terça-feira, 20 de novembro de 2007

D. M. Lloyd-Jones


Por Silas Roberto Nogueira



David Martyn Lloyd-Jones nasceu no dia 20 de dezembro de 1899, na cidade de Cardiff, País de Gales. Passou a maior parte da sua infância na rural Cardingshire, Llangeitho, onde freqüentou uma igreja dos Metodistas Calvinistas. Em 1914 sua família se mudou para Londres onde concluiu seus estudos na Escola de Gramática de St. Marylebone, depois, em 1916, ingressou na Escola de Medicina do Hospital de São Bartolomeu, formando-se com distinção.


Por seu brilhantismo foi chamado para ser assistente clínico de Sir Thomas Horder, Cardiologista Real, em 1921. “Lentamente, depois de uma profunda luta, sua mente e seu coração foram conquistados pelo evangelho. Ao examinar seus pacientes, ele logo percebeu que seus problemas eram, em primeiro lugar, espirituais, e Deus usou isso para chamá-lo ao ministério cristão.” [1] Em 1926 resolve deixar a medicina, essa decisão “foi resultado de uma aguda compreensão da urgência de se pregar o evangelho para uma sociedade que definhava no pecado, superficialidade de vida e falta de esperança”. [2] Em 1927, recém casado com Bethan Phillips, começou a pastorear, sem nenhum preparo formal em teologia, uma pequena igreja em Sandfields, Aberavon, País de Gales, na qual ministrou até 1938.



Em 1929 quando pregava em Bridgent, South Wales, um ministro local o chamou a atenção ao fato de que a cruz parecia ter pouco lugar em sua pregação e isso provocou uma mudança fundamental em sua vida e pregação. Rapidamente obteve alguns livros sobre a doutrina da expiação de R. W. Dale, P. T. Forsyth e James Denney e lançou-se à sua leitura de modo que causou ansiedade a Sra. Bethan, visto que recusou-se até almoçar. [3] Como resultado de ter encontrado o “coração do evangelho e o segredo do significado interior da fé cristã”, sua pregação mudou e com isso o seu impacto. [4] Em abril de 1938 deixou o pastorado em Sandfields e tornou-se assistente de Campbell Morgan na Capela de Westminster. Em julho de 1943 Campbell Morgan anunciou a sua saída do trabalho pastoral na Capela de Westminster e Lloyd-Jones assumiu, ficando até 30 de maio de 1968.



Franklin Ferreira comenta que “a abordagem de Lloyd-Jones na pregação seguia um método muito claro e distinto. Ele buscava pregar através de um livro da Bíblia, tomando um versículo, ou parte de um versículo por vez, mostrando o que ele ensinava, como aquilo se harmonizava com o ensino do assunto em outras partes da Bíblia, como o ensino todo era relevante para os problemas daquela época e como o ensino todo se contrastava com os pontos de vista contemporâneos vigentes. Sua pregação expositiva tinha como objetivo que Deus falasse o mais diretamente possível ao homem que estava no banco da igreja, a fim de ele sentisse o pleno peso da autoridade divina.” [5] Muito embora os cultos na Capela de Westminster fossem simples com poucos hinos ou avisos e nenhuma saudação a qualquer celebridade,depois da Segunda Grande Guerra a freqüência era de cerca de 1500 pessoas aos domingos pela manhã e 2000 pessoas à noite. Eram pessoas de todas as idades, de toda classe, formação e de vários lugares que vinham ouvir o “Doutor”(era assim que carinhosamente se referiam a ele). James I. Packer comentou que o “Doutor” “foi um pregador assíduo, e um pregador extraordinário”. Sobre o seu ritmo acrescentou Packer que “por mais de quarenta anos ele produziu dois sermões por semana, cada um deles com duração de quarenta a sessenta minutos; e houve uma época em que produziu até três.”[6]



Alguns dos sermões que pregou nos dias em que ministrava em Aberavon, que ficaram guardados em uma caixa de papelão no sótão da casa da família de 1944 a 1981 e foram achados por sua esposa Bethan, foram publicados originalmente em 1983, e no Brasil com o título “Sermões Evangelísticos”, PES, em 1989 (estes sermões são baseados em textos dos Evangelhos). As palestras que proferiu em 1947 no Wheaton College, Illinois, EUA, estão no volume “Sincero, mas errado”, Fiel, 1995. Em 1949 fez uma exposição do Salmo 51 cujos sermões foram publicados em “O Clamor de um Desviado”, PES, 1997.


De 1950 a 1952 ele proferiu uma série (sessenta sermões) sobre o Sermão do Monte que foram publicados em Estudos no Sermão do Monte, Fiel, 1987. O interesse de alguns estudantes membros da União Cristã Inter-colegial de Oxford pelos puritanos, no fim da década de 40, fez nascer, na década de 50, a Conferência Puritana, na Capela de Westminster. A primeira dessas conferencias, realizadas sempre às terças e quartas-feiras na semana anterior ao natal, ocorreu em 19 de dezembro de 1950. As palestras que Lloyd-Jones proferiu de 1959 a 1978 estão disponíveis em Os Puritanos, suas origens e sucessores, PES, 1993. Ainda 1950 ele pregou seis sermões em Habacuque, publicados originalmente em 1953, em português sob o titulo “Do Temor à Fé”, Vida, 1985. De 1952 a 1955, o Doutor empenhou-se na exposição das principais doutrinas cristãs, todas às sextas-feiras à noite. Ao todo foram mais de oitenta sermões publicados pela PES em três volumes (somam mais de 1000 páginas!): Grandes Doutrinas Bíblicas: Deus o Pai, Deus o Filho, 1997, Grandes Doutrinas Bíblicas: Deus o Espírito, 1998, Grandes Doutrinas Bíblicas: A Igreja e as Últimas Coisas, 1999. Além disso, de 1952 a 1953, iniciou uma série de exposições no capítulo 17 de João, ao todo 48 sermões, publicados em três volumes em Salvos desde a Eternidade (vers. 1 a 5), Seguros mesmo no mundo (vers. 6 a 16), Santificados mediante a verdade (vers.17 a 19) e Crescendo no Espírito (vers. 20 a 26), todos pela PES. Na época dessas exposições James Packer entendia que Lloyd-Jones estava “num planalto de suprema excelência” (do prefácio de Salvos desde a Eternidade). Entre os anos de 1953 e 1954, nas manhãs de domingo, o Doutor pregou onze sermões sobre o salmo 73, um deles, cujo título é tirado da primeira palavra do vers. 23 “Todavia”, foi especialmente usado para falar a um homem que viajara cerca de 10 mil quilômetros somente para ouvi-lo! Estes sermões podem ser encontrados no livro Por que Prosperam os Ímpios, PES, 1983. Nas manhãs dominicais de 1954, fruto da sua experiência pastoral, pregou 21 sermões sobre depressão, publicados em Depressão Espiritual, PES, 1987. Ainda no mesmo ano começou sua exposição da Epístola aos Efésios, que durou até 1962. Esses sermões formam uma coleção com oito volumes todos publicados pela PES: O Supremo Propósito de Deus – 1:1-23 (1996), Reconciliação, o método de Deus – cap. 2 (1995), As Insondáveis Riquezas de Cristo, cap.3 (1992), A Unidade Cristã – 4:1 a 16 (1994), As Trevas e a Luz – 4:17 a 5:17 (1995), Vida no Espírito: no Casamento, no Lar e no Trabalho-5:18 a 6:9 (1991), O Combate Cristão – 6:10-13 (1991) e O Soldado Cristão – 6:10-20 (1996). Não estou bem certo da fonte, mas parece que alguém perguntou a Lloyd-Jones se de fato havia pregado por cinco anos na Epístola aos Efésios, ao que ele respondeu: “Só cinco anos!”.



De outubro de 1955 a março de 1968 ele ocupou-se à sextas-feiras à noite, com a exposição da Epístola aos Romanos terminando a série com a palavra “paz”, no capítulo 14 versículo 17. Os catorze volumes dessa série foram publicados pela PES: O Evangelho de Deus (cap.1), O Justo Juízo (cap.2:1 a 3:20), A Expiação e a Justificação (3:20 a 4:25), A Certeza da Fé (cap.5), O Novo Homem (cap.6), A Lei: suas funções e limites (7:1 a 8:4), Os Filhos de Deus (8:5 a 17), A Perseverança Final dos Santos (8:17 a 39), Soberano Propósito (cap.9), Fé Salvadora (cap.10), Para a Glória de Deus (cap.11) , O Comportamento Cristão (cap.12), Vida em Dois Reinos (cap.13) e Liberdade e Consciência (14:1 a 17). Em 1959 Lloyd-Jones pregou 24 sermões sobre o tema avivamento, publicados sob o título Avivamento, PES, 1992. De janeiro a março de 1964 ele ocupou-se em expor, em nove sermões, o capítulo 5 de Isaías, publicados sob o título Uma nação sob a Ira de Deus, Textus, 2000. De 1965 a 1968, pregou mais de 100 sermões evangelísticos no livro de Atos dos Apóstolos, publicados pela PES em 6 volumes sob o título de Cristianismo Autêntico. Dessa série, seu último sermão na Capela de Westminster foi sobre Atos cap.8:30 cujo título é Por que Cristo teve que morrer? - o tema que justamente dominou o seu pensamento em 1929, no começo do seu ministério! Ainda no início de 1968 ele adoeceu e entendeu esse fato como um sinal para afastar-se do pastorado, embora ainda tenha pregado por muito tempo, e dedicar—se à literatura, tarefa que desempenho por 12 anos. No mesmo ano pregou na Conferencia do Concílio Evangélico Britânico, sua mensagem foi publicada em Que é a Igreja, PES. Em 1969, em visita aos EUA, deu palestras sobre pregação durante seis semanas no Seminário Teológico Westminster, Filadélfia. O conteúdo dessas palestras está no livro Pregação & Pregadores, Fiel, 1998. Em 1971 deu uma palestra na Fraternidade Médica Cristã, publicada sob o título O Sobrenatural de Deus na Medicina, PES. Ainda nesse ano, pregou na Áustria, em Schloss Mittersill, palestra publicada sob o título Que é um evangélico?, PES. Há um volume com palestras proferidas entre 1942 a 1977 publicadas em Discernindo os Tempos, PES , 1994, onde essa mesma mensagem pode ser encontrada também. Em 1975 esteve numa conferencia da Comissão Geral da União Internacional de Estudantes Evangélicos, realizada em Glen Orchard, em Ontário, onde proferiu três palestras, publicadas por Núcleo, uma editora portuguesa, em Autoridade, 1978.



No início de junho de 1980, Lloyd-Jones pregou na inauguração de uma nova igreja em Barcombe, East Sussex, e parece que esse foi o derradeiro sermão. A doença se agravou, ele perdeu a fala pouco antes de falecer e chegou a escrever, com mão trêmula, num pedaço de papel à sua esposa Bethan e familiares: “Não orem pedindo cura. Não me retenham da glória”. Gesticulava e sorria para comunicar-se até que em 28 de fevereiro de 1981 o “Doutor” faleceu durante o sono em sua casa.

A grandiosidade de sua obra é evidente pelos vários volumes dos seus sermões já publicados por muitas editoras em muitas edições e em diversos idiomas. Isso dificilmente será superado, especialmente no que diz respeito ao impacto sobre a vida dos que originalmente o ouviram e dos que o têm lido em anos posteriores à sua partida. James I. Packer, que teve a oportunidade de ouvir o Doutor no ano letivo de 1948-1949 disse que “nunca ouvira pregações como aquelas” e que elas vieram a ele “com a força de um choque elétrico, revelando, para pelo menos um dos seus ouvintes, mais acerca de Deus do que qualquer outro homem”. John Piper disse que ouviu George Verwer dizer em Urbana’67 que seus Estudos no Sermão do Monte era a obra mais grandiosa que já tivera oportunidade de ler. O próprio Piper, pastor batista reformado, muito apreciado como conferencista e escritor, disse que obteve o Sermão do Monte por Lloyd-Jones em 1968 e declara que nada o impactou tanto. Essa tem sido a experiência de muitos outros em toda parte do mundo, inclusive a minha! Antonio Poccinelli, revisor da PES por quase duas décadas, costumava declarar que o pastor que não lia Spurgeon cometia suicídio teológico. Penso que ele não se oporia se acrescentasse à sua declaração o nome do maior pregador do século XX, D. M. Lloyd-Jones.


O que podemos aprender com Lloyd-Jones?

Qualquer um que visite a Publicações Evangélicas Selecionadas (PES) em S. Paulo certamente ouvirá, em algum momento da conversa com o Sr. Bill Barkley, missionário no Brasil há décadas, as seguintes palavras: “Leia o Doutor Lloyd-Jones” e a razão disso, penso, pode ser resumida no seguinte:

1. Como Lloyd-Jones resgatou o valor e dignidade do ministério com sua vida, aprendemos a valorizar o chamado com uma vida de devoção a Deus;

2. Como Lloyd-Jones priorizou a pregação da Palavra em seu ministério, pela leitura das suas obras aprendemos que a pregação da Palavra é insubstituível;

3. Como Lloyd-Jones era um homem fiel às Escrituras Sagradas, a leitura de seus sermões e preleções nos incentiva a tê-la como nossa regra de fé e prática;

4. Como Lloyd-Jones mostrou o quanto é indispensável o conhecimento doutrinário, ele, pelas suas exposições, nos ensina o quanto a doutrina cristã e crucial para a vida cristã;

5. Como Lloyd-Jones, seguindo o exemplo de Jonathan Edwards, era um pregador do intelecto e do coração, ele nos ensina a valorizar ambos aspectos, de maneira que a vida cristã seja equilibrada;

6. Como Lloyd-Jones era um homem de convicções firmes, a leitura de suas obras nos ajuda a desenvolver convicções firmemente bíblicas;

7. Como Lloyd-Jones era um excelente expositor da Palavra, a leitura das suas obras nos estimula à pregação expositiva;

Além disso, o Doutor nos motiva a um retorno àquelas “velhas doutrinas” da graça, que colocam o homem no seu devido lugar e exaltam um Deus soberano que “tudo faz como lhe agrada” a quem pertence “o louvor, e a glória, e a sabedoria, e as ações de graças, e a honra, e o poder .... pelos séculos dos séculos. Amém!”

Vale a pena destacar ainda outras obras disponíveis em português tais como O Caminho de Deus, não o Nosso (PES), Cantando ao Senhor (PES) e D. M. Lloyd-Jones: Cartas 1919-1981 (PES) e que há uma variedade sermões e palestras avulsas editadas pela PES.


Soli Deo Gloria!


[1] D. Martyn Lloyd-Jones: Pregador da Palavra, por Franklin Ferreira, pág. 3,PES.
[2] As Dimensões da Espiritualidade Reformada, por Antonio Carlos Costa, pág. 44, Textus.
[3] Os autores consultados por Lloyd-Jones foram P. T. Forsyth (The Cruciality of the Cross,1909) e James Denney (The Death of Christ, 1903) e R. W. Dale (Expiação, 1875).
[4] A Cruz de Cristo, por John Stott, pág. 5 ,Vida.
[5] D. Martyn Lloyd-Jones: o Pregador da Palavra, pág. 6
[6] Extraído do prefácio por J. I. Packer de Avivamento ,por Lloyd-Jones, PES.