sábado, 26 de dezembro de 2009

INTRODUÇÃO À EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS

Dr. David Martyn Lloyd-Jones
Foi ministro da Capela de Westminster, Londres. 
Expôs a Epístola aos Efésios de 1954 a 1962, aos domingos pela manhã; 
o conjunto de sermões soma 8 volumes! 



“Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus

Efésios 1:1


Ao abordarmos esta Epístola, confesso francamente que o faço com considerável arrojo. É muito difícil falar dela de maneira comedida por causa da sua grandeza e da sua sublimidade. Muitos tentaram descrevê-la. Um escritor a descreveu como “a coroa e clímax da teologia paulina”. Outro disse que ela é “a destilada essência da religião cristã, o mais autorizado e o mais consumado compêndio da nossa santa fé cristã”. Que linguagem! E de maneira nenhuma é exagerada.


Longe de mim querer competir com os que assim tem procurado descrever esta Epístola, mas me parece que qualquer descrição geral que dela se faça deve observar de modo especial certas palavras que lhe são características, e que o apóstolo usa mais vezes nela, talvez, do que em qualquer outra Epístola. O apóstolo fica maravilhado ante o mistério, as glórias e as riquezas do método de redenção de Deus em Cristo. Como eu mostrarei, estas são as palavras que ele usa com muita freqüência – a glória disso, o mistério e as riquezas do método de redenção de Deus em Cristo!


Outra maneira pela qual se pode expor a característica peculiar desta grande Epístola é mostrar que esta é uma carta na qual o após-tolo olha para a salvação cristã da vantajosa posição dos “lugares celestiais”. Em todas as suas Epístolas ele expõe e explica o caminho da salvação; ele trata de doutrinas específicas, e de discussões ou controvérsias que tinham surgido nas igrejas. Mas o peculiar traço e característica da Epístola aos Efésios é que aqui o apóstolo parece estar como ele mesmo diz, nos “lugares celestiais”, e dessa posição especial ele está contemplando o grandioso panorama d salvação e da redenção. O resultado é que nesta Epístola há muita pouca controvérsia; e isso porque o seu grande interesse foi dar aos Efésios, e a outros aos quais a carta é dirigida, uma visão panorâmica desta maravilhosa e gloriosa obra de Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor.


Da Epístola aos Romanos Lutero diz: “ela é o documento mais importante do Novo Testamento, o evangelho em sua expressão mais pura”, e em muitos aspectos eu concordo que não existe exposição mais pura e mais clara do evangelho do que na Epístola aos Romanos. Aceitando isso como certo, eu me aventuro a acrescentar que, se a Epístola aos Romanos é a expressão mais pura do evangelho, a Epístola aos Efésios é a expressão mais sublime e mais majestosa dele. Aqui o ponto de vista é mais amplo e maior. Há declarações e passagens nesta Epístola que realmente frustram qualquer tentativa de descrição. O grande apóstolo empilha epíteto sobre epíteto, adjetivo sobre adjetivo, e ainda assim não consegue expressar-se adequadamente. Há passagens no capítulo primeiro, e outras no capítulo 3, especialmente mais para o fim dele, em que o apóstolo é transportado acima e além de si próprio, e se perde e se abandona numa explosão de adoração, louvor e ação de graças. Reitero, pois, que em toda a extensão das Escrituras não há nada que seja mais sublime do que esta Epístola aos Efésios.


Comecemos procurando ter uma visão geral dela, pois só poderemos captar e entender verdadeiramente as particularidades se fizermos uma firme tomada do conjunto todo e da exposição geral. Por outro lado aqueles que imaginam que ao fazerem uma tosca divisão da mensagem desta Epístola de acordo com os capítulos terão tratado dela adequadamente, exibem a sua ignorância. É quando passamos aos detalhes que descobrimos a riqueza; um sumário da sua mensagem é muito útil como começo, porém é quando chegamos às declarações particulares e às palavras individuais que encontramos a glória real exposta à nossa maravilhosa contemplação.


O tema geral da Epístola é proposto logo no seu primeiro versículo. Isso é característico do apóstolo; ele não pôde refrear-se, e parte imediatamente para o seu tema. “Paulo, apóstolo Jesus Cristo, pela vontade de Deus” – aí está! O tema da Epístola, primeiramente e acima de tudo, é Deus – Deus o Pai. “A vós graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e da do Senhor Jesus Cristo. Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.” O apóstolo Paulo sempre começa dessa maneira, e é assim que todo cristão deve começar. Esse é o tema que domina tudo o mais. Nunca houve perigo de que Paulo se esquecesse disso, pois mais que ninguém ele sabia que tudo é de Deus e por Deus, e que a Ele se deve dar glória para todo o sempre.


A Bíblia é o livro de Deus, é uma revelação de Deus, e o nosso pensamento sempre deve começar com Deus. Grande parte do problema da Igreja hoje deve-se ao fato de que somos muito subjetivos, muito interessados em nós mesmos, muito egocêntricos. Esse é o erro peculiar ao presente século. Tendo-nos esquecido de Deus, e havendo – nos tornado tão interessados em nós mesmos, tornamo-nos miseráveis e infelizes, e passamos o tempo em “frivolidades e misérias”. Do princípio ao fim, a mensagem da Bíblia tem o propósito de levar-nos de volta a Deus, humilhar-nos diante de Deus e habilitar-nos a ver a nossa verdadeira relação com Ele. E esse é o grande tema desta Epístola; ela nos põe face a face com Deus, com o que Deus é e com o que Deus fez e faz; toda ela salienta a glória e a grandeza de Deus – Deus, o Eterno, Deus sempiterno, Deus sobre todos – e a indescritível glória de Deus. Este tema grandioso aparece constantemente nas diversas frases que o apóstolo emprega. Aqui vão exemplos – “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito da sua vontade”; “descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo”; “em quem também fomos feitos herança (ou “obtivemos uma herança” – VA inglesa), havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”. Deus, o eterno e sempiterno Deus, auto-suficiente em Si mesmo, de eternidade a eternidade, que não necessita da ajuda de ninguém, vivo, que habita em Sua glória duradoura, absoluta e eterna, é o grande tema desta Epístola. Não devemos começar examinando a nós mesmos e as nossas necessidades microscopicamente; devemos começar com Deus, e esquecer-nos de nós. Nesta Epístola somos como que levados pela mão do apóstolo, e nos é dito que nos vai ser dada a oportunidade de ver a glória e a majestade de Deus. Ao aproximar-nos deste estudo, parece-me ouvir a voz que na antiguidade veio a Moisés, provinda da sarça ardente, dizendo: “Tira os teus sapatos de teus pés; porque o lugar em que estás é terra santa”. Estamos na presença de Deus e Sua glória; portanto, devemos caminhar com cautela e com humildade.


Não somente isso, porém; estamos de imediato diante da soberania de Deus. Pensem nos termos que constantemente vemos perpassar pelas páginas das Escrituras, as grandes palavras e expressões da verdadeira doutrina e teologia cristã. Quão pouco nos falam acerca da glória, da grandeza, da majestade e da soberania de Deus! Os nossos antepassados deleitavam-se com essas expressões; estas eram as expressões dos reformadores protestantes, dos puritanos e dos pactuários. Eles tinham prazer em passar o tempo contemplando os atributos de Deus.


Notem como o apóstolo chega de imediato a este ponto. “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus” – não por sua própria vontade! Paulo não se chamou a si mesmo, e a Igreja não o chamou; foi Deus quem o chamou. Ele é o apóstolo pela vontade de Deus. Ele expõe isso muito explicitamente na Epístola aos Gálatas, onde diz: “... quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou”. Há sempre ênfase à soberania de Deus, e quando estivermos avançando em nosso estudo desta Epístola, a veremos sobressair em toda a sua glória em toda parte. Foi Deus que escolheu em Cristo todo aquele que é cristão; foi Deus que nos predestinou. Faz parte do propósito de Deus que sejamos salvos. Jamais haveria salvação alguma, se Deus não a planejasse e não a pusesse em execução. Foi Deus que “amou ao mundo de tal maneira”; foi Deus que “enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei”. É tudo de Deus e de acordo com o Seu propósito. É “segundo o conselho da sua vontade” que todas estas coisas aconteceram.


Toda esta Epístola nos diz que sempre devemos contemplar a salvação desta maneira. Não devemos partir de nós e depois ascender a Deus; devemos partir da soberania de Deus, Deus sobre todos, e depois descer a nós. Ao caminharmos através da Epístola, veremos que não somente a salvação é inteiramente de Deus em geral; também é de Deus em particular. Vejam, por exemplo, o grande tema que Paulo desenvolve no capítulo 3. A tarefa especial que lhe fora confiada como apóstolo é: “demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou” (“por Jesus Cristo”, VA). O mistério é que os gentios sejam co-herdeiros com Jesus. Foi esse o “mistério” que noutras eras não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, e agora é revelado aos Seus santos apóstolos e profetas pelo Espírito.


Deus domina todas as coisas; o fator tempo em particular. Quando vocês lêem o Velho Testamento, alguma vez perguntaram por que foi que todos aqueles séculos tiveram que passar antes que de fato o Filho de Deus viesse? Por que foi que tão longo tempo somente os israelitas, os judeus, tiveram os oráculos de Deus e o entendimento de que há somente um Deus vivo e verdadeiro? A resposta é que é Deus quem decide o tempo em que tudo deve acontecer, e assim Ele revela esta verdade que até aqui tinha sido secreta. Este fato é apenas outra ilustração da soberania de Deus. Ele deter-mina o tempo para que as coisas todas aconteçam. Deus é sobre todos, dominando sobre todos, e marcando o tempo de cada acontecimento, em Sua infinita sabedoria. Numa época como esta, não sei de nenhuma outra coisa que seja mais consoladora e que dê mais segurança do que saber que o Senhor continua reinando, que Ele continua sendo o soberano Senhor do universo, e que, apesar de que “se amotinam as gentes, e os povos imaginam coisas vãs”, Ele estabeleceu o seu Filho sobre o Seu santo monte de Sião (Salmo 2). Virá o dia em que todos os Seus inimigos lamberão o pó, virão a ser o estrado dos Seus pés e serão humilhados diante dEle, e Cristo será “tudo em todos”. Dessa maneira a soberania de Deus é ressaltada na introdução desta Epístola e repetida até o fim dela, porque é uma das doutrinas cardinais, sem a qual realmente não entendemos a nossa fé cristã.


Depois, tendo dito isso, o apóstolo passa a tratar do mistério de Deus, Sua grandeza e a majestade da Sua soberania. A palavra “mistério” é utilizada seis vezes nesta Epístola aos Efésios, mais vezes, portanto, do que em suas outras Epístolas. Assim, estou justificado em dizer que este é um dos mais importantes temas desta Epístola, o mistério dos procedimentos de Deus com relação a nós, o mistério da Sua vontade. Nós o vemos neste capítulo primeiro – “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo”. Pergunto se sempre compreende-mos isso como deveríamos. É de temer-se que, às vezes, os cristãos abordam estas grandes verdades como se as compreendessem com o seu próprio entendimento. Jamais pensemos assim. Se você começar a imaginar que pode entender a mente e a vontade de Deus, estará condenado ao fracasso, pois há mistérios aos quais nenhuma mente humana pode fazer frente. “Grande é o mistério da piedade”; ninguém o pode entender. E se você tentar entender os procedimentos de Deus com respeito ao homem e ao mundo, garanto-lhe que você se verá tão confuso que sentirá acabrunhado e infeliz. Na verdade você poderá acabar quase perdendo a fé e tendo um sentimento de rancor contra Deus. “O mistério da sua vontade”! Ele é infinito e eterno, e nós somos finitos e pecadores, e não podemos ver nem entender.


Se você se sentir tentado a dizer que Deus não é justo, aconselho-o a, com Jó, pôr a mão na boca, e tratar de compreender de quem você está falando. Certamente, fazer objeção ao mistério é quase negar que sequer somos cristãos. Haverá algo mais maravilhoso, mais encantador, mais glorioso para o cristão do que contemplar os mistérios de Deus? Espero que ao aproximarmos destes grandes temas, você já esteja cheio de um sentimento de divina expectação, e aspire a adentrá-los cada vez mais. Um dos aspectos mais maravilhosos da vida cristã é que nela você está sempre avançando. Você pensa que já o conhece todo, e então dobra uma esquina e de repente vê algo que não conhecia, e vai adiante, sempre adiante. É por isso que o apóstolo escreve acerca das “riquezas da sua graça”; é o glorioso mistério que a Ele aprouve revelar-nos por Seu Santo Espírito. Mas não permita Deus que alguma vez imaginemos que seremos capazes de entender isso tudo no sentido de abarcá-lo totalmente. Meu interesse não é somente aumentar o nosso conhecimento intelectual de Deus, e sim desvendar “o mistério” dos Seus caminhos, a fim de que possamos vê-la e adorar o Senhor, e confessar a nossa ignorância, pequenez e fragilidade, e Lhe agradecer o mistério da Sua santa vontade.


O próximo tema é a graça de Deus; e esta palavra é utilizada treze vezes nesta Epístola. O apóstolo a fica sempre repetindo. No versículo dois ele a coloca na frase inicial: “A vós graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e da do Senhor Jesus Cristo”. Este é o tema que, acima de tudo mais, é desenvolvido nesta Epístola – a estupenda graça de Deus para com o homem pecador, providenciando para ele salvação e redenção. “A graça de Deus”; sim, e abundante em particular – “as riquezas da sua graça”. Essa idéia acha-se aqui mais do que em qualquer outro lugar – “as riquezas da sua graça”! “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com toda as benção espirituais nos lugares celestiais em Cristo. “Nesta Epístola nos é dado um vislumbre das riquezas, da abundância, da superabundância da graça de Deus para conosco; e se não estivermos ansiosos por um exame e investigação com a mais ávida antecipação possível, é duvidoso se somos cristãos. A maioria das pessoas se interessa por valores e riquezas; gostamos de ir a museus e a outros lugares onde se guardam e se armazenam coisas preciosas, gostamos de ver jóias e pérolas; ficamos em filas e pagamos pelo direito de ver tais valores e riquezas. Gabamo-nos disso como indivíduos e como nações. Repito, pois, que o supremo objetivo desta Epístola é fazer-nos entrar e olhar, e ter um vislumbre das riquezas, das superabundantes riquezas da graça de Deus. Tudo começa com Deus, Deus o Pai, que é sobre todos.


Mas tendo dito isso, pasaremos para o que invariavelmente vem em seguida em todas as Epístolas deste apóstolo, na verdade o que sempre vem em segundo lugar em toda a Bíblia – o Senhor Jesus Cristo. “A vós graça, e paz.da parte de Deus nosso Pai e da do Senhor Jesus Cristo”. Vocês notaram quantas vezes ocorre o nome, o nome que era tão caro e bendito para o apóstolo? “O apóstolo de Jesus Cristo”, “A vós graça, e paz de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo”, e assim continua. No versículo primeiro Paulo nos diz logo de início que ele é um “apóstolo de Jesus Cristo”. Soa quase ridículo ter que dizê-lo, e, todavia, é essencial salientar que não há evangelho nem salvação fora de Jesus Cristo. É necessário porque há pessoas que falam de cristianismo sem Cristo. Falam em perdão, mas o nome de Cristo não é mencionado, pregam sobre o amor de Deus, porém em sua opinião o Senhor Jesus Cristo não é essencial. Não é assim com o apóstolo Paulo; não há evangelho, não há salvação sem o Senhor Jesus Cristo. O evangelho é especial-mente acerca dEle. Todos os propósitos misericordiosos de Deus são levados a efeito por Cristo, em Cristo, mediante Cristo, do princípio ao fim. Tudo o que Deus, em Sua vontade soberana, por Sua infinita graça, e segundo as riquezas da Sua misericórdia e do mistério da Sua vontade – tudo o que Deus se propôs realizar e realizou para a nossa salvação, Ele o fez em Cristo. Em Cristo “habita corporalmente toda a plenitude da divindade”; nEle Deus entesourou todas as riquezas da Sua graça e sabedoria. Tudo, desde o início até o fim, é nosso Senhor Jesus Cristo e por meio dEle. Somo chamados e escolhidos “em Cristo” antes da fundação do mundo, somos reconciliados com Deus pelo “sangue de Cristo”. “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça”. (VA: “...pelo seu sangue, o perdão dos pecados...”).


Todos nós estamos interessados no perdão, mas como sou perdoado? Será porque eu me arrependi ou tenho vivido uma vida virtuosa que Deus me vê e me perdoa? Digo com reverência que nem mesmo o Deus todo-poderoso poderia perdoar o meu pecado simplesmente com base nesses termos. Há unicamente um modo pelo qual Deus nos perdoa; é porque Ele enviou Seu Filho unigênito do céu à terra, e à agonia, à vergonha e à morte na cruz: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue”. Não há cristianismo sem “o sangue de Cristo”. É central, absolutamente essencial. Sem Ele não há nada. Não somente a Pessoa de Cristo, todavia em particular a Sua morte, o Seu sangue derramado, o Seu sacrifício expiatório e substitutivo! É dessa maneira, e somente dessa maneira, que somos redimidos. Nesta Epístola Cristo é exposto como absolutamente essencial. Veremos isso quando entrarmos em detalhes. Ele está em toda parte, tem que estar. Somos escolhidos nEle, chamados por Ele, salvos pelo Seu sangue. Ele é a Cabeça da Igreja, como nos lembra o capítulo primeiro. Ele está “acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro”. Ele é a “cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos”; e Ele está à mão direita de Deus, com toda a autoridade e poder no céu e na terra. Jesus, o nosso Senhor, é supremo; Ele é o Filho de Deus, o Salvador do mundo. Esse vai ser o nosso tema. Você está começando a ansiar por isso – por vê-lO, contemplá-lO em Sua Pessoa, em Seus ofícios, em Sua obra, em tudo o que Ele é e pode ser para nós?


Então, em particular, como já estive antecipando, o tema do grande propósito de Deus em Cristo é o tema prático desta Epístola. Vemo-lo no versículo 10: “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” Vemos aí o propósito de Deus. O apóstolo prossegue e nos diz que este propósito sempre foi necessário por causa do pecado. No capítulo 2 veremos que ele nos fala acerca dos problemas que importunam a mente e o coração do homem, e de como sua causa é o fato de que “o príncipe das mundo antigo estava na mesma situação. Não há nada de novo nisso, é tudo resultado do pecado e do ódio do diabo a Deus. É resultado do fato de que o homem perdeu sua verdadeira relação com Deus. O homem se põe como Deus, e com isso causa todo o transtorno e confusão no mundo. Mas nos é exposto como, no princípio, ainda no Paraíso, Deus anunciou o Seu plano e começou a pô-lo em prática.


O Velho Testamento é um relato de como Deus começou a pô-lo em ação. Primeiramente Ele separou para Si um povo, os hebreus, mais tarde conhecidos como judeus. Na história deles vemos o início do Seu propósito de redenção. Do burburinho da humanidade Deus formou um povo para Si. Chamou um homem chamado Abraão e fez dele uma nação. Aí temos o começo de algo novo. Mas depois houve grande rivalidade entre os judeus e os gentios, e assim, um dos importantes temas desta Epístola é mostrar como Deus tratou dessa questão. O grande tema aqui é que Ele Se revelou, não somente aos judeus, mas também aos gentios; “a parede de separação que estava no meio” se foi; Deus criou “dos dois um”. Há uma nova criação aí; algo novo foi trazido à existência; a isto se chama Igreja; e esta obra de Deus prossegue crescentemente, diz o apóstolo, até que, quando chegar a plenitude dos tempos, Deus executará o Seu plano completo, e tudo quanto se opõe a Ele será destruído. Todas as coisas serão reunidas e feitas uma só em Cristo. Este é um dos importantes temas desta Epístola. A princípio somente os judeus, depois os judeus e os gentios, e depois todas as coisas. E tudo isso será feito “em Cristo e por ele”. (cf. Ef. 2:13,18.)


Isso, por sua vez, leva a outro tema importante, a Igreja. O propósito de Deus se vê muito clara e objetivamente na Igreja e por meio dela, o Seu grande propósito de unir todas as nações em Cristo. Nela se vêem indivíduos diferentes, de nacionalidades diferentes, procedentes de diferentes partes do mundo, com experiências diferentes, diferentes na aparência, diferentes psicologicamente e em todos os aspectos concebíveis; todavia, são todos um só “em Cristo Jesus”. É isso que Deus está fazendo, até que finalmente haja “novos céus e nova terra, em que habita a justiça” (2 Pedro 3:13), e Jesus reine “de costa a costa, até que as luas não tenham mais crescente nem minguante”.


Não há nada mais enaltecedor e maravilhoso do que ver a Igreja sob essa luz e, portanto, ver a importância, o privilégio e a responsabilidade de ser membro dessa Igreja. É por isso que devemos viver a vida cristã; e assim, no capítulo 4 e até o fim da carta, Paulo dá ênfase ao comportamento ético que se espera dos cristãos porque eles são o que são, e porque esse é o plano de Deus, e eles devem manifestar a Sua graça na sua vida diária e no seu modo de viver.


Tivemos aí, pois, uma breve vista dos grandes temas desta Epístola. Permita-me fazer um sumário deles, de maneira simples e prática. Por que estou chamando a sua atenção para tudo isso? É porque estou profundamente convencido de que a nossa maior necessidade é conhecer estas verdades. Todos nós precisamos rever esta gloriosa revelação, e livrar-nos da nossa mórbida preocupação com nós mesmos. Se apenas nos víssemos como somos retratados nesta Epístola; se apenas nos apercebêssemos, como o apóstolo o expressa em sua oração nos versículos 17-19, de que devemos saber “qual seja a esperança da nossa vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos; e qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder”, que diferença isso faria! Acaso você é um cristão acabrunhado, infeliz, achando que a luta é demais para você? Você está a ponto de ceder e desistir? O que você necessita é conhecer o poder que está operando vigorosamente por você, o mesmo poder que ressuscitou Cristo dentre os mortos. Se tão--somente soubéssemos o que significa sermos “cheios de toda a plenitude de Deus”, deixaríamos de ser fracos e de afligir-nos, deixaríamos de apresentar um quadro tão lamentável da vida cristã aos que vivem conosco e ao redor de nós. O que necessitamos primordialmente não é uma experiência, é, sim, compreender o que somos e quem somos, o que Deus em Cristo fez e como Ele nos abençoou. Não nos apercebemos dos nossos privilégios.


A nossa maior necessidade ainda é a necessidade de entendimento. A nossa oração por nós mesmos deve ser a oração que o apóstolo fez por aquelas pessoas, que “os olhos do (nosso) entendimento” sejam “iluminados”. E disso que precisamos. Nesta Epístola “as abundantes riquezas” da graça de Deus são expostas diante de nós. Vejamo-las, tornemos posse delas e desfrutemo-las. Acima de tudo, e especialmente numa época como esta, quão vital é que tenhamos um novo e robusto entendimento do grande plano e propósito de Deus para o mundo. Com conferências internacionais sendo realizadas quase na soleira da nossa porta, com todo o mundo perguntando qual será o futuro e quais serão as consequências dos nossos problemas atuais, com os homens perplexos e desanimados, quão privilegiados somos por podermos pôr-nos de pé e olhar esta revelação, e ver o plano e o propósito de Deus por trás e além disso tudo. Plano e propósito que não serão realizados por meio de estadistas, mas por meio de pessoas como nós. O mundo ignora isto e dá risada e zomba; no entanto, com o apóstolo, nós sabemos com certeza que “todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e ... todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” foi posto debaixo dos pés de Cristo. O Senhor Jesus Cristo foi rejeitado por este mundo quando Ele veio, os homens O repudiaram como a “um qualquer”, um “carpinteiro”; contudo Ele era o Filho de Deus e o Salvador do mundo, o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, Aquele diante de quem se dobrará “todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra” (Filipenses 2:10). Graças sejam dadas a Deus pelo glorioso evangelho de Jesus Cristo, e pelas “riquezas da sua graça”!

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Fonte: David Martyn Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, Editora PES.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

OS PURITANOS E O MINISTÉRIO

Rev. D. J. MacDonald





O termo “Puritano” foi usado pela primeira vez no reinado de Elizabeth (1558–1603) como uma expressão de reprovação para aqueles que, aos olhos dos seus oponentes, eram muito tomados com a pureza da Igreja visível. Os Puritanos consideravam incompletas as reformas religiosas do reinado de Edward VI (1547–53). A Igreja na Inglaterra foi grandemente reformada em doutrina, mas no seu governo e na sua prática, existia muito para o que não havia base bíblica. Quando Elizabeth subiu ao trono em 1558, ela produziu o que mais tarde foi conhecido como a “acordo religioso Elizabetano”, que basicamente era um dispositivo político – o objetivo principal da rainha era consolidar a sua própria posição. Isso levou a uma “Igreja aberta”, que podia e que realmente aceitava quase que tudo dos fanáticos Papistas, por um lado, e quase que tudo dos Reformadores persuadidos, por outro lado.

Os Puritanos, crendo como eles criam que as Escrituras são a única regra para a prática tanto quanto para a doutrina da Igreja, opunham-se ao novo regime religioso. Eles encontraram-se em oposição a Elizabeth, a James I e a Charles I e, embora desfrutassem de um rápido período de trégua sob a lei de Cromwell, eles foram forçados a deixar a Igreja da Inglaterra em 1662, quando aproximadamente 2.000 ministros recusaram submeter-se ao Ato de Uniformidade. Em todo o século dezessete e também depois, a influência dos Puritanos diminuiu continuamente e, até que uma nova onda de interesse nos seus escritos aparecesse na década de 50 (em grande parte através do trabalho da organização “Banner of Truth Trust”), eles permaneceram como que algo de uma imparidade histórica, aos olhos da maioria.

Não podemos questionar, então, Por que deveríamos nos preocupar hoje com as opiniões dos Puritanos? A pergunta pode ser respondida rapidamente. Durante a era Puritana, mais ou menos entre 1560–1700, a Igreja da Inglaterra foi favorecida pela pregação, pela influência e pelas obras de alguns dos mais proeminentes escritores Puritanos. Nomes como Owen, Flavel, Manton, Perkins e Watson vêm prontamente à mente. Estes, com muitos outros, juntam-se aos mais proeminentes nomes da Reforma Protestante. Sua doutrina, prática e louvor eram embasados no preceito completamente Calvinista, “Pela Escritura somente”, e assim os seus escritos e idéias são tão aceitáveis hoje como sempre têm sido, para todos quantos desejam descobrir “o que diz a Escritura”.

Os Puritanos escreveram muito sobre o ofício e o trabalho do ministério evangelístico e, só por tal motivo, merecem ser lidos e estimados. Existe muito pouco escrito pelos Puritanos sobre o ministério que, por si só, nos confortará. O motivo para isso é que eles estabelecerem um padrão muito alto para todos os aspectos do ministério, e isso talvez deixará algum de nós dolorosamente consciente de estar aquém do padrão estabelecido pelos Puritanos. Todavia nós somos deixados com a impressão indubitável de que o padrão Puritano para ministros é nada menos que o padrão exigido pela Palavra de Deus, ao qual nós devemos buscar atingir, em meio aos muitos males espirituais dos nossos dias e a despeito das nossas sentidas fraquezas e trevas. Além disso, podemos ver nos seus escritos o poder de Deus para tomar homens de paixões similares às nossas e transformá-los em valorosos servos de Cristo em tempos difíceis. É pelo operar desse poder em nossas vidas e em nossos corações que nós certamente clamamos, pois será esse poder que fará o evangelho que pregamos ser “o poder de Deus para a salvação” em larga escala, algo que nós nunca experimentamos, na nossa época.

Eu proponho trabalhar o assunto sob cinco tópicos: 1. O chamado para o ministério. 2. A dificuldade do ministério. 3. A responsabilidade do ministério . 4. A primazia da pregação. 5. Algumas aplicações diretas dos princípios Puritanos.

1. O chamado para o ministério

Os sentimentos dos puritanos neste assunto são melhor sumarizados por Thomas Manton: “Que ninguém pode entrar no trabalho ou no ofício do ministério sem um chamado está, eu suponho, fora de controvérsia. Este chamado é interno e externo. Agora, o que é o chamado interno? Eu respondo, Deus nos chamou quando ele nos fez capazes e desejosos; a inclinação e a capacidade são de Deus; dons e talentos são nossas cartas de apresentação que trazemos ao mundo [para mostrar] que somos chamados por Deus e autorizados para a obra. É verdade que existe uma distância e uma diferença nas capacidades, mas todos quantos podem enxergar-se como chamados de Deus, devem ser capazes e aptos para ensinar.”

A que William Perkins acrescenta, “Saberias tu se Deus te enviaria ou não? Então tu deves perguntar à tua consciência e perguntar à Igreja. Tua consciência deve julgar a tua disposição e a Igreja, a tua capacidade. Da mesma forma como tu não podes confiar em outros homens para julgar a tua inclinação ou afeição, assim também tu não podes confiar no teu próprio julgamento para julgar a tua suficiência ou o teu valor. Se a tua consciência testifica a ti que o teu desejo de servir a Deus e à Sua igreja acima de qualquer outro desejo, e se em provas feitas dos teus dons e aprendizado a Igreja . . . aprova o teu desejo e a tua capacidade de trabalhar a serviço de Deus no Seu ministério, e portanto através de um chamado público te permitem seguir; então Deus Ele próprio te permitiu seguir.”

Manton segue dizendo, “O chamado interno não é suficiente; para preservar a ordem na Igreja um chamado externo é necessário. Como Pedro, em Atos 10, foi chamado por Deus para ir até a casa de Cornélio e então, além disso, ele recebeu um chamado do próprio Cornélio, assim devemos também nós, tendo um chamado interno do Espírito, esperar por um chamado externo da Igreja, do contrário não podemos legalmente ser admitidos para o exercício de um ofício e função tais. Assim, como no Antigo Testamento, a tribo de Levi e a casa de Aarão foram indicados por Deus para o serviço do altar, ainda assim ninguém poderia exercer o chamado de um Levita ou servo como um sumo sacerdote até ser ungido e purificado pela Igreja (Êxodo 28:35). Assim os ministros do evangelho, embora chamados por Deus, devem ter sua separação externa e apartados para aquela obra pela Igreja, como diz o Espírito Santo: “Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.” (Atos 13:2). Vejam, o Espírito de Deus os havia escolhido, todavia comanda à Igreja, aos anciãos em Antioquia, para aparta-los para a obra do ministério.”

Este é um resumo sucinto da posição dos Puritanos relativa ao chamado para o ministério. Esta posição ainda é a regra mestra, tanto quanto se refere às Igrejas que intitulam-se Reformadas. Os Puritanos colocam a responsabilidade nos candidatos e na Igreja. Ao candidato cabe discernir o seu próprio desejo; à Igreja cabe discernir quanto aos seus dons e capacidade. Isso ilustra a necessidade de discernimento, particularmente pela Igreja, quando tais julgamentos solenes têm de ser feitos.

Penso que uma breve citação de John Flavel será uma conclusão apropriada a esta seção do nosso tema: “Este ofício deve ser confiado ‘a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros.' (II Tim 2:2) — não a principiantes. Eu sei que as necessidades das igrejas são grandes, mas eu lhes imploro suprir suas demandas com bom ritmo, mas sem mais precipitação. O que é bom o bastante, em seu tempo virá. É menos arriscado colocar um rústico ignorante numa farmácia para manipular e preparar medicamentos para corpos humanos do que confiar a um homem destituído de ambas, prudência e lealdade, com as dispensações das ordenanças de Cristo para as almas dos homens. Quais sejam os fins secretos dos homens, não podemos sabê-los, mas a qualificação para a obra nós podemos, e devemos, saber. Eu não desencorajaria ninguém que pareça possuir inclinações pias combinadas com qualificações competentes. Muitos podem ser úteis sem poder serem excelentes, e eu penso que os homens mais comuns têm prestado os maiores serviços à Igreja de Cristo. Mas ainda, fidelidade e prudência são qualificações indispensáveis. A solene recomendação é para não impormos as mãos em ninguém, precipitadamente (I Tim 5:22).”

2. A dificuldade do ministério

“O trabalho do pregador,” diz Perkins, “é permanecer na presença de Deus, adentrar no santo dos santos, ir entre Deus e o Seu povo, ser a boca de Deus para o povo, e a do povo para Deus; ser o intérprete da eterna lei do Antigo Testamento e do sempiterno evangelho do Novo Testamento; permanecer no espaço do Próprio Deus; cuidar e encarregar-se de almas; estas considerações são tantas maravilhas para a consciência de homens que aproximam-se com reverência, e não com descuidada pressa, ante o trono santo.”

“Não é difícil ensinar?” pergunta John Collings, em sua “A Vindication of the Great Ordinance of God, a Gospel Ministry” (1651). “Meus amados amigos, estamos consigo em muito temor e tremor; e quando consultamos os originais, pesamos a coerência de um texto, comparado nossos pensamentos com os pensamentos de muitos outros divina e principalmente comparados Escritura com Escritura, ainda assim estamos nós em tremor e vemos razão para clamar ao Senhor com Agostinho (antes da nossa interpretação da Escritura), Concede, Senhor, que nós não nos enganemos na compreensão da Tua vontade e que não enganemos a outros, com uma falsa interpretação.”

Sempre que olhamos ou mergulhamos nos escritos dos Puritanos, ficamos com a impressão de que eles tinham uma visão séria e elevada do ministério. “Era”, diz Iain Murray, “uma vida que os enchia de emoção, de reverência. Eles tinham o mesmo espírito que Lutero, que costumava dizer que se ele pudesse novamente escolher seu chamado, ele cavaria um buraco ou faria qualquer outra coisa que não tomar sobre si o ofício de um ministro. Calvino, mesmo após haver escrito sua obra mestra “As Institutas” , julgava-se insuficiente para aceitar o peso da função ministerial. Knox . . . foi tão profundamente afetado pela responsabilidade do ofício que foi com grande dificuldade que ele pode ser induzido a iniciar o seu ministério de pregação. Knox tremeu ao tomar sobre si o ofício do ministério, não somente devido ao seu senso de incapacidade, mas por saber que as responsabilidades do ofício, uma vez aceitas devem, a qualquer custo, serem levadas a cabo.

“Foi escrito sobre James Durham que, ao aproximar-se do fim da vida, ele disse que se pudesse viver outros dez anos, ele escolheria estudar durante nove anos em preparação para pregar no décimo. Perkins estava tão impressionado pela carga sob a qual se encontrava, que ele escreveu na página título de seus livros, ‘Tu és um ministro da Palavra. Cuide dos teus negócios.' Thomas Shepherd, falando a alguns jovens ministros que o visitaram em seu leito de morte, disse, ‘Sua tarefa é grandiosa e exige grande seriedade. Da minha parte, eu nunca preguei um sermão o qual, durante a preparação não me custasse orações com lágrimas e choro forte. Eu nunca subi num púlpito como se não fosse prestar contas de mim mesmo a Deus'.”

3. A responsabilidade do ministério

Vez após vez os Puritanos escreveram sobre este tema. O reformador Hugh Latimer disse num sermão, “Deus vos tem comandado a pregar. Se não alertais o ímpio, ele morrerá em sua impiedade, mas eu exigirei contas do seu sangue, na vossa seara” “Atentai para isso, marcai bem; Eu pedirei o sangue dele, na vossa seara. Se não performais o vosso ofício, se não ensinai e não alertai aos povos, recebereis a condenação eterna por isso.” Essas breves citações parecem capturar o espírito dos Puritanos, uma vez que eles consideravam sua responsabilidade terrível como aqueles que pregavam a Palavra de Deus aos seus semelhantes. Nós, na nossa época, faríamos bem em deixar estas palavras penetrarem em nossos ouvidos, pois nossa responsabilidade não é menor do que era a deles, embora vivamos numa época muito mais frívola, na qual a seriedade em cada faceta da vida parece ser dispensada dos pensamentos da maioria dos homens.

Um pregador da Nova Inglaterra, Daniel Dana (nascido em 1760), ecoa este tema da responsabilidade ministerial quando diz, “Ao Cristão em particular são confiados os assuntos de uma alma, e quando ele reflete que o sua breve passagem pela vida dará compleição a toda a sua eternidade e que ele está constantemente na divisa entre infindáveis alegrias ou misérias, o pensamento deve calar no mais fundo do seu espírito. Mas ao ministro é confiado o cuidado para com centenas de almas. De fato, milhares e dezenas de milhares de seres imortais, estejam perto ou longe, sejam existentes ou ainda por virem a nascer, podem receber sua estampa para eternidade sob a influência do ministro. Que considerações avassaladoras são estas! Quão perfeitas para massacrar um espírito frágil! Todavia o ministro de cuja mente elas são banidas, não aprendeu a primeira lição da sua vocação.

“É tarefa constante, recorrente, do ministro Cristão, conversar com as sublimidades do evangelho – meditar nos seus mistérios profundos e insondáveis. Estes são os assuntos que ocuparam desde a eternidade a mente do Deus infinito. São estes os temas nos quais mentes angelicais se perdem. Aqui estão envolvidos ao mesmo tempo as glórias da Divindade e o destino eterno de milhões de seres criados. E qual o espírito no qual temas como estes devem ser compreendidos? Mente nenhuma, a não ser uma profundamente séria, está preparada para adentrar esta área santificada.

“O verdadeiro ministro olha para além do tempo. Ele está cercado por seres imortais que se esquecem da sua imortalidade, com criaturas moribundas que vivem somente para este mundo; com pecadores que, inconscientes da sua culpa e depravação, negligenciam suas almas e o seu Salvador. O verdadeiro ministro vive menos para o presente do que para o futuro. Ele tem a eternidade em seus olhos. Ele vive e ele age, ele ora e prega para a eternidade. Assim é que a milhões de anos, sua vida e seus atos, seus sermões e suas preces podem ser lembradas por milhões de seres além dele próprio, com alegria ou angústia indizíveis.” 8 Não admira que até o Apóstolo Paulo disse, “...E para estas coisas quem é idôneo?” (II Co 2:16).

Flavel escreve nas mesmas linhas: “Nós temos uma solene carga nos dada por Cristo: ‘Conjuro-te, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no Seu reino, Que pregues a Palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda longanimidade e doutrina.” (II Tim 4:1-2). Deve ser realmente uma droga poderosíssima, que pode tanto estupidificar anestesiar a consciência de um ministro, de forma a ele não sentir a autoridade terrível de tal carga. As almas imortais e preciosas dos homens são a nós confiadas, almas a respeito das quais Deus ocupou os Seus pensamentos desde a eternidade, pelo propósito das quais Cristo derramou o Seu próprio sangue, pela vitória e pelas bodas Dele próprio com as quais Ele vos colocou no ofício, de cujas mãos ele também exigirá contas quanto a elas, no grande dia.”

Depois de citar o versículo, “Assim que, sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens...” (2 Co 5:11), Flavel continua, “Ó amados, acautelemo-nos de cometermos, ou de negligenciarmos, qualquer coisa que possa colocar-nos no círculo dos terrores daquele dia. Que a nossa diligência e a nossa fidelidade, nossa constância e seriedade, induzam a um testemunho das nossas congregações, como fez o apóstolo da sua, em Atos 20:26 – que estamos puros do sangue de todos.”

Ao escrever sobre o ministério, muitos escritores Puritanos vez após vez enfatizam o ponto de que homem algum na terra encontra-se em posição mais solene do que o ministro do evangelho. Ninguém terá de prestar conta de tanto, no último dia. Esta visão do ministério tem estado perdida nos nossos dias. Contudo, estejamos convencidos da verdade desta visão e busquemos graça e humildade para aplica-la a nós mesmos, estando convencidos de que não se trata de demanda de nenhuma era ou época na história da Igreja de Deus, mas a exigência da Palavra de Deus em todas eras. Thomas Brooks diz, “Agora seria melhor para um homem ter sobre si o sangue do mundo inteiro, do que o sangue de uma alma. O sangue das almas, acima de todos os sangues, clama mais alto e fere mais profundamente. Por esta razão aquela passagem de Paulo em I Coríntios 9:16: ‘...e ai de mim, se não anunciar o evangelho!' O moto que deveria ser colocado na porta do escritório dos pregadores, nas suas paredes, em todos os livros que eles lêem e nas cadeiras em que se assentam deveria ser este: ‘o sangue de almas, o sangue de almas!' Foi um conforto e uma honra para Paulo, que ele manteve-se puro do sangue de todos.”

Sob o título de responsabilidade ministerial nós podemos apropriadamente citar as palavras de Richard Baxter, onde ele falava particularmente a ministros na obra “the oversight of ourselves” ( “o nosso próprio erro” ): “Não se contentem com um estado de graça, mas tenham cuidado também com que suas graças sejam mantidas em exercício vigoroso e animado e que vocês preguem a si mesmos os sermões que vocês preparam, antes de prega-los a outros.”

“Eu confesso”, ele continua, “e deve dize-lo por lamentável experiência própria, que eu transmito ao meu rebanho os distúrbios da minha própria alma. Quando permito que meu coração se esfrie, minha pregação é fria. Muitas vezes posso observar no melhor do meu povo que quando minha pregação se torna fria, eles também se esfriam. Nós somos as amas dos pequeninos de Cristo. Se negligenciamos o nosso próprio alimento, ficaremos desnutridos e isso logo será visível na magreza deles e no desempenho irresponsável de suas diversas tarefas. Ó amados, cuidem portanto dos seus próprios corações; afastem-se de luxúrias e de paixões e de inclinações mundanas; busquem a vida de fé e de amor e de zelo. Acima de tudo, estejam sempre em oração e meditações em secreto. Cuidem , portanto, das suas próprias almas e das dos demais.

“Cuidem de si mesmos, para que o seu exemplo não contradiga sua doutrina; para que não se ponham tal como muro na frente de cegos, o que pode ser a oportunidade para a ruína deles; para que o seu procedimento não desminta o que proferem suas línguas e venha a ser o maior obstáculo para o sucesso dos seus próprios labores. Muito atravanca a nossa obra quando outros homens passam toda a semana contradizendo às pobres pessoas, em privado, o que nós lhes pregamos em público, da Palavra de Deus; mas muito maior prejuízo para a sua obra será se houver contradição em vocês mesmos, se os seus atos propiciarem mentira às suas línguas; e se o que vocês construírem com suas bocas durante uma hora ou duas no domingo, depois passarem o restante da semana a destruir com suas mãos. Este é o caminho para fazer homens acharem que a Palavra de Deus é nada senão uma fábula sem fundamento e tornar a pregação não melhor que conversa sem propósito. Aquele que intenta o que fala, certamente fará como fala. Uma palavra orgulhosa, esnobe, arrogante, uma disputa desnecessária, um ato de inveja, pode matar um sermão, e destruir os frutos de tudo o que vocês tenham estado a fazer.

“Vocês dão tão pouca importância ao seu trabalho que não lutarão contra uma injúria ou contra uma palavra errada, ou submeter-se ao mais humilde, nem refrear seu orgulho próprio e palavras altivas, para ganhar almas? É um erro palpável de alguns ministros que fazem tal desproporção entre sua pregação e seu modo de viver, que estudam muito sobre como pregar corretamente — e estudam pouco, ou nada, sobre como viver corretamente. A semana inteira é pouco para estudarem sobre como pregar durante duas horas; e todavia uma hora somente lhes parece demais para estudar sobre como viver durante a semana. Eles relutam, hesitam em colocar mal uma palavra em seus sermão, mas não pensam sobre dispensar inapropriadamente as afeições, palavras e ações no decurso de suas vidas. Oh, curioso é como tenho ouvido pregações de homens, e observado como vivem negligentemente. É certo, amados, que nós temos grande razão para cuidar do que fazemos, tanto quanto do que dizemos. Se somos de fato os servos de Cristo, não devemos ser línguas de servos somente, mas devemos servi-Lo com todos os nossos atos. Como o nosso povo deve ser praticantes da Palavra, e não somente ouvintes, assim também nós devemos ser praticantes da Palavra, e não somente porta-vozes.

“Cuidem-se, para que vocês não vivam nestes pecados contra os quais vocês pregam a outros, e para que vocês não sejam culpados daquilo que vocês diariamente condenam. Farão vocês seu trabalho de magnificar a Deus e, estando aquela tarefa cumprida, desonra-Lo tanto quanto os demais? Pregarão vocês sobre as leis de Deus para então, voluntariamente quebra-las? Se os juízos de Deus são verdadeiros, por que vocês não os temem? Se são falsos, por que então incomodam aos homens desnecessariamente e os põem tão alarmados sem motivo? “Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?” (Rm 2:23). O que! A mesma língua que fala o mal, falará também contra o mal? Julgarão e difamarão e reprovarão estes lábios ao próximo, lábios estes que levam a cabo tal como os outros? Ó amados, é mais fácil esconder-se no pecado do que sobrepuja-lo. Cuidem de si mesmos, sob pena de condenar o pecado e todavia não vence-lo.”

4. A primazia da pregação

Por “primazia da pregação” os Puritanos entendiam que a pregação era a parte mais importante da vida de um ministro. Quaisquer dons, dotes ou conhecimentos que um ministro possuísse, eram para serem usados para o grande fim de fazer dele um pregador. O Apóstolo diz, “Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar...” {I Co 1:17}. Isso não significa que o batismo não seja importante, mas que a pregação é mais importante 2 . O próprio Paulo assim afirma novamente, quando diz, “...e ai de mim, se não anunciar o evangelho !” {I Co 9:16}. A importância da pregação e a preparação para tanto, como visto nos escritos e na prática dos Puritanos, é resumido sucintamente nas palavras de J. C. Ryle: “Alguns podem estar prontos a dizer, ‘Eu trabalhei para Deus durante a semana inteira. Eu fui à escola, visitei de casa em casa, distribuindo folhetos, e se meus sermões no dia do Senhor não são tudo o que poderiam ser, de maneira nenhum tenho sido preguiçoso.' Devemos nos lembrar que todas as obras nesta descrição, se interferem com a preparação dos nossos sermões, trata-se de trabalho em vão .” 3 Quantos de nós se contentaria em dizer, “Passamos a semana visitando de casa em casa distribuindo folhetos e etc.”? Quão mundano é o que ocupa por demais a nossa mente durante a semana, como podemos fazer disso uma desculpa para a nossa falta de preparação de sermão?

Henry Smith (1550-1591), palestrante em St Clement Danes , em Londres, escreve, “Se você precisa tomar cuidado com o que ouve, então nós precisamos tomar cuidar como pregamos. Assim é que Paulo não apontou ninguém mais como pregadores, senão aqueles que ‘manejam bem a Palavra da verdade' {II Timóteo 2:15}, ou seja, em boas palavras e no método correto; e porque ninguém pode fazê-lo sem estudo e meditação, portanto ele ensinou a Timóteo a ‘apresentar-se à doutrina', isto é, a fazer um estudo e batalhar por isso. Pois como Pedro disse que nas epístolas de Paulo há muitas coisas difíceis de serem entendidas, também nas epístolas de Pedro, de João e de Tiago há muitas coisas que Davi, antes, chamou de maravilhas da lei, e Paulo chamou de o mistério da salvação, e Cristo chamou de tesouro escondido no chão.” “O trigo é bom,” continua Smith, citando Amós 8:6, “mas aqueles que vendem o seu refugo são reprovados. Também a pregação é boa, mas esta recusa em pregar não passa de blasfêmia, pois um toma o nome de Deus em vão, o outro toma a Palavra de Deus em vão. Como nem todo som é música, assim nem todo sermão é pregação, mas pior do que se quem o faz lesse uma homilia. Pois se Tiago nos exorta a considerar o que pedimos antes de orarmos, muito mais deveríamos nós considerar antes que venhamos a pregar.” 4

Ao enfatizar a importância da pregação, diz Perkins, “O primeiro título de um ministro de Deus é mensageiro . Ele é o mensageiro do Senhor das multidões. Em Apocalipse os ministros de sete igrejas são chamados de anjos dessas igrejas; em outra passagem um ministro é um anjo do Senhor, e em outra, o anjo da igreja — isto é, um anjo ou mensageiro enviado por Deus à igreja. Este ponto tem ampla aplicação:

“Primeiramente, para os próprios ministros. Você deve compreender a sua tarefa. Ministros são mensageiros: esta é a própria natureza do seu chamado. Portanto você deve pregar a Palavra de Deus e entregá-la exatamente como a recebeu. Embaixadores não portam sua própria mensagem, mas a mensagem dos seus senhores e mestres, que os enviaram. Similarmente, ministros portam a mensagem do Senhor das multidões e são portanto obrigados a entregá-la como sendo a mensagem do Senhor, e não sua própria. A Palavra de Deus é pura. Deve ser, portanto, estudada e entregue de maneira pura. Que todos aqueles que são anjos de Deus — e desejam ser honrados como Seus anjos e Seus embaixadores — cumprir com a responsabilidade de um anjo de Deus, de forma que, como muitos homens desfiguram uma boa estória pela forma como a contam, eles não tirem o poder e a majestade da Palavra de Deus pela forma como a entregam.

“Em segundo lugar, se ministros são os anjos de Deus, eles devem pregar a Palavra de Deus de tal forma que expresse e demonstre o Espírito de Deus. Pregar na demonstração do Espírito de Deus é pregar com tal simplicidade, e todavia com poder tal, que mesmo aquele menos dotado intelectualmente reconheça não ser um homem, mas Deus, quem o está ensinando. E ainda assim, a consciência do mais poderoso possa sentir que não um homem, mas Deus, o reprovando através do poder do Espírito. É tido como grande admiração aos olhos do mundo, quando dizem de um pregador: “Ele é um sábio de fato”, porque ele tem erudição, lê bastante, tem uma boa memória e uma boa entrega. Mas o que recomenda um homem ao Senhor seu Deus e à sua própria consciência é que ele prega com uma sinceridade adequada à habilidade, e tão poderosamente à consciência do pecador, que este percebe que Deus está presente no pregador.

“Em terceiro lugar, há uma aplicação importante aos ouvintes. Eles são ensinados que se os seus ministros são anjos enviados a eles por Deus, então eles devem ouvi-los prazerosamente, de bom grado, reverentemente e obedientemente, porque eles são enviados por Deus, e é a Sua mensagem que eles entregam. Todos Cristãos devem fazê-lo, não somente quando a doutrina a qual é pregada os satisfaz, mas também quando ela corta de lado a lado nossa corrupção e é completamente contrária às nossas disposições. Pode ser altamente desagradável e ferir nossos desejos naturais, mas desde que seja uma mensagem do nosso Deus e Rei e o pregador seja o mensageiro daquele Deus, ambos, ele e a mensagem devem ser recebidos com respeito e com uma obediência que venha dos nossos corações e almas. Esta é a razão porque respeito e honra devem ser prestados por todos Cristãos aos ministros de Deus, especialmente quando eles adornam o seu alto chamado com uma vida santa: eles são os anjos de Deus, entregando as mensagens e as cargas que eles receberam de Deus.

“O ministro de Deus é também um intérprete . Ele é alguém que é capaz de entregar a reconciliação feita entre Deus e o homem; isto é, primeiro, ele é alguém que pode expandir e explicar o pacto da graça, e corretamente estabelecer como a reconciliação é alcançada. Segundo, ele é alguém que pode aplicar, precisa e apropriadamente, os meios do operar externo da reconciliação. Em Apocalipse, João recebe de Cristo. Ele deve tomar o livro — isto é, a Escritura — e comê-lo. Então, após tê-lo comido, ele deve ir e pregar aos povos, línguas e nações {Apocalipse 10:8 – 11). Através de João, Cristo ensina a Sua Igreja de forma permanente que ministros não são capazes de pregar a nações e a reis, até que tenham comido o Livro de Deus, ou seja, até acima e além de todo o aprendizado que o homem possa transmitir, eles também são ensinados pelo Próprio Espírito de Deus. É o seu ensino que faz de um homem um verdadeiro intérprete. Sem isso ele não pode ser um. Como pode alguém ser intérprete de Deus para o Seu povo, a menos que ele conheça a mente do Próprio Deus? E como pode ele conhecer a mente de Deus, exceto pelo ensinamento do Espírito de Deus?

“O que estou enfatizando é isto: um ministro deve ser um intérprete divino, um intérprete do que Deus tem a dizer. Portanto, ele não deve somente ler o livro, mas comê-lo. Ele deve não somente ter o conhecimento das coisas divinas fluindo em seu cérebro, mas gravado em seu coração e impresso em sua alma pelo dedo espiritual de Deus. Para tanto, além de todo o seu próprio estudo, meditação e uso de comentários e outros auxílios humanos, ele deve orar com Davi, “Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da Tua lei.” {Salmo 119:18}

“Além disso, uma vez que ministros são intérpretes, eles devem aspirar santificação e santidade em suas próprias vidas. Na profecia de Isaías, o Reino da Assíria é dito ser santificado, ou separado, para destruir os inimigos de Deus. Se um certo tipo de santificação é necessário para a obra de destruição, quanto mais é a verdadeira santificação necessária para a grande e gloriosa obra de edificação da Igreja de Deus? ” 5

5. Algumas implicações diretas dos princípios Puritanos

Em 1688, John Flavel dirigiu-se a uma assembléia de ministros nas palavras do Salvador conforme registradas em Mateus 24:45: “Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o seu senhor constituiu sobre a Sua casa, para dar o sustento a Seu tempo?” Ele diz, “ Fiel e sábio , ambos adjetivos constituem o caráter do ministro evangélico completo — sua sabedoria ou prudência o capacita para discernir, e sua lealdade o obriga a distribuir alimento saudável ao seu rebanho. Fidelidade ou prudência fala de diligência. Um homem negligente não pode ser um servo fiel. As labutas do ministro são adequadamente comparadas à lida de homens na colheita, ao esforço de mulheres no parto, e às agonias de soldados nas frentes de batalha. Fidelidade tem a ver com constância e estabilidade. “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.” {Apocalipse 2:10}. Oh sim, nós devemos lutar em defesa da verdade que pregamos, assim como estudá-las até tornarmos-nos pálidos e declará-las até desfalecermos.

“Fidelidade ministerial inclui nossa imparcialidade em todas as administrações da casa de Deus. Aquele que é parcial não pode ser fiel. Quão solenemente Paulo ordena esta carga a Timóteo: “Conjuro-te diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos, que sem prevenção guardes estas coisas, nada fazendo por parcialidade” {I Timóteo 5:21}. Irmãos, vocês muito cedo comparecerão perante um juiz imparcial, vejam que sejam mordomos imparciais. Lembrem-se que todas almas são classificadas a um valor no livro de vosso Mestre. Seu Redentor pagou tanto por uma quanto por outra. Tomem o mesmo cuidado, manifestem o mesmo amor, atendam com a mesma diligência a mais fraca e pobre alma que está confiada ao seu cuidado.

“Prudência ministerial nos levará a construir um bom alicerce de conhecimento nas almas do nosso povo, por catequizá-los e instruí-los nos princípios do Cristianismo, sem o qual labutamos em vão. Exceto se tiverem um povo com conhecimento, vocês provavelmente não terão um povo piedoso. Todos os seus excelentes sermões serão feitos em pedaços, lançados contra a rocha da ignorância do seu povo. Vocês não podem nunca lançar-se num projeto melhor para promover o sucesso do seu trabalho, que o da catequese.” Aqui eu devo interromper Flavel, para perguntar, se isto é a pedra de tropeço para o sucesso das nossas labutas, não deveria ser então identificada e o remédio aplicado?

Flavel continua, “A prudência ministerial se descobre na escolha de tais assuntos como as almas do nosso povo mais almejam. Um ministro prudente estudará as almas do seu povo mais do que os melhores livros em sua biblioteca e escolherá, não o que lhe seja mais fácil, mas o que seja mais necessário a eles. Ministros que estão inteirados com o estado do seu rebanho como deveriam estar, raramente estarão perdidos na escolha dos assuntos. Prudência capacitará o homem de Deus a dar a cada um seu alimento apropriado, e medicação na época devida. Isto nos fará gastar mais e mais horas em nossos estudos, para que pelo nosso esforço possamos salvar a nós mesmos e àqueles que nos ouvem.

“Prudência ministerial não somente nos direcionará na escolha dos nossos assuntos, mas também na linguagem, na qual os entregaremos ao nosso povo. Um estilo grave e apropriado torna-se os lábios dos embaixadores de Cristo. Prudência nunca nos permitirá sermos rudes ou engajar em expressões floreadas. Devemos nos esforçar por simplificar os mistérios mais sublimes do evangelho à capacidade dos mais iletrados dos nossos ouvintes. O maior dos créditos que podemos aspirar é nos aproximarmos ao máximo do louvor prestado ao maior pregador de todos os tempos: “E a grande multidão o ouvia de boa vontade.” {Marcos 12:37}

“Prudência ministerial direcionará os servos de Cristos ao rigor e seriedade em seu comportamento, a manter a estima do seu povo. Prudência não permitirá que os ministros de Cristo misturarem-se com vãs companhias, tomarem liberdade em zombarias sem benefícios e estórias vãs; nem permitira, por outro lado, uma austeridade carrancuda e desencorajadora, mas temperará seriedade com afabilidade.

“A vocês que são estudantes ou recém formados eu dirigirei uma palavra de conselho: tomem cuidado para evitar aquele espírito vão e volúvel que está em toda parte nesta época desprovida de seriedade. As pessoas têm olhos para ver o que nós fazemos, tanto quanto ouvidos para ouvir o que dizemos. Deveríamos nos esforçar por sermos capazes de dizer como Paulo: “O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei...” {Fp 4:9}.

“Prudência ministerial frequentemente os porá de joelhos para buscar as bênçãos de Deus para os seus labores. Saibam que todo o seu sucesso no ministério depende disso, como está escrito: “Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento.” {I Co 3:7}

“Prudência ministerial os levará a cultivar e alimentar o amor fraternal, pois uma vez que a cobiça, o orgulho ou interesse carnal infiltram-se entre os irmãos, não há palavras que possam dizer que danos e pecados irromperão em seu meio, para afronta a Cristo e ao evangelho. Eu, portanto, em o nome de Cristo, como se de joelhos, sinceramente imploro e suplico aos meus irmãos, por todo o respeito que têm pela honra de Cristo, as almas de seu povo, seu próprio bem-estar, e o sucesso de suas lutas, que nenhuma inveja ou disputa ou menosprezo seja nem por uma vez admitida e mencionada entre eles.”

Encerro com uma citação final de Richard Baxter, onde ele confessa, “Algumas destas palavras de Paulo têm sido tão frequentemente apresentadas ante meus olhos e impressas em minha consciência que eu tenho sido em muito convencido por elas da minha responsabilidade e da minha negligência:

(a) Nosso negócio geral: Servir ao Senhor com toda humildade, com muitas lágrimas.

(b) Nossa ocupação especial: Cuidar de nós mesmos, e de todo o rebanho.

(c) Nossa doutrina: Arrependimento para com Deus, e fé em nosso Senhor Jesus Cristo.

(d) O local e forma de ensino: Eu os tenho ensinado publicamente, e de casa em casa.

(e) Sua diligência, seriedade e afeição: Não cessei de alertar a todos dia e noite e com lágrimas. Isso é o que deve ganhar almas e preservá-las.

(f) Sua lealdade: Não ocultei nada que fosse benéfico para vocês, e não deixei de declarar-lhes todos os conselhos de Deus.

(g) Seu desinteresse e autonegação pelo bem do evangelho: Eu não cobicei nem a prata, nem o ouro e nem o adorno de homem algum; sim, estas mãos têm provido para as minhas necessidades, e àqueles que comigo estiveram, lembrando das palavras do Senhor Jesus, como Ele disse, melhor é dar do que receber.

(h) Sua paciência e perseverança: Nenhuma dessas coisas me toca, nem contam em minha vida como preciosas, de modo que eu posso terminar com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus.

(i) Sua religiosidade: Eu os comendo a Deus e à palavra da Sua graça, a qual pode levantá-los, e dar-lhes herança dentre todos aqueles que são santificados.

(j) Sua pureza de consciência: “Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos.”
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Traduzido por: Eli Daniel da Silva


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A DOUTRINA REFORMADA DA AUTORIDADE SUPREMA DAS ESCRITURAS


por

Rev. Paulo Anglada

A doutrina que me proponho a considerar neste artigo foi de fundamental importância na Reforma Protestante do Século XVI. Em contraposição, por um lado, à doutrina católica romana de uma tradição oral apostólica e, por outro lado, ao misticismo dos assim chamados entusiastas ou reformadores radicais, os Reformadores defenderam a doutrina da autoridade suprema das Escrituras. Essa foi, portanto, a sua resposta à autoridade da tradição eclesiástica e do misticismo pessoal.

A autoridade suprema das Escrituras também é uma doutrina puritano-presbiteriana. A ela os puritanos tiveram que apelar freqüentemente na luta que foram obrigados a travar contra as imposições litúrgicas da Igreja Anglicana.1 A Confissão de Fé de Westminster professa a referida doutrina em três parágrafos do seu primeiro capítulo. No quarto parágrafo, ela trata da origem ou fundamento da autoridade das Escrituras:

A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu Autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a Palavra de Deus.

O parágrafo quinto aborda a questão da certeza ou convicção pessoal da autoridade das Escrituras:

Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço pela Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a Palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo que, pela Palavra e com a Palavra, testifica em nossos corações.

O décimo e último parágrafo desse capítulo confere às Escrituras (a voz do Espírito Santo) a palavra final para toda e qualquer questão religiosa, reconhecendo-a como supremo tribunal de recursos em matéria de fé e prática:

O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares; o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura.

Em dias como os que estamos vivendo, em que cresce a impressão de que o evangelicalismo moderno (particularmente o brasileiro) manifesta profunda crise teológica, eclesiástica e litúrgica,2 convém considerar novamente essa importante doutrina reformado-puritana. Convém uma palavra de alerta contra antigas e novas tendências de usurpar ou limitar a autoridade da Palavra de Deus. Tal é o propósito deste artigo.

I. Definição

O que queriam dizer os Reformadores ao professarem a doutrina da autoridade das Escrituras? Que, por serem divinamente inspiradas, elas são verídicas em todas as suas afirmativas. Segundo esta doutrina, as Escrituras são a fonte infalível de informação que estabelece definitivamente qualquer assunto nelas tratado: a única regra infalível de fé e de prática, o supremo tribunal de recursos ao qual a Igreja pode apelar para a resolução de qualquer controvérsia religiosa.

Isto não significa que as Escrituras sejam o único instrumento de revelação divina. Os atributos de Deus se revelam por meio da criação: a revelação natural (cf. Sl 19:1-4 e Rm 1:18-20). Uma versão da sua lei moral foi registrada em nosso coração: a consciência (cf. Rm 2:14-15), "uma espiã de Deus em nosso peito," "uma embaixadora de Deus em nossa alma," como os puritanos costumavam chamá-la.3 A própria pessoa de Deus, o ser de Deus, revela-se de modo especialíssimo no Verbo encarnado, a segunda pessoa da Trindade (cf. Jo 14.19; Cl 1.15 e 3.9).

Mas, visto que Cristo nos fala agora pelo seu Espírito por meio das Escrituras, e que as revelações da criação e da consciência não são nem perfeitas e nem suficientes por causa da queda, que corrompeu tanto uma como outra, a palavra final, suficiente e autoritativa de Deus para esta dispensação são as Escrituras Sagradas.

II. Base Bíblica

A base bíblica da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras é tanto inferencial como direta.

A. Base Inferencial

É inferencial, porque decorre do ensino bíblico a respeito da inspiração divina das Escrituras. Visto que as Escrituras não são produto da mera inquirição espiritual dos seus autores (cf. 2 Pe 1.20), mas da ação sobrenatural do Espírito Santo (cf. 2 Tm 3.16 e 2 Pe 1.21), infere-se que são autoritativas. Na linguagem da Confissão de Fé, a autoridade das Escrituras procede da sua autoria divina: "porque é a Palavra de Deus."

Isto não significa que cada palavra foi ditada pelo Espírito Santo, de modo a anular a mente e a personalidade daqueles que a escreveram. Os autores bíblicos não escreveram mecanicamente. As Escrituras não foram psicografadas, ou melhor, "pneumografadas." Os diversos livros que compõem o cânon revelam claramente as características culturais, intelectuais, estilísticas e circunstanciais dos diversos autores. Paulo não escreve como João ou Pedro. Lucas fez uso de pesquisas para escrever o seu Evangelho e o livro de Atos. Cada autor escreveu na sua própria língua: hebraico, aramaico e grego. Os autores bíblicos, embora secundários, não foram instrumentos passivos nas mãos de Deus. A superintendência do Espírito não eliminou de modo algum as suas características e peculiaridades individuais. Por outro lado, a agência humana também em nada prejudicou a revelação divina. Seus autores humanos foram de tal modo dirigidos e supervisionados pelo Espírito Santo que tudo o que foi registrado por eles nas Escrituras constitui-se em revelação infalível, inerrante e autoritativa de Deus. Não somente as idéias gerais ou fatos revelados foram registrados, mas as próprias palavras empregadas foram escolhidas pelo Espírito Santo, pela livre instrumentalidade dos escritores.4

O fato é que, por procederem de Deus, as Escrituras reivindicam atributos divinos: são perfeitas, fiéis, retas, puras, duram para sempre, verdadeiras, justas (Sl 19.7-9) e santas (2 Tm 3.15).5

B. Base Direta

Mas a doutrina reformada da autoridade das Escrituras não se fundamenta apenas em inferências. Diversos textos bíblicos reivindicam autoridade suprema.

Os profetas do Antigo Testamento reivindicam falar palavras de Deus, introduzindo suas profecias com as assim chamadas fórmulas proféticas, dizendo: "assim diz o Senhor," "ouvi a palavra do Senhor," ou "palavra que veio da parte do Senhor."6 No Novo Testamento, vários textos do Antigo Testamento são citados, sendo atribuídos a Deus ou ao Espírito Santo. Por exemplo: "Assim diz o Espírito Santo..." (Hb 3:7ss).7

A autoridade apostólica também evidencia a autoridade suprema das Escrituras. O Apóstolo Paulo dava graças a Deus pelo fato de os tessalonicenses terem recebido as suas palavras "não como palavra de homens, e, sim, como em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes" (1 Ts 2:13). Que autoridade teria Paulo para exortar aos gálatas no sentido de rejeitarem qualquer evangelho que fosse além do evangelho que ele lhes havia anunciado, ainda que viesse a ser pregado por anjos? Só há uma resposta razoável: ele sabia que o evangelho por ele anunciado não era segundo o homem; porque não o havia aprendido de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo (Gl 1:8-12).

Jesus também atesta a autoridade suprema das Escrituras: pelo modo como a usa, para estabelecer qualquer controvérsia: "está escrito"8 (exemplos: Mt 4:4,6,7,10; etc.), e ao afirmar explicitamente a autoridade das mesmas, dizendo em João 10:35 que "a Escritura não pode falhar."9

III. Usurpações da Autoridade das Escrituras

Apesar da sólida base bíblico-teológica em favor da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras, hoje, como no passado, deparamo-nos com a mesma tendência geral de diminuir a autoridade das Escrituras. E isso ocorre de duas maneiras: por um lado, há a propensão em admitir fontes adicionais ou suplementares de autoridade, que tendem a usurpar a autoridade da Palavra de Deus. Por outro lado, há a tendência de limitar a autoridade das Escrituras, negando-a, subjetivando-a ou reduzindo o seu escopo.

Com relação à primeira dessas tendências, pelo menos três fontes suplementares usurpadoras da autoridade das Escrituras podem ser identificadas: a tradição (degenerada em tradicionalismo), a emoção (degenerada em emocionalismo) e a razão (degenerada no racionalismo). Sempre que um desses elementos é indevidamente enfatizado, a autoridade das Escrituras é questionada, diminuída ou mesmo suplantada.

A. A Tradição Degenerada em Tradicionalismo

Este foi um dos grandes problemas enfrentados pelo Senhor Jesus. A religião judaica havia se tornado incrivelmente tradicionalista. Havendo cessado a revelação, os judeus, já no segundo século antes de Cristo, produziram uma infinidade de tradições ou interpretações da Lei, conhecidas como Mishnah. Essas tradições foram cuidadosamente guardadas pelos escribas e fariseus por séculos, até serem registradas nos séculos IV e V A.D., passando a ser conhecidas como o Talmude,10 a interpretação judaica oficial do Antigo Testamento até o dia de hoje. Muitas dessas tradições judaicas eram, entretanto, distorções do ensino do Antigo Testamento. Mas tornaram-se tão autoritativas, que suplantaram a autoridade do Antigo Testamento. Jesus acusou severamente os escribas e fariseus da sua época, dizendo:

Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição... invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição que vós mesmos transmitistes... (Mc 7.7-9,13).11

O Apóstolo Paulo também denunciou essa tendência. Escrevendo aos colossenses, ele advertiu:

Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo... Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: Não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? (Cl 2.8,20-22).

Quinze séculos depois, os Reformadores se depararam com o mesmo problema: as tradições contidas nos livros apócrifos e pseudepígrafos, nos escritos dos pais da igreja, nas decisões conciliares e nas bulas papais também degeneraram em tradicionalismo. As tradições eclesiásticas adquiriram autoridade que não possuíam, usurpando a autoridade bíblica. É neste contexto que se deve entender a doutrina reformada da autoridade das Escrituras. Trata-se, primordialmente, de uma reação à posição da Igreja Católica.

Isto não significa, entretanto, que a tradição eclesiástica seja necessariamente ruim. Se a tradição reflete, de fato, o ensino bíblico, ou está de acordo com ele, não sendo considerada normativa (autoritativa) a não ser que reflita realmente o ensino bíblico, então não é má. Os próprios Reformadores produziram, registraram e empregaram confissões de fé e catecismos (os quais também são tradições eclesiásticas). Para eles, contudo, esses símbolos de fé não têm autoridade própria, só sendo normativos na medida em que refletem fielmente a autoridade das Escrituras.

O problema, portanto, não está na tradição, mas na sua degeneração, no tradicionalismo, que atribui à tradição autoridade inerente. O tradicionalismo atribui autoridade às tradições, pelo simples fato de serem antigas ou geralmente observadas, e não por serem bíblicas. Essa tendência acaba sempre usurpando a autoridade das Escrituras.

B. A Emoção Degenerada em Emocionalismo

Outra fonte de autoridade que sempre ameaça a autoridade das Escrituras é a emoção, quando degenerada em emocionalismo. Isto quase inevitavelmente conduz ao misticismo. Na esfera religiosa, freqüentemente é dado um valor exagerado à intuição, ao sentimento, ao convencimento subjetivo. Quando tal ênfase ocorre, facilmente esse sentimento subjetivo de convicção, pessoal e interno, é explicado misticamente, em termos de iluminação espiritual e revelação divina direta, seja por meio do Espírito, seja pela instrumentalidade de anjos, sonhos, visões, arrebatamentos, etc.

Não é que Deus não tenha se revelado por esses meios. Ele de fato o fez. Foi, em parte, através desses meios que a revelação especial foi comunicada à Igreja e registrada no cânon pelo processo de inspiração. O que se está afirmando é que o misticismo copia, forja essas formas reais de revelação do passado, para reivindicar autoridade que na verdade não é divina, mas humana (quando não diabólica). Essa tendência não é de modo algum nova. Eis as palavras do Senhor através do profeta Jeremias:

Assim diz o Senhor dos Exércitos: Não deis ouvido às palavras dos profetas que entre vós profetizam, e vos enchem de vãs esperanças; falam as visões do seu coração, não o que vem da boca do Senhor... Até quando sucederá isso no coração dos profetas que proclamam mentiras, que proclamam só o engano do próprio coração?... O profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em quem está a minha palavra, fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? diz o Senhor (Jr 23.16,26,28).

Séculos depois o Apóstolo Paulo enfrentou o mesmo problema. Ele próprio foi instrumento de revelações espirituais verdadeiras, inspirado que foi para escrever suas cartas canônicas. Nessa condição, ele sabia muito bem o que eram sonhos, visões, revelações e arrebatamentos. Mas, ainda assim, advertiu aos colossenses, dizendo: "Ninguém se faça árbitro contra vós outros, pretextando humildade e culto dos anjos, baseando-se em visões, enfatuado sem motivo algum na sua mente carnal" (Cl 2:18). Tanto Jesus como os apóstolos advertem a Igreja repetidamente contra os falsos profetas, os quais ensinam como se fossem apóstolos de Cristo, mas que não passam de enganadores.

Pois bem, sempre que tal coisa ocorre, a autoridade das Escrituras é ameaçada. O misticismo, como degeneração das emoções (não se pode esquecer que também as emoções foram corrompidas pelo pecado) tende sempre a usurpar, a competir com a autoridade das Escrituras, chegando mesmo freqüentemente a suplantá-la. Na época dos Reformadores não foi diferente. Eles combateram grupos místicos por eles chamados de entusiastas 12 que reivindicavam autoridade espiritual interior, luz interior, revelações espirituais adicionais que suplantavam ou mesmo negavam a autoridade das Escrituras. Esta tem sido igualmente uma das características mais comuns das seitas modernas, tais como mormonismo, testemunhas de Jeová, adventismo do sétimo dia, etc. Entre os movimentos pentecostais e carismáticos também não é incomum a emoção degenerar em emocionalismo, produzindo um misticismo usurpador da autoridade das Escrituras.

C. A Razão Degenerada em Racionalismo

A ênfase exagerada na razão também tende a usurpar a autoridade das Escrituras. O homem, devido a sua natureza pecaminosa, sempre tem resistido a submeter sua razão à autoridade da Palavra de Deus. A tendência é sempre tê-la (a razão) como fonte suprema de autoridade. Isto foi conseqüência da queda. Na verdade, foi também a causa, tanto da queda de Satanás como de nossos primeiros pais. Ambos caíram por darem mais crédito às suas conclusões do que à palavra de Deus. Desde então, essa soberba mental, essa altivez intelectual tem tendido sempre a minar a autoridade da Palavra de Deus, oral (antes de ser registrada) ou escrita.

Por que o ser humano, tendo conhecimento de Deus, não o glorifica como Deus nem lhe é grato? O Apóstolo Paulo explica: porque, suprimindo a verdade de Deus (Rm 1:18), "...se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos... pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador...’’ (Rm 1:21-22,25).

Esta tem sido, sem dúvida, a causa de uma infinidade de heresias e erros surgidos no curso da história da Igreja. A heresia de Marcião, o gnosticismo, o arianismo, o docetismo, o unitarianismo, e mesmo o arminianismo são todos erros provocados pela dificuldade do homem em submeter sua razão à revelação bíblica. Todos preferiram uma explicação racional, lógica, em lugar da explicação bíblica que lhes parecia inaceitável. Assim, Marcião concebeu dois deuses, um do Antigo e outro do Novo Testamento. Por isso, também o gnosticismo fez distinção moral entre matéria e espírito. Já o arianismo originou-se da dificuldade de Ario em aceitar a eternidade de Cristo. Do mesmo modo, o docetismo surgiu da dificuldade de alguns em admitir um Cristo verdadeiramente divino-humano. O unitarianismo, por sua vez, decorre da recusa em aceitar a doutrina bíblica da Trindade, enquanto que o arminianismo surgiu da dificuldade de Armínio em conciliar a doutrina da soberania de Deus com a doutrina da responsabilidade humana (rejeitando a primeira).

A tendência da razão em usurpar a autoridade das Escrituras tem sido especialmente forte nos últimos dois séculos. O desenvolvimento científico e tecnológico instigou a soberba intelectual do homem. Assim, passou-se a acreditar apenas no que possa ser constatado, comprovado, pela razão e pela lógica. A ciência tornou-se a autoridade suprema, a única regra de fé e prática. E a Igreja passou a fazer concessões e mais concessões, na tentativa de harmonizar as Escrituras com a razão e com a ciência. O relato bíblico da criação foi desacreditado pela teoria da evolução; os milagres relatados nas Escrituras foram rejeitados como mitos; e muitos estudiosos das Escrituras passaram a assumir uma postura crítica, não mais submissa aos seus ensinos. Foi assim que surgiu o método de interpretação histórico-crítico em substituição ao método histórico-gramatical. Nele, é a suprema razão humana que determina o que é escriturístico ou mera tradição posterior, o que é milagre ou mito, o que é verdadeiro ou falso nas Escrituras.

Mas antes de se atribuir tanta autoridade à ciência, convém considerar a sua história. Quão falível e mutável é! A grande maioria dos "fatos" científicos de dois séculos atrás já foram rejeitados pela própria ciência. Além disso, com que freqüência meras teorias e hipóteses científicas são tomadas como fatos científicos comprovados!13

IV. Limitações da Autoridade das Escrituras

Além das tendências que acabei de considerar, propensas a usurpar a autoridade das Escrituras, existem outras, que tendem a limitar a autoridade bíblica, negando-a, subjetivando-a ou reduzindo o seu escopo. É o que têm feito a teologia liberal, a neo-ortodoxia e o neo-evangelicalismo, com relação a três dos principais aspectos da doutrina da autoridade das Escrituras. Estas três concepções de "autoridade" bíblica precisam ser entendidas. Elas estão sendo bastante divulgadas em nossos dias, e são, em certo sentido, até mais perigosas do que as tendências anteriormente mencionadas, por serem mais sutis. Este assunto pode ser melhor entendido considerando-se os três principais aspectos da doutrina da autoridade das Escrituras: sua origem (ou base), certeza (ou convicção) e escopo (ou abrangência).

A. Origem ou Base da Autoridade das Escrituras

A origem ou base da autoridade das Escrituras, como já foi mencionado, encontra-se na sua autoria divina. As Escrituras são autoritativas porque são de origem divina: o Espírito Santo é o seu autor primário. Para os Reformadores, as Escrituras são autoritativas porque são a Palavra de Deus inspirada. Por isso são infalíveis, inerrantes, claras, suficientes, etc.

A teologia liberal (racionalista) nega a própria base da autoridade da Escritura, negando a sua origem divina. Para ela, as Escrituras são mero produto do espírito humano, expressando verdades divinas conforme discernidas pelos seus autores, bem como erros e falhas características do homem. Sua autoridade, portanto, não é divina nem inerente, mas humana, devendo ser determinada pelo julgamento da razão crítica. Eis o que afirmam: "A verdade divina não é encontrada em um livro antigo, mas na obra contínua do Espírito na comunidade, conforme discernida pelo julgamento crítico racional."14 De acordo com a teologia liberal, "nós estamos em uma nova situação histórica, com uma nova consciência da nossa autonomia e responsabilidade para repensar as coisas por nós mesmos. Não podemos mais apelar à inquestionável autoridade de um livro inspirado."15

B. Certeza da Autoridade das Escrituras

A certeza ou convicção da autoridade das Escrituras 16 provém do testemunho interno do Espírito Santo. A excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua doutrina e a sua extraordinária unidade são algumas das características das Escrituras que demonstram a sua autoridade divina. Contudo, admitimos que "a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela Palavra e com a Palavra, testifica em nossos corações."17

O testemunho da Igreja com relação à excelência das Escrituras pode se constituir no meio pelo qual somos persuadidos da sua autoridade, mas não na base ou fundamento da nossa persuasão. A nossa persuasão da autoridade da Bíblia dá-se por meio do testemunho interno do Espírito Santo com relação à sua inspiração. Na concepção reformada, se alguém crê, de fato, na autoridade suprema das Escrituras como regra de fé e prática, o faz como resultado da ação do Espírito Santo. É ele, e só ele, quem pode persuadir alguém da autoridade da Bíblia.

Essa persuasão não significa de modo algum uma revelação adicional do Espírito. Significa, sim, que a ação do Espírito na alma de uma pessoa, iluminando seu coração e sua mente em trevas, regenerando-a, fazendo-a nova criatura, dissipa as trevas espirituais da sua mente, remove a obscuridade do seu coração, permitindo que reconheça a autoridade divina das Escrituras. O Apóstolo Paulo trata deste assunto escrevendo aos coríntios. Ele explica, na sua primeira carta, que, "o homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente" (1 Co 2.14). O homem natural, em estado de pecado, perdeu a sua capacidade original de compreender as coisas espirituais. Ele não pode, portanto, reconhecer a autoridade das Escrituras; ele não tem capacidade para isso. Na sua segunda carta aos coríntios o Apóstolo é ainda mais explícito, ao observar que,

...se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus... Porque Deus que disse: de trevas resplandecerá luz —, ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo (2 Co 4.3-4,6).

O que Paulo afirma aqui é que o homem natural, o incrédulo, está cego como resultado da obra do diabo, que o fez cair. Nesse estado, ele está como um deficiente visual, que não consegue perceber nem mesmo a luz do sol. Pode-se compreender melhor o testemunho interno do Espírito com esta ilustração. O testemunho do Espírito não é uma nova luz no coração, mas a sua ação através da qual ele abre os olhos de um pecador, permitindo-lhe reconhecer a verdade que lá estava, mas não podia ser vista por causa da sua cegueira espiritual.

Deve-se ter em mente, entretanto — e esse é o ponto enfatizado aqui —, que esse testemunho interno do Espírito Santo diz respeito à certeza do crente com relação à plena autoridade das Escrituras, e não à própria autoridade inerente das Escrituras. A convicção de um crente de que as Escrituras têm autoridade é subjetiva, mas a autoridade das Escrituras é objetiva. Esteja-se ou não convencido da sua autoridade, a Bíblia é e continua objetivamente autoritativa. A neo-ortodoxia existencialista confunde estas coisas e defende a subjetividade da própria autoridade da Bíblia. Para eles, a revelação bíblica só é verdade divina quando fala ao nosso coração. Como dizem, "as Escrituras não são, mas se tornam a Palavra de Deus" quando existencializadas.18

C. Escopo da Autoridade das Escrituras

Essas posições da teologia liberal e da neo-ortodoxia com relação à origem e à certeza da autoridade das Escrituras são seríssimas. Contudo, talvez mais séria ainda (por ser mais sutil) é a questão relacionada ao escopo da autoridade das Escrituras.

Uma nova concepção da autoridade das Escrituras tem surgido entre os eruditos evangélicos (inclusive reformados de renome, tais como G. C. Berkouwer19), conhecida como neo-evangélica. O neo-evangelicalismo limita o escopo (a área) da autoridade das Escrituras ao seu propósito salvífico. Segundo essa concepção, a autoridade das Escrituras limita-se à revelação de assuntos diretamente relacionados à salvação, a assuntos religiosos.20

A doutrina neo-evangélica faz diferença entre o conteúdo salvífico das Escrituras e o seu contexto salvífico, reivindicando autoridade e inerrância apenas para o primeiro. Mas tal posição não reflete nem se coaduna com a posição reformada e protestante histórica. Para esta, o escopo da autoridade das Escrituras é todo o seu cânon. É verdade que a Bíblia não se propõe a ser um compêndio científico ou um livro histórico. Mas, ainda assim, todas as afirmativas nelas contidas, sejam elas de caráter teológico, prático, histórico ou científico, são inerrantes e autoritativas.21

Os principais problemas relacionados com a posição neo-evangélica quanto à autoridade das Escrituras são os seguintes: Primeiro, como distinguir o conteúdo salvífico do seu contexto salvífico? É impossível. As Escrituras são a Palavra de Deus revelada na história. Segundo, como delimitar o que está ou não está diretamente relacionado ao propósito salvífico, se o propósito da obra da redenção não é meramente salvar o homem, mas restaurar o cosmo? Que porções das Escrituras ficariam de fora do escopo da salvação? Como Ridderbos admite, "a Bíblia não é apenas o livro da conversão, mas também o livro da história e o livro da Criação..."22 Que áreas da vida humana ficariam de fora da obra da redenção? A arte, a ciência, a história, a ética, a moral? Quem delimitaria as fronteiras entre o que está ou não incluído no propósito salvífico? Admitir, portanto, o conceito neo-evangélico de autoridade das Escrituras é cair na cilada liberal do cânon dentro do cânon, e colocar a razão humana como juiz supremo de fé e prática, pois neste caso competirá ao homem determinar o que é ou não propósito salvífico.

Conclusão

Em última instância, a questão da autoridade das Escrituras pode ser resumida na seguinte pergunta: quem tem a última palavra, Deus, falando através das Escrituras, ou o homem, por meio de suas tradições, sentimentos ou razão? A resposta dos Reformadores foi clara. Embora reconhecendo que o propósito especial das Escrituras não é histórico, moral ou científico, mas salvífico, eles não diminuíram a sua autoridade de forma alguma: nem por adições ou suplementos, nem por reduções ou limitações de qualquer natureza. A fé reformado-puritana reconhece a autoridade de todo o conteúdo das Escrituras, e sua plena suficiência e suprema autoridade em matéria de fé e práticas eclesiásticas.

Tão importante foi a redescoberta destas doutrinas pelos Reformadores, que pode-se afirmar que, da aplicação prática das mesmas, decorreu, em grande parte, a profunda reforma doutrinária, eclesiástica e litúrgica que deu origem às igrejas protestantes. Todas as doutrinas foram submetidas à autoridade das Escrituras. Todos os elementos de culto, cerimônias e práticas eclesiásticas foram submetidos ao escrutínio da Palavra de Deus. A própria vida (trabalho, lazer, educação, casamento, etc.) foi avaliada pelo ensino suficiente e autoritativo das Escrituras. Muito entulho doutrinário teve que ser rejeitado. Muitas tradições e práticas religiosas acumuladas no curso dos séculos foram reprovadas quando submetidas ao teste da suficiência e da autoridade suprema das Escrituras. E a profunda reforma religiosa do século XVI foi assim empreendida.

Mas muito tempo já se passou desde então. O evangelicalismo moderno recebeu, especialmente do século passado, um legado teológico, eclesiástico e litúrgico que precisa ser urgentemente submetido ao teste da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras. É tempo de reconsiderar as implicações desta doutrina. É tempo de reavaliar a nossa fé, nossas práticas eclesiásticas e nossas próprias vidas à luz desta doutrina. Afinal, admitimos que a Igreja reformada deve estar sempre se reformando — não pela conformação constante às últimas novidades, mas pelo retorno e conformação contínuos ao ensino das Escrituras.

Sabendo que a nossa natureza pecaminosa nos impulsiona em direção ao erro e ao pecado, conhecendo o engano e a corrupção do nosso próprio coração, reconhecendo os dias difíceis pelos quais passa o evangelicalismo moderno (particularmente no Brasil), e a ojeriza doutrinária, a exegese superficial e a ignorância histórica que em grande parte caracterizam o evangelicalismo moderno no nosso país, não temos o direito de assumir que nossa fé e práticas eclesiásticas sejam corretas, simplesmente por serem geralmente assim consideradas. É necessário submeter nossa fé e práticas eclesiásticas à autoridade suprema das Escrituras.

Assim fazendo, não é improvável que nós, à semelhança dos Reformadores, também tenhamos que rejeitar considerável entulho teológico, eclesiástico e litúrgico acumulados nos últimos séculos. Não é improvável que venhamos a nos surpreender, ao descobrir um evangelicalismo profundamente tradicionalista, subjetivo e racionalista. Mas não é improvável também que venhamos a presenciar uma nova e profunda reforma religiosa em nosso país. Que assim seja!

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Notas

1 Ver, por exemplo, William Ames, A Fresh Suit against Human Ceremonies in God’s Worship (Rotterdam, 1633); David Calderwood, Against Festival Days, 1618 (Dallas: Naphtali Press, 1996); George Gillespie, Dispute against the English Popish Ceremonies Obtruded on the Church of Scotland (Edinburgh: Robert Ogle and Oliver & Boyd, 1844); e John Owen, "A Discourse concerning Liturgies and their Impositions," em The Works of John Owen, vol. 15 (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1965).

2 Cf. John MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho: Quando a Igreja se torna como o Mundo (São José dos Campos: Editora Fiel, 1997) e Paulo Romeiro, Evangélicos em Crise: Decadência Doutrinária na Igreja Brasileira (São Paulo: Mundo Cristão, 1995).

3 Ver capítulo sobre a "Consciência Puritana," em J. I. Packer, Entre os Gigantes de Deus: Uma Visão Puritana da Vida Cristã (São José dos Campos: Editora Fiel, 1991), 115-132.

4 Sobre o conceito reformado de inspiração e infalibilidade (inerrância) das Escrituras, ver L. Berkhof, Introducción a la Teología Sistemática (Grand Rapids: The Evangelical Literature League, [1973]), 159-190; A. A. Hodge, Evangelical Theology: A Course of Popular Lectures (Edinburgh and Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1976), 61-83; Loraine Boettner, Studies in Theology (Phillipsburg and New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1978), 9-49; e J. C. Ryle, Foundations of Faith: Selections From J. C. Ryle’s Old Paths (South Plainfield, New Jersey: Bridge Publishing, 1987), 1-39.

5 Cf. também Salmo 119.39, 43, 62, 75, 86, 89, 106, 137, 138, 142, 144, 160, 164, 172; Mateus 24.34; João 17.17; Tiago 1.18; Hebreus 4.12 e 1 Pedro 1.23,25.

6 Lloyd-Jones afirma que essas expressões são usadas 3.808 vezes no Antigo Testamento; e que os que assim se expressavam estavam deixando claro que não expunham suas próprias idéias ou imaginações. D. Martin Lloyd-Jones, Authority (Edinburgh and Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1984), 50.

7 Ver também Atos 28.25 e Hebreus 4.3, 5.6 e 10.15-16.

8 O termo empregado é gegraptai (gegraptai). O tempo (perfeito) indica uma ação realizada no passado, cujos resultados permanecem no presente: foi escrito e permanece válido, falando com autoridade.

9 Outras evidências da autoridade divina das Escrituras são apresentadas por Lloyd-Jones, Authority, 30-50; e por John A. Witmer, "The Authority of the Bible," Bibliotheca Sacra 118:471 (July 1961): 264-27.

10 O Talmud inclui também a Gemara, comentários rabínicos sobre o Mishnah, escritos entre 200 e 500 AD (C. L. Feinberg, "Talmude e Midrash," em J. D. Douglas, ed., O Novo Dicionário da Bíblia, vol. 3 (São Paulo: Edições Vida Nova, 1979), 1560-61.

11 Conferir também Mt 15.3ss.

12 Berkhof, Introducción a la Teología Sistemática, 207.

13 Um exemplo bem atual: há poucos dias atrás, cientistas anunciaram que pesquisas feitas com o DNA dos fósseis do assim chamado homem de Neanderthal — até então "inquestionavelmente" considerado um dos antepassados mais recentes do homem na cadeia evolutiva —, revelam que esses ossos nada têm a ver com a raça humana. Exemplos como estes repetem-se continuamente, e deveriam tornar-nos cautelosos em atribuir à ciência autoridade maior do que a da revelação bíblica.

14 C. Pinnock, citado por Keun-Doo Jung, "A Study of the Authority with Reference to The Westminster Confession of Faith." (Tese de Mestrado, Potchefstroom [South Africa] University for Christian Higher Education, 1981), 45.

15 G. D. Kaufman, ibid., 45.

16 Ensinada no parágrafo V do capítulo I da Confissão de Fé de Westminster.

17 Ibid.

18 Outros dados sobre a importância da doutrina reformada da autoridade das Escrituras em relação à teologia liberal e à neo-ortodoxia podem ser obtidos em Lloyd-Jones, Authority, 30-61; John A. Witmer, "Biblical Authority in Contemporary Theology," Bibliotheca Sacra 118:469 (January 1961), 59-67; e Kenneth S. Kantzer, "Neo-Orthodoxy and the Inspiration of Scripture," Bibliotheca Sacra 116:461 (January 1959), 15-29.

19 Ver G. C. Berkouwer, Studies in Dogmatics: Holy Scripture (Grand Rapids: Eerdmans, 1975) e Ronald Gleason, "In Memoriam: Dr. Gerrit Cornelius Berkouwer," Modern Reformation 5:3 (May/June 1996), 30-32.

20 Alguns eruditos têm considerado a doutrina reformada tradicional da autoridade das Escrituras conforme ensinada pelos teólogos de Princeton, tais como Charles Hodge (1797-1878), Alexander Hodge (1823-1886) e B. B. Warfield (1851-1921), como um desvio do ensino dos Reformadores e da Confissão de Fé de Westminster. Ver, por exemplo, Ernest Sandeen, The Roots of Fundamentalism: British and American Millenarianism, 1800-1930 (Chicago: University of Chicago Press, 1970). Alguns, como Jack Rogers e Donald McKim, The Authority and Interpretation of the Bible: A Historical Approach (San Francisco: Harper & Row, 1979), chegam a defender que a doutrina reformada das Escrituras encontra seus legítimos representantes em Abraham Kuyper (1837-1920) e Herman Bavinck (1854-1921), os quais teriam se antecipado aos esforços de Karl Barth e G. C. Berkouwer no sentido de restaurar a verdadeira tradição reformada. Outros, entretanto, têm demonstrado que estas teses não procedem, visto que os teólogos de Princeton estão em substancial harmonia com outros que os antecederam, e com Kuyper e Bavinck. Ver Randall H. Balmer, "The Princetonians and Scripture: A Reconsideration," Westminster Theological Journal 44:2 (1982): 352-365; e Richard B. Gaffin, Jr., "Old Amsterdam and Inerrancy?," Westminster Theological Journal 44:2 (1982), 250-289; 45:2 (1983): 219-272.

21 Uma demonstração da posição reformada e protestante histórica da inerrância das Escrituras em português pode ser encontrada em John H. Gerstner, "A Doutrina da Igreja sobre a Inspiração Bíblica," em James Montgomery Boice, ed., O Alicerce da Autoridade Bíblica, 2a ed. (São Paulo: Vida Nova, 1989), 25-68.

22 Herman Ridderbos, Studies in Scripture and its Authority (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), 24.