sábado, 2 de junho de 2018

A necessidade de uma reforma bíblica em nosso tempo

                                               
      W. R. Godfrey

A igreja está sempre em necessidade de reforma. Mesmo no Novo Testamento, vemos Jesus repreendendo Pedro, e vemos Paulo corrigindo os coríntios. Uma vez que os cristãos sempre são pecadores, a igreja sempre necessitará de reforma. A questão para nós, no entanto, é quando a necessidade se torna uma exigência absoluta?

Os grandes reformadores do século dezesseis concluíram que a reforma era urgente e necessária em seus dias. Na busca de reforma para a igreja, eles rejeitaram dois extremos. Por um lado, rejeitaram aqueles que insistiam que a igreja era essencialmente saudável e não precisava de mudanças fundamentais. Por outro lado, rejeitaram aqueles que criam que poderiam criar uma igreja perfeita em cada detalhe. A igreja precisava de uma reforma fundamental, mas também precisaria sempre se reformar. Os reformadores chegaram a essas conclusões a partir do seu estudo da Bíblia.

Em 1543, o reformador de Estrasburgo, Martin Bucer, pediu a João Calvino para escrever uma defesa da Reforma, para apresentar ao imperador Carlos V na dieta imperial definida para se encontrar em Espira, em 1544. Bucer sabia que o imperador católico romano estava cercado por conselheiros que estavam difamando os esforços para a reforma na igreja, e ele cria que Calvino era o ministro mais capaz para defender a causa protestante.
Calvino aceitou o desafio e escreveu uma das suas melhores obras: “A Necessidade de Reformar a Igreja”. Esse tratado substancial não convenceu o imperador, mas chegou a ser considerado por muitos como a melhor apresentação da causa reformada já escrita.
Calvino começa observando que todos concordavam que a igreja tinha “doenças numerosas e graves”. Calvino argumenta que as coisas eram tão sérias que os cristãos não podiam tolerar um “maior atraso” para a reforma ou esperar “remédios lentos”. Ele rejeitou a questão controversa de que os reformadores eram culpados de “inovação imprudente e ímpia”. Ele insiste que “Deus levantou Lutero e outros” para preservarem “a verdade da nossa religião”. Calvino viu que os fundamentos do Cristianismo estavam ameaçados e que apenas a verdade bíblica renovaria a igreja.

Calvino tem em vista quatro grandes áreas da vida da igreja que precisavam de reforma. Essas áreas formam o que ele chama de alma e corpo da igreja. A alma da igreja é composta da “adoração pura e legítima a Deus” e da “salvação dos homens”. O corpo da igreja é composto do “uso dos sacramentos” e do “governo da igreja”. Para Calvino, essas questões estavam no centro dos debates da Reforma. São questões essenciais para a vida da igreja e só podem ser entendidas corretamente à luz do ensino das Escrituras.

Podemos nos surpreender que Calvino tenha estabelecido a adoração a Deus como a primeira das questões da Reforma, mas esse era um tema consistente dele. Anteriormente, ele escrevera ao cardeal Sadoleto: “Não há nada mais perigoso para a nossa salvação do que uma adoração absurda e perversa a Deus”. A adoração é onde nos encontramos com Deus, e esse encontro deve ser conduzido pelos padrões de Deus. Nossa adoração mostra se aceitamos verdadeiramente a Palavra de Deus como nossa autoridade e nos submetemos a ela. A adoração criada pelo ego é tanto uma forma de justiça pelas obras quanto uma expressão de idolatria.

Em seguida, Calvino voltou-se para o que muitas vezes pensamos ser a maior questão da Reforma, ou seja, a doutrina da justificação:

Nós sustentamos que, não importa quão grandes sejam quaisquer obras do homem, ele é considerado justo diante de Deus simplesmente com base na misericórdia gratuita; porque Deus, sem qualquer consideração às obras, o adota livremente em Cristo, imputando-lhe a justiça de Cristo, como se fosse sua. A isso chamamos justiça da fé, ou seja, quando um homem, sendo removido e esvaziado de toda a confiança nas obras, se sente convencido de que o único fundamento da sua aceitação por Deus é uma justiça que falta a si mesmo e é emprestada de Cristo. O ponto em que o mundo sempre se desvia (pois esse erro prevaleceu em quase todas as épocas) consiste em imaginar que o homem, por mais parcialmente defeituoso que seja, ainda merece em alguma medida o favor de Deus por meio das obras.

Essas questões fundamentais que formam a alma da igreja são apoiadas pelo corpo da igreja: os sacramentos e o governo da igreja. Os sacramentos devem ser restaurados aos puros e simples significado e uso dados na Bíblia. O governo da igreja deve rejeitar toda a tirania que prende as consciências dos cristãos de modo contrário à Palavra de Deus.

Ao olhar para a igreja em nossos dias, podemos bem concluir que a reforma é necessária — na verdade, é exigida — em muitas das áreas com as quais Calvino estava tão preocupado. Somente a Palavra e o Espírito de Deus finalmente reformarão a igreja. Mas devemos orar e trabalhar fielmente para que tal reforma ocorra em nosso tempo.

Fonte:  http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/1135/A_necessidade_de_uma_reforma_biblica_em_nosso_tempo
Tradução: Camila Rebeca Teixeira
Revisão: André Aloísio Oliveira da Silva
Original: The Necessity of the Reformation

terça-feira, 29 de maio de 2018

O PROBLEMA DO PLÁGIO

Quem acessa meu blog sabe que sempre procuro citar as fontes e qual não é a minha surpresa quando vejo que um dos artigos de minha autoria foi copiado e publicado em outro blog sem os devidos créditos! Apropriar-se indevidamente do trabalho de outro é pecado! A lei moral de Deus proíbe tal coisa. Deus não é glorificado com tal atitude. Lamentável tal comportamento! A ironia é que o blog em questão tem por título "Somente a verdade". Seria cômico se não fosse tão trágico.
Você pode conferir o artigo original (de 2009) aquiDispensacionalismo Progressivo . Logo virá um novo artigo revisado, aumentado e atualizado deste artigo. 

quarta-feira, 23 de maio de 2018

ÍDOLOS DO CORAÇÃO


Êxodo 20.3-6[1]

Silas Roberto Nogueira


Porque falar de idolatria a crentes? Ora, porque a idolatria diz respeito aos cristãos bem mais do que aos incrédulos. A idolatria era uma característica da nossa vida pregressa, e agora que somos novas criaturas, a idolatria é uma tentação constante.A importância do assunto se vê no fato de que é amplamente tratado nas Escrituras. E, também pelo fato de que embora amplamente tratado na Bíblia é continuamente desprezado nos púlpitos.

1.      O QUE É UM ÍDOLO?
Antes de iniciar nosso estudo, preciso definir ídolo.  A ideia geralmente associada a ídolos no contexto religioso é a de estátuas diante da qual alguém se prostra para venerá-la; já no popular, é a de um pop star. Na Bíblia o ídolo é tanto uma imagem esculpida quanto um homem, animal ou aquilo que se escolher adorar que não Deus.  

Um ídolo não é meramente uma estátua
A exposição do primeiro mandamento (não terás outros deuses além de mim, Êx 20.3) por Lutero traz o seguinte: 
Tudo aquilo a que o seu coração se apega e se entrega com fé, isso é seu Deus; bastam apenas a confiança e a fé do coração para constituir tanto Deus quando ao ídolo.[2]

O puritano David Clarkson (1621-1686) definiu ídolo nos seguintes termos:
“na verdade, toda concupiscência reinante é um ídolo; e em cada pessoa em quem ela reina é um idólatra”.[3]
 
Dr. Lloyd-Jones afirmou quase nos mesmos termos:
“ídolo é alguma coisa que ocupa o lugar de Deus em nossas vidas. Qualquer coisa que detém uma posição de controle é um ídolo”. 

Tim Keller expande o conceito de ídolo:
“é qualquer coisa que seja mais importante que Deus para você, qualquer coisa que absorva seu coração e imaginação ais que Deus, qualquer coisa que só Deus pode dar. Um falso deus é qualquer coisa que seja tão central e essencial em sua vida que, caso você a perca, achará difícil continuar vivendo. Um ídolo tem uma posição de controle tão grande em seu coração que você é capaz de gastar com ele a maior parte de sua paixão e energia, seus recursos financeiros e emocionais, sem pensar duas vezes. (...) Um ídolo é qualquer coisa que você olhe e diga, no fundo do seu coração: “se eu tiver isto, sentirei que minha vida tem um sentido, e então saberei  que tenho valor, estarei seguro e em posição de importância.”[4]

Um provérbio chinês diz: “Se você tem uma coisa que você não pode perder, não é você que tem a coisa; é a coisa que tem você.”

Em termos bíblicos, um ídolo é alguma outra coisa, que não Deus, na qual empregamos nosso coração (Lc.12:29, 1 Co. 10:6), que nos motiva (1 Co. 4:5), que nos controla ou governa (Sl. 119:133) e a qual servimos (Mt. 6:24). 

Dr. Lloyd-Jones chama a atenção a um fato importante de que até mesmo o verdadeiro Deus pode se tornar um ídolo. A idolatria pode consistir em ter falsas noções sobre Deus. Se eu adoro a minha própria ideia sobre Deus e não “o Deus vivo e verdadeiro”, conforme ele se revela nas Escrituras, isto é idolatria.

Ídolos são sempre coisas ruins?
A idolatria é extremamente sutil e penetrante. Toda espécie de coisas são ídolos em potencial, dependendo somente, das nossas atitudes e ações concernentes a elas. O grande engano é que somos propensos a pensar que apenas as coisas ruins podem ser ídolos. O mal, porém, é muito mais sutil. Achamos que ídolos são coisas ruins, mas isso nem sempre é verdade. Quanto maior o bem, maior é a tendência de esperarmos que ele satisfaça nossas necessidades e esperanças mais profundas. Qualquer coisa pode servir como um falso deus, especialmente as melhores coisas da vida.[5]

2.      ONDE OS ÍDOLOS SÃO FORJADOS?
Um ídolo na mente é tão ofensivo a Deus quanto um ídolo na mão. A. W. Tozer

Os ídolos antes de se tornarem um produto das nossas mãos, são um produto do nosso coração. O forno do qual os ídolos procedem é o nosso enganoso coração. João Calvino assinalou:

“A mente do homem é como um depósito de idolatria e superstição; de modo que, se o homem confiar em sua própria mente, é certo que ele abandonará a Deus e inventará um ídolo, segundo sua própria razão”.

O coração de Jeroboão foi seu guia ao fundar a sua religião idolátrica em Israel (1 Rs 12.26ss – “disse Jeroboão no seu coração”, VIBB e ARC). Quando nosso coração é nosso guia de fé e prática sempre vamos desejar um deus e não Deus. 

Deus denuncia os líderes de seu povo que vem ao profeta Ezequiel como homens que têm ídolos dentro dos seus corações, Ez. 14. 3,4,7. Tais pessoas fizeram dos seus corações uma catedral aos ídolos. A internalização da idolatria indica um profundo comprometimento com o ídolo.[6] Eles estão envolvidos não só racionalmente, mas estão envolvidos emocionalmente com seus ídolos que não podem se desvencilhar mais deles.[7]  Ídolos do coração são os mais caros. 

Quando o puritano David Clarkson tratou da idolatria em um de seus sermões, falou em dois tipos de idolatria, externa e interna. A idolatria externa estava representada pelo gestual e atos do corpo. Já a idolatria interna ou da alma refere-se àquilo que ocupa a nossa mente e coração acima de Deus. Um ídolo do coração é aquilo que você preza, confia e ama acima de Deus.

O coração humano toma coisas boas como uma carreira de sucesso, amor, bens materiais, e até a família, e faz delas seus bens últimos. Nosso coração as diviniza como se fossem o centro de nossa vida porque achamos que podemos ter significado e proteção, segurança e satisfação se as alcançarmos. Desta forma, tudo pode ser um ídolo, e tudo tem sido um ídolo para uma pessoa ou outra.

3.      O QUE OS ÍDOLOS EXIGEM?
Assim como o Deus verdadeiro exige ser amado, crido e obedecido, um ídolo exige amor, confiança e sujeição. 

Há aqueles que fazem do dinheiro e das riquezas o seu ídolo. Tais pessoas amam o dinheiro (1 Tm 6.10). O amor ao dinheiro se expressa pela avareza ou ganância, é idolatria (Cl 3.5). Jesus parece personificar a riqueza, ao usar o termo “mamom”, Mt 6.24. “Mamon” vem de uma raiz cujo sentido é “confiar”, e a princípio queria dizer aquele dinheiro que confiamos a alguém para tê-lo seguro. Era a riqueza que se confiava aos cuidados de alguém. Mas com o passar do tempo chegou a significar não aquilo que se confia a alguém, mas aquilo em que alguém põe sua confiança. O ídolo dinheiro exige confiança. No mesmo texto o Senhor Jesus fala em servir às riquezas como a um senhor a quem um escravo se sujeita. Os que fazem das riquezas seus deus, se sujeitam a elas como servos. Aquilo que anteriormente eles possuíam agora os possui e escraviza. Tudo aquilo que nos controla é nosso senhor, nosso ídolo. 

4.      QUAIS SÃO OS MALEFÍCIOS DA IDOLATRIA?
A idolatria sempre traz transtornos. A Bíblia fala da idolatria em termos de uma abominação, é algo que aborrece a Deus, Êx.20.5. A idolatria é uma clara manifestação de insensatez, Is 44.9-20. A idolatria do coração é uma pedra de tropeço, Ez.14.  

(a)   Falta de um padrão ético/moral, 1 Pe 1.16

(b)   Coisificação da pessoa, Êx 32.6; Rm 1.18-29; 1 Co 10.7,8.

(c)   Desvalorização da vida, Ez 23.39; 2 Rs 21.6; Lv.18.21

(d)   Esfriamento espiritual, Ez 14.5; Is.2.8 resulta em 6.9,10

5.      POVO DE DEUS NÃO ESTA LIVRE DA TENTAÇÃO DA IDOLATRIA?
Mas talvez você diga: “sou cristão, portanto não corro o perigo de ser idólatra”.  Lembre-se, contudo, que a idolatria diz respeito tanto aos cristãos quanto aos incrédulos – talvez bem mais aos primeiros que aos últimos. Claro que a idolatria deveria ser para nós cristãos, coisa do passado (1 Ts.1.9; 1 Pe 4.3) mas infelizmente não é.   

Lembre-se que o Decálogo não foi concedido a pagãos, mas ao povo de Deus, Êx 20.4. O que fica claro por todo o Velho Testamento é que não houve tempo em que o povo de Deus estivesse isento da atração dos ídolos.[8] O Novo Testamento se abre com a tentação de Cristo à idolatria (Mt 4.9-11) e depois com os apóstolos exortando o povo de Deus tanto a fugir (1 Co 10.14) como a guardar-se da idolatria (1 Jo 5.21).  

O puritano David Clarkson afirmou que a natureza mais santificada ainda é um seminário do pecado. Ele alistou 13 ídolos da alma, ídolos do coração:

1)     Estima. Aquilo que mais altamente estimamos, fazemos nos Deus.

2)     Devoção. Aquilo que ocupa continuamente a nossa mente, fazemos nosso Deus.

3)     Intenção. Aquilo que é o nosso principal objetivo na vida, fazemos nosso Deus.

4)     Resolução. Aquilo que nos determina é nosso Deus.

5)     Amor. Aquilo que mais amamos, fazemos nosso Deus.

6)     Confiança. Aquilo em que depositamos a nossa confiança, fazemos nosso Deus.

7)     Temor. Aquilo que tememos, adoramos como nosso Deus.

8)     Esperança. Aquilo que depositamos esperança, fazemos nosso Deus.

9)     Desejo. Aquilo que mais desejamos, adoramos como nosso Deus.

10) Deleite. Aquilo em que nos deleitamos, adoramos como nosso deus.

11) Zelo. Aquilo pelo que zelamos, fazemos nosso Deus.

12) Gratidão. Aquilo pelo que somos gratos, fazemos nosso Deus.

13) Cuidado e indústria. Aquilo que servimos é nosso Deus.

Como detectar os ídolos em nosso coração?
Ídolos do coração não são fáceis de detectar. Eles costumam contar com a nossa aprovação, por isso são camuflados muitas vezes com coisas legítimas. Tim Keller sugere quatro ações básicas para a detecção dos ídolos do coração:

 a)      Examine a sua imaginação. O que ocupa a nossa mente com facilidade? No que você habitualmente pensa para se sentir alegre e confortável na privacidade do seu coração?

b)     Examine seus gastos. (Mt 6.21). Seu dinheiro gira com menos esforço em torno do maior amor do seu coração. O padrão dos nossos gastos revela os nossos ídolos.

c)      Examine suas reações. Como reagimos quando nossas orações não são atendidas?

d)     Examine suas emoções. Pelo que meu coração bate mais forte? O que e quem eu realmente amo? O que temo perder?


Depois de localizar os ídolos há duas coisas a fazer. A primeira é livrar-se deles o mais rápido possível. A segunda é guardar-se deles.

a)      Arrependa-se da sua idolatria e volte-se para o verdadeiro Deus vivo e verdadeiro

b)     Ande no Espírito, Gl 5.16 (v.20 – idolatria é obra da carne); Cl 3.1 segs.

 
Na sua exposição de 1 João 5.21, o Dr. Lloyd-Jones nos oferece três ajudas para nos guardar dos ídolos:
 
a)      Devemos lembrar a verdade sobre nós mesmos – “somos de Deus”, devemos viver exclusivamente para ele.

b)     Devemos lembrar a verdade sobre a natureza dos ídolos – “eles nada são”. Se não são nada são indignos da nossa adoração.

c)      Devemos, finalmente, lembrar-nos de quem é Deus, Êx. 20.3. O conhecimento de Deus e o desejo de servi-lo devem expulsar do nosso coração as ambições e aspirações inferiores.



[1] Sermão proferido na IPB de Ermelino Matarazzo (Manhã) e na CBG (Noite) em 22/02/2015
[2] BEALE, G.K., Você se torna aquilo que adora, vida Nova, p. 17
[3] CLARKSON, David, Sermão “SOUL IDOLATRY EXCLUDES MEN OUT OF HEAVEN”
[4] KELLER, Tim, Falsos deuses, Thomas Nelson, pp.15,16
[5] KELLER, p. 15
[6] BLOCK, Daniel, Ezequiel, Cultura Cristã, p. 401,402
[7] HENRY, Vol IV, CPAD, p. 675
[8] CHAMPLIN, R. N., Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, Vol. 3, p. 208