quarta-feira, 25 de março de 2009

Soli Deo Gloria


Um Resumo Biográfico de João Calvino

Por Silas Roberto Nogueira


Em 10 de julho de 1509 nascia Jean Cauvin (João Calvino), segundo filho de Gerard Cauvin e Jeanne Lefranc. Seu pai era um oficial a serviço do bispo de Noyon. De sua mãe pouco sabemos, a não ser que era piedosa, de invejável beleza e que veio a falecer em 1515.



Gerard almejava para o filho a carreira eclesiástica e usou de sua influência para que o filho, com apenas doze anos, recebesse algum benefício eclesiástico que lhe serviria como uma bolsa de estudos. O jovem João recebeu, em maio de 1521, a Ordem de Tonsura, o que lhe permitiria realizar alguns atos religiosos, mas não todos, visto que não fora devidamente ordenado.

No entanto, os modos refinados de João foram obtidos com a nobre família a quem seu pai assessorava. Frequentou a mesma escola dos filhos da nobreza, o Colégio dos Capetos recebendo treinamento de qualidade.



Em 1523, não tinha ainda 14 anos completos quando o pai o enviou à Paris para receber treinamento eclesiástico. Primeiro estudou no Collège de la Marche onde o grande latinista Mathurin Cordier lecionava.



No ano seguinte, 1524, transferiu-se para o Collège de Montaigu, onde estudou gramática, filosofia e teologia. O Collège de Montaigu era famoso e por ele passaram importantes personagens como Rabelais, Erasmo de Roterdam e o espanhol Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Ali, os estudantes se comunicavam em latim e não em francês. Era um colégio procurado por famílias burguesas que buscavam projeção social tanto para si como para seus filhos. Mas o local era notável também pela sujeira (piolhos), mau cheiro, disciplina rígida e métodos educacionais ultrapassados. Calvino recebeu seu grau de Mestre em Artes no começo de 1528.



Seu pai envolveu-se em uma disputa com o bispo de Noyon, em 1527, o que fez com que resolvesse redirecionar a carreira do filho, da teologia para o direito. Caminho inverso havia feito Martinho Lutero. Sempre obediente João ingressou na Universidade de Orleans (1528/1529), onde lecionava o “príncipe dos juristas” Pierre de L’Estoile (1480-1537). Ao que parece, Calvino deixou Orleans antes de concluir o curso, mesmo assim a academia lhe conferiu o grau de Doutor em Direito.



Em 1529 ele transferiu-se para a Universidade de Bourges, a fim de ouvir o jurista italiano André Alciati (1493-1550). Seu interesse no humanismo evidenciou-se e começou a estudar grego com Melchior Wolmar (1496-1561), que era adepto da causa reformada. Em Bourges conheceria Teodoro de Beza, aquele bom amigo que o sucederia no futuro.



Em 25 de maio de 1531 Gerard falece e João se sente livre para seguir aquilo que naquele tempo o atraia, a literatura clássica. Abandonando o direito, segue para Paris e ingressa no Collège de France, fundado pelo rei, onde continuaria seus estudos literários.

Calvino retornou a Orleans em fevereiro de 1532 para concluir seu curso de Direito. Em abril do mesmo ano publica seu primeiro livro “Comentário ao Tratado de Sêneca sobre a Clemência”. Comercialmente o livro foi um fiasco, teve apenas uma edição que o próprio autor teve de bancar com todos os custos, mas era uma obra prima da erudição. Até essa data Calvino não havia dado sinais de interesse pelas questões religiosas, era uma humanista profundamente culto.

Em meados de 1533 ou início de 1534 Calvino passou por uma “súbita conversão”, quando estava em Orleans ou Paris. Pouco se sabe sobre isso, a não ser aquilo que ele mesmo fala no prefácio ao Comentário de Salmos:

Fui retirado do estudo de filosofia e me foi imposto o estudo de Direito. Nessa atividade eu me esforcei fielmente para aplicar-me, em obediência á vontade de meu pai; mas Deus pela orientação secreta da Sua providência, afinal deu direção diferente ao meu curso. E primeiro, desde que eu estava por demais preso às superstições do papado para ser facilmente desenredado de um tão profundo abismo de lama, Deus, por meio de uma conversão súbita, subjugou minha mente e produziu nela uma estrutura passível de deixar-se ensinar, a qual foi mais enrijecida nessas questões do que se esperaria de alguém como eu, no período inicial da vida.



Embora em momento algum mencione o elemento humano usado por Deus para isso, atribui-se a Pierre Robert [Olivetan], seu primo, papel significativo em sua conversão.



Outro fato intimamente ligado a isso foi o discurso feito por Nicholas Cop, quando assumiu a reitoria da Universidade de Paris, em 1 de novembro do mesmo ano. O discurso de Cop defendia a reforma da igreja numa linguagem tomada por empréstimo de Lutero e Erasmo. Isso provocou rápida reação das autoridades contra Cop e outros que eles entediam estarem infectados pela heresia luterana. Pensa-se que quem redigiu o discurso de Cop tenha sido Calvino, o que já implicaria em uma adesão as idéias de Reforma. Assim, tanto Cop quanto Calvino tiveram que fugir de Paris.



Calvino foi abrigar se na casa de um amigo em Angoulême, Luis du Tillet. Nesse período sente necessidade de romper com a igreja romana e seguir a causa da Reforma. Decide, então, ir a Noyon em maio de 1534 e renunciar aos benefícios que lhe tinham sido outorgados. Ao chegar a Noyon, no entanto, foi preso por um breve tempo. Isso fê-lo ciente de que a França não era lugar seguro, liberto decide ir para a Basiléia. Nesse mesmo ano publica uma obra pouco conhecida Psychopannychia onde combate a heresia do sono da alma que alguns anabatistas estavam defendendo.



Em Basiléia dedica-se a terminar a obra que havia começado em Angoulême, as “Institutas da Religião Cristã”, em janeiro de 1535. Em março é publicada a 1° edição de “Institutas da Religião Cristã”. Essa obra passaria por diversas revisões até chegar, em 1559, ao seu formato atual. Essa obra foi prefaciada com uma carta ao Rei da França, Francisco I, defendendo as crenças dos protestantes franceses perseguidos. Sua publicação conferiu a Calvino a liderança entre os reformados. Até então nenhum protestante falara com tanta clareza, controle e vigor.

Calvino fez uma breve viagem à Itália, certamente para expor a fé evangélica em 1536. Dali seguiu para a França, que naqueles dias havia concedido uma anistia temporária aos exilados franceses, onde tratou de assuntos particulares.



Acompanhado de seus irmãos Antoine e Marie, em junho, partiu para Estrasburgo, Alemanha, onde ele esperava achar um lugar de descanso e estudos. Como a estrada estava bloqueada pelas ações militares dos exércitos de Francisco I e de Carlos V, sua caravana foi desviada na direção de Genebra, onde tencionava passar apenas uma noite.



Pouco antes da chegada de Calvino, Guilhaume Farel (1489-1565) e Pierre Viret haviam levado Genebra a abraçar á causa da reforma. Quando Farel foi informado que Calvino estava em Genebra imediatamente o localizou e envidou todos os esforços para que ficasse para auxiliá-lo. Vendo que era difícil convencê-lo, lançou mão de ameaçá-lo dizendo que se não aceitasse ficar em Genebra Deus o amaldiçoaria. Diante de tais palavras, Calvino cedeu:

sob o impacto de tal imprecação, eu me senti tão abalado de terror, que desisti da viagem que havia começado.



A partir daquele momento seu futuro estava ligado ao de Genebra, sendo o principal cenário dos seus labores. Ele começou seu trabalho ali de maneira modesta, era um preletor sobre a Bíblia e só mais tarde foi nomeado pregador.



No início de 1537 Farel e Calvino conduziram as reformas, no entanto causaram atritos com as autoridades civis. Eles redigiram uma confissão de fé, um catecismo, estabeleceram o consistório, mas provocaram a ira de alguns do governo quanto à adequada disciplina da igreja.

Em abril de 1538 alguns indivíduos contrários às reformas de Calvino e Farel foram eleitos e a oposição cresceu a tal ponto que e ambos foram banidos de Genebra. Calvino retomou a intenção de ir à Estrasburgo em busca de sossego, enquanto Farel foi pastorear em Neuchatel.

Os três anos que passou em Strasburgo, sem dúvida foram os melhores de sua vida. Foram também anos decisivos para ele como reformador e teólogo.



Calvino, a convite de Martin Bucer (1491-1551), tornou-se pastor de uma igreja de refugiados franceses. Nessa igreja ele, além de outras atividades, pregava quatro vezes na semana.

Durante esse tempo Calvino refletiu seriamente acerca do papel da adoração na igreja e traduziu vários salmos para a métrica francesa. Com ele começou o canto congregacional dos salmos, o que se tornaria parte integrante di culto reformado francês.



Prelecionava teologia numa escola que um francês por nome John Sturm havia organizado. Ele lecionava três vezes por semana e recebia um florim semanal por suas palestras. Complementava a renda apertada advogando, dando aulas particulares, recebendo pensionistas e às vezes, vendendo uma ou outra das obras da sua biblioteca. Desse tempo chegou a declarar: “não consigo chamar de meu um único centavo”.



Calvino também tomou tempo para escrever. Ele revisou as Institutas, de tal modo que ficou pelo menos três vezes maior que a primeira edição. Essa nova edição foi publicada em gosto de 1539. Dois anos mais tarde (1541), publicou a primeira tradução das Institutas para o francês.

Ainda nesse mesmo ano, em março, publicou seu Comentário sobre a Epístola aos Romanos, que revisou em 1551 e 1556. Esse foi o primeiro de uma série que o colocou na primeira fila dos exegetas da Reforma. Calvino escreveu comentários sobre quase todos os livros da Bíblia, uma fonte de grande ajuda até os dias de hoje.



Também escreveu a Réplica a Sadoleto, uma resposta ao cardeal Jacopo Sadoleto que havia escrito à igreja de Genebra na tentativa de ganhá-la à causa romanista novamente. Essa é talvez a melhor apologia da fé reformada escrita no século XVI. Outra de suas obras foi o Pequeno Tratado sobre a Santa Ceia (1541), onde Calvino tenta uma posição mediadora entre as posições extremadas de luteranos e zuinglianos quanto ao assunto.



Em Estrasburgo Calvino também encontrou uma esposa. Idelette de Bure era viúva de um pastor anabatista chamado João Storder, com quem tinha dois filhos. Farel realizou o casamento em agosto de 1540, e a descreveu como uma mulher “íntegra e honesta e até bonita”. Idelette teve um aborto, perdeu uma filha e deu à luz um menino que viveu por cerca de duas semanas apenas (28/7/1542). Mais tarde Calvino escreveu:

Certamente o Senhor nos infligiu uma dolorosa ferida com a morte de nosso filho. Mas Ele próprio é pai e sabe o que é bom para seus filhos.



Mas logo Calvino enfrentaria a perca da própria Idelette que faleceria em 1549 vitimada pela tuberculose. Em uma carta disse:

A razão da minha tristeza não é comum. Fui privado da minha excelente companhia na vida, a qual, se alguma desventura tivesse ocorrido, teria sido minha companheira voluntária não só no exílio e na aflição, mas até na morte.



Em 1540 o Conselho (dos duzentos) de Genebra resolve convidar Calvino, Farel e Viret a voltar para dar continuidade àquilo que haviam começado. No entanto Farel não foi liberado pela igreja em Neuchatel e a igreja de Berna só permitiu a Viret se ausentar por um tempo. Em 1 de maio de 1541 o mesmo Conselho revogou o edito de banimento contra eles.



Calvino é chamado novamente à Genebra. Ele aceitou o convite com relutância, sabendo que muita hostilidade o aguardava. Numa carta a Farel diz ele:

Se tivesse a escolha a minha própria disposição nada me seria mais desagradável do que seguir o seu conselho. Quando me lembro, porém, que não me pertenço, ofereço o meu coração como sacrifício ao Senhor.



Desta vez quem levantou a questão do julgamento divino foi Bucer, dizendo que se ele se recusasse a voltar estaria agindo como Jonas, novamente a contragosto aceitou o convite.

Em 13 de setembro, uma terça feira de 1541 Calvino entra em Genebra. Um fato interessante é que no primeiro domingo depois de seu retorno, ele assumiu o púlpito da Catedral de S. Pedro e continuou a exposição exatamente de onde havia parado três anos antes!



Em novembro ele elaborou a uma nova constituição para a igreja local, as Ordenanças Eclesiásticas, que foi promulgada em novembro. Elas estabeleciam quatro ofícios, o de pastor, o mestre, o ancião (presbítero) e os diáconos. Os pastores deveriam reunir-se semanalmente para debates públicos, exame de candidatos ao ministério e exegese. O grupo de mestres cuidava do sistema educacional. O grupo de diáconos cuidava da beneficência, que incluía o hospital. Os anciãos junto com os ministros formavam o consistório, que se reunia uma vez por semana para aplicar a disciplina eclesiástica. Iam até a excomunhão, que só foi concedida em 1555.



Enquanto trabalhava arduamente para implantar as reformas em Genebra, seus livros, dentre eles as Institutas, eram queimados diante da Catedral de Notre Dame, em 1542.



Calvino preparou também um novo e mais amplo catecismo. Ele estabeleceu uma liturgia baseada na da sua congregação de Estrasbrugo onde havia uma feliz combinação entre orações fixas e espontâneas, além do destaque especial ao canto. Sempre muito atarefado pregava duas ou três vezes por semana, segunda, quartas e sextas, as terças, quintas e sábados dava palestras públicas. Presidia o Consistório, também visitava enfermos e prisioneiros, cuidava dos refugiados, celebrava batismos, casamentos etc.



Sob sua direção, que só era um dos ministros da cidade, muito foi feito pela educação e incremento do comércio. A intenção de Calvino era fazer de Genebra um modelo de comunidade cristã. Sua posição estritamente evangélica atraiu grande número de refugiados da França, Itália, Paises Baixos, Escócia e Inglaterra, e entre eles havia muitas pessoas de posição, cultas e ricas. O próprio Calvino era estrangeiro e só recebeu a cidadania no fim da sua vida. Diz-se que se referiam a ele como “aquele francês”.



Entre os refugiados destaca-se um escocês chamado João Knox que se referia a igreja onde Calvino ministrava de “a mais perfeita escola de Cristo desde os dias dos apóstolos”.



A oposição sempre fora muito ativa. Era feita por dois tipos, os que se aborreciam por qualquer tipo de disciplina e pelas das famílias que consideravam Calvino, seus ministros e os refugiados como impostores estrangeiros. Se a oposição chegou a formar um partido chamado dos “Libertinos” é coisa envolta em debates, mas que era ferrenha tanto quanto dissoluta isso ninguém nega.



Sabe-se que seus inimigos atiçavam cães contra ele, atiravam-lhe objetos, faziam trocadilho do seu nome com o de Caim, davam seu nome aos cães, o humilhavam sempre que podiam. Homem de fibra que era,resistia a tudo isso.



De maneira geral os que se opunham às rígidas disciplinas que se impunham se orgulhavam de uma vida licenciosa. Eram abertamente adúlteros, promíscuos, desonestos e ainda assim entendiam que podiam tomar parte na ceia do Senhor. Calvino se opunha a isso com veemência. Houve um conflito épico com certo Philibert Berthelier, que por sua vida pecaminosa havia sido proibido de participar da ceia do Senhor. Como tinha bons relacionamentos, o Conselho Municipal anulou a decisão da igreja, e Berthalier, junto com alguns que o apoiavam, desafiadoramente foi à igreja para participar da ceia. Calvino desceu do púlpito, colocou-se à frente da mesa onde os elementos estavam dispostos, e disse: “Vocês podem esmagar estas mãos, podem cortar fora estes braços, podem tirar a minha vida, meu sangue é de vocês, podem derramá-lo, mas jamais me forçarão a dar as coisas sagradas ao profano e desonrar a mesa de meu Deus”. Berthalier e seus companheiros, frente a tamanha convicção e coragem, retiram-se.



Outro momento crítico, entre 1548-1555, nasceu do fato dos habitantes temerem que fossem politicamente desbancados pelos refugiados e que colocassem Calvino numa posição inabalável. Esses foram dias críticos, tudo aquilo que realizara poderia ser posto abaixo.



Um ex-frade e médico que havia abraçado os ideais reformados, chamado Jerome Bolsec (1520-1584) acusou Calvino de erro quanto a questão da predestinação. A intenção de Bolsec era abalar a reputação de Calvino como intérprete das Escrituras, obtendo êxito nisso, colocaria tudo a perder. Em 1551, Calvino apresentou o assunto ao governo da cidade. Bolsec foi processado e Calvino, com alguma dificuldade, conseguiu seu banimento. Bolsec retornou à comunhão romana e vingou-se de Calvino escrevendo uma biografia (06/1577) onde o caluniou grosseiramente.



O mais doloroso dos embates, no entanto, surgiu com o espanhol Servetus, em 1553. Em uma de suas obras Servetus atacou a doutrina da trindade, a cristologia de Calcedônia e o pedobatismo considerando-os como as principais causas da corrupção da igreja. Também havia tecido duras críticas às Institutas de Calvino em cartas que lhe escreveu (1445). Já havia sido condenado á morte por heresia em Lyon, mas escapara da prisão em Vienne. Servetus sabia que se fosse à Genebra seria preso e executado, mesmo assim seguiu para lá. Talvez tenha imaginado que os opositores de Calvino lhe dariam guarida. A oposição não se colocou ao seu lado abertamente, mas se aproveitou da situação para causar problemas a Calvino. Servetus nutria a esperança de que num julgamento fosse absolvido, então aproveitou a oportunidade para exigir que Calvino fosse exilado e seus bens confiscados e que lhe fossem entregues. No entanto, o desfecho não lhe foi positivo, foi condenado à morte na fogueira em 27 de outubro. Calvino agiu, infelizmente, como filho de sua época. É preciso entender que naqueles dias, a condenação de um herege à morte era a lei do estado, com a qual concordavam protestantes e católicos. O fato, embora terrível, resultou no fortalecimento da posição de Calvino e ainda livrou as igrejas suíças de qualquer suspeita de heterodoxia.



A situação de Calvino melhorou consideravelmente nos anos seguintes, embora nunca sem oposição.


Em 1559 Calvino coroou sua obra com a fundação da Academia Genebrina, a Universidade de Genebra. Logo se tornou ela o maior centro de ensino teológico das comunidades reformadas e também o grande centro de onde foram enviados numerosos ministros, não só para a França, mas também Paises Baixos, Inglaterra, Escócia, Alemanha e Itália. Nesse mesmo ano recebeu a cidadania da comunidade pela qual trabalhou tão arduamente.



Nos últimos anos de vida a saúde de Calvino, que sempre fora frágil, piorou consideravelmente. Três meses antes de falecer, numa carta enviada aos médicos franceses que lhe enviaram medicamentos, arrolou entre suas doenças a artrite, pedras nos rins, hemorróidas, febres, nefrite, indigestão severa, cólicas, úlceras e emissão de sangue na urina.



Em fevereiro de 1564, ele passou mal no púlpito e foi obrigado a descer cambaleando, mas ainda assim trabalhou arduamente em seu escritório. Quando tentavam dissuadi-lo disso respondia:

Quando o Senhor vier, você gostaria que Ele me visse ocioso?



Em 27 de março esteve presente numa reunião do Conselho e com muita dificuldade, pondo-se em pé, agradeceu com humildade a bondade que lhe tinham dispensado.



Em abril sofrimento era tão intenso que se declara convencido de que é da vontade de Deus tirá-lo deste mundo. Dois dias antes de escrever estas palavras havia pregado o que se constitui seu último sermão, tendo sido carregado em sua cama para o púlpito.



Em 27 de maio cessam os sofrimentos, Calvino falece e, segundo o seu pedido, foi sepultado em cova simples, sem uma lápide. Disse ele:

Desejo que meu corpo seja sepultado, depois de minha morte, de maneira comum para esperar o dia da bendita ressurreição.

Assim se sucedeu, de tal modo que o lugar exato de sua sepultura é desconhecido.



Calvino era um homem magro, estatura mediana, rosto sisudo, testa larga, olhos penetrantes e intelecto privilegiado. Lloyd-Jones diz que devido à asma, falava lentamente e não se poderia descrevê-lo como eloquente. Era sempre muito reservado e discreto, em razão disso alguns detalhes de sua vida ficaram ocultos de nós.

Dizem alguns que era sempre irado. De fato não deveria ser fácil controlar a irritação em um contexto de constante oposição hostil. Ele mesmo confessa seu destempero com tristeza:

Eu pequei gravemente, não sendo capaz de me manter dentro dos limites; a ira se apoderou de minha mente de tal modo que eu derramei amargura por todos os lados... quando cheguei à minha casa fui tomado por extraordinário paróximo de modo que não acehi outro consolo senão nos suspiros e lágrimas.



Era homem de elevada moral, era um crítico da imoralidade dos seus dias, o que na juventude lhe valeu o apelido de “o caso acusativo”. Se de fato era assim é interessante que tivera tantos amigos, em tantos lugares e até mesmo alguns que dele divergissem. Certamente era um homem provido de algum grau de ternura, algo perceptível no seu trato familiar, nas amizades duradouras com Farel, Melancthon, Bucer, Beza e outros, além do claro testemunho disso nos seus cuidados pastorais.



Calvino era um trabalhador incansável, como seu pai. Punha-se em pé às cinco horas da manhã e não se deitava cedo. Mesmo quando estava enfraquecido pelas doenças, trabalhava arduamente dedicando-se em muitas frentes.



Estava sempre envolvido nos afazeres pastorais, não só com os que eram da sua comunidade. Visitava enfermos e encarcerados, cuidava dos refugiados, inclusive tentando colocá-los no mercado de trabalho. Pregava e dava preleções várias vezes na semana. Achava tempo ainda para escrever cartas, pelo menos 4 mil delas foram publicadas! Também cuidava de revisar as obras que já havia escrito, além de escrever outras, no total de cinqüenta e nove. Participava de discussões e debates. Administrava a cidade e zelava para que tudo estivesse a contento. Ainda achava tempo para cuidar da família, dos filhos que Idelette lhe deixou e dos filhos do primeiro casamento de seu irmão, de modo que sua casa estava sempre cheia de crianças.



Viveu com extrema simplicidade, quase um asceta. Quando os opositores espalharam boatos de que era rico, refutou dizendo que seu testamento os desmentiria, o que de fato aconteceu. Nem mesmo a mobília de sua casa lhe pertencia, pois era da República.



Teve uma vida cheia de sofrimentos constantes. De constituição física frágil, teve muitas doenças como companheiras durante a vida toda. Sofreu com a morte do filho e depois com a da esposa. Sofreu com as injúrias daqueles que se opunham às reformas que ele implantava em Genebra. Sofreu com os escândalos dentro de sua família quando a esposa de seu irmão foi surpreendida em adultério e mais tarde com sua afilhada que foi acusada de pecados grosseiros, sendo disciplinada pelo Consistório que ele presidia.



Tinha um espírito senhoril, mas sempre foi descrito como humilde. Durante toda a sua vida fez sempre questão de esconder-se à sombra da cruz. Dizia ele:

Tudo o que fiz não vale nada. Os ímpios serão capazes de agarrar essa minhas palavras com avidez, mas eu repito: não fiz nada digno de qualquer coisa. Sou uma miserável criatura.



Timoty George declara:

Nós não servimos à verdade retratando Calvino como angelicalmente bom ou como diabolicamente mau. Ele foi, como Lutero declarou que todos os cristão são, ao mesmo tempo santo e pecador.



Seu sucessor, Beza, estará sempre com a razão ao dizer que João Calvino será sempre

o mais belo exemplo de caráter cristão, um exemplo que é tão fácil de caluniar quanto difícil de imitar.



O que fez de João Calvino um homem singular, penso eu, foi o fato de que tinha por objetivo viver para a glória de Deus e a isso se dedicar completamente, sem pena do seu corpo nem de qualquer coisa que pudesse ter como sua.



Soli Deo Glória.