terça-feira, 28 de abril de 2009

O Que Está Errado no Homem?

Dr. Martyn Lloyd-Jones


Na ordem de importância e seqüência lógica à pergunta "Que é o homem?", aparece a questão vital: "O que está errado no homem?" Não podemos, neste assunto, agir baseados em suposições, assim como não podíamos quando tratamos da questão anterior, acerca da real natureza humana. Em períodos de crise e de tribulação, somos tentados a nos lançar­mos à ação, aplicando vários tipos de tratamento. Mas o tratamento inteligente sempre deverá ser antecedido pelo diagnóstico; necessária e inevitavelmente, haverá a conexão lógica entre o diagnóstico e o tratamento. O primeiro, como é claro, determina e controla o segundo. Se sentirmos que o erro é superficial, nosso tratamento não será drástico. Mas, por outro lado, se considerar­mos grave a situação, será exigido um tratamento mais radical.

Quando passamos a discutir essa questão sobre o que está errado no homem, descobrimos, uma vez mais, que há apenas duas perspectivas, a bíblica e a não-bíblica. Mais ainda, descobrimos que essas duas posições continuam sendo, exata e precisamente, o que sempre foram, embora a terminologia tenha se modifi­cado um pouco. Trata-se do mesmo grande contraste, estabelecido na Bíblia, entre os que são chamados ver­dadeiros profetas e os falsos profetas. E tudo quanto temos a dizer sobre o ponto de vista inteiramente falso de hoje em dia, acerca do que está errado no homem, foi dito com perfeita lucidez, pelo profeta Jeremias, centenas de anos passados, quando se referiu aos falsos profetas que lhe eram contemporâneos: "Curam super­ficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz" (Jr 6.14). Esse tipo de profeta continua vivendo entre nós; continuamos a enfrentar a questão do que exatamente está errado no homem.

Quando examinamos a posição contemporânea, à luz dos ensinamentos da Bíblia, somos relembrados, em doses crescentes, sobre a verdade da declaração de Hegel, no sentido que "a história nos ensina que a história nada nos ensina". A despeito de tudo quanto tem sido experimentado no século presente, com duas guerras devastadoras, a humanidade parece continuar nutrindo as mesmas antigas ilusões e continua culpada de um otimismo fatal em relação ao homem. De fato, a humanidade parece ser uma espécie de incorrigível Sr. Micawber, sempre esperando que alguma coisa suceda, sempre confiando que a solução para todos os nossos problemas nos aguarda após dobrarmos uma esquina mágica.

O resultado é que os falsos profetas, que nos pro­fetizam o lazer e o prazer, são tão populares hoje em dia quanto o eram entre o antigo povo de Israel, e o verdadeiro profeta é tão desfavorecido hoje em dia quanto o foi Jeremias. Os falsos profetas mostravam-se otimistas. Jeremias parecia ser um pessimista extremado. Mas, os eventos subseqüentes mostraram que ele estava com a razão. Visto que toda a nossa contenda está no fato da própria condição do mundo moderno comprovar que o diagnóstico bíblico sobre as mazelas do homem é o único diagnóstico veraz e acurado, não poderíamos fazer algo melhor do que considerar os pontos de vista da Bíblia no tocante às dificuldades do homem, nos termos daquela acusação feita por Jeremias contra os falsos profetas de seus dias. Trata-se de uma análise perfeita e da condenação de todo o falso otimismo que é tão popular em nossos próprios dias.

Antes de tudo, consideremos e desmascaremos os erros e as falácias que subjazem àquele ponto de vista otimista da vida, sustentado pelos falsos profetas, os quais vivem sempre prontos a clamar: "Paz, paz", e que nos asseguram que em breve tudo irá bem. Antes de mais nada, é claro que se trata de um ponto de vista superficial da vida, o que se evidencia pela vivacidade com que tal posição sempre se expressa. Com um sor­riso nos lábios, os falsos profetas sempre dão a impressão de que a situação é perfeitamente simples e que pode ser tratada prontamente. De fato, aquilo que sempre os deixa perplexos é que alguém possa imaginar, ao menos por um momento, que a situação envolve alguma dificuldade. Esse otimismo superficial mostra-nos, obviamente, um tipo definido de mentalidade. Em qualquer área em que exista um problema, a atitude deles é sempre a mesma.

Tomemos, como ilustração, o campo pseudo-científico. Alguém lê o rótulo no frasco de certo medicamento charlatão e tem a impressão que sua enfermidade pode ser curada com facilidade. Tudo quanto precisa fazer é tomar o remédio, e imediata­mente tudo lhe irá bem. As afirmações confiantes podem dar a impressão de que a principal dificuldade que envolve a profissão médica é que ela magnífica os problemas e exagera as dificuldades.

Examinemos um outro exemplo: uma manifesta­ção de idêntica atitude, durante a segunda guerra mundial. Houve agitação no sentido de exigir a aber­tura de uma segunda frente de batalha na Europa. Segundo os escritos e os discursos da maioria dos estrategistas amadores, na realidade não havia qualquer dificuldade envolvida na questão. Os aliados tinham somente de cruzar o canal da Mancha, desembarcando um exército na França, e tudo correria bem. Para aqueles "eruditos" não havia quaisquer dificuldades ou problemas e deram a impressão de que os grandes responsáveis pela estratégia militar, a saber, os mais altos oficiais, eram apenas embotados e sem muita inteligência, homens que imaginavam dificuldades e problemas. Para aqueles amadores, entretanto, a situa­ção inteira parecia simples e clara.


Ora, ocorre precisamente a mesma coisa no tocante ao problema da vida e da existência. Para os falsos profetas, não existe qualquer dificuldade real. Sua perspectiva sobre a situação é superficial. Conforme dissera Jeremias, esses curam "superficialmente" a ferida do povo. Seu diagnóstico é que há pouca coisa errada.

E importante que desdobremos essa teoria em seus detalhes. A essência dessa posição é que o homem está bem nos aspectos fundamentais, e que as dificuldades, quaisquer que sejam, não se originam de algo que esteja radicalmente errado na natureza humana. Para alguns desses teóricos, o problema da vida, da humanidade e do mundo é simplesmente uma questão de desenvolvi­mento e de evolução. Argumentam eles que o homem se desenvolveu a partir dos animais e por isso é inevi­tável que, por determinado período, ele continue apresentando traços dos limites e das imperfeições que lhe foram impostos por causa de sua natureza animal. Mas, segundo afirmam, a grande coisa a que devemos nos apegar é que o homem está se desenvolvendo, pro­gredindo e melhorando. Somos convidados, pois, a examinar o começo da história do homem e a observar com deleite o grande progresso que ele tem feito. Somos solicitados a comparar o homem, em seu estado primi­tivo e rude, com o que ele é na atualidade. Então, essas mesmas autoridades nos dizem, com uma modéstia irônica e desconcertante, que estão preparados a admitir que o homem não está perfeito e ainda precisa percorrer certa distância.

O problema, afirmam eles, é puramente uma questão de tempo. Precisamos apenas ser pacientes e, aconteça o que acontecer em nossos dias e em nossa geração, devemos compreender que somos parte desse grande processo que perene e firmemente vai se des­dobrando, em direção à perfeição. Não há qualquer necessidade de ficarmos alarmados ou desapontados devido a aparentes discrepâncias e reversões. Basta que se dê tempo suficiente, e tudo se mostrará perfeita­mente certo. Não temos necessidade de detalhar esse ponto de vista, porquanto tem sido o mais popular, concernente à vida, nos últimos oitenta ou cem anos. Intimamente ligada a esse ponto de vista, existe a opinião que considera os problemas da vida humana puramente em termos do intelecto e da educação. Essa perspectiva não é precisamente tão mecânica como a anterior, nem insiste com tanta firmeza acerca da inevitabilidade do progresso. Ela considera que a ver­dadeira raiz da dificuldade consiste no fato do homem não pensar nem raciocinar. Segundo essa posição, o homem não é realmente mau, mas tão-somente recusa-se a pensar! Vê-se afligido com uma espécie de inércia mental, principalmente por não ter ainda se apercebido da verdadeira natureza das admiráveis tendências que jazem em seu interior. Durante tantas eras ele tem se acostumado a viver como se fora um mero animal, reagindo aos diversos instintos e impulsos de sua natureza animal e permitindo que o seu destino seja determinado por forças e fatores existentes fora de si mesmo, ao ponto de se mostrar lento em fazer valer esses poderes mais elevados que residem em seu interior. Em sua cobiça, deseja algo e tenta obtê-lo, mas acaba sofrendo resistência por parte de outrem que deseja a mesma coisa. E, posto que cada um é governado pela cobiça e pela paixão, tem início uma luta entre os dois. O resultado é que se destroem mutuamente, sem que qualquer deles consiga o prêmio cobiçado. Se ao menos desde o início tivessem o bom senso de fazer uma pausa e de pensar, raciocinar e negociar, quão melhores seriam as coisas para ambos. E por que não haveriam eles de agir assim? Ambos possuem inteligência e as faculdades necessárias para tanto. Segundo esse ponto de vista, defendido essencial­mente pelo falecido H.G. Wells, não há necessidade de pintar um quadro negro e sombrio do homem, em termos de pecado e de maldade radical. As dificuldades do homem se devem simplesmente à sua estupidez e recusa de pensar; mas isso pode ser curado pela educação.

Outra manifestação comum desse ponto de vista superficial sobre os males da humanidade se vê na declaração de que nossas perturbações se devem, inteira e exclusivamente, às circunstâncias e ao meio ambiente. Uma vez mais, essa perspectiva não exige aqui elabo­ração, porquanto nos tem sido dito constantemente, por anos a fio, que as nossas dificuldades resultam inteiramente de causas econômicas e sociais, que se manifestam em termos da distribuição de riquezas e das condições de moradia. Se alguém por acaso se inclina a pensar que estou caricaturando essa posição, para ridicularizá-la, eu simplesmente solicitaria a essa pessoa que escutasse um típico comentarista de rádio, enquanto ele soluciona divertidamente todos os nossos problemas, em seus programas de rádio, ou então que escutasse as conversas de homens comuns, ao discutirem acerca desses assuntos. A impressão que se tem é que a questão é bastante simples. Essa impressão de superficialidade é observada por suas maneiras e pelo tom de voz, bem como pelas afirmativas feitas, no tocante às causas exatas de nossos males e de nossas dificuldades. Do mesmo modo, fica claro que uma acusação semelhante pode ser levantada contra o tratamento pro­posto por essas pessoas. Mais uma vez, a impressão imposta a nós é que tudo pode ser corrigido com extrema facilidade. Não há necessidade de medicação urgente e de curas radicais. Acima de tudo, não há qualquer necessidade de transformação dos indivíduos, pelo menos de natureza tão radical que mereça a descrição de regeneração ou novo nascimento. Tudo quanto se faz necessário é que os homens sejam educa­dos, pensem e planejem, organizando e impondo certas medidas legislativas que igualariam as condições econômicas, provendo trabalho para todos, garantindo a todos boas condições de moradia e assegurando opor­tunidades iguais para todos. Esses são os paralelos modernos do que, em séculos passados, se expressava mediante termos como "liberdade, igualdade e fraternidade", ou, em tempos ainda mais remotos, pelas palavras "paz, paz". Assim a impressão dada é que a solução é muito simples! E sendo tão pequeno o erro existente, poderia com facilidade ser reparado.

Todavia, precisamos examinar essa posição um tanto mais cuidadosa e criticamente, tendo de enfrentar a questão sugerida de imediato, a saber: qual o motivo da humanidade ter um conceito tão superficial acerca desse problema e sua cura. Por que nos dispomos tão prontamente a dar ouvidos aos falsos profetas, aplau­dindo-os quando dizem "Paz, paz"? A resposta a essa indagação também é suprida pela afirmação de Jeremias. A verdade é que a mente dos falsos profetas é tão inclinada para os preconceitos e distorções, tão controlada por determinadas idéias, que eles se tornam incapazes de pensar com clareza e veracidade. Isso transparece sob duas formas principais.

Esse fato transparece, antes de mais nada, na atitude geral dos falsos profetas e na própria maneira como abordam o problema. Já nos referimos ao espírito e ao modo despreocupado que sempre têm caracterizado tais pessoas. Dão sempre a impressão, desde o começo, que estão resolvidos a não encontrar grandes erros. Muito se ouve, em nossos tempos, acerca de crer naquilo que a gente deseja que seja verdade; qualquer que seja o nosso pensamento sobre o que tem sido intitulado de nova psicologia, todos precisamos concordar que tendemos por deixar-nos controlar por preconceitos e que nada é tão difícil quanto pensar livremente e com mente aberta.

Alguns homens, por natureza, inclinam-se por subestimar problemas e dificuldades; ao passo que outros, igualmente devido à sua natureza, tendem por engrandecê-los e exagerá-los. Quando dois homens assim são chamados a enfrentar o mesmo problema, pode-se até predizer, mais ou menos, o que cada um dirá. O otimista convicto sem dúvida alguma dirá: "Está tudo bem", antes mesmo de haver começado a examinar o problema. Mostra-se tão ansioso por descobrir pouco defeito e tão preparado para gritar: "Paz, paz", que dificilmente descobrirá grandes erros. Não é que ele seja desonesto ou que se recuse a aceitar as evidências, os sintomas e os sinais, mas é que está cego por causa de seus preconceitos.

O resultado dos preconceitos se vê com igual clareza na atitude dos falsos profetas para com os profetas autênticos. Quão amargos foram os falsos profetas da antigüidade, contra Jeremias e contra outros! Nosso próprio Senhor, certa vez, clamou, angustiado de coração: "Jerusalém, Jerusalém! que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!" (Mt 23.37a). Os falsos profetas não se contentavam apenas em desobedecer. Eram amargurados e maldosos. A atitude deles em odiar e perseguir os profetas de Deus revela, uma vez mais, uma mentalidade que é exata­mente o oposto da tranqüila perspectiva científica. É impossível pensar com clareza em tal estado mental. As pessoas que, na amargura, no escárnio e na maldi­ção, repelem a religião cristã, tão-somente declaram que nunca a consideraram, pelo fato de serem incapazes de honestamente pensar a seu respeito, por mais argutos e bem qualificados que sejam em outros campos. E precisamos admitir que isso continua a se manifestar no tempo presente. Os homens raramente se satisfazem com um mero discordar dos ensinamentos da Bíblia. Sentem a necessidade de lançá-la no ridículo e de amaldiçoá-la. Precisam zombar dela, exibindo seus sentimentos e ímpetos contra ela. Eles simplesmente demonstram os seus preconceitos, embora agir dessa maneira seja a própria antítese do raciocínio calmo e lógico.

Contudo, assim como desse modo os falsos profetas revelam os seus preconceitos em geral, com igual clareza podemos mostrar que isso afeta também os detalhes de seus processos de pensamento. Não é evidente, por exemplo, que eles começam estabele­cendo um padrão falso? Situam a felicidade antes da saúde. Seu profundo desejo é serem capazes de dizer que tudo vai bem. Aquilo que eles mais querem é estar livres da dor.

Isso é algo com que todos podemos simpatizar. Em qualquer situação de anormalidade ou doença, aquilo que tende por monopolizar a nossa atenção é a dor e o sofrimento. Enquanto perdurar tal situação, não nos interessaremos por outra coisa. Simplesmente desejamos receber alívio para aquela dor, qualquer coisa que diminua a nossa agonia e o nosso sofrimento. Esse é o principal pedido que fazemos ao médico que nos vem tratar. Tal desejo é perfeitamente legítimo. É essencial que o médico faça tudo ao seu alcance para aliviar o sofrimento.

Porém, caso ele com nada mais se preocupasse senão com o aliviar a dor, então não só seria um médico falso, mas também seria uma ameaça contra os melhores interesses do paciente. Porquanto o que um enfermo realmente precisa não é do mero alívio para a dor, mas é da cura para a enfermidade que causa a dor. As drogas que aliviam as dores podem, ao mesmo tempo, estar mascarando sintomas, cujo desígnio é chamar a atenção para a condição de enfermidade. É coisa fácil, por exemplo, aplicar uma injeção de morfina em um paciente, para aliviar-lhe a dor. Todavia, o alívio do sofrimento, sem a busca honesta pela causa da dor, daria ao médico a reputação de ser superficial, quase que criminosamente. A dor é um sintoma de enfermi­dade e tem por objetivo natural capacitar o médico a localizar a causa essencial da dificuldade.

Empreguemos uma outra ilustração: sob a influ­ência do álcool, o homem pode sentir-se perfeitamente feliz por algum tempo; mas a pergunta é: resolveu ele os seus problemas? Colocar a felicidade antes da saúde e considerá-la o bem supremo é ser culpado de um engano fundamental na questão dos padrões a serem usados.

Esse procedimento impensado também inclui uma outra falácia maior, a de deixar de perceber que, em última análise, a felicidade depende da saúde e dela resulta. Qualquer outro tipo de felicidade é negativo e depende tão-somente da ausência de condições que impeçam a sua existência. Entretanto, por mais que nos esforcemos por diminuir a nossa tristeza, enquanto continuar a doença não haverá verdadeira felicidade. Assim sendo, nada é tão falaz e tão fatal à autêntica felicidade quanto o fazer da própria felicidade e do lazer finalidades em si mesmos. Quando nosso Senhor declarou: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos" (Mt 5.6), não quis Ele dizer que esses seriam felizes por terem fome e sede de felicidade. A bem-aventurança, a felicidade, a alegria é algo que resulta de buscarmos a retidão e de nos tornarmos justos. Trata-se de um subproduto, um re­sultado final. Não podemos colocar a bem-aventurança ou felicidade na posição suprema. Antes, convém, que busquemos a retidão; e então, tendo-a encontrado, nos sentiremos felizes e repletos de bem-aventurança.

Porém, o que finalmente explica o fracasso dos falsos profetas, em não poderem pensar claramente, é que eles estão deliberadamente resolvidos a se defen­derem e a pensarem de si mesmos em termos positivos. O orgulho é a raiz do problema. O ponto de vista dos falsos profetas começa com o postulado que, seja qual for a causa das dificuldades da vida, ela não se encontra no próprio homem.

Todos nós por acaso não conhecemos algo desta suposição, em nossas próprias vidas e experiências? Nada há que tanto nos desgoste como a crítica ou a sugestão de que estamos errados. Quão astutos somos, ao justificar o que fazemos ou ao racionalizar os nossos próprios pecados! Quão difícil é vermos defeitos e máculas em nós mesmos, quando os podemos reco­nhecer à distância, nos outros!

A perspectiva de um falso profeta para com o homem e seus problemas é idêntica, somente que em escala maior. A suposição inicial é que o próprio indi­víduo nada tem de errado. Portanto, a causa da perturbação deve ser procurada e encontrada em algum outro lugar; e nada pode ser admitido como fato, se puser em dúvida a integridade inerente do homem. É por essa razão que o ensinamento bíblico acerca do pecado no coração humano, como causa de todos os males, é profundamente ofensivo aos homens, sendo esse, acima de tudo, o aspecto do evangelho, nos seus ensinamentos, que os homens mais fortemente objetam. Em outras palavras, o tribunal já foi subornado, antes mesmo do caso ser apresentado em juízo. O juiz e o júri já foram aliciados e estão eivados de precon­ceitos. O veredito foi decidido antes de qualquer evidência ser trazida à luz. Assim, o homem deve ser absolvido, e, naturalmente, ele o é. Começando com a fixa determinação de evitar qualquer coisa desagradável ou desconcertante para nossa auto-estima e para nosso orgulho, e desejando, acima de tudo, o lazer e a felici­dade, o homem encontra pouquíssima dificuldade nesse ponto de vista sobre a vida, e precisa de bem pouco tempo para persuadir a si mesmo de que tudo vai bem, gritando então: "Paz, paz".

A questão vital, porém, é: Porventura há paz? Ao fazer tal indagação e ao fornecer-lhe a resposta, a mesma dada há tantos séculos por Jeremias, chegamos à nossa terceira afirmativa concernente a esse raso ponto de vista sobre a vida. Fica comprovado, pelo teste dos fatos e da história, que é um ponto de vista inteiramente falso. Os falsos profetas clamavam "Paz, paz"; mas não havia paz. Quando aprenderemos que não há paz permanente neste mundo e deixaremos de dar atenção aos falsos profetas? O fato de ser necessário salientar esse ponto, numa época como a nossa, quando acabamos de experimentar duas devastadoras guerras mundiais, ambas neste século, é prova, por si mesmo, da cegueira que aflige esse otimismo fatal que atinge a humanidade em sua natureza. Mas, devido à nossa cegueira, esse é um particular que deve ser salientado e repetido interminavelmente, se quisermos ser salvos.

Temos de enfrentar, portanto, questões como as seguintes: Por quanto tempo ainda teremos de esperar, antes que esse movimento ascendente e essa tendência, na humanidade, evolua a um estado de final e completa perfeição? Haverá alguma esperança para nós, ou teremos apenas de sonhar acerca de tal esperança, porquanto só se concretizará após muitas e muitas outras eras de tempo? Haverá qualquer evidência real da existência de tal avanço? Uma vez mais precisamos considerar se o mundo está se tornando mais feliz, melhor e mais gentil; se os problemas da vida estão diminuindo gradualmente em número e decrescendo em complexidade; se a desumanidade do homem contra o homem é menos evidente hoje em dia do que era antes. No entanto, todos esses problemas exigem resposta: Há provas do incremento de virtudes positi­vas? E o que dizer sobre a idéia de que tudo o quanto necessitamos é aplicar nossa capacidade cerebral, desenvolver nosso intelecto e expandir nosso conheci­mento? As pessoas dotadas de habilidade estão isentas desses problemas? O intelecto garante uma vida de felicidade perfeita? O homem que adquiriu conheci­mento e cultura, necessariamente é um modelo de todas as virtudes? Está tal homem imune a todas as enfermi­dades e dificuldades das quais a carne é herdeira? Aplica ele, invariavelmente, o seu conhecimento e os seus poderes de raciocínio, quando atraído por aquilo que sabe ser errado ou prejudicial, mas que, não obstante, lhe é atrativo e que lhe satisfaz?

Se quisermos as respostas, teremos apenas de ler as obras dos grandes escritores do mundo. Tais homens, algumas vezes, se acham entre os maiores sofredores do mundo e, com freqüência, têm suportado agonias mentais e espirituais mais pungentes do que qualquer outro tipo de pessoa. De fato, no terreno de suas rela­ções pessoais, com freqüência têm fracassado da maneira mais trágica. A filosofia de Bacon, a qual diz que "conhecimento é poder", tornou-se um popular "slogan" moderno. Mas a história, as biografias e os registros dos tribunais de justiça, bem como as colunas dos jornais, relatam uma realidade inteiramente diversa. À parte de tudo isso, entretanto, se a nossa salvação jaz no intelecto e no conhecimento, que esperança pode haver para aqueles que não foram dotados de grande intelecto, os quais, portanto, não podem ter a esperança de aprender? Uma salvação que pode salvar apenas alguns é uma zombaria e uma imitação burlesca da palavra.

Do mesmo modo, podemos ver que uma simples mudança de condições não tem possibilidade de solu­cionar o problema. São felizes todos quantos são suficientemente abastados? A possessão de coisas, casas e bens soluciona, na realidade, todos os problemas? Quem, geralmente, é mais feliz, o rico ou o pobre, o habitante da cidade ou o do campo? Em qual classe se verifica o maior número de tragédias, ou em qual delas se experimenta uma maior profundidade de miséria e desolação? A resposta, naturalmente, é que, em última análise, as condições fazem bem pouca diferença em nossa felicidade ou no caráter de nossa vida. Pelo menos, se fazem diferença, então é que estamos tendo uma modalidade de vida das mais precárias. As coisas que determinam o nosso tipo de vida são muito mais profundas — o amor ou o ódio, a inveja ou a generosi­dade de espírito, o egoísmo ou a disposição de ajudar a outros, bem como todas as várias outras qualidades de caráter que contribuem para determinar as relações humanas. Os nossos problemas e tribulações originam-se em nós mesmos e naquilo que somos.

Não queremos negar o valor da educação ou das condições econômicas. Todas as criaturas humanas têm direito a certa medida de vida decente no mundo presente e deveriam exigi-la como algo que lhes cabe; mas dizer que isso basta, e que tais coisas solucionam, sozinhas, todos os nossos problemas, é exibir um ponto de vista inteiramente falso acerca da vida. Realmente, tudo isso nos faz lembrar crescentemente daquelas palavras de Shakespeare:

A falha, querido Bruto, não se acha em nossas estrelas,

Mas em nós mesmos, que somos subalternos.

Aqueles que clamam, "Paz, paz", alicerçados sobre base tão superficial, são falsos profetas, para quem os fatos da vida replicam clamorosa e tragica­mente: "Não há paz".

Antes que possam ser solucionados os problemas da vida e dos homens, precisamos primeiramente entender a verdadeira natureza do problema. Visando esse fim, precisamos lançar fora todos os nossos preconceitos e deixar de ser governados pelos nossos desejos. Devemos estar preparados para pensar com honestidade, fazendo um exame e uma análise completos, o que nos sondará em profundidade, perscrutando tanto os nossos motivos como as nossas ações.

Onde podem ser encontrados tal exame e tal análise? Faz parte da própria essência da religião cristã afirmar que isso só pode ser achado na Bíblia. Ali temos a revelação do que Deus pensa sobre o homem e do que Deus tem feito a respeito do homem. Tal ponto de vista é repetido e ilustrado interminavelmente ali. De conformidade com esse Livro, as dificuldades do homem se devem ao fato que ele pecou e se rebelou contra Deus. Foi criado em estado de felicidade, a qual dependia de seu relacionamento com Deus e de sua obediência às leis e à vontade de Deus. No entanto, o homem rebelou-se contra a vontade de Deus e trans­grediu a lei de sua própria natureza.

Conforme temos visto, a felicidade depende da saúde. Em parte alguma essa sucessão de fatos pode ser melhor percebida do que no campo espiritual e moral. O homem tornou-se doentio. Uma enfermidade de nome pecado tem lhe invadido o ser. O homem, porém, recusa-se a reconhecer sua corrupção e apela a vários expedientes, os quais mencionamos acima, na tentativa de encontrar felicidade e paz.

Todavia, invariavelmente falha, porquanto a dificuldade não reside apenas no seu interior e em seu meio ambiente, mas também em seu relacionamento com Deus. O homem combate contra o único que pode lhe dar aquilo que ele necessita e que deseja. Deus declarou: "Para os perversos, diz o meu Deus, não há paz" (Is 57.21). Portanto, por lutar contra Deus, por resistir a Ele e desobedecer-Lhe, o homem rouba de si mesmo o próprio prêmio que anela receber. E, não importa o que venha a fazer, enquanto não for restau­rada a sua relação de obediência a Deus, nunca conhecerá a saúde e a felicidade. Poderá multiplicar suas riquezas e possessões, poderá aperfeiçoar seus instrumentos de educação, poderá obter todo um mundo de riquezas e conhecimento; mas fazer tal coisa em nada lhe aproveitará, enquanto seu relacionamento com Deus não for corrigido. Sempre estará lhe faltando alguma coisa, até mesmo em seus momentos de maior alegria; nunca conhecerá verdadeira satisfação. O homem descobrirá falhas em suas circunstâncias e procurará modificá-las, mas o alívio obtido será apenas temporário. Acusará outras pessoas e formará novas associações e alianças, mas em breve sentir-se-á infeliz novamente. Censurará isto e aquilo, apelará para este ou aquele expediente, até que, à semelhança de Hamlet, vendo que tudo é insuficiente, clamará amargurado:

O tempo está desconjuntado:
ó maldita malevolência,
Que eu tenha nascido,

a fim de procurar corrigi-lo!

O homem sente que ele mesmo está certo e que suas dificuldades estão arraigadas em algum outro lugar. Assim ele continua indefinidamente em sua miséria e em sua desgraça, com suas experiências fúteis, até que, à semelhança de Agostinho, antes devasso e pecami­noso, chegue a perceber que a dificuldade está em seu interior, em seu distorcido relacionamento com Deus, clamando: "Tu nos criaste para ti mesmo, e nossos corações não têm sossego enquanto não acham descanso em ti".

Porém, tendo chegado a essa percepção, começará a sentir que seu caso é totalmente desesperador. Perceberá não apenas a sua insensatez, mas também a sua arrogância. Sentirá que perdeu o direito a qualquer demonstração do amor de Deus. Mas a admirabilíssima maravilha é que ele ouve o evangelho, segredando-lhe que Deus, a despeito de toda a sua desobediência, tem esperado pacientemente por ele. De fato, descobre que Deus vinha procurando por ele, tendo enviado o seu próprio Filho, Jesus Cristo, a este mundo, a fim de encontrá-lo e libertá-lo. Em seguida, lhe é revelado que Cristo já morreu para levar a sua culpa. O perdão lhe é assegurado, e recebe uma vida nova e uma nova natureza.

Agora ele vê tudo de maneira nova. Os problemas são resolvidos e as dificuldades são banidas. Começa a experimentar uma verdadeira paz, porquanto não depende exclusivamente de outras pessoas e de condi­ções externas. Pelo contrário, trata-se de uma paz que persiste, a despeito das condições mutáveis; uma calma profunda, íntima, que ele pode descrever somente como "a paz de Deus, que excede todo o entendimento" (Fp 4.7). E também descobre que, justificado por meio da fé, tem "paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 5.1). E então, vendo a si mesmo e a todos os outros homens sob essa nova luz, derramada sobre o homem e seu mundo, pela Bíblia e seus ensinamentos, concorda plenamente com Agostinho e outros. Não pode haver paz entre os homens enquanto ela não se tornar uma realidade no íntimo da pessoa, e esse ideal pode ser obtido somente quando nos subme­temos àquele que disse: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize" (Jo 14.27).

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Extraído de "Sincero mas Errado", ed. Fiel.