quarta-feira, 1 de julho de 2009

"Não julgueis..."

Silas Roberto Nogueira


Penso que se dissesse que muitos são os que conhecem o Sermão do Monte, mas são poucos os que o compreendem e menos ainda aqueles que o praticam não estaria errado. Haveria, porventura, alguma parte das Escrituras tão popular, tão erroneamente citada e tão mal interpretada como as palavras de Jesus “não julgueis...” (Mt.7:1)? Edward Donnelly chamou a atenção ao fato de que “estas palavras têm sido adotadas como fundamento para uma abordagem permissiva e sem criticismo da vida, de uma mentalidade “tudo é aceitável”, que nunca forma, e muito menos expressa, uma opinião desfavorável das coisas ou das pessoas”.[1] Isso porque o que caracteriza a época atual é a repugnância à verdade absoluta ou universal, tudo é uma questão de opinião. Em uma época subjetivista como a nossa na qual imperam o pluralismo e o hedonismo a tolerância (designação atual para omissão) é exigida em nome da conciliação e da paz. Por isso é vital que saibamos o que o Senhor Jesus quis dizer com estas palavras e, como disse o Dr. Lloyd-Jones, “nunca uma correta interpretação dessa injunção foi mais importante do que na época presente.” [2]



A primeira coisa a ser dita aqui é que é ilegítimo o uso destas palavras (“não julgueis”) como uma mordaça para silenciar os que se opõem e denunciam a hipocrisia, heresia ou apostasia de alguns.



Depois, é igualmente ilegítimo o uso destas palavras para revestir o pecado da omissão com capa de espiritualidade não emitindo juízo algum, já que ninguém é perfeito como se costuma dizer.



Essas atitudes são, no mínimo, uma prova da ignorância por parte de uns, tolerância pecaminosa por parte de outros e fruto do mau uso das Escrituras por ambas as partes.



Ora, é simplesmente impossível não julgar quando ao homem é dado o privilégio de fazê-lo e ele é devidamente responsabilizado por isso. Depois, como poderíamos não dar “aos cães o que é santo” ou não dar aos “porcos” aquilo que tem valor (7:6) ou guardar-nos dos “falsos profetas” (7:15-23) –sem exercer juízo ou discernimento a seu respeito?



O fato é que o texto realmente não significa que não devemos emitir juízos em tempo algum sobre a conduta ou opinião de alguém (1 Tes.5:21). O contexto indica que podemos julgar, mas a ênfase aqui recai em como não se deve fazê-lo. Há um tipo de juízo que é vetado ao cristão, é a ele que o Senhor Jesus se refere. Assim, não se deve julgar quando:



a) Nosso juízo é baseado em nosso senso de justiça própria. Lloyd-Jones declara que “O “ego” está sempre por detrás dessa questão, e esse egoísmo é sempre uma manifestação de justiça-própria, um sentimento que diz que estamos com a razão ao passo que outras pessoas não o estão. Isso, pois, leva ao espírito censurador, um espírito sempre disposto a expressar-se de forma aviltante. Paralelamente a isso, entretanto, há aquela outra tendência de desprezar o próximo, de considerá-lo com desprezo.” [3] Os que são justos aos seus próprios olhos são incapazes de julgar suas próprias falhas, mas se consideram muito aptos em condenar os pecados dos outros. (Tg.4:11). John Gill menciona um provérbio pronunciado pelo rabino Hillel, que diz: “não julge o seu vizinho, até que tenhas tomado o seu lugar”.



b) Nosso juízo deriva do nosso hábito de julgar. O tempo presente do verbo usado pelo Senhor indica uma ação habitual, isto é, uma atividade contínua de julgar. Muitos nem percebem, mas são mais capazes de criticar do que elogiar. Tais pessoas desenvolveram o terrível hábito de criticar todos e tudo todo o tempo. Eles farejam erros ou falhas e se deleitam em denunciá-las, em expô-las. O denuncismo é uma tragédia em qualquer setor das nossas vidas. J. C. Ryle assinala “o que o nosso Senhor condena é um espírito crítico que em tudo encontra alguma falta”.



c) Nosso juízo é desnecessário. Em muitas ocasiões exercemos julgamentos sobre assuntos ou pessoas que não nos dizem respeito, que não estão diretamente vinculadas conosco (2 Ts.3:11,12; 1 Pe.5:14). Nossos julgamentos só são válidos quando pronunciados “a seu tempo” (Prov.15:23;25:11).



d) Nosso juízo é trivial. Em muitas ocasiões nós nos manifestamos sobre coisas triviais, corriqueiras e insignificantes (Col. 2:16). A história da igreja é repleta de ocasiões em que cisões ocorreram por causa de questões absolutamente insignificantes, totalmente irrelevantes. Seremos responsabilizados por traumatismos desnecessários ao Corpo de Cristo.



e) Nosso juízo é parcial. Na maioria das vezes nossos julgamentos são baseados em informações incompletas ou com acepção de pessoas, portanto, parciais. Todo juízo parcial é injusto. O livro de Provérbios adverte: “Parcialidade no julgar não é bom” (24:23; cf. 28:21).



f) Nosso juízo é apressado. Não poucas vezes nossos julgamentos, críticas são apressados, imponderados. A pressa torna nossa crítica ou julgamento imoderado, portanto igualmente injusto. Paulo diz: “nada julgueis antes do tempo” (1 Co. 4:5), essa é uma exortação a não emitir julgamento prematuramente. João Calvino comentando o texto diz: “Paulo não estava condenando todo e qualquer gênero de julgamento, mas somente aquele julgamento precipitado e audacioso sem que haja um exame criterioso”.



g) Nosso juízo é intolerante. Nem sempre nos damos ao trabalho de duvidar das informações recebidas, em benefício do acusado. Nem sempre avaliamos as fontes de informação ou caráter daqueles que nos trazem determinadas informações. Erramos gravemente quando consideramos alguém culpado até que prove a sua inocência, quando deveríamos considerá-lo inocente até que provem a sua culpa. Qualquer dúvida quanto a veracidade dos fatos e evidências deveria beneficiar o acusado.



h) Nosso juízo é incoerente. Muitas vezes aquilo que condenamos nos outros é justamente aquilo que praticamos. Paulo adverte: “Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas.” (Rom.2:1; CF. Tg.2:11-12)



i) Nosso juízo é pessoal. Todo juízo ou crítica que ataca pessoas é iníquo. A parte mais difícil quando se tem que emitir juízo é fazê-lo sem atacar a pessoa, ignorar a ação ou palavra e ir para o homem. (Mt. 5:22).



j) Nosso juízo ou crítica é sem misericórdia. Lloyd-Jones declarou “uma outra indicação sobre a presença do espírito hipercrítico é que ele nunca se dá ao trabalho de procurar compreender as circunstâncias. E também nunca aceita justificativas. E isso porque jamais se dispõe a exercer misericórdia”. [4] O juízo ou a critica sem misericórdia beira a vingança, por isso mesmo reprovável. (Tg.2:13).



l) Nosso juízo é segundo a aparência ou superficial. O Senhor Jesus diz: “não julgueis segundo a aparência, e, sim, pela reta justiça” (Jo. 7:24). Seus opositores que O condenavam por praticar uma boa ação num sábado estavam sendo superficiais. Um julgamento justo certamente penetraria sob aquilo que está à vista, na superfície e julgaria de acordo com o espírito e o propósito de Lei. Quando emitimos juízos segundo as aparências cometemos injustiça, como os líderes religiosos dos dias do Senhor Jesus Cristo.



m) Nosso juízo ou crítica é final, condenatório. Todo juízo ou crítica que pronuncia uma decisão final não é correto, é usurpador. Subtraímos um direito exclusivo de Deus quando o fazemos, pois só Ele pode julgar retamente (Gên.18:25;1 Pe.2:23) e emitir uma condenação final (2 Tm.4:11;Tg.4:12; Ap.20:12,13). Ao fazê-lo, tornamo-nos réus de juízo (Lc.6:37; Rm.2:3).



Se há algo que deve estar na mente daqueles que se atrevem a julgar os outros sem os critérios acima mencionados é o fato de que eles mesmos serão julgados e com a mesma severidade: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também.”. John Stott declarou acerca disso “a exposição dos princípios está clara. Se assumimos a posição de juízes, não podemos invocar a ignorância da lei que estamos reivindicando ser capazes de administrar aos outros”. [5] (Tg.4:11,12).



Mas devemos lembrar que o texto não quer dizer que não devemos fazer julgamentos de modo absoluto, conforme o próprio contexto indica. No entanto, uma postura acrítica não é mais cristã que uma postura hipercrítica, ambos os extremos são condenáveis. Devemos julgar tudo, mas acima de tudo de maneira legítima, segundo a “reta justiça” (Jo.7:24).


Soli Deo Gloria!



[1] DONNELLY, E. Fé para Hoje, pág. 34.

[2] LLOYD-JONES, D.M., Estudos no Sermão do Monte, pág. 442

[3] LLOYD-JONES, D.M., p. 447

[4] LLOYD-JONES, p.449

[5] STOTT, John, A Mensagem do Sermão do Monte, p. 185