terça-feira, 29 de abril de 2008

Jonathan Edwards
(1722-1723)
(parte 2)

Resoluções



Há alguns meses postei uma breve biografia de Edwards, agora as suas "Resoluções". Edwards, segundo John Piper "foi um grande teólogo (alguns diriam que ele não era inferior a nenhum dos melhores na história da igreja), um grande homem de Deus e um grande pregador". Ele foi teólogo não somente do intelecto, mas também "o teólogo do coração", como disse Lloyd-Jones.
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Estando ciente de que sou incapaz de fazer qualquer coisa sem a ajuda de Deus, humildemente Lhe rogo que, através de Sua graça, me capacite a cumprir fielmente estas resoluções, enquanto elas estiverem dentro da Sua vontade, em nome de Jesus Cristo.

1. Resolvi que farei tudo aquilo que seja para a maior glória de Deus e para o meu próprio bem, proveito e agrado, durante todo tempo de minha peregrinação, sem nunca levar em consideração o tempo que isso exigirá de mim, seja agora ou pela eternidade fora. Resolvi que farei tudo o que sentir ser o meu dever e que traga benefícios para a humanidade em geral, não importando quantas ou quão grandes sejam as dificuldades que venha a enfrentar.

2. Resolvi permanecer na busca contínua de novas maneiras para poder promover as resoluções acima mencionadas.

3. Resolvi arrepender-me, caso eu um dia me torne menos responsável no tocante a estas resoluções, negligenciando uma ínfima parte de qualquer uma delas e confessar cada falha individualmente assim que cair em mim.

4. Resolvi, também, nunca negar alguma maneira ou coisa difícil, seja no corpo ou na alma, menos ou mais, que leve à glorificação de Deus; também não sofrê-la se tiver como evitá-la.

5. Resolvi jamais desperdiçar um só momento do meu tempo; pelo contrário, sempre buscarei formas de torná-lo o mais proveitoso possível.

6. Resolvi viver usando todas minhas forças enquanto viver.

7. Resolvi jamais fazer alguma coisa que eu não faria, se soubesse que estava vivendo a última hora da minha vida.

8. Resolvi ser a todos os níveis, tanto no falar como no fazer, como se não houvesse ninguém mais vil que eu sobre a terra, como se eu próprio houvesse cometido esses mesmos pecados ou apenas sofresse das mesmas debilidades e falhas que todos os outros; também nunca permitirei que o tomar conhecimento dos pecados dos outros me venha trazer algo mais que vergonha sobre mim mesmo e uma oportunidade de poder confessar meus próprios pecados e miséria a Deus.

9. Resolvi pensar e meditar bastante e em todas as ocasiões sobre minha própria morte e sobre circunstâncias relacionadas com a morte.

10. Resolvi, sempre que experimentar e sentir dor, relacioná-la com as dores do martírio e também com as do inferno.

11. Resolvi que sempre que pense em qualquer enigma sobre a salvação, fazer de tudo imediatamente para resolvê-lo e entendê-lo, caso nenhuma circunstância me impeça de fazê-lo.

12. Resolvi, assim que sentir um mínimo de gratificação ou deleite de orgulho ou de vaidade, eliminá-lo de imediato.

13. Resolvi nunca cessar de buscar objetos precisos para minha caridade e liberalidade.

14. Resolvi nunca fazer algo em forma de vingança.

15. Resolvi nunca sofrer nenhuma das mais pequenas manifestações de ira vinda de seres irracionais.

16. Resolvi nunca falar mal de ninguém, de forma tal que afete a honra da pessoa em questão, nem para mais nem para menos honra, sob nenhum pretexto ou circunstância, a não ser que possa promover algum bem e que possa trazer um real benefício.

17. Resolvi viver de tal forma como se estivesse sempre vivendo o meu último suspiro.

18. Resolvi viver de tal forma, em todo o tempo, como vivo dentro dos meus melhores padrões de santidade privada e daqueles momentos que tenho maior clarividência sobre o conteúdo de todo o evangelho e percepção do mundo vindouro.

19. Resolvi nunca fazer algo de que tenha receio de fazer uma hora antes de soar a última trombeta.

20. Resolvi manter a mais restrita temperança em tudo que como e tudo quanto bebo.

21. Resolvi nunca fazer algo que possa ser contado como justa ocasião para desprezar ou mesmo pensar mal de alguém de quem se me aperceba algum mal.

(Resoluções 1 a 21 foram escritas em New Haven em 1722)

22. Resolvi esforçar-me para obter para mim mesmo todo bem possível do mundo vindouro, tudo quanto me seja possível alcançar de lá, com todo meu vigor em Deus – poder, vigor, veemência, violência interior mesmo, tudo quanto me seja possível aplicar e admoestar sobre mim de qualquer maneira que me seja possível pensar e aperceber-me.

23. Resolvi tomar ação deliberada e imediata sempre que me aperceber que possa ser tomada para a glória de Deus e que possa devolver a Deus Sua intenção original sobre nós, Seu desígnio inicial e Sua finalidade. Caso eu descubra, também, que em nada servirá a glória de Deus exclusivamente, repudiarei tal coisa e a terei como uma evidente quebra da quarta resolução.

24. Resolvi que, sempre que encetar e cair por um caminho de concupiscência e mau, voltar atrás e achar sua origem em mim, tudo quanto origina em mim tal coisa. Depois, encetar por uma via cuidadosa e precisa de nunca mais tornar a fazer o mesmo e de orar e lutar de joelhos e com todas as minhas forças contra as origens de tais ocorrências.

25. Resolvi examinar sempre cuidadosamente e de forma constante e precisa, qual a coisa em mim que causa a mínima dúvida sobre o verdadeiro amor de Deus para direcionar todas as minhas fortalezas contra tal origem.

26. Resolvi abater tais coisas, a medida que as veja abatendo minha segurança.

27. Resolvi nunca omitir nada de livre vontade, a menos que essa omissão traga glória a Deus; irei, então e com frequência, rever todas as minhas omissões.

28. Resolvi estudar as Escrituras de tal modo firme, preciso, constante e frequente que me seja tornado possível e que me aperceba em mim mesmo de que estou crescendo no conhecimento real das mesmas.

29. Resolvi nunca ter como uma oração ou petição, nem permitir que passe por oração, algo que seja feito de tal maneira ou sob tais circunstâncias que me possam privar de esperar que Deus me atenda. Também não aceitarei como confissão algo que Deus não possa aceitar como tal.

30. Resolvi extenuar-me e esforçar-me ao máximo de minha capacidade real para, a cada semana, ser levado a um patamar mais real de meu exercício religioso, um patamar mais elevado de graça e aceitação em Deus, do que tive na semana anterior.

31. Resolvi nunca dizer nada que seja contra alguém, exceto quando tal coisa se ache de pleno acordo com a mais elevada honorabilidade evangélica e amor de Deus para com a sua humanidade, também de pleno acordo com o grau mais elevado de humildade e sensibilidade sobre meus próprios erros e falhas e de pleno acordo àquela regra de ouro celestial; e, sempre que disser qualquer coisa contra alguém, colocar isso mesmo mediante a luz desta resolução convictamente.

32. Resolvi que deverei ser estrita e firmemente fiel à minha confiança, de forma que o provérbio 20:6 “ Mas, o homem fiel, quem o achará? ” não se torne nem mesmo parcialmente verdadeiro a meu respeito.

33. Resolvi, fazer tudo que poderei fazer para tornar a paz acessível, possível de manter, de estabelecer, sempre que tal coisa nunca possa interferir ou inferir contra outros valores maiores e de aspectos mais relevantes. [26 de Dezembro de 1722]

34. Resolvi nada falar que não seja inquestionavelmente verídico e realmente verdadeiro em mim.

35. Resolvi que, sempre que me puser a questionar se cumpri todo meu dever, de tal forma que minha serenidade e paz de espírito sejam ligeiramente perturbadas através de tal procedimento, colocá-lo diante de Deus e depois verificar como tal problema foi resolvido. [18 de Dezembro 1722]

36. Resolvi nunca dizer nada de mal sobre ninguém que seja, a menos que algum bem particular nasça disso mesmo. [19 de Dezembro de 1722]

37. Resolvi inquirir todas as noites, ao deitar-me, onde e em quais circunstancias fui negligente, que atos cometi e onde me pude negar a mim mesmo. Também farei o mesmo no fim de cada ano, mês e semana. [22 e 26 de Dezembro de 1722]

38. Resolvi nunca mais dizer nada, nem falar, sobre algo que seja ridículo, esportivo ou questão de zombaria no dia do Senhor. [Noite de Sábado, 23 de Dezembro de 1722]

39. Resolvi nunca fazer algo que possa questionar sobre sua lealdade e conformidade à lei de Deus, para que eu possa mais tarde verificar por mim se tal coisa me é lícito fazer ou não. A menos que a omissão de questionar me seja tornada lícita.

40. Resolvi inquirir cada noite de minha existência, antes de adormecer, se fiz as coisas da maneira mais aceitável que eu poderia ter feito, em relação a comer e beber. [7 de Janeiro de 1723]

41. Resolvi inquirir de mim mesmo no final de cada dia, de cada semana, mês e ano, onde e em que áreas poderia haver feito melhor e mais eficazmente. [11 de Janeiro 1723]

42. Resolvi que, com frequência renovarei minha dedicação de mim mesmo a Deus, o mesmo voto que fiz em meu batismo, o qual recebi quando fui recebido na comunhão da igreja e o qual reassumo solenemente neste dia ... [12 de Janeiro, 1722-23].

43. Resolvi que a partir daqui, até que eu morra, nunca mais agirei como se me pertencesse a mim mesmo de algum modo, mas inteiramente e sobejamente pertencente a Deus, como se cada momento de minha vida fosse um normal dia de culto a Deus. [Sábado, 12 de Janeiro de 1723].

44. Resolvi que nenhuma área desta vida terá qualquer influencia sobre qualquer de minhas ações; apenas a área da vivência para Deus. E que, também, nenhuma ação ou circunstância que seja distinta da religião seja a que me leve a concretizar. [12 de Janeiro de 1723]

45. Resolvi também que nenhum prazer ou deleite, dor, alegria ou tristeza, nenhuma afeição natural, nem nenhuma das suas circunstâncias co-relacionadas, me seja permitido a não ser aquilo que promova a piedade. [12 e 13 de Janeiro e 1723]

46. Resolvi nunca mais permitir qualquer medida de qualquer forma de inquietude e falta de vontade diante de minha mãe e pai. Resolvi nunca mais sofrer qualquer de seus efeitos de vergonha, muito menos alterações de minha voz, motivos e movimentos de meu olhar e de ser especialmente vigilante acerca dessas coisas quando relacionadas com alguém de minha família.

47. Resolvido a encetar tudo ao meu alcance para me negar tudo quanto não seja simplesmente disposto e de acordo com uma paz benévola, universalmente doce e meiga, repleta de quietude, hábil, contente e satisfeita em si mesma, generosa, real, verdadeira, simples e fácil, cheia de compaixão, industriosa e empreendedora, cheia de caridade real, equilibrada, que perdoa, formulada por um temperamento sincero e transparente; e também farei tudo quanto tal temperança e temperamento me levar a fazer. Examinarei e serei severo e acutilante nesse exame cada semana se por acaso assim fiz e pude fazer. [Sábado de manhã, 5 Maio de 1723]

48. Resolvi a, constantemente e através da mais acutilante beleza de caráter, empreender num escrutínio e exame minucioso e muito severo, para constatar e olhar qual o estado real de toda a minha alma, verificando por mim mesmo se realmente mantenho um interesse genuíno e real por Cristo ou não; e que, quando eu morrer não tenha nada de que me arrepender a respeito de negligências deste tipo. [26 de Maio de 1723]

49. Resolvi a que tal coisa (de não ter afeto por Cristo) nunca aconteça, se eu a puder evitar de alguma maneira.

50. Resolvi que, sempre agirei de tal maneira, que julgarei e pensarei como o faria dentro do mundo vindouro apenas. [5 de Julho de 1723]

51. Resolvi que, agirei de tal forma em todos os sentidos, como iria desejar haver feito quando me achasse numa situação de condenação eterna. [8 de Julho de 1723]

52. Eu, com muita frequência, ouço pessoas duma certa idade avançada falarem como iriam viver suas vidas de novo caso lhes fosse dada uma segunda oportunidade de a tornarem a viver. Eu resolvi viver minha vida agora e já, tal qual eu fosse desejar vivê-la caso me achasse em situação de desejar vivê-la de novo, como eles, caso eu chegue a uma sua idade avançada como a sua. [8 de Julho de 1723]

53. Resolvi apetrechar e aprimorar cada oportunidade, sempre que me possa achar num estado de espírito sadio e alegremente realizado, para me atirar sobre o Senhor Jesus numa reentrega também, para confiar nEle, consagrando-me a mim mesmo inteiramente a Ele também nesse estado de espírito; que a partir dali eu possa experimentar que estou seguro e assegurado, sabendo que persisto a confiar no meu Redentor mesmo assim. [8 de Julho de 1723 ]

54. Sempre que ouvir falar algo sobre alguém que seja digno de louvor e dignificante e o possa ser em mim também, resolvi tudo encetar para conseguir o mesmo em mim e por mim. [8 de Julho de 1723]

55. Resolvi tudo fazer como o faria caso já tivesse experimentado toda a felicidade celestial e todos os tormentos do inferno. [8 de Julho de 1723]

56. Resolvi nunca desistir de vencer por completo qualquer de minhas veleidades corruptas que ainda possam existir, nem nunca tornar-me permissivo em relação ao mínimo de suas aparências e sinais, nem tão pouco me desmotivar em nada caso me ache numa senda de falta de sucesso nessa mesma luta.

57. Resolvi que, quando eu temer adversidades ou maus momentos, irei examinar-me e ver se tal não se deve a: não ter cumprido todo meu dever e cumprir a partir de então; e permitir que tudo o mais em minha vida seja providencial para que eu possa apenas estar e permanecer inteiramente absorvido e envolvido com meu dever e meu pecado diante de Deus e dos homens. [9 de Junho e 13 de Julho de 1723]

58. Resolvi a não apenas extinguir nem que seja algum leve ar de antipatia, simpatia fingida que encobre meu estado de espírito, impaciência em conversação, mas também e antes poder exprimir um verdadeiro estado de amor, alegria e bondade em todos os meus aspectos de vida e conversação. [27 de Maio e 13 de Julho de 1723 ]

59. Resolvi que, sempre que me achar consciente de provocações de má natureza e de mau espírito, que me esforçarei para antes evidenciar o oposto disso mesmo, em boa natureza e maneira; sim, que em tempos tal qual esses, manifestar a boa natureza de Deus, achando, no entanto, que em algumas circunstâncias tal comportamento me traga desvantagens e que, também, em algumas outras circunstâncias, seja mesmo imprudente agir assim. [12 de Maio, 2 e 13 de Julho]

60. Resolvi que, sempre que meus próprios sentimentos comecem a comparecer minimamente desordenados, sempre que me tornar consciente da mais ligeira inquietude interior, ou a mínima irregularidade exterior, me submeterei de pronto à mais estrita e minuciosa exame e avaliação pessoal. [4 e 13 de Julho de 1723]

61. Resolvi que a falta de predisposição nunca me torne relaxado nas coisas de Deus e que nunca consiga retirar minha atenção total de estar plenamente fixada e afixada só em Deus, exista a desculpa que existir para me tentar; tudo que a fala de predisposição me instiga a fazer, abre-me o caminho do oposto para fazer. [21 de Maio e 13 de Julho de 1723]

62. Resolvi a nunca fazer nada a não ser como dever; e, depois, de acordo com Efésios 6:6-8, fazer tudo voluntariosamente e alegremente como que para o Senhor e nunca para homem; “ Sabendo que cada um, seja escravo, seja livre, receberá do Senhor todo bem que fizer”. [25 de Junho e 13 de Julho 1723]

63. Supondo que nunca existiu nenhum indivíduo neste mundo, em nenhuma época do tempo, que nunca haja vivido uma vida cristã perfeita em todos os níveis e possibilidades, tendo o Cristianismo sempre brilhante em todo o seu esplendor, e parecendo excelente e amável, mesmo sendo essa vida observada de qualquer ângulo possível e sob qualquer pressão, eu resolvi agir como se pudesse viver essa mesma vida, mesmo que tenha de me esforçar no máximo de todas as minhas capacidades inerentes e mesmo que fosse o único em meu tempo. [14 De Janeiro e 3 de Julho de 1723]

64. Resolvi que quando experimentar em mim aqueles “gemidos inexprimíveis”, Romanos 8:26, os quais o Apóstolo menciona e dos quais o Salmista descreve como, “ A minha alma se consome de anelos por tuas ordenanças a todo o tempo ”, Salmos 119:20, que os promoverei também com todo vigor existente em mim e que não me “cansarei” (Isaías 40:31) no esforço de dar expressão a meus desejos tornados profundos nem me cansarei de repetir esses mesmos pedidos e gemidos em mim, nem de o fazer numa seriedade contínua. [23 De Julho e 10 de Agosto de 1723]

65. Resolvi que, me tornarei exercitado em mim mesmo durante toda a minha vida, com toda a franqueza que é possível, a sempre declarar meus caminhos a Deus e abrir toda a minha alma a Ele: todos os meus pecados, tentações, dificuldades, tristezas, medos, esperanças, desejos e toda outra coisa sob qualquer circunstância. Tal como o Dr. Manton diz em seu sermão nº 27, baseado no Salmo 119. [26 De Julho e 10 de Agosto, 1723]

66. Resolvi que, sempre me esforçarei para manter e revelar todo o lado benigno de todo semblante e modo de falar em todas as circunstâncias de toda a minha vida e em qualquer tipo de companhia, a menos que o dever de ser diferente exija de mim que seja de outra maneira.

67. Resolvi que, depois de situações aflitivas, avaliarei em que aspectos me tornei diferente por elas, em quais aspectos melhorei meu ser e que bem me adveio através dessas mesmas situações.

68. Resolvi confessar abertamente tudo aquilo em que me acho enfermo ou em pecado e também confessar todos os casos abertamente diante de Deus e implorar a necessária condescendência e ajuda dele até nos aspectos religiosos. [23 de Julho e 10 de Agosto de 1723]

69. Resolvi fazer tudo aquilo que, vendo outros fazerem, eu possa haver desejado ter sido eu a fazê-lo. [11 de Agosto de 1723]

70. Que haja sempre algo de benevolente toda vez que eu fale. [17 De Agosto, 1723]
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Soli Deo Glória!

sábado, 19 de abril de 2008

ORDENAÇÃO DE MULHERES AO MINISTÉRIO DA PALAVRA?


Por Jaime Augusto Cisterna*


1. Introdução

A questão da ordenação de mulheres ao ministério da Palavra tem sido objeto de discussão por parte de muitas pessoas em igrejas e seminários. É um assunto tão delicado que alguns preferem nem mesmo se pronunciar sobre ele. Normalmente, esse tema tem sido discutido mais sob a ótica cultural dos tempos bíblicos em relação ao tempo atual e dos direitos de igualdade entre homem e mulher. Por isso mesmo tem causado constrangimento em alguns meios, tornando-se um assunto melindroso. O debate tem sido mais em torno desses aspectos culturais e pessoais do que necessariamente exegético e talvez seja essa a razão do incômodo.
As posições giram sempre em torno de três opções: A primeira diz que mulher pode ser pastora; a segunda declara que a mulher não pode ser pastora e, a terceira afirma que não tem posição. De forma geral, aqueles que defendem a ordenação feminina ao pastorado usam argumentos baseados no avanço da civilização, na modernização dos tempos, no progresso humano e a crescente participação da mulher em outras áreas da sociedade. Nessa mesma linha, outros consideram simplesmente inevitável que as mulheres sejam ordenadas pastoras, pois, segundo pensam, essa é uma tendência irreversível. Naturalmente, ainda há aqueles que pensam sob o ponto de vista da igualdade e analisam a nova sociedade que Cristo construiu, fazendo de ambos um só povo, onde não há distinção entre homem e mulher (Ef 2.14-16). Do segundo grupo, que é contrário à ordenação das irmãs, alguns são simplesmente machistas e não ponderam o assunto com sobriedade e acabam relegando às mulheres uma posição quase humilhante. Alguns simplesmente ignoram as questões mais simples da teologia, sociologia, entre outras, para oferecer uma posição consistente. O terceiro grupo está dividido entre aqueles que temem ser dogmáticos por não encontrarem subsídios e aqueles que não se importam com o assunto, como se isso não lhes dissesse respeito ou fosse importante.
No entanto, esse artigo deseja desafiar o leitor a uma reflexão teológica do assunto. Apesar de reconhecer que todos devem sempre considerar os tempos e as mudanças culturais, creio que a Bíblia deva ser sempre o primeiro e último escrutínio para uma decisão assim. Como pastores, nosso espírito precisa ser bíblico, mesmo que isso implique em posicionamentos contrários à cultura ou à tendência por mais inevitável que seja. A voz profética, aliás, nem sempre obteve respaldo da moda. Tendo como base os escritos de alguns autores comprometidos com a Bíblia, quero propor a análise de determinados textos sagrados para provocar uma reflexão consistente em cada um (pelo menos que sirva de ponto de partida), para depois chegar a uma conclusão.

2. Passagens consideradas a favor da ordenação feminina

Em primeiro lugar vamos olhar para algumas passagens bíblicas que muitas vezes são usadas para sustentar a possibilidade da ordenação feminina ao ministério pastoral. A primeira delas é Romanos 16.7- aqui, em sua saudação à Igreja de Roma, Paulo menciona uma pessoa por nome Júnias, que era notável entre os apóstolos. Algumas correntes tomam esse texto para argumentar que Júnias era uma mulher que exercia o ofício apostólico. Antes de mais nada, porém, duas perguntas devem ser feitas: a) seria esse um nome feminino? b) a expressão "notável entre os apóstolos", significa que Júnias era um dos apóstolos ou significa que os apóstolos tinham Júnias em alta conta?
Ao que tudo indica, parece que Júnias era nome tanto de homem quanto de mulher no período neotestamentário. O conhecido pastor e teólogo batista Russell Shedd declara que "não é possível determinar através do original se o segundo nome é feminino ou masculino". Alguns autores lembram que Epifânio relata que Júnias se tornou bispo de Apaméia. Outro dos antigos pais da Igreja, Orígenes, também faz referência em seu comentário em latim à carta aos Romanos a Júnias, mas, no masculino. De forma conclusiva, no entanto, a única coisa de que se tem certeza no texto de Romanos 16.7é que Júnias era uma pessoa que ajudou o apóstolo em seu ministério. Qualquer exegeta sabe que fica muito difícil tomar o apoio de uma passagem tão frágil como essa para fazer uma sustentação doutrinária.
Uma outra passagem muito usada para apoiar a visão da ordenação feminina é Gálatas 3.28, que declara: "não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus". É, de fato, um texto muito atraente e muitos encontram nele o respaldo para sua posição, fazendo uso dele para dizer que Cristo aboliu toda a diferença entre homem e mulher. Para eles, Cristo quebrou a maldição de Gênesis sobre a mulher, e agora dá, também a ela, o direito de ter as mesmas funções eclesiásticas que os homens.
Como sempre, a boa exegese sempre nos leva a fazer uma pergunta ao texto. Nesse caso específico, a melhor pergunta a ser feita seria: Nesse texto o apóstolo Paulo está falando da abolição da subordinação feminina e de igualdade de funções ministeriais entre homem e mulher? A resposta pode começar a ser encontrada no contexto de Gálatas. Ao que tudo indica, Paulo escreveu essa carta para responder a questões levantadas sobre a nossa justificação diante de Deus. Sua afirmação central é a de que todos, independente da sua raça, cor, posição social e sexo, são recebidos por Deus da mesma maneira: pela fé em Cristo. Definitivamente Gálatas 3.28não está tratando do desempenho de papéis na igreja e na família, mas da nossa posição diante de Deus. A salvação em Cristo justifica igualmente homens e mulheres diante de Deus, mas não altera o papel de ambos estabelecido previamente na Criação. O pastor e teólogo presbiteriano Augustus Nicodemus afirma que "o assunto não são as funções que homens e mulheres desempenham na Igreja de Cristo, mas a posição que todos os que crêem desfrutam diante de Deus".
É importante sempre ter em mente que a questão da subordinação feminina tem sua base na Criação (Gênesis 1 e 2) e não na Queda (Gênesis 3). A cruz de Cristo aboliu as diferenças cerimoniais para que todos pudessem aproximar-se de Deus, mas em nenhum momento pôs um término nas funções ou papéis fundamentais do homem e da mulher estabelecidos por Deus muito antes da Queda. Para o Dr. Shedd "no reino de Deus, homem e mulher são iguais; na natureza, são interdependentes, na sociedade, igreja e família, a mulher se submete". A igualdade que hoje há em Cristo não afetou ou alterou o papel do homem ou da mulher. O marido continua sendo o cabeça e a mulher continua sendo submissa. Essa posição honrosa de ambos contribui inclusive para o entendimento da nossa eclesiologia. É o paralelo do casamento humano com as bodas de Cristo e sua igreja, a noiva (1Co 11.7-10; Ef 5.22-24 e 1Tm 2.12-15).
Há ainda um outro fator a ser observado. Aquilo que é bom para a Igreja é bom para a sociedade também. No coração de uma mulher cristã deveria haver o sentimento de promover a liderança de seu marido, bem como no coração de um homem cristão deveria haver o sentimento de liderar sua esposa em amor. Esse sentimento de submissão "no temor de Deus" (Ef 5.21) deveria ser o tom do "bom andamento da vida", como sugere o Dr. Russell Shedd. Para ele esse compasso de submissão deveria existir naturalmente no lar, "da esposa para o marido, dos filhos aos pais", e também "no emprego, dos empregados aos chefes", todos, enfim, refletindo a submissão "da Igreja para o seu Mestre, Cristo". A deterioração desse valor dentro da Igreja tem afetado em grande parte as famílias por todo o mundo. A Igreja tem a oportunidade de colocar-se como um padrão diferente do mundo, mas infelizmente tem se adaptado com muita facilidade às suas pressões. O pastor batista John Piper declara que "na igreja, a redenção em Cristo deu a homens e mulheres bênçãos iguais da salvação; no entanto, alguns papéis do governo e ensino dentro da igreja permanecem restritos aos homens". Assim, esse texto de Gálatas também não deve ser utilizado como base teológica para o ministério pastoral feminino.
Uma terceira passagem ainda muito usada para sustentar a ordenação feminina ao ministério pastoral é Atos 2.16-18, quando Pedro cita o profeta Joel dizendo que, "vossas filhas profetizarão e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito". Esse texto é usado para dizer que, assim como os homens, as mulheres também receberam o Espírito Santo de Deus e, portanto, podem exercer as mesmas funções que eles. Em primeiro lugar, deve-se notar o paradoxo dessa defesa, pois, para se reclamar igualdade aqui, dever-se-ia antes, reclamar igualdade lá. O texto diz que elas receberam o Espírito, sim, mas não diz que elas exerceram ministério pastoral. Pelo menos, é o que o "silêncio da Bíblia" indica. Se as mulheres exerceram os mesmos ministérios que os homens no período da igreja apostólica, por que não há nenhuma menção no Novo Testamento de apóstolas, presbíteras, pastoras ou bispas? Por todo o Novo Testamento não se encontra qualquer recomendação apostólica nesse sentido. Nem uma sequer! As cartas conhecidas como "Pastorais", em que Paulo instrui Timóteo e Tito, e que são usadas como texto base para a ordenação dos oficiais da Igreja, nada falam quanto à ordenação de mulheres. O conhecido pastor e escritor John Piper (Bethlehem Baptist Church, em Minneapolis, EUA) lembra que todos os dons são dados tanto a homens como a mulheres, mas os ofícios, não, e essa distinção (entre dons e ofício) precisa estar em nossa mente. Uma simples leitura das qualificações exigidas por Paulo em 1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.5-9transmite a clara impressão de que o apóstolo tinha em mente a ordenação de homens. E ninguém pode alegar que era uma questão cultural ou machismo da parte do apóstolo. Ele não apenas reconhecia a igualdade do ser humano diante de Deus e a importância do trabalho feminino no Reino, mas também sempre lutou para proteger a mulher dentro daquela sociedade machista. Ele tinha questões teológicas em mente.
Mais uma vez, então, a pergunta que deve ser feita ao texto em questão é: o fato de as mulheres receberem o Espírito Santo significa obter autorização para a ordenação ministerial? O Dr. Nicodemus lembra que o texto fala de profecia, sonhos e visões e, bem sabemos, que esses fenômenos podem acontecer sem que a pessoa seja ordenada. Essa passagem não é um texto que traz qualificações para o ministério pastoral. Apesar de ter havido profetizas na igreja apostólica, como as quatro filhas de Filipe (At 21.9; cf. 1Co 11.5), em nenhum lugar diz que elas eram pastoras.
Basicamente essas são as passagens utilizadas para sustentar a ordenação feminina ao pastorado. Mas elas devem ser analisadas com atenção, pois o fato de terem recebido os dons do Espírito (inclusive aqueles relacionados com o ensino), nenhum dos textos traz sustentação para que elas sejam ordenadas. Quando Cristo desejou estabelecer pastores para sua Igreja, ele nos deixou o registro bíblico de homens sendo incumbidos dessa função. Mesmo sendo um Senhor gracioso que considera todos iguais para receberem misericórdia e graça; que ama indistintamente suas ovelhas e morreu por todas de igual forma, ele não mencionou mulheres como pastoras. Ele as amou, serviu e foi servido por elas. Não as ignorou, mas, pelo contrário, foi-lhes um protetor num mundo desigual. Foi o libertador de tantas opressões que elas sofriam, mas nada falou sobre serem pastoras. Além disso, a igreja sempre declarou ser sustentada sobre o ensino dos apóstolos e eles, da mesma forma, não parecem sustentar essa posição.
Todos os textos acima demonstram que as mulheres cristãs, juntamente com os homens, participam da graça de Deus, e dos dons do Espírito, sem restrições. Entretanto, toda boa homilética afirmará que elas nada têm a dizer sobre ordenação ao ministério pastoral, nem a favor, nem contra, pois tratam de outros assuntos, não podendo ser usadas para sustentar essa posição. Há, todavia, pelo menos três passagens bíblicas que oferecem princípios sobre o assunto por tratarem do ensino e, aparentemente, impõem restrições à ordenação pastoral feminina e que por essa razão também devem ser analisadas.

3. Passagens consideradas contra a ordenação feminina

A primeira delas é 1 Coríntios 11.2-16. Aqui Paulo aborda o problema causado por algumas mulheres que estavam orando, profetizando (e provavelmente falando em línguas) com a cabeça descoberta, isto é, sem o véu, contrariando assim o costume das igrejas cristãs primitivas (v. 16). O contexto nos leva a entender que algumas mulheres daquela comunidade estavam fazendo reivindicações, mas tinham um espírito contencioso (v. 16). O apóstolo naturalmente não nega à essas mulheres a participação no culto, mas insiste que elas usem o véu - uma expressão cultural que reflete o princípio permanente da subordinação feminina (11.5,6,10,14). O apóstolo indica que, nos cultos, a participação delas deveria ser vista como um sinal de que estavam debaixo da autoridade eclesiástica masculina (v.10). Em outras palavras, embora Paulo permita que a mulher profetize e ore no culto público, ele requer dela que se apresente de forma a deixar claro que está debaixo de autoridade, no próprio ato de profetizar ou orar.
Isso pode ser confuso e soar como "politicamente incorreto" caso não tenhamos um coração espiritualmente disposto nas mãos do Senhor. No texto em questão, Paulo argumenta teologicamente, a partir da subordinação de Deus Filho a Deus Pai. A subordinação da mulher ao homem não a torna inferior. Assim como Pai e Filho, que são iguais em poder, honra e glória, desempenham papéis diferentes na economia da salvação (o Filho submete-se ao Pai), homem e mulher se complementam no exercício de diferentes funções, sem que nisso haja qualquer desvalorização. Para o professor de Novo Testamento, Dr. Thomas Schreiner, "uma vez que Paulo apela à relação entre os membros da Trindade, fica claro que ele não olha para as relações descritas neste texto como meramente cultural". Paulo ainda recorre ao relato da Criação em Gênesis 2, desejando mostrar que a mulher não é inferior, mas, sim, a glória do homem (vv.8-9). Paulo vê nos detalhes da Criação uma ordenação divina quanto aos diferentes papéis do homem e da mulher. O fato, por exemplo, de termos de ser submissos às autoridades civis não nos torna inferiores. A própria Bíblia ordena essa submissão (Rm 13.1-5; 1 Pe 2.13-17). Também os filhos não são inferiores a seus pais, mas lhes devem submissão (Ef 6.1). Como bem lembrou o Dr. Nicodemus, "o conceito de subordinação de uns a outros tem a ver apenas com a maneira pela qual Deus estruturou e ordenou a sociedade, a família e a igreja".
Logo se percebe a importância de 1 Coríntios 11 para a questão desse debate sobre a ordenação feminina. A mulher deve estar debaixo da autoridade espiritual exercida pelo homem e, ao participar do culto, não pode exercê-la sobre ele. Ao comentar essa passagem, o Dr. Shedd afirma que "com o véu" (sinal de submissão), "a esposa protegia sua própria dignidade". Alguém, então, poderia argumentar que deveríamos voltar a usar o véu como era o caso da igreja em Corinto. Mas o véu, no entanto, era apenas a maneira grega do século I de demonstrar subordinação. Não é necessário usar o véu hoje, mas o princípio da subordinação continua. O apóstolo defende a participação diferenciada da mulher no culto usando argumentos permanentes, que transcendem cultura, tempo e sociedade, como a distribuição ou economia da Trindade (v.3), o modo pelo qual Deus criou o homem (vv.8-9) e ainda apelando para o costume das igrejas cristãs em geral (v.16). Para o Dr. Shedd "Paulo apela para princípios. Usar ou não véu depende do que significa para a época ou sociedade atual". Além disso, é bom notar que 1 Coríntios 11 começa lembrando aos leitores que as questões de autoridade, submissão e ordem no culto público deveriam ser tratadas com uma instrução apostólica (v.2). O parágrafo termina afirmando que "ser contencioso" (como algumas mulheres de Corinto) não era um "costume" apostólico, nem deveria ser em nenhuma "igreja de Deus" (v.16).
Uma segunda passagem é encontrada no mesmo livro (1Co 14.33b-38), indicando uma seqüência dentro de um mesmo tema: a ordem no culto público. "... Como em todas as igrejas dos santos. As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja" (vv. 33b-35).
A frase, "não lhes é permitido falar", tem conotação de autoridade. Elas podiam falar nos cultos, mas não de forma a parecerem insubmissas, como mostra o verso 34b. Paulo também cita "a lei", que é o Antigo Testamento. No contexto imediato, Paulo fala do julgamento dos profetas no culto (v. 29), o que envolveria certamente questionamentos, e mesmo a correção dos profetas por parte da igreja reunida. Para o professor de Novo Testamento e autor reconhecido internacionalmente, Dr. D. A. Carson há aqui uma alusão à Criação que deve ser observada universalmente. Paulo está possivelmente proibindo que as mulheres questionem ou ensinem os profetas em público. Certamente havia na igreja de Corinto um problema de arrogância jactanciosa por parte de algumas mulheres.
Assim como em 1Co 11.16, aqui também a determinação de Paulo está de acordo com o espírito cristão em todas as demais igrejas (14.33b). Portanto, não é local. Sua ordem está conforme a "lei", (14.34b) e deveria ser entendida como um "mandamento do Senhor" e esse mandamento seria prontamente reconhecido pelos "espirituais" (14.37). Mais uma vez o Dr. Carson lembra que existe uma seqüência lógica tratada por Paulo desde o capítulo 11 e todo o tempo o apóstolo tem de advertir os coríntios que existe uma prática em todas as igrejas de Deus que deveria também ser observada por eles. Eles estavam tão orgulhosos de suas revelações que já começaram a agir diferentemente do padrão cristão. "Por que eles deveriam ser diferentes?" pergunta Carson. Na prática os coríntios deveriam se portar como as demais igrejas (14.33b) e na teologia também (14.36), pois Deus não teria dado uma doutrina diferente para aquela igreja em especial. Paulo, assim, não estaria estabelecendo um padrão apenas para aquela igreja, mas lembrando-lhe de que ela deveria seguir um padrão já estabelecido em todas as demais igrejas. O Dr. Russell Shedd, por sua vez, é muito objetivo ao comentar essa passagem. Para ele, "muitos dos abusos na igreja se devem às mulheres, geralmente mais dominadas por experiências psíquicas". Carson acredita que essas instruções são "para o nosso bem".
Uma terceira passagem é 1 Timóteo 2.11-15. Aqui vemos a palavra de Paulo para que "a mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição". A ordem apostólica não permite "que a mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre o homem" (vv. 11-12). O apóstolo escreveu para instruir Timóteo a combater uma perigosa heresia que havia se infiltrado na igreja de Éfeso. Os falsos mestres estavam ensinando que a prática ascética era um meio para se alcançar uma espiritualidade mais elevada. Insistiam na abstinência de certas comidas, do casamento e do sexo em geral (1Tm 1.3-7; 4.1-3; 6.4-5; cf. 2Tm 2.14, 16-17, 23-24). Eles também rejeitavam os papéis tradicionais das mulheres no casamento, e encorajavam-nas a reivindicar papéis iguais na igreja e no lar (2.15; 4.1-2; 5.14-15). O texto dá a entender que o ensino desses falsos mestres tinha como porta de entrada as mulheres (1Tm 5.12,15; cf. 2Tm 3.6-7).
A palavra "ensinar", em Timóteo, está relacionada com a frase "em posição de autoridade", no sentido restrito de instrução doutrinária autoritativa, feita com o peso da autoridade oficial dos pastores (1Tm 4.11; 6.2; 5.17). O leitor cuidadoso poderá fazer um estudo mais profundo e comprovar pessoalmente isso. Mas, o que fica evidente, afinal, é que a atitude que o apóstolo exigia das mulheres cristãs de Éfeso era de submissão e silêncio quanto ao aprendizado da doutrina no culto público. Não seria lógico concluir que essa proibição de a mulher exercer autoridade sobre os homens exclui as mulheres do ofício pastoral? De acordo com Paulo, o oficio pastoral está relacionado essencialmente ao ato de governar e presidir a casa de Deus (1Tm 3.4-5; 5.17). Não se limita a essa função, mas deve passar por ela.
O contexto de 1 Timóteo 2.11-15 é a instrução de Paulo a Timóteo quanto ao culto público da igreja (1Tm 2.1-10). A instrução de Paulo aqui tem força universal, como o próprio texto enfatiza. A ordem apostólica é para que os cristãos orem "por todos os homens" (2.1), por "todos os que se acham investidos de autoridade" (2.2), visto que Deus quer que "todos os homens sejam salvos" (2.4). Assim, os varões devem "orar em todo lugar" (2.8). O ensino de Paulo, portanto, tem a ver com "todos os homens... em todo lugar". (2.8).
Há, ainda, uma disputa sobre os termos gregos gnuaiki e andros. O contexto parece muito mais indicado a explicar que a frase se refere a "mulher e homem" e não a "esposa e marido". Com isso o texto ensina que a mulher não deveria "exercer autoridade sobre um homem" (NVI, RA, etc). Alguns acreditam que se uma mulher estiver em perfeita submissão ao seu próprio marido, então ela está autorizada a ensinar outros homens. Mais uma vez, essa seria uma análise precipitada e, possivelmente, descontextualizada. Douglas Moo (professor de Novo Testamento e conhecido autor), acredita que Paulo autoriza "mulher ensinar outra mulher", com base em Tito 2.3-4, mas "as proíbe de ensinar homens". Para o professor, nas epístolas pastorais, as atividades de governo (na igreja) são atribuídas a presbíteros. Claramente, então, a proibição de Paulo de que uma mulher exerça autoridade sobre um homem exclui a mulher de se tornar líder no sentido em que esse ofício é descrito por ele. Desta forma, Moo conclui que uma mulher estaria impedida de ocupar qualquer função em uma igreja que seja equivalente ao ofício de governo eclesiástico descrito por Paulo. Para ele essa conclusão é perfeitamente aplicável em nossos dias, uma vez que o apóstolo tem em mente a Criação e as funções do homem e da mulher que advêm dela e não sua cultura particular.

4. Conclusões e recomendações

Tanto John Piper como Wayne Grudem acreditam que uma verdadeira avalanche de material feminista desabou sobre o mundo e acabou por acertar a igreja também. Naturalmente não com a mesma má índole do mundo. Muitos dentro da igreja têm defendido sua posição em prol da ordenação feminina com as mais íntegras e honestas intenções. Com certeza, no entanto, isso tem causado grande incerteza dentro da igreja, como uma neblina sobre um assunto específico, tirando a clareza de quais papéis os homens e as mulheres devem exercer. Mas o fato é que a maioria dos evangélicos não tem aceitado essa posição, pois rejeitam aquilo que chamam de "o movimento feminista evangélico".
Devemos encontrar uma resposta bíblica que traga o equilíbrio sadio entre homem e mulher, como pessoas distintas diante de Deus. Celebrar a masculinidade e a feminilidade como presentes de Deus para um e para outro. Uma resposta que indique aos homens suas funções e posições como modelos aos filhos, resgatando sua masculinidade bíblica. Assim também as mulheres sabedoras de suas funções como modelos para suas filhas, resgatando sua feminilidade bíblica. As distorções causadas pelo pecado devem ser refutadas e, homem e mulher, devem ter um santo orgulho de serem o que são como dádiva de Deus ao mundo. Wayne Grudem (principalmente conhecido por sua "Teologia Sistemática") está certo quando comenta o texto de 1 Pedro 3.1-7e faz o alerta de que está mais do que na hora das "mulheres serem como Sara e os homens honrá-las assim". O assunto da ordenação feminina pode ter como raiz a distorção dos papéis inicialmente concedidos por Deus a homens e mulheres.
É evidente que há elementos no Novo Testamento que pertencem à cultura do século I. A função do exegeta é descobrir nelas o princípio permanente para então aplicá-lo no contexto contemporâneo. É a ponte construída entre o mundo bíblico e o mundo atual. As passagens de 1 Coríntios 11.2-16, 14.34-35 e 1 Timóteo 2.11-12 têm um princípio permanente para que se mantenham distintamente os papéis inerentes ao homem e à mulher na igreja e na família. Assim, não devemos inverter os papéis. A mulher não deve ocupar posição de autoridade sobre os homens, mas deve observar de maneira análoga seu papel como o da Igreja, que está submissa ao Senhor. Ela tem liberdade, usa seus dons e talentos e ainda tem suas preferências, mas, em última análise, deve ouvir ao Senhor.
Definitivamente Paulo não instrui sobre esse assunto tendo como base considerações condicionadas culturalmente. Seu apoio é basicamente feito de princípios inerentes à própria humanidade, enraizados na Criação. Ele sempre apela às Escrituras (Antigo Testamento), demonstrando que a origem dos papéis próprios do homem e da mulher não estão fundamentados nas questões transitórias das igrejas e muito menos em algum aspecto cultural, mas teológico, que envolve Deus e a Criação. É bem provável que o mundo dos apóstolos estava distante cerca de 4 mil anos do evento da Criação. Talvez alguém pudesse alegar que os tempos haviam mudado e o cristianismo deveria estabelecer novos critérios culturais, mas o apelo dos apóstolos às Escrituras mostra que havia um princípio permanente estabelecido por Deus que transcendia as épocas.
Assim, é difícil encontrar respaldo bíblico explícito e suficiente para que se recebam mulheres ao pastorado, onde irão presidir, governar, e ensinar doutrina aos homens. Por isso, nenhuma autoridade contemporânea pode criar seus argumentos a partir das mudanças sociais para ir além da Escritura ou ainda contradizê-la. É necessário grande temor no coração para não cair em alguma falácia. É verdade que muitas mulheres exerceram papel importante na vida de Cristo (como em Lucas 8) e dos apóstolos, como, Priscila (Atos 18.2; Rm 16.3-5); Maria (Rm 16.6); Trifena, Trifosa e Pérside (Rm 16.12); Febe (Rm 16.1), Evódia e Sínteque (Fp 4.2-3), etc , mas a Bíblia nada fala sobre serem pastoras. Cada igreja local deve, portanto, analisar com critério o papel da mulher no ministério, dando a ela honra, respeito e espaço para exercer seus dons. Há muito trabalho preparado por Deus que pode e deve ser feito por mulheres piedosas. O Senhor as capacitou e a história tem dado demonstração abundante dessa verdade.Todo esse trabalho pode ser feito, com o digno sustento, inclusive, mas é precário afirmar ou insistir que deva ser oficializado com um título que carece de mais apoio escriturístico.

5. Referências

Grudem, Wayne: Teologia Sistemática
Keener, Graig S.: Paul, Women & Wives
Lopes, Augustus Nicodemus: O que o Novo Testamento Fala sobre Ordenação Feminina.
Piper, John: Recovering Biblical Manhood and Womanhood.
Shedd, Russell P.: A Bíblia Shedd. Vida Nova.



* Jaime Augusto Cisterna é pastor batista, pastoreando atualmente a Igreja Batista Mineira de Belo Horizonte - MG.

quinta-feira, 17 de abril de 2008


Tudo é Vaidade
“Vaidade de vaidades,
diz o Pregador;
vaidade de vaidades, tudo é vaidade”.
Eclesiastes 12:8

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“A beleza das flores?
O perfume do jasmim?
As cores da rosa?”[1]

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“o passeio na praia?
O banho de mar?
A areia incontável?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“o luar do sertão?
A sanfona da roça?
O frango com quiabo?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“O som da harpa?
A doçura da flauta?
As filhas da música?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“O tamanho da Baleia?
A altura da girafa?
As cores do camaleão?
O mel das abelhas?
O trabalho das formigas?
O vôo do beija flor?
A força do leão?
A bolsa do canguru?
A longevidade da tartaruga?
A viagem das andorinhas?
Os dentes da cascavel?
A velocidade do falcão?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“O aperto da mão?
O abraço apertado?
O beijo na face?
O afago da criança?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“O primeiro amor?
A primeira carícia?
A primeira noite?
A primeira gravidez?
O primeiro filho?
O primeiro sorriso?
O primeiro beicinho?
A primeira palavra?
O primeiro passinho?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“O presente que se dá?
O presente que se recebe?
O amor fraternal?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“A dor de dente que passou?
A biópsia que nada revelou?
A doença curada?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“A revelação natural de Deus?
A consolação das Escrituras?
O ministério do Espírito?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“O riso depois do choro?
A noite depois do dia?
O dia depois da noite?
O verão depois do inverno?
O inverno depois do verão?
O sol depois da chuva?
O aguaceiro depois da seca?
A calma depois do furacão?
A paz depois da guerra?
O amor depois da briga?
O perdão depois do pecado?
A morte depois da vida?
A vida depois da morte?
Deus depois de tudo?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“Os que fazem ciência?
Os que escrevem livros?
Os que compõem música?
Os que curam o corpo?
Os que ouvem a lamúria?
Os que promovem a paz?
Os que fazem rir?
Os que anunciam as boas novas?

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“O amor de Deus?
A misericórdia de Deus?
A graça de Deus?
A soberania de Deus?
A glória de Deus?
A onipotência de Deus?
A onipresença de Deus?
A onisciência de Deus?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“A graça comum?
A graça especial
O Verbo que se fez carne?
O Cordeiro de Deus?
O Alfa e o Ômega?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
“O véu do templo que se rasgou?
O triunfo da cruz?
A vitória do bem sobre o mal?
O esmagamento da serpente?
A morte da morte?
A ressurreição dos mortos?
O novo corpo?
Os novos céus e a nova terra?
O Apocalipse?”

Tudo é vaidade de vaidades? Tudo?
Vaidade é viver a vida sem Deus, pois Ele a tudo dá sentido e nEle há sentido para tudo... “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más.” (Ec.12:13-14)
Silas Roberto
Soli Deo Glória
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[1] Tudo o que está em grifos foi extraído da Revista Ultimato, mar/abr., págs. 26,27

segunda-feira, 14 de abril de 2008



Religião e Estado

Somos um estado laico (isto é, desprovido de influência religiosa) , disse certo político. Será? Quando se tem um “santo” de gesso eleito vereador perpétuo (isso se deu na cidade de Igarassu, Pernambuco) e que recebe salário, sinceramente não sei se somos estado laico ou ...
estado louco.


As eleições estão chegando, a politicagem “gospel” está às portas... (para não dizer nos púlpitos...).

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Salmo 1

Silas Roberto Nogueira

O Salmo 1, muito provavelmente, foi composto como uma introdução ou prefácio ao Saltério. Resume, por sua vez, toda a doutrina moral do Saltério. É um dos Salmos anônimos do Saltério. A maioria dos Salmos do Livro I (de 1 a 41) é atribuído a Davi, exceto este, o 2, 10 e 33 que, no entanto, não é impossível que também tenham saído da mesma pena. Há quem pense que o vocabulário aproxima-se mais ao Livro de Provérbios que do próprio Saltério, o que indicaria a autoria de Salomão, portanto, uma introdução à primeira coletânea dos escritos do seu pai [1]. Seja como for, se alguém quer ser feliz verdadeiramente, aqui está o segredo. Este Salmo pode ser dividido em duas partes, a primeira os versículos 1-3, que trata do caminho dos justos (da felicidade), ou como disse Spurgeon no “que consiste a felicidade e bem-aventurança de um homem piedoso, quais são seus procedimentos e quais são as bênçãos que receberá do Senhor”. A segunda parte, os versículos 4 –6, o salmista apresenta em contraste com o justo, o caminho dos injustos (da infelicidade).


Comentário:

“Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.” (v. 1)

bem-aventurado –no hb. “ashere”, “feliz”, “abençoado”, aqui está no plural é quer dizer “quão verdadeiramente feliz”, um termo que ocorre muitas vezes no AT, mais freqüentemente no livro de Salmos (mais de vinte vezes). A felicidade verdadeira que aqui se menciona não é algo que o homem pode alcançar por si mesmo, por esforço próprio, é o Senhor quem o faz feliz (Sl.41.2). É uma dádiva, procede daquela eterna decisão de Deus em escolher-nos para Si (Sl.65.4). A infelicidade é pagamento pelo pecado (Sl.38.18), a felicidade é uma dádiva advinda da fé depositada no Senhor ( Sl.2.12; 34.8; 40.4; 84.12), em Seu perdão e Sua justificação (Sl.32.1,2). Se expressa esta felicidade no temor do Senhor (Sl.112.1; 128.1,4) , em uma vida santa (Sl.112.1; 119.1,2) e adoração comunal (Sl.65.4;84.4). Esta felicidade não é circunstancial ou só se manifesta quando tudo vai bem, o justo a possui, inclusive quando disciplinado pelo Senhor (Sl.94.12) ou quando se encontra em alguma adversidade (Sl. 84.5,6). Por isso aqui o Salmista é enfático – “feliz o homem...”.

“o homem que não anda no conselho...detém no caminho...se assenta na roda...” - há uma progressão aqui que trata do envolvimento com o mal que deve ser evitado pelo justo. Primeiramente (anda - isto é, sua conduta não é moldada por padrões mundanos) não dá ouvidos ao ímpio em sua filosofia de vida, a forma como conduz sua vida e negócios, depois, (detém – isto é,não se associa com os perversos) não pondera , imita ou pratica suas obras e muito menos (assenta) com eles tem comunhão, Sl.26.4,5.


“o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.” (v.2)

“o seu prazer está na Lei...” - a vida piedosa, nos seus aspectos positivos caracteriza-se por uma concentração na Lei [2]. O piedoso ama a Palavra do Senhor (Sl. 119.47), pois nela encontra refrigério para sua alma, sabedoria, alegria, iluminação para seu caminho (Sl.19.7,8; Sl. 119.105) e sustento espiritual (Sl.119.103).

“e na sua lei medita de dia e de noite” - Parece-me que a inspiração para este verso está em Josué 1.8: “Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido”. “medita” - uma palavra hebraica que significa “refletir, gemer, resmungar, ponderar. No pensamento hebraico o ato da meditação na Escrituras envolvia o repeti-las calmamente em som suave e baixo, abandonando interiormente as distrações exteriores (Sl.4.4; 19.14; 39.3; 63.6;77.12; 119.15,99,148). O objetivo da meditação não é o somente pensar as Escrituras, mas como diz o Senhor a Josué “para que tenhas cuidado em fazer tudo quando nela está escrito”.


“Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido.” (v.3)

“ele é como”o salmista propõe um analogia entre o justo e uma árvore cuidadosamente plantada, com profundas raízes e que cresce junto a uma corrente de água natural e cujo fruto é produzido de forma regular e abundante. Há, pelo menos, quatro coisas que quer indicar tal analogia. A primeira é vitalidade espiritual que goza o justo, assim como uma frondosa árvore. Todos os nutrientes de que precisa, obtém a árvore do solo, especialmente aquele devidamente regado. O justo obtém tudo o que precisa da Palavra de Deus, especialmente ministrada e aplicada ao seu coração pelo Espírito Santo. A segunda coisa que esta figura nos ensina é quanto à estabilidade que goza aquele que é firmemente plantado. Esta estabilidade advém do fato de ter sido escolhido por Deus (Sl.80.8) e plantado em Sua casa (Sl.92.13), pois do contrário, não há estabilidade (Mt.15.13). Em terceiro lugar, há o ensino acerca da produtividade do justo. Ele frutifica em tempo certo, isto indica regularidade, haja ou não seca (Jr. 17.8; Sl. 92.14). Por último, a posteridade dos justos é referida no fato de que suas folhas não “murcham” (NVI, ARA) ou caem (ARC, TB).

“e tudo quanto ele faz será bem sucedido” esta frase resume o que já foi dito acerca do justo, ao compará-lo a uma árvore. Perceba que não é tanto uma questão de prosperar materialmente, mas obter condições para o desempenho de uma missão, Jo. 15.16. Achei muito oportuno o comentário de Willian Carey Taylor: “Deus não promete prosperidade em tudo ao justo, como erroneamente traduzem Almeida e Figueiredo. Mas ele salienta a perseverança do homem cujas raízes espirituais são regadas pelas fontes do poder divino. Ele leva ao fim tudo quanto empreende. Não tem essa ânsia de começar alguma coisa nova e o tédio de a acabar. Quem estiver arraigado no solo de profunda espiritualidade completa o que começou, leva ao fim a tarefa principiada, cumpre a responsabilidade aceita” [3]. Assim, parece-me mais correto ficar com a Tradução Brasileira: “ele leva ao fim tudo quanto empreende”.


Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.” (v.4)

“os ímpios não são assim” - sempre haverá uma diferença essencial entre o justo e o injusto. Note que o texto não diz “os ímpios não estão assim”, pois não é uma questão de estar, mas ser – “são como”. A palavra “ímpio” vem do latim (lit. irreligioso ou sacrílego) e traduz o termo hebraico “rasha” que significa “ilegal, culpado, condenável, punível, perverso, injusto, pecador, incorreto” etc. Sugere o termo hebraico um violento distúrbio interno que se exterioriza em ações condenáveis, como que querendo representar que o ímpio o é por uma confusão interna não resolvida [4]. De fato, o pecado desequilibrou interiormente o homem, fê-lo experimentar a terrível sensação de ter fracassado (“errado o alvo”) em relação ao propósito de Deus [5]. Alienado e em inimizade com Seu criador por causa do pecado, o homem torna-se inútil (no sentido de não poder corresponder aquilo que dele se espera) como a figura aplicada a ele pelo salmista, cf. Rm.3.12 com Sl.14.1-3.

“são como a palha que o vento dispersa” - nos dias do salmista os grãos eram malhados em uma eira, um local aplanado, de terra batida ( Jr. 51.33) , onde os ventos fossem à favor para levar a palha para longe (Os.13.3). Há quatro coisas que tal analogia quer indicar. A primeira é que, como a palha, o incrédulo não tem vida [6]. A segunda é que, assim como a palha não tem conteúdo, o incrédulo é vazio. A terceira é que, assim como a palha é destituída de valor, o incrédulo é inútil em relação aos propósitos divinos. Por último, assim como a palha é levada pelo vento, o incrédulo não goza de direção espiritual e segurança, Sl. 92.9.

“Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos.”

“por isso” - esta clausula não está no original, ocorre nas versões VIBB, NVI, TB, ARA, BJ e na Vulgata (“propterea”). Quer dizer que em razão da natureza corrompida dos ímpios é que são culpáveis e condenáveis no juízo, não é uma condenação injusta.

“os perversos não prevalecerão” - esta enfática declaração quer dizer literalmente que os incrédulos não “permanecerão em pé” , isto é, não obterão a salvação, Sl. 5.4,5; 9.16,17 (Lc. 21.36).

“juízo” - no hb. “misphat” , um termo que ocorre mais de 400 vezes no AT e significa “decisão, determinação, julgamento, justiça, juízo” etc.. A BJ e NVI traduziram por “julgamento” aludindo a um momento escatológico [7], que é o que parece estar em pauta como parafraseou a BV “no dia do julgamento preparado por Deus, eles serão condenados”. Interessante é que a palha está junto do grão até certo momento, mas em fim dele é separada. Há um momento propício para se efetuar tal separação, o agente disto é Deus, como também é o responsável pela consignação do estado final de cada um de nós, Mt. 3.12; 13.30.


“Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.” (v.6)

“o Senhor conhece o caminho dos justos” - primeiramente é importante saber o significado desta frase. O termo “conhece” indica mais do que um conhecimento teórico ou intelectual. Deus não simplesmente “sabe” sobre o caminho dos justos, como se tomasse ciência de algo, mas não se envolvesse com ele. Este conhecimento divino é o mesmo que compartilhar, ter intimidade, conviver de modo prazeroso, é envolvimento e aprovação. Em segundo lugar, a palavra “caminho”, em sentido metafórico aqui, quer significar a vida ou dinâmica da existência terrena. O caminho de um homem tem a ver com a sua natureza, segundo o salmista. O caminho do injusto não pode ser trilhado pelo justo e o inverso é igualmente verdadeiro. Aquele que toma um “caminho” (estrada) revela seus alvos e propósitos. O justo revela, portanto, que seu objetivo final é o próprio Deus. Por último, ao dizer que o Senhor conhece o caminho (perceba o singular – não são muitos os caminhos, mas um só) dos justos (note o plural) o salmista quer dizer que Deus “conhece e aprova a vida de quem obedece suas leis” (BV), cf. Sl. 37.23. Assim sendo, goza tal homem de direção (Sl. 25.9-12; 32.8), perseverança (Sl.37.23; 18.32) e segurança (Sl.91. 11-12) até o destino final, Deus.

“mas o caminho dos ímpios perecerá.” – é triste o fim daqueles que rejeitam ao Senhor, Sl.9.16,17. Jonathan Edwards certa vez pregou um sermão em que asseverou que “ o ímpio não consegue prever se, num momento, ficará de pé, ou se, em seguida cairá. Quando cai, cai subitamente, sem aviso, como está escrito, também no Salmo 73.18-19, ‘tú certamente os põe em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição. Como ficam de súbito assolados! Totalmente aniquilados de terror’. Outra coisa... os ímpios estão sujeitos a cair por si mesmos, sem serem derrubados pelas mãos de outrem, pois aquele que se detém ou anda por terrenos escorregadios não precisa mais do que seu próprio peso para cair por terra. E também a razão pela qual ainda não caíram, e não caem, é por não haver chegado ainda o tempo determinado pelo Senhor.” Suas palavra finais neste sermão cabem muito bem aqui: “portanto, todo aquele que está fora de Cristo, desperte e fuja da ira vindoura. A ira do Deus Todo Poderoso paira agora sobre todos os pecadores. Que cada um fuja de Sodoma: “livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás, nem pares em toda a campina; foge para o monte, para que não pereças” [8].


Ninguém pode ler seriamente este salmo e não examinar seu próprio caminho, sua vida. “A este povo dirás: Assim diz o SENHOR: Eis que ponho diante de vós o caminho da vida e o caminho da morte.” (Jeremias 21:8). Que caminho trilharás?


Soli Deo Glória!

[1] MORRIS, H. M., Amostra de Salmos, pág.16

[2] M’CAW, L. , Novo Comentário da Bíblia

[3]TAYLOR, W. C. , Passagens Bíblicas Explanadas, pág. 135

[4] Cf. Bíblia de Estudo Plenitude, nota de Pv. 10.16

[5] O incrédulo é descrito como interiormente injusto (ímpio), por isso não respeita nenhum limite (pecadores) lança à tarefa de ridicularizar as coisas divinas (escanecedor)

[6] Ef.2.1

[7] Nem todos concordam que juízo mencionado aqui é escatológico (como dá a entender o texto Massorético), pensam alguns que pode ser temporal, como a LXX parece indicar.

[8] EDWARDS, Jonathan, Pecadores nas Mãos de um Deus irado, págs. 2 e 24.