quarta-feira, 14 de maio de 2008

LIBERDADE


Por Silas Roberto Nogueira

“Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda."

[Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência]



A questão controversa sobre o livre arbítrio tem uma relação apenas indireta com o conceito bíblico de liberdade. O vocabulário bíblico é vasto e tem como pano de fundo o pensamento de aprisionamento ou escravidão, isto é, quando a Bíblia fala em liberdade, uma escravidão ou encarceramento é sempre subentendido (Sal. 105: 17-20; At.26:32). Essa idéia bíblica de liberdade sofreu desenvolvimento teológico de tal maneira que quando chegamos ao Novo Testamento, liberdade se torna um importante conceito descritivo da salvação, onde Deus nos liberta por meio de Cristo (Is. 61:1 com Luc. 4:16), do pecado (Jo.8:34-36,44-44; Rom.6:17,18 segs.), do diabo (Col.1:13), da lei (Gál.4:4-7;5:1 segs.), do temor e da própria morte (Heb.2:15; Rom.cp.8; 1 Cor.15:54,55). Ora, a questão então é descobrir em que sentido o homem é livre ou possui algo como livre arbítrio, visto que na Bíblia (Prov. 5:22; 2 Tim. 2:16; 2 Pe.2:19) , especialmente nas palavras de Cristo (Jo.8:32,34), é apresentado como escravo que precisa ser liberto. Portanto, é preciso discriminar cuidadosamente o que queremos dizer com liberdade ou livre arbítrio. Pois em certo sentido o homem perdeu a sua liberdade; noutro sentido, não a perdeu. Assim sendo:
  1. Se a expressão “livre arbítrio” for considerada moral e psicologicamente, significando o poder ou capacidade de escolha sem constrangimento, espontânea, voluntária e, por conseguinte, responsável, então a Bíblia por toda parte deixa subentendido que todos os homens, como tais, possuem livre arbítrio.
  2. Se a expressão “livre arbítrio” for considerada metafisicamente, subentendendo que as ações dos homens são indeterminadas, portanto imprevisíveis, e que o futuro não pode ser conhecido, a Bíblia não afirma tal, antes, contudo, deixa bem claro que Deus conhece absolutamente tudo, inclusive as ações livres dos agentes morais e em algum sentido predetermina todas as coisas.
  3. Se a expressão “livre arbítrio” for considerada teologicamente, denotando uma habilidade natural por parte do homem irregenerado para realizar atos que sejam bons sem qualificação aos olhos de Deus, ou para reagir favoravelmente ao convite do Evangelho, então passagens como Jer. 13:23; Rom.8:5-8; Ef.2:1-10; Jo.5:40; 6:44 indicam que nenhum homem está livre para obedecer a Deus e para exercer fé em Cristo enquanto não for libertado do poder escravizador do pecado mediante a graça de Deus. Todas as escolhas voluntárias do homem irregenerado são, num sentido ou noutro, atos de serviço ao pecado, até que a graça venha e quebre o poder do pecado que o impulsione a obedecer ao evangelho.

Assim, nosso conceito de liberdade ou livre arbítrio diz que o homem decide por si mesmo, levando em consideração seus instintos, idéias, juízos, emoções fazendo suas escolhas de acordo com aquilo que mais lhe agrada. O homem, nesse sentido não perdeu com a queda no pecado, nenhuma das faculdades constitucionais necessárias para fazer dele um agente moral responsável. Nesse sentido o homem é livre. Por outro lado, embora o homem tenha capacidade de apreciar e de fazer muitas coisas boas, amáveis e benévolas, justas no seu relacionamento com o seu semelhante, perdeu a sua liberdade material, isto é, o poder racional de determinar o procedimento, rumo ao bem supremo, que esteja em harmonia com a sua constituição moral original da sua natureza. Ele sempre decidirá de acordo com a sua tendência natural para o mal, sendo incapaz de compreender e de amar a excelência espiritual, de procurar e realizar coisas espirituais, as coisas de Deus, que pertencem à salvação. O pecador é escravo do pecado e não tem a menor condição ou capacidade de tomar uma direção contrária naquilo que lhe é próprio ou natural à parte de uma miraculosa atuação divina. Nesse sentido o homem não é livre.

É importante ressaltar que fazemos uma distinção entre liberdade/livre arbítrio e capacidade. Liberdade/livre arbítrio, como tratado acima, é propriedade inalienável de qualquer agente moral de exercer volições segundo mais lhe agrade, isto é, sempre de acordo com as disposições e tendências predominantes em sua alma, ou natureza. Por capacidade definimos o poder de uma alma humana depravada e indisposta por sua própria natureza para qualquer bem espiritual, de mudar suas disposições e tendências predominantes por meio de qualquer volição ou de obedecer aos preceitos da lei na ausência de quaisquer disposições santas, isto é, sem que haja a interagência divina. Essa capacidade nós dizemos que o homem não possui e assim, em oposição a isso asseveramos a incapacidade humana nas questões relativas à salvação da sua alma (Jer. 13:23; Jo. 6:44,65; 5:40; 1 Co.2:14).

De maneira geral os que se opõe ao nosso conceito de liberdade ou livre arbítrio costumam dizer que se o homem não é livre no sentido indeterminista, isto é, se não tem o que eles chamam de liberdade significativa ou real logo ele não é responsável. No entanto, na Bíblia em nenhum lugar a responsabilidade está vinculada à liberdade ou livre arbítrio. Seguindo o que Dr. Wright (A Soberania Banida, págs. 61,62, Cultura Cristã) diz sobre isso, podemos destacar que na Bíblia a responsabilidade está baseada no seguinte:
  1. Somos responsáveis diante de Deus porque ele é o Criador e nós somos criaturas. Em outras palavras a nossa responsabilidade é ontológica, tem a ver com o nosso ser, como criatura que somos. Deus tem a prerrogativa de convocar quem quer que seja a qualquer momento que seja para prestar-lhe contas. Não é, porventura, esta a mensagem de Jó quando Deus lhe responde do meio de um redemoinho (Jó 38:1-4) ou do profeta Isaías (caps. 40 a 57), na polêmica contra aqueles que abandonam o Criador a fim de adorar a criatura? Quando lemos Romanos cp.1, onde Paulo sumariza os resultados dessa irresponsabilida moral percebe-se claramente que o homem é responsabilizado justamente por ser criatura, não por ter livre arbítrio. As Escrituras asseveram que todos haverão de prestar contas diante de Deus em determinado dia (Mt. 12:36;25:31,32; At.17:31; Rom.14:12; 2 Cor. 5:10; Hb.9:27; 1 Pe. 4:4,5) e em nenhum momento isso está atrelado a liberdade/livre arbítrio do homem, mas ao fato de ser o que é, criatura.
  2. Somos responsáveis diante de Deus porque ele é o ponto de referência moral para o que é certo e errado, e não nós próprios. Em outras palavras nossa responsabilidade diante de Deus é uma necessidade ética, por causa de nossa necessidade de um padrão fora de nós mesmos, 1 Pe. 1:14-21.
  3. Somos responsáveis diante de Deus pelo conhecimento que temos. Isso quer dizer que a nossa responsabilidade é epistemológica. Todos pecam contra a luz da verdade e ninguém é destituído da luz da consciência, assim seremos julgados de acordo com a luz que recebemos, isto é, de acordo com o conhecimento que temos conforme Paulo assevera, Rom. 2:12-16.
  4. Somos responsáveis diante de Deus porque fomos criados com o propósito de glorificá-lo (Is. 43:7; Col. 1:16; Ap.4:11; 11:8), e somos responsáveis como mordomos das bençãos de Deus para cumprir o fim ou propósito por Ele almejado. Assim, nossa resposnabilidade é teleológica porque ela diz respeito à nossa tarefa como servos no desígnio da criação, que é trazer glória a Deus.
Se a responsabilidade humana não é fundamentada na noção de livre-arbítrio que alguns defendem, então a negação desta noção não destrói a realidade da responsabilidade humana. Longe de basear a nossa responsabilidade em nossa liberdade ou livre arbítrio, a Bíblia mostra que a responsabilidade é um reflexo da nossa relação com Deus como criador, como origem do significado moral, como nosso ponto de referência para a verdade revelada e como aquele que dá propósito e direção últimos à sua criação.

Precisamos examinar agora a questão da nossa liberdade ou livre arbítrio em relação à vida cristã, mas especificamente em relação à santificação. É muito comum, infelizmente, ouvirmos algumas pessoas apelando à sua suposta liberdade ou livre arbítrio para justificar atos pecaminosos. Por termos liberdade ou livre arbítrio, dizem eles, podemos mesmo como crentes, decidir em que seremos obedientes a Deus! Isso é, obviamente, uma má compreensão do que vem a ser a liberdade para a qual Cristo nos chamou (Gal.5:1). Algumas considerações são importantes aqui:
  1. O homem que era escravo do pecado ao ser libertado por Cristo não se torna autônomo, mas escravo de Cristo. Portanto, a sua liberdade não é autonomia no sentido de obedecer ou não a Cristo, mas a capacidade de obedecer-lhe, que não tinha antes por estar escravizado ao pecado. O que diz Paulo no sexto capítulo de sua Epístola aos Romanos?
    1 Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? 2 De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? 3 Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? 4 Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. 5 Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, 6 sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; 7 porquanto quem morreu está justificado do pecado. 8 Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, 9 sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. 10 Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. 11 Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus. 12 Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; 13 nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniqüidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça. 14 Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça. 15 E daí? Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei, e sim da graça? De modo nenhum! 16 Não sabeis que daquele a quem vos ofereceis como servos para obediência, desse mesmo a quem obedeceis sois servos, seja do pecado para a morte ou da obediência para a justiça? 17 Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; 18 e, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça. 19 Falo como homem, por causa da fraqueza da vossa carne. Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para a maldade, assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça para a santificação. 20 Porque, quando éreis escravos do pecado, estáveis isentos {isentos; isto é, no original, forros} em relação à justiça. 21 Naquele tempo, que resultados colhestes? Somente as coisas de que, agora, vos envergonhais; porque o fim delas é morte. 22 Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna; 23 porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.
  2. Os apóstolos Paulo e Pedro alertaram para o perigo de tomar ocasião da liberdade em Cristo para o pecado, que ocorre quando a liberdade em Cristo é entendida como autonomia.Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. Gl.5:13
    Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. 1 Pe.2:15,16
  3. Aquele que diz que o crente tem liberdade para desobedecer a Deus está relativizando os imperativos bíblicos sobre a santidade. As palavras de W. Tozer aqui são muito próprias: “Os homens têm liberdade para tomar decisões em suas escolhas morais, mas também têm necessidade de prestar contas a Deus por essas escolhas”. Ninguém deve pensar que porque se tornou filho de Deus por meio de Cristo, Deus o Pai deixará de puni-lo por desobediência, especialmente voluntária (Gl. 6:7).
  4. Tiago deixa bem claro que o cristão está ligado à “lei da perfeita liberdade” que é a prática (observância) da Palavra de Deus e não a autonomia para pecar:
    Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar. Tiago 1:25; 2:13 cf. Rm.8:2
  5. O apóstolo João deixou patente que aquele que vive na prática do pecado nunca conheceu a Deus, portanto a marca distintiva daquele que foi liberto do pecado não é sujeitar-se novamente ao pecado, mas a santificação:
    “aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou”. 1 João 2:6 (cf. 1:5 a 2:6; 3:4-10)
Como temos visto esse ensino é contraditado pelo testemunho das Escrituras. Além disso, segundo entendemos, causa uma dicotomia entre o Cristo salvador e o Cristo Senhor, quando alega que alguém pode ser salvo tendo Cristo apenas como Salvador, mas não como Senhor. As escrituras deixam claro que o Senhor requer daqueles que nEle crêem obediência, isto é, sujeição ao seu senhorio, Mat.11:28 segs., Jo.15:14 etc. A teoria do crente carnal, como ficou conhecida, admitida por muitos atualmente é relativamente recente na história da igreja, é antibíblica e algo muito perigoso visto que promete vida eterna aos que deliberadamente querem viver em rebeldia contra Deus. Devemos nos lembrar das palavras de Paulo a Timóteo: Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo: O Senhor conhece os que lhe pertencem. E mais: Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor. (2 Timóteo 2:19)
Soli Deo Gloria!