quarta-feira, 14 de maio de 2008

Karl Barth

Silas Roberto Nogueira


Ricardo Quadros Gouveia vê com bons olhos o renovado interesse dos estudiosos brasileiros por Barth a quem define como “maior dos calvinistas do século 20”. De fato Karl Barth é considerado por alguns como um segundo Lutero e o maior teólogo do século 20. No entanto, sem duvida alguma, Barth não é uma unanimidade visto que não são poucos os que o vêem como um lobo em pele de ovelha.

Karl Barth nasceu em Basiléia, Suíça, em 10 de maio de 1886. Seu pai, Fritz Barth, era ministro reformado e professor de Novo Testamento e História da Igreja na Universidade de Berna, Suíça. Recebeu educação inicial como membro da Igreja Reformada Suíça pelo pastor Robert Aeschebacher, que exerceu forte influencia sobre sua vida e sobre a sua decisão de estudar teologia. Estudou teologia nas Universidades de Bern, Berlin. Tubingen e Marburg, recebendo o seu grau de bacharel em 1909. Entre suas influencias acadêmicas destaca-se Adolf von Harnack (1851-1930). Embora nunca tenha completado curso de doutorado recebeu dez títulos honorários de doutor de diversas universidades.

Após a conclusão do seu curso, assumiu a posição de pastor auxiliar numa paróquia suíço-alemã de Genebra e depois, em 1911, começou a pastorear uma pequena igreja reformada no interior da Suíça, em Safewil, Aargau, onde esteve por dez anos. Casou-se em 1913 com Nelly Hoffman com quem teve uma filha e quatro filhos, Franziska (1914), Markus (1915), Christoph (1917), Mathias (1921) e Hans Jakob (1925). Enquanto pastoreava em Safewil, Barth estava comprometido com a teologia liberal e esteve envolvido com a política socialista ajudando inclusive na organização de um sindicato. A eclosão da I Guerra Mundial, no entanto, abalou não só a sua fé liberal, mas também seus ideais socialistas. Em 1914, a Alemanha atacou a França. Barth, embora formado no pensamento alemão, considerou o ataque à França injusto. Certo dia, ao ler os jornais notou uma declaração de apoio à política de guerra alemã onde constava o nome de vários intelectuais, inclusive seus mestre e entre eles Adolf von Harnack. Barth ficou completamente desiludido. “Para mim, pelo menos, a teologia do século dezenove não continha mais nenhum futuro”.

Nesse mesmo ano, Barth sob a influência de seus amigos Eduard Thurneysen (1888-1977) e Christoph Blumhardt (1843-1919),pegador pietista, começou a buscar uma resposta ao desafio da pregação. O fato é que a teologia liberal protestante lhe havia oferecido pouco conteúdo para a tarefa da pregação. Estudou Dostoievsky e Kierkegaard, os escritos de Lutero e Calvino ganharam importância para ele e, sobretudo a Bíblia. Barth viu a falência do liberalismo, que exaltou o homem a expensas de Deus, que estudou a religião do homem em vez da revelação de Deus.

Como fruto dessa reflexão, em 1919, Barth publicou Carta aos Romanos (Der Romerbrief). Esse é o documento mais representativo do programa neo-ortodoxo. Ele destacou a transcendência de Deus em oposição à teologia liberal que seguindo o hegelianismo exagerava na imanência beirando ao panteísmo ou panenteísmo. Para Barth Deus é “absolutamente outro” e há diferença entre Deus e o homem. O homem não é semideus, caído não retém a imago Dei e existe uma infinita distância entre o homem e Deus, e o homem é incapaz de chegar-se a Ele. Assim, o homem depende da revelação de Deus para conhecê-Lo. Barth ficou surpreso com o sucesso de seu livro e declarou que se sentia como:




...alguém que, subindo a escada escura da torre de uma igreja e tentando equilibrar-se, procura alcançar o corrimão, mas em vez dele, consegue segurar a corda do sino. Para seu horror, teve então que ouvir o que o grande sino tinha soado sobre ele e não sobre ele somente. [do prefácio de Dogma Cristão]


Depois da I Guerra Mundial foi convidado a lecionar teologia na Alemanha, primeiro em Gottingen (1922) e depois em Munster (1926 e 1929) e Bonn (1930). Em Gottingen uma das suas principais tarefas era preparar palestras acerca da teologia dos reformadores. Nesse tempo, escreveu a um amigo sobre suas impressões de Calvino:


“Calvino é uma catarata, uma floresta primitiva, um poder demoníaco, algo vindo diretamente do Himalaia, absolutamente chinês, estranho, mitológico; perco completamente o meio, as ventosas, mesmo para assimilar esse fenômeno, sem falar para apresentá-lo satisfatoriamente. O que recebo é apenas um pequeno e tênue jorro e o que posso dar em retorno, então, é apenas uma porção ainda menor desse pequeno jorro. Eu poderia feliz e proveitosamente assentar-me e passar o resto de minha vida somente com Calvino.”


Ainda em Gottingen ajudou a desenvolver a teologia dialética com Thurneysen, Bultmann, Gogarten e Brunner. Enquanto ensinava em Bonn e depois de lançar alguns livros menores, começou o grande empreendimento da sua vida a Dogmática Cristã (Die Christliche Dogmatik). Em 1927 o primeiro volume de Dogmática Cristã foi publicado, mas como Barth havia empregado uma linguagem kierkegardiana (existencialista) foi duramente criticado, abandonando o projeto. Mais tarde ele decidiu começar novamente e, em 1932, o primeiro volume de Dogmática Eclesiástica (Die Kirchliche Dogmatik). Quando ele morreu, em 1968, a obra estava inacabada, mas consistia em 13 volumes com mais de 9 mil páginas! Sua intenção era compor uma teologia sistemática completamente livre de qualquer influência filosófica predominante, mas baseada exclusivamente na exegese da Palavra de Deus em Jesus Cristo, segundo o testemunho das Escrituras. Diferente dos escritos anteriores, Barth empregou menos a linguagem paradoxal apresentando seu pensamento de forma sistemática. Interessante notar a ausência da seção introdutória sobre a teologia natural ou evidências racionais para a crença em Deus ou nas Sagradas Escrituras (os Prolegômenos). É que ele rejeitava qualquer modalidade de teologia natural, Deus não pode ser conhecido pela capacidade da razão humana, nem pela natureza e nem pela história. Por isso Barth começou diretamente com a exposição da Palavra de Deus em Cristo Jesus, na igreja e nas Escrituras, ou seja, a revelação especial. Sua máxima é “a possibilidade do conhecimento de Deus encontra-se na Palavra de Deus e em nenhum outro lugar”. Mas o que é a Palavra de Deus? Barth responde que a Palavra de Deus é inequivocamente Jesus Cristo. A Bíblia, por sua vez, é a Palavra de Deus na proporção que testifica de Cristo, o mesmo se pode dizer da pregação. A sua rejeição da teologia natural o levou a romper com o amigo Emil Brunner, que aceitava a revelação de Deus na natureza assim como em Cristo. Durante toda a sua carreira, Barth lutou incansavelmente contra toda e qualquer tentativa de fundamentar a fé cristã em outra coisa senão a Palavra de Deus, pois para ele isso seria o mesmo que elevar a senhor e mestre uma pessoa ou coisa que não era Jesus Cristo.

Entre 1933 e 1934 esteve envolvido no movimento que deu origem a Igreja Confessante, ao lado de Dietrich Bonhoffer, Hermann Hesse e Martin Niemoller. O movimento se opunha a presença do nacional-socialismo dentro da igreja, numa tentativa de sancionar religiosamente os ideais do Fuher. Barth foi uma das mentes liderantes da Declaração Teológica de Barmen que se opunha ao nazismo. Por recusar-se a começar as suas aulas com a saudação nazista, pois sempre as começava orando foi, primeiramente, suspenso de suas atividades acadêmicas e então expulso da Alemanha em 1935. Depois desse evento passou a lecionar em Basiléia, na Suíça.
Após a II Guerra Mundial esteve envolvido em várias polêmicas sobre o batismo infantil, hermenêutica e desmitologização. Barth continuou coerente em suas posições básicas, mas revisou algumas de suas primeiras conclusões. Sua hostilidade inicial para com o liberalismo mais tarde foi mais abrandada. Nos primeiros anos Barth havia dado ênfase na transcendência divina, na maturidade considerou tal ênfase como unilateral. Barth, embora membro da tradição reformada, rejeitou em anos posteriores o batismo infantil que considerava uma prática distorcida.

Já nos anos 60 sua saúde e sua influência como teólogo sofreram declínio. Fez uma única viagem aos EUA, indo à Capela Rockefeller, na Universidade de Chicago, para participar de uma mesa redonda com teólogos norte-americanos. Quando foi franqueada aos que assistiam o evento a oportunidade de perguntar, um jovem estudante colocou a pergunta: “Professor Barth, o senhor poderia, por favor, resumir em poucas palavras a obra da sua vida inteira?”. Após uma breve pausa Barth saiu-se com essa: “Certamente. Emprestando as palavras do velho cântico que minha mãe me ensinou quando eu era criança: ‘Jesus me ama, isso eu sei, porque a Bíblia assim o diz’!”. Participou ainda do Concílio do Vaticano II, como observador. Dois anos antes de falecer, em 1966, foi nomeado Senador Honorifico da Universidade Bonn.
Barth faleceu em 10 de dezembro de 1968, em Basiléia, suas últimas palavras foram: “Deus não nos abandona a nenhum de nós tampouco a nós todos juntos! – Há um governo!”

Com certeza se pode dizer que Barth é um enigma da teologia moderna. Para os liberais, um conservador. Para os conservadores, um liberal camuflado. A sua teologia tem vários nomes Teologia da Crise, Teologia Dialética e Neo-ortodoxia. É uma tentativa de corrigir os fracassos da teologia liberal, mas sem um retorno à ortodoxia, por isso “neo-ortodoxia”. É impossível resumir a teologia de Barth a alguns parágrafos, por isso examinaremos alguns dos seus principais temas.

Revelação Divina. Para Barth o próprio Deus se revela em Sua Palavra. Os liberais exaltavam a revelação geral, na natureza e história. Os conservadores tinham a revelação geral em seu lugar próprio, mas enfatizavam a revelação especial das Escrituras para o conhecimento de Deus. Para Barth os liberais transformaram o cristianismo numa filosofia ou um programa de moral e ética e os conservadores reduziram o cristianismo a um sistema doutrinário a ser apreendido e crido, nada mais. Barth entendia a revelação divina como Deus se comunicando com a humanidade em sua mensagem. O homem não pode conhecer a Deus, mas Deus pode dar-se a conhecer ao homem e o faz mediante a Sua Palavra, quando esta encontra a resposta da fé. Mas para Barth Jesus Cristo é inequivocamente a Palavra de Deus. No entanto, quando ele fala de Cristo como revelação divina, não se referia aos Seus ensinos ou ao Seu exemplo, referia-se, à pessoa de Jesus Cristo no tempo e na eternidade. Conhecer Cristo é conhecer a Deus e não se pode conhecer Deus sem se conhecer a Cristo. A Bíblia e a pregação só são revelações de Deus em sentido secundário, isto é, só quando Deus as usa por meio do Espírito para falar ao homem individual, em um momento existencial de suas vidas.

A Bíblia. O conceito de Barth sobre as Escrituras causou furor em alguns, especialmente nos fundamentalistas. É que para Barth a Bíblia não era a Palavra de Deus no mesmo sentido em que Cristo o é. A Bíblia é uma das manifestações da Palavra de Deus e inclusive uma manifestação secundária. É o testemunho da Palavra de Deus – Cristo – e se torna a Palavra de Deus quando Deus mesmo decide usá-la para confrontar o homem com o evangelho de Jesus Cristo. Nas próprias palavras de Barth: “a Bíblia é a Palavra de Deus à medida que Deus a torna sua Palavra, à medida que fala através dela”. Ele rejeitava a doutrina comum protestante da Bíblia como revelação básica na forma proposicional. Também repudiava a doutrina da inerrância bíblica, para ele, a Bíblia era totalmente humana. Ele admitia a possibilidade da Bíblia conter erros em qualquer lugar, afinal Deus sempre usou testemunhas falíveis e a Bíblia está nessa categoria. Ele não visava desacreditar a Bíblia, mas evitar que fosse colocada acima de Jesus Cristo. Jesus é Senhor, a Bíblia não, mas testemunha dele. A autoridade da Bíblia não está em si mesma, mas no fato de que Deus a toma (torna-se Palavra de Deus) e fala por meio dela.

Teologia natural. Já dissemos que Barth não dava o menor valor a teologia natural e a revelação geral na natureza, na história ou mesmo na experiência humana. Diferente do liberalismo do seu tempo a sua idéia de revelação é particularista. Para ele “a possibilidade da Palavra de Deus está na Palavra de Deus e em nenhum outro lugar”. Barth repudiou a analogia entis [doutrina escolástica que afirmava que uma causa deixa um traço de si mesma no efeito, de maneira que podemos raciocinar partindo do efeito para a causa. Assim, sendo o homem a imagem de Deus, investigando a sua imagem se pode chegar ao conhecimento de Deus] como invenção do anticristo e afirmou a analogia fidei [que tem a revelação com ponto de partida] que é compreendida a partir da revelação da graça em Cristo. Isso explica o “Nein” (alemão “não”) de Barth ao ponto de contato de Brunner.

Deus. Quanto à Trindade, Barth concedeu em sua Dogmática nada menos do que 220 páginas! Certo estudioso da teologia contemporânea observou que ele tratou da Trindade nos Prolegômenos e não na doutrina de Deus, onde geralmente ocorre. Depois que ele a tratou em relação á sua perspectiva da revelação. Ele, Deus Pai é Revelador, o Filho, Revelação e o Espírito Santo, Revelatura. Deus mesmo se revela, é a revelação e é também o conteúdo da revelação. Por último, notou que Barth rejeitou o uso do termo “pessoa” por causa da mudança do significado da palavra desde os dias da primeira formulação trinitária. Mas que ele reconhece três “pessoas”, embora use o termo alemão “weise” [modo], na Divindade, repudiando o sabelianismo e também não admite nenhum tipo de subordinacionismo. Barth destacou a transcendência de Deus, rejeitando a posição do liberalismo que enfatizava a identificação entre Deus, o homem e o mundo, isto é, a imanência. Para Barth isso era pouco mais que panteísmo, então ele resolveu enfatizar a diferença entre Deus e o homem. Seu grito foi: Que Deus seja Deus!

Salvação e Eleição. Barth aceitou o conceito da dupla predestinação, aquilo que os calvinistas chamam de supralapsarianismo. No entanto, sua formulação não é que alguns foram escolhidos para a salvação e outros para a perdição, como comumente os supralapsarianos asseveram, mas ele fez esse duplo decreto referir-se a Cristo, isto é, Cristo representa ao mesmo tempo tanto a eleição quanto a reprovação do homem. Assim sendo, a condenação de todos caiu só nele e nele também todos foram eleitos para a salvação. Isso obviamente nem de longe se relaciona com a doutrina exposta por Calvino. E certamente esse pensamento conduz ao universalismo. Quando questionado sobre se ensinava o universalismo, Barth declarou: “não ensino e nem deixo de ensinar”.

É certo que Barth teve lá os seus méritos como teólogo, mas como alguém lembrou, é provável que seu status seja menor do que alguns imaginavam. Com justiça ele protestou contra o liberalismo e o enfraqueceu, no entanto, também minou a ortodoxia. Seu conceito das Escrituras é desapontador e alguns julgam a parte mais frágil da sua Dogmática. Embora considerasse que as Escrituras têm autoridade, não aceitava a inspiração verbal como base da autoridade bíblica. A autoridade das Escrituras é certamente enfraquecida por considerá-la falível. Além disso, se as Escrituras só têm autoridade quando dão testemunho da Palavra, logo, não tem autoridade em si e de si mesmas. Visto que a ortodoxia considera as Escrituras como possuindo essa tal autoridade, o conceito barthiano é denunciado como “heterodoxo”. Certamente seu repudio da revelação geral não é correto, nem bíblico. Sua doutrina da eleição é, certamente, inusitada. Conduz logicamente ao universalismo, o que contradiz o testemunho Escriturístico. Embora não tenhamos abordado o conceito barthiano do pecado, há sérios problemas quanto a isso também. Ele acreditava num mundo caído, mas a queda não parece ter existência histórica para ele. Quando tratou do relato da queda, Gênesis 3, considerou-o uma “saga”. Para ele, Adão não é histórico, mas um símbolo de toda a raça humana em transgressão, a queda é um paradigma para a humanidade em todos os tempos, e não um evento histórico em determinado tempo. Mas não é assim que o apóstolo Paulo vê Adão e o evento da queda, para ele Adão é um personagem histórico e a queda ocorreu num determinado tempo da história. Portanto, Barth estava equivocado em sua interpretação. Outro erro de Barth foi reinterpretar os ensinos dos Reformadores ao seu gosto, fazendo-os dizer mais do que realmente disseram. Assim, a neo-ortodoxia barthiana, em termos de conteúdo tem pouca coisa em comum com a ortodoxia histórica da igreja. Ainda que alguns vejam com bons olhos o renovado interesse por Barh, é bom lembrarmos das palavras de David Hedegard: “quando consideramos o que Karl Barth ensina sobre Deus e sobre a revelação de Deus, precisamos chegar á conclusão de que ele fala acerca de um deus desconhecido. Tal como os homens de Atenas (At.17:23), ele erigiu um altar ao deus desconhecido. Ora, visto que sabemos isso, é claro que Karl Barth não é profeta...”

Soli Deo Glória!


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Bibliografia:
Tratado de Teologia Contemporânea, Abraão de Almeida, CPAD
Teologia Contemporânea, John Landers, Juerp
Dicionário de Teologia Contemporânea, Bernard Ramm, CPB
História da Teologia Cristã, Roger Olson,. Vida
Teologia dos Reformadores, Timithy George, Vida Nova
Teologia Sistemática, L. Berkhof, Luz para o Caminho
Teologia Sistemática, F. Ferreira e A. Myatt, Vida Nova
Fides Reformata, Vol. VIII, N. 1, 2003
Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, N. R. Champlin.