terça-feira, 28 de abril de 2009

O Que Está Errado no Homem?

Dr. Martyn Lloyd-Jones


Na ordem de importância e seqüência lógica à pergunta "Que é o homem?", aparece a questão vital: "O que está errado no homem?" Não podemos, neste assunto, agir baseados em suposições, assim como não podíamos quando tratamos da questão anterior, acerca da real natureza humana. Em períodos de crise e de tribulação, somos tentados a nos lançar­mos à ação, aplicando vários tipos de tratamento. Mas o tratamento inteligente sempre deverá ser antecedido pelo diagnóstico; necessária e inevitavelmente, haverá a conexão lógica entre o diagnóstico e o tratamento. O primeiro, como é claro, determina e controla o segundo. Se sentirmos que o erro é superficial, nosso tratamento não será drástico. Mas, por outro lado, se considerar­mos grave a situação, será exigido um tratamento mais radical.

Quando passamos a discutir essa questão sobre o que está errado no homem, descobrimos, uma vez mais, que há apenas duas perspectivas, a bíblica e a não-bíblica. Mais ainda, descobrimos que essas duas posições continuam sendo, exata e precisamente, o que sempre foram, embora a terminologia tenha se modifi­cado um pouco. Trata-se do mesmo grande contraste, estabelecido na Bíblia, entre os que são chamados ver­dadeiros profetas e os falsos profetas. E tudo quanto temos a dizer sobre o ponto de vista inteiramente falso de hoje em dia, acerca do que está errado no homem, foi dito com perfeita lucidez, pelo profeta Jeremias, centenas de anos passados, quando se referiu aos falsos profetas que lhe eram contemporâneos: "Curam super­ficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz" (Jr 6.14). Esse tipo de profeta continua vivendo entre nós; continuamos a enfrentar a questão do que exatamente está errado no homem.

Quando examinamos a posição contemporânea, à luz dos ensinamentos da Bíblia, somos relembrados, em doses crescentes, sobre a verdade da declaração de Hegel, no sentido que "a história nos ensina que a história nada nos ensina". A despeito de tudo quanto tem sido experimentado no século presente, com duas guerras devastadoras, a humanidade parece continuar nutrindo as mesmas antigas ilusões e continua culpada de um otimismo fatal em relação ao homem. De fato, a humanidade parece ser uma espécie de incorrigível Sr. Micawber, sempre esperando que alguma coisa suceda, sempre confiando que a solução para todos os nossos problemas nos aguarda após dobrarmos uma esquina mágica.

O resultado é que os falsos profetas, que nos pro­fetizam o lazer e o prazer, são tão populares hoje em dia quanto o eram entre o antigo povo de Israel, e o verdadeiro profeta é tão desfavorecido hoje em dia quanto o foi Jeremias. Os falsos profetas mostravam-se otimistas. Jeremias parecia ser um pessimista extremado. Mas, os eventos subseqüentes mostraram que ele estava com a razão. Visto que toda a nossa contenda está no fato da própria condição do mundo moderno comprovar que o diagnóstico bíblico sobre as mazelas do homem é o único diagnóstico veraz e acurado, não poderíamos fazer algo melhor do que considerar os pontos de vista da Bíblia no tocante às dificuldades do homem, nos termos daquela acusação feita por Jeremias contra os falsos profetas de seus dias. Trata-se de uma análise perfeita e da condenação de todo o falso otimismo que é tão popular em nossos próprios dias.

Antes de tudo, consideremos e desmascaremos os erros e as falácias que subjazem àquele ponto de vista otimista da vida, sustentado pelos falsos profetas, os quais vivem sempre prontos a clamar: "Paz, paz", e que nos asseguram que em breve tudo irá bem. Antes de mais nada, é claro que se trata de um ponto de vista superficial da vida, o que se evidencia pela vivacidade com que tal posição sempre se expressa. Com um sor­riso nos lábios, os falsos profetas sempre dão a impressão de que a situação é perfeitamente simples e que pode ser tratada prontamente. De fato, aquilo que sempre os deixa perplexos é que alguém possa imaginar, ao menos por um momento, que a situação envolve alguma dificuldade. Esse otimismo superficial mostra-nos, obviamente, um tipo definido de mentalidade. Em qualquer área em que exista um problema, a atitude deles é sempre a mesma.

Tomemos, como ilustração, o campo pseudo-científico. Alguém lê o rótulo no frasco de certo medicamento charlatão e tem a impressão que sua enfermidade pode ser curada com facilidade. Tudo quanto precisa fazer é tomar o remédio, e imediata­mente tudo lhe irá bem. As afirmações confiantes podem dar a impressão de que a principal dificuldade que envolve a profissão médica é que ela magnífica os problemas e exagera as dificuldades.

Examinemos um outro exemplo: uma manifesta­ção de idêntica atitude, durante a segunda guerra mundial. Houve agitação no sentido de exigir a aber­tura de uma segunda frente de batalha na Europa. Segundo os escritos e os discursos da maioria dos estrategistas amadores, na realidade não havia qualquer dificuldade envolvida na questão. Os aliados tinham somente de cruzar o canal da Mancha, desembarcando um exército na França, e tudo correria bem. Para aqueles "eruditos" não havia quaisquer dificuldades ou problemas e deram a impressão de que os grandes responsáveis pela estratégia militar, a saber, os mais altos oficiais, eram apenas embotados e sem muita inteligência, homens que imaginavam dificuldades e problemas. Para aqueles amadores, entretanto, a situa­ção inteira parecia simples e clara.


Ora, ocorre precisamente a mesma coisa no tocante ao problema da vida e da existência. Para os falsos profetas, não existe qualquer dificuldade real. Sua perspectiva sobre a situação é superficial. Conforme dissera Jeremias, esses curam "superficialmente" a ferida do povo. Seu diagnóstico é que há pouca coisa errada.

E importante que desdobremos essa teoria em seus detalhes. A essência dessa posição é que o homem está bem nos aspectos fundamentais, e que as dificuldades, quaisquer que sejam, não se originam de algo que esteja radicalmente errado na natureza humana. Para alguns desses teóricos, o problema da vida, da humanidade e do mundo é simplesmente uma questão de desenvolvi­mento e de evolução. Argumentam eles que o homem se desenvolveu a partir dos animais e por isso é inevi­tável que, por determinado período, ele continue apresentando traços dos limites e das imperfeições que lhe foram impostos por causa de sua natureza animal. Mas, segundo afirmam, a grande coisa a que devemos nos apegar é que o homem está se desenvolvendo, pro­gredindo e melhorando. Somos convidados, pois, a examinar o começo da história do homem e a observar com deleite o grande progresso que ele tem feito. Somos solicitados a comparar o homem, em seu estado primi­tivo e rude, com o que ele é na atualidade. Então, essas mesmas autoridades nos dizem, com uma modéstia irônica e desconcertante, que estão preparados a admitir que o homem não está perfeito e ainda precisa percorrer certa distância.

O problema, afirmam eles, é puramente uma questão de tempo. Precisamos apenas ser pacientes e, aconteça o que acontecer em nossos dias e em nossa geração, devemos compreender que somos parte desse grande processo que perene e firmemente vai se des­dobrando, em direção à perfeição. Não há qualquer necessidade de ficarmos alarmados ou desapontados devido a aparentes discrepâncias e reversões. Basta que se dê tempo suficiente, e tudo se mostrará perfeita­mente certo. Não temos necessidade de detalhar esse ponto de vista, porquanto tem sido o mais popular, concernente à vida, nos últimos oitenta ou cem anos. Intimamente ligada a esse ponto de vista, existe a opinião que considera os problemas da vida humana puramente em termos do intelecto e da educação. Essa perspectiva não é precisamente tão mecânica como a anterior, nem insiste com tanta firmeza acerca da inevitabilidade do progresso. Ela considera que a ver­dadeira raiz da dificuldade consiste no fato do homem não pensar nem raciocinar. Segundo essa posição, o homem não é realmente mau, mas tão-somente recusa-se a pensar! Vê-se afligido com uma espécie de inércia mental, principalmente por não ter ainda se apercebido da verdadeira natureza das admiráveis tendências que jazem em seu interior. Durante tantas eras ele tem se acostumado a viver como se fora um mero animal, reagindo aos diversos instintos e impulsos de sua natureza animal e permitindo que o seu destino seja determinado por forças e fatores existentes fora de si mesmo, ao ponto de se mostrar lento em fazer valer esses poderes mais elevados que residem em seu interior. Em sua cobiça, deseja algo e tenta obtê-lo, mas acaba sofrendo resistência por parte de outrem que deseja a mesma coisa. E, posto que cada um é governado pela cobiça e pela paixão, tem início uma luta entre os dois. O resultado é que se destroem mutuamente, sem que qualquer deles consiga o prêmio cobiçado. Se ao menos desde o início tivessem o bom senso de fazer uma pausa e de pensar, raciocinar e negociar, quão melhores seriam as coisas para ambos. E por que não haveriam eles de agir assim? Ambos possuem inteligência e as faculdades necessárias para tanto. Segundo esse ponto de vista, defendido essencial­mente pelo falecido H.G. Wells, não há necessidade de pintar um quadro negro e sombrio do homem, em termos de pecado e de maldade radical. As dificuldades do homem se devem simplesmente à sua estupidez e recusa de pensar; mas isso pode ser curado pela educação.

Outra manifestação comum desse ponto de vista superficial sobre os males da humanidade se vê na declaração de que nossas perturbações se devem, inteira e exclusivamente, às circunstâncias e ao meio ambiente. Uma vez mais, essa perspectiva não exige aqui elabo­ração, porquanto nos tem sido dito constantemente, por anos a fio, que as nossas dificuldades resultam inteiramente de causas econômicas e sociais, que se manifestam em termos da distribuição de riquezas e das condições de moradia. Se alguém por acaso se inclina a pensar que estou caricaturando essa posição, para ridicularizá-la, eu simplesmente solicitaria a essa pessoa que escutasse um típico comentarista de rádio, enquanto ele soluciona divertidamente todos os nossos problemas, em seus programas de rádio, ou então que escutasse as conversas de homens comuns, ao discutirem acerca desses assuntos. A impressão que se tem é que a questão é bastante simples. Essa impressão de superficialidade é observada por suas maneiras e pelo tom de voz, bem como pelas afirmativas feitas, no tocante às causas exatas de nossos males e de nossas dificuldades. Do mesmo modo, fica claro que uma acusação semelhante pode ser levantada contra o tratamento pro­posto por essas pessoas. Mais uma vez, a impressão imposta a nós é que tudo pode ser corrigido com extrema facilidade. Não há necessidade de medicação urgente e de curas radicais. Acima de tudo, não há qualquer necessidade de transformação dos indivíduos, pelo menos de natureza tão radical que mereça a descrição de regeneração ou novo nascimento. Tudo quanto se faz necessário é que os homens sejam educa­dos, pensem e planejem, organizando e impondo certas medidas legislativas que igualariam as condições econômicas, provendo trabalho para todos, garantindo a todos boas condições de moradia e assegurando opor­tunidades iguais para todos. Esses são os paralelos modernos do que, em séculos passados, se expressava mediante termos como "liberdade, igualdade e fraternidade", ou, em tempos ainda mais remotos, pelas palavras "paz, paz". Assim a impressão dada é que a solução é muito simples! E sendo tão pequeno o erro existente, poderia com facilidade ser reparado.

Todavia, precisamos examinar essa posição um tanto mais cuidadosa e criticamente, tendo de enfrentar a questão sugerida de imediato, a saber: qual o motivo da humanidade ter um conceito tão superficial acerca desse problema e sua cura. Por que nos dispomos tão prontamente a dar ouvidos aos falsos profetas, aplau­dindo-os quando dizem "Paz, paz"? A resposta a essa indagação também é suprida pela afirmação de Jeremias. A verdade é que a mente dos falsos profetas é tão inclinada para os preconceitos e distorções, tão controlada por determinadas idéias, que eles se tornam incapazes de pensar com clareza e veracidade. Isso transparece sob duas formas principais.

Esse fato transparece, antes de mais nada, na atitude geral dos falsos profetas e na própria maneira como abordam o problema. Já nos referimos ao espírito e ao modo despreocupado que sempre têm caracterizado tais pessoas. Dão sempre a impressão, desde o começo, que estão resolvidos a não encontrar grandes erros. Muito se ouve, em nossos tempos, acerca de crer naquilo que a gente deseja que seja verdade; qualquer que seja o nosso pensamento sobre o que tem sido intitulado de nova psicologia, todos precisamos concordar que tendemos por deixar-nos controlar por preconceitos e que nada é tão difícil quanto pensar livremente e com mente aberta.

Alguns homens, por natureza, inclinam-se por subestimar problemas e dificuldades; ao passo que outros, igualmente devido à sua natureza, tendem por engrandecê-los e exagerá-los. Quando dois homens assim são chamados a enfrentar o mesmo problema, pode-se até predizer, mais ou menos, o que cada um dirá. O otimista convicto sem dúvida alguma dirá: "Está tudo bem", antes mesmo de haver começado a examinar o problema. Mostra-se tão ansioso por descobrir pouco defeito e tão preparado para gritar: "Paz, paz", que dificilmente descobrirá grandes erros. Não é que ele seja desonesto ou que se recuse a aceitar as evidências, os sintomas e os sinais, mas é que está cego por causa de seus preconceitos.

O resultado dos preconceitos se vê com igual clareza na atitude dos falsos profetas para com os profetas autênticos. Quão amargos foram os falsos profetas da antigüidade, contra Jeremias e contra outros! Nosso próprio Senhor, certa vez, clamou, angustiado de coração: "Jerusalém, Jerusalém! que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!" (Mt 23.37a). Os falsos profetas não se contentavam apenas em desobedecer. Eram amargurados e maldosos. A atitude deles em odiar e perseguir os profetas de Deus revela, uma vez mais, uma mentalidade que é exata­mente o oposto da tranqüila perspectiva científica. É impossível pensar com clareza em tal estado mental. As pessoas que, na amargura, no escárnio e na maldi­ção, repelem a religião cristã, tão-somente declaram que nunca a consideraram, pelo fato de serem incapazes de honestamente pensar a seu respeito, por mais argutos e bem qualificados que sejam em outros campos. E precisamos admitir que isso continua a se manifestar no tempo presente. Os homens raramente se satisfazem com um mero discordar dos ensinamentos da Bíblia. Sentem a necessidade de lançá-la no ridículo e de amaldiçoá-la. Precisam zombar dela, exibindo seus sentimentos e ímpetos contra ela. Eles simplesmente demonstram os seus preconceitos, embora agir dessa maneira seja a própria antítese do raciocínio calmo e lógico.

Contudo, assim como desse modo os falsos profetas revelam os seus preconceitos em geral, com igual clareza podemos mostrar que isso afeta também os detalhes de seus processos de pensamento. Não é evidente, por exemplo, que eles começam estabele­cendo um padrão falso? Situam a felicidade antes da saúde. Seu profundo desejo é serem capazes de dizer que tudo vai bem. Aquilo que eles mais querem é estar livres da dor.

Isso é algo com que todos podemos simpatizar. Em qualquer situação de anormalidade ou doença, aquilo que tende por monopolizar a nossa atenção é a dor e o sofrimento. Enquanto perdurar tal situação, não nos interessaremos por outra coisa. Simplesmente desejamos receber alívio para aquela dor, qualquer coisa que diminua a nossa agonia e o nosso sofrimento. Esse é o principal pedido que fazemos ao médico que nos vem tratar. Tal desejo é perfeitamente legítimo. É essencial que o médico faça tudo ao seu alcance para aliviar o sofrimento.

Porém, caso ele com nada mais se preocupasse senão com o aliviar a dor, então não só seria um médico falso, mas também seria uma ameaça contra os melhores interesses do paciente. Porquanto o que um enfermo realmente precisa não é do mero alívio para a dor, mas é da cura para a enfermidade que causa a dor. As drogas que aliviam as dores podem, ao mesmo tempo, estar mascarando sintomas, cujo desígnio é chamar a atenção para a condição de enfermidade. É coisa fácil, por exemplo, aplicar uma injeção de morfina em um paciente, para aliviar-lhe a dor. Todavia, o alívio do sofrimento, sem a busca honesta pela causa da dor, daria ao médico a reputação de ser superficial, quase que criminosamente. A dor é um sintoma de enfermi­dade e tem por objetivo natural capacitar o médico a localizar a causa essencial da dificuldade.

Empreguemos uma outra ilustração: sob a influ­ência do álcool, o homem pode sentir-se perfeitamente feliz por algum tempo; mas a pergunta é: resolveu ele os seus problemas? Colocar a felicidade antes da saúde e considerá-la o bem supremo é ser culpado de um engano fundamental na questão dos padrões a serem usados.

Esse procedimento impensado também inclui uma outra falácia maior, a de deixar de perceber que, em última análise, a felicidade depende da saúde e dela resulta. Qualquer outro tipo de felicidade é negativo e depende tão-somente da ausência de condições que impeçam a sua existência. Entretanto, por mais que nos esforcemos por diminuir a nossa tristeza, enquanto continuar a doença não haverá verdadeira felicidade. Assim sendo, nada é tão falaz e tão fatal à autêntica felicidade quanto o fazer da própria felicidade e do lazer finalidades em si mesmos. Quando nosso Senhor declarou: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos" (Mt 5.6), não quis Ele dizer que esses seriam felizes por terem fome e sede de felicidade. A bem-aventurança, a felicidade, a alegria é algo que resulta de buscarmos a retidão e de nos tornarmos justos. Trata-se de um subproduto, um re­sultado final. Não podemos colocar a bem-aventurança ou felicidade na posição suprema. Antes, convém, que busquemos a retidão; e então, tendo-a encontrado, nos sentiremos felizes e repletos de bem-aventurança.

Porém, o que finalmente explica o fracasso dos falsos profetas, em não poderem pensar claramente, é que eles estão deliberadamente resolvidos a se defen­derem e a pensarem de si mesmos em termos positivos. O orgulho é a raiz do problema. O ponto de vista dos falsos profetas começa com o postulado que, seja qual for a causa das dificuldades da vida, ela não se encontra no próprio homem.

Todos nós por acaso não conhecemos algo desta suposição, em nossas próprias vidas e experiências? Nada há que tanto nos desgoste como a crítica ou a sugestão de que estamos errados. Quão astutos somos, ao justificar o que fazemos ou ao racionalizar os nossos próprios pecados! Quão difícil é vermos defeitos e máculas em nós mesmos, quando os podemos reco­nhecer à distância, nos outros!

A perspectiva de um falso profeta para com o homem e seus problemas é idêntica, somente que em escala maior. A suposição inicial é que o próprio indi­víduo nada tem de errado. Portanto, a causa da perturbação deve ser procurada e encontrada em algum outro lugar; e nada pode ser admitido como fato, se puser em dúvida a integridade inerente do homem. É por essa razão que o ensinamento bíblico acerca do pecado no coração humano, como causa de todos os males, é profundamente ofensivo aos homens, sendo esse, acima de tudo, o aspecto do evangelho, nos seus ensinamentos, que os homens mais fortemente objetam. Em outras palavras, o tribunal já foi subornado, antes mesmo do caso ser apresentado em juízo. O juiz e o júri já foram aliciados e estão eivados de precon­ceitos. O veredito foi decidido antes de qualquer evidência ser trazida à luz. Assim, o homem deve ser absolvido, e, naturalmente, ele o é. Começando com a fixa determinação de evitar qualquer coisa desagradável ou desconcertante para nossa auto-estima e para nosso orgulho, e desejando, acima de tudo, o lazer e a felici­dade, o homem encontra pouquíssima dificuldade nesse ponto de vista sobre a vida, e precisa de bem pouco tempo para persuadir a si mesmo de que tudo vai bem, gritando então: "Paz, paz".

A questão vital, porém, é: Porventura há paz? Ao fazer tal indagação e ao fornecer-lhe a resposta, a mesma dada há tantos séculos por Jeremias, chegamos à nossa terceira afirmativa concernente a esse raso ponto de vista sobre a vida. Fica comprovado, pelo teste dos fatos e da história, que é um ponto de vista inteiramente falso. Os falsos profetas clamavam "Paz, paz"; mas não havia paz. Quando aprenderemos que não há paz permanente neste mundo e deixaremos de dar atenção aos falsos profetas? O fato de ser necessário salientar esse ponto, numa época como a nossa, quando acabamos de experimentar duas devastadoras guerras mundiais, ambas neste século, é prova, por si mesmo, da cegueira que aflige esse otimismo fatal que atinge a humanidade em sua natureza. Mas, devido à nossa cegueira, esse é um particular que deve ser salientado e repetido interminavelmente, se quisermos ser salvos.

Temos de enfrentar, portanto, questões como as seguintes: Por quanto tempo ainda teremos de esperar, antes que esse movimento ascendente e essa tendência, na humanidade, evolua a um estado de final e completa perfeição? Haverá alguma esperança para nós, ou teremos apenas de sonhar acerca de tal esperança, porquanto só se concretizará após muitas e muitas outras eras de tempo? Haverá qualquer evidência real da existência de tal avanço? Uma vez mais precisamos considerar se o mundo está se tornando mais feliz, melhor e mais gentil; se os problemas da vida estão diminuindo gradualmente em número e decrescendo em complexidade; se a desumanidade do homem contra o homem é menos evidente hoje em dia do que era antes. No entanto, todos esses problemas exigem resposta: Há provas do incremento de virtudes positi­vas? E o que dizer sobre a idéia de que tudo o quanto necessitamos é aplicar nossa capacidade cerebral, desenvolver nosso intelecto e expandir nosso conheci­mento? As pessoas dotadas de habilidade estão isentas desses problemas? O intelecto garante uma vida de felicidade perfeita? O homem que adquiriu conheci­mento e cultura, necessariamente é um modelo de todas as virtudes? Está tal homem imune a todas as enfermi­dades e dificuldades das quais a carne é herdeira? Aplica ele, invariavelmente, o seu conhecimento e os seus poderes de raciocínio, quando atraído por aquilo que sabe ser errado ou prejudicial, mas que, não obstante, lhe é atrativo e que lhe satisfaz?

Se quisermos as respostas, teremos apenas de ler as obras dos grandes escritores do mundo. Tais homens, algumas vezes, se acham entre os maiores sofredores do mundo e, com freqüência, têm suportado agonias mentais e espirituais mais pungentes do que qualquer outro tipo de pessoa. De fato, no terreno de suas rela­ções pessoais, com freqüência têm fracassado da maneira mais trágica. A filosofia de Bacon, a qual diz que "conhecimento é poder", tornou-se um popular "slogan" moderno. Mas a história, as biografias e os registros dos tribunais de justiça, bem como as colunas dos jornais, relatam uma realidade inteiramente diversa. À parte de tudo isso, entretanto, se a nossa salvação jaz no intelecto e no conhecimento, que esperança pode haver para aqueles que não foram dotados de grande intelecto, os quais, portanto, não podem ter a esperança de aprender? Uma salvação que pode salvar apenas alguns é uma zombaria e uma imitação burlesca da palavra.

Do mesmo modo, podemos ver que uma simples mudança de condições não tem possibilidade de solu­cionar o problema. São felizes todos quantos são suficientemente abastados? A possessão de coisas, casas e bens soluciona, na realidade, todos os problemas? Quem, geralmente, é mais feliz, o rico ou o pobre, o habitante da cidade ou o do campo? Em qual classe se verifica o maior número de tragédias, ou em qual delas se experimenta uma maior profundidade de miséria e desolação? A resposta, naturalmente, é que, em última análise, as condições fazem bem pouca diferença em nossa felicidade ou no caráter de nossa vida. Pelo menos, se fazem diferença, então é que estamos tendo uma modalidade de vida das mais precárias. As coisas que determinam o nosso tipo de vida são muito mais profundas — o amor ou o ódio, a inveja ou a generosi­dade de espírito, o egoísmo ou a disposição de ajudar a outros, bem como todas as várias outras qualidades de caráter que contribuem para determinar as relações humanas. Os nossos problemas e tribulações originam-se em nós mesmos e naquilo que somos.

Não queremos negar o valor da educação ou das condições econômicas. Todas as criaturas humanas têm direito a certa medida de vida decente no mundo presente e deveriam exigi-la como algo que lhes cabe; mas dizer que isso basta, e que tais coisas solucionam, sozinhas, todos os nossos problemas, é exibir um ponto de vista inteiramente falso acerca da vida. Realmente, tudo isso nos faz lembrar crescentemente daquelas palavras de Shakespeare:

A falha, querido Bruto, não se acha em nossas estrelas,

Mas em nós mesmos, que somos subalternos.

Aqueles que clamam, "Paz, paz", alicerçados sobre base tão superficial, são falsos profetas, para quem os fatos da vida replicam clamorosa e tragica­mente: "Não há paz".

Antes que possam ser solucionados os problemas da vida e dos homens, precisamos primeiramente entender a verdadeira natureza do problema. Visando esse fim, precisamos lançar fora todos os nossos preconceitos e deixar de ser governados pelos nossos desejos. Devemos estar preparados para pensar com honestidade, fazendo um exame e uma análise completos, o que nos sondará em profundidade, perscrutando tanto os nossos motivos como as nossas ações.

Onde podem ser encontrados tal exame e tal análise? Faz parte da própria essência da religião cristã afirmar que isso só pode ser achado na Bíblia. Ali temos a revelação do que Deus pensa sobre o homem e do que Deus tem feito a respeito do homem. Tal ponto de vista é repetido e ilustrado interminavelmente ali. De conformidade com esse Livro, as dificuldades do homem se devem ao fato que ele pecou e se rebelou contra Deus. Foi criado em estado de felicidade, a qual dependia de seu relacionamento com Deus e de sua obediência às leis e à vontade de Deus. No entanto, o homem rebelou-se contra a vontade de Deus e trans­grediu a lei de sua própria natureza.

Conforme temos visto, a felicidade depende da saúde. Em parte alguma essa sucessão de fatos pode ser melhor percebida do que no campo espiritual e moral. O homem tornou-se doentio. Uma enfermidade de nome pecado tem lhe invadido o ser. O homem, porém, recusa-se a reconhecer sua corrupção e apela a vários expedientes, os quais mencionamos acima, na tentativa de encontrar felicidade e paz.

Todavia, invariavelmente falha, porquanto a dificuldade não reside apenas no seu interior e em seu meio ambiente, mas também em seu relacionamento com Deus. O homem combate contra o único que pode lhe dar aquilo que ele necessita e que deseja. Deus declarou: "Para os perversos, diz o meu Deus, não há paz" (Is 57.21). Portanto, por lutar contra Deus, por resistir a Ele e desobedecer-Lhe, o homem rouba de si mesmo o próprio prêmio que anela receber. E, não importa o que venha a fazer, enquanto não for restau­rada a sua relação de obediência a Deus, nunca conhecerá a saúde e a felicidade. Poderá multiplicar suas riquezas e possessões, poderá aperfeiçoar seus instrumentos de educação, poderá obter todo um mundo de riquezas e conhecimento; mas fazer tal coisa em nada lhe aproveitará, enquanto seu relacionamento com Deus não for corrigido. Sempre estará lhe faltando alguma coisa, até mesmo em seus momentos de maior alegria; nunca conhecerá verdadeira satisfação. O homem descobrirá falhas em suas circunstâncias e procurará modificá-las, mas o alívio obtido será apenas temporário. Acusará outras pessoas e formará novas associações e alianças, mas em breve sentir-se-á infeliz novamente. Censurará isto e aquilo, apelará para este ou aquele expediente, até que, à semelhança de Hamlet, vendo que tudo é insuficiente, clamará amargurado:

O tempo está desconjuntado:
ó maldita malevolência,
Que eu tenha nascido,

a fim de procurar corrigi-lo!

O homem sente que ele mesmo está certo e que suas dificuldades estão arraigadas em algum outro lugar. Assim ele continua indefinidamente em sua miséria e em sua desgraça, com suas experiências fúteis, até que, à semelhança de Agostinho, antes devasso e pecami­noso, chegue a perceber que a dificuldade está em seu interior, em seu distorcido relacionamento com Deus, clamando: "Tu nos criaste para ti mesmo, e nossos corações não têm sossego enquanto não acham descanso em ti".

Porém, tendo chegado a essa percepção, começará a sentir que seu caso é totalmente desesperador. Perceberá não apenas a sua insensatez, mas também a sua arrogância. Sentirá que perdeu o direito a qualquer demonstração do amor de Deus. Mas a admirabilíssima maravilha é que ele ouve o evangelho, segredando-lhe que Deus, a despeito de toda a sua desobediência, tem esperado pacientemente por ele. De fato, descobre que Deus vinha procurando por ele, tendo enviado o seu próprio Filho, Jesus Cristo, a este mundo, a fim de encontrá-lo e libertá-lo. Em seguida, lhe é revelado que Cristo já morreu para levar a sua culpa. O perdão lhe é assegurado, e recebe uma vida nova e uma nova natureza.

Agora ele vê tudo de maneira nova. Os problemas são resolvidos e as dificuldades são banidas. Começa a experimentar uma verdadeira paz, porquanto não depende exclusivamente de outras pessoas e de condi­ções externas. Pelo contrário, trata-se de uma paz que persiste, a despeito das condições mutáveis; uma calma profunda, íntima, que ele pode descrever somente como "a paz de Deus, que excede todo o entendimento" (Fp 4.7). E também descobre que, justificado por meio da fé, tem "paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 5.1). E então, vendo a si mesmo e a todos os outros homens sob essa nova luz, derramada sobre o homem e seu mundo, pela Bíblia e seus ensinamentos, concorda plenamente com Agostinho e outros. Não pode haver paz entre os homens enquanto ela não se tornar uma realidade no íntimo da pessoa, e esse ideal pode ser obtido somente quando nos subme­temos àquele que disse: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize" (Jo 14.27).

_____________________

Extraído de "Sincero mas Errado", ed. Fiel.

terça-feira, 21 de abril de 2009

O CHAMADO EFICAZ

Charles H. Spurgeon

"Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa. " (Lucas 19:5).

Alguns de nós recebemos muitas vezes ensinamentos sobre as doutrinas da graça. Mas essas doutrinas têm que ser freqüentemente repeti das, a fim de que os novos cristãos realmente possam entendê-las com suas mentes e amá-las em seus corações.

Os mais velhos talvez achem que este sermão é simples. Estou pregando-o especialmente para cristãos mais jovens. Quero que cristãos jovens e velhos tenham uma melhor compreensão do ensinamento da doutrina denominada "chamado eficaz". Este ensinamento significa que o Espírito Santo de Deus age no coração de um homem de tal maneira que quando ele recebe o chamado de Deus, não pode fazer nada senão obedecer a ordem e vir até Deus.

Usarei a história de Zaqueu para explicar mais claramente o ensinamento do chamado eficaz. Zaqueu ouvira que Jesus Cristo estava realizando coisas maravilhosas entre os homens. Assim, Zaqueu queria ver Jesus com seus próprios olhos. Mas ele tinha um problema: ele era um homem de baixa estatura, e havia muitas pessoas acompanhando Jesus. O que fazer? Ele teve uma idéia. Ele subiria numa árvore e iria ocultar-se entre os galhos; então poderia ver Jesus passando sob a árvore. Ele precisava observar atentamen¬te, pois Cristo não estaria usando nenhuma roupa especial. Ele estaria usando o mesmo tipo de vestuário que as pessoas comuns usavam.

Enquanto estava lá escondido na árvore, Zaqueu teve uma enorme surpresa. Cristo o viu! Cristo parou sob a árvore e chamou--o: "Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa". O que Zaqueu poderia fazer? Havia apenas uma coisa a fazer. Zaqueu desceu da árvore e foi para sua casa. Cristo entrou em sua casa e Zaqueu "o recebeu com alegria" (Luc. 19:6). O chamado eficaz de Deus chegara a Zaqueu. Ele obedeceu ao chamado. Tornou-se um crente em Cristo e entrou no reino dos céus.

1. O ensinamento do chamado eficaz é um exemplo da graça de Deus. O chamado eficaz não depende de ser um homem bom ou mau. Zaqueu não era um homem bom. Ele vivia em Jericó. Jericó era uma cidade má, que tinha sido amaldiçoado por Deus. Zaqueu era um homem que cobrava impostos das pessoas, muitas vezes injustamente. Assim, sua profissão também era má. Cobradores de impostos geralmente tiravam mais dinheiro das pessoas do que o lícito. Eles guardavam o dinheiro extra para si e ficavam ricos. As pessoas não gostavam de cobradores de impostos. Elas não gosta¬vam de Zaqueu.

Quando Cristo entrou na casa de Zaqueu, as pessoas disseram que Ele "se hospedara com homem pecador" (Luc. 19:7). Elas achavam que Cristo iria a qualquer casa, exceto à de Zaqueu. Mas Deus não pensa como os homens. Sua graça e misericórdia olharam para Zaqueu na árvore e chamaram-no para baixo. Deus chama as pessoas que escolheu. Elas podem estar muito afastadas dEle. Elas podem não ter nenhum pensamento a respeito de Deus. Ou podem estar apenas curiosas, como Zaqueu estava quando subiu na árvore. O Espírito Santo opera poderosamente no coração do homem que Deus está chamando. Quando isso acontece, até mesmo um homem como Zaqueu obedece ao chamado de Deus. A história de Zaqueu é um bom exemplo do ensinamento do chamado eficaz.

2. Foi um chamado pessoal. Cristo chamou Zaqueu pelo nome. Talvez houvesse outras pessoas na árvore, mas Cristo apenas Zaqueu. "Zaqueu, desce depressa...", Ele disse.

Há diferentes tipos de chamado na Bíblia. Lemos: "... porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos" (Mat. 20:16). Este é um exemplo do chamado geral de Deus para todos os que estiverem ouvindo o evangelho. Os homens não têm em si mesmos o poder para responder a esse chamado. O chamado pessoal é o eficaz. Deus está operando no coração da pessoa que Ele chamou pelo nome. Ela responderá. Ela seguirá o chamado de Deus.

Vamos observar as Escrituras buscando exemplos do chamado eficaz de Deus. "Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, lhe disse ...Mestre" (João 20:26). Jesus viu Pedro e André pescando no mar. Ele lhes disse: "Vinde após mim" (Mat. 4:19). Ele viu Mateus cobrando impostos e disse-lhe: "Segue-me!" (Mat. 9:9). O Espírito Santo operou nos corações de Maria, Pedro, André e Mateus. Eles não puderam resistir ao chamado de Deus, porque era um chamado eficaz. Como Zaqueu, eles obedeceram ao chamado e seguiram a Cristo. Vocês conseguem lembrar-se do momento em que o Senhor os chamou e vocês responderam de todo o coração, dizendo: "Senhor meu e Deus meu!" (João 20:28)?

3. O chamado para Zaqueu foi urgente. "Zaqueu, desce depres¬sa". Õ pecador pode ouvir um sermão poderoso. Pode haver um chamado para arrepender-se e crer no evangelho. O pecador pode dizer que virá a Cristo amanhã. Ele irá se divertir hoje, antes de vir. A palavra "amanhã" pertence a Satanás. A palavra de Deus é "hoje". O chamado de Deus para um homem é para que ele se arrependa. "Hoje" será sua palavra também, se Deus nos está chamando. Vocês dirão que ele não pode esperar até amanhã. Vocês devem vir hoje. Cristo disse: "Zaqueu, desce depressa". Ele diz isso a vocês, também. "Apresse-se e venha a mim agora."

4. Foi um chamado humilde. "Zaqueu, desce depressa." Descer é uma experiência dolorosa. Primeiro, devemos descer do pensa¬mento de que nossas próprias obras podem nos salvar. Temos que descer ainda mais, até reconhecermos que somos pecadores deso¬bedientes. Então, temos que ir ainda mais para baixo, até clamar¬mos por Deus em desespero, dizendo-Lhe que não podemos fazer nada para nos salvar. Quando Deus nos trouxer para baixo, então Ele nos levantará. "(Ele) derrubou dos seus tronos os poderoso e exaltou os humildes" (Luc. 1:52).

5. Foi um chamado amoroso. Cristo disse a Zaqueu: "... me convém ficar hoje em tua casa". Muitas pessoas tinham estado na casa de Zaqueu. Ele as havia roubado. Talvez ele tenha sido muito impiedoso com elas. Então, as pessoas perguntavam, por que Cristo queria ir à casa de um homem tão mau? E se Ele devesse ir, por que durante o dia, quando todos podiam vê-lO? Por que Ele não foi 'a noite, quando estava escuro?

Cristo morreu seu amor a Zaqueu não ficando do lado de fora de sua casa, mas sim entrando numa hora do dia quando todos podiam vê-lO. Cristo é muito amoroso. Ele virá às suas casas, ainda que também tenham sido casas más, como a de Zaqueu. Ele lhes dirá como disse a Zaqueu: "...desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa".

6. Foi um chamado permanente. O chamado iria permanecer e não mudaria de maneira alguma. Há um chamado do evangelho que é feito a todos os homens. E um chamado geral, ainda que genuíno. A menos que o Espírito de Deus esteja operando no coração da pessoa que ouve o chamado, sua intenção de seguir a Cristo irá desvanecer. O chamado redentor de Cristo é um chamado perma¬nente. Não terá fim.

Cristo vem às suas casas para fazer uma refeição com vocês. Ele não é como um visitante que fica somente por um curto espaço de tempo e então vai embora. Vocês podem estar certos de que se Jesus está operando em seus corações pelo Seu Santo Espírito, Ele permanecerá lá. Ele nunca irá embora. Cristo lhes fala com poder e diz: "... desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa".

7. Foi um chamado necessário; um chamado que tinham que ser obedecido. Leia as palavras de novo: "Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa". O chamado de Cristo para Zaqueu foi realmente uma ordem. Ele deve descer daquela árvore, porque Cristo havia decidido ficar em sua casa. Da mesma forma, todos os pecadores que foram remidos por Cristo, quando Ele morreu na cruz, haveriam de ser salvos. Sua salvação é o propósito de Deus. Esta salvação foi trazida por Cristo e prometido por Deus. O escolhido de Deus há de ser salvo. Ele ouvirá o chamado eficaz de Deus e obedecerá.

Alguns homens dizem que nunca serão cristãos. Se Cristo lhes diz: "...me convém ficar hoje em tua casa", eles dizem que não O receberão com alegria como Zaqueu o fez . Mas Deus pode operar neles uma mudança tal que quando Ele os chamar novamente, não terão força para resistir. Eles não vão nem querer resistir. Eles receberão Cristo com alegria em suas casas. Eles serão salvos. Nenhum homem é tão perverso que não possa ser atingido pela misericórdia de Deus. Se Deus diz:"... me convém ficar hoje em tua casa", então com certeza Ele fará isso. Alguns de vocês resistiram ao evangelho por muito tempo. Hoje, vocês não podem mais resistir. Hoje vocês ouvem uma voz dizendo: "Pecador, você riu de mim, você tentou me manter afastado, mas me convém ficar hoje em tua casa."

8. Foi um chamado que mudou a vida de um homem. Sabemos que o chamado de Cristo para Zaqueu foi eficaz, devido à maneira como a vida dele foi transformada. Zaqueu tornou-se um homem diferente. Ele recebeu Jesus em sua casa e serviu-Lhe uma refeição. O Espírito de Deus tinha operado em seu coração. Ele sabia que era um pecador. Ele confiou em Cristo para a salvação. Seus pecados foram perdoados. Ele era um homem feliz. Zaqueu era também um novo homem em Cristo. Ele começou a colocar em ordem as coisas em sua vida que haviam sido erradas. Ele disse: "Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais". Ele restituiu às pessoas mais do que tinha roubado delas como um cobrador de impostos! Ficou mais pobre, porém terá riquezas celestiais que não possuía antes de subir naquela árvore. Quando a vida de um pecador é transformada, sabemos que Deus o chamou eficazmente. O homem que era bêbado não beberá mais. Em vez disso, ele irá orar. O homem que era um ladrão restituirá as coisas que roubou.

Não podemos saber se um chamado de Deus foi eficaz até que a vida de um homem tenha mudado. As pessoas viram essa mudança na vida de Zaqueu. Elas disseram que Cristo fora hospe¬dar-se na casa de um homem que era um pecador. Elas viram que Zaqueu começou a endireitar as coisas que haviam sido erradas em sua vida. Então elas souberam que seu coração havia sido purifica¬do, porque sua vida havia mudado. Elas sabiam que a mudança era real. Elas não tinham dúvidas de que o chamado de Deus fora eficaz. Jesus disse a Zaqueu: "Hoje houve salvação nesta casa... Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o perdido" (Luc. 19:9-10). Zaqueu tinha estado perdido. O chamado eficaz de Deus chegara até ele e Deus encontrara Zaqueu.

Há uma ou duas lições que deveríamos aprender a partir da história de Zaqueu. As pessoas orgulhosas devem tornar-se humil¬des. A misericórdia de Deus vem ao homem que foi trazido para baixo. As pessoas que sentem que nunca poderão vir a Cristo recebem esperança. Enquanto estou pregando, o evangelho alcan¬çará os corações daqueles que Deus preparou para recebê-lo. O amor e a misericórdia do Senhor Jesus irão atraí-los. Eles serão eficazmente chamados. Eles O seguirão de todo o coração.

Não importa se vocês vieram ouvir apenas por curiosidade. A curiosidade fez com que Zaqueu subisse na árvore. Deus ainda pode encontrá-los. Ele pode chamá-los e salvá-los, como fez com Zaqueu. Cristo lhes diz que vocês devem humilhar-se. Vocês devem confessar-Lhe seus pecados. Vocês deveriam dizer-Lhe que sabem que estão perdidos, a menos que Ele Se abaixe para salvá-los. Vocês estão olhando para Ele porque Ele primeiro olhou para vocês. Ele fez com que desejassem ser salvos. Vocês nunca poderiam tornar-se desejosos por si sós. Vocês podem estar certos de que Ele os está chamando com aquele chamado eficaz, que os trará a Ele em arrependimento e fé.

Será que o Senhor Jesus está lhes dizendo, como disse a Zaqueu: "... desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa"?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A MISSÃO A PARTIR DE ANTIOQUIA

John Stott


Em Atos 13 o horizonte de Lucas se alarga pois o nome de Jesus seria massivamente testemunhado além da Judéia e Samaria. A partir de Antioquia chegaria aos confins da terra. Os dois diáconos evangelistas prepararam o caminho. Estevão através de seu ensino e martírio, Filipe através de sua evangelização ousada junto aos samaritanos e ao etíope. O mesmo efeito tiveram as duas principais conversões relatadas por Lucas, a de Saulo, que também fora comissionado a ser o apóstolo dos gentios, e a de Cornélio, através do apóstolo Pedro. Evangelistas anônimos também pregaram o evangelho aos “helenistas” em Antioquia. Mas sempre a ação esteve limitada à Palestina e à Síria. Ninguém tinha tido a visão de levar as boas novas às nações além mar, apesar de Chipre ter sido mencionada em Atos 11:19. Agora, finalmente, vai ser dado esse passo significativo.

A população cosmopolita de Antioquia se refletia nos membros de sua igreja e até mesmo em sua liderança, que consistia em cinco profetas e mestres que moravam na cidade. Lucas não explica a diferença entre esses ministérios, nem se todos os cinco exerciam ambos os ministérios ou se os primeiros três eram profetas e os últimos dois mestres. Ele só nos dá os seus nomes. O primeiro era Barnabé, que foi descrito com “um levita, natural de Chipre” (Atos 4:36). O segundo era Simeão que tinha o sobrenome de Níger, que significa Negro, provavelmente um africano e supostamente ninguém menos que Simão Cireneu, que carregou a cruz para Jesus. O terceiro era Lúcio de Cirene e alguns conjecturam que Lucas se referia a si mesmo o que é muito improvável já que ele preserva seu anonimato em todo o livro. Havia também Manaém, em grego chamado o “syntrophos” de Herodes o tetrarca, isto é, de Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande. A palavra pode significar que Manaém foi “criado” com ele de forma geral ou mais especificamente que era seu irmão de leite. O quinto líder era Saulo. Estes cinco homens simbolizavam a diversidade étnica e cultural de Antioquia e da própria igreja.

Foi quando eles estavam “sevindo ao Senhor, e jejuando” que o Espírito Santo lhes disse: “separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At.13:2). Algumas perguntas precisam ser respondidas.

1. A quem o Espírito Santo revelou a sua vontade ? Quem eram “eles”, as pessoas que estavam jejuando e orando ?

Parece-me improvável que devamos restringi-los ao pequeno grupo dos cinco líderes, pois isso implicaria em três deles serem instruídos acerca dos outros dois. É mais provável que se referia aos membros da igreja como um todo já que eles e os líderes são mencionados juntos no versículo 1 de Atos 13. Também em Atos 14:26-27, quando Paulo e Barnabé retornam eles prestam conta a toda a igreja por terem sido comissionados por ela. Possivelmente Paulo e Barnabé já possuíam anterior convicção do chamado de Deus e esta verdade foi aqui revelada para toda a igreja.

2. Qual o conteúdo da revelação do Espírito Santo à Igreja em Antioquia ?

Foi algo muito vago e possivelmente nos ensina que devemos nos contentar com as instruções de Deus para o dia de hoje. A instrução do Espírito Santo foi “separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado”, muito semelhante ao chamado de Abrão: “vai para a terra que te mostrarei”. Na verdade em ambos os casos o chamado era claro mas a terra e o país não.

Precisamos observar também que tanto Abrão como Saulo e Barnabé precisariam, para obedecerem a Deus, darem um passo de fé.

3. Como foi revelado o chamado de Deus ?

Não sabemos. O mais provável é que Deus tenha falado à igreja através de um de seus profetas. Mas seu chamado também poderia ter sido interno e não externo, ou seja, através do testemuho do Espírito em seus corações e mentes. Independente de como o receberam, a primeira reação deles foi a de orar e jejuar, em parte, ao que parece, para testar o chamado de Deus e em parte para interceder pelos dois que seriam enviados. Notamos que o jejum não é mencionado isoladamente. Ele é ligado ao culto e à oração, pois raras vezes, ou nunca, o jejum é um fim em si mesmo. O jejum é uma ação negativa em relação a uma função positiva. Então jejuando e orando, ou seja, prontos para a obediência, “impondo sobre eles as mãos os despediram”.

Isto não era uma ordenação ao ministério muito menos uma nomeação para o apostolado já que Paulo insiste que seu apostolado não era da parte de homens, mas sim uma despedida, comissionando-os para o serviço missionário.

4. Quem comissionou os missionários?

De acordo com Atos 13:4 Barnabé e Saulo foram enviados pelo Espírito Santo que anteriormente havia instruído a igreja no sentido de separá-los para ele. Mas de acordo com o versículo seguinte foi a igreja que, após a imposição de mãos, os despediu. É verdade que o ultimo verbo pode ser entendido como “deixou-os ir”, livrando-os de suas responsabilidades de ensino na igreja, pois às vezes Lucas usa o verbo “adulou” no sentido de soltar. Mas ele também o usa no sentido de dispensar. Portanto creio que seria certo dizer que o Espírito os enviou instruindo a igreja a fazê-lo e que a igreja os enviou, por ter recebido instruções do Espírito. Esse equilíbrio é sadio e evita ambos os extremos. O primeiro é a tendência para o individualismo pelo qual uma pessoa alega direção pessoal e direta do Espírito sem nenhuma referencia à igreja. O segundo é a tendência para o institucionalismo, pelo qual todas as decisões são tomadas pela igreja sem nenhuma referencia ao Espírito.

Conclusão

Não há indícios para crermos que Saulo e Barnabé eram voluntários para o trabalho missionário. Eles foram enviados pelo Espírito através da igreja. Portanto cabe a toda igreja local, e em especial aos seus líderes, ser sensível ao Espírito Santo, a fim de descobrir a quem ele está concedendo dons ou chamado.

Chamado missionário não é um ato voluntário, é uma obediência à visão do Senhor.

Assim precisamos evitar o pecado da omissão ao deixarmos de enviar ao campo aqueles irmãos com clara convicção de que foram chamados por Deus, bem como a precipitação de o fazermos com outros que possuem os dons para tal, mas sem confirmação do Espírito à igreja.

O equilíbrio é ouvir o Espírito, obedecê-lo e fazer da igreja local um ponto de partida para os confins da terra.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A Teologia de João Calvino

Alderi Souza de Matos

Justificar
As concepções teológicas do reformador João Calvino (1509-1564) estão contidas na sua vasta obra, especialmente em seu opus magnum, a Instituição da Religião Cristã ou Institutas.


1. AS INSTITUTAS


No prefácio da 1ª Edição das Institutas (1536), Calvino afirmou o seguinte:


“Pretendi apenas fornecer algum ensino elementar através do qual qualquer pessoa que tenha sido tocada por um interesse na religião pudesse ser educada na verdadeira piedade. E fui especialmente diligente nessa obra por causa do nosso próprio povo da França. Vi muitos deles com fome e sede de Cristo, mas muito poucos imbuídos com até mesmo um pequeno conhecimento dele. Que é isto que propus, o próprio livro testifica através de sua forma de ensino simples e até mesmo rudimentar”.


Essa primeira edição tinha apenas seis capítulos, que tratavam dos seguintes temas: (1) A lei: exposição do Decálogo; (2) A fé: exposição do Credo dos Apóstolos; (3) A oração: exposição da Oração Dominical; (4) Os sacramentos; (5) Os cinco falsos sacramentos; (6) A liberdade cristã, o poder eclesiástico e a administração política.


Na 2ª edição das Institutas (1539), o reformador passou a ter outro objetivo em mente:


“Minha intenção nesta obra foi preparar e treinar de tal modo na leitura da Palavra Divina os aspirantes à teologia sagrada que eles possam ter fácil acesso à mesma e depois nela prossigam sem tropeçar. Pois penso que abrangi de tal maneira a suma da religião em todas as suas partes, dispondo-a em ordem, que todos os que a assimilarem corretamente não terão dificuldade em determinar tanto o que devemos buscar de modo especial nas Escrituras quanto para que objetivo devem direcionar tudo o que está contido nas Escrituras”.


2. CATEGORIAS DE ESCRITOS


As concepções teológicas de Calvino encontram-se em seis categorias de escritos:


2.1. As Institutas: Calvino produziu ao todo oito edições do texto latino (1536-1559) e cinco traduções para o francês. A 1ª edição tinha apenas seis capítulos; a última totalizou oitenta. Equivale em tamanho ao Antigo Testamento mais os Evangelhos sinóticos e segue o padrão geral do Credo dos Apóstolos. Visava ser um guia para o estudo das Escrituras.

Livro I: O Conhecimento de Deus, o Criador: o duplo conhecimento de Deus, as Escrituras, a Trindade, a criação e a providência.

Livro II: O Conhecimento de Deus, o Redentor: a queda e a corrupção humana, a Lei, o Antigo e o Novo Testamento, Cristo o Mediador – sua pessoa (profeta, sacerdote, rei) e sua obra (expiação).

Livro III: A Maneira Como Recebemos a Graça de Cristo, Seus Benefícios e Efeitos: fé e regeneração, arrependimento, vida cristã, justificação, predestinação, ressurreição final.

Livro IV: Os Meios Externos Pelos Quais Deus nos Convida Para a Sociedade de Cristo: a igreja, os sacramentos, o governo civil.


2.2. Comentários: são um complemento das Institutas. Calvino escreveu comentários de todos os livros do Novo Testamento, exceto 2 e 3 João e Apocalipse, e sobre o Pentateuco, Josué, Salmos e Isaías.


2.3. Sermões: Calvino expunha sistematicamente os livros da Bíblia. Ele costumava pregar sobre o Novo Testamento aos domingos e sobre o Velho Testamento durante a semana. Seus sermões eram anotados taquigraficamente por um grupo de leais refugiados franceses. A série Corpus Reformatorum contém 872 sermões de Calvino.


2.4. Folhetos e tratados: temas apologéticos (contra católicos e anabatistas) e gerais.


2.5. Cartas: escritas a outros reformadores, soberanos, igrejas perseguidas e protestantes encarcerados, pastores, colportores.


2.6. Escritos litúrgicos e catequéticos: confissão de fé, catecismo, saltério.


3. A PERSPECTIVA TEOLÓGICA DE CALVINO


3.1. O conhecimento de Deus
A verdadeira sabedoria consiste de dois elementos: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos. Daí a importância da revelação. Não podemos conhecer a Deus em sua essência, mas somente na medida em que ele se dá a conhecer a nós.

Existe um duplo conhecimento de Deus: como criador e como redentor. Todo ser humano é essencialmente uma criatura religiosa, tendo em si a “semente da religião”. Deus se revela não só através desse senso inato de si mesmo, mas também através das maravilhas da criação.

Esse conhecimento de Deus revelado na natureza exige uma resposta humana, seja de piedade ou idolatria. O fim último da piedade não é a salvação individual, mas a glória de Deus.


3.2. A condição humana
O pecado torna a revelação natural totalmente insuficiente para o correto conhecimento de Deus. Ela tem somente uma função negativa – deixar os seres humanos inescusáveis por sua idolatria. O ser humano encontra-se perdido como que em um labirinto. A imagem de Deus ainda permanece nele, mas foi totalmente distorcida e desfigurada.


3.3. O Deus que se revela
Todo verdadeiro conhecimento de Deus decorre do fato de que Deus, em sua misericórdia, houve por bem revelar-se. Calvino usa aqui o conceito de “acomodação” ou adaptação. Deus desce ao nosso nível, adapta-se à nossa capacidade. Vemos isso na encarnação, nas Escrituras, nos sacramentos e na pregação.

Nas Escrituras, Deus balbucia a nós, fala-nos como uma ama fala a um bebê. Outra figura: a Bíblia é como óculos divinos para os que são espiritualmente míopes. Assim, a verdadeira teologia é uma reverente reflexão sobre a revelação escrita de Deus; não deve, pois, perder-se em “vãs especulações”, mas ater-se às Escrituras.


3.4. A doutrina das Escrituras
A Bíblia é a Palavra de Deus inspirada, revelada em linguagem humana e confirmada ao crente pelo testemunho interno do Espírito Santo. Calvino tratava o texto bíblico tanto reverentemente quanto criticamente (por exemplo, At 7.14 e Gn 46.27). A capacidade de reconhecer a Bíblia como a Palavra de Deus não depende de provas, mas é um dom gratuito do próprio Deus.

Calvino afirma a unidade entre a Palavra e o Espírito contra dois erros opostos. Os católicos subestimavam o papel da iluminação ao subordinarem as Escrituras à igreja. Calvino, como Lutero, afirmou que as Escrituras foram o ventre do qual nasceu a igreja, e não vice-versa. Por outro lado, os “fanáticos” concentravam-se de tal modo no Espírito que subestimavam a Palavra escrita.

Toda a teologia de Calvino foi elaborada dentro destes parâmetros: a objetividade da revelação divina nas Escrituras e o testemunho iluminador do Espírito Santo no crente. A verdadeira teologia deve manter-se dentro dos limites da revelação.

A função principal das Escrituras é a nossa edificação, capacitando-nos a ver o que de outro modo seria impossível. Seu propósito é revelar o que precisamos saber sobre Deus e nós mesmos.


4. O DEUS QUE AGE


4.1. O Deus trino
Calvino deu mais atenção à doutrina da trindade que Lutero ou Zuínglio. Ele basicamente sustentou a doutrina da igreja antiga de que Deus é uma única essência que subsiste em três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Ele advertiu quanto a especulações sobre o mistério da essência divina e recusou-se a torcer a Escrituras para sustentar essa doutrina.

Como no caso de Atanásio, no quarto século, a Trindade era fundamental por ser um testemunho da divindade de Jesus Cristo e, assim, da certeza da salvação realizada por ele. Somente alguém que era verdadeiramente Deus poderia redimir os que estavam totalmente perdidos.

A fé na trindade é confessada na liturgia do batismo e na doxologia, não para definir plenamente o ser de Deus, mas somente para permanecer em silêncio diante do mistério da sua presença (Agostinho).


4.2. Criação
A seguir, ainda no Livro I das Institutas, Calvino descreve a atividade de Deus em relação ao mundo na criação e na providência. O mundo criado é o “deslumbrante teatro” da glória de Deus. Depois que as pessoas são iluminadas pelo Espírito Santo e têm o auxílio dos “óculos” das Escrituras, a criação pode fornecer um conhecimento de Deus mais lúcido e edificante (teologia da natureza), fortalecendo a fé dos crentes.

Deus criou o mundo a partir do nada (ex nihilo). O mundo foi criado para a glória de Deus, mas também para o benefício da humanidade. Os crentes devem contemplar a bondade de Deus em sua criação de tal modo que seus próprios corações sejam despertados para o louvor (Jonathan Edwards).


4.3. Providência
Calvino reflete acerca do caráter precário e incerto da vida humana sobre a terra. Sua doutrina da providência não reflete um otimismo piedoso, mas resulta de uma avaliação realista das vicissitudes da vida e da ansiedade que elas produzem.

Ele critica duas concepções errôneas: o fatalismo e o deísmo. A doutrina estóica do destino pressupõe que todos os eventos são governados pela necessidade da natureza. Calvino pondera que, na concepção cristã, o “regente e governador de todas as coisas” não é uma força impessoal, mas o Criador pessoal do universo, que em sua sabedoria decretou desde a eternidade o que iria fazer e agora em seu poder realiza o que decretou.

Ele também combate a idéia de que Deus fez o mundo no princípio, mas depois o deixou entregue a si mesmo. Como mostram as Escrituras, Deus está contínua e eficazmente envolvido no governo da sua criação. Assim, a providência é uma espécie de continuação do processo criador, tanto nos grandes como nos pequenos eventos.

Essa ênfase na atividade imediata e direta de Deus no mundo leva Calvino a rejeitar a teoria traducianista da origem da alma, a idéia de que a alma é transmitida de geração a geração pelo processo da procriação humana (Lutero). Calvino cria que, toda vez que uma criança é gerada, Deus cria uma nova alma ex nihilo.

Apesar de sua interação direta com o mundo, Deus também pode usar causas secundárias para realizar a sua vontade. Ele pode até mesmo usar instrumentos maus (como Satanás e suas hostes), transformando o mal em bem.

Se Deus decreta cada evento, onde fica a responsabilidade humana? Calvino responde que a providência de Deus não atua de modo a negar ou tornar desnecessário o esforço humano. As próprias ações humanas são um dos meios pelos quais Deus realiza os seus propósitos.

O governo divino de todos os eventos não torna Deus o autor do pecado? Assim como Lutero, Calvino distingue entre a vontade revelada e a vontade oculta de Deus. Ao enviar Cristo para a cruz, a Bíblia diz que Herodes e Pilatos estavam cumprindo o que Deus havia determinado (Atos 4.27-28). Ao mesmo tempo, eles também estavam violando a vontade expressa de Deus revelada em sua lei.

Vez após vez Calvino apela ao mistério e incompreensibilidade das ações de Deus. O problema do mal é tão difícil precisamente porque não podemos entender como as tragédias da vida contribuem para a maior glória de Deus.

A fé verdadeira percebe que, por trás dos sofrimentos, que em si mesmos são maus, existe um Pai de justiça, sabedoria e amor que prometeu nunca abandonar-nos. Nessas questões, não se pode submeter Deus aos padrões humanos de julgamento.


5. O CRISTO QUE SALVA


5.1. A doutrina do pecado
A partir do Livro II das Institutas, Calvino trata de Deus, o Redentor. Calvino geralmente é visto como o autor de uma concepção totalmente pessimista do ser humano. Todavia, o reformador sempre mostrou profunda apreciação pelas realizações humanas na ciência, literatura, arte e outras áreas, atribuindo-as à graça comum de Deus. A imagem de Deus no ser humano está terrivelmente deformada, mas não inteiramente apagada.

Todavia, as muitas virtudes e dons da natureza humana nada valem para alcançar a justificação. Para entender plenamente a natureza humana, é preciso olhar para Jesus Cristo, o verdadeiro ser humano.

Calvino define o pecado original como “uma depravação e corrupção hereditária de nossa natureza, difundida em todas as partes da alma, que primeiramente nos torna sujeitos à ira de Deus e depois também produz em nós aquelas obras que a Escritura chama de ‘obras da carne’” (Inst., 2.1.8).

Vale destacar dois aspectos: (a) não podemos simplesmente culpar Adão por nossa condição pecaminosa; o pecado de Adão é também o nosso pecado; (b) o pecado original não se limita a uma dimensão da pessoa humana, mas permeia toda a vida e a personalidade.

Pecado não é somente o ato, mas a inclinação da própria natureza humana em sua condição decaída. Cometemos pecados porque somos pecadores. A essência do pecado de Adão, que se repete em diferentes graus nos seus descendentes, é orgulho, desobediência, incredulidade e ingratidão. Somente a consciência da nossa total pecaminosidade pode preparar-nos para ouvir as boas novas da libertação do pecado através de Jesus Cristo.


5.2. A pessoa de Cristo
A teologia de Calvino é profundamente cristocêntrica e o tema que domina a sua cristologia não é o conhecimento de Cristo em sua essência, mas em seu papel salvífico como Mediador. A revelação de Deus em Cristo é o supremo exemplo da sua acomodação à capacidade humana. Precisamos de um Mediador tanto por sermos pecadores quanto por sermos criaturas.

Cristo como Mediador é verdadeiro Deus e verdadeiro homem (1 Tm 3.16). Ele é o Verbo eterno de Deus gerado do Pai antes de todas as eras, que, em sua encarnação, ocultou a sua divindade sob o “véu” da sua carne.

Uma formulação peculiar da cristologia de Calvino é o chamado extra Calvinisticum: a noção de que o Filho de Deus tinha uma existência “também fora da carne”. Ver Institutas 2.13.4.


5.3. A obra de Cristo
Mais importante que conhecer a essência de Cristo é conhecer com que propósito ele foi enviado pelo Pai. Calvino explicou a obra de Cristo em conexão com o seu tríplice ofício de Profeta, Rei e Sacerdote, todos os quais eram ungidos no Antigo Testamento, prefigurando o Messias.

Como Profeta, ele foi ungido pelo Espírito para ser arauto e testemunha da graça de Deus, fazendo-o através do seu ministério de ensino e pregação. Na qualidade de Rei, Cristo atua como o vice-regente do Pai no governo do mundo; um dia sua vitória e senhorio se manifestarão plenamente. Em seu ofício sacerdotal, ele foi um Mediador puro e imaculado que aplacou a ira de Deus e fez perfeita satisfação pelos pecados humanos.

Calvino observa que Deus poderia resgatar os seres humanos de outra maneira, mas quis fazê-lo através do seu Filho. Ele dá ênfase não tanto à justiça de Deus, mas à sua ira e amor, ambas ilustradas na obra de Cristo. Não somente a morte de Cristo tem efeito redentor, mas toda a sua vida, ensinos, milagres e sua contínua intercessão nos céus, à destra do Pai. A obra expiatória de Cristo tem também um aspecto subjetivo, pelo qual somos chamados a uma vida de obediência.


6. A VIDA NO ESPÍRITO
Toda a obra de Calvino pode ser interpretada como um esforço de formular uma espiritualidade autêntica, isto é, uma vida no Espírito, baseada na Palavra de Deus revelada, vivida no contexto da igreja e direcionada para o louvor e a glória de Deus. O Livro 3 das Institutas é um belo tratado sobre a vida cristã no qual Calvino elabora uma grande quantidade de tópicos como a obra do Espírito Santo, fé e regeneração, arrependimento, negação de si mesmo, justificação, santificação, oração, eleição e ressurreição. Três deles merecem destaque especial:


6.1. Fé
Calvino começa por rejeitar certas noções equivocadas: “fé histórica” (mero assentimento intelectual), “fé implícita” (submissão ao juízo coletivo da igreja), “fé informe” (estágio preliminar da fé). O que é então a fé? “Um conhecimento firme e certo da benevolência de Deus para conosco, fundada na verdade da promessa dada gratuitamente em Cristo, revelada a nossas mentes e selada em nossos corações pelo Espírito Santo” (Institutas 3.2.7).

Antes de ser uma capacidade inata do ser humano, é um dom sobrenatural do Espírito Santo. É também uma resposta humana genuína pela qual os eleitos ingressam na sua nova vida em Cristo. Entre os efeitos da fé estão a regeneração, o arrependimento e o perdão dos pecados.

O arrependimento é “a verdadeira conversão de nossa vida a Deus, procedente de um sincero e real temor de Deus, que consiste da mortificação de nossa carne e do velho homem e da vivificação do espírito” (Inst. 3.3.5). É um processo contínuo que deve estender-se por toda a vida.

Embora possa ser assaltada por dúvidas, a fé verdadeira por fim triunfará sobre todas as dificuldades. Os descrentes podem, quando muito, ter uma “fé temporária”. Já os crentes verdadeiros, ainda que cometam pecados, mesmo pecados graves, são sustentados pelo Espírito e finalmente não irão perder-se.


6.2. Oração
O mais longo capítulo das Institutas é dedicado à oração, que Calvino chamou “o principal exercício da fé e o meio pelo qual recebemos diariamente os benefícios de Deus”. Porém, se toda a vida cristã, desde o primeiro passo até a perseverança final, é um dom de Deus, por que orar? A resposta é que os fiéis não oram para informar ou convencer Deus de alguma coisa, mas para expressarem sua fé, confiança e dependência dele.

Calvino propôs quatro regras para a oração: (a) reverência: evitar toda ostentação ou arrogância; (b) contrição: deve proceder de um coração arrependido; (c) humildade: ter em mente a glória de Deus; (d) confiança: firme esperança de que a oração será respondida. Isso se aplica tanto à oração individual quanto às orações coletivas da igreja. A oração é a parte principal do culto a Deus (Is 56.7; Mt 21.13).


6.3. Predestinação
Calvino usou a palavra “predestinação” pela primeira vez na edição de 1539 das Institutas. A sua doutrina nessa área não tem nada de original: nos pontos essenciais ele não difere de Lutero, Zuínglio ou Bucer, os quais recorreram todos a Agostinho. A inovação de Calvino consistiu no lugar em que colocou a doutrina em seu sistema teológico, não em conexão com a doutrina da providência (Livro I), mas no final do Livro III, que trata da aplicação da obra da redenção.

Calvino não começou com a predestinação e depois foi para a expiação, regeneração, justificação e outras doutrinas. Ele a introduziu como um problema resultante da pregação do evangelho. Por que, quando o evangelho é proclamado, alguns respondem e outros não? Nessa diversidade, ele afirmou, torna-se manifesta a maravilhosa profundidade do juízo de Deus. Trata-se, pois, de uma preocupação pastoral.

A doutrina de Calvino sobre a predestinação pode ser resumida em três termos: (a) absoluta: não é condicionada por quaisquer circunstâncias finitas, mas repousa exclusivamente na vontade imutável de Deus; (b) particular: aplica-se a indivíduos e não a grupos de pessoas; Cristo não morreu por todos indiscriminadamente, mas somente pelos eleitos; (c) dupla: Deus em sua misericórdia ordenou alguns indivíduos para a vida eterna e em sua justiça ordenou outros para a condenação eterna.

Calvino cria que essa doutrina era claramente encontrada nas Escrituras e não queria dizer nada sobre a predestinação que não pudesse ser tomado da Bíblia. Ele também não permitiu que a doutrina fosse usada como desculpa para não proclamar o evangelho a todos. De fato, na história da igreja, alguns dos maiores evangelistas e missionários foram firmes defensores dessa doutrina (George Whitefield, Jonathan Edwards).


7. OS MEIOS EXTERNOS DE GRAÇA
No Livro IV das Institutas, Calvino trata dos seguintes temas: a igreja verdadeira e seus oficiais, o desvios do romanismo, os sacramentos, o governo civil. Calvino também aborda essas questões nos seus comentários das Epístolas Pastorais.


7.1. Pressupostos
Calvino, mais que os outros reformadores, preocupou-se com a relação entre a igreja invisível e a igreja como uma instituição que pode ser reconhecida como verdadeira através de certas marcas distintivas. As marcas que constituem a igreja visível são, acima de tudo, a correta pregação da Palavra e a fiel ministração dos sacramentos. Embora não tenha incluído a disciplina eclesiástica entre as marcas da igreja, ele certamente a valorizava.

A preocupação de Calvino com a ordem e a forma da congregação resultou de sua ênfase na santificação como o processo e o alvo da vida cristã. Em contraste com a ênfase luterana unilateral na justificação, Calvino deu precedência à santificação. O contexto da santificação é a igreja visível, na qual os eleitos participam dos benefícios de Cristo não como indivíduos isolados, mas como membros de um corpo. Assim, a igreja visível torna-se uma “comunidade santa”.

A eclesiologia de Calvino tem dois pólos em contínua tensão: a eleição divina (igreja invisível) e a congregação local (igreja visível). Por isso, a igreja ao mesmo tempo enfrenta perigos mortais e é preservada por Deus. A igreja visível é um corpo misto composto de trigo e joio; já a igreja invisível compõe-se de todos os eleitos (inclusive anjos, fiéis do Velho Testamento e eleitos que se encontram fora da igreja verdadeira).


7.2. A igreja como mãe e escola
A igreja é a mãe de todos os crentes porque os leva ao novo nascimento através da Palavra de Deus, bem como os educa e alimenta durante toda a sua vida. Esse caráter maternal da igreja é visto de modo especial na sua ministração dos sacramentos.

O batismo é o ingresso do crente na igreja e o símbolo de sua união com Cristo. Ele visa confirmar a fé dos eleitos, mas deve ser aplicado a todos os que estão na igreja visível. Quanto à Santa Ceia, Calvino adotou uma posição intermediária entre Lutero e Zuínglio. Embora Cristo esteja nos céus à destra do Pai, a ceia não é mero símbolo, mas um meio de “verdadeira participação” em Cristo (Inst. 4.17.10-11).

A igreja é também uma escola que instrui seus alunos no caminho da santidade. Essa instrução perdura por toda a vida e também se dirige aos alunos rebeldes, na esperança de que um dia sejam transformados.


7.3. Ordem e ofício
Calvino encontrou nas Escrituras o quádruplo ofício de pastor, mestre, presbítero e diácono, que é a base da forma de governo incorporada nas Ordenanças Eclesiásticas.

Ele cria que os ofícios de profeta, apóstolo e evangelista eram temporários e cessaram no final da era apostólica. Dentre os ofícios que permaneceram, o de pastor é o mais honroso e o mais necessário para a ordem e o bem-estar da igreja. Depois da aceitação de doutrinas puras, a nomeação de pastores é a coisa mais importante para a edificação espiritual da igreja.

Para ser escolhido, o aspirante deve preparar-se e depois ser comissionado publicamente segundo a ordem prescrita pela igreja. Em Genebra, esse processo incluía a companhia de pastores, o conselho municipal e a igreja. A ordenação é um rito solene de instalação no ofício pastoral.

As funções dos pastores são ensino, pregação, governo e disciplina. Os pastores devem ter um profundo conhecimento das Escrituras para que possam instruir corretamente as suas igrejas. Sua pregação deve revelar conhecimento e habilidade para ensinar. A pregação visa a edificação da igreja e deve ser prática e perspicaz. A função disciplinar do pastor requer que a sua própria conduta esteja acima de qualquer suspeita.


7.4. A igreja e o mundo
Calvino rejeitou o conceito anabatista de que a igreja devia isolar-se da sociedade e cultura circundantes. A relação entre a igreja e o mundo inclui tanto tensão quanto interação. O seu entendimento do governo de Deus e da soberania de Cristo sobre toda a criação, e não somente sobre a igreja, levou-o a defender a participação na sociedade.

O governo de Cristo deve manifestar-se idealmente através de governantes piedosos. Os magistrados deviam manter a ordem cívica e a uniformidade religiosa. Todavia, igreja e estado têm esferas separadas e autônomas de atuação. Os cristãos devem obedecer até mesmos os governantes que oprimem a igreja, orando por seu bem-estar, porque foram instituídos por Deus.

_____________
Fonte:
George, Timothy. Teologia dos reformadores. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.