quarta-feira, 29 de outubro de 2008

    Eloá e Deus,

    reféns do capricho humano.

    Pr. Marcos F. de Andrade

Eloá era um nome desconhecido até cerca de um mês atrás. Desde então, toda a mídia nacional e internacional tem explorado a tragédia que envolveu esta menina cujo nome em hebraico, significa: “Deus”(Eloah é o nome poético para Deus e aparece 49 vezes no Antigo Testamento sendo que 41 delas somente no livro de Jó). É evidente que sofri e ainda sofro com você a perda tão prematura desta adolescente. Eloá deixou de ser apenas um nome, ela se tornou um rosto com uma história, na qual nos envolvemos em cada uma das 100 horas em que foi mantida como refém. As dezenas de perguntas que preenchem o nosso imaginário pretendem encontrar alívio para uma morte tão brutal e estúpida, mas este esforço será em vão. Pra mim, nada pode justificar esta morte, exceto a reflexão que herdei dela, acerca de Deus. Eloá e Deus são reféns. Eloá quando mantida refém, se tornou impotente, dominada, subjugada, escravizada, ameaçada e amedrontada. Assim, mantemos Deus refém das nossas vaidades, quando abraçamos a teologia que O transforma em nosso personal gênio da lâmpada, útil tão somente para satisfazer nossos pedidos e vontades, não importando quão esdrúxulos possam ser; Mantemos Deus refém da nossa santidade aparente, quando O obrigamos a nos aprovar nas celebrações, ao receber nossos louvores, dízimos, ofertas e serviços, mesmo que nossas vidas escondam atos e pensamentos totalmente abominados por Ele; Mantemos Deus refém da indiferença para com seus princípios que deveriam legislar nossa conduta diária dentro e fora das esferas de relacionamentos pessoais e interpessoais; Mantemos Deus refém da nossa comunhão hipócrita, quando fingimos amar, e nos gabamos de comungar uma mesma fé, sem repartir o pão, sem estender a mão ao aflito, sem chorar as perdas alheias sejam quais forem, ou mesmo sem se alegrar com as vitórias dos outros; Mantemos Deus refém da tradição dos homens, ao insistirmos na defesa de valores que não possuem nenhum embasamento bíblico; A única boa notícia no paralelismo que proponho, é que diferente de Eloá, Deus não pode ser morto. Ele está acima e totalmente imune às tentativas de ser escravizado, negligenciado, ludibriado e usado...os que assim acreditam poder fazê-lo é que se tornam cativos, prisioneiros, pois pensam que viver com Deus aqui na terra, só pode ser plena dessa maneira. Enganam-se profundamente: Deus pode ser descoberto na total submissão a sua soberania, na admiração plena e sincera de sua santidade, na vivência comprometedora e renunciadora da comunhão, na obediência ás escrituras como de fato regra de conduta e fé. Todos nós sabemos como o caso de Eloá terminou. O que Deus quer saber é como a sua história com Ele irá terminar. É tempo de mudar!!

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Pr. Marcos F. de Andrade é Pastor Titular da Primeira Igreja Batista em Suzano, SP.


sexta-feira, 24 de outubro de 2008


A Natureza da Verdadeira Adoração

por

Rev. Geoffrey Thomas

1. A verdadeira adoração é prestada a Deus somente por aqueles que nasceram do Espírito de Deus. “Aquele que é nascido da carne, é carne”, disse Jesus, e, portanto, toda assim chamada adoração feita por pecadores não regenerados é carnal. Somente um coração regenerado pode cantar a nova canção (Salmo 40:3).

2. A verdadeira adoração só pode ser realizada através do Espírito Santo, “Os verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito”, disse Jesus, e, portanto, unicamente através da iluminação que o Espírito concede a nossas mentes, e os sentimentos dela produzidos em nossos corações é que a nossa adoração pode ser edificante para nós e agradável a Deus. Os dons de liderança concedidos pelo Espírito a pastores e mestres são uma parte essencial da adoração pública.

3. A verdadeira adoração é estruturada pelas Escrituras. “Os verdadeiros adoradores adoram...em verdade”, disse Jesus. A Bíblia nos revela o Deus a Quem devemos adorar e como devemos fazê-lo: “com reverência e santo temor”. As Escrituras produzem a atmosfera e fornecem os temas, as orações, os louvores e a pregação. Dessa forma, possuímos um padrão para conhecer o que é certo e o que é errado em tudo o que é falado e cantado. Desfrutamos, também, uma maravilhosa liberdade de todas as tradições e artefatos que são introduzidos por homens não espirituais, na inútil tentativa de “tornar” a adoração mais importante e “significativa”. A verdadeira adoração é essencialmente simples.

4. A verdadeira adoração é centralizada em Deus. Não é centralizada na “inspiração”, tampouco nos sentimentos; nem mesmo é centralizada em Jesus –– não somos adoradores só de Jesus. Ela se centraliza no Pai. Disse Jesus: “os verdadeiros adoradores adoram o Pai”. Naturalmente, o Pai só pode ser adorado através do Filho e o objeto da nossa adoração é a Divindade como um todo: Pai, Filho e Espírito Santo. Certamente nós adoramos a Jesus, mas é errado adorarmos somente a Jesus e torná-lo o centro da nossa adoração, negligenciando o Pai.

5. A verdadeira adoração surge a partir de um contínuo andar com Deus. Um homem que dificilmente pensa em Deus durante os seis dias da semana, não está apto a adorá-lo corretamente no sétimo dia. Se tal pessoa fala quanto está se “regozijando” na adoração, alguma coisa está errada com ele! Ele está se entretendo ou está recebendo aquela vaga sensação de desafio que o homem natural desfruta. Por outro lado, em meio à verdadeira adoração, tal pessoa deveria sentir quanto está afastada de Deus e sentir uma tristeza santa por sua negligência para com a glória do Senhor.

6. A verdadeira adoração requer preparação. Um homem não pode simplesmente achegar-se à presença de Deus sem qualquer preparação de coração e alma, e esperar, então, por uma “adoração instantânea”. Davi disse: “Ao meu coração me ocorre: buscai a minha presença; buscarei, pois, Senhor, a Tua presença” (Salmo 27:8). A verdadeira adoração, no dia do Senhor, surge de uma mente preparada para Deus, encorajada por uma oração ardorosa pela bênção do Senhor sobre a noite do sábado e a manhã do dia do Senhor.

7. A verdadeira adoração deveria ser acompanhada pela meditação. Eis por que exortamos as pessoas a cuidarem da maneira com a qual empregam o seu tempo após o término do culto. Todo o proveito advindo da exposição e aplicação da Palavra de Deus pode ser destruído. A graça é uma planta delicada, pode ser facilmente danificada. Se queremos aproveitar da adoração prestada, isso deve ser feito por meio de uma tentativa verdadeira de reter a principal lição da pregação.

8. A verdadeira adoração é sempre um produto e uma perspectiva da grandeza de Deus e da nossa pequenez. O profeta Isaías vê a grandeza de Deus e clama: “Ai de mim! Estou perdido! porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Isaías 6:5). João, na ilha de Patmos, vê o Senhor e nos diz: “Quando O vi, caí a seus pés, como morto” (Apocalipse 1:17). Qualquer coisa de novo que introduzimos na adoração, que não tenha como objetivo exaltar a Deus, é simplesmente uma concessão ao desejo por novidade que, caracteriza todos os homens naturais.

9. A verdadeira adoração sempre é aceita por Deus. Devemos ser muito cuidados para não abrigar pensamentos que inferiorizem a nossa adoração! Expressões depreciativas, tais como aquelas que descrevem a adoração como um “sanduíche de hinos”, somente encorajam a atitude que revela que nossa adoração é forma, exterior e sem liberdade e que, se nós estivéssemos realmente adorando, então deveríamos ter barulho, liderança espontânea e excitação. Na realidade, na verdadeira adoração, as pessoas não ficam sempre sentadas na ponta dos bancos imaginando quem será o próximo a dizer ou fazer algo inesperado. Não, eles não devem concentrar-se muito nos meios de adoração; seus pensamentos devem estar centralizados em Deus. A verdadeira adoração é caracterizada pelo esquecimento de si mesmo e pela ausência de qualquer concentração no homem. O publicano permaneceu em pé, distante, abaixou sua cabeça e orou: “Ó Deus, sê misericordioso comigo, pecador”. Em nossos cultos, dirigidos pelas Escrituras e dependentes de Cristo, estamos verdadeiramente adorando a Deus; não deixamos simplesmente que as coisas caminhem, mas unicamente queremos adorar; nós adoramos o Deus vivo em espírito e em verdade, sabendo que o Pai está buscando ativamente tais pessoas que O adorem! Nós não cremos que todas essas novas ênfases na espontaneidade e na condução da adoração por homens, mulheres e jovens nos esteja levando a uma conscientização maior sobre Deus e à verdadeira adoração. Pelo contrário, existem abundantes evidências de que a adoração se encontra em declínio. Consideremos, por exemplo, a mudança em nosso modo de nos endereçarmos a Deus, o que tem ocorrido nos últimos vinte anos.

Será que isso representa um progresso e um amadurecimento no culto e oração pública? O que será que significa essa nova linguagem utilizada para orarmos: “Nós só queremos Te adorar, Te louvar”; “Somente a Ti, Jesus, queremos adorar”? As frases truncadas e curtas podem ser comparadas desfavoravelmente com os argumentos bem construídos e confiantes, acoplados com a reverência constante observadas nas orações das gerações anteriores.

10. A verdadeira adoração tem o seu clímax no dia do Senhor. A liberdade que o povo de Deus desfruta sob a nova aliança não lhes dá o direito de se reunirem somente quando se sentirem conduzidos ou dirigidos a fazê-lo. Na igreja apostólica, a adoração tinha períodos pré-determinados para ocorrer. No primeiro dia da semana eles se reuniam para partir o pão, ouvir a Palavra de Deus e recolher as ofertas (Atos 20:7; 1 Coríntios 16:2). Mesmo que eles não sentissem o mesmo ânimo para realizar essas coisas naquele dia e se sentissem mais inclinados às coisas religiosas no terceiro dia, por exemplo, era no primeiro dia que eles deviam reunir-se para adorar. O mesmo pode ser dito hoje. Nós não somos “Adventistas do quinto dia”, daqueles que se reúnem na quinta feira, à noite, e nos orgulhamos das bênçãos maravilhosas e da fantástica comunhão quando o Senhor “realmente” se reúne com dez de nós. Não, nós devemos reunir-nos no Espírito, no dia designado, o dia do Senhor, e com todo o povo de Deus.

“Podemos muito bem dizer que adoramos a Deus, ainda que não sejamos perfeitos. Porém, não podemos dizer que O adoramos, se nos falta sinceridade”. (Stephen Charnock)

“Nós não vamos à igreja para adorar, porque a adoração deveria ser a atividade e atitude constantes do cristão dedicado. Nós vamos à igreja para adorar pública e corporativamente”. (John Armstrong)

“Muitos vêm ouvir a Palavra somente para satisfazer seus ouvidos; eles apreciam a melodia da voz, a doçura suave da expressão, a novidade do conceito (At.17:21). Isso é amar mais o enfeite do prato do que o alimento em si; isso é o mesmo que desejar mais agradar a si mesmo do que ser edificado. É o mesmo que uma mulher que pinta o seu rosto e se esquece de sua saúde”. (Thomas Watson)

“Deus não pode ter concorrentes! Somente Ele deve ser louvado”. (John Armstrong)


Nota sobre o autor: Geoffrey Thomas é pastor da Igreja Batista Alfred Place Baptist Church em Aberystwyth, País de Gales. Ele também trabalha como Editor Assistente da Banner of Truth e do The Evangelical Times.

Traduzido por: Eurico Correia

Fonte: Revista Os Puritanos.


segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Eu Quero A Religião Show!

John. F. MacArthur

“O fato é que muitos gostariam de unir igreja e palco, baralho e oração, danças e ordenanças. Se nos encontramos incapazes de frear essa enxurrada, podemos, ao menos, prevenir os homens quanto à sua existência e suplicar que fujam dela. Quando a antiga fé desaparece e o entusiasmo pelo evangelho é extinto, não é surpresa que as pessoas busquem outras coisas que lhes tragam satisfação. Na falta de pão, se alimentam com cinzas; rejeitando o caminho do Senhor, seguem avidamente pelo caminho da tolice.” (Charles Haddon Spurgeon [1])


No “final do século XIX... a ‘Era da Exposição’ começou a passar, e os primeiros sinais de sua substituição começaram a ser percebidos. Em seu lugar surgiu a ‘Era do Show Business’”. [2]

Enquanto Charles Spurgeon batalhava nA Controvérsia do Declínio, uma tendência mundial começava a emergir, a qual estabeleceria o curso dos afazeres humanos em todo o século XX. Era o surgimento do entretenimento como o centro da vida familiar e cultural. Essa mesma tendência viu o declínio do que Neil Postman chamou de “A Era da Exposição”, cuja característica era uma ponderada troca de idéias, de forma escrita e verbal (pregação, debates, preleções). Isso contribuiu para o surgimento da “Era do Show Business’” – na qual a diversão e o entretenimento se tornaram os aspectos mais importantes e que mais consumiriam o tempo de conversa das pessoas. Dramatização, filmes e, finalmente, a televisão colocaram o “Show Business” no centro de nossas vidas – em última análise, bem no centro de nossa sala de estar.

No “show business”, a verdade é irrelevante; o que realmente importa é se estamos sendo ou não entretidos. Atribui-se pouco valor ao conteúdo; o estilo é tudo. Nas palavras de Marshall McLuhan, o veículo é a mensagem. Infelizmente, hoje essa forma de pensar norteia tanto a igreja quanto o mundo.

Em 1955, A. W. Tozer escreveu as seguintes palavras:

Durante séculos a igreja manteve-se firme contra toda forma de entretenimento mundano, reconhecendo-o como um dispositivo para se perder tempo, um refúgio contra a perturbadora voz da consciência, um plano para se desviar a atenção de contas quanto à moral. Por manter sua posição, ela sofreu abusos por parte dos filhos deste mundo. Ultimamente, entretanto, ela se cansou de ser abusada e simplesmente desistiu da luta. Parece ter firmado a posição de que, se não pode vencer o deus do entretenimento, o melhor que pode fazer é unir suas forças às dele e aproveitar o máximo de seus poderes. Por isso, contemplamos hoje o assombroso espetáculo de milhões de dólares sendo vertidos no negócio nada santo de prover entretenimento mundano aos chamados filhos dos céus. O entretenimento religioso está, em muitos lugares, rapidamente desalojando as sérias coisas de Deus. Muitas igrejas, em nossos dias, se tornaram nada mais que pobres teatros onde “produtores” de quinta categoria mascateiam suas mercadorias de baixo valor com plena aprovação dos seus líderes evangélicos, que chegam a citar textos bíblicos para justificar tal delinqüência. E é difícil acharmos alguém que ouse levantar a sua voz contra isso. [3]

De acordo com os padrões da atualidade, as questões que tanto inflamaram as paixões de Tozer parecem insignificantes. Por exemplo, igrejas estavam atraindo pessoas para seus cultos de Domingo à noite através da apresentação de filmes cristãos. Encontros de jovens eram realizados tendo como atração a música contemporânea e palestrantes cuja especialidade era o humor. Jogos e atividades onde se gasta muita energia passaram a desempenhar um papel chave no trabalho com os jovens das igrejas. Olhando para trás, parece difícil entendermos a angústia de Tozer. Raramente alguém hoje fica chocado ou preocupado com quaisquer métodos que pareciam radicalmente inovadores nos anos cinqüenta. A maioria deles é hoje vista com naturalidade.

Entretanto, Tozer não estava condenando jogos, estilos musicais ou filmes em si mesmos. Ele estava perplexo a respeito da filosofia que estava por trás do que vinha acontecendo à igreja. Ele soou o alarme contra a mortal mudança de enfoque. Contemplou os evangélicos fazendo uso do entretenimento como uma ferramenta para o crescimento da igreja, acreditava que isso eqüivalia à subversão das prioridades da igreja. Temia que os desvios frívolos e as diversões carnais da igreja, em última análise, destruiriam o apetite das pessoas pela verdadeira adoração e pela pregação da Palavra de Deus.

Tozer estava certo quanto a isso. Aliás, a sua repreensão revela-se a cada dia mais apropriada. Ele e Spurgeon, que o precedeu, estavam identificando uma tendência que desabrochou por completo em nossa geração. Aquilo com que a igreja flertava à época de Spurgeon tornou-se fascinação na época de Tozer. Atualmente, tornou-se uma obsessão. E o que é mais prejudicial ainda é que as formas de entretenimento encontradas hoje na igreja são, com freqüência, completamente seculares, destituídas de qualquer aspecto cristão.

Um artigo escrito no The Wall Street Journal descreveu a proposta de uma conhecida igreja no sentido de “reanimar a assistência aos cultos dominicais noturnos”. A igreja “exibiu uma luta livre entre seus empregados. Tendo em vista a preparação para o evento, dez funcionários foram instruídos por Tugboat Taylor, um ex-lutador profissional, em puxar os cabelos, chutar os queixos dos outros e arremessar seus corpos ao chão sem lhes causar qualquer dano”. [4] Isto não trouxe dano físico algum aos funcionários da igreja, mas qual o efeito de tal exibição sobre a mensagem anunciada por aquela igreja? O evangelho não se torna deturpado e pessimamente caricaturado por esse tipo de palhaçada? Você poderia imaginar o que Spurgeon ou Tozer teriam pensado a respeito disso? (...) O episódio aconteceu em um culto de Domingo à noite em uma das cinco maiores igrejas evangélicas dos Estados Unidos. Outros exemplos poderiam ser citados de várias das mais destacadas igrejas, supostamente pertencentes aos principais grupos da ortodoxia evangélica.

Alguns afirmarão que, se os princípios bíblicos forem apresentados, o instrumento para fazê-lo não é importante. Isso é bobagem. Se o entretenimento é a chave para conquistar pessoas, por que não sairmos completamente do prumo? Por que não termos um verdadeiro carnaval? Poderíamos contar com um acrobata tatuado, andando sobre um fio bem alto, fazendo malabarismos com as mãos e recitando versículos, enquanto um cão treinado se equilibraria na sua cabeça. Isso certamente atrairia uma multidão. E o conteúdo da mensagem ainda seria bíblico. É um cenário bizarro, mas ilustra bem como o veículo pode baratear e corromper a mensagem.

Infelizmente, isso não é tão diferente do que está, de fato, sendo realizado em algumas igrejas. Parece não haver limites com relação ao que alguns líderes na igreja moderna farão, a fim de atrair pessoas que não se interessam por adoração e pregação. Muitos já se renderam à idéia de que a igreja precisa conquistar os homens através do oferecer-lhes uma forma alternativa de entretenimento.

Até que ponto a igreja irá em sua competição com Hollywood? Uma grande igreja do sudoeste dos Estados Unidos acaba de instalar um sistema de efeitos especiais, que custou meio milhão de dólares, capaz de produzir fumaça, fogo, faíscas e luzes de lazer no auditório. A igreja enviou alguns de seus membros para estudar, ao vivo, os efeitos especiais de Bally’s Casino, em Las Vegas. O pastor terminou um dos cultos sendo elevado ao “céu” por meio de fios invisíveis que o tiraram da vista do auditório, enquanto o coral e a orquestra adicionavam um toque musical à fumaça, ao fogo e ao jogo de luzes. [5] Para aquele pastor, tudo não passou de um típico show dominical: “Ele lota a sua igreja através desses artifícios especiais, tais como derrubar uma árvore com uma serra para ilustrar um ponto de sua mensagem... realizar o maior espetáculo de fogos do 4 de julho da cidade e um culto de Natal com um elefante, um canguru e uma zebra alugados. O Show de Natal apresenta 100 palhaços com presentes para as crianças da igreja”. [6]

Bobagens desse gênero teriam sido o conteúdo dos piores pesadelos de Spurgeon. Até mesmo Tozer não poderia ter previsto o extremo ao qual os evangélicos chegariam em render homenagens ao grande deus entretenimento.

Energizados Pelo Pragmatismo

Não há como negar que essas excentricidades funcionam, isto é, atraem a multidão. Muitas igrejas que experimentaram tais métodos relatam desfrutar um crescimento numérico na assistência a seus cultos. E uma porção de megaigrejas – aquelas que podem pagar por produções, efeitos e instalações de primeira classe – têm se mostrado capazes de estimular um grande crescimento numérico. Algumas delas enchem auditórios enormes, com milhares de pessoas, várias vezes por semana.

Algumas dessas megaigrejas relembram elegantes clubes de campo ou estâncias de férias. Possuem instalações que impressionam, incluindo boliche, cinema, spas, restaurantes, quadras para jogos, rinques de patinação e ginásios poliesportivos de última geração. A recreação e o entretenimento são, inevitavelmente, os aspectos mais visíveis destes empreendimentos. Tais igrejas tornaram-se as Mecas dos estudantes de crescimento de igreja.

No momento, os evangélicos em toda parte estão procurando freneticamente novas técnicas e formas de entretenimento para atrair o povo. Seja o método bíblico ou não, hoje isso não parece ter importância para o líder de igreja. Produz resultados? Esse é o novo parâmetro para a legitimidade em nossos dias. Dessa forma, o pragmatismo tem se tornado a força impulsionadora de muitas das igrejas professas de nossos dias.

É Hora do Espetáculo!

Quando Charles Spurgeon nos advertiu a respeito daqueles que “gostaria de unir igreja e palco, baralho e oração, danças e ordenanças”, foi menosprezado como um alarmista. Mas a profecia de Spurgeon se cumpriu diante de nossos olhos. As igrejas modernas são construídas assemelhando-se a teatros (“casas de divertimento”, Spurgeon as chamou). Em lugar do púlpito, o enfoque está no palco. As igrejas estão contratando, em regime de tempo integral, especialistas em mídia, consultores de programação, diretores de cena, professores de teatro, peritos em efeitos especiais e coreógrafos.

Tudo isso não passa da extensão natural de uma filosofia norteada por marketing seguida pelas igrejas. Se a igreja funciona apenas com o objetivo de promover um produto, é bom mesmo que seus líderes prestem atenção aos métodos da Avenida Madison. Afinal, a maior competição para a igreja é um mundo repleto de diversões seculares e uma gama de bens e serviços mundanos. Portanto, dizem os especialistas de marketing, jamais conquistaremos as pessoas até que desenvolvamos formas alternativas de entretenimento a fim de ganhar-lhes a atenção e a lealdade, desviando-as das ofertas do mundo. Desta forma, esse alvo estipula a natureza da campanha de marketing.

E o que há de errado nisso? Por um lado, a igreja não deveria mercadejar seu ministério, como sendo uma alternativa aos divertimentos seculares (I Tessalonicenses 3:2-6). Isto acaba corrompendo e barateando a verdadeira missão da igreja. Não somos apresentadores de carnaval, ou vendedores de carros usados, ou camelôs. Somos embaixadores de Cristo (II Coríntios 5:20). Conhecendo o temor do Senhor (v.11), motivados pelo amor a Cristo (v. 14), tendo sido completamente transformados por Ele (v. 17), imploramos aos pecadores que se reconciliem com Deus (v. 20).

Também, em lugar de confrontar o mundo com a verdade de Cristo, as megaigrejas nortadas por marketing estão promovendo com entusiasmo as piores técnicas da cultura secular. Alimentar o apetite das pessoas por entretenimento apenas agrava o problema das emoções insensatas, da apatia e do materialismo. Com toda franqueza, é difícil conceber uma filosofia de ministério mais contrária ao padrão que o Senhor nos confiou.

Proclamar e expor a Palavra, visando o amadurecimento e a santidade dos crentes deveria ser âmago do ministério de toda igreja. Se o mundo olha para a igreja e vê ali um centro de entretenimento, estamos transmitindo a mensagem errada. Se os cristãos enxergam a igreja como um salão de diversões, a igreja morrerá. Uma senhora, inconformada com sua igreja, que tinha abraçado todas essas excentricidades modernas, queixou-se recentemente: “Quando é que a igreja vai parar de tentar entreter os bodes e voltar a alimentar as ovelhas?”

Nas Escrituras, nada indica que a igreja deveria atrair as pessoas a virem a Cristo através do apresentar o Cristianismo como uma opção atrativa. Quanto ao evangelho, nada é opcional: “E não há salvação em nenhum outro; porque debaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4:12). Tampouco o evangelho tem o objetivo de ser atraente, no sentido do marketing moderno. Conforme já salientamos, freqüentemente a mensagem do evangelho é uma “pedra de tropeço e rocha de escândalo” (Romanos 9:33; I Pedro 2:8). O evangelho é perturbador, chocante, transtornador, confrontador, produz convicção de pecado e é ofensivo ao orgulho humano. Não há como “fazer marketing” do evangelho bíblico. Aqueles que procuram remover a ofensa, ao torná-lo entretenedor, inevitavelmente corrompem e obscurecem os pontos cruciais da mensagem. A igreja precisa reconhecer que sua missão nunca foi a de relações públicas ou de vendas; fomos chamados a um viver santo, a declarar a inadulterada verdade de Deus – de forma amorosa, mas sem comprometê-la – a um mundo que não crê.

O Crescimento Numérico é Um Alvo Digno?

Convém dizer que não me oponho a igrejas grandes ou ao crescimento da igreja. A Grace Community Church, fundada há mais de trinta e cinco anos, tem experimentado um crescimento expressivo em toda a sua história. Aos domingos, quase dez mil pessoas assistem os nossos cultos. Passamos por ciclos de crescimento seguidos de “planaltos”. No momento, desfrutamos de outra fase de crescimento expressivo.

Oponho-me ao pragmatismo tão freqüentemente defendido por especialistas em crescimentos de igreja, que colocam o crescimento numérico acima do crescimento espiritual, crendo que podem induzir esse crescimento numérico por seguirem quaisquer técnicas que parecem produzir resultados naquele momento. O modismo provocado por essa filosofia está se tornando mais e mais indisciplinado. Está afastando as pessoas das igrejas bíblicas e desviando as igrejas das prioridades bíblicas, enquanto faz surgir um punhado de megaigrejas cujo crescimento depende da capacidade de se antecipar e responder adequadamente à próxima tendência cultural que aparecerá. A igreja foi atraída para longe do verdadeiro avivamento e seduzida por aqueles que advogam a popularização do cristianismo. E, infelizmente, a maioria dos cristãos parece desatenta ao problema, satisfeita com um cristianismo que está na moda e que é altamente vistoso.

É o crescimento numérico um alvo digno no ministério da igreja? É lógico que nenhum bom líder da igreja argumentaria seriamente contra o crescimento numérico, considerando-o inerentemente indesejável. E ninguém crê que a estagnação ou o declínio numérico devem ser buscados. Mas, o crescimento numérico é sempre o melhor indicador da saúde da igreja?

Concordo com George Peters, que escreveu:

O crescimento quantitativo... pode ser enganador. Pode não ser mais do que a proliferação de um movimento social ou psicológico mecanicamente induzido, uma contagem numérica, uma aglomeração de indivíduos ou grupos, um crescimento de um corpo sem o desenvolvimento dos músculos e dos órgãos vitais. Talvez se trate de uma forma de cristandade, mas não da emergência do verdadeiro cristianismo. Muitos movimentos que alcançaram os povos no passado , tais como movimentos comunitários e tribais, foram assim. Um exemplo disso encontra-se nas adesões em massa na Europa, em especial na França e Rússia, quando muitos foram levados ao batismo e trazidoa para dentro da igreja, resultando em um grande número de pessoas que professavam a crsitandade, mas não resultando em uma dinâmica, vibrante, crescente e responsável igreja de Jesus Cristo... Precisamos admitir... que, em grande parte, essa expansão da forma, da profissão e do nome da cristandade manifesta pouca semelhança ao cristianismo definido no Novo Testamento e à igreja retratada no livro de Atos.

De muitas formas, a expansão da cristandade veio em detrimento da pureza do evangelho e da verdadeira ordem e vida cristã. A igreja tornou-se infestada de práticas e crenças pagãs e sincretista em sua teologia... Grandes segmentos tornaram-se cristo-pagãos. [7]

Nenhum texto das Escrituras indica que os líderes eclesiásticos deveriam estipular alvos para o seu crescimento numérico da igreja. [8] Ouçam como o apóstolo Paulo descreveu o processo de crescimento da igreja: “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma cousa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (I Coríntios 3:6,7).

Se nos preocuparmos com a profundidade de nosso ministério, Deus cuidará de sua largura. Se ministrarmos tendo em vista o crescimento espiritual, o crescimento numérico será aquilo que Deus tenciona que seja.

Afinal de contas, qual o benefício de um crescimento numérico que não está arraigado em um compromisso com o Senhorio de Cristo? Se as pessoas vêm à igreja primariamente por considerarem isso divertido, em breve hão de abandoná-la, tão logo acabe o entretenimento ou tão logo encontrem algo mais interessante. Desta forma, a igreja é forçada a participar de um ciclo vicioso, onde precisa constantemente sobrepujar cada espetáculo com algo maior e melhor.

As Raízes Pragmáticas do Movimento de Crescimento de Igreja

O pragmatismo como filosofia de ministério ganhou ímpeto a partir do movimento de crescimento de igreja que floresceu nos últimos cinqüenta anos. Donald McGravan, o pai do moderno movimento de crescimento de igreja, foi um pragmatista descarado. Ele afirmou:

Criamos métodos e políticas missionárias à luz do que Deus abençoou e à luz daquilo que Ele, obviamente, não abençoou. A indústria chama isso de “modificar operações à luz da realimentação”. Nada atrapalha tanto as missões transculturais quanto os métodos, instituições e políticas que deveriam atrair as pessoas a Cristo, mas não o fazem; que deveriam multiplicar as igrejas, mas não o fazem. Se um método não contribui para a glória de Deus e para a expansão da igreja de Cristo, jogue-o fora e arranje algo que o faça. Quanto aos métodos, somos ousadamente pragmáticos; a doutrina é algo diferente. [9]

Como jovem missionário na Índia e sendo filho de missionários, McGravan percebeu que era comum ver organizações missionárias labutar na Índia durante muitos anos, e colher pouco ou nenhum fruto. A sua própria agência missionária plantou apenas vinte ou trinta pequenas igrejas em várias décadas de esforço missionário. [10] McGravan, então, resolveu desenvolver uma estratégia para missões que observasse quais métodos produziriam resultados e quais não funcionavam. “De acordo com sua própria declaração no prefácio de um livro de sua co-autoria, na década de 30, ele se dedicou a ‘descartar teorias de crescimento de igreja que não têm bom êxito e a aprender e praticar modelos produtivos...’” [11]

O pragmatismo de McGravan parece ter sido motivado por uma legítima preocupação com mordomia. Ele “ficou assustado ao perceber que muitos dos recursos de Deus – humanos e financeiros – estavam sendo usados, sem que ninguém questionasse se o reino de Deus estava avançando ou não, através dos programas que eles estavam sustentando”. [12] Mas o pragmatismo acabou se tornando a base filosófica para quase tudo que McGravan ensinou, e isso, por sua vez, tornou-se a agenda de todo o movimento moderno de crescimento de igreja.

McGravan fundou o Instituto de Crescimento de Igreja, que em 1965 se uniu à Escola Fuller de Missões Mundiais. A partir dali, os preceitos do pragmatismo têm alcançado praticamente todos os campos missionários do mundo.

C. Peter Wagner, professor do crescimento de igreja na Escola Fuller de Missões Mundiais, é o mais conhecido dos alunos de Donald McGravan. Atualmente, Wagner é o porta-voz mais profílico, se não o mais influente, do movimento de crescimento de igreja. Ele escreveu acerca do pragmatismo inerente ao movimento:

O Movimento de Crescimento de Igreja sempre enfatizou o pragmatismo, e ainda o faz, embora muitos o tenham criticado. Não é o tipo de pragmatismo que compromete a doutrina ou a ética ou que desmumaniza as pessoas, usando-as como instrumento para um determinado propósito. Entretanto, é um tipo de pragmatismo consagrado que examina impiedosamente os programas e as metodologias tradicionais, questionando-as com severidade. Se algum tipo de ministério em uma igreja não está atingindo os alvos tencionados, o pragmatismo consagrado diz que há algo de errado e precisa ser corrigido. [13]

Wagner, como a maioria dos envolvidos no movimento de crescimento de igreja, reivindica que o “pragmatismo consagrado”, que ele advoga, não permite, comprometimento doutrinário ou ético. “A Bíblia não nos consente pecar, a fim de que a graça seja mais abundante, ou não permite usarmos quaisquer meios que Deus tenha proibido, a fim de alcançarmos os fins que Ele nos recomendou”, Wagner destaca corretamente. [14]

“Mas, com esta estipulação”, ele continua, “temos de perceber nitidamente que os fins, de fato, justificam os meios. O que mais poderia justificar os meios? Se o método que estou utilizando alcança o alvo a que me propus, por essa razão é um bom método. Se, por outro lado, o método não está atingindo o alvo, como posso justificar-me por continuar utilizando-o?” [15]

Isso é verdade? Não, com toda certeza. Especialmente se “o alvo a que me propus” é um alvo numérico sem o aval bíblico ou se o “método que não está atingindo o alvo” é a pregação cristalina da Palavra de Deus. É precisamente esta maneira de pensar que está retirando a exposição bíblica do ministério cristão, substituindo-a por espetáculos de variedades.

Um best-seller recente dá um passo além:

É... crucial termos em mente o princípio da comunicação cristã: o auditório, e não a mensagem, é soberano. Se nossa pregação almeja fazer com que as pessoas parem, em meio a uma agenda confusa, e reflitam sobre o que lhes estamos dizendo, nossa mensagem terá de se adaptar às necessidades do auditório. Quando pregamos algo que se baseia na proposição do pegue-ou-largue, em vez de uma sensibilidade e resposta às necessidades das pessoas, estas acabarão, invariavelmente, rejeitando nossa mensagem. [16]

O que teria acontecido se os profetas do Antigo Testamento tivessem endossado essa filosofia? Jeremias, por exemplo, pregou durante quarenta anos sem ver qualquer resultado significativo. Pelo contrário, seus conterrâneos ameaçaram matá-lo, se não parasse de profetizar (Jeremias 11:19-23); sua própria família e amigos conspiraram contra ele (12:6); por não ser permitido casar-se, teve de sofrer uma solidão agonizante (16:2); houve conspirações secretas para matá-lo (18:20-23); foi ferido e colocado no tronco (20:1,2); foi espionado por amigos que buscavam vingança (v. 10); foi consumido por desgosto e vergonha, chegando a amaldiçoar o dia em que nasceu (v. 14-18); e por fim foi injuriado e considerado um traidor de sua própria nação (37:13,14). Ele foi açoitado e atirado em um calabouço, passando ali muitos dias sem comer (v. 15-21). Se um etíope não tivesse intercedido em seu favor, Jeremias teria morrido ali. Por fim, a tradição ensina que ele foi exilado para o Egito, onde foi apedrejado e morto por seu próprio povo. Jeremias não teve convertidos a apresentar como fruto de uma vida toda de ministério.

Suponhamos que Jeremias tivesse assistido um seminário sobre o crescimento de igreja e aprendido uma filosofia pragmática de ministério. Você acha que isso teria mudado seu estilo de ministério confrontador? Podem imaginá-lo apresentando um Show de variedades ou utilizando o humor para tentar conseguir o afeto das pessoas? Ele poderia ter aprendido como reunir uma multidão apreciável, mas certamente não teria realizado o ministério para o qual Deus o chamara.

O apóstolo Paulo também não usou um método baseado em técnicas de marketing, embora alguns autodenominados experts tenham procurado mostrá-lo como modelo para o neopragmatismo. Um dos que advogam as técnicas de marketing afirma: “Paulo foi o maior de todos os peritos em táticas. Constantemente ele estudava as estratégias e táticas para identificar as que lhe permitiriam atrair o maior número de ‘candidatos’ e conseguir o maior número possível de conversões”. [17] É claro que a Bíblia nada diz em respaldo a essa afirmação. Pelo contrário, o apóstolo Paulo evitou métodos engenhosos e artifícios que o conduzissem as pessoas a falsas conversões, através da persuasão carnal. Ele memo escreveu:

Eu, irmão, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi com fraqueza, temor e grande tremor que eu estivesse entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e, sim, no poder de Deus (I Coríntios 2:1-5).

À igreja em Tessalônica ele relembrou:

Pois a nossa exortação não procede de engano, nem de impureza, nem se baseia em dolo; pelo contrário, visto que fomos aprovados por Deus, a ponto de nos confiar ele o evangelho, assim falamos, não para que agrademos a homens, e, sim, a Deus, que prova o nosso coração. A verdade é que nunca usamos de linguagem de bajulação, como sabeis, nem de intuitos gananciosos. Deus disto é testemunha. Também jamais andamos buscando glória de homens, nem de vós, nem de outros (I Tessalonicenses 2:3-6).

A exatidão bíblica é o único critério pelo qual devemos avaliar nossos métodos de ministério.

Qualquer filosofia de ministério do tipo “fins-que-justificam-os-meios” inevitavelmente comprometerá a doutrina, a despeito de qualquer proposição em contrário. Se a eficácia se tornar o indicador do que é certo ou errado, sem a menor dúvida nossa doutrina será diluída. Em última análise, o conceito de verdade para um pragmatista é moldado pelo que parece ser eficaz e não pela revelação objetiva das Escrituras.

Uma consideração da metodologia do movimento de crescimento de igrejas revela como isso acontece. O movimento estuda todas as igrejas que estão crescendo, até mesmo aquelas que possuem doutrinas falsas no âmago de seu ensino. Igrejas denominacionais liberais, seitas carismáticas extremadas e ditaduras de hiperfundamentalismo militante são observadas para o escrutínio dos especialistas. Às vezes, princípios de crescimento são tirados até mesmo das igrejas dos mórmons ou dos Salões do Reino das Testemunhas de Jeová. O especialista em crescimento de igreja procura características comuns a todas as igrejas que estão crescendo e advoga quaisquer métodos que pareçam estar produzindo resultados. E a questão principal é sempre o crescimento numérico.

Será que devemos crer que o crescimento em uma igreja não-cristã comprova que Deus está ali operando? Deveríamos utilizar a metodologia de grtupos religiosos que corrompem o evangelho? Não é justo questionarmos se qualquer crescimento resultante de tais métodos é ilegítimo, sendo engendrado por meios carnais? Afinal, se um método demonstra ser bem-sucedido tanto para uma determinada seita quanto para o povo de Deus, não existe razão para supormos que os resultados positivos são sinônimo da bênção de Deus.

Algo que está completamente ausente da maior parte da literatura sobre crescimento de igreja é uma análise crítica da eficiente plataforma doutrinária sobre a qual muito do crescimento da igreja contemporânea é construído. Certo autor, falando acerca de Peter Wagner, disse:

Wagner não faz avaliação negativa de quem quer que seja. Ele fez sua carreira a partir da descoberta do que é bom em igrejas que estão crescendo e em ratificar isso, sem fazer muitas perguntas críticas. Isso lhe permite apresentar como modelos de vida de igreja não apenas as Igrejas Vineyard, de John Wimber, mas também a Catedral de Cristal, de Robert Schuller, toda a denominação Batista do Sul e qualquer outra denominação que esteja em crescimento. [18]

O fato de uma igreja estar crescendo é freqüentemente confundido com a aprovação divina. Afinal, as pessoas raciocinam, por que ser crítico sobre qualquer ensinamento que Deus está abençoando com crescimento numérico? Não é melhor tolerar as imperfeições doutrinárias e os lapsos de ortodoxia, por amor ao crescimento e à unidade? Desta forma, o pragmatismo amolda e dá forma à perspectiva doutrinária das pessoas.

O próprio Peter Wagner, por exemplo, anteriormente um não-carismático, mudou seu pondo de vista a fim de aceitar o movimento de sinais e maravilhas e o movimento da “Terceira Onda”, por razões que são amplamente pragmáticas. E ele é bastante franco a esse respeito:

Orgulho-me de estar entre os que advogam o evangelismo de poder como uma ferramenta importante para o cumprimento da grande comissão em nossos dias. Uma das razões por que estou tão entusiasmado é que o evangelismo de poder está produzindo resultados. Em geral, o evangelismo mais eficaz do mundo contemporâneo é o que vem acompanhado por manifestações de poder sobrenatural. [19]

É óbvio, então, que o pragmatismo de Wagner moldou a sua doutrina e não vice-versa.

Ele admite isso. Declara que a metodologia do movimento de crescimento de igrejas é “fenomenológica” e não teológica. Wagner admite que essa abordagem “pode parecer totalmente subjetiva para teólogos tradicionais”. [20] E continua: “Como ponto de partida, o crescimento de igreja sempre focaliza o ‘é’ antes de olhar para o ‘deveria ser’... O que os cristãos experimentaram acerca da obra de Deus no mundo e em suas vidas nem sempre é precedido de cuidadosas racionalizações teológicas. Muitas vezes, a seqüência é exatamente o oposto: a teologia é moldada pela experiência cristã”. [21]

Sendo este o caso, não é sem sentido a afirmação de Wagner ao falar que seu pragmatismo “não é do tipo que compromete a doutrina”? [22] Afinal, se a experiência sugere que sinais e maravilhas são ferramentas eficazes para o crescimento de igreja e se é legítimo permitir que nossa experiência molde nossa teologia, é lógico que alguém modifique sua doutrina – como fez o próprio Wagner – para acomodar-se a alguma observação pragmática e heurística. Deve-se, então, simplesmente, encontrar uma forma de se reinterpretar ou adaptar as Escrituras a fim de que estas se encaixem em qualquer esquema doutrinário que o pragmatismo pareça impor.

É tolice pensar que alguém pode ser bíblico e pregamático, ao mesmo tempo. O pragmatista deseja saber o que produz resultados. O pensador bíblico se importa tão-somente com o que a Bíblia ordena. As duas filosofias se opõem mutuamente no nível mais básico.

A Era do Pragmatismo

Não obstante, o pragmatismo filosófico nunca tem estado mais popular nas igrejas evangélicas. O movimento de crescimento de igrejas, que por muitos anos foi um importante fator na atividade missionária mundial, está agora exercendo tremenda influência no evangelicalismo ocidental. As galinhas do pragmatismo estão voltando ao lar para se empoleirarem. As igrejas da América do Norte estão, às centenas, experimentando as metodologias pragmáticas, e o resultado tem sido uma explosão de interesses em técnicas inovadoras a respeito de crescimento de igreja. O movimento de crescimento de igrejas fez uma aliança extra-oficial com aqueles que crêem ser o evangelismo primordialmente uma aventura de marketing.

O pragmatismo na igreja reflete bem o espírito de nossa época. Livros com títulos tais como: Marketing seu Próprio Ministério, Marketing a Igreja, e O Desenvolvimento do Marketing Eficaz e das Estratégias de Comunicação para Igrejas são a última moda. A indústria publicadora cristã vem produzindo, para líderes de igrejas, conselhos e mais conselhos tirados de campos seculares de estudo – psicologia, marketing, administração, política, entretenimento e negócios – enquanto os comentários, livros de auxílio para estudo bíblico e livros acerca de questões bíblicas estão em declínio.

O modelo para o pastor contemporâneo não é mais o profeta nem o pastor, é o executivo de corporação, o político ou, pior ainda, o apresentador de programas de “bate-papo” na televisão. A maioria das igrejas contemporâneas estão preocupadas com índices de audiência, pesquisas de popularidade, imagem corporativa, estatísticas de crescimento, lucro financeiro, pesquisas de opinião pública, gráficos populacionais, dados de recenseamento, tendências da moda, status das celebridades, a lista dos dez mais e outras questões pragmáticas. O que está desaparecendo é a paixão da igreja pela pureza e pela verdade. Ninguém parece se importar, desde que a reação das pessoas seja entusiástica.

Tozer percebeu que o pragmatismo havia se introduzido furtivamente na igreja de seus dias. Ele escreveu: “Digo sem hesitação que uma parte, uma grande parte, das atividades existentes hoje nos círculos evangélicos não são apenas influenciados pelo pragmatismo, mas parecem totalmente dominados por ele”. [23] Tozer descreveu o perigo que até mesmo o pragmatismo “consagrado” representa para a igreja:

A filosofia pragmática... não faz perguntas embaraçosas a respeito da sabedoria daquilo que estamos realizando ou a respeito de sua moralidade. Aceita como corretos e bons nossos alvos escolhidos, buscando meios e maneiras eficientes para alcançá-los. E, quando descobre algo que tem êxito, logo encontra um texto bíblico para justificá-lo, “consagra-o” ao Senhor e vai em frente. Em seguida alguém escreve um artigo em uma revista, depois sai um livro, e, finalmente, o inventor recebe um título de honra. Após tudo isso, qualquer indignação quanto à sua biblicidade ou até mesmo quanto ao seu valor moral é completamente rejeitada. Não há como se argumentar contra o sucesso. O método produz resultados, portanto, deve ser bom. [24]

Uma Filosofia Falida

Você percebe como esta nova filosofia necessariamente corrompe a sã doutrina? Descarta o próprio método de Jesus – pregar e ensinar – como instrumentos primordiais do ministério, substituindo-os por metodologias completamente vazias de conteúdo. Ela existe independentemente de qualquer credo ou canon. Aliás, evita dogmas ou convicções fortes, considerando-os como divisivos, indecorosos ou impróprios. Rejeita a doutrina como algo acadêmico, abstrato, estéril, ameaçador ou simplesmente não-prático. Em vez de ensinar o erro ou negar a verdade, ela faz algo bem mais sutil e igualmente eficaz do ponto de vista do inimigo. Não se preocupa com o conteúdo. Não ataca a ortodoxia frontalmente, mas presta culto à verdade apenas da boca para fora, enquanto mina, em silêncio, os alicerces da doutrina. Em vez de exaltar a Deus, esta filosofia deprecia as coisas que são preciosas para Ele. Nesse sentido, o pragmatismo se apresenta como um perigo mais sutil do que o liberalismo que ameaçou a igreja na primeira metade do século XX.

O liberalismo atacou a pregação bíblica. Um dosvultos liberais de maior influência nos Estados Unidos, no início do século XX, foi Harry Emerson Fosdick, que escreveu: “Pregadores que tomam textos da Bíblia e depois apresentam seu conteúdo histórico, seu significado lógico no contexto, seu lugar na teologia do escritor, anexadas a reflexões práticas, estão empregando mal a Bíblia.” [25] A mesma preocupação pragmática que invadiu o evangelicalismo de nossos dias levou Fosdick a seu ódio pela exposição bíblica:

Com certeza, poderia qualquer outro procedimento estar mais predestinado à monotonia e à futilidade? Aliás, quem poderia afirmar que pelo menos um, dentre cem, dos ouvintes estaria preocuado com o que Moisés, Isaías, Paulo ou João queriam dizer naquela passagem específica ou que tenha vindo à igreja profundamente interessado em tais veículos? Ninguém que conversa com o público presume que o interesse vital das pessoas está centralizado no significado de palavras ditas há dois mil anos. [26]

A sugestão de Fosdick foi que os pregadores deveriam começar pelas necessidades sentidas no auditório: “Que eles não concluam, e, sim, comecem pensando nas necessidades vitais do auditório; e que todo o sermão seja organizado em torno de um esforço construtivo para atender estas necessidades”. [27]

“Tudo isso manifesta bom senso pela psicologia”, escreveu Fosdick, apelando ao pragmatismo como justificativa. “Todo mundo usa esse estilo, desde professores a anunciantes de alto nível. Por que tantos pregadores persisitem em um costume antiquado e negligenciam isso?” [28]

Trata-se exatamente da sabedoria convencional da “igreja amigável”, norteada por marketing. Começa levando em conta as necessidades sentidas e aborda-as por meio de tópicos. Se de algum modo as Escrituras são utilizadas, é apenas para ilustração – precisamente como advogou Fosdick. É simplesmente uma acomodação a uma sociedade viciada em auto-estima e entretenimento. A diferença é que agora este conselho provém de dentro do evangelicalismo. Segue o que está na moda, mas pouco se preocupa com o que é verdadeiro. Encaixa-se bem ao liberalismo, de onde procede. Porém, está totalmente fora de lugar entre os cristãos que professam crer que as Escrituras são a Palavra de Deus inspirada.

Um recente “best-seller” evangélico alerta os leitores a se colocarem de prontidão contra pregadores cuja ênfase está no interpretar as Escrituras e não no aplicá-las. Espere um pouco. Isto é um conselho sábio? Não, de modo algum. Não existe o perigo de a doutrina ser irrelevante; a verdadeira ameaça e a abordagem não doutrinária em busca de relevância sem doutrina. O cerne de tudo que é verdadeiramente prático encontra-se no ensino das Escrituras. Não tornamos a Bíblia relevante; ela o é, inerentemente, pelo simples fato de ser a Palavra de Deus. Afinal, como pode qualquer coisa que Deus diz ser irrelevante (II Timóteo 3:16,17)?

A Igreja Semelhante a um Barzinho

O pragmatismo radical da “abordagem amigável” rouba da igreja o seu papel profético. Transforma-a em uma organização popular, que recruta seus membros através de oferecer-lhes um ambiente de calor humano e amizade, no qual as pessoas comem, bebem e são entretidas. A igreja acaba funcionando mais como um clube do que como uma casa de adoração.

Isso não é um exagero. Um recente “best-seller” que advoga idéias pragmáticas de crescimento de igreja incluiu esta sugestão:

Lembra-se como o bar da esquina costumava ser o lugar onde os homens da vizinhança se reuniam para assistir na TV os grandes eventos esportivos, tais como lutas e campeonatos mundiais de box? Embora os tempos tenham mudado, o mesmo conceito pode ser usado pela igreja para causar um grande impacto. A maior delas possui um grande auditório que poderia ser utilizado para reuniões especiais ao redor dos grandes eventos da mídia – esportes, debates políticos, entretenimentos especiais e coisas semelhantes. [29]

O cenário é construído em torno de pressuposições que são claramente antibíblicas. A igreja não é um clube à busca de novos sócios. Não é o barzinho do bairro onde a vizinhança se reúne. Não é um grêmio estudantil à procura de calouros. Não é um centro comunitário onde se realizam as festas. Não é um clube de campo para as massas. Não é um comitê eleitoral onde os problemas da comunidade são discutidos. Não é uma corte judicial para corrigir as injustiças sociais. Não é um fórum aberto, ou uma convenção política, ou até mesmo uma cruzada evangelística.

A igreja é o corpo de Cristo (I Coríntios 12:27), e as reuniões da igreja são para adoração e instrução. O único alvo legítimo da igreja é “o aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4:12) – crescimento vital, não apenas expansão numérica.

A idéia de que as reuniões da igreja deveriam ser usadas para encantar ou atrair os não-cristãos é um conceito relativamente novo. Nas Escrituras, não há qualquer sugestão quanto a isso; aliás, o apóstolo Paulo falou da presença de incrédulos na igreja como um evento excepcional (I Coríntios 14:23). Hebreus 10:24,25 indica que os cultos da igreja são para o benefício dos crentes e não dos incrédulos: “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos”.

Atos 2:42 mostra-nos o padrão que a igreja primitiva seguia, quando se reunia: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.”. Observe que adorar a Deus e encorajar os irmãos eram as prioridades da igreja primitiva. A igreja se reunia para a edificação e se dispersava para evangelizar o mundo.

Nosso Senhor comissionou seus discípulos para evangelizarem da seguinte forma: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mateus 28:19). Cristo deixou evidente que a igreja não deve esperar que o mundo venha ou que deve convidá-lo a vir às suas reuniões; Ele mostrou com clareza que a igreja deve ir ao mundo. É a responsabilidade de todo crente. Temo que uma abordagem que enfatiza a apresentação do evangelho de uma forma facilitada dentro da igreja, exime o crente de sua obrigação pessoal de ser uma luz no mundo (Mateus 5:16).

Novamente ressaltamos que a proclamação da Palavra de Deus deve ser central na igreja (I Coríntios 1:23; 9.16; II Coríntios 4:5; I Timóteo 6:2; II Timóteo 4:2). “Quer seja oportuno, quer não”, é tarefa dos ministros de Deus corrigir, repreender, exortar com toda a longanimidade e doutrina (II Timóteo 4:2). O pastor que coloca o entretenimento acima da pregação bíblica e vigorosa abdica da responsabilidade primária de sua função, ou seja, apegar-se “à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem” (Tito 1:9).

A estratégia da igreja nunca foi de apelar ao mundo utilizando os termos do mundo. Não se espera que as igrejas estejam a competir pelo consumidor no mesmo nível que uma cerveja famosa ou uma grande rede de televisão. Não há como estimularmos crescimento genuíno via persuasão fascinante ou técnicas engenhosas. É o Senhor quem acrescenta as almas à igreja (Atos 2:47). Metodologias humanas não podem acelerar ou suplantar o processo divino. Qualquer crescimento adicional que venha a produzir não passará de uma pobre e infrutífera imitação.

Crescimento artificial ou não-natural, no reino biológico, pode causar deformação – ou pior, câncer. Crescimento sintético, no reino espiritual, é genuinamente doentio.

Boa Técnica? Não, Má Teologia

A filosofia que une técnicas de marketing com a teoria de crescimento da igreja resulta de uma péssima teologia. Pressupõe que se você empacotar adequadamente o evangelho, as pessoas serão salvas. Esta idéia tem suas raízes no arminianismo, que faz da vontade humana, e não do Deus soberano, o fator decisivo na salvação. Fala da conversão como uma “decisão por Cristo”. Essa linguagem e doutrina começaram a permear o ministério moderno. O alvo do ministério norteado por marketing é uma decisão humana imediata, em lugar de uma transformação radical do coração, operada pelo Deus Todo-Poderoso, por meio da obra do Espírito Santo em trazer convicção e através da verdade da Palavra. Uma crença sincera na soberania de Deus na salvação findaria muitas das tolices que hoje acontecem nas igrejas.

Além do mais, toda essa abordagem de agência publicitária com relação à igreja corrompe o cristianismo e atende às concupiscências carnais que estão arraigadas na estrutura do sistema mundano (I João 2:16). Temos uma sociedade repleta de pessoas que desejam o que querem, quando o querem. Estão presos a seu próprio estilo de vida, recreação e entretenimento. Querem conforto, felicidade e sucesso. E, quando a igreja apela a esses desejos egoístas, apenas alimenta um fogo que impede a verdadeira piedade.

A igreja se acomodou à nossa cultura ao inventar um tipo de cristianismo onde o tomar a cruz tornou-se opcional, ou até mesmo, impróprio. De fato, muitos dos membros das igrejas do ocidente crêem que servirão melhor a Deus se confrontarem o mundo o menos possível.

Tendo incorporado os valores do mundo, o cristianismo em nossa sociedade encontra-se moribundo. O mundanismo e a autoindulgência vêm sutil, porém efetivamente, devorando o coração da igreja. O evangelho freqüentemente pregado em nossos dias está tão distorcido que oferece o crer em Cristo como nada mais do que um simples meio para o contentamento e a prosperidade. O escândalo da cruz (Gálatas 5:11) tem sido sistematicamente removido, de modo que a mensagem se torne mais aceitável aos incrédulos. A igreja, de alguma forma, concebeu a idéia de que pode declarar paz com os inimigos de Deus.

E quando, em cima disso, rockeiros punk, ventrílocos, palhaços, atiradores de facas, lutadores profissionais, levantadores de peso, comediantes, dançarinos, malabaristas de circo, artistas de rap, atores e celebridades do “Show Business” assumem o lugar do pregador, a mensagem do evangelho recebe um golpe catastrófico: “E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10:14)

Creio que podemos ser criativos e inovadores quanto à forma de apresentarmos o evangelho, mas precisamos ter o cuidado de harmonizar nossos métodos com as profundas verdades espirituais que estamos procurando transmitir. É muito fácil trivializarmos a mensagem sagrada. Precisamos fazer com que a mensagem, e não o veículo em si, seja o cerne daquilo que desejamos comunicar ao auditório.

Não se precipite em abraçar as tendências das megaigrejas cheias de tecnologia. Não desdenhe a adoração e a pregação convencionais. Não precisamos de abordagens engenhosas para que as pessoas sejam salvas (I Coríntios 1:21). Precisamos apenas voltar a pregar a verdade e plantar a semente. Se formos fiéis nisso, o solo que Deus já preparou haverá de produzir fruto.

Mas, se a igreja não se voltar para o cristianismo bíblico, logo testemunharemos o fim de nossa influência em nome de Cristo. Todos se admiram em ver quão rapidamente a face de nosso mundo está se alterando. Ao mesmo tempo, poucos cristãos percebem quão assustadoramente rápido a igreja está caminhando rumo ao declínio. Podemos estar vivendo os últimos dias do evangelicalismo bíblico como força significativa em nossa nação. Não é fantasioso imaginar que daqui a uns vinte anos haverá missionários do mundo oriental vindo evangelizar os países ocidentais.

Admitir essa possibilidade me deixa profundamente preocupado. Nós que conhecemos e amamos a verdade precisamos ser a voz profética do nosso Deus e proclamar a santidade de seu nome. Precisamos exigir que qualquer esforço feito em nome de nosso Senhor manifeste também a integridade de sua natureza. Ele é “Santo, Santo, Santo” (Isaías 6:3) e precisa ser representado dessa forma. Qualquer outra coisa não é digna de sua grandeza, majestade e santidade.

O Irromper de Uma Lepra

No final do século XIX, Spurgeon vislumbrou essa tendência de se trazer diversão para dentro da igreja. Na medida em que se alastrava A Controvérsia do Declínio, em 1889, a saúde de Spurgeon se tornava precária, e, por isso, ele deixou de pregar em vários domingos. Mas, em uma Quinta-feira à noite, no mês de abril, Spurgeon pregou, no Tabernáculo, uma mensagem na qual ele afirmou:

Creio não estar procurando erros onde o erro não existe; mas não consigo abrir os olhos sem ver coisas sendo feitas em nossas igrejas que, há trinta anos, não eram nem sonhadas. Em termos de diversão, os professos têm avançado no caminho do relaxamento. O que é pior, as igrejas agora pensam que sua responsabilidade é entreter as pessoas. Discordantes que costumavam protestar contra a ida a um teatro, agora fazem com que o teatro venha a eles. Muitos [templos de igrejas] não deveriam receber licença para exigir peças teatrais? Se alguém fosse sério em exigir obediência às leis, não teriam de obter uma licença para que suas igrejas funcionassem como teatros?

Tampouco ouso falar a respeito do que tem sido feito nos bazares, jantares beneficentes etc. Se esses fossem organizados por pessoas mundanas decentes, não poderiam alcançar melhores resultados? Que extravagância ainda não foi experimentada? Que absurdo tem sido grande demais para a consciência daqueles que professam ser filhos de Deus e que não são deste mundo, mas chamados a andar com Deus em vida de separação?

O mundo considera as altas pretensões de tais pessoas como hipocrisia; e, de fato, não conheço outro termo melhor para classificá-las. Imaginem aqueles que gostam da comunhão com Deus brincando de tolos, com roupas teatrais! Falam acerca do lutar com Deus na oração em secreto, mas fazem malabarismo com o mundo em uma jogatina irreconciliável. Será que isso está correto? O certo e o errado trocaram de lugar? Sem dúvida, existe uma sobriedade de comportamento que é coerente com a obra da graça no coração, e existe uma leviandade que indica que o espírito maligno está em supremacia.

Ah! Senhores, pode ter havido uma época em que os cristãos eram por demais precisos, mas não é assim em meus dias. Pode ter existido uma coisa espantosa chamada rigidez Puritana, mas eu nunca a vi. Agora estamos bem livres desse mal, se é que ele existiu. Já passamos da liberdade para a libertinagem. Ultrapassamos o dúbio e caímos no perigoso, e ninguém pode profetizar onde haveremos de parar. Onde está a santidade de Deus hoje?... Ela não passa de algo turvo, tal qual um paio que fumega; é mais um objeto de ridicularização do que de reverência.

Será que o grau de influência de uma igreja não pode ser medido por sua santidade? Se grandes hostes daqueles que professam ser cristãos fossem , quer em sua vida familiar, quer em seus negócios, santificados pelo Espírito, a igreja se tornaria uma grande potência no mundo. Os santos de Deus poderão lamentar juntamente com Jerusalém, ao perceberem que sua espiritualidade e santidade estão em níveis baixíssimos! Outros podem considerar isto como algo que não trará qualquer conseqüência; porém, nós o vemos como o irromper de uma lepra. [30]

Eis o desafio para a igreja de Cristo: “Purifiquemos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (II Coríntios 7:1). Não é a engenhosidade de nossos métodos, nem as técnicas de nosso ministério, nem a perspicácia de nossos sermões que trazem poder ao nosso testemunho. É a obediência a um Deus santo e a fidelidade ao seu justo padrão em nosso viver diário.

Precisamos acordar. O declínio é um lugar perigoso para ficarmos. Não podemos ser indiferentes. Não podemos continuar em nossa busca insensata por prazer e auto-satisfação. Somos chamados a lutar uma batalha espiritual e não poderemos ganhá-la apaziguando o inimigo. Uma igreja fraca precisa se tornar forte, e um mundo necessitado precisa ser confrontado com a mensagem da salvação; e talvez haja pouco tempo para isso. Como Paulo escreveu à igreja em Roma: “Já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos. Vai alta a noite, e vem chegando o dia. Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz (Romanos 13:11,12).


Notas

[1] - “Another Word Concerning the Down-Grade”, The Sword and the Trowel (agosto, 1887), p. 398.

[2] - Neil Postman, Amusing Ourselves to Death (Nova Iorque, Penguin, 1985), p. 63.

[3] - The Root of the Righteous (Harrisburg, Pensilvânia, Christian Publications, 1955), pp. 32-33.

[4] - R. Gustav Niebuhr, “Mighty Fortress: Megachurches Strive to Be All Things to All Parishioners”, The Wall Street Journal (13 de maio, 1991), A6.

[5] - Robert Johnson, “Heavenly Gifts: Preaching a Gospel of Acquisitiveness, a Showy Sect Prospers”, The Wall Street Journal (11 de dezembro, 1990), A1-8.

[6] - Ibid., A8.

[7] - A Theology of Church Growth (Grand Rapids, Michigan, Zondervan, 1981), pp. 23-24.

[8] - Cf. C. Peter Wagner e Donald A. McGavran, Understanding Church Growth, terceira edição (Grand Rapids, Michigan, Eerdmans, 1990), pp. 265-281. Wagner e McGavran argumentam que estabelecer alvo numérico é uma parte essencial na abordagem bíblica de crescimento de igreja: “Estabelecer alvo quanto ao número de membros da igreja está de acordo com o eterno propósito de Deus... A Escritura é consistente em apoiar a idéia de planejarmos cuidadosamente o crescimento da igreja” (p. 270). Contudo, Atos 18:4, 5 e 9 é a única passagem bíblica que eles citam a fim de sustentar o seu argumento; esta passagem nada afirma a respeito de estabelecer alvos numéricos ou quaisquer outros alvos.

[9] - “For Such a Time as This” (publicador desconhecido, 1970), citado por C. Peter Wagner, “Pragmatic Strategy for Tomorrow’s Mission”, em A. R. Tippet, God, Man and Church Growth (Grand Rapids, Michigan, Eerdmans, 1973), p. 147.

[10] - Understanding Church Growth, viii-ix.

[11] - Ibid., ix.

[12] - Ibid.

[13] - Leading Your Church to Growth (Ventura, Califórnia, Regal, 1984), p. 201.

[14] - Your Church Can Grow (Ventura, Califórnia, Regal, 1976), pp. 160-161.

[15] - Ibid., p. 161 (ênfase no original).

[16] - Barna, Marketing the Church, p. 145 (ênfase adicionada).

[17] - Ibid., pp. 31-32.

[18] - Tim Stafford, “Testing the Wine from John Wimber’s Vineyard”, Christianity Today (8 de agosto, 1986), p. 18.

[19] - The Third Wave of the Holy Spirit (Ann Arbor, Michigan, Vine, 1988), p. 87.

[20] - Church Growth: State of the Art (Wheaton, Illinois, Tyndale, 1986), p. 33.

[21] - Ibid.

[22] - Leading Your Church to Growth, p. 201.

[23] - God Tells the Man Who Cares (Harrisburg, Pensilvânia, Christian Publications, 1970), p. 71.

[24] - Ibid., p. 70.

[25] - “What Is the Matter with Preaching?”, Harpes Magazine (julho, 1928), p. 135.

[26] - Ibid.

[27] - Ibid.

[28] - Ibid., p. 136.

[29] - George Barna, The Frog in the Kettle (Ventura, Califórnia, Regal, 1990), pp. 94-95.

[30] - “A Dirige for the Down-Grade, and A Song for Faith”, The Metropolitan Tabernacle Pulpit, Vol. 35 (Londres, Passamore and Alabaster, 1889), pp. 267-268.


Fonte: O presente artigo é o Capítulo 3 do livro "Com Vergonha do Evangelho" de John. F. MacArthur, publicado pela Editora Fiel, 2ª edição - 2004

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

UM SÓ PONTO A MENOS


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Silas Roberto Nogueira

O calvinismo pode ser apresentado de maneira abreviada em cinco pontos, no acróstico mnemônico:
T = Total Depravaty - Depravação Total
U = Unconditional Election – Eleição Incondicional
L = Limited Atonoment – Expiação Limitada
I = Irresistible Grace - Graça Irresistível
P = Perseverance of Saints – Perseverança dos Santos
No entanto, entre aqueles que se confessam calvinistas há os que negam um dos pontos, precisamente o terceiro, o “L”, a “Expiação Limitada”. Historicamente os calvinistas dos quatro pontos estão defendendo o que se convencionou chamar “amyraldismo”. Amyraldismo é o sistema criado pelo teólogo francês Moise Amyraut, ou Moisés Amyraldus, (1596-1664) que também recebe a nomenclatura de Universalismo Hipotético ou Pós-redencionismo.

Amyraut formou-se primeiro em Direito em Orleans, como queria seu pai, que também era advogado, e depois em Teologia em Saumur, onde mais tarde tornou-se professor, 1633. A Academia de Saumur foi criada em 1598 pelo sínodo nacional da Igreja Reformada Francesa e tornou-se a propagandista do ensino de Amyraut. Ele era um profundo estudioso de Calvino, do qual se achava um intérprete na tentativa de suavizar o calvinismo. Ele procurava uma posição intermediária entre o calvinismo e o arminianismo. Para isso ele introduziu uma modificação quanto a ordem lógica – não cronológica- dos decretos de Deus. O quadro abaixo demonstra a alteração proposta por Amyraut em comparação com duas posições calvinistas e o arminianismo:
Supra
lapsarianismo
Infra
lapsarianismo
Amyraldismo
Arminianismo
1. Eleger alguns, reprovar o restante.
1. Criar.
1. Criar.
1. Criar.
2. Criar.
2. Permitir a Queda.
2. Permitir a Queda.
2. Permitir a Queda.
3. Permitir
a Queda.
3. Eleger alguns, ignorar o restante.
3. Providenciar salvação suficiente para todos.
3. Providenciar salvação para todos.
4. Providenciar salvação para os eleitos.
4. Providenciar salvação para os eleitos.
4. Eleger alguns, ignorar o restante.
4. Chamado de todos à salvação.
5. Chamado do eleito à salvação.
5. Chamado do eleito à salvação.
5. Chamado do eleito à salvação.
5. Eleger aqueles que crêem.

Berkhof demonstra que Amyraut fez uma dupla distinção no decreto de Deus, distinguindo “entre um decreto universal e condicional, por um lado, e outro limitado e incondicional, por outro lado”. No primeiro, Deus decretou que proveria a salvação universal, pela mediação de Jesus Cristo, que seria oferecida a todos sob a condição de fé; e no último, Deus, vendo que por si mesmo nenhum homem jamais creria, escolheu alguns para a vida eterna e resolveu dar-lhes a necessária graça da fé e do arrependimento.” (História das Doutrinas Cristãs, pág. 138)

O que Amyraut esperava com esse esquema era que ele removeria as dificuldades concernentes ao alcance do sacrifício de Cristo, e também conciliaria as passagens bíblicas, que declaram a compaixão universal de Deus pelos pecadores, com a reprovação dos não eleitos. Por isso quando um amyraldista ou calvinista dos quatro pontos fala sobre a expiação costuma dizer o seguinte: "o sacrifício de Cristo é suficiente para todos, mas eficiente apenas para os eleitos". Esse jargão originou-se de um jogo de palavras no latimsufficienter pro omnibus, sed efficienter tantum por electis”, que segundo o Dr. Charles Hodge foi usada por alguns agostinianos, os quais ele não nomeou. O fato é que os teólogos de Dort (Cânone de Dort, cap. 2, artigos 3 e 6) usaram terminologia parecida, mas certamente o sentido era diferente daquele que os amyraldistas lhe atribuem. O Dr. Charles Hodge deixou claro que o sistema amyraldista falha visto que “é passível das objeções que penetram” tanto o calvinismo quanto o arminianismo. Visto que, diz ele, “não remove as dificuldades peculiares do agostinianismo, quando assevera a soberania de Deus na eleição. Além disso, deixa o caso dos pagãos fora de propósito. Eles, não tendo conhecimento de Cristo, não podiam valer-se desse decretum hypotheticum, e por isso seriam considerados como que omitidos por um decretum absolutum. (Teol. Sist., pág. 724)

O problema com a posição de Amyraut é que ela, quando comparada com as posições reformada e arminiana “está de acordo com a reformada, e difere da arminiana porque sustenta que a eleição depende unicamente da boa vontade soberana de Deus; difere, porém, da teoria reformada e concorda com a arminiana em sustentar que o decreto da redenção precede ao da eleição” (A. A. Hodge, em Esboços, pág. 313). Por isso teólogo presbiteriano Louis Berkhof chamou o arranjo amyraldista de dúbio e insatisfatório (Teol. Sist., pág. 395) e alguns o rotularam de “semi-calvinismo” ou “calvinismo inconsistente”, nas palavras de B. B. Warfield.

Contudo, não seria interessante que o próprio João Calvino fosse arrolado entre os “calvinistas inconsistentes”? Como já disse, Amyraut se julgava um intérprete dos ensinos de João Calvino no seu Universalismo Hipotético. O Dr. Strong , seguindo Amyraut, chegou a dizer que Calvino adotou a expiação geral ou ilimitada como fruto de uma “reflexão mais amadurecida”. (Teol. Sist., pág. 470). E Roger Olson declarou que é “discutível” se o próprio Calvino concordaria com todos os cinco pontos do calvinismo de Dort. (Hist. da Teol. Cristã, pág. 471 ) Assim, na opinião desses homens, Calvino era menos calvinista que seus discípulos. Entretanto é valido lembrar que Calvino não formulou a doutrina da expiação limitada de maneira tão clara e objetiva quanto alguns gostariam pelo simples fato de que a controvérsia sobre o assunto não ter ocorrido no seu tempo. Depois, Amyraut deixou escapar, segundo os estudiosos, que a estrutura teológica de Calvino tem como implicação a expiação particular, jamais um universalismo hipotético.

A posição de Amyraut sofreu forte oposição dos teólogos reformados ortodoxos, mesmo não estando totalemente fora do circulo calvinista. Por três vezes ele foi denunciado por heresia nos Sínodos de Alençon (1637), Charenton (1644-1645) e Loudun (1659), tendo sido apenas repreendido, foi absolvido. Contudo, em 1675 a Formula Consensus Helvética condenou o amyraldismo, por isso tem sido chamada Anti-Amyraldensis ou Anti-Saumuriensis. Mesmo assim, o amyraldismo tem contado com um bom número de competentes defensores no decorrer do tempo, entre eles o puritano Richard Baxter (1615-1691) e os teólogos batistas A. H. Strong e mais atualmente Millard J. Erickson. É bom lembrar que tanto Strong quanto Erickson se confessam calvinistas. No Brasil, entre os que defendem uma expiação uma expiação ilimitada, se destaca o presbiteriano Alfredo Borges Teixeira, autor de Dogmática Evangélica.


Contra a teoria amyraldista A. A. Hodge levanta as seguinte objeções:
1. “Não é compatível com o fato de que os propósitos de Deus constituem um só. Segundo essa teoria, Deus, num só ato determinou prepara as condições objetivas da salvação (redenção pelo sangue de Cristo) para todos, e conceder as condições subjetivas da salvação (graça eficaz) somente a alguns. Isso é realmente uma tentativa de reunir num só sistema o arminianismo e o calvinismo”.
2. “As Escrituras declaram que a finalidade para a que Cristo veio foi executar o propósito da eleição. Veio para dar a vida eterna a todos quantos o Pai Lhe desse – João 17:2,9; 10:15. Por conseguinte, a redenção não pode preceder à eleição”.
3. “A verdadeira doutrina da propiciação não é que Cristo veio para tornar possível a salvação, e sim para efetuá-la pata todos aqueles por quem Ele morreu. Para esses a propiciação alcança a remissão dos pecados, a fé, o arrependimento e todos os frutos do Espírito. Por isso, todos os que são remidos arrependem-se e crêem” (Esboços de Teologia, pág. 316)

E o teólogo R. L. Dabney aponta que “sob dois aspectos, tal esquema é insustentável. Se se abandonar a idéia de uma real sucessão de tempo entre as partes do decreto divino, como deve ser mesmo abandonada, então esse esquema é de todo ilusório por apresentar Deus a decretar o envio de Cristo para prover uma redenção que se oferece a todos, sob condição de fé, levado a assim fazer por Sua compaixão por todos em geral. Porque se Deus prevê a rejeição certa de todos no tempo, ao passo que propõe soberanamente recusar a alguns a graça que operaria neles a fé, este esquema de eleição realmente relaciona Cristo, no propósito divino, com os não eleitos, relação esta não mais íntima nem mais proveitosa do que o esquema calvinista mais rigoroso. Mas, em segundo lugar, e principalmente, apresenta Cristo não adquirindo para Seu povo a graça da vocação eficaz, pela qual são persuadidos e habilitados a abraçar a redenção. Todavia o desígnio de Deus, de conferi-la, apresenta-se sem nexo com Cristo e Sua aquisição, e subsequentemente, pela ordem, à Sua obra, e à previsão da rejeição dela pelos pecadores. Ao passo que as Escrituras informam que esse dom, com todas as outras graças da redenção, é nos concedido em Cristo, tendo sido comprado por Ele para Seu povo”. (Predestinação, Samuel Falcão, 150,151)

O que Amyraut fez foi construir uma ponte que só vai até a metade do caminho, quando precisamos mais do que isso. Charles H. Spurgeon diz que “uma salvação universal é como uma ponte de grande largura com somente metade de um arco; ela não cruza o rio: chega somente à metade do caminho; ela não pode assegurar a salvação a ninguém. Ora, eu prefiro colocar meus pés sobre uma ponte tão estreita como a de Hungesford, que chega até o fim, do que sobre uma ponte que é tão larga quanto o mundo, se ela não chegar até o fim, do outro lado do rio.” (Redenção Particular, pág. 28)

Primeiramente, ninguém deve duvidar da suficiência da expiação na morte de Cristo. No entanto, ao dizer que ela, a morte de Cristo, é suficiente estou ao mesmo tempo dizendo que ela é eficaz. Portanto o que é suficiente para todos é igualmente eficaz para todos. Em outras palavras, se Cristo morreu por todos, todos por quem Ele morreu devem ser salvos. Mas a declaração amyraldista (assim como o arminianismo) contradiz a lógica aqui e nega que a morte de Cristo que é suficiente para todos seja igualmente eficaz para todos, dizendo que é eficaz somente para os eleitos. Por isso não chega a ser universalismo em pleno sentido, mas apenas em sentido hipotético. Mas também não é calvinismo em sentido pleno, porque nega o que os calvinistas afirmam, então é chamado semi-calvinismo.

O fato é que não se pode desvincular suficiência de eficácia. Ora, a morte de Cristo não foi potencial, mas autêntica, vicária e substitutiva. O que se pode observar no fundo é que o amyraldismo rejeita de fato a convicção de que a morte de Cristo foi vicária e substitucionária. E aí reside o problema, submerso no que parece ser apenas um ponto a menos muito podem naufragar na trajetória de suas vidas cristãs.

É preciso lembrar que se negarmos a eficácia da morte de Cristo igualmente negamos a sua suficiência. Se Cristo morreu no lugar e pelos pecados de determinado homem e ele não é redimido, logo o sacrifício de Cristo não foi suficiente. O argumento dos amyraldistas é que a aceitação – eficácia - é garantida pela eleição, mas não notam que a eleição particulariza a suficiência.

A verdade é que todos nós cremos em alguma forma de expiação limitada, sejam calvinistas, semi-calvinistas ou arminianos. John White nos lembra que “se você não crê na doutrina reformada da “expiação limitada”, você crê em alguma forma de expiação limitada! Como pode ser isso? A menos que você seja um universalista (ou seja, crê que todas as pessoas serão salvas), então você crê que a expiação realizada por Cristo, se foi realizada em favor de todos os homens, é limitada em seus efeitos. Você crê que Cristo morreu em favor de alguém e, apesar disso, aquela pessoa pode ficar perdida por toda a eternidade. Você limita o poder e o efeito da expiação. Eu limito o escopo da expiação, enquanto afirmo que seu poder e efeito são ilimitados! Um escritor expressou isso muito bem, quando disse: “Não deve haver qualquer mal-entendido quanto a este assunto. O Arminiano limita a expiação assim como o faz o calvinista. Este limita a extensão quando afirma que ela não se aplica a todas as pessoas... o arminiano, por sua vez, limita o poder da expiação, pois ele afirma que ela não salva ninguém. O calvinista limita quantitativamente a expiação, mas não qualitativamente; o arminiano limita-a qualitativamente, mas não quantitativamente.” (Fé para Hoje, n. 17, 2003, pág17)

É só um ponto a menos, mas pode fazer a diferença entre crer em um Cristo que morreu para salvar os seus e fez isso perfeita e eficazmente, ou crer um Cristo que morreu com intenção de salvar a todos, mas não salvou ninguém. Por quem Cristo morreu? Pelos “muitos” que Ele comprou com seu sangue (Mt.26:28) e que “procedem de toda a tribo, língua, povo e nação” (Ap.5:9,10).
Soli Deo Glória.