quinta-feira, 2 de outubro de 2008

UM SÓ PONTO A MENOS


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Silas Roberto Nogueira

O calvinismo pode ser apresentado de maneira abreviada em cinco pontos, no acróstico mnemônico:
T = Total Depravaty - Depravação Total
U = Unconditional Election – Eleição Incondicional
L = Limited Atonoment – Expiação Limitada
I = Irresistible Grace - Graça Irresistível
P = Perseverance of Saints – Perseverança dos Santos
No entanto, entre aqueles que se confessam calvinistas há os que negam um dos pontos, precisamente o terceiro, o “L”, a “Expiação Limitada”. Historicamente os calvinistas dos quatro pontos estão defendendo o que se convencionou chamar “amyraldismo”. Amyraldismo é o sistema criado pelo teólogo francês Moise Amyraut, ou Moisés Amyraldus, (1596-1664) que também recebe a nomenclatura de Universalismo Hipotético ou Pós-redencionismo.

Amyraut formou-se primeiro em Direito em Orleans, como queria seu pai, que também era advogado, e depois em Teologia em Saumur, onde mais tarde tornou-se professor, 1633. A Academia de Saumur foi criada em 1598 pelo sínodo nacional da Igreja Reformada Francesa e tornou-se a propagandista do ensino de Amyraut. Ele era um profundo estudioso de Calvino, do qual se achava um intérprete na tentativa de suavizar o calvinismo. Ele procurava uma posição intermediária entre o calvinismo e o arminianismo. Para isso ele introduziu uma modificação quanto a ordem lógica – não cronológica- dos decretos de Deus. O quadro abaixo demonstra a alteração proposta por Amyraut em comparação com duas posições calvinistas e o arminianismo:
Supra
lapsarianismo
Infra
lapsarianismo
Amyraldismo
Arminianismo
1. Eleger alguns, reprovar o restante.
1. Criar.
1. Criar.
1. Criar.
2. Criar.
2. Permitir a Queda.
2. Permitir a Queda.
2. Permitir a Queda.
3. Permitir
a Queda.
3. Eleger alguns, ignorar o restante.
3. Providenciar salvação suficiente para todos.
3. Providenciar salvação para todos.
4. Providenciar salvação para os eleitos.
4. Providenciar salvação para os eleitos.
4. Eleger alguns, ignorar o restante.
4. Chamado de todos à salvação.
5. Chamado do eleito à salvação.
5. Chamado do eleito à salvação.
5. Chamado do eleito à salvação.
5. Eleger aqueles que crêem.

Berkhof demonstra que Amyraut fez uma dupla distinção no decreto de Deus, distinguindo “entre um decreto universal e condicional, por um lado, e outro limitado e incondicional, por outro lado”. No primeiro, Deus decretou que proveria a salvação universal, pela mediação de Jesus Cristo, que seria oferecida a todos sob a condição de fé; e no último, Deus, vendo que por si mesmo nenhum homem jamais creria, escolheu alguns para a vida eterna e resolveu dar-lhes a necessária graça da fé e do arrependimento.” (História das Doutrinas Cristãs, pág. 138)

O que Amyraut esperava com esse esquema era que ele removeria as dificuldades concernentes ao alcance do sacrifício de Cristo, e também conciliaria as passagens bíblicas, que declaram a compaixão universal de Deus pelos pecadores, com a reprovação dos não eleitos. Por isso quando um amyraldista ou calvinista dos quatro pontos fala sobre a expiação costuma dizer o seguinte: "o sacrifício de Cristo é suficiente para todos, mas eficiente apenas para os eleitos". Esse jargão originou-se de um jogo de palavras no latimsufficienter pro omnibus, sed efficienter tantum por electis”, que segundo o Dr. Charles Hodge foi usada por alguns agostinianos, os quais ele não nomeou. O fato é que os teólogos de Dort (Cânone de Dort, cap. 2, artigos 3 e 6) usaram terminologia parecida, mas certamente o sentido era diferente daquele que os amyraldistas lhe atribuem. O Dr. Charles Hodge deixou claro que o sistema amyraldista falha visto que “é passível das objeções que penetram” tanto o calvinismo quanto o arminianismo. Visto que, diz ele, “não remove as dificuldades peculiares do agostinianismo, quando assevera a soberania de Deus na eleição. Além disso, deixa o caso dos pagãos fora de propósito. Eles, não tendo conhecimento de Cristo, não podiam valer-se desse decretum hypotheticum, e por isso seriam considerados como que omitidos por um decretum absolutum. (Teol. Sist., pág. 724)

O problema com a posição de Amyraut é que ela, quando comparada com as posições reformada e arminiana “está de acordo com a reformada, e difere da arminiana porque sustenta que a eleição depende unicamente da boa vontade soberana de Deus; difere, porém, da teoria reformada e concorda com a arminiana em sustentar que o decreto da redenção precede ao da eleição” (A. A. Hodge, em Esboços, pág. 313). Por isso teólogo presbiteriano Louis Berkhof chamou o arranjo amyraldista de dúbio e insatisfatório (Teol. Sist., pág. 395) e alguns o rotularam de “semi-calvinismo” ou “calvinismo inconsistente”, nas palavras de B. B. Warfield.

Contudo, não seria interessante que o próprio João Calvino fosse arrolado entre os “calvinistas inconsistentes”? Como já disse, Amyraut se julgava um intérprete dos ensinos de João Calvino no seu Universalismo Hipotético. O Dr. Strong , seguindo Amyraut, chegou a dizer que Calvino adotou a expiação geral ou ilimitada como fruto de uma “reflexão mais amadurecida”. (Teol. Sist., pág. 470). E Roger Olson declarou que é “discutível” se o próprio Calvino concordaria com todos os cinco pontos do calvinismo de Dort. (Hist. da Teol. Cristã, pág. 471 ) Assim, na opinião desses homens, Calvino era menos calvinista que seus discípulos. Entretanto é valido lembrar que Calvino não formulou a doutrina da expiação limitada de maneira tão clara e objetiva quanto alguns gostariam pelo simples fato de que a controvérsia sobre o assunto não ter ocorrido no seu tempo. Depois, Amyraut deixou escapar, segundo os estudiosos, que a estrutura teológica de Calvino tem como implicação a expiação particular, jamais um universalismo hipotético.

A posição de Amyraut sofreu forte oposição dos teólogos reformados ortodoxos, mesmo não estando totalemente fora do circulo calvinista. Por três vezes ele foi denunciado por heresia nos Sínodos de Alençon (1637), Charenton (1644-1645) e Loudun (1659), tendo sido apenas repreendido, foi absolvido. Contudo, em 1675 a Formula Consensus Helvética condenou o amyraldismo, por isso tem sido chamada Anti-Amyraldensis ou Anti-Saumuriensis. Mesmo assim, o amyraldismo tem contado com um bom número de competentes defensores no decorrer do tempo, entre eles o puritano Richard Baxter (1615-1691) e os teólogos batistas A. H. Strong e mais atualmente Millard J. Erickson. É bom lembrar que tanto Strong quanto Erickson se confessam calvinistas. No Brasil, entre os que defendem uma expiação uma expiação ilimitada, se destaca o presbiteriano Alfredo Borges Teixeira, autor de Dogmática Evangélica.


Contra a teoria amyraldista A. A. Hodge levanta as seguinte objeções:
1. “Não é compatível com o fato de que os propósitos de Deus constituem um só. Segundo essa teoria, Deus, num só ato determinou prepara as condições objetivas da salvação (redenção pelo sangue de Cristo) para todos, e conceder as condições subjetivas da salvação (graça eficaz) somente a alguns. Isso é realmente uma tentativa de reunir num só sistema o arminianismo e o calvinismo”.
2. “As Escrituras declaram que a finalidade para a que Cristo veio foi executar o propósito da eleição. Veio para dar a vida eterna a todos quantos o Pai Lhe desse – João 17:2,9; 10:15. Por conseguinte, a redenção não pode preceder à eleição”.
3. “A verdadeira doutrina da propiciação não é que Cristo veio para tornar possível a salvação, e sim para efetuá-la pata todos aqueles por quem Ele morreu. Para esses a propiciação alcança a remissão dos pecados, a fé, o arrependimento e todos os frutos do Espírito. Por isso, todos os que são remidos arrependem-se e crêem” (Esboços de Teologia, pág. 316)

E o teólogo R. L. Dabney aponta que “sob dois aspectos, tal esquema é insustentável. Se se abandonar a idéia de uma real sucessão de tempo entre as partes do decreto divino, como deve ser mesmo abandonada, então esse esquema é de todo ilusório por apresentar Deus a decretar o envio de Cristo para prover uma redenção que se oferece a todos, sob condição de fé, levado a assim fazer por Sua compaixão por todos em geral. Porque se Deus prevê a rejeição certa de todos no tempo, ao passo que propõe soberanamente recusar a alguns a graça que operaria neles a fé, este esquema de eleição realmente relaciona Cristo, no propósito divino, com os não eleitos, relação esta não mais íntima nem mais proveitosa do que o esquema calvinista mais rigoroso. Mas, em segundo lugar, e principalmente, apresenta Cristo não adquirindo para Seu povo a graça da vocação eficaz, pela qual são persuadidos e habilitados a abraçar a redenção. Todavia o desígnio de Deus, de conferi-la, apresenta-se sem nexo com Cristo e Sua aquisição, e subsequentemente, pela ordem, à Sua obra, e à previsão da rejeição dela pelos pecadores. Ao passo que as Escrituras informam que esse dom, com todas as outras graças da redenção, é nos concedido em Cristo, tendo sido comprado por Ele para Seu povo”. (Predestinação, Samuel Falcão, 150,151)

O que Amyraut fez foi construir uma ponte que só vai até a metade do caminho, quando precisamos mais do que isso. Charles H. Spurgeon diz que “uma salvação universal é como uma ponte de grande largura com somente metade de um arco; ela não cruza o rio: chega somente à metade do caminho; ela não pode assegurar a salvação a ninguém. Ora, eu prefiro colocar meus pés sobre uma ponte tão estreita como a de Hungesford, que chega até o fim, do que sobre uma ponte que é tão larga quanto o mundo, se ela não chegar até o fim, do outro lado do rio.” (Redenção Particular, pág. 28)

Primeiramente, ninguém deve duvidar da suficiência da expiação na morte de Cristo. No entanto, ao dizer que ela, a morte de Cristo, é suficiente estou ao mesmo tempo dizendo que ela é eficaz. Portanto o que é suficiente para todos é igualmente eficaz para todos. Em outras palavras, se Cristo morreu por todos, todos por quem Ele morreu devem ser salvos. Mas a declaração amyraldista (assim como o arminianismo) contradiz a lógica aqui e nega que a morte de Cristo que é suficiente para todos seja igualmente eficaz para todos, dizendo que é eficaz somente para os eleitos. Por isso não chega a ser universalismo em pleno sentido, mas apenas em sentido hipotético. Mas também não é calvinismo em sentido pleno, porque nega o que os calvinistas afirmam, então é chamado semi-calvinismo.

O fato é que não se pode desvincular suficiência de eficácia. Ora, a morte de Cristo não foi potencial, mas autêntica, vicária e substitutiva. O que se pode observar no fundo é que o amyraldismo rejeita de fato a convicção de que a morte de Cristo foi vicária e substitucionária. E aí reside o problema, submerso no que parece ser apenas um ponto a menos muito podem naufragar na trajetória de suas vidas cristãs.

É preciso lembrar que se negarmos a eficácia da morte de Cristo igualmente negamos a sua suficiência. Se Cristo morreu no lugar e pelos pecados de determinado homem e ele não é redimido, logo o sacrifício de Cristo não foi suficiente. O argumento dos amyraldistas é que a aceitação – eficácia - é garantida pela eleição, mas não notam que a eleição particulariza a suficiência.

A verdade é que todos nós cremos em alguma forma de expiação limitada, sejam calvinistas, semi-calvinistas ou arminianos. John White nos lembra que “se você não crê na doutrina reformada da “expiação limitada”, você crê em alguma forma de expiação limitada! Como pode ser isso? A menos que você seja um universalista (ou seja, crê que todas as pessoas serão salvas), então você crê que a expiação realizada por Cristo, se foi realizada em favor de todos os homens, é limitada em seus efeitos. Você crê que Cristo morreu em favor de alguém e, apesar disso, aquela pessoa pode ficar perdida por toda a eternidade. Você limita o poder e o efeito da expiação. Eu limito o escopo da expiação, enquanto afirmo que seu poder e efeito são ilimitados! Um escritor expressou isso muito bem, quando disse: “Não deve haver qualquer mal-entendido quanto a este assunto. O Arminiano limita a expiação assim como o faz o calvinista. Este limita a extensão quando afirma que ela não se aplica a todas as pessoas... o arminiano, por sua vez, limita o poder da expiação, pois ele afirma que ela não salva ninguém. O calvinista limita quantitativamente a expiação, mas não qualitativamente; o arminiano limita-a qualitativamente, mas não quantitativamente.” (Fé para Hoje, n. 17, 2003, pág17)

É só um ponto a menos, mas pode fazer a diferença entre crer em um Cristo que morreu para salvar os seus e fez isso perfeita e eficazmente, ou crer um Cristo que morreu com intenção de salvar a todos, mas não salvou ninguém. Por quem Cristo morreu? Pelos “muitos” que Ele comprou com seu sangue (Mt.26:28) e que “procedem de toda a tribo, língua, povo e nação” (Ap.5:9,10).
Soli Deo Glória.