terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Pensamento Espiritual segundo John Owen



Silas Roberto Nogueira

O que é pensamento espiritual?Segundo Owen o pensamento ou a mentalidade espiritual consistia de três coisas: “a mente sempre dirigindo ativamente os pensamentos às coisas espirituais; um crescente amor pelas coisas espirituais; um real sentimento de satisfação experimentado pelo crente, sentimento que é produzido por coisas espirituais”. [1]

O que não é pensamento ou mentalidade espiritual?Para muitos de nós hoje o desejo de alguém em ouvir boa pregação é indicativo de mentalidade espiritual. Mas Owen advertia “os que gostam de ouvir boa pregação não têm necessariamente mentalidade espiritual”. [2] Tampouco têm mentalidade “as pessoas capazes de orar fluentemente.”[3] Ou mesmo quem gosta de conversar “sobre coisas espirituais”. [4]

O que indica pensamento ou mentalidade espiritual?Para Owen o que indicava pensamento ou mentalidade espiritual era basicamente o fluxo dos nossos pensamentos. Ele propôs as seguintes perguntas para testarmos a nós mesmos: “...qual a proporção de todos os nossos pensamentos é sobre coisas espirituais? “Dedicamos nós, deliberadamente tempo aos pensamentos espirituais? Se não fazemos isso, poderíamos dizer que temos mentalidade espiritual?” Um outro teste era perguntar “se os nossos pensamentos espirituais fluem naqueles períodos em que estamos tranqüilos e livres das nossas atividades costumeiras.” Afinal, segundo ele, “se temos mentalidade espiritual, os pensamentos espirituais reivindicarão tais períodos para si (Deuteronômio 6:7; Salmo 16: 7,8). Se não os reivindicam, não seria isso prova de que as coisas espirituais são de pouco interesse para nossas mentes?” Uma terceira regra para o auto-exame quanto a mentalidade espiritual “é perguntar se nos entristecemos nas vezes em que poderíamos estar ocupados com meditação espiritual, porém por alguma razão não o fizemos”. [5]

Como cultivar pensamentos espirituais?
Não é tarefa fácil cultivar pensamentos espirituais. Muitas vezes nos perdemos em divagações e outras vezes nem sabemos o que devemos fazer. Por isso Owen sugeriu algumas regras:
1) Pensar na providência divina. Diz ele “devemos pensar na significação do que Deus nos diz mediante Seus atos providenciais no mundo”. Para Owen é “sensato procurar saber o que Deus está dizendo por meio dos Seus atos providenciais...” [6]
2) Pensar em nossas provações. Se quando adoecemos procuramos saber tudo sobre a nossa doença física e sua cura, por que não deveríamos preocupar-nos com a má saúde espiritual? [7]
3) Encher nossas mentes de verdades bíblicas. Segundo Owen deveríamos pensar bastante no céu – sua realidade, natureza e nosso gozo futuro nele. Pois “pensar no céu fortalece a nossa fé”. E isso resultará em “uma refulgente esperança”. A esperança é o que nos ajudará a suportar as dificuldades e perseguições. Além disso, “outra vantagem resultante do hábito de pensar frequentemente no céu é que haverá menor probabilidade de dedicarmos um amor errôneo às coisas terrenas”. [8]
4) Pensar sobre Cristo. Owen recomenda que consideremos “questões práticas” em nossos pensamentos sobre Cristo. “por exemplo, a nossa paz com Deus depende do que Cristo fez por nós. Nós o amamos por isso. E mais: regozijamo-nos porque agora Ele é tão glorioso no céu! Esperamos estar com Ele futuramente, mas não teremos o gozo de estar com Ele lá, se não temos gozo de estar com Ele aqui.”[9] Owen chegou a escrever um livro sobre a meditação na glória de Cristo, que certamente recomendamos. [10]
5) Pensar sobre Deus. “Devemos pensar espiritualmente sobre Deus porque Ele é a fonte da vida em todo lugar e Ele é que planeja todos os eventos (Romanos 11:36).” Para Owen dois sinais da mentalidade espiritual são: primeiro, “ter prazer em pensar em como Deus é” e, segundo, “o sentimento de santo temor e reverência para com Deus...” Para Owen “qualquer pensamento sobre Deus que não nos deixe com um maior e reverente termo dEle, provavelmente não é evidência de uma mente espiritual.”[11] Nossos pensamentos sobre Deus devem concentrar-se na Sua existência (Hebreus 11:6), Sua onipresença e no Seu poder. Meditar nessas coisas pode trazer benefícios práticos aos crentes.
É claro que isso não significa que devemos negligenciar nossas famílias ou atividades profissionais, diz Owen, mas “não podemos ter mentalidade espiritual se não fizermos isso”, conclui. [12]

Ao concluir sua obra Owen apresenta as razões para nos aplicarmos em desenvolver uma mentalidade espiritual. Primeiro, “a mentalidade espiritual é o único recurso que os crentes têm para manter o seu sentimento de que Deus os ama.” Depois, “essa é a única atitude mental pela qual podemos receber o amor de Deus; a única atitude mental pela qual podemos apreciar apropriadamente o amor de Deus...” Em terceiro lugar “é também o único meio pelo qual podemos realizar nossos deveres religiosos”. Em quarto lugar, a mentalidade espiritual é “a única coisa que faz com que a pessoa esteja sempre pronta a reagir de maneira semelhante a de Cristo face a qualquer situação”. E “finalmente”, diz ele, “a mentalidade espiritual é certamente a coisa mais próxima das coisas do céu que podemos conhecer na terra”. [13]
Portanto, "se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus." (Col 3:1-3).

Soli Deo Glória!



[1] Pensando Espiritualmente, pág. 12
[2] Pág.16
[3] Pág.17
[4] Pág.19
[5] Págs. 21,21,23
[6] Págs.25,26
[7] Pág. 26
[8] Págs. 27-29
[9] Pág. 35
[10] A Glória de Cristo, PES.
[11] Págs. 38,40,41
[12] Págs. 42-45
[13] Págs. 92,93.