domingo, 3 de agosto de 2008

VOCÊ É PRÉ OU PÓS?




Silas Roberto Nogueira

Recentemente um jovem me apresentou os resultados de uma enquete sobre se a igreja passará ou não pelo período da grande tribulação. Dos que responderam a dita enquete, segundo ele, 59% se identificou como pré-tribulacionista, isto é, acredita que Cristo virá antes da grande tribulação para arrebatar a Sua Igreja, livrando-a deste período sombrio da história humana. O jovem radiante com o resultado da pesquisa questionou-me quanto a minha posição querendo saber se eu era “pré” ou “pós”. Não pude deixar de perceber que eu o surpreendi quando lhe respondi que não participava da opinião da maioria, pelo menos não daquela maioria da tal pesquisa. Quando ele indagou-me por quais motivos eu não era um pré-tribulacionista/dispensacionalista apresentei-lhe alguns pontos que considero um impeditivo a minha aceitação de tal ensino:
  1. O pré-tribulacionismo/dispensacionalismo não é sinônimo de ortodoxia, como muito pensam. É um erro tomar uma coisa pela outra, como alguns fazem. O mesmo se deu com o fundamentalismo que por reducionismo veio a ser identificado com o dispensacionalismo.
  2. Não consegui achar nenhum vestígio de pré-tribulacionismo ou dispensacionalismo na história da igreja até a segunda metade do século 19. O pré-milenismo era a crença comum dos dias apostólicos, mas não o pré-tribulacionismo ou dispensacionalismo. Dr. Erickson declara “que embora houvesse uma forte linha pré-milenista (ou quiliasta) na teologia cristã primitiva, não havia a esperança de um arrebatamento antes da tribulação. Pelo contrário, a expectativa da vinda de Cristo incluía eventos que precediam e acompanhavam a sua vinda. Havia, certamente, uma antecipação de que este complexo de eventos logo ocorresse, mas a expectativa foi para o grupo inteiro de acontecimentos – a vinda do anticristo, a grande tribulação, e a volta de Cristo". [Opções Contemporâneas na Escatologia, pág.121]. Dr. Shedd tratando do ponto de vista escatológico dos antigos pais da igreja assinala que: “uma tentativa de apoiar a interpretação pré-tribulaionista em citações dos antigos pais da igreja não tem logrado êxito. (...) Todos os primeiros pais da igreja que tocam em temas da escatologia, pensaram que a igreja sofreria a perseguição promovida pelo anticristo. Tal sofrimento teria o alvo divino de purificar a igreja preparando-a para a segunda vinda na qual Cristo destruirá o anticristo, resgatará seu povo e inaugurará o milênio. Não encontramos nem amilenismo nem pós-milenismo, nem tampouco pré-tribulacionismo neste período da história eclesiástica.”[A Escatologia do Novo Testamento, págs.14,15]. A escatologia que se seguiu a Agostinho até os Reformadores, embora rejeitasse o pré-milenismo como “sonhos judaicos”, manteve a posição de uma segunda vinda após o período tribulacional. Assim, o pré-tribulacionismo/dispensacionalismo é um elemento relativamente recente na história da igreja, além disso, não desfruta de apoio das Escrituras a não ser por um malabarismo hermenêutico.
  3. Há certa artimanha de alguns advogados do pré-tribulacionismo e dispensacionalismo em dizer que o pré-milenismo era a visão adotada desde bem cedo pela igreja primitiva, mas sem explicar que eles não nutriam a esperança de uma vinda pré-tribulacional dando a entender com isso que todo o pré-milenista é pré-tribulacionista ou dispensacionalista. Leon J. Wood, um dispensacionalista, ao oferecer um breve histórico do pré-milenismo assegura que era “a visão escatológica da igreja primitiva”, e que essa visão perdurou no terceiro e quarto séculos, que quando dominava a visão escatológica agostiniana (amilenismo) a esperança milenista não desapareceu totalmente, que permaneceu ainda que obscurecido pela visão otimista dos pós-milenistas e que houve um reavivamento dessa escola escatológica no período pós-reforma, mas foi extremamente cuidadoso em não mencionar que a expectativa pré-tribulacionista não fazia parte do pré-milenismo até meados do século 19. Essa omissão tem como objetivo fazer o leitor pensar que pré-milenismo é uma e a mesma coisa que pré-tribulacionismo/dispensacionalismo, quando na verdade é apenas um modo de pensar dentro do corpo do pré-milenismo. Originalmente o pré-milenismo era pós-tribulacionista, a inovação proposta por John N. Darby e seus seguidores surgiu bem mais tarde nessa tradição sendo que os que ainda permanecem fiéis à visão original são chamados de “pré-milenistas históricos”.
  4. O que os pré-tribulacionistas/dispensacionalistas gostariam de empurrar para debaixo do tapete é o como se originou esse ensino. Geralmente se diz apenas que o pré-tribulacionismo começou com John Nelson Darby (1800-1882), um membro do movimento dos Irmãos de Plymouth. No entanto, há um lance interessante em como se originou o ensino pré-tribulacionista/dispensacionalista e é que ele surgiu de uma “profecia” ou uma “revelação” e não do estudo sistemático das Escrituras. Citarei aqui o Dr. Erickson que diz que Darby entrou no movimento dos Irmãos em 1827 e que junto com “outros líderes do movimento, envolveram-se nas Conferencias Proféticas levadas a efeito em Powerscourt House. O ponto de vista [na escatologia] ali exposto era muito semelhante àquele que se achava na igreja primitiva: um ponto de vista futurista quanto á vinda do anticristo, que infligirá severa perseguição sobre a igreja durante a grande tribulação. Conforme este ponto de vista, Cristo voltará no fim da tribulação para libertar a sua igreja. Darby introduziu uma modificação deste conceito: Cristo virá arrebatar a sua igreja antes da tribulação e antes de ele vir em glória para estabelecer o reino milenar. O conceito de Darby resultou em uma divisão do movimento dos Irmãos. Samuel P. Tregelles, um membro dos Irmãos nos primeiros dias do movimento, alegou que a idéia de uma vinda secreta de Cristo para arrebatar a igreja originou-se numa profecia na igreja de Edward Irving, um pregador na Conferência profética da qual se derivou as reuniões em Powerscour House. Darby a aceitou como sendo a voz do Espírito e a aceitou como doutrina, mas Tregelles, Benjamim W. Newton, e outros que sustentavam uma perspectiva pós-tribulacionista, rejeitaram-na. O resultado foi o início de contendas dentro do movimento dos Irmãos". [Opções Contemporâneas na Escatologia, pág. 109,110]. Se afirma que foi uma certa Margareth Mcdonald, uma adolescente àquela época quem profetizou o arrebatamento secreto e pré-tribulacional e a quem Darby deu crédito sem ponderação prévia. Isso para mim é o suficiente para rejeitar o conceito pré-tribulacionista e o dispensacionalismo. Quando o Dr. Charle Ryrie, grande expositor do dispensacionalismo escreveu uma obra em defesa da sua posição foi muito cuidadoso em produzir uma cortina de fumaça que escondesse tal episódio colocando o pré-tribulacionismo como resultado de uma interpretação literal das Escrituras e da distinção entre Israel e Igreja.
  5. Para defender uma segunda vinda antes da grande tribulação os pré-tribulacionistas/dispensacionalistas tiveram que seccionar a segunda vinda de Cristo, isto é, fazê-la ter duas fases. A primeira fase, segundo eles, é o “arrebatamento” (secreto) que se refere somente à igreja e se dará antes da grande tribulação. A segunda fase, que denominam “manifestação”, será literal e após o período da grande tribulação, visando a nação de Israel. Embora tal arranjo seja interessante, é artificial. Em nenhum lugar do Novo Testamento uma segunda vinda seccionada ou em fases é descrita. O testemunho das Escrituras é esse:
Mateus 24:27-31 Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até no ocidente, assim há de ser a vinda do Filho do Homem. Onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão os abutres. Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória. E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus.

Marcos 13:24-27 Mas, naqueles dias, após a referida tribulação, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, verão o Filho do Homem vir nas nuvens, com grande poder e glória. E ele enviará os anjos e reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos, da extremidade da terra até à extremidade do céu.

Lucas 17:24,30 porque assim como o relâmpago, fuzilando, brilha de uma à outra extremidade do céu, assim será, no seu dia, o Filho do Homem. Assim será no dia em que o Filho do Homem se manifestar.

Lucas 21:25-27 Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; sobre a terra, angústia entre as nações em perplexidade por causa do bramido do mar e das ondas; haverá homens que desmaiarão de terror e pela expectativa das coisas que sobrevirão ao mundo; pois os poderes dos céus serão abalados. Então, se verá o Filho do Homem vindo numa nuvem, com poder e grande glória.

Atos 1:11 e lhes disseram: Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir.

1 Ts 3:13 a fim de que seja o vosso coração confirmado em santidade, isento de culpa, na presença de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos.

1 Ts 4:16 Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro;

1 Ts 5:2,3 pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o Dia do Senhor vem como ladrão de noite. Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão.

2 Ts. 1:7-10 e a vós outros, que sois atribulados, alívio juntamente conosco, quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em chama de fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram, naquele dia (porquanto foi crido entre vós o nosso testemunho).

2 Ts. 2: 1-3 Irmãos, no que diz respeito à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, nós vos exortamos a que não vos demovais da vossa mente, com facilidade, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se procedesse de nós, supondo tenha chegado o Dia do Senhor. Ninguém, de nenhum modo, vos engane, porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniqüidade, o filho da perdição,

Tito 2:13 aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus

Hebreus 9:27,28 E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação.

2 Pe. 3:10,12 Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas...esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os elementos abrasados se derreterão.

Judas 1:14,15 Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele.

Ap. 1:7 Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém!
Diante de tantas evidências, seria possível argumentar em defesa da uma vinda em duas fases? As passagens são muito elucidativas e nenhuma das citadas acima, bem como outras não mencionadas, apresenta tal divisão da segunda vinda em fases, sendo essa hipótese completamente estranha ao ensino do NT sobre a segunda vinda de Cristo.
  1. Os pré-tribulacionistas/dispensacionalistas ignoram o sentido dos termos aplicados à segunda vinda no Novo Testamento. Nenhum deles insinua uma vinda em fases ou uma vinda secreta, mas sempre uma vinda única, pessoal e literal.
Parousia – esse termo ocorre 24 vezes no NT, a maioria por Paulo em suas Epístolas, e significa “presença” (física). Em nenhum lugar do NT seu uso indica uma vinda secreta, não visível. Mt.24:3,27,37,39; 1 Co.15:23;1 Ts.2.19; 3:13;4:15; 5:23; 2 Ts.2:1; Tg.5:7,8; 2 Pe. 1:16; 3:4,12; 1 Jo.2:28.

Epiphaneia – essa palavra ocorre 6 vezes no NT; deriva-se do verbo epiphanio que significa “mostrar”, “aparecer”, “manifestar” ou “tornar-se visível”. Este termo indica especialmente a visibilidade do retorno do Senhor Jesus Cristo, 2 Ts.2:8 (aqui é usada em conexão com parousia); 1 Tm.2:14; 4:1,8; Tt. 2:13.

Apokalipsis – essa palavra ocorre 22 vezes no NT, 13 nas Epístolas paulinas. Significa “revelação”, “manifestação” ou “desvendamento”, aparece em Rm.2:5; 1 Co. 1:7; 2 Ts. 1:7; 1 Pe. 1:7,13;4:13. A mais significativa das ocorrências é Ap. 1:1 – “revelação de Jesus Cristo”.

Erchomai – literalmente “eu venho”, como também “vir, aparecer, vir a público”; ocorre em Jo.14:3; At.1:11; 1 Co. 4:5. Em Mateus capítulos 24 e 25 o termo é usado pelo Senhor Jesus nas ilustrações da vinda inesperada de senhores terrenos após uma viagem, que indicam a imprevisibilidade do Seu retorno, mas nunca a sua invisibilidade.

Ophthesetai – de optonomai, ver, ser visível, aparecer. Aparece, por exemplo, em Heb. 9:28 (cf. Mt. 24:30). Esse texto diz que o Senhor “aparecerá segunda vez”, o que milita contra uma segunda vinda em fases e muito menos secreta.
Nenhuns desses termos em seus contextos indicam um retorno secreto, muito pelo contrário, indicam a sua visibilidade. Vejamos o que nos diz Atos 1:11: “e lhes disseram: Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir.” A expressão “assim como” traduz o grego “on tropon” (lit. “qual maneira”) e sempre, onde quer que se empregue, expressa “exatidão”. Ora, Cristo não subiu em duas fases, mas de uma só vez, portanto, e assim como subiu há de retornar – única e visivelmente.
  1. Os pré-tribulacionistas/dispensacionalistas corrompem o sentido do evento que se chama arrebatamento. Para eles, arrebatamento é uma partida para o céu, enquanto na terra ocorre a grande tribulação. No entanto, as Escrituras não apóiam esse pensamento:
1 Ts. 4:15-17 – Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem. Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados (harpazo) juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro (apantesis) do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.
  • “Arrebatados” – esse termo traduz o grego “harpazo” cujo sentido é o de “roubar”, “retirar”, enfatizando a maneira repentina ou súbita de como se dará a nossa elevação às nuvens para o encontro com o Senhor. A palavra não se refere a uma fuga, mas a uma retirada súbita. O propósito é revelado por Paulo – “para o encontro do Senhor nos ares”.
  • “encontro” – no grego “apantesis”, vocábulo usado apenas 4 vezes no NT. “A palavra tem um sentido técnico no mundo helenístico em relação à visita de dignatários, onde o visitante seria formalmente encontrado pelos cidadãos, ou uma delegação deles, que teriam saído da cidade para esse propósito e, então, seria cerimonialmente escoltados de volta para a cidade”. É o que ilustra a parábola das dez virgens contada pelo Senhor em Mateus 25:1 segs. Ao ser anunciada a chegada inesperada do noivo (v.6) saíram as noivas ao seu encontro – como era o costume da época, para encontrá-lo no caminho e voltar com ele às bodas (v.10). O contexto é escatológico e certamente, além servir como uma exortação à vigilância, serve para descrever o que deverá ocorrer quando da segunda vinda de Cristo, um encontro nos ares e um imediato retorno a terra.

2 Ts 2:1-3 - Irmãos, no que diz respeito à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, nós vos exortamos, a que não vos demovais da vossa mente, com facilidade, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se procedesse de nós, supondo tenha chegado o Dia do Senhor. Ninguém, de nenhum modo, vos engane, porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniqüidade, o filho da perdição,
  • “à vinda...e à nossa reunião com ele” – Paulo esclarece aqui que a parousia e o arrebatamento são a mesma coisa e não eventos separados.
  • “reunião” – aqui o apóstolo Paulo se refere ao arrebatamento usando um termo diferente – “episunagoge”, reunir, congregar, ajuntar. Interessante que este termo ocorre nos lábios de Cristo também para se referir ao arrebatamento: “E ele” – o Filho do Homem – “enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus” (Mateus 24:31). O pré-tribulacionista/dispensacionalista diz que esse texto se refere a Israel, sendo, portanto, a segunda fase da segunda vinda. Mas isso é absurdo. Cristo deixa claro que após a grande tribulação aparecerá o sinal da sua vinda (note o singular, portanto, uma vinda única) e nesse momento ocorrerá o arrebatamento, cf. 24: 29-31.
  • “isto não acontecerá sem que primeiro venha...” – Paulo deixa patente aqui que a segunda vinda de Cristo não ocorrerá antes da grande tribulação, período marcado pela apostasia e a manifestação do anticristo. Paulo não ensina algo diferente do que Cristo ensinou, mas a mesma verdade.
  1. Os pré-tribulacionistas/dispensacionalistas não encontram base bíblica para uma segunda vinda de Cristo antes da grande tribulação, por isso, buscam tipos no Velho Testamento para substanciar o seu ensino. Assim é que Enoque, Noé, Ló e Raabe têm sido alistados como tipos de um arrebatamento pré-tribulacional da igreja. No caso de Enoque, por exemplo, como ele pode servir de figura adequada para o arrebatamento antes da tribulação? Antes de qual tribulação ele foi arrebatado? Se alguém disser que foi antes do Dilúvio a coisa complica, visto que Enoque viveu no mínimo 800 antes deste evento. Um período tão longo não pode ser desconsiderado. Depois, Enoque representa só uma parte da igreja, os que estiverem vivos, visto que ele estava vivo quando trasladado. Enoque é uma figura do crente que anda com Deus, mas não da igreja arrebatada antes da tribulação. Noé, o outro exemplo, nem deveria ser mencionado, visto que ele e seus familiares não foram tirados fora da cena terrestre, mas preservados dentro da arca em meio ao Dilúvio. Isso milita contra a tese pré-tribulacionista/dispensacionalista. Ló, por exemplo, saiu da cidade após ter sido avisado pelos anjos, e não foi retirado por eles. E, embora tenha sido tirado da cidade, para ser preservado da ira divina, durante o tempo em que lá esteve sofreu a aflição dos homens maus. Depois, os anjos foram até lá, não houve um encontro em algum outro lugar. Por último, o encontro foi visível, isto é, os moradores da cidade viram os anjos, não foi algo secreto. Assim, nem Ló serve como figura de uma igreja arrebatada antes da tribulação. E o que dizer de Raabe? Uma leitura do texto bíblico demonstrará que ela foi poupada dentro da cidade, não retirada de lá. Sua casa estava localizada em cima dos muros da cidade, os muros ruíram, mas ela e sua casa foram preservadas. Portanto, ela não pode ser uma figura de arrebatamento pré-tribulacional, muito pelo contrário, é o tipo da igreja que é preservada no meio do desfecho da ira divina contra os homens. O exagero dos pré-tribulacionistas/ dispensacionalistas quanto aos tipos é uma contradição da sua alegação de que possuem uma hermenêutica literal. Depois, é bom seguir o princípio hermenêutico quanto à tipologia de que os mesmo devem ser estabelecidos pelas próprias Escrituras, isto é, especificados no NT.
  2. Os pré-tribulacionistas/dispensacionalistas costumam apelar para Apocalipse 3:10 como base à uma vinda secreta e pré-tribulacional. Ocorre que estão se baseando na palavra grega “ek” – cujo sentido afirmam eles, é tirado para fora. Mas é correto basear doutrina em uma palavra? E, seria correto basear doutrina num versículo isolado? Depois, se o sentido é o de “tirado para fora”, implica em que estava dentro, portanto milita contra a tese pré-tribulacionista. Note bem que o texto diz “eu te guardarei (thereo) da (ek) hora da provação” – mas se a igreja estará nas bodas do cordeiro, como dizem, de que perigo seria guardada? As palavras de Jesus em Sua oração sacerdotal são “não peço que os tires (airo) do (ek) mundo, e sim que os guardes (thereo, mesma palavra de Ap.3:10) do (ek) mal” (João 17:15). Como não pode haver contradição nas Suas palavras, o sentido de Apocalipse 3:10 é que seremos preservados em meio a provação.
  3. Por causa da sua tese de uma vinda antes da grande tribulação os pré-tribulacionistas/dispensacionalistas são levados a dizer que o Espírito Santo é aquele que o detém, em 2 Ts.2:6. Mas, como dizem que haverá salvação do período tribulacional, fico pensando como isso ocorrerá se o Espírito que é quem opera a regeneração não estiver atuando no mundo? Outra questão é se haverá salvação no período tribulacional – como eles dizem - a quem pertencerá esse povo, visto que a igreja estará ausente da terra e sendo que alguns serão gentios, não poderão pertencer à nação de Israel? Se há salvação na grande tribulação e levando em consideração que haverá perseguição onde muitos serão mortos, haverá uma terceira ressurreição? A Bíblia fala em duas ressurreições, mas nunca em três. Será uma segunda fase da primeira ressurreição? E quando essa tal ressurreição se dará, se a Bíblia depois da segunda vinda de Cristo só menciona a ressurreição dos mortos injustos? Essas e outras questões não são respondidas pelos pré-tribulacionistas/dispensacionalistas sem que estejam em flagrante contradição de toda a evidência bíblica.
Certamente eu poderia seguir alinhando outras tantas objeções a uma vinda pré-tribulacional, mas não acho conveniente. Quero dizer que eu mesmo não faço questão nenhuma de passar pela grande tribulação, no entanto, isso não é uma escolha minha e não posso temer o que não pode me separar do amor de Deus em Cristo Jesus. Depois, se a morte pelo sofrimento nos espera, devemos nos lembrar das palavras de Paulo, para quem o viver era Cristo, de que a morte era ganho (Fp.1:21). Além do mais, na grande tribulação a igreja não estará sob a ira de Deus, será poupada da ira divina, mas não da ira dos homens. A ira de Deus recairá sobre os ímpios, não sobre o seu povo.
Reconheço que há pontos fracos em cada um dos programas escatológicos, mas o ponto de vista pós-tribulacionista parece-me o mais correto à luz do testemunho bíblico. Assim, eu sou pós, sem medo de ser feliz e apesar da maioria.

Soli Deo Glória.