quinta-feira, 20 de novembro de 2008

PREGA A PALAVRA!


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Silas Roberto Nogueira


A pregação autêntica está em falta já há muito tempo e isso pode ser facilmente observado pela superficialidade que caracteriza a Igreja Cristã de modo geral. A pregação moderna é, com raras exceções, curta, rasa, temática e triunfalista. A teologia diluída e poluída pelo secularismo que os pregadores, dominicalmente, apresentam nos púlpitos das igrejas evangélicas brasileiras priva Deus da adoração que Lhe é devida.

Primeiro pelo fato de que o Seu povo não é levado a temê-lo e reverenciá-lo (Dt. 10:12-21). Depois, esse tipo de mensagem é ofensiva à Santa Trindade por que usurpa de Deus o Pai a Sua prerrogativa de declarar ao homem o que lhe requer (Mq. 6:8;Os. 6:6), de Deus o Filho o Seu senhorio sobre a Sua Igreja (Ef. 4:15,16; 5:23) privando-a de crescimento e edificação espiritual , e de Deus o Espírito Santo a Sua obra tanto regeneradora (1 Pe. 1:23; Tg.1:18) quanto santificadora que Ele opera tendo a Palavra como instrumento (Jo.17:17). Além disso, essa pregação é enganosa (Jr.8:11), promove o misticismo, a hipocrisia e a desobediência. O abandono da pregação genuína transforma adoradores em consumidores, o culto em entretenimento, evangelismo em adesão e faz de Deus em um gênio da lâmpada que só serve para satisfazer os nossos desejos.

As razões para o declínio da pregação são muitas. Uma delas é a aversão do homem pós-moderno por verdades objetivas. Essa tendência afetou a igreja de modo que os pastores e pregadores evitam expor doutrina em seus púlpitos e fazer declarações autoritativas que desagradem os ouvintes. Uma segunda razão é a secularização da sociedade e da igreja. Eis a razão de tanto sucesso dos pregadores da teologia da prosperidade e da pregação motivacional. Outra razão é o afastamento do cristianismo bíblico. A igreja de hoje está enfeitiçada pelo pragmatismo. O que determina a prática e estratégia eclesiástica é o marketing. Não podemos esquecer de lembrar da carência de preparo teológico de muitos pastores e pregadores como um dos fatores do declínio da pregação. As instituições teológicas, via de regra, preocupadas em obter reconhecimento dos órgãos estatais para os diplomas que oferecem, baixaram a qualidade do ensino que ministram [é claro que os seus diretores discordam, mas não se pode argumentar contra os fatos]. Além e acima de tudo isso está a carência de homens piedosos, comprometidos com o Deus da Palavra e com a Palavra de Deus.

Quando falo em pregação autêntica me refiro aquele tipo de pregação que vise a glória de Deus e não a satisfação dos que tem coceira nos ouvidos (2 Tm. 4:3). Esse tipo de mensagem é confrontadora, por conseguinte, transformadora. Dr. Lloyd-Jones expressou-se sobre a pregação dizendo que a mesma “deveria efetuar uma diferença tal, no indivíduo que a ouve, que nunca mais ele fosse a mesma pessoa novamente.” Esse impacto só pode ser causado se as Escrituras forem expostas e, como dizia Spurgeon, “o sermão que chega com muito maior poder às consciências dos ouvintes é pura e simplesmente a própria Palavra de Deus – não uma preleção sobre as Escrituras, mas as Escrituras mesmas, expostas e impostas”

A pregação que mais corresponde a essa idéia e desígnio é a pregação expositiva. Geralmente quando falamos em pregação expositiva a preferência é dada aos que o fazem de modo sistemático, ou seja, expondo a totalidade de um livro da Bíblia. Lutero, Calvino e Zuínglio e Knox tinham por costume expor as Escrituras sequencialmente. No século passado quem se destacou pela pregação expositiva seqüencial foi o Dr. Lloyd-Jones. Suas exposições da Epístola aos Efésios, entre 1954 e 1962, somam 8 volumes de sermões que proporcionaram grande edificação para os ouvintes originais e têm servido de grande fonte de bênçãos aos leitores posteriores em várias partes do mundo. Mas é igualmente edificante e proveitoso quando apenas seções das Escrituras são utilizadas, como outros bons expositores têm feito. É preciso lembrar que a pregação expositiva é uma das marcas de uma igreja saudável, segundo Mark Dever.
Contudo, pregação expositiva não é um ideal fácil de alcançar. John Stott afirmou que “a pregação expositiva é uma disciplina das mais árduas. Talvez por isto seja tão rara”. A dificuldade em preparar sermões expositivos também reside na ignorância das Escrituras por parte dos pregadores. Se não há estudo profundo das Escrituras, não existe sermão [expositivo]. A pregação expositiva exige estar a serviço da Palavra de Deus. Exige que o pregador tenha a sua mente e vida moldada pelas Escrituras. Sem dúvida isso faz do pregador a primeira vítima da sua mensagem, mas é exatamente isso que lhe confere autoridade e poder para transmiti-la. Thomas Shepard declarou: “eu jamais preguei um sermão que eu não tenha pregado antes à minha própria alma”.

A pregação expositiva não é, como muitos pensam, um comentário versículo por versículo do texto bíblico. Ora, qualquer um pode assumir a plataforma e reproduzir o que um ou outro disse acerca de uma determinada porção das Escrituras. Podemos dizer ainda que a pregação expositiva não é apresentar um esboço com pontos extraídos do texto e recheadas com frases de efeito. Assim como o esqueleto sem carne não alimenta quem tem fome, esse tipo de pregação não alimenta espiritualmente o crente.

A pregação expositiva expõe a verdade (doutrina bíblica) salientada em uma passagem específica da Bíblia. O sermão deve estar repleto de doutrina, ao contrário do que muitos atualmente advogam e praticam. Stuart Olyott é direto, “pregadores cujos sermões não têm conteúdo doutrinário devem abandonar a pregação. O Senhor não os enviou”. Pregação sem conteúdo doutrinário arruína a igreja. A pregação doutrinária é também evangelística. É um erro dicotomizar a pregação em doutrinaria e evangelística. A pregação doutrinaria é essencialmente evangelística e quando o evangelho é fielmente exposto, uma doutrina está sendo exposta.

Mas não é só isso, ainda falta um importante elemento. É preciso a aplicação da doutrina à vida. J. I. Packer diz que “a pregação expositiva consiste na explanação e aplicação de uma passagem das Escrituras. Sem explanação ela não é expositiva, sem aplicação ela não é pregação”. Leland Ryken, um estudioso do puritanismo, lembra que “uma das características mais atraentes da pregação puritana era sua ênfase na aplicação prática da doutrina à vida”. “Sem uma aplicação prática”, diz Liefeld, “a exposição é mera descrição”. A prática é o ornamento de toda a doutrina cristã e a pregação deve, não somente expor a doutrina, mas especialmente como ela se aplica à vida. Pregar desta maneira é extremamente necessário e benéfico para a igreja na atualidade.

Primeiro porque na pregação expositiva Deus fala o máximo e o pregador o mínimo. E isso porque a pregação expositiva exige que o pregador esteja a serviço da Palavra de Deus. Chega de verborragia blasfema no púlpito! Chega de paródia de pregadores midiáticos, megalomaníacos e profanos, comprometidos com o deus deste século em nossos púlpitos! Prega a Palavra, disse Paulo. (2 Tm.4:2).

Depois, a pregação expositiva, especialmente a sistemática, nos livra de inventar temas que consomem tempo e energia e nem sempre representam a vontade de Deus. Quando começo a expor sistematicamente a Bíblia, ela apresenta os temas. Sendo a Bíblia a Palavra de Deus, ao expô-la sistematicamente, Deus mesmo apresentará os temas a serem tratados, Deus mesmo tratará com Seu povo. Chega de mensagens temáticas desconectadas com a Palavra de Deus, fruto da vontade de agradar a platéia e fruto da covardia de expor a Palavra de Deus. Prega a Palavra, ordenou Paulo.

Em terceiro lugar a pregação expositiva, especialmente seqüencial, evitará a espúria categorização ou dicotomia da pregação em “doutrinária” e “evangelística”. Quando a Palavra de Deus é exposta o pregador verá que sua mensagem será tanto doutrinária quanto evangelística. Chega de pregadores ansiosos por produzir resultados e que com motivações fúteis apelam às emoções dos ouvintes para que aceitem a Cristo como se Ele necessitasse ser recebido. Que confundem regeneração com aceno de mãos, que mentem ao som de uma melodia prometendo salvação sem arrependimento de pecados. Prega a Palavra, exorta o apóstolo dos gentios!

Em quarto lugar a pregação expositiva nutre verdadeiramente. A pregação expositiva considera a Palavra de Deus capaz de nutrir a alma, mente e espírito. O pastor que prega expositivamente ajuda sua igreja a pensar e viver biblicamente. Dr. Lloyd-Jones havia observado que “à medida que a pregação diminui, o aconselhamento pessoal aumenta”. Logo, à medida que a igreja desenvolve uma mentalidade e prática bíblicas, o aconselhamento diminui. Quando pastores estão sufocados pelos aconselhamentos é um sinal que sua pregação não está suprindo espiritualmente os membros. Prega a Palavra, é o mandato apostólico!

Em quinto lugar a pregação expositiva é boa para o pastor. Aprofunda seus conhecimentos na Palavra. Evita o erro da heresia. Concede autoridade. Fortalece suas convicções. Renova seu espírito. Aquece seu coração. Aguça a sua mente. Chega de nanicos espirituais, superficiais e desprovidos de convicções, que mentem dizendo que Deus disse quando Deus nem sequer lhes falou. Prega a Palavra, ecoa a voz daquele que encontrou a Cristo a caminho de Damasco!
Chega de animadores de auditório cuja intenção é entreter o público. O pregador não é palhaço (pelo menos não deveria ser), mas profeta. Albert Martin nos apresenta uma crítica pertinente quanto a isso:“O esforço desnatural de certos pregadores para serem “contadores de piadas”, entre a nossa gente, constitui uma tendência que precisa acabar. A transição de um palhaço para um profeta, é uma metamorfose extremamente difícil.” O pastor deve estar comprometido com a Palavra de Deus e o Deus da Palavra, nada mais que isso. Prega a Palavra, diz aquele para quem o viver era Cristo e o morrer era lucro.

Karl Lachler menciona um pregador chamado Ruark que confessou: “depois de dez anos de pregação generalizada, tópica e textual passei os últimos três anos inteiramente na pregação expositiva, obtendo os seguintes resultados: mais almas foram salvas, mais melhorias foram feias às propriedades da igreja e mais dinheiro foi dado às causas missionárias, mais do que em qualquer outro período da história da igreja; e foi Deus, operando através de Sua Palavra, quem fez tudo isto!”. Será que tal testemunho não serve como exemplo?

Até quando estaremos sendo privados da proclamação da Palavra de Deus? Ouvi, ó pastores, o que diz “o velho” Paulo: “prega a Palavra”. Porque foi fazendo isso que ele pôde dizer: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” 2 Timóteo 4:7. Portanto, prega a Palavra! 

Soli Deo Gloria!






quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A Soberania de Deus e os Salmos

Rev. Steven R. Houck

A Ênfase Apropriada

"Sabei que o SENHOR é Deus …" (Sl. 100:3). Não são essas palavras do salmista a expressão da fé de todo verdadeiro filho de Deus? O cristão crê que o seu Deus de fato é DEUS. Ele é o Deus absolutamente soberano dos céus e da terra. Ele é aquele que criou o mundo por seu poder soberano. Ele é aquele que mesmo agora sustenta o mundo e tudo o que nele há. Ele é aquele que soberanamente governa e dirige todos os assuntos do mundo, por seu conselho eterno e poder onipotente. Até o homem está absolutamente sujeito à sua vontade. Ninguém pode frustrar a vontade de Deus, nem pode alguém questionar os seus caminhos e obras. Ele é aquele que é Deus também na salvação. Ele salva seu povo soberanamente. Na eternidade escolheu aqueles a quem salvaria. No tempo ele somente aplica a obra de Cristo ao seu povo, e os leva à vida eterna na glória. Assim, o filho de Deus declara: "Quem é Deus tão grande como o nosso Deus? Tu és o Deus que fazes maravilhas …" (Sl. 77:13-14). De fato, "o SENHOR é Deus."

A soberania de Deus é ensinada tão claramente na Sagrada Escritura que é impossível alguém negar essa doutrina sem negar as próprias Escrituras. Contudo, existem aqueles que, embora não neguem abertamente a soberania de Deus, negam que essa doutrina deva ser enfatizava. Ela é apenas uma doutrina entre muitas e, portanto, deve ser "mantida em equilíbrio" com o restante. Além do mais, eles nos dizem que a soberania de Deus entra na área das "coisas secretas" de Deus e é muito perigoso que seu povo se preocupe com essas coisas que pertencem a ele somente. Assim, eles nos aconselham que embora possamos crer na doutrina da soberania de Deus, não ousamos fazer muito caso dela. Se fizermos, nos tornaremos "unilaterais."

Contudo, as Escrituras nos ensinam que a soberania de Deus não é apenas outra doutrina. Ela é o próprio cerne do evangelho. Se algo deve ser enfatizado, que seja a soberania de Deus. Deus é revelado como o Soberano em cada página da Sagrada Escritura. Embora isso possa ser mostrado a partir de uma análise de toda a Bíblia, voltaremos nossa atenção apenas para um livro da Bíblia – o livro de Salmos. Se existe algum livro da Bíblia que deveria demonstrar a ênfase apropriada da vida cristã, o mesmo é o livro de Salmos. O motivo é que nele não temos instrução detalhada de doutrina, tal como no livro de Romanos, mas sim a expressão do coração e alma do crente. Os Salmos são expressões da experiência diária do filho de Deus. Neles encontramos as tristezas e alegrias do crente, seus temores e conforto, seus desejos e orações. Neles encontramos a ênfase apropriada da vida cristã. A ênfase é muito óbvia também – DEUS É O DEUS SOBERANO. O filho de Deus encontra seu conforto nesse fato. Ele não somente crê que isso é verdadeiro, mas tal é o coração e a alma de sua fé.

O Glorioso Rei Soberano

Os Salmos são cânticos de louvor e adoração a Deus. São cânticos que louvam a Deus por sua grandeza e glória. Eles reconhecem Deus como sendo o Rei soberano. Os salmistas não conhecem nenhum deus impotente e indefeso. Não conhecem nenhum deus que seja dependente do homem e de sua vontade. O Deus dos salmistas é o Rei. Ele é o eterno Governador, Senhor e Soberano. Assim, o salmista exclama: "O SENHOR é Rei eterno …" (Sl. 10:16). O Senhor é o Rei soberano de todo o mundo. Ele é o Rei de toda criatura. Todos estão sujeitos a ele, tanto justos como ímpios. "Porque o SENHOR Altíssimo é tremendo, e Rei grande sobre toda a terra. Ele nos subjugará os povos e as nações debaixo dos nossos pés" (Sl. 47:2-3). Porque Deus é o Rei, ele é também o Juiz. Ele mantém os homens responsáveis por todos os seus atos. Aqueles que recusam obedecer às suas ordenanças têm razão para temer sua ira terrível. Ele vem como o Soberano Juiz para destruir os ímpios. Mas em seu justo julgamento, ele também livra o seu povo. Portanto, Israel poderia cantar do Juiz soberano: "Tu, tu és temível; e quem subsistirá à tua vista, uma vez que te irares? Desde os céus fizeste ouvir o teu juízo; a terra tremeu e se aquietou. Quando Deus se levantou para fazer juízo, para livrar a todos os mansos da terra" (Sl. 76:7-9).

Contudo, Deus não é apenas outro Rei. Ele é O REI. É o grande e glorioso Rei que encherá os corações dos homens de pavor. Quando o contemplamos devemos proclamar: "O SENHOR, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, pois puseste a tua glória sobre os céus!" (Sl. 8:1). Quando o Senhor se manifesta em sua majestade então, "nuvens e escuridão estão ao redor dele; justiça e juízo são a base do seu trono. m fogo vai adiante dele, e abrasa os seus inimigos em redor. s seus relâmpagos iluminam o mundo; a terra viu e tremeu. Os montes derretem como cera na presença do SENHOR, na presença do Senhor de toda a terra" (Sl. 97:2-5). O Deus soberano é tão sublime que deve se curvar para contemplar as coisas dessa terra. Ele é excessivamente grande e glorioso, e o homem tão pequeno. Mesmo os céus são baixos em comparação com a majestade de Deus. A glória dos anjos não pode alcançar a glória do Altíssimo Deus. "Exaltado está o SENHOR acima de todas as nações, e a sua glória sobre os céus. Quem é como o SENHOR nosso Deus, que habita nas alturas? O qual se inclina, para ver o que está nos céus e na terra!" (Sl. 113:4-6).

Não é entranho, então, que Deus demande que o temamos e adoremos. Não somos nada em comparação com o Deus Soberano. Ele é o Rei glorioso a quem estamos obrigados servir. "Pois quem no céu se pode igualar ao SENHOR? Quem entre os filhos dos poderosos pode ser semelhante ao SENHOR? Deus é muito formidável na assembléia dos santos, e para ser reverenciado por todos os que o cercam" (Sl. 89:6-7). Devemos reverência a Deus. Devemos honrá-lo como o Deus glorioso. O homem não deve se gloriar em si mesmo e nas suas obras, mas na majestade de Deus. Nosso dever é adorar ao Senhor com cânticos de louvor. "Dai ao SENHOR, ó filhos dos poderosos, dai ao SENHOR glória e força. Dai ao SENHOR a glória devida ao seu nome, adorai o SENHOR na beleza da santidade" (Sl. 29:1-2).

O Poder Soberano De Deus

Os salmistas não somente louvam a Deus como o Rei glorioso, mas o louvam para a manifestação do seu grande poder. Deus é de fato o Governador. Seu poder maravilhoso é demonstrado em todo lugar. Vemo-lo na criação do céu e da terra. O salmista explode num cântico de louvor do poder do Criador quando diz: "Louvai ao SENHOR. Louvai ao SENHOR desde os céus, louvai-o nas alturas. Louvai-o, todos os seus anjos; louvai-o, todos os seus exércitos. Louvai-o, sol e lua; louvai-o, todas as estrelas luzentes. Louvai-o, céus dos céus, e as águas que estão sobre os céus. Louvem o nome do SENHOR, pois mandou, e logo foram criados" (Sl. 148:1-5). Homens, anjos, sol, lua, estrelas e toda criatura deve cantar louvores a Deus "pois mandou, e logo foram criados."

Além do mais, o Deus soberano mesmo agora governa e dirige todas as questões desse mundo por seu poder. O salmista declara: "Porque dirão os gentios: Onde está o seu Deus? Mas o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou" (Sl. 115:2-3). Deus faz tudo o que lhe agrada. Seu poder é tão alto, tão onipotente, que tudo o que desejou acontecerá. Sua vontade nunca será frustrada. Nem mesmo pelos ímpios, que pensam que podem derrotar a Deus e destruir o seu povo. Deus governa de tal maneira que todas as coisas acontecem de acordo com o seu beneplácito. "O SENHOR reina; está vestido de majestade. O SENHOR se revestiu e cingiu de poder; o mundo também está firmado, e não poderá vacilar" (Sl. 93:1). Todas as coisas são o que são e fazem o que fazem porque Deus assim as estabelece. Ninguém é capaz de "mover" algo do lugar que Deus lhe deu.

Em muitos lugares os salmistas cantam louvores a Deus pelo poder e controle que ele exerce sobre o mundo animal e as "forças da natureza." A criação em geral está ao serviço do Rei Soberano (Sl. 74:13-17; 104:5-24; 105:16-41; 147:8-18). Mas o que é mais importante é o fato que o governo de Deus se estende ao homem – tanto ímpios como justos. Mesmo o homem, que procura ser tão independente, está preso à vontade e poder do Deus soberano. O homem aspira poder e autoridade, mas é Deus quem dá ambos àqueles a quem lhe agrada. "Porque nem do oriente, nem do ocidente, nem do deserto vem a exaltação. Mas Deus é o Juiz: a um abate, e a outro exalta" (Sl. 75:6-7). Tudo o que o homem faz é dependente do poder de Deus. O homem não pode fazer nada sem Deus. "Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono. Eis que os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre o seu galardão" (Sl. 127:1-3). O homem pode procurar edificar uma casa, mas se Deus não a edificar, será impossível para o homem fazê-lo. A sentinela pode tentar guardar a cidade, mas se Deus não a guardar, toda a vigia será em vão. Se o homem dorme em paz, é porque o Senhor lhe dá o sono. Mesmo nossos filhos são-nos dados pela obra maravilhosa do poder de Deus. Sim, todas as questões da vida do homem estão sob o controle e direção de Deus.

Não, o Deus dos Salmos não é um deus fraco e impotente. Ele não é um deus que deve contornar a vontade e o caminho do homem. Ele é o Deus soberano, que tem todas as coisas em suas mãos. Ele é o Rei glorioso que criou, sustenta e governa o mundo. Assim, com o salmista devemos louvar ao Senhor cantando: "Porque eu conheço que o SENHOR é grande e que o nosso Senhor está acima de todos os deuses. Tudo o que o SENHOR quis, fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos" (Sl. 135:5-6).

O Salvador Soberano

Visto que Deus é o Rei soberano sobre todo o mundo, devemos reconhecer também que ele é o Salvador soberano. Quão inconsistente seria se reconhecemos Deus como sendo o grande Rei, mas recusamos reconhecê-lo como o Salvador que salva o seu povo pela graça soberana somente. Essas duas coisas não podem ser separadas. Se Deus não é o Salvador soberano, então não pode ser o Rei Soberano. Os Salmos, contudo, deixam bem claro que Deus é de fato o Salvador soberano. O Salvador É o Rei soberano. O Salvador é o grande Deus que criou todas as coisas e que sustenta e governa todas as coisas. Assim, o salmista declara: "Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro. O meu socorro vem do SENHOR que fez o céu e a terra" (Sl. 121:1-2). O povo de Deus encontra o seu auxílio no Salvador que criou o mundo. O poder da salvação é o poder do Criador soberano.

Portanto, Deus é louvado nos Salmos como o grande e poderoso Salvador que livra de todo inimigo. Todo cristão verdadeiro se regozija com o salmista quando ele canta: "Eu te amarei, ó SENHOR, fortaleza minha. O SENHOR é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio" (Sl. 18:1-2). Todas essas expressões retratam Deus como um Salvador poderoso e forte. Ele é como uma grande rocha inamovível. Ele é um lugar forte, um alto refúgio. O Salvador é o escudo que protege seu povo de todo inimigo. Nada pode irromper as defesas com as quais Deus rodeou o seu povo. Os salmistas consideravam Deus como sendo tão soberano na salvação que confiavam nele completamente. Assim, o salmista declara: "O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O SENHOR é a força da minha vida; de quem me recearei?" (Sl. 27:1).

Essa confiança no Salvador soberano é expressa não somente por meio de louvor, mas também de oração. Os Salmos estão cheios de oração nas quais Deus é invocado para socorro e salvação. Lemos: "Das profundezas a ti clamo, ó SENHOR. Senhor, escuta a minha voz; sejam os teus ouvidos atentos à voz das minhas súplicas. Se tu, SENHOR, observares as iniqüidades, Senhor, quem subsistirá? Mas contigo está o perdão, para que sejas temido. Aguardo ao SENHOR; a minha alma o aguarda, e espero na sua palavra" (Sl. 130:1-5). Os salmistas eram pecadores, assim como todos do povo de Deus. Eles sabiam também que, se Deus considerasse os seus pecados, não permaneceriam de pé. Mas pela fé estavam confiantes que Deus poderia e os salvaria. Eles esperavam no Salvador soberano. Não buscavam salvação neles mesmos. Não confiavam na vontade ou obras deles. Nem se voltavam para outros em busca de socorro. A esperança certa deles estava fixada sobre Deus somente. Eles conheciam apenas um Salvador, e esse Salvador era Deus Jeová. "A minha alma espera somente em Deus; dele vem a minha salvação. Só ele é a minha rocha e a minha salvação; é a minha defesa; não serei grandemente abalado" (Sl. 62:1-2).

A Graça Soberana de Deus

A salvação é a obra da graça de Deus somente. É a obra da graça SOBERANA de Deus. Os salmistas não conheciam uma graça que deve ser conquistada pelo homem ou aceita por sua vontade. A salvação não é condicionada ao que o homem faz, mas é baseada totalmente na fidelidade do Deus do pacto. O povo de Deus é salvo somente porque Deus estabeleceu seu pacto com eles e prometeu salvá-los. Assim, o povo de Deus se regozija e canta: "As benignidades do SENHOR cantarei perpetuamente; com a minha boca manifestarei a tua fidelidade de geração em geração. Pois disse eu: A tua benignidade será edificada para sempre; tu confirmarás a tua fidelidade até nos céus, dizendo: Fiz uma aliança com o meu escolhido, e jurei ao meu servo Davi" (Sl. 89:1-3). A fidelidade pactual de Deus nunca falhará. Mesmo quando o povo de Deus viola o pacto, Deus permanece fiel. Ele os salva a despeito da sua infidelidade, através da Semente prometida. Ele promete: "A minha benignidade lhe conservarei eu para sempre, e a minha aliança lhe será firme. E conservarei para sempre a sua semente, e o seu trono como os dias do céu. Se os seus filhos deixarem a minha lei, e não andarem nos meus juízos. Se profanarem os meus preceitos, e não guardarem os meus mandamentos. Então visitarei a sua transgressão com a vara, e a sua iniqüidade com açoites. Mas não retirarei totalmente dele a minha benignidade, nem faltarei à minha fidelidade. Não quebrarei a minha aliança, não alterarei o que saiu dos meus lábios" (Sl. 89:28-34).

É o Salvador soberano, portanto, que regenera, converte, justifica, santifica, preserva e glorifica o seu povo. Essa era a convicção do Rei Davi, como demonstrado pelo Salmo 51. A quem Davi se voltou no meio de seus grandes pecados? Ele achou conforto no fato que fez algo para a salvação? NÃO! Ele orou: "Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias" (Sl. 51:1). Ele implorou a misericórdia de Deus. Ele não olhou para si mesmo, pois reconheceu "eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe" (Sl. 51:5). Ele era um pecador. Como poderia salvar a si mesmo? Assim, ele busca salvação na graça soberana. Deus deve "criar" "um coração puro" e "renovar um espírito reto" nele. Somente Deus pode "restaurar" a ele "a alegria da salvação," e sustentá-lo com o seu Espírito. Se haveria de ser limpo, Deus deve "purificá-lo" com hissope e "lavá-lo", para que se tornasse mais branco do que a neve. Ele sabia que sua salvação é obra somente de Deus e, portanto, declara: "Ó Deus, Deus da minha salvação" (Sl. 51:14). Encontramos isso por todos os Salmos. No meio do pecado, os salmistas confiavam na graça soberana de Deus. Pois tudo da vida do crente é dirigido e controlado por Deus e sua graça, até que finalmente ele lhe dê a salvação completa. Assim, todos os crentes podem dizer: "Guiar-me-ás com o teu conselho, e depois me receberás na glória" (Sl. 73:24).

Além do mais, os Salmos nos ensinam que a salvação não é dependente da escolha do homem, mas da escolha soberana de Deus. O fator determinador na salvação é vontade de Deus. Os salmistas falam da eleição de Deus em muitos lugares. "Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o SENHOR, e o povo ao qual escolheu para sua herança" (Sl. 33:12). No conselho eterno e imutável de Deus, ele escolheu alguns para serem seu povo, a quem salva. "Porque o SENHOR escolheu para si a Jacó, e a Israel para seu próprio tesouro" (Sl. 135:4). Ele não salva todos. Deus nunca pretendeu salvar todo o mundo.

Ele salva somente aqueles a quem escolheu. Deus tem apenas um povo, que é seu "próprio tesouro". Todos os outros não sabem nada sobre salvação. É sobre o seu povo escolhido somente que ele concede sua misericórdia, graça e amor. Ele tem somente ira pelos ímpios. Assim, o salmista fala de reprovação quando diz de Deus: "Odeias a todos os que praticam a maldade" (Sl. 5:5). "O SENHOR prova o justo; porém ao ímpio e ao que ama a violência odeia a sua alma" (Sl. 11:5).

A predestinação soberana de Deus foi manifesta por toda a antiga dispensação pelo fato que Deus deu sua Palavra somente ao seu povo. "Mostra a sua palavra a Jacó, os seus estatutos e os seus juízos a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; e quanto aos seus juízos, não os conhecem. Louvai ao SENHOR" (Sl. 147:19-20).

A Soberania De Deus Sobre O Ímpio

Bem ligado à soberania de Deus na salvação está a soberania de Deus sobre os ímpios. Deus sempre salva o seu povo por meio do julgamento dos ímpios. O povo de Deus precisa ser salvo dos seus inimigos. Em muitos lugares os salmistas oram pela destruição dos seus inimigos. Em Sl. 68 lemos: "Levante-se Deus, e sejam dissipados os seus inimigos; fugirão de diante dele os que o odeiam. Como se impele a fumaça, assim tu os impeles; assim como a cera se derrete diante do fogo, assim pereçam os ímpios diante de Deus" (Sl. 68:1-2). Algumas vezes uma linguagem muito forte é usada. "O Deus, quebra-lhes os dentes nas suas bocas; arranca, SENHOR, os queixais aos filhos dos leões" (Sl. 58:6).

A base para tais orações pode ser somente a soberania de Deus. O poder onipotente de Deus controla até mesmos os ímpios por causa do povo de Deus e sua salvação. "[Deus] não permitiu a ninguém que os [o povo de Deus] oprimisse, e por amor deles repreendeu a reis, dizendo: Não toqueis os meus ungidos, e não maltrateis os meus profetas" (Sl. 105:14-15). Embora os ímpios tentem destruir o povo de Deus e a causa da Verdade, Deus os detém por seu poder e não permitirá que façam nada que ele não tenha determinado. "O SENHOR desfaz o conselho dos gentios, quebranta os intentos dos povos" (Sl. 33:10). Embora "os gentios se amotinem … e os reis da terra se levantam e os governos consultam juntamente contra o SENHOR e contra o seu ungido … Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles" (Sl. 2:1-4). Deus usa todos os atos perversos dos ímpios para avançar a causa do seu reino. Mesmo a rebelião deles serve ao Senhor.

Todavia, por causa do seu povo, o Senhor destrói o ímpio. Isso é mais evidente na destruição do Egito. O salmista louva a Deus pela destruição dos inimigos do povo de Deus quando declara: "O que feriu os primogênitos do Egito, desde os homens até os animais; o que enviou sinais e prodígios no meio de ti, ó Egito, contra Faraó e contra os seus servos" (Sl. 135:8-9). Não somente o Egito, mas também outras nações pagãs foram destruídas por causa do povo de Deus. "O que feriu muitas nações, e matou poderosos reis: A Siom, rei dos amorreus, e a Ogue, rei de Basã, e a todos os reinos de Canaã. E deu a sua terra em herança, em herança a Israel, seu povo" (Sl. 135:10-12). Assim, o povo de Deus foi salvo por meio da destruição dos ímpios pelo poder soberano de Deus. Portanto, com o salmista todos do povo de Deus devem louvar a Deus e dizer: "Em Deus faremos proezas, pois ele calcará aos pés os nossos inimigos" (Sl. 108:13). Porque Deus é soberano sobre os ímpios, a salvação do povo de Deus é absolutamente certa. Louvai ao Senhor. Ele é o Salvador soberano.

O Conforto da Soberania de Deus

De tudo o que temos mostrado até aqui, deveria estar claro que vários temas da soberania de Deus percorrem todos os Salmos, como fios de ouro. Eles estão por toda parte. Se você arrancasse esses fios removendo a doutrina da soberania de Deus, descosturaria o Saltério inteiro. Pois não existe nenhum Salmo que não se refira à soberania de Deus de uma forma ou outra. É impossível encontrar um único Salmo que ignore essa doutrina. A maravilha do livro de Salmos, contudo, é que a grande maioria dos Salmos não menciona simplesmente a soberania de Deus: eles enfatizam-na! Um estudo cuidadoso dos Salmos indica que 90% deles devotam pelo menos 50% do seu conteúdo a essa doutrina. Pense nisso! Metade do conteúdo de cento e trinta e seis (136) Salmos lida com os temas da soberania de Deus. Além do mais, um terço dos Salmos são inteiramente devotados a esses temas. Isso é impressionante! Demonstra conclusivamente que a soberania de Deus é o tema central do livro de Salmos. Esse livro exalta ENFATICAMENTE Deus como o Deus soberano. Portanto, se o cristão haverá de ser fiel ao Senhor que inspirou esses Salmos, ele não deve apenas crer, mas também enfatizar a soberania de Deus.

Esse fato pode ser adicionalmente demonstrado pela forma com a qual os salmistas lidam com essa doutrina. Eles não tratam a doutrina da soberania de Deus de uma maneira fria e abstrata. A beleza desse livro de louvor é que a soberania de Deus é de fato o CORAÇÃO e a ALMA dos Salmos. Os salmistas amam essa doutrina. Era-lhes preciosa. Eles encontraram grande conforto no fato que Deus controla e opera todas as coisas para a salvação deles. Eles não tinham nada a temer. Mesmo no meio da tribulação, os salmistas tinham paz e contentamento. Essa é a experiência de todos aqueles que confiam no Deus soberano. Eles podem dizer: "O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei?" (Sl. 27:1). O povo de Deus não tem nada a temer porque o Deus soberano é o Salvador deles; ele mantém a própria vida do seu povo em suas mãos, e ninguém pode tocar nessa vida à parte da sua determinação. O motivo é que o controle soberano de Deus se estende a tudo da criação. Não existem criaturas que possam retirar de Deus o seu povo. Assim, os cristãos cantam juntos: "Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. Portanto não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares. Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza" (Sl. 46:1-3).

A doutrina da soberania de Deus, portanto, dá ao crente uma alegria maravilhosa. Ele é feliz porque sabe que está seguro nos braços eternos de Deus. O Rei Davi falou dessa alegria quando exclamou: "O rei se alegra em tua força, SENHOR; e na tua salvação grandemente se regozija" (Sl. 21:1). A grande força do Senhor é a base da alegria cristã. Que alegria os filhos de Deus poderiam ter, se Deus fosse um deus impotente e fraco, que não tem nenhum poder soberano para salvá-los? Nenhuma! O cristão se regozija porque Deus não está apenas disposto, mas é também capaz de salvá-los. Assim, o salmista ora: "Porém alegrem-se todos os que confiam em ti; exultem eternamente, porquanto tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome" (Sl. 51:1).

O Louvor da Soberania de Deus

Essa alegria que o crente experimenta produz naturalmente uma gratidão que louva a Deus por sua grandeza. Assim, encontramos louvores por todos os Salmos. Na verdade, os livros de Salmos é um livro de louvor precisamente porque seu tema é aquele da soberania de Deus. É a soberania de Deus que é louvada. Porque Deus salva o seu povo e livra-os dos seus inimigos por seu poder soberano, os crentes cantam a sua grandeza. A soberania de Deus e o louvor são inseparáveis. O salmista diz: "Grande é o SENHOR, e muito digno de louvor, e a sua grandeza inescrutável" (Sl. 145:3). Porque o Senhor é grande, ele deve ser grandemente louvado. O povo de Deus era exortado: "Batei palmas, todos os povos; aclamai a Deus com voz de triunfo" (Sl. 47:1). Qual poderia ser a razão para tais aclamações de louvor? A resposta – "Porque o SENHOR Altíssimo é tremendo, e Rei grande sobre toda a terra … pois Deus é o Rei de toda a terra, cantai louvores com inteligência" (Sl. 47:2, 8). Alguém que não crê na soberania de Deus não tem base, seja qual for, para louvar a Deus.

Deus revela a si mesmo e a sua grandeza ao seu povo por meio de suas obras. Por todos os Salmos, portanto, os salmistas louvam a Deus por essas maravilhosas obras. Porque a soberania de Deus é exibida em suas obras, o salmista diz: "Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem" (Sl. 139:14). Aqui o ato soberano da criação é louvado. Fomos assombrosa e maravilhosamente feitos. Contudo, os salmistas louvam a Deus por todos os seus atos poderosos. Na realidade, os crentes de uma geração a outra devem continuamente louvar a Deus por suas obras soberanas. "Uma geração louvará as tuas obras à outra geração, e anunciarão as tuas proezas. Falarei da magnificência gloriosa da tua majestade e das tuas obras maravilhosas. E se falará da força dos teus feitos terríveis; e contarei a tua grandeza" (Sl. 145:4-6).

O que é verdadeiro das obras de Deus em geral, é especialmente verdadeiro de sua obra de salvação. O crente louva a Deus por todas as suas obras no que concerte à sua própria salvação. Ele o louva porque opera soberanamente todas as coisas para a sua salvação. Assim, a Igreja canta: "Cantai ao SENHOR um cântico novo, porque fez maravilhas; a sua destra e o seu braço santo lhe alcançaram a salvação. O SENHOR fez notória a sua salvação, manifestou a sua justiça perante os olhos dos gentios. Lembrou-se da sua benignidade e da sua verdade para com a casa de Israel; todas as extremidades da terra viram a salvação do nosso Deus" (Sl. 98:1-3). O povo de Deus louva-o porquê reconhecem que sua salvação é o resultado da poderosa destra e o braço santo do Senhor. A salvação é o resultado das coisas maravilhosas que Deus tem feito. Além disso, o crente sabe que sua salvação remete à eleição eterna de Deus. Portanto, ele louva a Deus por sua vontade soberana que o escolheu para salvação. "Louvai ao SENHOR, porque o SENHOR é bom; cantai louvores ao seu nome, porque é agradável. Porque o SENHOR escolheu para si a Jacó, e a Israel para seu próprio tesouro" (Sl. 135:3-4).

A Proclamação da Soberania de Deus

A doutrina da soberania de Deus é uma Verdade maravilhosa que o santo não pode guardar para si. Ele explode em louvor a Deus, mas também fala da soberania de Deus aos outros. O salmista declara: "Louvai ao SENHOR, e invocai o seu nome; fazei conhecidas as suas obras entre os povos. Cantai-lhe, cantai-lhe salmos; falai de todas as suas maravilhas" (Sl. 105:1-2). O povo de Deus faz conhecidos os grandes feitos de Deus e suas maravilhosas obras. Eles falam um com o outro. De fato, os pais cristãos devem cuidar para que seus filhos digam: "O Deus, nós ouvimos com os nossos ouvidos, e nossos pais nos têm contado a obra que fizeste em seus dias, nos tempos da antiguidade. Como expulsaste os gentios com a tua mão e os plantaste a eles; como afligiste os povos e os derrubaste. Pois não conquistaram a terra pela sua espada, nem o seu braço os salvou, mas a tua destra e o teu braço, e a luz da tua face, porquanto te agradaste deles. Tu és o meu Rei, ó Deus; ordena salvações para Jacó" (Sl. 44:1-4)

Essa verdade não é algo que a Igreja "crê", mas não promove e proclama. Os verdadeiros cristãos não a ocultam. Não temem a doutrina da soberania de Deus. Assim, o povo de Deus deve declarar a soberania de Deus mesmo aos pagãos. O povo de Deus é admoestado: "Anunciai entre as nações a sua glória; entre todos os povos as suas maravilhas. Porque grande é o SENHOR, e digno de louvor, mais temível do que todos os deuses. Dizei entre os gentios que o SENHOR reina. O mundo também se firmará para que se não abale …" (Sl. 96:3-4, 10). O cristão deve declarar as maravilhas gloriosas de Deus mesmo ao incrédulo. A mensagem que é proclamada ao não-convertido é a mensagem da soberania de Deus. A mensagem que é proclamada ao inconverso é a mensagem da soberania de Deus. O incrédulo não deve pensar que a salvação depende da sua vontade. Deve ser informado que "o SENHOR reina" em todo o mundo e especialmente na salvação. De fato, o povo de Deus deve fazer essa proclamação uma parte de sua vida diária. Eles devem continuamente mostrar as maravilhas de Deus. Pois o salmista diz: "Cantai ao SENHOR, bendizei o seu nome; anunciai a sua salvação de dia em dia" (Sl. 96:2). A soberania de Deus é um tema central da experiência cristã, que devemos lembrar e falar sobre regularmente.

Certamente alguém que se ajoelha diante da autoridade da Palavra de Deus, reconhece que o cristão não deve apenas crer na soberania de Deus, mas deve enfatizá-la também. É o coração e alma dos Salmos e, portanto, deve ser o coração e alma da fé do crente. A pessoa que enfatiza essa Verdade gloriosa NÃO é alguém unilateral. Antes, aqueles que não enfatizam essa doutrina são culpados de distorcer a Verdade do evangelho. A doutrina da soberania de Deus pode ser encontrada em cada página dos Salmos. Sim, em cada página da Sagrada Escritura. Ela é o conforto e alegria do crente, a base para a sua ação de graças e o louvor a Deus, e é a Verdade que deve ser proclamada na igreja e no mundo. De fato, "O SENHOR É DEUS …" (Sl. 100:3). Que esse seja o cerne de sua fé, para que possa dizer com o salmista que fecha o livro inteiro de Salmos com as palavras: "Louvai ao SENHOR. Louvai a Deus no seu santuário; louvai-o no firmamento do SEU PODER. Louvai-o pelos seus ATOS PODEROSOS; louvai-o conforme a EXCELÊNCIA DA SUA GRANDEZA … Tudo quanto tem fôlego louve ao SENHOR. LOUVAI AO SENHOR" (Sl. 150:1-2, 6).

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Fonte: God's Sovereignty and the Psalms

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Calvino o Pregador da Palavra

João Calvino nunca foi e nunca será uma unanimidade, acho eu. Mas uma coisa é verdade em relação a ele, não se pode ignorá-lo. Uma hora ou outra quem estuda teologia vai tropeçar em Calvino, em suas Institutas. Esse encontro, na maioria das vezes é traumático. Especialmente porque quando alguém tropeça nele, o faz na espinhosa doutrina da predestinação. É bom saber que Calvino não foi apenas o autor das Institutas, nem tratou apenas da doutrina da predestinação durante sua vida e ministério. Entre tantas outras coisas que fez, escreveu vários comentários bíblicos, que inclusive Jacó Armínio recomendava considerando-o “incomparável na interpretação das Escrituras”.

Também foi um excelente expositor da Palavra. Podemos conhecer algo de Calvino como pregador em uma obra recentemente publicada no Brasil por Steven J. lLawson, pastor batista e professor no Expositor's Institute, junto com John MacArthur. Ele se propôs, em A Arte Expositiva de João Calvino, mostrar um retrato de Calvino como pregador. Esse é um livro que vale a pena ser lido por todos, mas especialmente por aqueles que se aventuram no terreno sagrado da pregação.

A ARTE EXPOSITIVA DE JOÃO CALVINO
Steven J. Lawson
Editora Fiel

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Quem Escolhe Quem
Silas Roberto

Aos meus queridos alunos da E.T.T.E.D.

Eleição é, na teologia calvinista, a “escolha divina de certos indivíduos para a salvação”.

2 Tessalonicenses 2:13 - Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade...

Efésios 1:4,5 - assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade...


Não parece haver divergência entre calvinistas e arminianos de que a eleição é uma doutrina bíblica. A divergência ocorre quanto ao que motiva a escolha divina, que lhe conferirá o caráter incondicional ou condicional. Como pano de fundo está o esforço humano em harmonizar a soberania e a liberdade humana.


No calvinismo – o seu segundo ponto [referente ao "U" - Unconditional Election - do acróstico TULIP] diz que a eleição é INCONDICIONAL. Isso significa dizer que Deus baseou Sua escolha na Sua soberana, santa e livre vontade.

2 Timóteo 1:9 [Deus] que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos (cf. Ef. 1:4).

Salmo 65:4 bem-aventurado aquele a quem escolhes, e aproximas de ti, para que assista nos teus átrios. (cf. João 15:16)


No arminianismo – um dos pontos do arminianismo, em oposição ao calvinismo, é que a eleição é CONDICIONAL. Isso quer dizer que Deus baseou Sua escolha na Sua presciência. Em outras palavras, Deus previu que alguns homens creriam em Cristo, assim os elegeu.

1 Pedro 1:1,2 - Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são forasteiros da Dispersão no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas.

Romanos 8:29,30 - Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.

Há muitos e bons motivos para discordarmos da tese arminiana, entre eles, os seguintes:

Essa teoria faz do homem, não Deus, o autor da eleição. Ora, se Deus escolhe aqueles que previu que iriam crer até o fim, logo, Deus só elege aqueles que primeiro o escolheram – mesmo que ainda não existissem. Mas as Escrituras deixam bem claro que Deus é o agente na eleição, isto é, é Ele quem escolhe, não nós: Dt. 4:37; 7:6,7,8; 10:15; 14:2; Sl. 33:12; 65:4; Is. 43:7,10; Mt. 11:27; Mc. 13:20; Lc. 18:7; Jo. 6:37-44,65; 13:18; 15:16,17; 17: 6 segs; At.. 13:48; Rm.8:28-30; 9:11; Ef.1:4-5; 2 Tes;2:13; 1 Tm.1:9; 1 Jo.4:9.


Essa teoria vulgariza a presciência divina como mera previsão de atos. A Bíblia mostra que “presciência” divina não é mera previsão de Atos. Quem consultar Romanos 8:28-30 com muita atenção perceberá que não são os atos dos homens que são “conhecidos de antemão”, mais os homens – “daqueles”, “chamados”, (v.28), “aos”, “os”, (v.29), “aos, “a esses”, “aos”, “a esses”, “aos”, “a esses”, (v.30). Daí, podemos dizer que a presciência divina tem por objeto os homens, não atos. Depois, ainda em Romanos 8:28-30, é preciso perceber que a presciência é segundo o “propósito” divino, veja o final do v.28 que está ligado ao v.29 pela conjunção “porquanto”. O que Paulo declara nos vv. 29-30 é um desenvolvimento do que declarou no v.28, isto é, de que Deus formou Seu propósito e de acordo com este, conheceu de ante mão, predestinou, chamou, justificou e glorificou os eleitos, cf. Rm. 9:11; Ef. 1:11; 1 Tm. 1:9. Pedro não difere de Paulo sobre isso, 1 Pe. 1:1,2. De imediato fica estabelecido a identidade daqueles que Deus pré-conhece ( “aos eleitos que são forasteiros...”, v.1), não seus atos. Depois, a palavra “presciência” que ocorre neste texto tem um pano de fundo judaico que não pode ser desprezado. O verbo hebraico “yada” –lit. “conhecer”, aclara o sentido do termo grego “prognosis” que o apóstolo Pedro usa. O sentido do termo não é apenas “conhecer de antemão”, mas sim um conhecimento seletivo [íntimo] que considera alguém com favor, fazendo-o objeto de amor, Gn. 18:19; Jr.1:5; Am.3:2. Daí, “presciência” aproxima-se da idéia de predestinação.


Essa teoria inverte a ordem das coisas, faz da fé a causa, não o efeito da eleição. As Escrituras deixam claro que a fé não é a causa da eleição, mas seu efeito, At. 13:48. O texto citado não diz “todos os que creram foram destinados à vida eterna...” ou como está na tradução deturpada das Testemunhas de Jeová “todos os corretamente dispostos para com a vida eterna tornaram-se crentes”. O testemunho bíblico é “creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna”. Fé salvífica é uma dádiva divina, uma conseqüência da eleição, não sua causa. (Ef. 2:8,10; Tt. 1:1-3).


Esta teoria faz a salvação pela obras, não pela graça. Se Deus elegeu aqueles que previu que creriam, logo, a salvação é por méritos, não por graça. Os que pensam assim fazem Deus devedor do homem. O testemunho bíblico é este: “pela graça sois salvos....para que ninguém se glorie” (Ef.2:8,9).



Poderíamos multiplicar os argumentos, mas o espaço não nos permite. Fica claro que a ELEIÇÃO É INCONDICIONAL, segundo o testemunho das Escrituras. Assim, a resposta que se oferece à pergunta “em que se baseia a eleição?” é respondida de acordo com as palavras de Paulo “o beneplácito da Sua vontade” (Ef. 1:5). E se alguém tenta ir adiante, no dizer de João Calvino, “é sumamente iníquo meramente investigar as causas da vontade de Deus. Porque sua vontade é e certamente deve ser a causa de todas as coisas...”.


Soli Deo Glória