quarta-feira, 14 de maio de 2008

LIBERDADE


Por Silas Roberto Nogueira

“Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda."

[Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência]



A questão controversa sobre o livre arbítrio tem uma relação apenas indireta com o conceito bíblico de liberdade. O vocabulário bíblico é vasto e tem como pano de fundo o pensamento de aprisionamento ou escravidão, isto é, quando a Bíblia fala em liberdade, uma escravidão ou encarceramento é sempre subentendido (Sal. 105: 17-20; At.26:32). Essa idéia bíblica de liberdade sofreu desenvolvimento teológico de tal maneira que quando chegamos ao Novo Testamento, liberdade se torna um importante conceito descritivo da salvação, onde Deus nos liberta por meio de Cristo (Is. 61:1 com Luc. 4:16), do pecado (Jo.8:34-36,44-44; Rom.6:17,18 segs.), do diabo (Col.1:13), da lei (Gál.4:4-7;5:1 segs.), do temor e da própria morte (Heb.2:15; Rom.cp.8; 1 Cor.15:54,55). Ora, a questão então é descobrir em que sentido o homem é livre ou possui algo como livre arbítrio, visto que na Bíblia (Prov. 5:22; 2 Tim. 2:16; 2 Pe.2:19) , especialmente nas palavras de Cristo (Jo.8:32,34), é apresentado como escravo que precisa ser liberto. Portanto, é preciso discriminar cuidadosamente o que queremos dizer com liberdade ou livre arbítrio. Pois em certo sentido o homem perdeu a sua liberdade; noutro sentido, não a perdeu. Assim sendo:
  1. Se a expressão “livre arbítrio” for considerada moral e psicologicamente, significando o poder ou capacidade de escolha sem constrangimento, espontânea, voluntária e, por conseguinte, responsável, então a Bíblia por toda parte deixa subentendido que todos os homens, como tais, possuem livre arbítrio.
  2. Se a expressão “livre arbítrio” for considerada metafisicamente, subentendendo que as ações dos homens são indeterminadas, portanto imprevisíveis, e que o futuro não pode ser conhecido, a Bíblia não afirma tal, antes, contudo, deixa bem claro que Deus conhece absolutamente tudo, inclusive as ações livres dos agentes morais e em algum sentido predetermina todas as coisas.
  3. Se a expressão “livre arbítrio” for considerada teologicamente, denotando uma habilidade natural por parte do homem irregenerado para realizar atos que sejam bons sem qualificação aos olhos de Deus, ou para reagir favoravelmente ao convite do Evangelho, então passagens como Jer. 13:23; Rom.8:5-8; Ef.2:1-10; Jo.5:40; 6:44 indicam que nenhum homem está livre para obedecer a Deus e para exercer fé em Cristo enquanto não for libertado do poder escravizador do pecado mediante a graça de Deus. Todas as escolhas voluntárias do homem irregenerado são, num sentido ou noutro, atos de serviço ao pecado, até que a graça venha e quebre o poder do pecado que o impulsione a obedecer ao evangelho.

Assim, nosso conceito de liberdade ou livre arbítrio diz que o homem decide por si mesmo, levando em consideração seus instintos, idéias, juízos, emoções fazendo suas escolhas de acordo com aquilo que mais lhe agrada. O homem, nesse sentido não perdeu com a queda no pecado, nenhuma das faculdades constitucionais necessárias para fazer dele um agente moral responsável. Nesse sentido o homem é livre. Por outro lado, embora o homem tenha capacidade de apreciar e de fazer muitas coisas boas, amáveis e benévolas, justas no seu relacionamento com o seu semelhante, perdeu a sua liberdade material, isto é, o poder racional de determinar o procedimento, rumo ao bem supremo, que esteja em harmonia com a sua constituição moral original da sua natureza. Ele sempre decidirá de acordo com a sua tendência natural para o mal, sendo incapaz de compreender e de amar a excelência espiritual, de procurar e realizar coisas espirituais, as coisas de Deus, que pertencem à salvação. O pecador é escravo do pecado e não tem a menor condição ou capacidade de tomar uma direção contrária naquilo que lhe é próprio ou natural à parte de uma miraculosa atuação divina. Nesse sentido o homem não é livre.

É importante ressaltar que fazemos uma distinção entre liberdade/livre arbítrio e capacidade. Liberdade/livre arbítrio, como tratado acima, é propriedade inalienável de qualquer agente moral de exercer volições segundo mais lhe agrade, isto é, sempre de acordo com as disposições e tendências predominantes em sua alma, ou natureza. Por capacidade definimos o poder de uma alma humana depravada e indisposta por sua própria natureza para qualquer bem espiritual, de mudar suas disposições e tendências predominantes por meio de qualquer volição ou de obedecer aos preceitos da lei na ausência de quaisquer disposições santas, isto é, sem que haja a interagência divina. Essa capacidade nós dizemos que o homem não possui e assim, em oposição a isso asseveramos a incapacidade humana nas questões relativas à salvação da sua alma (Jer. 13:23; Jo. 6:44,65; 5:40; 1 Co.2:14).

De maneira geral os que se opõe ao nosso conceito de liberdade ou livre arbítrio costumam dizer que se o homem não é livre no sentido indeterminista, isto é, se não tem o que eles chamam de liberdade significativa ou real logo ele não é responsável. No entanto, na Bíblia em nenhum lugar a responsabilidade está vinculada à liberdade ou livre arbítrio. Seguindo o que Dr. Wright (A Soberania Banida, págs. 61,62, Cultura Cristã) diz sobre isso, podemos destacar que na Bíblia a responsabilidade está baseada no seguinte:
  1. Somos responsáveis diante de Deus porque ele é o Criador e nós somos criaturas. Em outras palavras a nossa responsabilidade é ontológica, tem a ver com o nosso ser, como criatura que somos. Deus tem a prerrogativa de convocar quem quer que seja a qualquer momento que seja para prestar-lhe contas. Não é, porventura, esta a mensagem de Jó quando Deus lhe responde do meio de um redemoinho (Jó 38:1-4) ou do profeta Isaías (caps. 40 a 57), na polêmica contra aqueles que abandonam o Criador a fim de adorar a criatura? Quando lemos Romanos cp.1, onde Paulo sumariza os resultados dessa irresponsabilida moral percebe-se claramente que o homem é responsabilizado justamente por ser criatura, não por ter livre arbítrio. As Escrituras asseveram que todos haverão de prestar contas diante de Deus em determinado dia (Mt. 12:36;25:31,32; At.17:31; Rom.14:12; 2 Cor. 5:10; Hb.9:27; 1 Pe. 4:4,5) e em nenhum momento isso está atrelado a liberdade/livre arbítrio do homem, mas ao fato de ser o que é, criatura.
  2. Somos responsáveis diante de Deus porque ele é o ponto de referência moral para o que é certo e errado, e não nós próprios. Em outras palavras nossa responsabilidade diante de Deus é uma necessidade ética, por causa de nossa necessidade de um padrão fora de nós mesmos, 1 Pe. 1:14-21.
  3. Somos responsáveis diante de Deus pelo conhecimento que temos. Isso quer dizer que a nossa responsabilidade é epistemológica. Todos pecam contra a luz da verdade e ninguém é destituído da luz da consciência, assim seremos julgados de acordo com a luz que recebemos, isto é, de acordo com o conhecimento que temos conforme Paulo assevera, Rom. 2:12-16.
  4. Somos responsáveis diante de Deus porque fomos criados com o propósito de glorificá-lo (Is. 43:7; Col. 1:16; Ap.4:11; 11:8), e somos responsáveis como mordomos das bençãos de Deus para cumprir o fim ou propósito por Ele almejado. Assim, nossa resposnabilidade é teleológica porque ela diz respeito à nossa tarefa como servos no desígnio da criação, que é trazer glória a Deus.
Se a responsabilidade humana não é fundamentada na noção de livre-arbítrio que alguns defendem, então a negação desta noção não destrói a realidade da responsabilidade humana. Longe de basear a nossa responsabilidade em nossa liberdade ou livre arbítrio, a Bíblia mostra que a responsabilidade é um reflexo da nossa relação com Deus como criador, como origem do significado moral, como nosso ponto de referência para a verdade revelada e como aquele que dá propósito e direção últimos à sua criação.

Precisamos examinar agora a questão da nossa liberdade ou livre arbítrio em relação à vida cristã, mas especificamente em relação à santificação. É muito comum, infelizmente, ouvirmos algumas pessoas apelando à sua suposta liberdade ou livre arbítrio para justificar atos pecaminosos. Por termos liberdade ou livre arbítrio, dizem eles, podemos mesmo como crentes, decidir em que seremos obedientes a Deus! Isso é, obviamente, uma má compreensão do que vem a ser a liberdade para a qual Cristo nos chamou (Gal.5:1). Algumas considerações são importantes aqui:
  1. O homem que era escravo do pecado ao ser libertado por Cristo não se torna autônomo, mas escravo de Cristo. Portanto, a sua liberdade não é autonomia no sentido de obedecer ou não a Cristo, mas a capacidade de obedecer-lhe, que não tinha antes por estar escravizado ao pecado. O que diz Paulo no sexto capítulo de sua Epístola aos Romanos?
    1 Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? 2 De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? 3 Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? 4 Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. 5 Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, 6 sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; 7 porquanto quem morreu está justificado do pecado. 8 Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, 9 sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. 10 Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. 11 Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus. 12 Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; 13 nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniqüidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça. 14 Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça. 15 E daí? Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei, e sim da graça? De modo nenhum! 16 Não sabeis que daquele a quem vos ofereceis como servos para obediência, desse mesmo a quem obedeceis sois servos, seja do pecado para a morte ou da obediência para a justiça? 17 Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; 18 e, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça. 19 Falo como homem, por causa da fraqueza da vossa carne. Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para a maldade, assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça para a santificação. 20 Porque, quando éreis escravos do pecado, estáveis isentos {isentos; isto é, no original, forros} em relação à justiça. 21 Naquele tempo, que resultados colhestes? Somente as coisas de que, agora, vos envergonhais; porque o fim delas é morte. 22 Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna; 23 porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.
  2. Os apóstolos Paulo e Pedro alertaram para o perigo de tomar ocasião da liberdade em Cristo para o pecado, que ocorre quando a liberdade em Cristo é entendida como autonomia.Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. Gl.5:13
    Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. 1 Pe.2:15,16
  3. Aquele que diz que o crente tem liberdade para desobedecer a Deus está relativizando os imperativos bíblicos sobre a santidade. As palavras de W. Tozer aqui são muito próprias: “Os homens têm liberdade para tomar decisões em suas escolhas morais, mas também têm necessidade de prestar contas a Deus por essas escolhas”. Ninguém deve pensar que porque se tornou filho de Deus por meio de Cristo, Deus o Pai deixará de puni-lo por desobediência, especialmente voluntária (Gl. 6:7).
  4. Tiago deixa bem claro que o cristão está ligado à “lei da perfeita liberdade” que é a prática (observância) da Palavra de Deus e não a autonomia para pecar:
    Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar. Tiago 1:25; 2:13 cf. Rm.8:2
  5. O apóstolo João deixou patente que aquele que vive na prática do pecado nunca conheceu a Deus, portanto a marca distintiva daquele que foi liberto do pecado não é sujeitar-se novamente ao pecado, mas a santificação:
    “aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou”. 1 João 2:6 (cf. 1:5 a 2:6; 3:4-10)
Como temos visto esse ensino é contraditado pelo testemunho das Escrituras. Além disso, segundo entendemos, causa uma dicotomia entre o Cristo salvador e o Cristo Senhor, quando alega que alguém pode ser salvo tendo Cristo apenas como Salvador, mas não como Senhor. As escrituras deixam claro que o Senhor requer daqueles que nEle crêem obediência, isto é, sujeição ao seu senhorio, Mat.11:28 segs., Jo.15:14 etc. A teoria do crente carnal, como ficou conhecida, admitida por muitos atualmente é relativamente recente na história da igreja, é antibíblica e algo muito perigoso visto que promete vida eterna aos que deliberadamente querem viver em rebeldia contra Deus. Devemos nos lembrar das palavras de Paulo a Timóteo: Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo: O Senhor conhece os que lhe pertencem. E mais: Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor. (2 Timóteo 2:19)
Soli Deo Gloria!

Karl Barth

Silas Roberto Nogueira


Ricardo Quadros Gouveia vê com bons olhos o renovado interesse dos estudiosos brasileiros por Barth a quem define como “maior dos calvinistas do século 20”. De fato Karl Barth é considerado por alguns como um segundo Lutero e o maior teólogo do século 20. No entanto, sem duvida alguma, Barth não é uma unanimidade visto que não são poucos os que o vêem como um lobo em pele de ovelha.

Karl Barth nasceu em Basiléia, Suíça, em 10 de maio de 1886. Seu pai, Fritz Barth, era ministro reformado e professor de Novo Testamento e História da Igreja na Universidade de Berna, Suíça. Recebeu educação inicial como membro da Igreja Reformada Suíça pelo pastor Robert Aeschebacher, que exerceu forte influencia sobre sua vida e sobre a sua decisão de estudar teologia. Estudou teologia nas Universidades de Bern, Berlin. Tubingen e Marburg, recebendo o seu grau de bacharel em 1909. Entre suas influencias acadêmicas destaca-se Adolf von Harnack (1851-1930). Embora nunca tenha completado curso de doutorado recebeu dez títulos honorários de doutor de diversas universidades.

Após a conclusão do seu curso, assumiu a posição de pastor auxiliar numa paróquia suíço-alemã de Genebra e depois, em 1911, começou a pastorear uma pequena igreja reformada no interior da Suíça, em Safewil, Aargau, onde esteve por dez anos. Casou-se em 1913 com Nelly Hoffman com quem teve uma filha e quatro filhos, Franziska (1914), Markus (1915), Christoph (1917), Mathias (1921) e Hans Jakob (1925). Enquanto pastoreava em Safewil, Barth estava comprometido com a teologia liberal e esteve envolvido com a política socialista ajudando inclusive na organização de um sindicato. A eclosão da I Guerra Mundial, no entanto, abalou não só a sua fé liberal, mas também seus ideais socialistas. Em 1914, a Alemanha atacou a França. Barth, embora formado no pensamento alemão, considerou o ataque à França injusto. Certo dia, ao ler os jornais notou uma declaração de apoio à política de guerra alemã onde constava o nome de vários intelectuais, inclusive seus mestre e entre eles Adolf von Harnack. Barth ficou completamente desiludido. “Para mim, pelo menos, a teologia do século dezenove não continha mais nenhum futuro”.

Nesse mesmo ano, Barth sob a influência de seus amigos Eduard Thurneysen (1888-1977) e Christoph Blumhardt (1843-1919),pegador pietista, começou a buscar uma resposta ao desafio da pregação. O fato é que a teologia liberal protestante lhe havia oferecido pouco conteúdo para a tarefa da pregação. Estudou Dostoievsky e Kierkegaard, os escritos de Lutero e Calvino ganharam importância para ele e, sobretudo a Bíblia. Barth viu a falência do liberalismo, que exaltou o homem a expensas de Deus, que estudou a religião do homem em vez da revelação de Deus.

Como fruto dessa reflexão, em 1919, Barth publicou Carta aos Romanos (Der Romerbrief). Esse é o documento mais representativo do programa neo-ortodoxo. Ele destacou a transcendência de Deus em oposição à teologia liberal que seguindo o hegelianismo exagerava na imanência beirando ao panteísmo ou panenteísmo. Para Barth Deus é “absolutamente outro” e há diferença entre Deus e o homem. O homem não é semideus, caído não retém a imago Dei e existe uma infinita distância entre o homem e Deus, e o homem é incapaz de chegar-se a Ele. Assim, o homem depende da revelação de Deus para conhecê-Lo. Barth ficou surpreso com o sucesso de seu livro e declarou que se sentia como:




...alguém que, subindo a escada escura da torre de uma igreja e tentando equilibrar-se, procura alcançar o corrimão, mas em vez dele, consegue segurar a corda do sino. Para seu horror, teve então que ouvir o que o grande sino tinha soado sobre ele e não sobre ele somente. [do prefácio de Dogma Cristão]


Depois da I Guerra Mundial foi convidado a lecionar teologia na Alemanha, primeiro em Gottingen (1922) e depois em Munster (1926 e 1929) e Bonn (1930). Em Gottingen uma das suas principais tarefas era preparar palestras acerca da teologia dos reformadores. Nesse tempo, escreveu a um amigo sobre suas impressões de Calvino:


“Calvino é uma catarata, uma floresta primitiva, um poder demoníaco, algo vindo diretamente do Himalaia, absolutamente chinês, estranho, mitológico; perco completamente o meio, as ventosas, mesmo para assimilar esse fenômeno, sem falar para apresentá-lo satisfatoriamente. O que recebo é apenas um pequeno e tênue jorro e o que posso dar em retorno, então, é apenas uma porção ainda menor desse pequeno jorro. Eu poderia feliz e proveitosamente assentar-me e passar o resto de minha vida somente com Calvino.”


Ainda em Gottingen ajudou a desenvolver a teologia dialética com Thurneysen, Bultmann, Gogarten e Brunner. Enquanto ensinava em Bonn e depois de lançar alguns livros menores, começou o grande empreendimento da sua vida a Dogmática Cristã (Die Christliche Dogmatik). Em 1927 o primeiro volume de Dogmática Cristã foi publicado, mas como Barth havia empregado uma linguagem kierkegardiana (existencialista) foi duramente criticado, abandonando o projeto. Mais tarde ele decidiu começar novamente e, em 1932, o primeiro volume de Dogmática Eclesiástica (Die Kirchliche Dogmatik). Quando ele morreu, em 1968, a obra estava inacabada, mas consistia em 13 volumes com mais de 9 mil páginas! Sua intenção era compor uma teologia sistemática completamente livre de qualquer influência filosófica predominante, mas baseada exclusivamente na exegese da Palavra de Deus em Jesus Cristo, segundo o testemunho das Escrituras. Diferente dos escritos anteriores, Barth empregou menos a linguagem paradoxal apresentando seu pensamento de forma sistemática. Interessante notar a ausência da seção introdutória sobre a teologia natural ou evidências racionais para a crença em Deus ou nas Sagradas Escrituras (os Prolegômenos). É que ele rejeitava qualquer modalidade de teologia natural, Deus não pode ser conhecido pela capacidade da razão humana, nem pela natureza e nem pela história. Por isso Barth começou diretamente com a exposição da Palavra de Deus em Cristo Jesus, na igreja e nas Escrituras, ou seja, a revelação especial. Sua máxima é “a possibilidade do conhecimento de Deus encontra-se na Palavra de Deus e em nenhum outro lugar”. Mas o que é a Palavra de Deus? Barth responde que a Palavra de Deus é inequivocamente Jesus Cristo. A Bíblia, por sua vez, é a Palavra de Deus na proporção que testifica de Cristo, o mesmo se pode dizer da pregação. A sua rejeição da teologia natural o levou a romper com o amigo Emil Brunner, que aceitava a revelação de Deus na natureza assim como em Cristo. Durante toda a sua carreira, Barth lutou incansavelmente contra toda e qualquer tentativa de fundamentar a fé cristã em outra coisa senão a Palavra de Deus, pois para ele isso seria o mesmo que elevar a senhor e mestre uma pessoa ou coisa que não era Jesus Cristo.

Entre 1933 e 1934 esteve envolvido no movimento que deu origem a Igreja Confessante, ao lado de Dietrich Bonhoffer, Hermann Hesse e Martin Niemoller. O movimento se opunha a presença do nacional-socialismo dentro da igreja, numa tentativa de sancionar religiosamente os ideais do Fuher. Barth foi uma das mentes liderantes da Declaração Teológica de Barmen que se opunha ao nazismo. Por recusar-se a começar as suas aulas com a saudação nazista, pois sempre as começava orando foi, primeiramente, suspenso de suas atividades acadêmicas e então expulso da Alemanha em 1935. Depois desse evento passou a lecionar em Basiléia, na Suíça.
Após a II Guerra Mundial esteve envolvido em várias polêmicas sobre o batismo infantil, hermenêutica e desmitologização. Barth continuou coerente em suas posições básicas, mas revisou algumas de suas primeiras conclusões. Sua hostilidade inicial para com o liberalismo mais tarde foi mais abrandada. Nos primeiros anos Barth havia dado ênfase na transcendência divina, na maturidade considerou tal ênfase como unilateral. Barth, embora membro da tradição reformada, rejeitou em anos posteriores o batismo infantil que considerava uma prática distorcida.

Já nos anos 60 sua saúde e sua influência como teólogo sofreram declínio. Fez uma única viagem aos EUA, indo à Capela Rockefeller, na Universidade de Chicago, para participar de uma mesa redonda com teólogos norte-americanos. Quando foi franqueada aos que assistiam o evento a oportunidade de perguntar, um jovem estudante colocou a pergunta: “Professor Barth, o senhor poderia, por favor, resumir em poucas palavras a obra da sua vida inteira?”. Após uma breve pausa Barth saiu-se com essa: “Certamente. Emprestando as palavras do velho cântico que minha mãe me ensinou quando eu era criança: ‘Jesus me ama, isso eu sei, porque a Bíblia assim o diz’!”. Participou ainda do Concílio do Vaticano II, como observador. Dois anos antes de falecer, em 1966, foi nomeado Senador Honorifico da Universidade Bonn.
Barth faleceu em 10 de dezembro de 1968, em Basiléia, suas últimas palavras foram: “Deus não nos abandona a nenhum de nós tampouco a nós todos juntos! – Há um governo!”

Com certeza se pode dizer que Barth é um enigma da teologia moderna. Para os liberais, um conservador. Para os conservadores, um liberal camuflado. A sua teologia tem vários nomes Teologia da Crise, Teologia Dialética e Neo-ortodoxia. É uma tentativa de corrigir os fracassos da teologia liberal, mas sem um retorno à ortodoxia, por isso “neo-ortodoxia”. É impossível resumir a teologia de Barth a alguns parágrafos, por isso examinaremos alguns dos seus principais temas.

Revelação Divina. Para Barth o próprio Deus se revela em Sua Palavra. Os liberais exaltavam a revelação geral, na natureza e história. Os conservadores tinham a revelação geral em seu lugar próprio, mas enfatizavam a revelação especial das Escrituras para o conhecimento de Deus. Para Barth os liberais transformaram o cristianismo numa filosofia ou um programa de moral e ética e os conservadores reduziram o cristianismo a um sistema doutrinário a ser apreendido e crido, nada mais. Barth entendia a revelação divina como Deus se comunicando com a humanidade em sua mensagem. O homem não pode conhecer a Deus, mas Deus pode dar-se a conhecer ao homem e o faz mediante a Sua Palavra, quando esta encontra a resposta da fé. Mas para Barth Jesus Cristo é inequivocamente a Palavra de Deus. No entanto, quando ele fala de Cristo como revelação divina, não se referia aos Seus ensinos ou ao Seu exemplo, referia-se, à pessoa de Jesus Cristo no tempo e na eternidade. Conhecer Cristo é conhecer a Deus e não se pode conhecer Deus sem se conhecer a Cristo. A Bíblia e a pregação só são revelações de Deus em sentido secundário, isto é, só quando Deus as usa por meio do Espírito para falar ao homem individual, em um momento existencial de suas vidas.

A Bíblia. O conceito de Barth sobre as Escrituras causou furor em alguns, especialmente nos fundamentalistas. É que para Barth a Bíblia não era a Palavra de Deus no mesmo sentido em que Cristo o é. A Bíblia é uma das manifestações da Palavra de Deus e inclusive uma manifestação secundária. É o testemunho da Palavra de Deus – Cristo – e se torna a Palavra de Deus quando Deus mesmo decide usá-la para confrontar o homem com o evangelho de Jesus Cristo. Nas próprias palavras de Barth: “a Bíblia é a Palavra de Deus à medida que Deus a torna sua Palavra, à medida que fala através dela”. Ele rejeitava a doutrina comum protestante da Bíblia como revelação básica na forma proposicional. Também repudiava a doutrina da inerrância bíblica, para ele, a Bíblia era totalmente humana. Ele admitia a possibilidade da Bíblia conter erros em qualquer lugar, afinal Deus sempre usou testemunhas falíveis e a Bíblia está nessa categoria. Ele não visava desacreditar a Bíblia, mas evitar que fosse colocada acima de Jesus Cristo. Jesus é Senhor, a Bíblia não, mas testemunha dele. A autoridade da Bíblia não está em si mesma, mas no fato de que Deus a toma (torna-se Palavra de Deus) e fala por meio dela.

Teologia natural. Já dissemos que Barth não dava o menor valor a teologia natural e a revelação geral na natureza, na história ou mesmo na experiência humana. Diferente do liberalismo do seu tempo a sua idéia de revelação é particularista. Para ele “a possibilidade da Palavra de Deus está na Palavra de Deus e em nenhum outro lugar”. Barth repudiou a analogia entis [doutrina escolástica que afirmava que uma causa deixa um traço de si mesma no efeito, de maneira que podemos raciocinar partindo do efeito para a causa. Assim, sendo o homem a imagem de Deus, investigando a sua imagem se pode chegar ao conhecimento de Deus] como invenção do anticristo e afirmou a analogia fidei [que tem a revelação com ponto de partida] que é compreendida a partir da revelação da graça em Cristo. Isso explica o “Nein” (alemão “não”) de Barth ao ponto de contato de Brunner.

Deus. Quanto à Trindade, Barth concedeu em sua Dogmática nada menos do que 220 páginas! Certo estudioso da teologia contemporânea observou que ele tratou da Trindade nos Prolegômenos e não na doutrina de Deus, onde geralmente ocorre. Depois que ele a tratou em relação á sua perspectiva da revelação. Ele, Deus Pai é Revelador, o Filho, Revelação e o Espírito Santo, Revelatura. Deus mesmo se revela, é a revelação e é também o conteúdo da revelação. Por último, notou que Barth rejeitou o uso do termo “pessoa” por causa da mudança do significado da palavra desde os dias da primeira formulação trinitária. Mas que ele reconhece três “pessoas”, embora use o termo alemão “weise” [modo], na Divindade, repudiando o sabelianismo e também não admite nenhum tipo de subordinacionismo. Barth destacou a transcendência de Deus, rejeitando a posição do liberalismo que enfatizava a identificação entre Deus, o homem e o mundo, isto é, a imanência. Para Barth isso era pouco mais que panteísmo, então ele resolveu enfatizar a diferença entre Deus e o homem. Seu grito foi: Que Deus seja Deus!

Salvação e Eleição. Barth aceitou o conceito da dupla predestinação, aquilo que os calvinistas chamam de supralapsarianismo. No entanto, sua formulação não é que alguns foram escolhidos para a salvação e outros para a perdição, como comumente os supralapsarianos asseveram, mas ele fez esse duplo decreto referir-se a Cristo, isto é, Cristo representa ao mesmo tempo tanto a eleição quanto a reprovação do homem. Assim sendo, a condenação de todos caiu só nele e nele também todos foram eleitos para a salvação. Isso obviamente nem de longe se relaciona com a doutrina exposta por Calvino. E certamente esse pensamento conduz ao universalismo. Quando questionado sobre se ensinava o universalismo, Barth declarou: “não ensino e nem deixo de ensinar”.

É certo que Barth teve lá os seus méritos como teólogo, mas como alguém lembrou, é provável que seu status seja menor do que alguns imaginavam. Com justiça ele protestou contra o liberalismo e o enfraqueceu, no entanto, também minou a ortodoxia. Seu conceito das Escrituras é desapontador e alguns julgam a parte mais frágil da sua Dogmática. Embora considerasse que as Escrituras têm autoridade, não aceitava a inspiração verbal como base da autoridade bíblica. A autoridade das Escrituras é certamente enfraquecida por considerá-la falível. Além disso, se as Escrituras só têm autoridade quando dão testemunho da Palavra, logo, não tem autoridade em si e de si mesmas. Visto que a ortodoxia considera as Escrituras como possuindo essa tal autoridade, o conceito barthiano é denunciado como “heterodoxo”. Certamente seu repudio da revelação geral não é correto, nem bíblico. Sua doutrina da eleição é, certamente, inusitada. Conduz logicamente ao universalismo, o que contradiz o testemunho Escriturístico. Embora não tenhamos abordado o conceito barthiano do pecado, há sérios problemas quanto a isso também. Ele acreditava num mundo caído, mas a queda não parece ter existência histórica para ele. Quando tratou do relato da queda, Gênesis 3, considerou-o uma “saga”. Para ele, Adão não é histórico, mas um símbolo de toda a raça humana em transgressão, a queda é um paradigma para a humanidade em todos os tempos, e não um evento histórico em determinado tempo. Mas não é assim que o apóstolo Paulo vê Adão e o evento da queda, para ele Adão é um personagem histórico e a queda ocorreu num determinado tempo da história. Portanto, Barth estava equivocado em sua interpretação. Outro erro de Barth foi reinterpretar os ensinos dos Reformadores ao seu gosto, fazendo-os dizer mais do que realmente disseram. Assim, a neo-ortodoxia barthiana, em termos de conteúdo tem pouca coisa em comum com a ortodoxia histórica da igreja. Ainda que alguns vejam com bons olhos o renovado interesse por Barh, é bom lembrarmos das palavras de David Hedegard: “quando consideramos o que Karl Barth ensina sobre Deus e sobre a revelação de Deus, precisamos chegar á conclusão de que ele fala acerca de um deus desconhecido. Tal como os homens de Atenas (At.17:23), ele erigiu um altar ao deus desconhecido. Ora, visto que sabemos isso, é claro que Karl Barth não é profeta...”

Soli Deo Glória!


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Bibliografia:
Tratado de Teologia Contemporânea, Abraão de Almeida, CPAD
Teologia Contemporânea, John Landers, Juerp
Dicionário de Teologia Contemporânea, Bernard Ramm, CPB
História da Teologia Cristã, Roger Olson,. Vida
Teologia dos Reformadores, Timithy George, Vida Nova
Teologia Sistemática, L. Berkhof, Luz para o Caminho
Teologia Sistemática, F. Ferreira e A. Myatt, Vida Nova
Fides Reformata, Vol. VIII, N. 1, 2003
Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, N. R. Champlin.