sábado, 8 de março de 2008

Algumas Considerações sobre a EBD

Silas Roberto


"...penso que cometemos alguns equívocos quanto a EBD. (...) O primeiro é considerá-la como mais um “departamento” da igreja. A liderança deve estar atenta para que a EBD não seja mais um departamento da igreja, pois é a própria igreja crescendo e se desenvolvendo através do estudo da Palavra de Deus. A EBD é o que qualifica a vida da igreja. Se a EBD vai mal, a igreja vai mal. (...)

Em segundo lugar,considerar que todos os problemas da EBD se resolverão com um “currículo” bem elaborado é outro dos enganos mais comuns. Isso é como tentar resolver o problema de um restaurante elaborando um ótimo cardápio, mas deixando de contratar um bom “chef” de cozinha! É preciso muito mais que um índice para se fazer um bom livro! Adotar o currículo de uma outra comunidade só porque aquilo “aparentemente” funciona pode ser uma “furada”. A igreja local é um organismo além de uma organização e nem sempre isso é levado em consideração quando se adota ou se adapta (leia-se mutila) modelos vindos de fora. As igrejas só parecem iguais, assim como os organismos. (...) Na maioria das vezes o que vai bem num lugar, não funciona em outro ainda que adaptado. Essa é a tarefa árdua do educador cristão, desenvolver um modelo próprio levando em consideração a realidade na qual está inserido. (...) Se desconsiderarmos isso, erramos. (...)

Um terceiro equívoco é considerar a EBD uma escola comum, ou em outras palavras desconsiderar o caráter especial da EBD. A EBD lida com o espiritual... Depois é um povo especial (a Bíblia chama “peculiar” ou "especial", Tt.2:14 -ARC) que freqüenta a EBD; outra coisa, o assunto sobre o qual esse povo vem aprender é por demais excelente - Deus; além disso, o material didático básico não é nada comum - a Bíblia; o dia também não é comum (...A EBD nasceu dominical, mas não precisa ser exclusivamente dominical, há outros dias na semana!) e não podemos dizer que o horário o seja, bem como o local (...e não penso que a EBD tem que acontecer nas dependencias físicas da igreja, isso é templismo...) e muito menos os professores. Assim, nem metodologia e nem pedagogia comuns servem adequadamente à EBD. Se hoje a EBD está como está é graças a nossa falta de discernimento quanto a isso. (...)

Em quarto lugar considerar a EBD apenas como local de ensino onde nada além de uma aula – às vezes enfadonha – é ministrada é outro dos equívocos comuns. É reducionismo considerar apenas a música como adoração excluindo o ensino... É desperdício desconsiderar o potencial da EBD como agência evangelizadora e discipuladora. (...) A grande comissão é "fazer discípulos" (aprendizes, alunos), portanto, não há uma separação radical entre ensino e evangelização, como alguns pensam. Cada discípulo tem que ser "ensinado" a guardar (obedecer, por em prática) todas as coisas que o Senhor mandou. Como vamos fazer isso? Tornando a EBD evangelística e discipuladora. (...)


Se quisermos uma EBD forte precisamos fazê-la nossa prioridade. (...) No passado se dizia que famílias fortes faziam uma igreja forte, mas isso é uma inversão de valores. É a igreja que faz famílias fortes, e isso só ocorre quando a igreja cumpre seu papel, em especial (mas não exclusivamente,pois a igreja tem outras sociedades auxiliares de treinamento, além do púlpito) e através da EBD.... É na igreja, especialmente na EBD, que a família aprende a viver como família[cristã], marido amando a esposa como Cristo amou a igreja, esposa submissa ao marido no Senhor, pais que não levam seus filhos à ira, mas os admoestam (disciplina...) no temor do Senhor e filhos que aprendem a honrar os pais, pois isso é agradável a Deus. (...) Se não priorizarmos o ensino na igreja jamais teremos famílias fortes e e certemanete colheremos (se já não estamos colhendo) os frutos amargosos disso.

Na EBD (e na igreja como um todo) devemos priorizar pessoas, não coisas. Não é só o que está sendo ensinado que tem importância, mas por quem e como. Em outras palavras, o professor é a figura chave na EBD. (...) A primeira coisa necessária é que seja regenerado. Nicodemos era um mestre de projeção em Israel, mas por não ser regenerado não podia entender os princípios espirituais mais básicos da fé cristã. Lembre-se, Nicodemos era um mestre do judaísmo, berço do cristianismo, era acostumado com conceitos teológicos que nos são comuns, mas incapaz de entendê-los espiritualmente.
As palavras de Jesus quanto ao novo nascimento não era nenhuma novidade, mas baseavam-se nos ensinos do Velho Testamento, com o qual Nicodemos estava acostumado a lidar, mas não podia discernir e entender. Há muitos professores de EBD que podem discorrer sobre as Escrituras com maestria, abordando vários aspectos da teologia, mas não têm a mínima idéia de como isso se relaciona com a sua vida. Cristianismo não tanto apreensão de um conceito, mas a prática dele. (...) Doutrina não praticada é imediatamente corrompida em tradição legalista e produz aridez espiritual... Em segundo lugar o professor precisa ter o "dom do ensino", não simplesmente saber lecionar ou ter formação secular na área do ensino. “Ser apto para ensinar” não significa apenas ser capaz de transmitir conhecimentos. Primeiro ele precisa ensinar com a sua vida. Ser apto é ser idôneo... O ensino transformador é o que é acompanhado de um testemunho eficaz. Depois, ele precisa ter suficientes conhecimentos no campo teológico para lidar com o texto bíblico. Além disso, o professor precisa saber transmitir os conhecimentos adquiridos. Ainda posso acrescentar aqui o professor precisa desenvolver uma vida de disciplinas espirituais, como leitura devocional da Bíblia, oração, jejuns etc. (...) O professor da EBD tem que estar ciente que não é um mero transmissor de conhecimentos, mas de vida. Ele não é alguém que anuncia teorias sobre determinados assunto e deixa o aluno à merce de si mesmo, escolhendo essa ou aquela teoria sem pesá-la em suas mais diversas relações. (...) Ele é um discipulador e tem responsabilidades para com seus discípulos e estes para com ele. Se não for assim, continuaremos a fazer "analfabetos funcionais" na Bíblia, crentes que não sabem como aplicar a doutrina cristã às suas vidas e que acima de tudo comunicam aos outros pela vida que levam que o cristianismo não pode ser praticado, que é utópico. (...)

(Extraído de uma palestra que ministrei sobre EBD no ano de 2000)


Soli Deo Gloria!