segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

LIDERANÇA SEGUNDO JESUS NÃO É UTOPIA


Silas Roberto Nogueira

O tema “liderança” tem recebido grande atenção nas últimas décadas. Livros que tratam do assunto entulham as prateleiras das livrarias por toda parte. Há periódicos seculares e evangélicos especializados no tema, seminários e conferências acontecem com muita frequência. Isso só comprova o interesse geral pelo assunto.


Muitos desses livros e artigos [bem como os seminários, conferências e outras atividades] são produzidos por [alegados] evangélicos que propõe princípios e métodos aplicados com grande sucesso em algumas empresas para serem copiados pela igreja, visando, obviamente, o mesmo resultado.


Esse pragmatismo, uma marca distintiva do meio evangélico moderno, traz consigo muitos malefícios nem sempre discerníveis no momento por causa da euforia com o aparente sucesso. Por isso as palavras de George MacDonald servem como um aviso: “o homem falhará desgraçadamente em qualquer coisa que faça sem Deus, ou, mais desgraçadamente ainda terá sucesso”. Os louros do sucesso hoje podem ser a coroa de espinhos amanhã.


Muito embora liderança seja coisa comum à igreja e ao mundo isso não significa que o conceito para ambos seja o mesmo e de fato não é. É preciso ter em mente que as pressuposições e valores da liderança secular são diferentes dos valores que Deus requer e atribui a liderança da Sua Igreja. É preciso retornar às Escrituras, a nossa única regra de fé e prática, e extrair dela os princípios de liderança espiritual.


Ao fazermos isso logo se destacará a pessoa do Senhor Jesus Cristo como o maior de todos os líderes que já houve. Ele, sem dúvida alguma, é o líder dos líderes (“Reis dos reis, Senhor dos senhores”). Ele nos levará ao cerne da verdadeira liderança, a glória de Deus. Nosso Senhor é o paradigma, a fonte inesgotável não só instrução, mas de ilustração sobre a liderança. Ele nos legou princípios e modelo de liderança que se aplicados com fidelidade produzem resultados e dividendos eternos, não meramente sucesso momentâneo.


O ponto de partida para construir o nosso conceito de liderança segundo o Senhor Jesus é justamente a sua instrução aos discípulos registrada em Mateus capítulo 20:20-28. Fica claro, mesmo que por uma leitura superficial do texto que não é de hoje que alguns têm uma má compreensão do que vem a ser liderança na Igreja.


A mãe de Tiago e João, que ambicionavam posição e poder, procurou ao Senhor Jesus, como porta voz dos filhos, pedindo-Lhe que concedesse a eles posições “à direita e à esquerda” em Seu reino vindouro. Pensa-se que, além da ignorância quanto à natureza do reino, ela tomou essa liberdade em decorrência dos laços familiares com Jesus, pois era sua tia. O pedido de Salomé implicava em conceder aos seus filhos a maior honra concedida nas corte orientais, nada menos que isso. Tal coisa provocou uma agitação entre os discípulos contra os irmãos. A situação serviu para que o Senhor Jesus lhes oferecesse [e a nós] uma importante lição acerca do que vem a ser liderança.


Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles.26 Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; 27 e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; 28 tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.


Uma das coisas que podemos observar é que existem dois modelos de liderança em contraste aqui. Um é o “modelo do governante secular”, que retrata os líderes como chefes, como pessoas que exercem autoridade sobre outros pela força de suas posições. A palavra usada para “dominam” é uma forma intensiva cujo sentido é o de liderar ou governar subjugando, como um tirano. Isso ficou gravado a mente de todos os discípulos, mas especialmente na de Pedro. Ao referir-se aos pastores em sua primeira Epístola, exortou-os a pastorearem sem constrangimento, ganância e nem como dominadores, usando a mesma palavra que o Senhor usou naquela ocasião (1 Pedro 5:3). Observe que o Senhor Jesus não critica esse modelo de liderança no mundo, foi instituído por Deus (João 19:11; Romanos 13:1 segs.). Ele não é mau em si mesmo, mas o Senhor deixa claro que é mau na igreja.


Não é assim entre vós

na NVI:
Não será assim entre vocês

John Knox traduziu assim:
convosco tem de ser diferente


Dessa maneira o Senhor apresenta o seu (contra) modelo de liderança. Uma reação a autopromoção dos discípulos. Para Ele o líder é servo. O Senhor Jesus usou dois termos, um deles serve para ilustrar o serviço voluntário do líder (“que vos sirva” – diakonos) ,o outro o caráter compulsório (“será vosso servo” – doulos, escravo) . Não são duas formas de liderar, mas uma como os dois lados de uma moeda.


Assim sendo, entre os discípulos no Corpo de Cristo, os líderes não estão “acima” do povo, mas “entre” o povo, não como chefes que mandam, mas como servos que fazem (junto). Alguém lembrou que esse tipo de liderança tem uma implicação tríplice, a primeira é o sacrifício (“tal como o Filho do homem”), a segunda a humildade (“vos sirva”) e a terceira a submissão (“vosso servo”).


Esse modelo de liderança servil apresenta algumas vantagens em relação ao modelo secular. Em Mateus 23:1-12 o Senhor Jesus novamente repete o Seu conceito de liderança, mas agora revela como será o relacionamento neste modelo:


Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos.9 A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus.10 Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo.


Não haverá “mestres”, “pai” e “guias” – em outras palavras não haverá uma distinção hierarquizante, mas uma relação igualitária – “Todos sois irmãos”. Nos dias do Novo Testamento os líderes religiosos gostavam de serem chamados de ‘mestres’ (rabinos), ‘pai’ e ‘guia’, como atualmente alguns erradamente querem ser chamados papas, pastores, reverendos, missionários, mestres, doutores, apóstolos, bispos e outras coisas mais.


O líder servo, por não estar acima dos outros, como nos modelos comuns de liderança não é encarado com alguém diferente do grupo que lidera (v.2,6,7). Um relacionamento hierárquico facilita a transmissão de tarefas, mas dificulta o intercâmbio de informações pessoais (v.3). Geralmente a comunicação neste modelo de liderança ocorre numa via só. Um manda, o outro obedece (v.4). Já no caso do relacionamento nivelado ou igualitário – “todos irmãos” – as pessoas são colocadas no mesmo nível havendo intercâmbio de informações pessoais. Quando o grupo percebe que o líder é como qualquer dos componentes, um ser humano com suas limitações e falhas, a comunicação se dá em duas vias, é bilateral. Isso facilita a realização das tarefas.


No modelo proposto por Cristo, o líder não apenas dá ordens, mas faz junto ‘com’. Um líder servo dirige o outro pelo exemplo, por aquilo que é e faz:


“mas o maior dentre vós será o vosso servo” (v.11)


Manfred Grellert diz com sabedoria: “quem não encarna um espírito de serviço não tem o direito de exigi-lo de seus liderados. Aliás, nem consegue ensiná-lo porque serviço tem a ver com espiritualidade”.


Josué Campanhã tratando do assunto de liderança servil disse que o conceito não é difícil de ser assimilado, mas não é tão fácil como parece. Segundo ele: “assimilar conceitos de livros sobre como se tornar um líder servo é bem diferente de passar pelo processo de se tornar um servo. A formação de um líder servo não estará completa com a assimilação de alguns conceitos. É necessário um processo. A primeira parte do processo implica em o líder desaprender muito do que sabe sobre liderança, contrariando a essência do que significa ser servo. A segunda parte do processo requer padecer as dores de tornar-se servo”.


A questão é estar disposto a pagar o preço da liderança servil, que inclui:

(a) Críticas. Nenhum líder consegue evitar a crítica. Não importa se faz ou não alguma coisa, ele será criticado. Se Cristo foi criticado, não espere algo diferente.

(b) Cansaço. O exercício da liderança pode ser cansativo, estressante. Cristo muitas vezes esteve cansado.

(c) Solidão. Nem todos permanecem à nossa volta o tempo todo, especialmente nos momentos críticos. Cristo estava enfrentou a solidão, mesmo rodeado de discípulos sonolentos no jardim do Getsemane.

(d) Angústia. Exatamente por estarmos sozinhos, sob pressão, enfrentaremos a angustia. Cristo enfrentou a angústia no Getsemane.

(e) Rejeição. Como resultado de decisões difíceis que tocarão em alguns, enfrentaremos a rejeição. Cristo sofreu rejeição em sua terra natal e dos seus próprios irmãos.


É preciso lembrar que não se deve entrar na liderança espiritual sem avaliar o custo e não se deve parar antes de terminar a obra.


Depois de avaliarmos o custo da liderança servil é preciso que descubramos o perfil do líder segundo o Senhor Jesus Cristo, que é diferente do perfil do líder no mundo corporativo.

(a) Certa vez o Senhor Jesus propôs uma parábola de um cego guiando outro cego e dos resultados óbvios e nefastos disso.

Propôs-lhes também uma parábola: Pode, porventura, um cego guiar a outro cego? Não cairão ambos no barranco? Lucas 6:39

Bem, a lição é que ninguém pode ter esperança de servir como guia para outras pessoas a não ser que ele mesmo veja claramente para onde está indo. Se o líder espiritual não conhecer pessoalmente o caminho da salvação, só guiará outros à perdição. Quem ainda não teve os olhos espirituais abertos não pode querer conduzir outros para a luz. Portanto, a primeira característica do líder espiritual é que seja REGENERADO.

Pode parecer ridículo alistar a regeneração como perfil do líder cristão, mas não é. A história da igreja registra muitas ocasiões em que homens irregenerados assumiram altas posições na igreja e não me admira que alguns ainda estejam por lá. Conta-se que Rafael pintava os afrescos do Vaticano quando alguns cardeais pararam por perto a fim de observr o trabalho. “O rosto do apóstolo Paulo está vermelho demais”, disse um deles. Rafael respondeu: “ele cora ao ver nas mãos de quem está a igreja”.

A liderança espiritual é de natureza diferente da secular e exige uma natureza diferente para aquele que quer ser líder na igreja. Liderança é assunto de serviço e serviço é um assunto do coração, assim se o coração não é transformado, não pode aspirar servir.


(b) Espera-se que aquele que teve os olhos abertos, isto é, iluminados pelo Sol da justiça, permaneça na luz. A SANTIDADE é característica que se deve exigir daquele que se propõe a liderar o povo santo de um Deus santo. Os líderes espirituais dos dias do Senhor Jesus Cristo mantinham as mãos rigorosamente limpas, mas tinham os corações tremendamente impuros, por isso Ele os definiu como “cegos, guias de cegos” (Mateus 15:14). Cristo, nosso paradigma de liderança espiritual, era santo e isso fazia toda a diferença entre a Sua liderança e a deles. Os apóstolos eram homens santos, e isso fazia toda a diferença na igreja primitiva. O líder cristão deve orar pedindo ao Senhor, a exemplo de Davi, um coração puro e um espírito inabalável (Salmo 51:10).

Robert Murray McCheyne disse: “Deus abençoa muito mais a grande semelhança com Jesus do que os grandes talentos”. Não devemos escolher os nossos líderes por seus talentos ou dotes naturais, mas por sua santidade.


(c) Um líder deve ser alguém que tem uma VISÃO. O homem que Deus usa na liderança de Seu povo precisa ter uma visão do alvo e dos objetivos finais da organização e organismo [a igreja é ambas as coisas] que ele dirige. Um cego está desqualificado, segundo o Senhor Jesus. Dr. Shedd comenta: “ele precisa, em oração, olhar para o futuro com sua imaginação e perceber o propósito central que trouxe a igreja ou o grupo à existência. Ele vê claramente o final para o qual existe. Cada investimento em tempo, em dinheiro, em pessoas e em sacrifício necessita mover-se na direção daquele objetivo. Para líderes cristãos, a glória de Deus, refletida em seu reino em sua justiça, será o alvo final de todo esforço e planejamento organizacional”.

Um líder sem visão não merece ser seguido, segui-lo pode ser muito perigoso. Um líder sem visão toma qualquer caminho, afinal, qualquer caminho serve para quem não sabe para onde vai.


(d) O AMOR é a característica vital do líder segundo Jesus. Sem amor é impossível encarnar o conceito cristão de liderança e é impossível liderar com eficiência. O amor é aquilo que aproxima o líder do grupo. Em João capítulo 10 Jesus estabelece o contraste entre o bom pastor e o mercenário. O sentido do termo “mercenário” (v12,13) é o de alguém que é pago para fazer o seu trabalho, alguém que está mais comprometido com o seu bem estar do que com o bem estar das ovelhas. Mas o bom pastor ama as suas ovelhas e está disposto a dar a sua vida pelo seu bem estar, mas o mercenário foge quando os perigos aparecem. Um líder espiritual que não ama é como um mercenário que deixa o grupo a qualquer momento que sua reputação ou seus interesses correm perigo, não se importando com os seus liderados.

Há um debate acirrado sobre a profissionalização do trabalho pastoral, que em minha opinião só mostra o quanto estamos na contramão dos princípios bíblicos. O aumento de demandas judiciais entre pastores e igrejas só traz vergonha ao evangelho (1 Coríntios 6:1-7). A profissionalização da atividade pastoral é um indicativo da mercantilização da fé, do quanto estamos longe do entendimento bíblico de que a atividade pastoral é uma vocação. Os mercenários receberão o justo juízo quando o Juiz de toda a terra chamá-los à prestação de contas naquele grande e terrível dia.


(e) A exemplo do Senhor Jesus que tinha a plenitude do Espírito Santo, o líder espiritual deve SER CHEIO DO ESPÍRITO SANTO. Liderar como Ele liderou só pode ser efetivado se for no poder do Seu Espírito, pois foi o Espírito que o capacitou a realizar a Sua obra, Hebreus 9:14. A igreja primitiva foi orientada a escolher seus líderes entre os que fossem “cheios do Espírito” (Atos 6:3) e o que vale para aquela igreja sem dúvida alguma vale para nós hoje, isso porque em certo sentido a igreja é a mesma. A plenitude do Espírito é essencial à liderança espiritual, visto que a garantirá a condução dos liderados à verdade, João 16:13. Um líder que reproduz o caráter de Cristo conduzirá como Cristo.

Na atualidade há igrejas que, seguindo as normas mundanas, tem escolhido os seus líderes estabelecendo um perfil que prima pela formação, aparência e idade, mas despreza o que realmente é essencial, o caráter, a semelhança com Cristo e a plenitude do Seu Espírito.


Vou adaptar aqui o que Michael Youssef, um dos líderes do Instituto Haggay destacou como os princípios de liderança segundo o Senhor Jesus:

(a) Todo líder deve ser confirmado como líder antes de liderar. Assim como o Senhor Jesus Cristo foi confirmado pelo Pai, pelo testemunho de João, o batista, do Espírito Santo, das Escrituras, dos sinais miraculosos e, finalmente, pelos discípulos – os líderes hoje precisam ser igualmente confirmados por Deus, afinal é Ele quem chama os líderes e confirmados pela Igreja.

(b) Todo líder deve prestar reconhecimento aos que o precederam. Isaac Newton disse: “Se vi mais longe do que os outros homens, foi porque estava de pé sobre os ombros de gigantes”. Em João 4:26-38 o Senhor Jesus fala da recompensa dos ceifeiros, mas lembra que outros plantaram. Em outras palavras, todo ceifeiro tem um débito de gratidão para com o semeador.

(c) Todo líder tem que se identificar com o grupo que lidera. O Senhor como o bom pastor conhecia as suas ovelhas e era conhecido por elas, assim o bom líder deve conhecer aqueles a quem lidera. Quanto maior o grau de identificação, maior a possibilidade de liderança sem traumas. A encarnação nos ensina isso, Cristo identificando-se com os que pretende salvar e guiar.

(d) Todo líder deve liderar com coragem. A liderança secular se estabelece pela lisonja, na maioria das vezes. Cristo não adulou Nicodemos, segundo podemos ler em João capítulo 3. Nicodemos era um líder influente, seu apoio poderia representar muito, mas o Senhor Jesus não transigiu, antes mostrou-lhe corajosamente a sua necessidade de novo nascimento, a regeneração. Nossa cultura é receptiva a líderes que não fazem exigências morais rigorosas. Mas esse não era o estilo de liderança do Senhor Jesus. Não fosse a coragem do Senhor em João capítulo 3 ninguém ouviria falar de Nicodemos no capítulo 19. Liderança segundo Jesus se estabelece com coragem. Líderes covardes são impostores.

(e) Todo líder deve ser manso. Coragem e mansidão não são conflitantes, mas virtudes completares. A mansidão não permite a corrupção da coragem em rudeza e a coragem não deixa a mansidão se tornar complacência ou tibieza. No modelo de liderança de Jesus o líder exerce a sua autoridade com mansidão. A autoridade não flui do cargo, da posição, mas do caráter. A mansidão de Cristo é indiscutível, assim como a Sua liderança firme e corajosa. O líder de hoje precisa manifestar a sua mansidão em submissão à Deus e no fato de ser alguém disposto a aprender.

(f) Todo líder deve valorizar a pessoa em detrimento da coisa. Alguém já disse com sabedoria que devíamos usar coisas e amar pessoas e que fazer o contrário é pecado. Em João capítulo 5 o Senhor Jesus operou um milagre no dia de sábado. Ele rompeu uma tradição humana, mas não quebrou o espírito da Lei. O sábado foi feito por causa do homem, assim sendo era lícito curar num sábado. Mas a tradição dos homens não se dispunha a isso, por isso mesmo Cristo a rompeu. Jesus amava pessoas e usava coisas, os líderes do seu tempo usavam as pessoas e amavam as coisas. O estilo de liderança do Senhor coloca as pessoas valoriza a pessoa em detrimento da coisa. A necessidade humana vem primeiro, depois o regulamento.

(g) Todo líder deve ser capaz de perdoar. Perdão é a encarnação da graça. Se alguém não tem graça suficiente para perdoar é certo que não terá graça suficiente para liderar. Uma das características do verdadeiro líder é a capacidade de perdoar. Perdoar torna a liderança mais eficaz, pois ninguém consegue trabalhar com alguém por quem nutre profundos ressentimentos.

(h) Todo líder deriva sua autoridade do seu serviço. A autoridade é essencial à liderança. O conceito de Cristo de liderança servil não significa renuncia a autoridade, mas é o seu fundamento. Cristo se fez servo e isso não implicou em perca de autoridade. A cruz e a toalha são símbolos do cristianismo, ambos falam de serviço e ambos foram exercidos com autoridade.


O modelo de liderança de Jesus não é impossível de ser praticado, não é uma utopia, afinal Ele praticou. Ele nos legou um modelo que pode e deve ser praticado por Sua igreja e que jamais deveria ser desprezado. É justamente a idéia de que este modelo está além das nossas possibilidades que tem facilitado a adoção de modelos estranhos ou culturais. John Stott diz que “nosso modelo de liderança frequentemente é mais talhado pela cultura do que por Cristo, muitos modelos culturais de liderança são incompatíveis com a imagem da liderança servil, ensinada e demonstrada pelo Senhor Jesus. No entanto, esses modelos culturais estranhos à igreja são incorporados a ela e à sua hierarquia de forma indiscriminada. Na África se trata do chefe tribal; na América Latina, do machismo (a masculinidade exacerbada0 do macho hispânico; no sul da Ásia, do guru religioso bajulado por seus discípulos; no leste da Ásia, o legado da inquestionável autoridade do mestre deixado por Confúcio e na Grã-Bretanha, a mentalidade imperialista britânica, o orgulho arrogante associado ao período de dominação britânica até a independência da Índia, em 1947. É fácil para os líderes cristãos assimilarem um ou outro desses modelos, sem que percebam. Porém, precisamos determinar que não há lugar na comunidade cristã para o guru ou para o mestre...para o chefe africano, para o imperialista britânico ou para o machista hispânico.” Definitivamente esses modelos não são coerentes com a liderança segundo Jesus Cristo, o único modelo que a igreja deve seguir.


Soli Deo Glória.

domingo, 18 de janeiro de 2009

QUE É O HOMEM?

D. M. Lloyd-Jones

Que é o homem? Qualquer consideração autêntica sobre o homem e seus problemas, no mundo moderno, deveria responder a essa pergunta. Se a idéia básica sobre o que é o homem estiver errada, então, necessariamente, também estará errada a idéia a respeito dos seus problemas e do que pode ser feito em favor dele. Assim, já de início vemos que a idéia moderna e popular sobre o homem e sua natureza afasta-se radicalmente do ponto de vista bíblico e cristão, quase universalmente crido e aceito até cerca dos últimos cem anos.

A idéia moderna acerca do homem talvez poderia ser melhor descrita como o culto da auto-expressão, sendo um conceito que tem permeado e influenciado quase cada aspecto da vida. Esse conceito é responsável pelos aspectos mais essenciais e característicos da con¬duta moderna. É, por exemplo, a verdadeira explicação da última e calamitosa guerra mundial. Esse culto da auto-expressão, manifestando-se sob a forma da filosofia nazista, foi um importante fator que levou a Alemanha a mergulhar o mundo naquele horror.

Trata-se de um conceito alicerçado sobre a idéia de que a pessoa tem o direito de expressar-se, mesmo que seja às custas do sofrimento alheio, e que aquilo que alguém gosta torna-se uma necessidade legítima. Essa mesma idéia se manifesta no campo dos negócios, onde o conceito de promoção de vendas se baseia prin¬cipalmente sobre essa filosofia de auto-expressão. Também pode ser percebida no campo da educação, onde o conceito de disciplina e antigo programa de ensinar às crianças as três instruções básicas — leitura, escrita e aritmética — não são mais popularmente aceitos. O resultado da atual noção popular de que a finalidade da educação consiste, primordialmente, em treinar a criança a expressar-se pode ser visto por toda a parte, tanto no colapso do controle paterno como no aumento da delinqüência juvenil.

Todavia, dentro de nossos propósitos, nos ateremos àquilo que essa moderna filosofia se expressa, particularmente no campo da religião e no mundo da alma. Sob a influência desse conceito popular, neste século, tem havido profunda e radical modificação na atitude das pessoas comuns, acerca de toda a questão religiosa. Até ao surgimento do conceito da auto-expressão, os homens se contentavam em permanecer em atitude mais ou menos negativa no tocante às suas más ações. Alguns até admitiam livremente que tinham cometido pecado, e que não havia justificativa. Outros procuravam defender-se dizendo que os padrões religiosos eram por demais elevados, que suas regras eram por demais severas. Ainda outros, como uma capa para os seus pecados, destacavam exageradamente o amor de Deus e a sua prontidão em perdoar. E outros falavam sobre o pecado em termos de virilidade, apresentando-se como homens que tinham rompido certas restrições e algemas.

Mas, a despeito das inúmeras variações, a atitude central, comum a todas essas posições, era a de admitir a existência do pecado. Todas aquelas pessoas estavam, de uma maneira ou de outra, defendendo-se das suas próprias consciências, embora de maneira contrária à opinião da igreja e da Bíblia. A súmula do desejo delas era permanecerem intocadas e não-condenadas. Ainda que algumas vezes tal desejo se expressasse, conforme vimos, na forma de um ataque contra os crentes, como se neles houvesse falta de vigor, como se fossem pessoas de mentalidades fechadas. Aqueles descontentes não diziam — e nem ansiavam dizer — que os crentes estavam errados, embora desejassem que, eventual¬mente, assim ficasse provado. O seu maior desejo era o de se protegerem, de uma maneira ou de outra, da acusação de estarem afastados de Deus. O pecado, de modo geral, parecia vergonhoso. E embora, vez por outra, procurassem se defender de maneira agressiva, a atitude era totalmente negativa.

A atual perspectiva, que se baseia nesse culto da auto-expressão é, por outro lado, algo inteiramente positivo. Ao invés de serem defensivos, os métodos dessa perspectiva são de caráter ofensivo. Ao invés de resistirem ao ataque da religião, esses métodos atacam a religião cristã e todos os seus seguidores. Não satisfeita em justificar os seus próprios caminhos, essa perspectiva recomenda a si mesma como a única forma digna de vida. Declara que a posição sobre o pecado, ensinada pela igreja, com base na Bíblia, que por tanto tempo vem controlando o pensamento do mundo, não somente é inexata, mas também pervertida; e que, quando a Bíblia apela ao homem para que se abstenha de certos atos, por amor à sua própria alma, ela está sendo na realidade o pior inimigo do homem.

Todas aquelas antigas palavras acerca do pecado, dizem os auto-expressionistas, são completamente tolas, pois induzem à auto-repressão, o que, segundo afian¬çam, é o único pecado. O que se costumava chamar de pecado é apenas a expressão do próprio "eu", a maior e mais vital possessão que o homem tem. Não pecar, de acordo com o antigo significado do termo, seria fazer violência ao maior dom que o homem possui. Portanto, tais pessoas pedem a abolição do vocábulo "pecado" em suas mais básicas associações.

Segundo eles, o homem é uma criatura que possui vários poderes, faculdades e instintos, e o seu bem mais elevado se acha no exercício dessas faculdades. E afirmam ser uma perversão não-saudável, da parte dos crentes, a acusação de iniqüidade e desgraça para a sociedade aquelas demonstrações de auto-expressão. Insistem na retidão do que é natural e instintivo. Deploram aquilo que chamam de trágico espetáculo da humanidade, impedida de obter seu maior bem, por aderir às advertências da Bíblia, da igreja e dos santos.

Os defensores dessa doutrina não hesitam em seguir essa lógica às suas conseqüências extremas, asseverando que a pessoa por ainda acreditar no pecado, à maneira antiga, e que, por conseguinte, tenta disciplinar e controlar a sua vida, é um pervertido, um psicopata, o qual não somente peca contra si mesmo e contra seu próprio verdadeiro destino, mas também contra a humanidade de modo geral. E assim, de acordo com esse ponto de vista, os maiores pecadores na vida têm sido exatamente aqueles a quem as diversas igrejas têm canonizado como seus maiores santos.

Esse é o conceito de vida, abraçado por milhões de pessoas em todos os países, em nossa época. Também é esse o ponto de vista que atrai a outros milhões, que só são impedidos de aceitá-lo plenamente e de se entregarem a ele, não porque vejam claramente que é errôneo, mas antes; por serem restringidos por um espírito geral de temor e pelas tradições.

Podemos considerar melhor esse ponto de vista humano sobre a vida e demonstrar sua total falácia, contrastando-o com o ponto de vista divino, estabele¬cido na Bíblia. Os ensinamentos de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo bradam abertamente contra o pecado. Declarou ele: "Portanto, se a tua mão ou o teu pé te faz tropeçar, corta-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno. Se um dos teus olhos te faz tropeçar, arranca-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida com um só dos teus olhos do que, tendo dois, seres lançado no inferno de fogo" (Mt 18.8,9).

Ora, nesse texto somos relembrados acerca do modo como cada aspecto imaginável da vida e dos homens é invariavelmente tratado nas Escrituras. O homem moderno vive a lisonjear-se, sugerindo a si próprio que algumas de suas idéias são inteiramente novas. Porém, uma vez mais, encontramos uma ilus¬tração de um conceito que se ufana de modernidade, sendo tratado completa e exaustivamente na Bíblia.

A primeira crítica que fazemos a esse moderno culto da auto-expressão é que ele não consegue perceber a verdadeira natureza do próprio "eu". Fala muito em fornecer meios de expressão ao "eu"; no entanto, facilmente podemos mostrar que suas próprias idéias atinentes ao "eu" são falsas e violentam a verdadeira natureza humana. É óbvio que, antes da expressão, deve vir a definição; e, conforme esperamos demonstrar, a nossa objeção não é quanto à idéia da auto-expressão, mas antes, quanto ao ponto de vista inteiramente falso acerca do próprio "eu", que muitos têm aceitado atualmente. A resposta dada pelo evangelho a esse culto moderno não é uma doutrina de repressão, mas antes, é uma chamada à percepção da verdadeira natureza do "eu". Ora, o choque entre o ponto de vista bíblico e o de homens modernos se destaca claramente nas linhas acima citadas, especial¬mente na ênfase de Cristo ao usar a segunda pessoa. Se um dos teus olhos te faz tropeçar... lança-o fora de ti..." Permitam-me apresentar o assunto na forma de duas declarações positivas.

O ponto de vista moderno não estabelece distinção entre o próprio "eu" e os vários fatores que tendem a influenciá-lo, ou seja, os diversos fatores usados pelo "eu", a fim de poder exprimir-se. Por outro lado, nosso Senhor traça essa distinção bem clara e definidamente, ao salientar a segunda pessoa. O fato que Cristo assim fez pode ser a verdadeira causa de toda a confusão moderna. A posição que se tornou tão popular hoje em dia tende por reputar o homem como mero agregado de vários poderes e forças que, em sua interação, produzem um certo resultado final. Por si mesmo, o homem é apenas o resultado desses poderes e forças e de seus efeitos.

E quais são essas forças? Bem, há a própria estrutura física do corpo humano e, especialmente, suas várias glândulas, notavelmente a tireóide, a pituitária e as glândulas endócrinas supra-renais, que tendem a controlar algumas das funções mais vitais. Normal¬mente, essas glândulas funcionam em perfeito equilíbrio, com alguma variação para mais ou para menos; mas, há inúmeras variações possíveis; e, conforme uma ou outra tende a predominar, o próprio "eu", junto com a personalidade, varia, segundo somos informados. É bem provável que já tenhamos lido afirmativas assegurando que todas as grandes personagens da história podem ser interpretadas em termos de tais leves modificações, nas proporções relativas dessas diversas glândulas, que se achavam em seus corpos. Assevera-se que, dessa maneira, Shakespeare e Beethoven podem ser facilmente explicados. De conformidade com essa posição, pois, o homem não passa de um mecanismo biológico; e o seu próprio "eu", a sua personalidade, não passa de puro resultado da inter-relação de forças biológicas.

Há uma outra teoria, intimamente ligada a essa, que tende a pensar sobre o homem em termos daquilo que chamamos de instintos. De acordo com esse ponto de vista, o homem, ou o próprio "eu", é determinado pela interação dos diversos instintos ou pelo predomínio de qualquer um dentre os vários instintos, tais como o instinto gregário, o instinto de proteção, o instinto do medo, o instinto sexual, o instinto da fome, etc. A personalidade essencial do homem, o seu próprio "eu", é considerada apenas como o produto dessas forças.

Na análise do "eu", uma outra teoria dá grande importância às tradições, ao meio ambiente e à forma de criação. É nessa altura que aparecem todos os elementos, como raça, sangue e nacionalidade, além de todos os fatores que podem ser atribuídos ao meio social e ao ambiente da pessoa.

Também há uma outra posição, que procura explicar o próprio "eu" segundo termos mais ou menos geográficos e climáticos. Segundo esse ponto de vista, a teologia de um homem como João Calvino deve ser explicada exclusivamente em termos do fato que ele viveu na Suíça. As raças germânicas, que vivem no norte, são reputadas mais severas, mais inclinadas ao calvinismo e sua doutrina, enquanto que, invariavelmente, na proporção em que alguém se aproxima do Equador, a doutrina tende por tornar-se cada vez mais caracteristicamente católica.

Entretanto, não precisamos continuar considerando os detalhes das diversas expressões desse moderno ponto de vista criado pelo homem. O ponto importante a observar é que o "eu", como tal, foi perdido de vista. Não mais se trata de uma entidade distinta, mas é reputado meramente como o resultado final da interação de diversos fatores e forças. De conformidade com essa teoria, o homem é, inteiramente, o resultado de suas glândulas, de seus instintos, de sua hereditariedade, do clima onde foi criado; e a sua auto-expressão significa que ele deve permitir que esses fatores sejam livremente exercidos em sua conduta. De fato, visto que ele é apenas algo composto desses fatores, restringi-los significa violentar a si mesmo. De acordo com essa lógica, é um erro falar acerca das mãos e dos pés, como se estes "fizessem tropeçar", porque a mão, o pé e o olho constituem o verdadeiro "eu".

É nesse ponto que chegamos à distinção vital. Embora nosso Senhor não tenha falado em termos de glândulas e instintos, porventura não quis Ele apresentar precisamente a mesma coisa, ao referir-se às mãos, aos pés e aos olhos, que são apenas agências externas desses outros poderes? Notemos, porém, a maneira como Jesus expõe a questão. Ele não identificou o "eu" com esses instrumentos. O "eu" é distinto deles, maior do que eles, infinitamente mais importante do que eles. Eles não constituem o próprio "eu". Tão somente são os instrumentos, os servos, que o "eu" deve controlar e usar de acordo com a sua vontade. Segundo Cristo, pois, o homem não é um mero ajuntamento de forças biológicas. Antes, é algo infinitamente maior. O homem não é uma máquina, nem um animal conduzido e governado pelo capricho. É maior do que o corpo, maior do que a tradição, do que a história e tudo o mais. Porquanto existe no homem um outro elemento que transcende a todas essas coisas. Esse elemento chama-se alma.

Contudo, não podemos deixar neste ponto a nossa crítica acerca desse falso ponto de vista sobre o próprio "eu"; fazê-lo, seria ceder em demasia a essa idéia moderna. Podemos acusar tal teoria não apenas de identificar o "eu" aos vários fatores que tendem a influenciá-lo; mas, além disso, podemos acusá-la de identificar o "eu" a apenas alguns desses fatores. Ora, quanto a essa particularidade é que se percebe o que vamos descrever como a completa desonestidade desse ponto de vista, o que também nos dá o direito de dizer que ele nada é senão uma tentativa de justificar e racionalizar o pecado. Se tal ponto de vista fosse lógico e coerente na aplicação de sua própria idéia, pelo menos poderíamos respeitá-lo intelectualmente. Porém, não é assim, porquanto ele ignora propositalmente aquilo que não se ajusta ao seu esquema nem se adapta à sua teoria.

Por exemplo, não hesita em repelir o fator deno¬minado consciência, o senso de certo e errado que há no homem, afirmando que o homem não tem maior responsabilidade por este do que pelos outros fatores frisados por esses teóricos. Eles procuram eliminar a consciência como algo falso e extrínseco, que foi impingido e enxertado no homem. No entanto, sabe-se que não existe algo mais essencial e vital ao homem do que essa faculdade.

Por igual modo, há o poder do raciocínio, a capacidade que, acima de todas, nos diferencia dos animais. Um animal é apenas o conjunto de vários poderes e forças. Não raciocina acerca desses poderes. Não pode pensar sobre os mesmos, nem considerar o que fazer com eles. Mas o poder de raciocinar e de considerar objetivamente as coisas é algo peculiar ao homem. Esse poder intelectual constantemente o impele a fazer uma pausa e a considerar, a cuidar de suas outras capacidades, controlando-as e dirigindo-as.

Porém, de acordo com esse moderno conceito, a faculdade intelectual deve ser colocada de lado, e os homens devem se comportar e viver exatamente como animais. Quanto mais retornam eles ao nível dos animais, mais verdadeiramente estarão se expressando. Essa era a opinião, por exemplo, do falecido D.H. Lawrence, o qual ensinava que uma das piores calami¬dades que têm afligido a raça humana é o uso da mente e da razão. Existem algumas instâncias, para sermos exatos, em que a exclusão de coisas inconvenientes a essa teoria tem sido levada ao extremo, ao ponto de quase conduzir à conclusão de que o "eu" pode ser identificado apenas à expressão do instinto sexual e à satisfação do instinto da fome.

Assim se vê que todo o moderno ponto de vista sobre o próprio "eu" e sobre a sua real natureza está lamentavelmente errado. Essa posição identifica o "eu" com certas forças elementares de sua composição, e, portanto, rouba o homem de sua maior glória — sua alma e seu espírito — aspecto no qual ele é independente de seu corpo e de suas faculdades e maior do que estes. Portanto, é um insulto feito ao homem, algo que pretende reduzi-lo ao nível das feras, ignorando tudo quanto é mais nobre, melhor e mais elevado na natureza humana. Auto-expressão! Sem dúvida! Mas, o que é o homem? Uma mera coletânea de impulsos e instintos? Não! É uma alma imortal, dotada do poder de ordenar e controlar esses impulsos e instintos, colocando-os ao seu serviço e uso, ao invés de ser escravo deles. Não apenas mãos, pés e olhos, mas "tu", ou seja, o próprio "eu", uma personalidade cheia, completa. Temos nós percebido essa liberdade, no que concerne a nós mesmos?

Também precisamos considerar como esse culto da auto-expressão é adversário dos verdadeiros e mais elevados interesses do próprio "eu". Em certo sentido, já abordamos esse problema, porque, como é claro, tendo sobre o "eu" um conceito desesperadamente incompleto, inadequado e que elimina tudo quanto há de melhor e mais soerguedor no homem, necessariamente isto milita contra os mais elevados interesses de nossa natureza. Mas as palavras "fazer tropeçar", que foram usadas por nosso Senhor, exigem uma consideração mais extensa e profunda. Naquele texto bíblico, o "eu", identificado pelo uso da segunda pessoa "tu", não somente é separado e distinto das mãos, dos pés e dos olhos, mas, na realidade, pode ser levado por eles a "tropeçar". Os vários impulsos e instintos que te¬mos no íntimo, além de não constituírem o verdadeiro e único "eu", podem, na verdade, ser os maiores inimigos do "eu", sendo o motivo de seu tropeço e a causa de sua condenação. De fato, a fim de salvaguar¬dar o "eu", é dito ao homem que talvez ele tenha de decepar uma de suas mãos ou arrancar um de seus olhos, lançando-o para longe de si. Aqui está algo que o moderno ponto de vista ignora inteiramente; mas o faz porque seu conceito sobre o pecado é falso, não percebendo o perigo que ameaça o próprio "eu" internamente.

O reconhecimento do pecado é, na realidade, o ponto crucial de toda a questão. Não fora o pecado, o ensinamento da auto-expressão seria adequado. Se o homem tivesse continuado perfeito como Deus o criou, então todos os impulsos e instintos estariam operando de maneira correta, servindo aos mais altos interesses do homem. Não haveria qualquer problema, e os dias da vida de um homem seriam mais ou menos iguais. Foram o pecado e os demais atos pecaminosos que introduziram a complexidade na vida humana. A Bíblia menciona a concupiscência, por exemplo, como uma característica que, por natureza, domina a todos nós, distorcendo e pervertendo atos que em si mesmos seriam perfeitamente corretos e puros. As próprias faculdades e poderes, que tiveram por desígnio ser servos do homem, tornaram-se os seus senhores. Não fora o pecado, seria legítimo para o homem permitir que seus impulsos o guiassem. Mas, por causa do pecado, nada existe que lhe seja tão perigoso quanto isso.

Tomemos, uma vez mais, as ilustrações que foram dadas por nosso Senhor, em sua declaração. Pensemos sobre a mão e sobre o pé. Quão útil instrumento é o pé humano! Quão claro é seu propósito de beneficiar ao homem! É andando que o homem sai, praticando o bem; e, no entanto, é através dos mesmos pés que ele entra em lugares de vício e de má reputação, prejudi¬cando tanto a si mesmo como a outros. Outro tanto se poderia dizer acerca da mão humana. Meditemos em todo o bem que é efetuado com as mãos. Pensemos no aperto de mãos, no tapinha às costas, no copo de água fria que é oferecido. Todavia, essa mesma mão rapidamente se transforma em um punho fechado. Pensemos na mão que espanca a outrem. Imaginemos a mão a disparar uma arma e a cometer um assassinato. A mão, em si, é perfeita. Mas, devido ao efeito do pecado sobre o homem, pode transformar-se em instrumento de destruição do próprio homem. Por igual modo, o olho humano. Que admirável instrumento é ele! É incomparavelmente melhor quanto à delicadeza, perfeição, equilíbrio e refinamento do que qualquer instrumento que tem sido inventado pelo homem. Esse é o órgão com que apreciamos as belezas naturais, observamos o sorriso no rosto de uma criancinha e vemos o olhar de um ser amado. Contudo, é exata¬mente esse o órgão que nos conduz à concupiscência, e com freqüência é a causa de pecados graves, que quase sempre levam o homem à destruição. Nada há de iníquo no olho, como tal; mas, por causa do efeito do pecado e de sua influência pervertedora, o olho, que é o mais perfeito de todos os instrumentos, pode tornar-se a causa de condenação do homem.

Por semelhante modo, todas as outras forças, instintos e poderes que existem no homem por si mesmos são inofensivos, mas, como resultado do pecado, tornaram-se uma fonte de perigo. Portanto, quão trágico e quão insensato é ignorar o pecado! Que psicologia inteiramente falsa! No entanto, é precisamente esse princípio que está sendo defendido em nossos dias. O pecado está sendo ignorado; portanto, o conselho para darmos expressão ao próprio "eu" está eivado das mais perigosas conseqüências que podemos conceber.

Uma outra maneira pela qual podemos ilustrar a nossa contenda sobre essa perspectiva que advoga a subserviência aos impulsos, como algo prejudicial aos melhores interesses do próprio "eu", é mostrando que tal ponto de vista impõe, deliberadamente, um só padrão de julgamento; pois, conta com apenas um teste para saber se um ato é correto ou não: o teste do prazer e da satisfação.

Ora, o evangelho não visa denunciar o prazer e a satisfação; na realidade, o evangelho oferece uma alegria maior do que aquela oferecida por qualquer outra coisa. E, o evangelho não se contenta em testar as ações apenas através desse padrão único; ele deseja trazer à luz a natureza das alegrias ou dos prazeres, se ela é boa, verdadeira e bela. Preocupando-se deveras sobre os mais elevados interesses de nossa natureza, mui obviamente ele deseja evitar todos os riscos, percebendo que nunca poderemos ser cuidadosos demais nem escrupulosos em demasia, em nossos exames. É conhecido que a criança tem apenas um teste, o teste exclusivo do prazer. Mas também é conhecido que todo o pai e toda a mãe sabe que a criança gosta, com freqüência, do que lhe é mais prejudicial, podendo ser algo inteiramente falso e feio.

Os homens e as mulheres de hoje não apreciam os processos de pensamento nem o discernimento. Quais crianças, desejam fazer o que gostam e justificam as suas ações baseando-se no fato que desejam e gostam de fazê-las. Por conseguinte, aborrecem a disciplina e o ter de enfrentar as dificuldades. Fazem objeção à inconveniência de terem de enfrentar as questões da verdade, do bem, do mal e da beleza. Fazem o que querem fazer, defendendo que a auto-expressão é algo correto. Têm apenas um padrão de valores, o do prazer. Não investigam se seu procedimento é correto e seguro, se tenderá por contribuir para o desenvolvimento de todo o seu ser, especialmente daquilo que, neles, é mais elevado e melhor. Contentam-se com este único teste: "Isto traz satisfação?"

É evidente que esse método termina revertendo ao estado da infância, ou mesmo ao da selvageria! Não é tal atitude inteiramente suicida, a julgar pelo verdadeiro padrão da natureza humana? Se o leitor deseja suprimir sua consciência, assassinar sua razão e abafar todo o desejo por coisas mais elevadas e nobres, que nascem em sua pessoa, e se deseja meramente satisfazer à concupiscência e paixão pelo prazer, então apele para o culto moderno da auto-expressão. Porém, se deseja que todo o seu ser se desenvolva e encontre meios de expressar-se, então considere o teste do prazer como uma sugestão feita pelo próprio inferno e aplique o outro teste.

Não há necessidade, porém, de argumentar sobre esse ponto de vista meramente segundo o plano teórico. Apliquemos o teste prático. Leiamos a Bíblia e estudemos a história de seus personagens. Leiamos as biografias dos maiores benfeitores que o mundo já viu. Examinemo-los especialmente à luz do que temos discutido. Davi, o rei de Israel, mostrou o seu lado melhor e mais elevado, quando expressou o seu verda¬deiro "eu" e aplicou o teste isolado do prazer, na questão de Bate-Seba, tendo-se tornado, dessa maneira, adúltero e homicida? Estava Agostinho expondo a expressão mais verdadeira do seu "eu", quando ainda era um filósofo imoral? ou depois, quando se tornou o santo disciplinado que, metaforicamente, cortou as mãos e os pés e arrancou os olhos da concupiscência e dos maus desejos? Meditemos sobre todos os membros do nobre exército de santos e mártires, que viveram na abnegação, disciplinaram suas próprias vidas, conti¬veram e controlaram os seus impulsos e instintos e, de modo geral, obedeceram aos ensinamentos do evangelho! Comparemo-los e contrastemo-los com os sensuais libertinos e devassos da história. Qual desses dois grupos representa mais verdadeiramente o "eu", a verdadeira natureza humana?

Fazer tal pergunta já é por si um insulto. A maneira de expressar corretamente o próprio "eu" é o caminho da disciplina e da ordem, é o caminho da razão e da oração, é o caminho do ouvir a voz da consciência, encorajando cada pensamento e desejo que trazem enlevo. O mundo poderá considerar-nos uns tolos; e, do ponto de vista do mundo, certamente seremos coxos e mutilados, tendo apenas um olho, como criaturas bastante imperfeitas. Sim, como meros animais podemos parecer imperfeitos. No entanto, se¬remos dignos de sermos chamados "homens". Teremos um "eu" que se expressará com dignidade e que irá crescendo com o passar dos dias. "Não só de pão viverá o homem" (Lc 4.4); nem só de prazeres, por igual modo. Para viver, é mister que o ser inteiro e a natureza do homem sejam usados e exercitados. De outro modo, ele morrerá.

O argumento contra esse moderno ensino ainda não foi completamente exposto. Tal ensino ignora, descuidadamente, o destino final do próprio "eu": isto também precisa ser mencionado. Já foi esclarecido que isto é feito através de um ponto de vista meramente terreno e humano. Mas, há algo mais alto, infinita¬mente mais importante, que tal ensino também ignora. "Melhor é entrares na vida manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno". E novamente: "Melhor é entrares na vida com um só dos teus olhos do que, tendo dois, seres lançado no inferno de fogo". Essas são palavras proferidas por Jesus de Nazaré, o Filho de Deus. No plano puramente humano, temos visto que toda essa questão da auto-expressão é extremamente degradante para o verdadeiro "eu".

Mas, além e acima disso, há o ponto de vista de Deus a nosso respeito, que é de conseqüências infinita¬mente mais profundas, por estarmos em suas mãos e ser Ele o Juiz eterno. Esse é o ponto de vista divino sobre o nosso "eu", e essa questão fica abundante¬mente clara na Bíblia. De fato, ensinar isto é o propósito inteiro da Bíblia. Deus conferiu ao homem uma natu¬reza e um ser semelhantes aos dEle. Criou o homem segundo a sua própria imagem. Soprou sobre o homem o hálito da vida e o tornou uma alma vivente. Essa alma é o dom de Deus para nós. É o tesouro que Ele deixou ao nosso encargo e cuidado. Esse é o "eu" que pede e espera que expressemos.

No fim da vida e do tempo, Ele julgará o nosso desempenho. O padrão do juízo será a lei moral, conforme dada a Moisés, os ensinamentos dos profetas, o Sermão da Montanha e, acima de tudo, nosso conhecimento confiante que temos dEle e nossa aproximação à vida vivida por nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Pois a autêntica auto-expressão foi revelada em Cristo de modo perfeito, de uma vez por todas. A questão que teremos de enfrentar, por conseguinte, é esta: O que você tem feito do seu próprio "eu"? Como é que você o tem expressado? As conseqüências são eternas — vida ou morte, o céu ou o inferno.

Portanto, antes de começarmos a falar sobre a liberdade de auto-expressão, teremos de descobrir se possuímos ou não aquele verdadeiro "eu" que Deus desejou que todos os homens tivessem. Se nos faltar este verdadeiro "eu", não podemos expressá-lo e não seremos capazes de devolvê-lo a Deus, prestando contas acerca dele, no temível Dia do Juízo. A grande e urgente indagação, pois, com que cada homem se defronta, é a seguinte: Que sucedeu ao teu "eu"? tens domínio sobre a tua alma? o verdadeiro "eu" continua existente em ti? a visão e a faculdade divinas continuam presentes em ti? a tua alma continua viva? Mas, se alguém tiver vivido somente conforme os seus instintos, desejos e impulsos, o verdadeiro "eu" dessa pessoa desde há muito está morto, segundo ela poderá descobrir facil¬mente, se ao menos tentar viver a outra forma de vida e, acima de tudo, se procurar encontrar a Deus. O homem não pode reabilitar o seu verdadeiro "eu". Não pode encontrar a Deus. O homem pode perder a alma, mas não pode achá-la de volta. Pode matá-la e destruí-la, mas não pode criá-la de novo. E, se não fosse por uma única coisa, iria inevitavelmente para o fogo eterno do inferno.

Graças a Deus, entretanto, existe essa única coisa. "Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o perdido" (Lc 19.10). Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, desceu à terra, viveu, morreu e ressuscitou, a fim de salvar. Ele suportou o castigo que merecíamos, devido ao nosso pecado, por havermos estragado e maculado a imagem de Deus em nós. E mais, Ele restaura nossa alma para nós. Ele nos confere uma nova natureza e enche-nos com um poder que nos capacita expressar esse novo e verdadeiro "eu", tal como Ele mesmo o expressou. Essa nova forma de auto-expressão é manifesta pelo homem que é filho de Deus, agradável aos olhos do Pai celeste e herdeiro da vida eterna.

O mundo reduz o homem ao nível dos irracionais, ofende ao santo Juiz e conduz à morte eterna. A Bíblia, ao contrário, exorta-nos a desistir dos prazeres transitórios do pecado e a encontrar em Jesus Cristo o nosso verdadeiro "eu". É com essa finalidade que pleiteia, junto a nós, que neguemos a nós mesmos, decepemos mão ou pé, arranquemos o olho, e façamos qualquer coisa que porventura seja necessária, a fim de que sejam servidos os melhores e mais elevados interesses desse verdadeiro "eu"; porquanto assevera que "melhor é entrares na vida manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno".

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A tolice de tentar agradar a homens

Richard Baxter

[Richard Baxter, um dos grandes pastores e teólogos puritanos, mostra, ao estilo puritano, o quanto é tolo tentar agradar a homens enquanto se está tentando viver a vida para Deus. O orgulho que faz com que nos preocupemos tanto com o que os outros pensam de nós e o que sentem por nós, nos prega ciladas e armadilhas que, por fim, podem destruir nossas almas. Quando tenta agradar a homens, o crente compromete seu testemunho e torna-se virtualmente inútil na obra de Deus.

Baxter nos dá 22 razões e advertências para que não sejamos tolos e para que procuremos sempre agradar a Deus e não a homens. As primeiras 8 aparecem nessa primeira parte.]

"Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo." - Gálatas 1:10

1. Lembrem-se de que multidão vocês têm para agradar; e quando vocês agradarem a alguns, quantos mais permanecerão insatisfeitos, e quantos ainda permanecerão insatisfeitos depois que vocês derem o seu melhor. Infelizmente somos completamente inaptos para observar a todos que nos observam e que se agradariam de nós. Vocês são como alguém que só tem 12 moedas no bolso e mil mendigos vêm rodeá-los em busca delas, e cada um deles ficará insatisfeito se não puder ter todas elas. Se vocês decidirem dar tudo que tem para os pobres, e fizerem isso para agradar a Deus, vocês poderão atingir seu objetivo. Mas se vocês derem tudo para agradar a eles, quando tiverem agradado aqueles poucos que receberem alguma coisa, talvez o dobro deles irá insultá-los e amaldiçoá-los porque não ganharam nada. O mendigo que for mais rápido irá declarar que vocês são generosos, e o que for mais lento proclamará que vocês são mesquinhos e impiedosos. Dessa forma vocês terão mais gente para ofendê-los e desonrá-los do que para confortar-lhes com seus elogios, se é que era esse o conforto que vocês buscavam.

2. Lembrem-se que todos os homens são tão egocêntricos, que as suas expectativas serão sempre mais altas do que vocês jamais serão capazes de satisfazer. Eles não considerarão suas dificuldades, afazeres, ou o que quer que vocês façam pelos outros. A maior parte deles procurará ter tanto para si como se vocês não tivessem ninguém mais para pensar a não ser neles. Muitas e muitas vezes, quando tive uma hora do dia para gastar, uma multidão (cada um deles) esperava que eu passasse aquela hora consigo. Quando eu visito um, freqüentemente há dez que se ofendem porque não estou visitando-os na mesma hora. Quando estou falando com um, muitos outros se ofendem porque não estou falando com eles ao mesmo tempo. Se aqueles com quem converso me consideram cortês, humilde, e respeitável, aqueles com quem não consegui conversar, ou só pude dirigir uma palavra, me considerarão descortês e antipático. Quantos já me censuraram porque não lhes dei o tempo que Deus e a minha consciência me mandaram gastar em algum trabalho maior e mais necessário! Se vocês têm algum cargo ou função para preencher, ou um privilégio para conceder, que só uma pessoa pode receber, todos se consideram os mais indicados para recebê-lo. E se você agradou aquele que recebeu, deixou insatisfeitos todos os outros que nada receberam e foram privados dos seus desejos.

"Quando eu visito um, freqüentemente há dez que se ofendem porque não estou visitando-os na mesma hora."

3. Vocês têm um grande número de pessoas para agradar que são tão ignorantes, irracionais e débeis, que consideram suas maiores virtudes como defeitos e que não sabem distinguir quando vocês fazem alguma coisa boa ou ruim. E não há ninguém que censure tão severamente como aqueles que menos entendem as coisas que estão censurando. Muitas e muitas vezes meus sermões e os de outros foram criticados, e abertamente difamados, por aquilo que nunca esteve neles, devido a ignorância ou falta de atenção de algum ouvinte mais crítico. Até mesmo por aquilo que os sermões falavam contra acabavam sendo repreendidos porque nunca foram compreendidos. Especialmente aqueles sermões com um estilo fechado, livre de tautologia, em que cada palavra precisa ser muito bem definida para evitar confusão, serão freqüentemente distorcidos e atacados.

4. Vocês terão muitos zelotes facciosos para agradar que, sendo estranhos ao amor à santidade, à cristandade e à unidade, são governados pelo interesse por alguma opinião ou grupo. E esses nunca estarão satisfeitos com vocês a não ser que vocês venham para lado ou partido deles, e se adaptem às suas opinões. Se vocês não forem abertamente contra eles, mas procurarem reconciliar a todos e pôr um fim nas diferenças da igreja, eles os odiarão por não promover as opiniões deles e ainda enfraquecê-los através de abomináveis sincretismos. Assim como na guerra civil, também na guerra eclesiástica os atiçadores não conseguem suportar os pacíficos. Se vocês forem neutros, serão considerados inimigos. Ainda que vocês dêem o máximo por Cristo, pela santidade e pela fé comum, tudo isso será nada, a não ser que vocês sejam também por eles e seus conceitos.

5. A maior parte do mundo é formada por pessoas que odeiam a santidade e tem uma sagaz inimizade contra a imagem de Deus, não tendo sido renovadas pelo Espírito Santo. Esses não se agradarão de vocês a não ser que vocês pequem contra o Senhor, e ajam como eles agem. 1 Pedro 4:3-5, "Porque basta o tempo decorrido para terdes executado a vontade dos gentios, tendo andado em dissoluções, concupiscências, borracheiras, orgias, bebedices e em detestáveis idolatrias. Por isso, difamando-vos, estranham que não concorrais com eles ao mesmo excesso de devassidão, os quais hão de prestar contas àquele que é competente para julgar vivos e mortos." Se vocês lhes falarem sobre o seu pecado, vocês serão considerados como Ló entre os sodomitas, homens ocupados que chegam entre eles fazendo as vezes de juiz, para controlá-los. Se vocês não forem tão maus quanto eles são , vocês serão chamados de arrogantes, metidos e hipócritas (ou talvez algo pior). O mesmo ocorrerá se vocês, por sua abstinência (mesmo que não digam nada), parecerem repreender a sensualidade e o desrespeito a Deus que eles demonstram. Entre os insanos vocês precisam bancar os insanos se quiserem escapar das suas presas injuriosas. Será que vocês podem ter alguma esperança de agradar a homens assim?

"Pecadores inveterados negam-se a ir para o inferno sozinhos. É um tormento para eles verem outros em melhor estado que o seu."

6. Entre aqueles que precisarão agradar, vocês se depararão com inimigos satânicos de Deus, e homens de consciência cauterizada e perversa, os quais são maliciosos e cruéis, e não ficarão satisfeitos com nada a não ser com alguma iniqüidade terrível, e com a destruição de das almas de vocês, e com a possibilidade de levar outros à perdição. São como aquele monstro de Milão, que quando punha de joelhos seu inimigo, o fazia blasfemar contra Deus na expectativa de salvar sua vida, e então o apunhalava considerando aquela uma justa vingança, pois matava o corpo e condenava a alma de uma só vez. Há no mundo aqueles que farão tão abertamente o trabalho do diabo, que corromperiam as consciências de vocês com os mais horríveis perjúrios, perfídias e impiedades, a fim de triunfar sobre suas miseráveis almas. Se vocês responderem a eles que não podem agradá-los, a não ser sendo desonestos e desagradando a Deus e pecando contra o conhecimento e a consciência, e pondo em risco a sua própria salvação, eles retrucarão apenas com um gracejo zombeteiro diante desses argumentos e esperarão que vocês aventurem suas almas em seguir suas opiniões, e se preocupem tão pouco com Deus e suas almas quanto eles mesmos fazem. Pecadores inveterados negam-se a ir para o inferno sozinhos. É um tormento para eles verem outros em melhor estado que o seu. Aqueles que são cruéis e impiedosos consigo mesmos, e não têm pena de suas próprias almas, mas as vendem por uma prostituta, ou por uma promoção, ou por honra, ou por prazeres sensuais, dificilmente terão misericórdia da alma alheia: Mateus 27:25, "E o povo todo respondeu: Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos!"

7. Vocês terão homens duros, implicantes, não caridosos e injustos para agradar; os quais farão com que "por causa de uma palavra condenam um homem, os que põem armadilhas ao que repreende na porta, e os que sem motivo negam ao justo o seu direito." Isaías 29:20,21. Esses não têm nenhum traço daquela caridade que cobre faltas e interpreta palavras e ações favoravelmente. Também não têm nada daquela justiça que faz com que um homem faça aos outros como quer que lhe façam, e julgue ao próximo como gostaria de ser julgado. Entretanto, como julgam sem misericórdia, provavelmente serão julgados sem misericórdia. Eles ficam felizes quando encontram algum assunto em que possam repreendê-los e quando encontram um (verdadeiro ou falso) eles jamais o esquecerão, mas insistirão nele como a mosca insiste em voltar ao local infectado.

8. Vocês terão que agradar pessoas passionais, cujos julgamentos são cegados, e que não são capazes de serem satisfeitas. São como o doente e ferido que sente dor a qualquer toque e que, por fim, como disse Sêneca, sente dor com a própria presunção de que foi tocado. Como podem agradar a esses se a insatisfação é a sua enfermidade, que habita no interior deles, no âmago do seu próprio coração?

9. Vocês verão que a disposição de condenar e criticar é um hábito comum, e apesar de poucos serem competentes para julgar as ações de vocês, por não estarem suficientemente a par da sua rotina diária, praticamente todos se aventurarão a reprová-los. Um entendimento orgulhoso e presunçoso é um defeito muito comum. Esse tipo de conhecimento se considera capaz de julgar qualquer coisa assim que ouve apenas uma pequena porção do tema, e não tem consciência de sua própria falibilidade, apesar de experimentá-la diariamente. Poucos estão perto de vocês e nenhum no seu coração, de forma que todos desconhecem as circunstâncias e as razões de tudo que vocês fazem. Também não ouvem o que vocês têm a dizer por si mesmos e mesmo assim insistem em censurá-los, sendo que talvez os tivessem absolvido se ao menos ouvissem as suas explicações. É raro encontrar alguém, mesmo entre aqueles que professam a maior sinceridade e que são muito cuidadosos e zelosos de não pecar, que não tenha a capacidade ou o chamado para executar esse tipo de julgamento precipitado e desprovido de fundamento.

10. Vocês vivem entre tagarelas incontroláveis e contadores de histórias que divertem outros lançando acusações contra vocês. Quem é que tem ouvidos e nunca teve algum desses vermes tentando ocupar-se deles? Talvez um ou outro homem mais correto, cuja face zangada espantou essas línguas fofoqueiras pra longe de si. E tudo que é coisa será dita nas costas de vocês quando não tiverem como responder. E se houver um homem a quem os ouvintes estimam, e que acuse e calunie vocês, então eles acharão correto acreditar nele. E a maioria daqueles que são amigos desse homem, ou do seu partido, ou têm interesses semelhantes, certamente o considerarão honesto e portanto crerão nele. E não é incomum uma pessoa sábia, inteligente e piedosa se precipitar em repetir algum relato da boca de outros e aí o ouvinte pensa que está totalmente justificado em acreditar nela e repassar a mesma história a outros. O próprio Davi, pela tentação de Ziba, foi levado a injustiçar Mefibosete, o filho do seu grande e digno amigo. 2 Sm. 16:3. Não surpreende então, que Saul tenha dado ouvidos a Doegue, para amaldiçoar Davi e matar os sacerdotes. Pv. 18:8 "As palavras do maldizente são doces bocados que descem para o mais interior do ventre." Pv. 26:20 20 "Sem lenha, o fogo se apaga; e, não havendo maldizente, cessa a contenda." E enquanto esses estiverem ainda perto dos homens e vocês longe, é fácil para eles persistirem nas mais odiosas representações das mais louváveis ações de uma pessoa.

"Experimentem servir aos homens da forma mais submissa e cuidadosa que puderem e, ao final, algum acidente ou a frustração de alguma das injustas expectativas nutridas por eles fará com que tudo o que vocês já fizeram seja esquecido."

11. A imperfeição do entendimento e da piedade dos homens é tão grande, que mesmo as mais sensatas diferenças de julgamento, levarão à injúria e ao desprezo aos irmãos. Alguém está plenamente confiante de que sua visão é a correta, outrem está plenamente convencido do contrário. Quem não percebe a que contendas e insultos essas diferenças conduzem, já tendo um certo tempo de vida, não perceberá jamais. Não precisamos ir a Paulo e Barnabé para um exemplo (esse foi um caso bem mais leve); nem a Epifânio, Jerônimo e Crisóstomo; nem àquelas eras trágicas daqueles bispos conflituosos, que viveram antes de nós na igreja oriental e ocidental: cada um pensando que sua causa era tão clara que o justificava em tudo que dizia e fazia contra os que ousavam pensar de forma diferente. E certamente vocês devem esperar certo desconforto por parte de homens bons e cultos, quando a igreja sente tão terríveis choques, sangrando até hoje em divisões tão horrendas, por causa dos restos daquele orgulho e ignorância de que seus reverendos guias continuam sendo culpados.

12. Vocês terão homens de grande inconstância para agradar. Em um momento eles estarão prontos a louvá-los como se fossem deuses e no instante seguinte prontos para apedrejá-los como se fossem demônios; como fizeram com Paulo e com o próprio Cristo. Que inconstante é a mente do homem! Especialmente a mente dos comuns e mundanos! Passem todos os dias da sua vida construindo sua reputação sobre essa areia e um único sopro de vento ou de tempestade a derrubará e todo o seu esforço e trabalho estará perdido. Experimentem servir aos homens da forma mais submissa e cuidadosa que puderem e, ao final, algum acidente ou a frustração de alguma das injustas expectativas nutridas por eles fará com que tudo o que vocês já fizeram seja esquecido. Então vocês deixarão este mundo com o lamento de Wolsey: "Se eu tivesse servido a Deus com a fidelidade que servi ao homem, teria sido melhor recompensado, em vez de ser abandonado na minha agonia." Quantos já caíram pelas mãos ou olhares carrancudos daqueles cujo favor haviam encarecidamente adquirido, talvez pagando o preço da sua própria salvação! Se algum dia vocês puserem tanta confiança em um amigo, sem considerar a possibilidade dele vir a se tornar algum dia um inimigo, então vocês não conhece os homens; e talvez sejam levado a conhecê-los melhor, pagando um alto preço.

13. Todo homem será envolvido, inevitavelmente, pelo próprio Deus, em alguns deveres que correm o risco de ser mal interpretados e que têm uma aparência externa de coisas más. Com isso ofenderão aqueles que não conhecem todas as circunstâncias internas. Assim, boa parte da história é pouco digna de respeito; porque as ações de pessoas públicas são julgadas com parcialidade por aqueles que escrevem sobre elas. Eles escrevem mais por ouvir dizer; ou só conhecem o exterior e as aparências das coisas, e não o espírito, a vida e a realidade do caso. Os homens não escolhem seus deveres. Deus os determina pela Sua Lei e providência. E muitas vezes Ele se agrada em provar seus servos dessa forma: muitas das circunstâncias de seus atos permanecem ocultos aos homens. Estes os justificariam se o soubessem, mas acabam considerando-os pessoas publicamente escandalosas, porque não as conhecem. Quão parecido com o mal foi o fato de os israelitas tomarem os bens dos egípcios! Assim também a tentativa de Abraão de sacrificar seu filho; também Davi comendo os pães da proposição e dançando quase nu diante da arca. Cristo comendo e bebendo com publicanos e pecadores, Paulo circuncidando Timóteo e a sua purificação no templo. Não é surpresa que José tenha pensado em abandonar Maria até que ele tivesse evidência da sua milagrosa concepção. E quão merecedora de reprovação ela era, por parte daqueles que não conheciam os fatos! Portanto, quão vazio é o julgamento do homem! E quão contrário ele é freqüentemente à verdade! E com que cautela a história precisa ser lida! E quão aguardado é o grande dia do Senhor, quando toda censura humana será censurada com justiça!

"Se eu aceito uma promoção sou ambicioso, orgulhoso e mundano. Se recuso, por mais humildemente que o faça, eles dirão que estou descontente e querendo criar confusão e discórdia. Se eu não pregar quando sou proibido de fazê-lo serei acusado de abandonar o chamado que recebi e obedecendo a homens, contrariando a Deus. Se eu pregar serei chamado de desobediente e rebelde."

14. A perversidade de muitos é tal que eles exigem de vocês coisas contraditórias e até impossíveis só para deixar claro que eles estão decididos a nunca gostar de vocês. Se João jejua eles dizem que "tem demônio", se Cristo vem "comendo e bebendo", dizem, "vejam um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores" Mateus 11:18,19. Se o julgamento e a prática de vocês adaptarem-se aos requisitos de seus superiores, especialmente quando estes mudam alguma coisa, vocês serão considerados meros aduladores e contemporizadores. Se não for assim, serão considerados desobedientes, rebeldes e sectários. Se vocês falarem moderada e gentilmente eles os chamarão de bajuladores e dissimulados. Se falar mais livremente, mesmo quando necessário, dirão que é grosseiro. Se eu aceito uma promoção sou ambicioso, orgulhoso e mundano. Se recuso, por mais humildemente que o faça, eles dirão que estou descontente e querendo criar confusão e discórdia. Se eu não pregar quando sou proibido de fazê-lo serei acusado de abandonar o chamado que recebi e obedecendo a homens, contrariando a Deus. Se eu pregar serei chamado de desobediente e rebelde. Se ajudar um amigo ou parente a conseguir uma posição para a qual ele não é adequado ou que irá prejudicar a outrem; se eu atendo-lhe o pedido, serei chamado de desonesto, que por parcialidade prejudiquei a outros. Se negar-lhe o desejo, serei considerado antinatural e não amigo, e pior que um infiel. Se eu der ao pobre enquanto tenho o que dar, serei reprovado ao parar de dar quando não tiver mais. Aqueles que não sabem se vocês têm ou não para dar, ficarão descontentes se vocês não derem e se por muitos anos vocês permanecerem dando livremente, será tudo considerado nada se tiverem que cessar, não importando se pararam porque seu estoque acabou ou porque outro teve que ser objeto da sua caridade. Se vocês sofrerem algum dano em relação aos seus bens e forem à justiça, dirão que são contenciosos; se vocês deixarem tudo como está e sofrerem o dano então dirão que vocês são tolos e idiotas. Se fizerem alguma obra de caridade à vista dos homens, dirão que são hipócritas e o fazem para receber aplausos; se fizerem secretamente, de forma que ninguém saiba, dirão que são cobiçosos e não têm boas obras e que apesar de professar a religião vocês não fazem o bem. Se vocês forem alegres e divertidos eles os reprovarão porque são levianos e fúteis. Já se forem mais sérios e tristes, serão chamados de melancólicos e descontentes. Em uma palavra, façam o que fizerem, tenham a certeza de que sempre alguns os condenarão. E fazendo ou não fazendo, falando ou calando, certamente vocês desagradarão e nunca escaparão das censuras do mundo.

15. Há entre os homens uma contrariedade tão grande de julgamentos, disposições e interesses que eles nunca concordarão entre si. E se vocês agradarem a um, o resto ficará descontente. Aquele que vocês agradarem é considerado inimigo para outro e, assim, vocês desagradam seu inimigo agradando a eles. Às vezes, diferenças de estado dividem reinos em partidos e um partido ficará descontente com vocês se vocês forem do outro, e ambos ficarão se vocês forem neutros ou não gostarem de nenhum dos dois. Cada partido acha que sua causa justifica qualquer acusação que façam contra vocês ou títulos odiosos que queiram lhes conceder e até mesmo sofrimentos que possam querer lhes infligir. Diferenças e grupos sempre existiram na igreja e vocês não podem ter a opinião de todos os partidos. Quando há tal abundância de conceitos, vocês não podem concordar com todas elas ao mesmo tempo. E se vocês forem de um partido, desagradarão os demais. Se aderirem a um lado em opiniões controversas, o outro lado os considerará hereges e é impressionante até que ponto os interesses deles podem levá-los. Metade do mundo cristão, nos dias de hoje, condena o outro lado de ser cismático, para dizer o mínimo; e a outra metade faz o mesmo com a primeira. E será que vocês podem ser papistas, protestantes e gregos, e tudo mais? Se não, vocês terão que desagradar tantos quantos agradam. E ainda mais, se homens inconstantes ficam mudando o tempo todo, eles esperam que vocês mudem tão rápido quanto eles, e qualquer que sejam seus interesses conflitantes vocês terão que segui-los. Em um ano vocês precisarão jurar e no ano seguinte terão que desfazer o juramento. Qualquer causa ou ação que eles abraçarem, por mais diabólica que seja, vocês terão que aprovar ou permitir, e tudo que eles fizerem vocês terão que dizer que é bem feito. Em uma palavra, vocês terão que treinar sua língua a dizer ou jurar qualquer coisa, e terão que vender sua inocência e colocar sua consciência totalmente a serviço deles, ou não poderão agradá-los. Micaías precisa dizer, com os outros profetas, "Vá e prospere", senão será odiado por não profetizar coisas boas para Acabe, mas somente coisas más. 1 Rs 22:8. E como poderão servir a todos os interesses de uma só vez? Parece que a providência divina embaralhou, de propósito, os assuntos do mundo, para tentar e envergonhar todos os que procuram agradar a homens e os contemporizadores que estão debaixo do sol. É evidente então, que para agradar a todos você precisa falar e ficar calado, ratificar contradições, estar em muitos lugares ao mesmo tempo, ter a mente e seguir o caminho de muitos homens. De minha parte, pretendo ver o mundo tendo um pouco mais de acordo entre si, antes de ter como minha ambição agradá-lo. Se vocês podem reconciliar todas as suas opiniões e interesses, o estado de coisas, as disposições, e fazer com que todos tenham uma só mente e vontade, só então passem a ter esperança de agradá-los.

16. Se vocês se sobressaírem em alguma qualidade pessoal ou atividade, mesmo isso não os isentará da difamação na direção oposta; tal é a irracionalidade dos homens maliciosos. Nada neste mundo pode proteger vocês das línguas fofoqueiras e difamadoras. A perfeita santidade de Jesus Cristo não o livrou de ser chamado de glutão, bebedor de vinho e amigo de publicanos e pecadores. O esplêndido desprezo que ele tinha pelas honras e pompas mundanas, e a sua sujeição a César, não evitaram que ele fosse ultrajado e crucificado como inimigo do imperador. A grande piedade dos antigos cristãos não os livrou de calúnias vulgares que diziam que eles se reuniam no escuro para cometer torpeza, e também não os livrou do clamor da turba: "Fora com os impíos", provocada porque os cristãos eram contra a adoração dos ídolos que eles idolatravam. Conheço pessoas que deram tudo o que tinham para os pobres, exceto a própria comida e mais algumas coisas indispensáveis, e ainda assim (apesar das coisas serem de valor considerável) foram reprovadas como tendo sido inclementes em relação àqueles que não receberam tanto quanto esperavam. Muitos, cujas vidas inteiras foram de castidade incorruptível, foram difamados por rumores escandalosos de impureza. Os mais eminentes santos foram difamados como culpados dos mais horrendos crimes, que nunca sequer passaram pelo pensamento deles. A coisa que eu mais busquei nos meus estudos e com que mais me preocupei sempre foi a reconciliação, unidade e paz entre os cristãos. Sempre escrevi contra a falta de amor, a turbulência e a divisão. Mas, surpreendentemente, há muitos cujo interesse e malícia os fez acusarem-me exatamente daquele pecado que gastei meus dias, meu zelo e meus estudos para atacar. Com que freqüência facções contrárias me acusaram com acusações perfeitamente opostas! Não consigo pensar em nada que eu faça neste mundo que deixe de ofender alguém; nem em deveres tão grandes e claros que não sejam chamados de pecado; nem numa auto-renúncia tão grande (mesmo com o risco da própria vida) que não seja chamada de egocentrismo; ou algo totalmente puro que não seja considerado exatamente o contrário. Portanto, em vez de servir a este injusto e malicioso mundo, eu desprezo as suas cegas e injustas censuras e recorro ao infinitamente justo Deus.

17. Se vocês planejam manter um nome honrado quando morrerem, considerem bem o poder que uma facção prevalecente pode ter de corromper a história da sua vida e representá-los para a posteridade de forma perfeitamente contrária àquilo que vocês são. E é difícil para a posteridade avaliar qual história é produto de mentiras maliciosas e vergonhosas, e qual é a verdade imparcial. Quantas histórias contraditórias há por aí sobre pessoas e ações particulares, escritas por homens da mesma religião: como é o caso do Papa Gregório VII e os imperadores que brigaram com ele; e sobre o Papa João, e muitos outros parecidos. Casos em que vocês podem ler grande quantidade de historiadores posicionando-se de um lado ou de outro.

18. Lembrem-se de que os maiores santos e apóstolos nunca puderam agradar o mundo, nem escapar das suas censuras, calúnias e crueldades. Não; nem mesmo o próprio Jesus escapou. E vocês acreditam honestamente que podem agradá-lo melhor que Cristo e seus santos puderam? Vocês não têm a sabedoria que Cristo tinha para agradar aos homens e evitar ofensas. Vocês não possuem a perfeita inocência e ausência de culpa que Cristo tinha. Vocês não podem curar as doenças e enfermidades deles, e fazer a eles aquele bem que poderia agradá-los e ganhá-los, como Cristo fez. Vocês não podem convencer e constranger a eles para que os reverenciem por seus muitos milagres como Cristo fez. E será que vocês podem imitar um padrão tão elevado como o estabelecido pelo santo, paciente, amoroso e infatigável apóstolo Paulo? Atos 20; 1 Cor 4; 9; 2 Cor 4; 5; 6; 10; 11; 12. Se não podem, como poderão agradar àqueles que não se satisfizeram com tais inimitáveis obras de amor e poder? Quanto mais Paulo amava alguns de seus ouvintes, menos ele era amado (2 Cor 12:15). Eles o consideraram um inimigo por lhes dizer a verdade (Gl 4:16). Apesar de ele ter se tornado todas as coisas para todos os homens, ele apenas pôde salvar alguns e agradar alguns (1 Cor 9:22). E o que são vocês para que sejam mais bem sucedidos que ele?

"Será que os homens serão satisfeitos por meio de coisas que eles odeiam?"

19. Piedade, virtude, e até mesmo honestidade, não agradam ao mundo e, portanto, vocês não devem ter esperanças de agradá-los com coisas que os desagradam. Será que os homens serão satisfeitos por meio de coisas que eles odeiam? E por meio daquelas ações que eles podem sentir que são as mesmas que os acusam e condenam? E se vocês forem ímpios e depravados para agradá-los, vocês estarão vendendo suas almas, suas consciências e seu Deus, só para satisfazê-los. Lembre-se que Deus e eles não se agradam dos mesmo caminhos. E qual dos dois vocês acham que deve ser satisfeito primeiro? Se vocês o desagradarem em favor deles, é certo que pagarão um alto preço.

20. Os homens não se agradam nem mesmo de Deus; aliás, ninguém desagrada a tantos, e tanto, como Ele. E será que vocês podem fazer mais do que Deus para agradá-los? Ou será que vocês merecem o favor deles mais do que Ele? Eles se desagradam dEle diariamente por causa da sua providência: um quer chuva enquanto o outro não quer. Um quer ventos para ajudar na sua viagem e o outro os quer soprando em outra direção. Um grupo fica desgostoso, porque outro está feliz e exaltado. Cada um dos adversários quer que a sua causa seja bem-sucedida e que a vitória seja sua, cada rival quer que tudo penda para o seu lado. Eles querem que Deus seja dirigido por eles e se adapte a eles e a seus interesses mais injustos, e à vontade dos mais depravados, e aja como se eles fossem donos dEle, e seja um servo dos seus prazeres. Se não for assim, eles não se agradarão dEle. E a Sua natureza santa, Sua imaculada Palavra, Seus santos caminhos, desagradam-nos mais ainda do que a sua providência do dia-a-dia. Eles ficam incomodados por Sua Palavra ser tão rígida e precisa, e porque Ele lhes ordena uma vida tão santa e disciplinada, e também porque Ele ameaça todos os ímpios com condenação. Deus precisa alterar suas leis, torná-las mais flexíveis, adaptá-las aos interesses carnais e às cobiças deles, dizer o que eles querem ouvir, antes que eles possam aceitar (a não ser que Ele transforme suas mentes e corações). E será que vocês imaginam que eles ficarão satisfeitos com Deus no final, quando Ele cumprir suas ameaças? Quando Ele os matar e tornar seus corpos em pó e suas almas culpadas forem lançadas no tormento e no desespero?

"Os homens não se agradam nem mesmo de Deus; aliás, ninguém desagrada a tantos, e tanto, como Ele."

21. Como vocês poderão agradar a homens que não se agradam a si mesmos? Seu próprio desejo e escolhas os satisfarão por muito pouco tempo. Como crianças, eles logo se entediam com aquilo pelo que clamavam. Eles precisam desesperadamente tê-lo, e quando têm, aquilo passa a ser como nada e é jogado fora. Não se satisfazem tendo e deixando de ter. São como pessoas enfermas que anseiam por todo tipo de comida e bebida, e quando finalmente podem tê-los não conseguem engoli-los, porque a enfermidade ainda está dentro deles e lhes causa desconforto. Quantos e quantos enfrentam problemas e atormentam-se por causa de paixões e bobagens dia após dia! E será que vocês conseguirão agradar a esses auto-destruidores?

22. Como poderão agradar a todos os outros homens se não podem agradar nem a si mesmos? Se vocês são pessoas tementes a Deus e sentem o fardo dos seus pecados, e têm vida suficiente para serem sensíveis às suas mazelas, eu ouso dizer que não há ninguém no mundo tão desgostoso de vocês quanto vocês mesmos. Vocês carregam consigo, e sentem no íntimo, aquilo que os desagrada mais do que todos os inimigos que possam ter no mundo. Suas paixões e corrupções, sua falta de amor a Deus, e a sua distância em relação a Ele e ao porvir; a imperfeição diária de seus deveres e sua vida, são o seu fardo diário, e os desagradam mais que tudo. E se vocês não são capazes, sábios e bons o suficiente para agradarem-se a si mesmos, poderão ser capazes, sábios e bons o suficiente para agradar o mundo? Assim como seus pecados estão mais próximos de vocês mesmos, assim ocorre com as suas graças; e assim como vocês conhecem mais maldade sobre si mesmos do que os outros, assim vocês conhecem mais bondade. Um pequeno fogo não aquecerá a casa se não consegue aquecer a lareira em que repousa.



Fonte: Extraído do site Fire and Ice - idéia proveniente do blog do Steve Camp