segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O Fator Infidelidade



Segundo a pesquisa nacional do Datafolha sobre a família, a fidelidade é a qualidade mais desejável no “parceiro”, inclusive nas relações extraconjugais! A infidelidade foi apontada por 53% dos entrevistados como o fator mais prejudicial ao casamento[1]. É claro que não precisamos de uma pesquisa para estabelecer que a infidelidade é um desastre para a família e que seus malefícios se estendem a toda sociedade. A Bíblia já deixa isso bem claro. Infidelidade foi condenada por Deus em seus mandamentos (Ex.20:14; Dt. 5:18) para preservar a família. Nos tempos do Velho Testamento o adultério era considerado uma “contaminação” (Lv.18:20) e era punido com a morte por apedrejamento (Lv.20:10; Dt.22:22-24). A aplicação da pena capital evidencia a gravidade deste pecado e o mal que representava, tanto para o indivíduo envolvido (Pv.6:29,32) como para a sociedade (“assim, eliminarás o mal de Israel” Dt.22:22-ARA) ,visto resultar na desintegração familiar. O Senhor Jesus deixa claro que a infidelidade pode por fim ao matrimônio pelo divórcio (“a não ser por infidelidade” Mt.5.32 – VIBB)[2]. A infidelidade é uma desgraça para todos os tipos de relacionamento, mas a fidelidade, em especial a matrimonial, deve ser sempre honrada, cf. Hb.13.4. Disse alguém com acerto que “não se cai em adultério, mas entra-se aos pouquinhos” especialmente quando se ignora sistematicamente a sinalização de perigo. Richard Baxter dizia “não só abomine o adultério, mas tudo aquilo que conduz a impureza e a violação do seu matrimônio”. A vergonhosa infidelidade do marido de Mical com a mulher de Urias, registrado nas Escrituras em 1 Samuel capítulo 11 nos ensina algumas lições sobre os sinais que não devemos ignorar. Devemos olhar para o triste episódio de Davi com Bateseba com as palavras de Paulo em mente “porquanto tudo que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito” (Rom. 15:4).
1. Primeiro sinal: Davi não soube administrar suas prioridades, v.1. Davi deveria ter ido com o exército à batalha, mas resolveu ficar em Jerusalém. O período de trégua já (o inverno, tempo das chuvas) havia passado, agora era a hora de sair à batalha. Não se explica a razão porque ele quis ficar em Jerusalém, mas o “porém” indica que isso foi um ingrediente que deu ocasião ao erro. A lição é: precisamos discernir bem as nossas prioridades, pois se não o fizermos, muito certamente iremos errar em nossa trajetória.

2. Segundo sinal: Davi estava vulnerável, v.2. Devemos notar que parece faltar a Davi um relacionamento conjugal saudável (I Cr.3.1,9; Dt.17.17). Ele não está acompanhado de esposa, está solitário e vulnerável. A lição é: há situações que precisam ser evitadas a todo custo. Cada um de nós deve observar os locais e circunstâncias de risco para nossa vida e evitá-los. Faça um ‘check-up’ na sua relação e busque possíveis vulnerabilidades e peça ajuda para saná-las.


3. Terceiro sinal: Davi excluiu do seu dia a meditação na Palavra de Deus, v.2. O texto é bem claro, Davi dormiu parte do dia e quando se levantou, resolveu caminhar sem propósito. A falta de propósito no passeio de Davi é demonstrada na forma verbal hebraica, que indica um andar de um lugar para outro sem ir a lugar nenhum. O despropósito nos leva à ruína. O Salmo 119, além de muitos outros textos, trata da importância de se meditar na Palavra de Deus para não pecar contra o Senhor. Como os olhos do rei se desviaram da Palavra de Deus, viram o que não deviam ver. Como sua mente não estava nas ‘coisas do alto’ (Cl.3.2), fixou-se nas coisas que são da terra. Quando um casal não desenvolve o hábito de conversar sobre as coisas de Deus e de meditar na Sua Palavra mais cedo do que pensa será ‘alvo dos dardos inflamados do maligno’ na área conjugal. A lição é: é preciso investir tempo diário na meditação da Palavra de Deus, preferencialmente em companhia do cônjuge.


4. Quarto sinal: Davi deixou-se dominar pelos impulsos da carne e não teve autodomínio, v.2. O texto diz que o rei, de onde estava, ‘viu uma mulher’ que se banhava. Mas o seu vislumbre torna-se olhar fixo. Seu olhar mais atencioso é expresso nas nossas versões pela frase: “mui formosa”. Enquanto olhava detidamente a mulher, sentiu-se tentado. A tentação em si mesma não é pecado. Ceder a ela é que promove o pecado. As tentações começam em nossas mentes. É da imaginação que vem o desejo. Do desejo é que vem a decisão e, dela, a ação. Uma vez consumada a ação (em palavras, atos, ações e reações) vem a morte, isto é, a separação de Deus, o pecado, cf. Tg.1.13-15. Ora, Davi cedeu à sua mente e agiu conforme seus impulsos, pecando contra o Senhor. A lição é: Devemos desenvolver o domínio próprio, que é fruto da plenitude do Espírito Santo e render nossas mentes a Ele, cf. Gl.5.1-25;Rm.12.1,2; Ef.4.23; II Co.10.5;Fp. 4.8; Cl.3.1,2.


5. Quinto sinal: Davi aproximou-se de Bete-seba,v.3,4. A aproximação de Davi contou com o fator facilitador do ‘poder’, afinal, ele era rei de Israel. O ‘status quo’ também é um fator de sedução. Muitos, infelizmente, são os casos até de pastores que se envolvem em relações extraconjugais pelo ‘status’ que detém. Para concluir a questão, há um outro fator na sedução que precisa ser ressaltado que não está presente na história de Davi, mas pode estar na nossa. Muitos casos extraconjugais começam com uma boa amizade, que dá lugar a alguma intimidade emocional (conversas íntimas), segredos, acordos mútuos (iniciados como simples fato de não contar aos outros acerca dos momentos a sós). O tempo gasto em companhia de uma pessoa que não é seu cônjuge se mostra prazeroso, depois se mostra indispensável, e finalmente acaba por incluir intimidade física e sexo. A lição é: devemos estar atentos com a nossa motivação em relação à aproximação das pessoas e, em especial, com pessoas do sexo oposto, cf. Mt.5.28.

É preciso que tomemos alguns cuidados além dos descritos acima. Primeiramente é preciso que cuidemos do nosso coração, pois ele é fonte de adultério (Mt.15:19). Não podemos menosprezar a nossa velha natureza se quisermos que nosso coração seja fonte de vida. Em segundo lugar, é preciso mortificar a natureza carnal (Cl.3:5 segs.) evitando a pornografia, os devaneios sensuais ou conversação indecente a todo custo e alimentar a nossa mente com a Palavra de Deus. Depois, devemos fugir do pecado da infidelidade como José fugiu da mulher de Potifar, não importa o que fique para trás. Só posso terminar com as palavras do autor de Hebreus: “honrado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula” (13:4).

Silas Roberto
Soli Deo Glória.

[1] Revista da Folha de 07/10/2007, pág. 68
[2] O divórcio não foi instituído na legislação mosaica, mas regulado. É bom notar que em Mateus 19:1-12 o Senhor Jesus diz que Moisés “permitiu” o divórcio e não que o instituiu, como diziam os fariseus, v.7.