quinta-feira, 20 de novembro de 2008

PREGA A PALAVRA!


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Silas Roberto Nogueira


A pregação autêntica está em falta já há muito tempo e isso pode ser facilmente observado pela superficialidade que caracteriza a Igreja Cristã de modo geral. A pregação moderna é, com raras exceções, curta, rasa, temática e triunfalista. A teologia diluída e poluída pelo secularismo que os pregadores, dominicalmente, apresentam nos púlpitos das igrejas evangélicas brasileiras priva Deus da adoração que Lhe é devida.

Primeiro pelo fato de que o Seu povo não é levado a temê-lo e reverenciá-lo (Dt. 10:12-21). Depois, esse tipo de mensagem é ofensiva à Santa Trindade por que usurpa de Deus o Pai a Sua prerrogativa de declarar ao homem o que lhe requer (Mq. 6:8;Os. 6:6), de Deus o Filho o Seu senhorio sobre a Sua Igreja (Ef. 4:15,16; 5:23) privando-a de crescimento e edificação espiritual , e de Deus o Espírito Santo a Sua obra tanto regeneradora (1 Pe. 1:23; Tg.1:18) quanto santificadora que Ele opera tendo a Palavra como instrumento (Jo.17:17). Além disso, essa pregação é enganosa (Jr.8:11), promove o misticismo, a hipocrisia e a desobediência. O abandono da pregação genuína transforma adoradores em consumidores, o culto em entretenimento, evangelismo em adesão e faz de Deus em um gênio da lâmpada que só serve para satisfazer os nossos desejos.

As razões para o declínio da pregação são muitas. Uma delas é a aversão do homem pós-moderno por verdades objetivas. Essa tendência afetou a igreja de modo que os pastores e pregadores evitam expor doutrina em seus púlpitos e fazer declarações autoritativas que desagradem os ouvintes. Uma segunda razão é a secularização da sociedade e da igreja. Eis a razão de tanto sucesso dos pregadores da teologia da prosperidade e da pregação motivacional. Outra razão é o afastamento do cristianismo bíblico. A igreja de hoje está enfeitiçada pelo pragmatismo. O que determina a prática e estratégia eclesiástica é o marketing. Não podemos esquecer de lembrar da carência de preparo teológico de muitos pastores e pregadores como um dos fatores do declínio da pregação. As instituições teológicas, via de regra, preocupadas em obter reconhecimento dos órgãos estatais para os diplomas que oferecem, baixaram a qualidade do ensino que ministram [é claro que os seus diretores discordam, mas não se pode argumentar contra os fatos]. Além e acima de tudo isso está a carência de homens piedosos, comprometidos com o Deus da Palavra e com a Palavra de Deus.

Quando falo em pregação autêntica me refiro aquele tipo de pregação que vise a glória de Deus e não a satisfação dos que tem coceira nos ouvidos (2 Tm. 4:3). Esse tipo de mensagem é confrontadora, por conseguinte, transformadora. Dr. Lloyd-Jones expressou-se sobre a pregação dizendo que a mesma “deveria efetuar uma diferença tal, no indivíduo que a ouve, que nunca mais ele fosse a mesma pessoa novamente.” Esse impacto só pode ser causado se as Escrituras forem expostas e, como dizia Spurgeon, “o sermão que chega com muito maior poder às consciências dos ouvintes é pura e simplesmente a própria Palavra de Deus – não uma preleção sobre as Escrituras, mas as Escrituras mesmas, expostas e impostas”

A pregação que mais corresponde a essa idéia e desígnio é a pregação expositiva. Geralmente quando falamos em pregação expositiva a preferência é dada aos que o fazem de modo sistemático, ou seja, expondo a totalidade de um livro da Bíblia. Lutero, Calvino e Zuínglio e Knox tinham por costume expor as Escrituras sequencialmente. No século passado quem se destacou pela pregação expositiva seqüencial foi o Dr. Lloyd-Jones. Suas exposições da Epístola aos Efésios, entre 1954 e 1962, somam 8 volumes de sermões que proporcionaram grande edificação para os ouvintes originais e têm servido de grande fonte de bênçãos aos leitores posteriores em várias partes do mundo. Mas é igualmente edificante e proveitoso quando apenas seções das Escrituras são utilizadas, como outros bons expositores têm feito. É preciso lembrar que a pregação expositiva é uma das marcas de uma igreja saudável, segundo Mark Dever.
Contudo, pregação expositiva não é um ideal fácil de alcançar. John Stott afirmou que “a pregação expositiva é uma disciplina das mais árduas. Talvez por isto seja tão rara”. A dificuldade em preparar sermões expositivos também reside na ignorância das Escrituras por parte dos pregadores. Se não há estudo profundo das Escrituras, não existe sermão [expositivo]. A pregação expositiva exige estar a serviço da Palavra de Deus. Exige que o pregador tenha a sua mente e vida moldada pelas Escrituras. Sem dúvida isso faz do pregador a primeira vítima da sua mensagem, mas é exatamente isso que lhe confere autoridade e poder para transmiti-la. Thomas Shepard declarou: “eu jamais preguei um sermão que eu não tenha pregado antes à minha própria alma”.

A pregação expositiva não é, como muitos pensam, um comentário versículo por versículo do texto bíblico. Ora, qualquer um pode assumir a plataforma e reproduzir o que um ou outro disse acerca de uma determinada porção das Escrituras. Podemos dizer ainda que a pregação expositiva não é apresentar um esboço com pontos extraídos do texto e recheadas com frases de efeito. Assim como o esqueleto sem carne não alimenta quem tem fome, esse tipo de pregação não alimenta espiritualmente o crente.

A pregação expositiva expõe a verdade (doutrina bíblica) salientada em uma passagem específica da Bíblia. O sermão deve estar repleto de doutrina, ao contrário do que muitos atualmente advogam e praticam. Stuart Olyott é direto, “pregadores cujos sermões não têm conteúdo doutrinário devem abandonar a pregação. O Senhor não os enviou”. Pregação sem conteúdo doutrinário arruína a igreja. A pregação doutrinária é também evangelística. É um erro dicotomizar a pregação em doutrinaria e evangelística. A pregação doutrinaria é essencialmente evangelística e quando o evangelho é fielmente exposto, uma doutrina está sendo exposta.

Mas não é só isso, ainda falta um importante elemento. É preciso a aplicação da doutrina à vida. J. I. Packer diz que “a pregação expositiva consiste na explanação e aplicação de uma passagem das Escrituras. Sem explanação ela não é expositiva, sem aplicação ela não é pregação”. Leland Ryken, um estudioso do puritanismo, lembra que “uma das características mais atraentes da pregação puritana era sua ênfase na aplicação prática da doutrina à vida”. “Sem uma aplicação prática”, diz Liefeld, “a exposição é mera descrição”. A prática é o ornamento de toda a doutrina cristã e a pregação deve, não somente expor a doutrina, mas especialmente como ela se aplica à vida. Pregar desta maneira é extremamente necessário e benéfico para a igreja na atualidade.

Primeiro porque na pregação expositiva Deus fala o máximo e o pregador o mínimo. E isso porque a pregação expositiva exige que o pregador esteja a serviço da Palavra de Deus. Chega de verborragia blasfema no púlpito! Chega de paródia de pregadores midiáticos, megalomaníacos e profanos, comprometidos com o deus deste século em nossos púlpitos! Prega a Palavra, disse Paulo. (2 Tm.4:2).

Depois, a pregação expositiva, especialmente a sistemática, nos livra de inventar temas que consomem tempo e energia e nem sempre representam a vontade de Deus. Quando começo a expor sistematicamente a Bíblia, ela apresenta os temas. Sendo a Bíblia a Palavra de Deus, ao expô-la sistematicamente, Deus mesmo apresentará os temas a serem tratados, Deus mesmo tratará com Seu povo. Chega de mensagens temáticas desconectadas com a Palavra de Deus, fruto da vontade de agradar a platéia e fruto da covardia de expor a Palavra de Deus. Prega a Palavra, ordenou Paulo.

Em terceiro lugar a pregação expositiva, especialmente seqüencial, evitará a espúria categorização ou dicotomia da pregação em “doutrinária” e “evangelística”. Quando a Palavra de Deus é exposta o pregador verá que sua mensagem será tanto doutrinária quanto evangelística. Chega de pregadores ansiosos por produzir resultados e que com motivações fúteis apelam às emoções dos ouvintes para que aceitem a Cristo como se Ele necessitasse ser recebido. Que confundem regeneração com aceno de mãos, que mentem ao som de uma melodia prometendo salvação sem arrependimento de pecados. Prega a Palavra, exorta o apóstolo dos gentios!

Em quarto lugar a pregação expositiva nutre verdadeiramente. A pregação expositiva considera a Palavra de Deus capaz de nutrir a alma, mente e espírito. O pastor que prega expositivamente ajuda sua igreja a pensar e viver biblicamente. Dr. Lloyd-Jones havia observado que “à medida que a pregação diminui, o aconselhamento pessoal aumenta”. Logo, à medida que a igreja desenvolve uma mentalidade e prática bíblicas, o aconselhamento diminui. Quando pastores estão sufocados pelos aconselhamentos é um sinal que sua pregação não está suprindo espiritualmente os membros. Prega a Palavra, é o mandato apostólico!

Em quinto lugar a pregação expositiva é boa para o pastor. Aprofunda seus conhecimentos na Palavra. Evita o erro da heresia. Concede autoridade. Fortalece suas convicções. Renova seu espírito. Aquece seu coração. Aguça a sua mente. Chega de nanicos espirituais, superficiais e desprovidos de convicções, que mentem dizendo que Deus disse quando Deus nem sequer lhes falou. Prega a Palavra, ecoa a voz daquele que encontrou a Cristo a caminho de Damasco!
Chega de animadores de auditório cuja intenção é entreter o público. O pregador não é palhaço (pelo menos não deveria ser), mas profeta. Albert Martin nos apresenta uma crítica pertinente quanto a isso:“O esforço desnatural de certos pregadores para serem “contadores de piadas”, entre a nossa gente, constitui uma tendência que precisa acabar. A transição de um palhaço para um profeta, é uma metamorfose extremamente difícil.” O pastor deve estar comprometido com a Palavra de Deus e o Deus da Palavra, nada mais que isso. Prega a Palavra, diz aquele para quem o viver era Cristo e o morrer era lucro.

Karl Lachler menciona um pregador chamado Ruark que confessou: “depois de dez anos de pregação generalizada, tópica e textual passei os últimos três anos inteiramente na pregação expositiva, obtendo os seguintes resultados: mais almas foram salvas, mais melhorias foram feias às propriedades da igreja e mais dinheiro foi dado às causas missionárias, mais do que em qualquer outro período da história da igreja; e foi Deus, operando através de Sua Palavra, quem fez tudo isto!”. Será que tal testemunho não serve como exemplo?

Até quando estaremos sendo privados da proclamação da Palavra de Deus? Ouvi, ó pastores, o que diz “o velho” Paulo: “prega a Palavra”. Porque foi fazendo isso que ele pôde dizer: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” 2 Timóteo 4:7. Portanto, prega a Palavra! 

Soli Deo Gloria!