quarta-feira, 2 de abril de 2008

Salmo 1

Silas Roberto Nogueira

O Salmo 1, muito provavelmente, foi composto como uma introdução ou prefácio ao Saltério. Resume, por sua vez, toda a doutrina moral do Saltério. É um dos Salmos anônimos do Saltério. A maioria dos Salmos do Livro I (de 1 a 41) é atribuído a Davi, exceto este, o 2, 10 e 33 que, no entanto, não é impossível que também tenham saído da mesma pena. Há quem pense que o vocabulário aproxima-se mais ao Livro de Provérbios que do próprio Saltério, o que indicaria a autoria de Salomão, portanto, uma introdução à primeira coletânea dos escritos do seu pai [1]. Seja como for, se alguém quer ser feliz verdadeiramente, aqui está o segredo. Este Salmo pode ser dividido em duas partes, a primeira os versículos 1-3, que trata do caminho dos justos (da felicidade), ou como disse Spurgeon no “que consiste a felicidade e bem-aventurança de um homem piedoso, quais são seus procedimentos e quais são as bênçãos que receberá do Senhor”. A segunda parte, os versículos 4 –6, o salmista apresenta em contraste com o justo, o caminho dos injustos (da infelicidade).


Comentário:

“Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.” (v. 1)

bem-aventurado –no hb. “ashere”, “feliz”, “abençoado”, aqui está no plural é quer dizer “quão verdadeiramente feliz”, um termo que ocorre muitas vezes no AT, mais freqüentemente no livro de Salmos (mais de vinte vezes). A felicidade verdadeira que aqui se menciona não é algo que o homem pode alcançar por si mesmo, por esforço próprio, é o Senhor quem o faz feliz (Sl.41.2). É uma dádiva, procede daquela eterna decisão de Deus em escolher-nos para Si (Sl.65.4). A infelicidade é pagamento pelo pecado (Sl.38.18), a felicidade é uma dádiva advinda da fé depositada no Senhor ( Sl.2.12; 34.8; 40.4; 84.12), em Seu perdão e Sua justificação (Sl.32.1,2). Se expressa esta felicidade no temor do Senhor (Sl.112.1; 128.1,4) , em uma vida santa (Sl.112.1; 119.1,2) e adoração comunal (Sl.65.4;84.4). Esta felicidade não é circunstancial ou só se manifesta quando tudo vai bem, o justo a possui, inclusive quando disciplinado pelo Senhor (Sl.94.12) ou quando se encontra em alguma adversidade (Sl. 84.5,6). Por isso aqui o Salmista é enfático – “feliz o homem...”.

“o homem que não anda no conselho...detém no caminho...se assenta na roda...” - há uma progressão aqui que trata do envolvimento com o mal que deve ser evitado pelo justo. Primeiramente (anda - isto é, sua conduta não é moldada por padrões mundanos) não dá ouvidos ao ímpio em sua filosofia de vida, a forma como conduz sua vida e negócios, depois, (detém – isto é,não se associa com os perversos) não pondera , imita ou pratica suas obras e muito menos (assenta) com eles tem comunhão, Sl.26.4,5.


“o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.” (v.2)

“o seu prazer está na Lei...” - a vida piedosa, nos seus aspectos positivos caracteriza-se por uma concentração na Lei [2]. O piedoso ama a Palavra do Senhor (Sl. 119.47), pois nela encontra refrigério para sua alma, sabedoria, alegria, iluminação para seu caminho (Sl.19.7,8; Sl. 119.105) e sustento espiritual (Sl.119.103).

“e na sua lei medita de dia e de noite” - Parece-me que a inspiração para este verso está em Josué 1.8: “Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido”. “medita” - uma palavra hebraica que significa “refletir, gemer, resmungar, ponderar. No pensamento hebraico o ato da meditação na Escrituras envolvia o repeti-las calmamente em som suave e baixo, abandonando interiormente as distrações exteriores (Sl.4.4; 19.14; 39.3; 63.6;77.12; 119.15,99,148). O objetivo da meditação não é o somente pensar as Escrituras, mas como diz o Senhor a Josué “para que tenhas cuidado em fazer tudo quando nela está escrito”.


“Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido.” (v.3)

“ele é como”o salmista propõe um analogia entre o justo e uma árvore cuidadosamente plantada, com profundas raízes e que cresce junto a uma corrente de água natural e cujo fruto é produzido de forma regular e abundante. Há, pelo menos, quatro coisas que quer indicar tal analogia. A primeira é vitalidade espiritual que goza o justo, assim como uma frondosa árvore. Todos os nutrientes de que precisa, obtém a árvore do solo, especialmente aquele devidamente regado. O justo obtém tudo o que precisa da Palavra de Deus, especialmente ministrada e aplicada ao seu coração pelo Espírito Santo. A segunda coisa que esta figura nos ensina é quanto à estabilidade que goza aquele que é firmemente plantado. Esta estabilidade advém do fato de ter sido escolhido por Deus (Sl.80.8) e plantado em Sua casa (Sl.92.13), pois do contrário, não há estabilidade (Mt.15.13). Em terceiro lugar, há o ensino acerca da produtividade do justo. Ele frutifica em tempo certo, isto indica regularidade, haja ou não seca (Jr. 17.8; Sl. 92.14). Por último, a posteridade dos justos é referida no fato de que suas folhas não “murcham” (NVI, ARA) ou caem (ARC, TB).

“e tudo quanto ele faz será bem sucedido” esta frase resume o que já foi dito acerca do justo, ao compará-lo a uma árvore. Perceba que não é tanto uma questão de prosperar materialmente, mas obter condições para o desempenho de uma missão, Jo. 15.16. Achei muito oportuno o comentário de Willian Carey Taylor: “Deus não promete prosperidade em tudo ao justo, como erroneamente traduzem Almeida e Figueiredo. Mas ele salienta a perseverança do homem cujas raízes espirituais são regadas pelas fontes do poder divino. Ele leva ao fim tudo quanto empreende. Não tem essa ânsia de começar alguma coisa nova e o tédio de a acabar. Quem estiver arraigado no solo de profunda espiritualidade completa o que começou, leva ao fim a tarefa principiada, cumpre a responsabilidade aceita” [3]. Assim, parece-me mais correto ficar com a Tradução Brasileira: “ele leva ao fim tudo quanto empreende”.


Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.” (v.4)

“os ímpios não são assim” - sempre haverá uma diferença essencial entre o justo e o injusto. Note que o texto não diz “os ímpios não estão assim”, pois não é uma questão de estar, mas ser – “são como”. A palavra “ímpio” vem do latim (lit. irreligioso ou sacrílego) e traduz o termo hebraico “rasha” que significa “ilegal, culpado, condenável, punível, perverso, injusto, pecador, incorreto” etc. Sugere o termo hebraico um violento distúrbio interno que se exterioriza em ações condenáveis, como que querendo representar que o ímpio o é por uma confusão interna não resolvida [4]. De fato, o pecado desequilibrou interiormente o homem, fê-lo experimentar a terrível sensação de ter fracassado (“errado o alvo”) em relação ao propósito de Deus [5]. Alienado e em inimizade com Seu criador por causa do pecado, o homem torna-se inútil (no sentido de não poder corresponder aquilo que dele se espera) como a figura aplicada a ele pelo salmista, cf. Rm.3.12 com Sl.14.1-3.

“são como a palha que o vento dispersa” - nos dias do salmista os grãos eram malhados em uma eira, um local aplanado, de terra batida ( Jr. 51.33) , onde os ventos fossem à favor para levar a palha para longe (Os.13.3). Há quatro coisas que tal analogia quer indicar. A primeira é que, como a palha, o incrédulo não tem vida [6]. A segunda é que, assim como a palha não tem conteúdo, o incrédulo é vazio. A terceira é que, assim como a palha é destituída de valor, o incrédulo é inútil em relação aos propósitos divinos. Por último, assim como a palha é levada pelo vento, o incrédulo não goza de direção espiritual e segurança, Sl. 92.9.

“Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos.”

“por isso” - esta clausula não está no original, ocorre nas versões VIBB, NVI, TB, ARA, BJ e na Vulgata (“propterea”). Quer dizer que em razão da natureza corrompida dos ímpios é que são culpáveis e condenáveis no juízo, não é uma condenação injusta.

“os perversos não prevalecerão” - esta enfática declaração quer dizer literalmente que os incrédulos não “permanecerão em pé” , isto é, não obterão a salvação, Sl. 5.4,5; 9.16,17 (Lc. 21.36).

“juízo” - no hb. “misphat” , um termo que ocorre mais de 400 vezes no AT e significa “decisão, determinação, julgamento, justiça, juízo” etc.. A BJ e NVI traduziram por “julgamento” aludindo a um momento escatológico [7], que é o que parece estar em pauta como parafraseou a BV “no dia do julgamento preparado por Deus, eles serão condenados”. Interessante é que a palha está junto do grão até certo momento, mas em fim dele é separada. Há um momento propício para se efetuar tal separação, o agente disto é Deus, como também é o responsável pela consignação do estado final de cada um de nós, Mt. 3.12; 13.30.


“Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.” (v.6)

“o Senhor conhece o caminho dos justos” - primeiramente é importante saber o significado desta frase. O termo “conhece” indica mais do que um conhecimento teórico ou intelectual. Deus não simplesmente “sabe” sobre o caminho dos justos, como se tomasse ciência de algo, mas não se envolvesse com ele. Este conhecimento divino é o mesmo que compartilhar, ter intimidade, conviver de modo prazeroso, é envolvimento e aprovação. Em segundo lugar, a palavra “caminho”, em sentido metafórico aqui, quer significar a vida ou dinâmica da existência terrena. O caminho de um homem tem a ver com a sua natureza, segundo o salmista. O caminho do injusto não pode ser trilhado pelo justo e o inverso é igualmente verdadeiro. Aquele que toma um “caminho” (estrada) revela seus alvos e propósitos. O justo revela, portanto, que seu objetivo final é o próprio Deus. Por último, ao dizer que o Senhor conhece o caminho (perceba o singular – não são muitos os caminhos, mas um só) dos justos (note o plural) o salmista quer dizer que Deus “conhece e aprova a vida de quem obedece suas leis” (BV), cf. Sl. 37.23. Assim sendo, goza tal homem de direção (Sl. 25.9-12; 32.8), perseverança (Sl.37.23; 18.32) e segurança (Sl.91. 11-12) até o destino final, Deus.

“mas o caminho dos ímpios perecerá.” – é triste o fim daqueles que rejeitam ao Senhor, Sl.9.16,17. Jonathan Edwards certa vez pregou um sermão em que asseverou que “ o ímpio não consegue prever se, num momento, ficará de pé, ou se, em seguida cairá. Quando cai, cai subitamente, sem aviso, como está escrito, também no Salmo 73.18-19, ‘tú certamente os põe em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição. Como ficam de súbito assolados! Totalmente aniquilados de terror’. Outra coisa... os ímpios estão sujeitos a cair por si mesmos, sem serem derrubados pelas mãos de outrem, pois aquele que se detém ou anda por terrenos escorregadios não precisa mais do que seu próprio peso para cair por terra. E também a razão pela qual ainda não caíram, e não caem, é por não haver chegado ainda o tempo determinado pelo Senhor.” Suas palavra finais neste sermão cabem muito bem aqui: “portanto, todo aquele que está fora de Cristo, desperte e fuja da ira vindoura. A ira do Deus Todo Poderoso paira agora sobre todos os pecadores. Que cada um fuja de Sodoma: “livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás, nem pares em toda a campina; foge para o monte, para que não pereças” [8].


Ninguém pode ler seriamente este salmo e não examinar seu próprio caminho, sua vida. “A este povo dirás: Assim diz o SENHOR: Eis que ponho diante de vós o caminho da vida e o caminho da morte.” (Jeremias 21:8). Que caminho trilharás?


Soli Deo Glória!

[1] MORRIS, H. M., Amostra de Salmos, pág.16

[2] M’CAW, L. , Novo Comentário da Bíblia

[3]TAYLOR, W. C. , Passagens Bíblicas Explanadas, pág. 135

[4] Cf. Bíblia de Estudo Plenitude, nota de Pv. 10.16

[5] O incrédulo é descrito como interiormente injusto (ímpio), por isso não respeita nenhum limite (pecadores) lança à tarefa de ridicularizar as coisas divinas (escanecedor)

[6] Ef.2.1

[7] Nem todos concordam que juízo mencionado aqui é escatológico (como dá a entender o texto Massorético), pensam alguns que pode ser temporal, como a LXX parece indicar.

[8] EDWARDS, Jonathan, Pecadores nas Mãos de um Deus irado, págs. 2 e 24.