sábado, 6 de setembro de 2008

Usando o Velho Testamento,
a Bíblia que Jesus lia, na qual pregava e ensinava.

Silas Roberto Nogueira


Certo autor evangélico, muito apreciado no Brasil, confessou que durante algum tempo ignorou a leitura do Velho Testamento. Certamente muitos cristãos poderiam subscrever esta confissão. Não é tarefa difícil perceber o quão pouco se prega sobre textos do Velho Testamento. Alguém já observou que a proporção é de quatro sermões no Novo para cada um do Velho Testamento. Se isso não fosse bastante ruim, agrava-se quando se constata que ao fazê-lo os pregadores, geralmente cometem sérios equívocos hermenêuticos.

As razões para esse desprezo pelo Velho Testamento tanto por parte dos crentes em geral e mais tristemente por parte dos pregadores, são diversas. Alguém destacou que para isso contribui o chamá-lo “Velho Testamento” e que, para remediar tal situação, deveríamos usar o nobre título “Antigo Testamento” ou “Primeiro Testamento”, por causa da sua precedência. É ingenuidade pensar que se resolve uma questão tão séria apenas trocando uma palavra por outra cujo significado é o mesmo.

Há os que dizem que simplesmente não entendem o Velho Testamento, acham-no complicado quando comparado ao Novo. Mauro Meister declara que o “conhecimento do Novo Testamento que não é correspondido pelo conhecimento do Antigo, é uma contradição e uma impossibilidade. As Escrituras do Novo Testamento começam com uma referência ao Antigo Testamento e centenas de outras referências são feitas no seu corpo. A falta de entendimento do conteúdo do Antigo Testamento implica em uma falta de entendimento claro do texto do Novo Testamento.” Agostinho dizia: “No Velho Testamento o Novo Testamento se esconde, no Novo Testamento o Velho se revela.”

Outros dizem que o Velho Testamento está ultrapassado, pois estamos debaixo da graça e não da lei. Na mente de tais pessoas o Velho Testamento é exclusivamente a dispensação da lei, antítese da dispensação da graça, no Novo Testamento. Entretanto, percebo que muitos dos que defendem tal idéia nem notam as implicações dessa declaração. Eles estão dizendo que não houve salvação no período veterotestamentário, e se houve foi, contrariando o testemunho das Escrituras, pelas obras da lei. Porém, sabemos que os crentes do Velho Testamento foram salvos e que não o foram pelas obras da lei, mas pela graça por meio da fé no Senhor Jesus Cristo. Nunca houve uma outra forma de salvação a não ser pela graça por meio da fé em Cristo. A graça não é algo exclusivo do Novo Testamento, todo o relacionamento de Deus com a humanidade é sempre mediado pela graça e isso desde os dias de Adão. Quando Deus providenciou, Ele mesmo, a pele de animais para cobrir nossos primeiros pais, revelou a Sua graça (Gn.3:21). Noé “achou graça diante do Senhor” (Gn.6:8) e por isso foi preservado com sua família em meio ao Dilúvio. Abraão, o pai da fé (Rm.4), não conhecia as leis mosaicas, nem Isaque, Jacó ou José; todavia, todos foram salvos pela graça por meio da fé, segundo Hebreus capítulo 11. Ora, resumindo, quando um crente do Velho Testamento depositava a sua fé no SENHOR e naquilo que Ele por sua graça ordenava, estava confessando que a sua salvação estava na obra do Messias (Cristo) que haveria de vir. Aquele que considera o Velho Testamento como obsoleto é como um homem de um olho só, tem uma visão parcial. A ignorância quanto ao Velho Testamento foi o que levou Dr. Page Kelley a dizer que “se os livros do Antigo Testamento fossem substituídos por páginas em branco, a maioria dos pastores sequer notaria a diferença”. Embora alguns considerem as palavras do Dr. Kelley como um exagero, certamente não é uma inverdade.

A primeira boa razão para estudarmos e pregarmos no Velho Testamento é que ele não é palavra de homens, mas de Deus. O Velho Testamento é, indiscutivelmente, Palavra de Deus. Paulo diz que “toda Escritura é divinamente inspirada” (2 Tm.3:16), isso não exclui o Novo Testamento, mas primariamente é uma referência ao Velho Testamento.

As abundantes citações e alusões ao Velho no Novo Testamento indicam que não era desprezado pelo Senhor Jesus e pelos apóstolos. E a igreja age bem ao seguir o precedente estabelecido pelo nosso Senhor e pelos apóstolos, reconhecendo e usando o Velho Testamento, inclusive evangelisticamente. “O que era indispensável para o Redentor, sempre deve ser indispensável para os redimidos” (G. A. Smith). Essa é uma segunda razão para pregar e ensinar no Velho Testamento.

Uma terceira razão para estudarmos e pregarmos no Velho Testamento é que os grandes pregadores do passado faziam uso abundante dele. Henry Law (1797-1884), um dos mais proeminentes líderes evangélicos do séc. 19 foi capaz de mostrar a proeminência de Cristo no Pentateuco. O primeiro livro, com 24 sermões, The Gospel in Gênesis, foi publicado pela editora Fiel com o título Cristo em Gênesis. Os outros volumes, também com cerca de 30 sermões cada, ainda não foram traduzidos, mas são tremendamente edificantes. Charles H. Spurgeon (1834-1892), chamado “príncipe dos pregadores”, por exemplo, pregou diversas vezes no Velho Testamento e não raro evangelisticamente e o fazia com inigualável maestria. Um índice das pregações de Spurgeon indica que cerca da metade de todos os seus textos eram do Velho Testamento. Aliás, é bom lembrar que Spurgeon foi convertido numa pregação evangelística em um texto do Velho Testamento. O Dr. Martyn Lloyd-Jones, reconhecidamente um dos maiores expositores da Palavra de Deus, é um outro exemplo, pois fazia uso abundante do Velho Testamento nas suas pregações. A editora PES (Publicações Evangélicas Selecionadas) publicou este ano uma série de sermões evangelísticos de Lloyd-Jones no Velho Testamento. Este livro conta com uma introdução magistral por Ian Murray com quase 40 páginas sobre o uso evangelístico do Velho Testamento. Ora, se os grandes pregadores do passado, seguindo o exemplo do Senhor e dos apóstolos, dos reformadores e dos puritanos ensinavam e pregavam no Velho Testamento, também devemos fazê-lo.

Além disso, quando desprezamos o Velho Testamento ferimos a unidade da Bíblia. A revelação de Deus é progressiva, mas tanto o Velho quanto o Novo Testamentos são partes essenciais desta revelação e formam uma unidade. Fazer uso apenas do Novo Testamento é abdicar de anunciar “todo o conselho de Deus”. Alguém disse que estudar e pregar sem levar em consideração o Velho Testamento é o mesmo que começar assistir a um filme a partir da metade, você verá o final, mas não entenderá a trama por completo.
Quando desprezamos o Velho Testamento nossa teologia (teontologia) e cristologia são seriamente afetadas. Sem o Velho Testamento sempre teremos uma visão empobrecida de Deus. O Deus do Velho Testamento não é diferente do Deus revelado no Novo Testamento, como muitos pensam. Os que pensam assim seguem o raciocínio de um herege do segundo século por nome Marcião, para quem o Deus carrasco e irado do Velho Testamento nada tinha a ver com o Deus amoroso e gracioso do Novo Testamento. Por isso ele depreciava o Velho Testamento e os escritos cristãos que considerava demasiadamente judaico. Tanto o Velho quanto o Novo Testamento asseveram os mesmo atributos de Deus, sejam eles amor ou ira. Deus não muda, seja no Velho ou no Novo Testamento. No entanto não deveríamos nos desculpar pelo fato do Velho Testamento nos apresentar e revelar algo sobre Deus que preferíamos esquecer. Arthur W. Pink nos lembra que a ira em Deus não é uma nódoa no Seu caráter ou mesmo uma imperfeição. Não é retaliação maldosa, mal intencionada, revanchista. É Sua santidade posta em ação contra o pecado. É uma das perfeições divinas e como diz Pink “nada se presta mais para despertar os indiferentes e fazer com que os crentes professos sondem os seus corações, do que alongar-nos sobre o fato de que Deus “...se ira todos os dias com os ímpios” (Salmo 7:11)”. O poderoso sermão pregado por Jonathan Edwards teve como tema a ira divina (Pecadores nas mãos de um Deus irado) e estava baseado num texto do Velho Testamento, Deuteronômio 32:35. Poucos sermões têm causado tanto impacto sobre as vidas dos homens desde o dia em que foi pregado até os dias de hoje, e isso tem bem mais de duzentos anos!
Depois o estudo do Velho Testamento nos ajuda a entender a pessoa de Cristo, a segunda pessoa da trindade. Cristo não surge por acaso no cenário histórico da humanidade. Ele era o Messias prometido desde os tempos imemoriais que salvaria seu povo. Todo o sistema sacrificial apresentado no Velho Testamento aponta para Cristo e Sua obra redentora só poderá ser mais bem compreendida quando se estuda o Velho Testamento. Uma perspectiva de Cristo apenas neotestamentária é parcial e pode gerar sérios equívocos. Quando os dois discípulos iam a caminho de Emaús, desolados em virtude de tudo o que ocorrera, se esqueceram de tudo o que o Senhor Jesus havia falado de si mesmo, isto é, de como havia se identificado com aquele que haveria de vir, o Messias prometido pelos profetas. Ele teve, então que expor-lhe tudo novamente “começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc.24:27) até que seus olhos foram abertos. Isso ilustra que o Velho Testamento não pode ser lançado fora sem prejuízo do nosso entendimento da pessoa de Cristo. No entanto, quando o estudamos e vemo-lo apontando para Cristo, nosso entendimento se abre.

Quando desprezamos o Velho Testamento a nossa eclesiologia é afetada, visto que a Igreja é edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e profetas” (Ef.2:20). Se não entendemos o propósito de Deus na escolha de Israel como Seu povo, não entendemos corretamente o papel da Igreja como Corpo de Cristo. Paulo disse, referindo-se ao Velho Testamento, que “tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito” (Rm 15:4). John Murray comentando este versículo diz que “o Antigo Testamento tinha o propósito de fornecer-nos, nestes últimos dias, a instrução necessária para o cumprimento de nossa vocação até o fim. A afirmativa de Paulo também revela que o Antigo Testamento, na qualidade de Escritura, promove esse propósito.”

É preciso dizer ainda que o Velho Testamento oferece farto material sobre família, sociedade e culto, entre outros assuntos, quando desprezamos o Velho Testamento toda essa riqueza é descartada. Adrian Rogers, pastor batista estadunidense, escreveu um interessante livro, fruto de suas preleções sobre a aplicação do Decálogo à família. Para Rogers os mandamentos de Deus “não são acidentais nem incidentais, mas fundamentais” para a piedade na vida familiar. Jonathan F. dos Santos em O Culto no Antigo Testamento, sua relevância para os cristãos (sua tese de mestrado) focalizando o livro de Levítico, destaca que há duas vantagens em se estudar tal livro. A primeira é que se ganha uma visão mais ampla de todo o Velho Testamento, aprendendo os fundamentos da religião israelita, mas principalmente que tal estudo nos ajuda a entender o Novo Testamento, especialmente a obra redentora de Cristo. Christopher J. H. Wright mostrou a relevância da ética veterotestamentária para a sociedade moderna, em seu Povo, Terra e Deus, pela ABU. No Velho Testamento há princípios que regem todas e quaisquer sociedades. O tríplice mando divino, espiritual, social e cultural só pode ser cumprido se formos instruídos em “toda a Escritura”, não em apenas uma parte dela.

Devemos nos lembrar da instrução de Paulo ao jovem pastor Timóteo: “...desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. 2 Tm.3:15 a 4:2. É certo que Paulo tinha em mente o Velho Testamento quando escreveu estas palavras, é uma pena que nós nos esquecemos disso na atualidade. Segundo Paulo, o Velho Testamento (como já disse antes, não exclusivamente): pode fazer alguém sábio para a salvação pela fé em Cristo (v.15), isso porque é inspirado por Deus (v.16 a), sendo útil para o ensino (v.16 b), conduzindo o homem à maturidade (v.17) e por isso mesmo deve ser pregado (4:2). Sigamos a ordem apostólica, ensinemos e preguemos na Bíblia que Jesus lia, na qual pregava e ensinava. Não a desprezemos, pois são a Palavra de Deus, não de homem. Lembremos-nos de que ela é plenamente útil no testemunho de Cristo e que o homem que nela for instruído é habilitado para toda boa obra.

A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma;
o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices.
Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração;
o mandamento do SENHOR é puro e ilumina os olhos.
O temor do SENHOR é límpido e permanece para sempre;
os juízos do SENHOR são verdadeiros e todos igualmente, justos.
São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado;
e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos.
Além disso, por eles se admoesta o teu servo;
em os guardar, há grande recompensa.
Salmo 19:7 a 11

Soli Deo Glória.