres exageravam o fato de que existem passagens obscuras na Bíblia e assim a mantiveram longe do povo. A Bíblia foi transformada em um livro fechado, cujo sentido somente os bispos, monges e padres podiam desvendar.  

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

SÍNTESE HISTÓRICA DA HERMENÊUTICA

Notas de Aula 

(parte II)

Silas Roberto Nogueira 

A Interpretação Patrística
No desenvolvimento dos princípios de interpretação na patrística há três centros diferentes:

1.   A Escola de Alexandria
No começo do terceiro século A.D. a interpretação bíblica foi influenciada especialmente pela escola catequética de Alexandria. Nesta importante cidade a religião judaica e a filosofia grega se encontraram e se influenciaram mutuamente. A filosofia platônica ainda era corrente ali nas formas do neoplatonismo e do gnosticismo. Os dois principais nomes dessa escola foram Clemente de Alexandria e Orígenes. Ambos criam na inspiração das Escrituras e embora reconhecessem o sentido literal da Bíblia, eram da opinião que somente a interpretação alegórica contribuía para o conhecimento real.

Clemente de Alexandria (155-216) foi o primeiro a aplicar o método alegórico na interpretação do VT.  Propôs o princípio de que toda a Escritura devia ser entendida alegoricamente. Para ele, o sentido literal poderia fornecer apenas um tipo de fé elementar, enquanto que o alegórico conduziria ao verdadeiro conhecimento. Clemente afirmou que qualquer passagem da Bíblia podia ter até cinco significados:

      __ Histórico (as histórias bíblicas)

     _Doutrinário (ensinamentos teológicos e morais)

    _Profético (todas as profecias)

_Filosófico (alegorias com personagens históricos, por exemplo, Sara, simbolizava a verdadeira sabedoria e Hagar, a filosofia pagã)
         
         __ Místico (verdades morais e espirituais)

Em sua excessiva alegorização, Clemente ensinava que as proibições mosaicas de comer porco, falcão, águia e corvo (Lv 11:7,13-19) representavam respectivamente a ânsia impura pela comida, a injustiça, o roubo e a cobiça. No episódio em que 5000 pessoas foram alimentadas (Lc 9.10-17), os dois peixes simbolizavam a filosofia grega. (As Miscelânias, 6:11).

Orígenes (185-254) foi discípulo de Clemente, mas superou seu mestre no saber e influência. Foi o maior teólogo do seu tempo.  Como de acordo com Platão o homem consiste de três partes, corpo, alma e espírito – ele aceitou que a Bíblia tem uma tríplice significação, a saber: literal, moral e mítica ou alegórica. Ele valia-se de alguns textos para consubstanciar a sua tese, entre eles 1 Ts 5:23  - “corpo” (sentido literal), “alma” (sentido moral) e “espírito” (alegórico). Para ele todos os textos tem sentido alegórico, mas nem todos tem sentido literal. Mediante alegorização, Orígenes ensinava que a arca de Noé simbolizava a Igreja e Noé simbolizava Cristo. Quando Rebeca tira água do poço para os servos de Abraão o sentido disso é que devemos recorrer diariamente às Escrituras para ter um encontro com Cristo. Na entrada triunfal de Cristo, a jumenta representava o Velho Testamento, o jumentinho o Novo Testamento e os dois apóstolos os aspectos moral e alegórico das Escrituras. Orígenes desconsiderava o sentido literal das Escrituras e caiu em fantasias desmedidas.

2.   Escola de Antioquia
A escola de Antioquia foi, provavelmente, fundada por Doreteu e Luciano de Samosata (240-312), no fim do terceiro século. Alguns pensam que o fundador desta escola foi Diodoro, primeiro presbítero de Antioquia, e depois de 378 A.D. , bispo de Tarso. Percebendo o crescente abandono do sentido literal das Escrituras por parte dos pais alexandrinos, vários líderes da igreja em Antioquia da Síria sublinharam a interpretação histórica, literal. Eles incentivaram o estudo dos idiomas originais e redigiram vários comentários sobre as Escrituras. Para eles o elo entre o VT e o NT era a tipologia e as profecias em vez da alegorização. Para eles, a interpretação literal incluía a linguagem figurada. Destacados discípulos desta escola são:

Teodoro de Mapsuéstia (350-428) – escreveu comentário sobre a maioria dos livros do VT e sobre as Epístolas de Paulo. Seus comentários, segundo Terry, “encontram-se entre os melhores exemplares da exegese primitiva”. Ele defendeu a interpretação histórico-gramatical.

João Crisóstomo (354-407) – era arcebispo de Constantinopla. Suas mais de 600 homilias constituem-se em discursos expositivos de aplicação prática. Suas obras contêm cerca de 7 mil citações ao VT e em torno de 11 mil do NT.

Podemos destacar os seguintes princípios:
·         Sensibilidade ao sentido literal do texto.
·         Não negavam o caráter metafórico do texto.
·         Buscavam determinar a intenção do autor.
·         Eram contra a descoberta arbitrária de Cristo nas Escrituras.

3.   Os Pais Latinos (A escola latina)
Os pais latinos acolheram alguma coisa da Escola de Alexandria e algo da Escola de Antioquia. O seu ponto mais característico encontra-se no fato de haver acrescentado outro elemento que até então, ainda não havia sido considerado, a saber, a autoridade da tradição e da Igreja na interpretação da Bíblia. Atribuiu valor normativo ao ensino da Igreja no campo da exegese. Dois grandes nomes entre os Pais latinos:

Jerônimo (347-419) - tronou-se muito mais conhecido pela sua tradução da Bíblia, a Vulgata, do que como intérprete. É um exemplo da interpretação quase literal.

Agostinho (354-430) - diferente de Jerônimo, possuía um conhecimento deficiente dos idiomas originais, isso equivale a dizer que não foi fundamentalmente um exegeta. Agostinho sobressaiu na sistematização das verdades bíblicas. Em sua obra De Doctrina Christiana, escrita em 397, ele defendeu a analogia de fé, segundo o qual nenhuma interpretação das Escrituras é aceitável se for contrária ao sentido geral das Escrituras. Ele adotou o sentido quádruplo das Escrituras: histórico, etiológico, analógico e alegórico. Usava a alegoria (espiritualização) de modo livre, por exemplo, ele ensinava que os quatro rios de Gn 2.10-14 eram quatro virtudes fundamentais e que, no episódio da Queda, as folhas de figueira representavam a hipocrisia e o cobrir da carne, a mortalidade (3.7,21). A embriaguez de Noé (Gn 9.20-23) simbolizava o sofrimento e a morte de Cristo e, embora, não negasse a historicidade do Gênesis quanto á criação, alegorizava os dias da criação, pois primeiro houve a luz e depois o sol, e isso e contraditório. Para ele, quando uma passagem fosse contraditória a Deus ou aos cristãos, deveria ser espiritualizada.


De modo geral a espiritualização do VT se dava principalmente por causa da convicção que o NT está contido no VT, e o VT é iluminado pelo NT. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

SÍNTESE HISTÓRICA DA HERMENÊUTICA

Notas de Aula 

(parte I) 

Silas R. Nogueira

Assim como placas de sinalização nos ajudam numa viagem rodoviária, o entendimento de como pessoas e grupos interpretavam a Bíblia antigamanete pode funcionar para nós como uma espécie de sinalização, advertindo, conduzindo e informando. Como a placa de advertência, o estudo da história da interpretação bíblica pode nos ajudar a enxergar os erros que outros cometeram no passado e suas consequências, alertando-nos assim pata evitarmos que se repitam. Como placa que indica a direção, o conhecimento de algo da evolução da interpretação bíblica ao longo dos séculos pode ajudar-nos a perceber a importância das interpretações corretas e o que implicam. Como placa informativa, a história da interpretação ajuda-nos a entender como certas questões de interpretação surgiram e o modo como foram abordadas no passado.

A Interpretação Judaica
Para dar uma visão geral do assunto, apresentamos uma síntese dos princípios adotados pelos judeus na interpretação bíblica.

1.   Judeus palestinos
Eles tinham profundo respeito pela Bíblia como a infalível Palavra de Deus. Consideravam sagradas até mesmo as letras, e seus copistas tinham o hábito de contá-las, a fim de evitar que alguma se perdesse na transcrição. Estimavam a Lei (Torah) mais que os outros escritos, por isso a interpretação da Lei era seu grande objetivo. Faziam clara distinção entre o sentido literal da Bíblia (peshat) e sua exposição exegética (midrash).  De modo geral a literatura midrash pode ser dividida em duas classes:

  •    Halakhah – interpretação de caráter legal, tratando de assunto de obrigações impostas pela lei em sentido estritamente legalístico. 
  •    Haggadah – interpretações de tendência mais livre e edificante, abrangendo todas as partes não legalistas das Escrituras. Essa última classe de interpretação era mais homilética e ilustrativa do que exegética.

Uma das grandes fraquezas da interpretação dos escribas é devida ao fato de exaltar a Lei Oral, que é, em última análise, idêntica à inferências dos rabinos, como apoio necessário da Lei Escrita, e finalmente usá-la como meio para desprezar a Lei Escrita.  Isso deu margem ao aparecimento de várias formas arbitrárias de interpretação, Mc 7:13. Hillel foi um dos maiores intérpretes entre os judeus. Ele deixou sete regras de interpretação, pelas quais ensinou, ao menos aparentemente, que a tradição oral devia ser deduzida dos dados fornecidos pela Lei Escrita. Estas regras, em forma sucinta, podem ser sintetizadas assim:
A primeira está associada a inferências do menos para o mais importante e vice versa. A segunda é a inferência por analogia; a terceira é a formação de uma família, isto é, quando um grupo de passagens possui conteúdos semelhantes, considera-se que tal grupo tenha a mesma natureza, oriunda do sentido da passagem principal do grupo. A quarta é como a terceira, limitada, porém, a duas passagens. A quinta regra baseia-se numa relação entre o genérico e o específico. A sexta era a exposição com base em outra passagem parecida. A sétima trata de uma dedução a partir do contexto. (J. D. Wood, The Interpretation of the Bible: a historical introduction, p. 14).

2.   Judeus alexandrinos
Sua interpretação era mais ou menos determinada pela filosofia de Alexandria. Adotavam o princípio fundamental de Platão de que ninguém deve acreditar em algo que seja indigno de Deus. Quando encontravam alguma coisa no VT que não concordava com a sua filosofia e que fendia a sua lógica recorriam às interpretações alegóricas. Filo foi o grande mestre deste método de interpretação entre os judeus.  Ele não rejeitou totalmente o sentido literal das Escrituras, mas considerava uma concessão à nossa fraqueza. Para ele, a letra era apenas um símbolo de coisas muito mais profundas. A significação oculta das Escrituras era o que havia de maior importância.  Ele deixou-nos alguns princípios de interpretação. O primeiro diz que o sentido literal deve ser excluído quando o que afirma é indigno de Deus, quando envolve contradição, quando a própria Escritura alegoriza; o segundo diz que o texto deve ser alegorizado quando expressões são ambíguas, quando existem palavras supérfluas, quando há repetição de fatos já conhecidos quando a expressão é variada, quando há o emprego de sinônimos, quando é possível um jogo de palavras em qualquer modalidade, quando as palavras admitem uma ligeira alteração, quando a expressão é rara, quando existe algo de anormal, quanto ao número e ao tempo gramatical. Essas regras abriram caminho a toda espécie de erros de interpretação.

3.   Caraítas
Judeus Caraítas – Karaítas ou “beni mikra” (Filhos da Leitura), oriundos do século IX d.C., seita que   representa uma reação contra a influência do maometismo no rabinismo.  São chamados “Beni Mikra” porque seu princípio fundamental era considerar as Escrituras como a única autoridade  em matéria de fé. Graças a isso, foram apelidados de “os protestantes dentre os judeus”. Isso representava um desprezo pela tradição oral e à interpretação rabínica e evocava por outro lado, um novo e cuidadoso estudo do texto das Escrituras.  A reação dos rabinos ao movimento caraíta culminou na conclusão do texto massorético. Sua exegese, de modo geral, era muito mais correta do que a dos judeus palestínicos e alexandrinos.

4.   Judeus Cabalistas
A palavra Qabbalah significa recepção e designa o conjunto de doutrinas judaicas de caráter esotérico, místico e mágico. O movimento teve sua origem na Espanha e na Alemanha por volta do século XIII, como uma reação contra a filosofia racionalista. Os cabalistas conferiam valor sobrenatural a cada palavra, letra ou mesmo sinal do texto massorético, fazendo combinações numéricas, superposições e substituições de letras e sinais, na busca de sentidos ocultos.