quarta-feira, 25 de março de 2009

Soli Deo Gloria


Um Resumo Biográfico de João Calvino

Por Silas Roberto Nogueira


Em 10 de julho de 1509 nascia Jean Cauvin (João Calvino), segundo filho de Gerard Cauvin e Jeanne Lefranc. Seu pai era um oficial a serviço do bispo de Noyon. De sua mãe pouco sabemos, a não ser que era piedosa, de invejável beleza e que veio a falecer em 1515.



Gerard almejava para o filho a carreira eclesiástica e usou de sua influência para que o filho, com apenas doze anos, recebesse algum benefício eclesiástico que lhe serviria como uma bolsa de estudos. O jovem João recebeu, em maio de 1521, a Ordem de Tonsura, o que lhe permitiria realizar alguns atos religiosos, mas não todos, visto que não fora devidamente ordenado.

No entanto, os modos refinados de João foram obtidos com a nobre família a quem seu pai assessorava. Frequentou a mesma escola dos filhos da nobreza, o Colégio dos Capetos recebendo treinamento de qualidade.



Em 1523, não tinha ainda 14 anos completos quando o pai o enviou à Paris para receber treinamento eclesiástico. Primeiro estudou no Collège de la Marche onde o grande latinista Mathurin Cordier lecionava.



No ano seguinte, 1524, transferiu-se para o Collège de Montaigu, onde estudou gramática, filosofia e teologia. O Collège de Montaigu era famoso e por ele passaram importantes personagens como Rabelais, Erasmo de Roterdam e o espanhol Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Ali, os estudantes se comunicavam em latim e não em francês. Era um colégio procurado por famílias burguesas que buscavam projeção social tanto para si como para seus filhos. Mas o local era notável também pela sujeira (piolhos), mau cheiro, disciplina rígida e métodos educacionais ultrapassados. Calvino recebeu seu grau de Mestre em Artes no começo de 1528.



Seu pai envolveu-se em uma disputa com o bispo de Noyon, em 1527, o que fez com que resolvesse redirecionar a carreira do filho, da teologia para o direito. Caminho inverso havia feito Martinho Lutero. Sempre obediente João ingressou na Universidade de Orleans (1528/1529), onde lecionava o “príncipe dos juristas” Pierre de L’Estoile (1480-1537). Ao que parece, Calvino deixou Orleans antes de concluir o curso, mesmo assim a academia lhe conferiu o grau de Doutor em Direito.



Em 1529 ele transferiu-se para a Universidade de Bourges, a fim de ouvir o jurista italiano André Alciati (1493-1550). Seu interesse no humanismo evidenciou-se e começou a estudar grego com Melchior Wolmar (1496-1561), que era adepto da causa reformada. Em Bourges conheceria Teodoro de Beza, aquele bom amigo que o sucederia no futuro.



Em 25 de maio de 1531 Gerard falece e João se sente livre para seguir aquilo que naquele tempo o atraia, a literatura clássica. Abandonando o direito, segue para Paris e ingressa no Collège de France, fundado pelo rei, onde continuaria seus estudos literários.

Calvino retornou a Orleans em fevereiro de 1532 para concluir seu curso de Direito. Em abril do mesmo ano publica seu primeiro livro “Comentário ao Tratado de Sêneca sobre a Clemência”. Comercialmente o livro foi um fiasco, teve apenas uma edição que o próprio autor teve de bancar com todos os custos, mas era uma obra prima da erudição. Até essa data Calvino não havia dado sinais de interesse pelas questões religiosas, era uma humanista profundamente culto.

Em meados de 1533 ou início de 1534 Calvino passou por uma “súbita conversão”, quando estava em Orleans ou Paris. Pouco se sabe sobre isso, a não ser aquilo que ele mesmo fala no prefácio ao Comentário de Salmos:

Fui retirado do estudo de filosofia e me foi imposto o estudo de Direito. Nessa atividade eu me esforcei fielmente para aplicar-me, em obediência á vontade de meu pai; mas Deus pela orientação secreta da Sua providência, afinal deu direção diferente ao meu curso. E primeiro, desde que eu estava por demais preso às superstições do papado para ser facilmente desenredado de um tão profundo abismo de lama, Deus, por meio de uma conversão súbita, subjugou minha mente e produziu nela uma estrutura passível de deixar-se ensinar, a qual foi mais enrijecida nessas questões do que se esperaria de alguém como eu, no período inicial da vida.



Embora em momento algum mencione o elemento humano usado por Deus para isso, atribui-se a Pierre Robert [Olivetan], seu primo, papel significativo em sua conversão.



Outro fato intimamente ligado a isso foi o discurso feito por Nicholas Cop, quando assumiu a reitoria da Universidade de Paris, em 1 de novembro do mesmo ano. O discurso de Cop defendia a reforma da igreja numa linguagem tomada por empréstimo de Lutero e Erasmo. Isso provocou rápida reação das autoridades contra Cop e outros que eles entediam estarem infectados pela heresia luterana. Pensa-se que quem redigiu o discurso de Cop tenha sido Calvino, o que já implicaria em uma adesão as idéias de Reforma. Assim, tanto Cop quanto Calvino tiveram que fugir de Paris.



Calvino foi abrigar se na casa de um amigo em Angoulême, Luis du Tillet. Nesse período sente necessidade de romper com a igreja romana e seguir a causa da Reforma. Decide, então, ir a Noyon em maio de 1534 e renunciar aos benefícios que lhe tinham sido outorgados. Ao chegar a Noyon, no entanto, foi preso por um breve tempo. Isso fê-lo ciente de que a França não era lugar seguro, liberto decide ir para a Basiléia. Nesse mesmo ano publica uma obra pouco conhecida Psychopannychia onde combate a heresia do sono da alma que alguns anabatistas estavam defendendo.



Em Basiléia dedica-se a terminar a obra que havia começado em Angoulême, as “Institutas da Religião Cristã”, em janeiro de 1535. Em março é publicada a 1° edição de “Institutas da Religião Cristã”. Essa obra passaria por diversas revisões até chegar, em 1559, ao seu formato atual. Essa obra foi prefaciada com uma carta ao Rei da França, Francisco I, defendendo as crenças dos protestantes franceses perseguidos. Sua publicação conferiu a Calvino a liderança entre os reformados. Até então nenhum protestante falara com tanta clareza, controle e vigor.

Calvino fez uma breve viagem à Itália, certamente para expor a fé evangélica em 1536. Dali seguiu para a França, que naqueles dias havia concedido uma anistia temporária aos exilados franceses, onde tratou de assuntos particulares.



Acompanhado de seus irmãos Antoine e Marie, em junho, partiu para Estrasburgo, Alemanha, onde ele esperava achar um lugar de descanso e estudos. Como a estrada estava bloqueada pelas ações militares dos exércitos de Francisco I e de Carlos V, sua caravana foi desviada na direção de Genebra, onde tencionava passar apenas uma noite.



Pouco antes da chegada de Calvino, Guilhaume Farel (1489-1565) e Pierre Viret haviam levado Genebra a abraçar á causa da reforma. Quando Farel foi informado que Calvino estava em Genebra imediatamente o localizou e envidou todos os esforços para que ficasse para auxiliá-lo. Vendo que era difícil convencê-lo, lançou mão de ameaçá-lo dizendo que se não aceitasse ficar em Genebra Deus o amaldiçoaria. Diante de tais palavras, Calvino cedeu:

sob o impacto de tal imprecação, eu me senti tão abalado de terror, que desisti da viagem que havia começado.



A partir daquele momento seu futuro estava ligado ao de Genebra, sendo o principal cenário dos seus labores. Ele começou seu trabalho ali de maneira modesta, era um preletor sobre a Bíblia e só mais tarde foi nomeado pregador.



No início de 1537 Farel e Calvino conduziram as reformas, no entanto causaram atritos com as autoridades civis. Eles redigiram uma confissão de fé, um catecismo, estabeleceram o consistório, mas provocaram a ira de alguns do governo quanto à adequada disciplina da igreja.

Em abril de 1538 alguns indivíduos contrários às reformas de Calvino e Farel foram eleitos e a oposição cresceu a tal ponto que e ambos foram banidos de Genebra. Calvino retomou a intenção de ir à Estrasburgo em busca de sossego, enquanto Farel foi pastorear em Neuchatel.

Os três anos que passou em Strasburgo, sem dúvida foram os melhores de sua vida. Foram também anos decisivos para ele como reformador e teólogo.



Calvino, a convite de Martin Bucer (1491-1551), tornou-se pastor de uma igreja de refugiados franceses. Nessa igreja ele, além de outras atividades, pregava quatro vezes na semana.

Durante esse tempo Calvino refletiu seriamente acerca do papel da adoração na igreja e traduziu vários salmos para a métrica francesa. Com ele começou o canto congregacional dos salmos, o que se tornaria parte integrante di culto reformado francês.



Prelecionava teologia numa escola que um francês por nome John Sturm havia organizado. Ele lecionava três vezes por semana e recebia um florim semanal por suas palestras. Complementava a renda apertada advogando, dando aulas particulares, recebendo pensionistas e às vezes, vendendo uma ou outra das obras da sua biblioteca. Desse tempo chegou a declarar: “não consigo chamar de meu um único centavo”.



Calvino também tomou tempo para escrever. Ele revisou as Institutas, de tal modo que ficou pelo menos três vezes maior que a primeira edição. Essa nova edição foi publicada em gosto de 1539. Dois anos mais tarde (1541), publicou a primeira tradução das Institutas para o francês.

Ainda nesse mesmo ano, em março, publicou seu Comentário sobre a Epístola aos Romanos, que revisou em 1551 e 1556. Esse foi o primeiro de uma série que o colocou na primeira fila dos exegetas da Reforma. Calvino escreveu comentários sobre quase todos os livros da Bíblia, uma fonte de grande ajuda até os dias de hoje.



Também escreveu a Réplica a Sadoleto, uma resposta ao cardeal Jacopo Sadoleto que havia escrito à igreja de Genebra na tentativa de ganhá-la à causa romanista novamente. Essa é talvez a melhor apologia da fé reformada escrita no século XVI. Outra de suas obras foi o Pequeno Tratado sobre a Santa Ceia (1541), onde Calvino tenta uma posição mediadora entre as posições extremadas de luteranos e zuinglianos quanto ao assunto.



Em Estrasburgo Calvino também encontrou uma esposa. Idelette de Bure era viúva de um pastor anabatista chamado João Storder, com quem tinha dois filhos. Farel realizou o casamento em agosto de 1540, e a descreveu como uma mulher “íntegra e honesta e até bonita”. Idelette teve um aborto, perdeu uma filha e deu à luz um menino que viveu por cerca de duas semanas apenas (28/7/1542). Mais tarde Calvino escreveu:

Certamente o Senhor nos infligiu uma dolorosa ferida com a morte de nosso filho. Mas Ele próprio é pai e sabe o que é bom para seus filhos.



Mas logo Calvino enfrentaria a perca da própria Idelette que faleceria em 1549 vitimada pela tuberculose. Em uma carta disse:

A razão da minha tristeza não é comum. Fui privado da minha excelente companhia na vida, a qual, se alguma desventura tivesse ocorrido, teria sido minha companheira voluntária não só no exílio e na aflição, mas até na morte.



Em 1540 o Conselho (dos duzentos) de Genebra resolve convidar Calvino, Farel e Viret a voltar para dar continuidade àquilo que haviam começado. No entanto Farel não foi liberado pela igreja em Neuchatel e a igreja de Berna só permitiu a Viret se ausentar por um tempo. Em 1 de maio de 1541 o mesmo Conselho revogou o edito de banimento contra eles.



Calvino é chamado novamente à Genebra. Ele aceitou o convite com relutância, sabendo que muita hostilidade o aguardava. Numa carta a Farel diz ele:

Se tivesse a escolha a minha própria disposição nada me seria mais desagradável do que seguir o seu conselho. Quando me lembro, porém, que não me pertenço, ofereço o meu coração como sacrifício ao Senhor.



Desta vez quem levantou a questão do julgamento divino foi Bucer, dizendo que se ele se recusasse a voltar estaria agindo como Jonas, novamente a contragosto aceitou o convite.

Em 13 de setembro, uma terça feira de 1541 Calvino entra em Genebra. Um fato interessante é que no primeiro domingo depois de seu retorno, ele assumiu o púlpito da Catedral de S. Pedro e continuou a exposição exatamente de onde havia parado três anos antes!



Em novembro ele elaborou a uma nova constituição para a igreja local, as Ordenanças Eclesiásticas, que foi promulgada em novembro. Elas estabeleciam quatro ofícios, o de pastor, o mestre, o ancião (presbítero) e os diáconos. Os pastores deveriam reunir-se semanalmente para debates públicos, exame de candidatos ao ministério e exegese. O grupo de mestres cuidava do sistema educacional. O grupo de diáconos cuidava da beneficência, que incluía o hospital. Os anciãos junto com os ministros formavam o consistório, que se reunia uma vez por semana para aplicar a disciplina eclesiástica. Iam até a excomunhão, que só foi concedida em 1555.



Enquanto trabalhava arduamente para implantar as reformas em Genebra, seus livros, dentre eles as Institutas, eram queimados diante da Catedral de Notre Dame, em 1542.



Calvino preparou também um novo e mais amplo catecismo. Ele estabeleceu uma liturgia baseada na da sua congregação de Estrasbrugo onde havia uma feliz combinação entre orações fixas e espontâneas, além do destaque especial ao canto. Sempre muito atarefado pregava duas ou três vezes por semana, segunda, quartas e sextas, as terças, quintas e sábados dava palestras públicas. Presidia o Consistório, também visitava enfermos e prisioneiros, cuidava dos refugiados, celebrava batismos, casamentos etc.



Sob sua direção, que só era um dos ministros da cidade, muito foi feito pela educação e incremento do comércio. A intenção de Calvino era fazer de Genebra um modelo de comunidade cristã. Sua posição estritamente evangélica atraiu grande número de refugiados da França, Itália, Paises Baixos, Escócia e Inglaterra, e entre eles havia muitas pessoas de posição, cultas e ricas. O próprio Calvino era estrangeiro e só recebeu a cidadania no fim da sua vida. Diz-se que se referiam a ele como “aquele francês”.



Entre os refugiados destaca-se um escocês chamado João Knox que se referia a igreja onde Calvino ministrava de “a mais perfeita escola de Cristo desde os dias dos apóstolos”.



A oposição sempre fora muito ativa. Era feita por dois tipos, os que se aborreciam por qualquer tipo de disciplina e pelas das famílias que consideravam Calvino, seus ministros e os refugiados como impostores estrangeiros. Se a oposição chegou a formar um partido chamado dos “Libertinos” é coisa envolta em debates, mas que era ferrenha tanto quanto dissoluta isso ninguém nega.



Sabe-se que seus inimigos atiçavam cães contra ele, atiravam-lhe objetos, faziam trocadilho do seu nome com o de Caim, davam seu nome aos cães, o humilhavam sempre que podiam. Homem de fibra que era,resistia a tudo isso.



De maneira geral os que se opunham às rígidas disciplinas que se impunham se orgulhavam de uma vida licenciosa. Eram abertamente adúlteros, promíscuos, desonestos e ainda assim entendiam que podiam tomar parte na ceia do Senhor. Calvino se opunha a isso com veemência. Houve um conflito épico com certo Philibert Berthelier, que por sua vida pecaminosa havia sido proibido de participar da ceia do Senhor. Como tinha bons relacionamentos, o Conselho Municipal anulou a decisão da igreja, e Berthalier, junto com alguns que o apoiavam, desafiadoramente foi à igreja para participar da ceia. Calvino desceu do púlpito, colocou-se à frente da mesa onde os elementos estavam dispostos, e disse: “Vocês podem esmagar estas mãos, podem cortar fora estes braços, podem tirar a minha vida, meu sangue é de vocês, podem derramá-lo, mas jamais me forçarão a dar as coisas sagradas ao profano e desonrar a mesa de meu Deus”. Berthalier e seus companheiros, frente a tamanha convicção e coragem, retiram-se.



Outro momento crítico, entre 1548-1555, nasceu do fato dos habitantes temerem que fossem politicamente desbancados pelos refugiados e que colocassem Calvino numa posição inabalável. Esses foram dias críticos, tudo aquilo que realizara poderia ser posto abaixo.



Um ex-frade e médico que havia abraçado os ideais reformados, chamado Jerome Bolsec (1520-1584) acusou Calvino de erro quanto a questão da predestinação. A intenção de Bolsec era abalar a reputação de Calvino como intérprete das Escrituras, obtendo êxito nisso, colocaria tudo a perder. Em 1551, Calvino apresentou o assunto ao governo da cidade. Bolsec foi processado e Calvino, com alguma dificuldade, conseguiu seu banimento. Bolsec retornou à comunhão romana e vingou-se de Calvino escrevendo uma biografia (06/1577) onde o caluniou grosseiramente.



O mais doloroso dos embates, no entanto, surgiu com o espanhol Servetus, em 1553. Em uma de suas obras Servetus atacou a doutrina da trindade, a cristologia de Calcedônia e o pedobatismo considerando-os como as principais causas da corrupção da igreja. Também havia tecido duras críticas às Institutas de Calvino em cartas que lhe escreveu (1445). Já havia sido condenado á morte por heresia em Lyon, mas escapara da prisão em Vienne. Servetus sabia que se fosse à Genebra seria preso e executado, mesmo assim seguiu para lá. Talvez tenha imaginado que os opositores de Calvino lhe dariam guarida. A oposição não se colocou ao seu lado abertamente, mas se aproveitou da situação para causar problemas a Calvino. Servetus nutria a esperança de que num julgamento fosse absolvido, então aproveitou a oportunidade para exigir que Calvino fosse exilado e seus bens confiscados e que lhe fossem entregues. No entanto, o desfecho não lhe foi positivo, foi condenado à morte na fogueira em 27 de outubro. Calvino agiu, infelizmente, como filho de sua época. É preciso entender que naqueles dias, a condenação de um herege à morte era a lei do estado, com a qual concordavam protestantes e católicos. O fato, embora terrível, resultou no fortalecimento da posição de Calvino e ainda livrou as igrejas suíças de qualquer suspeita de heterodoxia.



A situação de Calvino melhorou consideravelmente nos anos seguintes, embora nunca sem oposição.


Em 1559 Calvino coroou sua obra com a fundação da Academia Genebrina, a Universidade de Genebra. Logo se tornou ela o maior centro de ensino teológico das comunidades reformadas e também o grande centro de onde foram enviados numerosos ministros, não só para a França, mas também Paises Baixos, Inglaterra, Escócia, Alemanha e Itália. Nesse mesmo ano recebeu a cidadania da comunidade pela qual trabalhou tão arduamente.



Nos últimos anos de vida a saúde de Calvino, que sempre fora frágil, piorou consideravelmente. Três meses antes de falecer, numa carta enviada aos médicos franceses que lhe enviaram medicamentos, arrolou entre suas doenças a artrite, pedras nos rins, hemorróidas, febres, nefrite, indigestão severa, cólicas, úlceras e emissão de sangue na urina.



Em fevereiro de 1564, ele passou mal no púlpito e foi obrigado a descer cambaleando, mas ainda assim trabalhou arduamente em seu escritório. Quando tentavam dissuadi-lo disso respondia:

Quando o Senhor vier, você gostaria que Ele me visse ocioso?



Em 27 de março esteve presente numa reunião do Conselho e com muita dificuldade, pondo-se em pé, agradeceu com humildade a bondade que lhe tinham dispensado.



Em abril sofrimento era tão intenso que se declara convencido de que é da vontade de Deus tirá-lo deste mundo. Dois dias antes de escrever estas palavras havia pregado o que se constitui seu último sermão, tendo sido carregado em sua cama para o púlpito.



Em 27 de maio cessam os sofrimentos, Calvino falece e, segundo o seu pedido, foi sepultado em cova simples, sem uma lápide. Disse ele:

Desejo que meu corpo seja sepultado, depois de minha morte, de maneira comum para esperar o dia da bendita ressurreição.

Assim se sucedeu, de tal modo que o lugar exato de sua sepultura é desconhecido.



Calvino era um homem magro, estatura mediana, rosto sisudo, testa larga, olhos penetrantes e intelecto privilegiado. Lloyd-Jones diz que devido à asma, falava lentamente e não se poderia descrevê-lo como eloquente. Era sempre muito reservado e discreto, em razão disso alguns detalhes de sua vida ficaram ocultos de nós.

Dizem alguns que era sempre irado. De fato não deveria ser fácil controlar a irritação em um contexto de constante oposição hostil. Ele mesmo confessa seu destempero com tristeza:

Eu pequei gravemente, não sendo capaz de me manter dentro dos limites; a ira se apoderou de minha mente de tal modo que eu derramei amargura por todos os lados... quando cheguei à minha casa fui tomado por extraordinário paróximo de modo que não acehi outro consolo senão nos suspiros e lágrimas.



Era homem de elevada moral, era um crítico da imoralidade dos seus dias, o que na juventude lhe valeu o apelido de “o caso acusativo”. Se de fato era assim é interessante que tivera tantos amigos, em tantos lugares e até mesmo alguns que dele divergissem. Certamente era um homem provido de algum grau de ternura, algo perceptível no seu trato familiar, nas amizades duradouras com Farel, Melancthon, Bucer, Beza e outros, além do claro testemunho disso nos seus cuidados pastorais.



Calvino era um trabalhador incansável, como seu pai. Punha-se em pé às cinco horas da manhã e não se deitava cedo. Mesmo quando estava enfraquecido pelas doenças, trabalhava arduamente dedicando-se em muitas frentes.



Estava sempre envolvido nos afazeres pastorais, não só com os que eram da sua comunidade. Visitava enfermos e encarcerados, cuidava dos refugiados, inclusive tentando colocá-los no mercado de trabalho. Pregava e dava preleções várias vezes na semana. Achava tempo ainda para escrever cartas, pelo menos 4 mil delas foram publicadas! Também cuidava de revisar as obras que já havia escrito, além de escrever outras, no total de cinqüenta e nove. Participava de discussões e debates. Administrava a cidade e zelava para que tudo estivesse a contento. Ainda achava tempo para cuidar da família, dos filhos que Idelette lhe deixou e dos filhos do primeiro casamento de seu irmão, de modo que sua casa estava sempre cheia de crianças.



Viveu com extrema simplicidade, quase um asceta. Quando os opositores espalharam boatos de que era rico, refutou dizendo que seu testamento os desmentiria, o que de fato aconteceu. Nem mesmo a mobília de sua casa lhe pertencia, pois era da República.



Teve uma vida cheia de sofrimentos constantes. De constituição física frágil, teve muitas doenças como companheiras durante a vida toda. Sofreu com a morte do filho e depois com a da esposa. Sofreu com as injúrias daqueles que se opunham às reformas que ele implantava em Genebra. Sofreu com os escândalos dentro de sua família quando a esposa de seu irmão foi surpreendida em adultério e mais tarde com sua afilhada que foi acusada de pecados grosseiros, sendo disciplinada pelo Consistório que ele presidia.



Tinha um espírito senhoril, mas sempre foi descrito como humilde. Durante toda a sua vida fez sempre questão de esconder-se à sombra da cruz. Dizia ele:

Tudo o que fiz não vale nada. Os ímpios serão capazes de agarrar essa minhas palavras com avidez, mas eu repito: não fiz nada digno de qualquer coisa. Sou uma miserável criatura.



Timoty George declara:

Nós não servimos à verdade retratando Calvino como angelicalmente bom ou como diabolicamente mau. Ele foi, como Lutero declarou que todos os cristão são, ao mesmo tempo santo e pecador.



Seu sucessor, Beza, estará sempre com a razão ao dizer que João Calvino será sempre

o mais belo exemplo de caráter cristão, um exemplo que é tão fácil de caluniar quanto difícil de imitar.



O que fez de João Calvino um homem singular, penso eu, foi o fato de que tinha por objetivo viver para a glória de Deus e a isso se dedicar completamente, sem pena do seu corpo nem de qualquer coisa que pudesse ter como sua.



Soli Deo Glória.



quinta-feira, 19 de março de 2009

FILOSOFIA DE MINISTÉRIO PASTORAL


por Franklin Ferreira

Já que toda a prática é a prática de alguma teoria, é preciso articular claramente a base teológica da prática ministerial. Por isso, uma filosofia bíblica do ministério pastoral é essencial àqueles que servem à igreja. Nesse caso, temos outra questão importante, nesse tempo de profissionalização ministerial: é necessária uma filosofia de ministério que reflita as demandas bíblicas do serviço cristão, para estabelecer a base adequada pela qual o ministro e o povo de Deus saberão de forma clara a que tarefa aqueles foram chamados por Deus e separados pela igreja.


Comecemos com o texto bíblico, que afirma: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram. Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre. Não vos deixeis envolver por doutrinas várias e estranhas, porquanto o que vale é estar o coração confirmado com graça e não com alimentos, pois nunca tiveram proveito os que com isto se preocuparam. (…) Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome. (…) Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.” (Hb 13.7-9, 15, 17). A partir desse texto, precisamos perguntar: como podem ser descritas a tarefa dos servos da Palavra, segundo a Escritura Sagrada e ilustrada na história da igreja?


1. Buscam a santidade
Prioritariamente, como o fundamento do serviço cristão, os pastores são chamados a buscar a santidade em tudo o que fazem. Seu alvo supremo é resumido pela primeira pergunta e resposta do Breve Catecismo de Westminster: “Qual o fim principal do homem? O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre”. Com esse grande alvo, os verdadeiros pastores guiarão suas congregações pelo exemplo, na busca pela glória de Deus e da plena alegria nele. A partir dessa ênfase, podemos resumir a disposição interna dos pastores nos seguintes pontos:


1.1. Os ministros cristãos devem depender do Espírito Santo. O pastor conhece sua incapacidade de salvar um pecador, entende que a conversão é um drama complexo e multifacetado e sabe que a pregação é o único meio para chamar os eleitos à conversão. Sabe a seriedade em administrar os sacramentos da graça diante do povo de Deus. Por tudo isso, a oração constante do pastor será uma súplica, urgente e dependente, para que o Espírito Santo venha com poder sobre sua vida e ministério.


1.2. Por causa da necessidade de dependência do Espírito Santo, os ministros precisam ser homens de oração incessante, que lutam com Deus. Isso lembra a história que se conta de Thomas Shepard, que foi ministro na Nova Inglaterra. Por ocasião da transferência de sua residência para outra cidade, ele notou: “Está faltando uma coisa aqui. Onde está o quarto de oração de minha casa pastoral?” Por conta da ausência do quarto de oração, ele sugeriu que ali começava a decadência dos Estados Unidos. Os verdadeiros pastores do povo de Deus sabem o que é agonizar na oração, pois sabem que a oração é o meio da graça pelo qual o Espírito visitará o ministério pastoral e a igreja.


1.3. Por causa da busca pelo Espírito, os ministros buscam a santidade em toda a sua vida. Podemos listar os requisitos bíblicos exigidos do pastor: não deve ser arrogante (Tt 1.7); não deve ser dado ao vinho (1Tm 3.3; Tt 1.7); não deve ser violento (1Tm 3.3; Tt 1.7); não deve ser irascível: (Tt 1.7); deve ser inimigo de contendas (1Tm 3.3); não deve ser novo convertido (1Tm 3.6); deve ser irrepreensível (1Tm 3.2; 1Tm 5.7; 6.14; Tt 1.6, 7), “despenseiro de Deus” (Tt 1.7), esposo de uma só mulher (1Tm 3.2; Tt 1.6), temperante (1Tm 3.2, 11; Tt 2.2), sóbrio (1Tm 3.2; Tt 1.8; 2.2, 5), modesto (1Tm 3.2), hospitaleiro (1Tm 3.2; Tt 1.8), apto para ensinar (1Tm 3.2; 2Tm 2.24), cordato (1Tm 3.3; Tt 3.2), não avarento (1Tm 3.3), não ganancioso (Tt 1.7), deve governar bem a própria casa (1Tm 3.4, 5, 12; Tt 1.6). Deve criar seus filhos com disciplina e respeito (1Tm 3.4), tendo bom testemunho dos de fora (1Tm 3.7), amigo do bem (Tt 1.8), justo (Tt 1.8), piedoso (Tt 1.8); deve exercer o domínio próprio (Tt 1.8), e ser apegado à Palavra (Tt 1.9). Todas essas características são ligadas ao caráter do ministro, descrevendo quem ele deve ser em sua vida privada e pública. Em resumo, pastores buscam ser precisos porque servem a um Deus preciso.


1.4. Diante disso, dia a dia o pastor deve se examinar, fazendo algumas perguntas: Como está sua vida de oração secreta? Ele busca comunhão com o Deus criador e todo-poderoso, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que é comunhão eterna? Será que ele entende que deixar de orar o levará ao desastre? Ele coloca seu coração nas coisas eternas? É sua paixão glorificar a Deus, buscar a santidade e falar contra o pecado?


2. Enfatizam a pregação
2.1. A segunda pergunta e resposta do Breve Catecismo de Westminster diz: “Que regra Deus nos deu para nos dirigir na maneira de o glorificar e gozar? A Palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Velho e do Novo Testamentos, é a única regra para nos dirigir na maneira de o glorificar e gozar”. Em outras palavras, os ministros cristãos, que entendem que a glória de Deus é o tema central de suas vidas, crêem que somente por meio das Escrituras conseguirão glorificar a Deus e se alegrar nele para sempre. Em outras palavras, as Escrituras se tornam a regra de fé (regula fidei) da devoção e da pregação cristã. O ministério pastoral é o serviço à Palavra de Deus.


2.2. Por receberem com seriedade as Escrituras como a Palavra de Deus inspirada e autoritativa, os pregadores devem priorizar a pregação expositiva. Como disseram de Zuínglio, os servos da Palavra devem se recusar “a cortar em pequenos pedaços o evangelho do Senhor”. A pregação deve ser expositiva, isso é, deve expor com fidelidade a idéia central da passagem pregada. Mas essa pregação também deve ser seqüêncial, na medida em que o texto é sempre pregado em referência a seu contexto imediato (o capítulo) e seu contexto mais amplo, que é o livro em que a passagem se encontra e o cânon bíblico como um todo. Por isso, os ministros cristãos devem pregar toda a Palavra de Deus, seqüêncialmente, pois sabem que somente o Espírito Santo, ligado à Palavra, pode salvar pecadores.


2.3. Ligada à enfase na pregação expositiva seqüêncial, os ministros devem ser pregadores doutrinais. Devem pregar “todo o conselho de Deus” (At 20.27) para o povo. O pregador não deve superestimar a condição espiritual da comunidade cristã. Ele deve sempre voltar às doutrinas cristãs mais básicas, o “cristianismo básico” (John R. W. Stott), ou o “cristianismo puro e simples” (C. S. Lewis): Deus o Pai, o Filho e o Santo Espírito; criação, queda, redenção e restauração; a oração e a devoção; a vida cristã e a lei moral; as principais narrativas e os principais personagens bíblicos. Ano após ano, ele deve voltar às questões mais simples da fé cristã. Mas, a partir daí, deve seguir para as doutrina do pecado e incapacidade humana, de Jesus Cristo, a “ordem da salvação” (ordo salutis), as últimas coisas.

Os ministros também precisam se opor ao conceito de graça barata, porque esta não é a graça verdadeira. A graça barata não é a graça salvadora, que é graça custosa, já que Deus entregou seu único Filho para morrer por pecadores. E por isso, graça que exige a totalidade da vida dos que a recebem. Os servos da Palavra não diminuem as exigências do Evangelho ao pecador.


2.4. Os ministros da Palavra devem ser pregadores práticos, lidando com os casos de consciência. Eles devem aplicar a Escritura àqueles que ainda estão em seus pecados, aos que estão lutando com alguma doença ou passando pela noite escura da alma, aos que estão em dúvidas, e assim por diante. Como um puritano disse certa vez: “O pregador, que é seu melhor amigo, é o que vai dizer mais verdades sobre ti mesmo”.

2.5. Os ministros da Palavra devem ser evangelistas. Culto após culto, a audiência que se reune para ouvir a Palavra deve ser chamada, vez após vez, a se converter de seus pecados, a buscar no Espírito a fé e o arrependimento, obedecendo em humildade a Cristo Jesus. Essa ênfase evangelística deve estar presente nas conversas particulares e no trato pessoal no pastor.


2.6. A prática da pregação de Martinho Lutero, em Wittenberg, é uma boa ilustração da centralidade da Palavra no ministério cristão. No auge de seu ministério na Igreja do Castelo, no domingo, às 5h, ele pregava nas Epístolas Paulinas; ainda no domingo, às 9h, pregação nos Evangelhos Sinóticos; e no domingo à tarde, pregação no Catecismo Menor; Nas segundas e terças, pregação no Catecismo Menor; na quarta, pregação no Evangelho de Mateus; na quinta e na sexta, pregação nas Epístolas Gerais; e, no sábado, pregação no Evangelho de João. Aqui temos um bom modelo de pregação numa congregação, onde estilos literários bíblicos diferentes são bem combinados na pregação, e unidos com aulas catequéticas. Por isso, Lutero podia afirmar: “Eu prego ensinando, e ensino pregando”. Em outras palavras, o ministro cristão será um “pastor ensinador” (cf. a tradução de Markus Barth para Ef 4.11).


2.7. O que Richard Baxter escreveu sobre a pregação afirma a solenidade e seriedade da pregação da Palavra, que é requerida de todo ministro cristão: “Não é coisa pequena ficar em pé diante de uma congregação e dirigir uma mensagem de salvação ou condenação, como sendo do Deus vivo, no nome do nosso redentor. Não é coisa fácil falar tão claro, que um ignorante nos possa entender; e tão seriamente que os corações mais desfalecidos nos possam sentir; e tão convincentemente que críticos contraditórios possam ser silenciados”.


3. São doutrinais
3.1. Nos voltamos agora ao conteúdo da pregação. Comecemos resumindo a convicção do apóstolo Paulo sobre a tarefa dos “pastores ensinadores” (cf. Ef 4.11). Segundo Paulo, Deus ordena que os ministros encarem com seriedade a preservação e ensino das doutrinas cristãs. As palavras do apóstolo: “Guardando o mistério da fé numa consciência pura” (1Tm 3.9); “Procura apresentar-te diante de Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15); “Retendo firme a palavra fiel, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para exortar na sã doutrina como para convencer os contradizentes” (Tt 1.9); “Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” (2.1).


3.2. Por isso, precisamos considerar o devido lugar da doutrina na estrutura bíblica. Aprendemos nas Escrituras que nosso entendimento doutrinário guia todas as esferas de nossas vidas. Um rápido estudo das epístolas escritas pelos apóstolos Paulo e Pedro ilustram o relacionamento entre a doutrina cristã e a prática cristã, ou, entre aquilo que se deve crer e como se deve viver (credenda e agenda). Por exemplo, em Romanos, temos exposição doutrinal nos capítulos 1 a 11, e exposição prática nos capítulos 12 a 16. Em Efésios, temos exposição doutrinal nos capítulos 1 a 3, e exposição prática nos capítulos 4 a 6. Em Gálatas, temos uma variante ligeiramente diferente: testemunho nos capítulos 1 e 2; exposição doutrinal nos capítulos 3 e 4; e exposição prática nos capítulos 5 e 6. Ainda que essa divisão não seja absoluta, já que Paulo entremeia sua exposição doutrinal com várias aplicações práticas, essa divisão tem sido percebida pelos principais estudiosos das epístolas paulinas. No caso dos escritos de Pedro, só temos uma mudança de forma, não de estrutura. Como se percebe em 1Pedro, vemos uma exposição prática na primeira parte (por exemplo, 1Pe 1.1-12 cf. 1.13-25), seguida das razões doutrinais de tal prática. No que se refere ao evangelho de João, como já se brincou, o tema é dado no prólogo teológico de Jo 1.1-14 – e tudo o mais seria nota de rodapé, no sentido de ser um desdobramento das declarações trinitárias afirmadas naquele texto. Mais uma vez, os ministros cristãos estão comprometidos a pensar teologicamente, já que lidarão com dramas que demandam respostas teológicas. O evangelho de Mateus é estruturado em torno de cinco grandes discursos de Jesus, que formam o eixo pelos quais as narrativas são desdobradas. No Antigo Testamento, tal estrutura permanece, na medida em que as narrativas históricas são desdobramentos e ilustrações das bênçãos e maldições pactuais, reveladas e expandidas no Pentateuco; as profecias são as pregações dessas bênçãos e maldições pactuais ao povo da aliança; e os livros poéticos são aplicações concretas e celebração das bênçãos e maldições pactuais.


3.3. O que William Perkins escreveu permanece, ainda hoje, como o resumo do conteúdo da pregação evangélica: “Pregar a Cristo, em Cristo, para a glória de Cristo” (The sum of the sum: preach one Christ by Christ to the praise of Christ).


3.4. Por tudo isso, os pastores devem estudar com afinco a teologia cristã, em interação com o passado, mas tentando entender o presente. Eles também precisam se atualizar constantemente. E, a partir do estudo da teologia cristã, os ministros devem construir pontes com as várias vocações e relacionamentos representadas na igreja, testemunhando aos fiéis a força motivadora e impulsora da teologia cristã em nossas relações com as várias esferas da criação. O esforço nesse campo trará grandes recompensas, não apenas à igreja onde tal ministro serve, mas especialmente ao próprio ministro.


Aqui cabe uma palavra de alerta: ainda que a doutrina cristã seja o conteúdo da pregação, essa é determinada pelo texto bíblico. A pregação bíblica é exposição bíblica. As doutrinas cristãs funcionam como sinais que guiarão a pregação cristã. O papel do pregador não é expor a dogmática no púlpito; mas usá-la como guia na interpretação e pregação da Palavra à comunidade cristã.


3.5. De outro lado, o alvo do esforço teológico é a glória de Deus. A teologia cristã deve ser estudada e meditada como ato de culto. Como G. C. Berkouwer afirmou: “Senhores, todos os grandes teólogos começam e terminam a sua obra com uma doxologia!” Aqueles familiarizados com a literatura cristã poderão ver esse principio exemplificado nas obras de Irineu, Atanásio, Agostinho, Anselmo, Lutero, João Calvino, Richard Baxter, Jonathan Edwards e Dietrich Bonhoeffer. O esforço teológico não é um fim em si mesmo; a Deus deve ser dada a glória em tal serviço à igreja.


3.6. Até mesmo a oração, a atitude mais básica do cristão, é guiada por nossas crenças doutrinais. Podemos ilustrar isso com a famosa oração de Anselmo de Canterbury, que orou assim: “Senhor, agradeço-te por me teres criado segundo a tua imagem, para que te conheça e ame. Mas essa imagem se acha de tal modo corrompida por pecados, que não consegue cumprir a tarefa para a qual foi criada, a não ser que tu a renoves e recries através da fé em teu Filho crucificado, Jesus Cristo. Desejo apenas entender uma pequena parcela de tua verdade, que meu coração crê e ama. Pois não procuro compreender para poder crer, antes, creio para poder compreender”. Por tudo isso, devemos lembrar da frase de Lutero: “Não existe cristianismo onde não há afirmações”.


4. Eles pastoreiam outros cristãos
4.1. Os ministros cristãos precisam ter uma visão exaltada do ministério pastoral. Eles precisam ter em mente que a igreja pertence a Deus, a mais ninguém, conseqüentemente, devem trabalhar muito sério nela. Seu papel é, na força do Espírito, no processo de ajuntar os eleitos, alimentar as ovelhas e expulsar os lobos do meio do rebanho. Isso se dá pela pregação da Palavra, pela administração correta dos sacramentos e pelo cuidado pastoral – tarefas que tem definido o ministério pastoral durante os séculos.


4.2. A seriedade do serviço ao povo de Deus pode ser ilustrada na carta que um idoso pastor puritano escreveu a um de seus alunos, recém-ordenado, e que servia numa pequena congregação: “Eu conheço a vaidade do seu coração e uma das coisas que vai atingi-lo profundamente é que a congregação, que lhe foi confiada, é muito pequena, principalmente quando você a compara ás congregações de seus irmãos ao seu redor. Mas sinta-se seguro em uma palavra vinda de um homem já idoso e experimentado. Quando estiver perante Cristo, prestando conta dessa congregação que recebeu, lá no trono de julgamento, você saberá que recebeu o suficiente”.


4.3. Seguindo o ensino das Escrituras, os ministros cristãos nunca trabalham sozinhos na igreja local. De acordo com o testemunho bíblico, as igrejas locais são dirigidas por uma pluralidade de presbíteros (At 14.23; 16.4; 20.17; 21.18; Tt 1.5; Tg 5.14). E, segundo a Bíblia, esses presbíteros servem em paridade, não havendo uma hierarquia nessa classe, no serviço numa igreja local. O papel desses presbíteros é administrar a igreja, assim como pregar e ensinar fielmente a Palavra. Diferente dos modelos de crescimento de igreja tão em voga em nossa época, o testemunho da Escritura enfatiza que o papel dos ministros cristãos é equipar o povo de Deus para que este glorifique a Deus na criação, cumprindo os mandatos criacionais. Em outras palavras, não é papel do ministro que se quer radicalmente bíblico estimular em sua comunidade uma mentalidade de fortaleza, em oposição radical à criação, ou estimular uma mentalidade de mosteiro, onde os cristãos são instados a suportarem sua vida na criação, e encontrarem realização apenas dentro da esfera eclesiástica. Longe disso, a tarefa pastoral é enviar os cristãos à criação, como agentes da antecipação escatológica da restauração de toda a criação. Nesse sentido, as únicas pessoas chamadas a encontrar realização no serviço eclesiástico são justamente aqueles chamados ao ministério da Palavra e dos sacramentos. A tarefa dos outros cristãos, equipada e pastoreada por esses, é glorificar a Deus lá fora, na criação, encontrando realização pessoal e profissional em sua vocação secular.


4.4. Os pastores mais experientes treinam os novos pastores. Os seminários teológicos protestantes, como os conhecemos hoje, somente foram instituídos há cerca de 150 anos. A forma antiga de preparo ministerial era simplesmente levar o estudante do ministério a trabalhar sob responsabilidade de ministros mais experientes. Seminários – pelos menos os ortodoxos e saudáveis – oferecem conteúdo teológico e rigor acadêmico, não mais do que isso. Deus concede pastores à igreja não através de seminários, mas por meio do testemunho e ajuda de outros pastores, mais experientes, e fieis no serviço às igrejas.


4.5. Em suas visitas, os ministros cristãos, precisam redescobrir a catequese. Esse é o modelo por excelencia para guiar as conversas na visitação pastoral e o aprofundar os temas básicos da pregação dominical. Desde que a catequese entrou em declínio nas igrejas protestantes, por volta do fim do século xviii, a igreja cristã não consegui encontrar nenhum outro modelo tão eficaz para moldar a congregação de acordo com os ensinos principais da fé cristã. Então, podemos e devemos redescobrir a visitação catequética, mesmo em contextos urbanos, de grande mobilidade e distinções sociais.


4.6. Os ministros da Palavra, em suas visitas, devem servir como pastores e teólogos. Como exemplo, podemos estudar as vidas de William Perkins e Karl Barth. Ambos foram grandes teólogos no tempo em que viveram; ambos lecionaram em grandes universidades; e ambos pregavam semanalmente nos presídios das cidades onde viviam. Em suma: devoção, pregação ênfase doutrinal e cuidado pastoral devem ser mantidos juntos num ministério que almeja ser serviço cristão, de fato, à igreja de Deus.


Podemos concluir com duas histórias, que resumem o que foi escrito acima:

Em 1727, Jonathan Edwards, que se tornaria o maior teólogo nascido nos Estados Unidos, foi ordenado ao pastorado. Ele nos conta o que escreveu em sua ordenação: “Dediquei-me solenemente a Deus e o fiz por escrito, entregando a mim mesmo e tudo que me pertencia ao Senhor, para não ser mais meu em qualquer sentido, para não me comportar como quem tivesse direitos de forma alguma… travando, assim, uma batalha com o mundo, a carne e Satanás até o fim da vida”.


Sob o reinado de Maria Tudor, a sanguinária, muitos ministros e bispos foram queimados na estaca, a ponto disto ter se tornado um evento comum. Charles Spurgeon, o grande pastor batista vitoriano, relatou a seguinte história aos alunos de sua Escola de Pastores. Durante o reinado de Maria Tudor, um homem notou um grande número de pessoas viajando, logo ao amanhecer, na estrada de Smithfield, um lugar geralmente usado para as execuções. Ficou imaginando o que traria um tão grande número de pessoas à rua, fora de suas casas, àquela hora do dia. Então perguntou a um homem que passava: “Para onde estão indo vocês?” Ao que respondeu o homem: “Estamos indo a Smithfield, para ver o nosso pastor ser queimado”. Estão lhes disse: “Porque desejam ver tal coisa? Que proveito isso lhes trará?” Responderam: “Vamos ver o nosso pastor ser queimado para aprendermos o caminho”.

Fonte: http://blog.editorafiel.com.br/

segunda-feira, 9 de março de 2009

TEOLOGIA REFORMADA

por James Montgomery Boice

A Teologia Reformada recebe seu nome da Reforma Protestante do século XVI, com suas ênfases teológicas distintas, mas é teologia solidamente baseada na própria Bíblia. Os crentes na tradição reformada têm alta consideração as contribuições específicas como as de Martinho Lutero, John Knox e, particularmente, de João Calvino, mas eles também encontram suas fortes distinções nos gigantes da fé que os antecederam, tais como Anselmo e Agostinho e principalmente nas cardas de Paulo e nos ensinamentos de Jesus Cristo.

Os Cristãos Reformados sustentam as doutrinas características de todos os cristãos, incluindo a Trindade, a verdadeira divindade e humanidade de Jesus Cristo, a necessidade do sacrifício de Jesus pelo pecado, a Igreja como instituição divinamente estabelecida, a inspiração da Bíblia, a exigência para que os cristãos tenham uma vida reta, e a ressurreição do corpo. Eles sustentam outras doutrinas em comum com cristãos evangélicos, tais como justificação somente pela fé, a necessidade do novo nascimento, o retorno pessoal e visível de Jesus Cristo e a Grande Comissão.

O que, então, distinto a respeito da Teologia Reformada?

1. A Doutrina das Escrituras

O compromisso da reforma para com a Escritura enfatiza a inspiração, autoridade e suficiência da Bíblia. Uma vez que a Bíblia é a Palavra de Deus e, portanto, tem a autoridade do próprio Deus, os reformadores afirmam que essa autoridade é superior àquela de todos os governos e de todas as hierarquias da Igreja. Essa convicção deu aos crentes reformados a coragem para enfrentar a tirania e fez da teologia reformada uma força revolucionária na sociedade. A suficiência das Escrituras significa que ela não necessita ser suplementada por uma revelação nova ou especial. A Bíblia é o guia completamente suficiente para aquilo que nós devemos crer e para como nós devemos viver como cristãos.

Os Reformadores, em particular, João Calvino, enfatizaram o modo como a Palavra escrita, objetiva e o ministério interior, sobrenatural do Espírito Santo trabalham juntos, e o Espírito Santo iluminando a Palavra para o povo de Deus. A Palavra sem a iluminação do Espírito Santo mantém-se como um livro fechado. A suposta condução do Espírito sem a Palavra leva a erros excessos. Os Reformadores também insistiam sobre o direito de os crentes estudarem as Escrituras por si mesmos. Ainda que não negando o valor de mestres capacitados, eles compreenderam que a clareza das Escrituras em assuntos essenciais para a salvação torna a Bíblia propriedade de todo crente. Com esse direito de acesso, sempre vem a responsabilidade sobre a interpretação cuidadosa e precisa.

2. A Soberania de Deus

Para a maioria dos reformadores, o principal e o mais distinto artigo do credo é a soberania de Deus. Soberania significa governo, e a soberania de Deus significa que Deus governa sua criação com absoluto poder e autoridade. Ele determina o que vai acontecer, e acontece. Deus não fica alarmado, frustrado ou derrotado pelas circunstâncias, pelo pecado ou pela rebeldia de suas criaturas.

3. As Doutrinas da Graça

A Teologia Reformada enfatiza as doutrinas da graça.

Depravação Total: Isso não quer dizer que todas as pessoas são tão más quanto elas poderiam ser. Significa, antes, que todos os seres humanos são afetados pelo pecado em todo campo do pensamento e da conduta, de forma que nada do que vem de alguém, separado da graça regeneradora de Deus, pode agradá-lo. À medida que nosso relacionamento com Deus é afetado, nós somos tão destruídos pelo pecado, que ninguém consegue entender adequadamente Deus ou os caminhos de Deus. Tampouco somos nós que buscamos Deus, e, sim, é ele quem primeiramente age dentro de nós para levar-nos a agir assim.

Eleição Incondicional: Uma ênfase na eleição incomoda muitas pessoas, mas o problema que as preocupa não é realmente a eleição; diz respeito à depravação. Se os pecadores são tão desamparados em sua depravação, como a Bíblia diz que são, incapazes de conhecer a Deus e relutantes em buscá-lO, então, o único meio pelo qual eles podem ser salvos é quando Deus toma a iniciativa de mudá-los e salvá-los. É isso que significa eleição. É Deus escolhendo salvar aqueles que, sem sua soberana escolha e subseqüente ação, certamente pereceriam.

Expiação Limitada: O nome é, potencialmente, enganoso, pois ele parece sugerir que os reformadores desejam de alguma forma limitar o valor da morte de Cristo. Não é o caso. O valor da morte de Cristo é infinito. A questão é saber qual é o propósito da morte de Cristo e o que ele realizou com ela. Cristo pretendia fazer da salvação algo não mais que possível? Ou ele realmente salvou aqueles por quem morreu? A Teologia Reformada acentua que Jesus realmente fez a propiciação pelos pecados daqueles a quem o Pai escolhera. Ele realmente aplacou a ira de Deus para com seu povo, assumindo a culpa sobre si mesmo, redimindo-os verdadeiramente e reconciliando verdadeiramente aquelas pessoas específicas com Deus. Um nome melhor para expiação “limitada” seria redenção “particular” ou “específica”.

Graça Irresistível: Abandonados em nós mesmos, nós resistimos à graça de Deus. Mas, quando Deus age em nosso coração, regenerando-nos e criando uma vontade renovada, então, o que antes era indesejável torna-se altamente desejável, e voltamo-nos para Jesus da mesma forma como antes fugíamos dele. Pecadores arruinados resistem à graça de Deus, mas a sua graça regeneradora é efetiva. Ela supera o pecado e realiza os desígnios de Deus.

Perseverança dos Santos: Um nome melhor seria “perseverança de Deus para com os santos”, mas ambas as idéias estão realmente juntas. Deus persevera conosco, protegendo-nos de deixar a fé, que certamente aconteceria se ele não estivesse conosco. Mas, porque ele persevera, nós também perseveramos. Na realidade, perseverança é a prova definitiva de eleição.

4. Mandato Cultural

A Teologia Reformada também enfatiza o mandato cultural ou a obrigação de os cristãos viverem ativamente em sociedade e de trabalharem para a transformação do mundo e suas culturas. Os reformadores tiveram várias perspectivas nessa área, dependendo da extensão como acreditam que a transformação seja possível. Mas, no geral, concordam com duas coisas. Primeira, nós somos chamados para estar no mundo e não para nos afastarmos dele. Isso separa os reformadores crentes do monasticismo. Segunda, nós devemos alimentar os famintos, vestir os despidos e visitar os prisioneiros. Mas as principais necessidades das pessoas são espirituais, e a obra social não é substituto adequado para a evangelização. Na verdade, o empenho em ajudar as pessoas só será verdadeiramente eficiente se seu coração e mentes forem transformados pelo Evangelho. Isso separa os crentes reformados do simples humanitarismo.

Tem-se alegado que, para a Teologia Reformada, qualquer pessoa que crê e faça parte da linha reformada perderá toda a motivação para a evangelização. “Se Deus vai agir, por que devo me preocupar?” Mas não é assim que funciona. É porque Deus executa a obra que nós podemos ter coragem de nos unirmos a ele, da forma como ele nos ordena a agir. Nós agimos assim alegremente, sabendo que nossos esforços jamais serão em vão.


Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra.