quarta-feira, 1 de julho de 2009

"Não julgueis..."

Silas Roberto Nogueira


Penso que se dissesse que muitos são os que conhecem o Sermão do Monte, mas são poucos os que o compreendem e menos ainda aqueles que o praticam não estaria errado. Haveria, porventura, alguma parte das Escrituras tão popular, tão erroneamente citada e tão mal interpretada como as palavras de Jesus “não julgueis...” (Mt.7:1)? Edward Donnelly chamou a atenção ao fato de que “estas palavras têm sido adotadas como fundamento para uma abordagem permissiva e sem criticismo da vida, de uma mentalidade “tudo é aceitável”, que nunca forma, e muito menos expressa, uma opinião desfavorável das coisas ou das pessoas”.[1] Isso porque o que caracteriza a época atual é a repugnância à verdade absoluta ou universal, tudo é uma questão de opinião. Em uma época subjetivista como a nossa na qual imperam o pluralismo e o hedonismo a tolerância (designação atual para omissão) é exigida em nome da conciliação e da paz. Por isso é vital que saibamos o que o Senhor Jesus quis dizer com estas palavras e, como disse o Dr. Lloyd-Jones, “nunca uma correta interpretação dessa injunção foi mais importante do que na época presente.” [2]



A primeira coisa a ser dita aqui é que é ilegítimo o uso destas palavras (“não julgueis”) como uma mordaça para silenciar os que se opõem e denunciam a hipocrisia, heresia ou apostasia de alguns.



Depois, é igualmente ilegítimo o uso destas palavras para revestir o pecado da omissão com capa de espiritualidade não emitindo juízo algum, já que ninguém é perfeito como se costuma dizer.



Essas atitudes são, no mínimo, uma prova da ignorância por parte de uns, tolerância pecaminosa por parte de outros e fruto do mau uso das Escrituras por ambas as partes.



Ora, é simplesmente impossível não julgar quando ao homem é dado o privilégio de fazê-lo e ele é devidamente responsabilizado por isso. Depois, como poderíamos não dar “aos cães o que é santo” ou não dar aos “porcos” aquilo que tem valor (7:6) ou guardar-nos dos “falsos profetas” (7:15-23) –sem exercer juízo ou discernimento a seu respeito?



O fato é que o texto realmente não significa que não devemos emitir juízos em tempo algum sobre a conduta ou opinião de alguém (1 Tes.5:21). O contexto indica que podemos julgar, mas a ênfase aqui recai em como não se deve fazê-lo. Há um tipo de juízo que é vetado ao cristão, é a ele que o Senhor Jesus se refere. Assim, não se deve julgar quando:



a) Nosso juízo é baseado em nosso senso de justiça própria. Lloyd-Jones declara que “O “ego” está sempre por detrás dessa questão, e esse egoísmo é sempre uma manifestação de justiça-própria, um sentimento que diz que estamos com a razão ao passo que outras pessoas não o estão. Isso, pois, leva ao espírito censurador, um espírito sempre disposto a expressar-se de forma aviltante. Paralelamente a isso, entretanto, há aquela outra tendência de desprezar o próximo, de considerá-lo com desprezo.” [3] Os que são justos aos seus próprios olhos são incapazes de julgar suas próprias falhas, mas se consideram muito aptos em condenar os pecados dos outros. (Tg.4:11). John Gill menciona um provérbio pronunciado pelo rabino Hillel, que diz: “não julge o seu vizinho, até que tenhas tomado o seu lugar”.



b) Nosso juízo deriva do nosso hábito de julgar. O tempo presente do verbo usado pelo Senhor indica uma ação habitual, isto é, uma atividade contínua de julgar. Muitos nem percebem, mas são mais capazes de criticar do que elogiar. Tais pessoas desenvolveram o terrível hábito de criticar todos e tudo todo o tempo. Eles farejam erros ou falhas e se deleitam em denunciá-las, em expô-las. O denuncismo é uma tragédia em qualquer setor das nossas vidas. J. C. Ryle assinala “o que o nosso Senhor condena é um espírito crítico que em tudo encontra alguma falta”.



c) Nosso juízo é desnecessário. Em muitas ocasiões exercemos julgamentos sobre assuntos ou pessoas que não nos dizem respeito, que não estão diretamente vinculadas conosco (2 Ts.3:11,12; 1 Pe.5:14). Nossos julgamentos só são válidos quando pronunciados “a seu tempo” (Prov.15:23;25:11).



d) Nosso juízo é trivial. Em muitas ocasiões nós nos manifestamos sobre coisas triviais, corriqueiras e insignificantes (Col. 2:16). A história da igreja é repleta de ocasiões em que cisões ocorreram por causa de questões absolutamente insignificantes, totalmente irrelevantes. Seremos responsabilizados por traumatismos desnecessários ao Corpo de Cristo.



e) Nosso juízo é parcial. Na maioria das vezes nossos julgamentos são baseados em informações incompletas ou com acepção de pessoas, portanto, parciais. Todo juízo parcial é injusto. O livro de Provérbios adverte: “Parcialidade no julgar não é bom” (24:23; cf. 28:21).



f) Nosso juízo é apressado. Não poucas vezes nossos julgamentos, críticas são apressados, imponderados. A pressa torna nossa crítica ou julgamento imoderado, portanto igualmente injusto. Paulo diz: “nada julgueis antes do tempo” (1 Co. 4:5), essa é uma exortação a não emitir julgamento prematuramente. João Calvino comentando o texto diz: “Paulo não estava condenando todo e qualquer gênero de julgamento, mas somente aquele julgamento precipitado e audacioso sem que haja um exame criterioso”.



g) Nosso juízo é intolerante. Nem sempre nos damos ao trabalho de duvidar das informações recebidas, em benefício do acusado. Nem sempre avaliamos as fontes de informação ou caráter daqueles que nos trazem determinadas informações. Erramos gravemente quando consideramos alguém culpado até que prove a sua inocência, quando deveríamos considerá-lo inocente até que provem a sua culpa. Qualquer dúvida quanto a veracidade dos fatos e evidências deveria beneficiar o acusado.



h) Nosso juízo é incoerente. Muitas vezes aquilo que condenamos nos outros é justamente aquilo que praticamos. Paulo adverte: “Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas.” (Rom.2:1; CF. Tg.2:11-12)



i) Nosso juízo é pessoal. Todo juízo ou crítica que ataca pessoas é iníquo. A parte mais difícil quando se tem que emitir juízo é fazê-lo sem atacar a pessoa, ignorar a ação ou palavra e ir para o homem. (Mt. 5:22).



j) Nosso juízo ou crítica é sem misericórdia. Lloyd-Jones declarou “uma outra indicação sobre a presença do espírito hipercrítico é que ele nunca se dá ao trabalho de procurar compreender as circunstâncias. E também nunca aceita justificativas. E isso porque jamais se dispõe a exercer misericórdia”. [4] O juízo ou a critica sem misericórdia beira a vingança, por isso mesmo reprovável. (Tg.2:13).



l) Nosso juízo é segundo a aparência ou superficial. O Senhor Jesus diz: “não julgueis segundo a aparência, e, sim, pela reta justiça” (Jo. 7:24). Seus opositores que O condenavam por praticar uma boa ação num sábado estavam sendo superficiais. Um julgamento justo certamente penetraria sob aquilo que está à vista, na superfície e julgaria de acordo com o espírito e o propósito de Lei. Quando emitimos juízos segundo as aparências cometemos injustiça, como os líderes religiosos dos dias do Senhor Jesus Cristo.



m) Nosso juízo ou crítica é final, condenatório. Todo juízo ou crítica que pronuncia uma decisão final não é correto, é usurpador. Subtraímos um direito exclusivo de Deus quando o fazemos, pois só Ele pode julgar retamente (Gên.18:25;1 Pe.2:23) e emitir uma condenação final (2 Tm.4:11;Tg.4:12; Ap.20:12,13). Ao fazê-lo, tornamo-nos réus de juízo (Lc.6:37; Rm.2:3).



Se há algo que deve estar na mente daqueles que se atrevem a julgar os outros sem os critérios acima mencionados é o fato de que eles mesmos serão julgados e com a mesma severidade: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também.”. John Stott declarou acerca disso “a exposição dos princípios está clara. Se assumimos a posição de juízes, não podemos invocar a ignorância da lei que estamos reivindicando ser capazes de administrar aos outros”. [5] (Tg.4:11,12).



Mas devemos lembrar que o texto não quer dizer que não devemos fazer julgamentos de modo absoluto, conforme o próprio contexto indica. No entanto, uma postura acrítica não é mais cristã que uma postura hipercrítica, ambos os extremos são condenáveis. Devemos julgar tudo, mas acima de tudo de maneira legítima, segundo a “reta justiça” (Jo.7:24).


Soli Deo Gloria!



[1] DONNELLY, E. Fé para Hoje, pág. 34.

[2] LLOYD-JONES, D.M., Estudos no Sermão do Monte, pág. 442

[3] LLOYD-JONES, D.M., p. 447

[4] LLOYD-JONES, p.449

[5] STOTT, John, A Mensagem do Sermão do Monte, p. 185

domingo, 28 de junho de 2009

O MINISTÉRIO PASTORAL ESTÁ MAIS ESTRANHO DO QUE COSTUMA SER: O DESAFIO DO PÓS-MODERNISMO

Por Dr. Albert Mohler



Dr. Albert Mohler é o presidente do Southern Baptist Theological Seminary, pertencente à Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos; é pastor, professor, teólogo, autor e conferencista internacional, reconhecido pela revista Times como um dos principais líderes entre o povo evangélico norte-americano. É casado com Mary e tem dois filhos, Katie e Christopher.


Hoje em dia, uma preocupação comum parece surgir onde quer que os ministros se reúnam: o ministério pastoral está mais estranho do que costumava ser. Não que o ministério esteja mais difícil, mais cansativo ou mais exigente... está apenas diferente – e cada vez mais estranho.

Esse sentimento de estranheza deve-se à propagação da cultura e da filosofia pós-modernista; provavelmente, o movimento cultural e intelectual mais importante do atual século XXI. Que diferença o pós-modernismo tem causado? Para saber, basta olhar para a mídia moderna, para a cultura popular e para a forma como algumas pessoas arregalam os olhos, desconcertadas, quando falamos sobre a verdade, o sentido da vida e moralidade.

O pós-modernismo desenvolveu-se entre os acadêmicos e artistas, mas rapidamente se espalhou para toda a cultura. O pós-modernismo refere-se basicamente ao desaparecimento da modernidade e ao surgimento de um novo movimento cultural. A modernidade, cosmovisão dominante desde o Iluminismo, foi suplantada pelo pós-modernismo, que tanto amplia, como nega certos princípios e símbolos centrais da era moderna.

É claro que muito da literatura a respeito do pós-modernismo é absurda e difícil de ser levada a sério. Quando a maioria dos personagens eminentes do pós-modernismo fala ou escreve, geralmente o resultado é uma linguagem inarticulada que se parece mais com um teste de vocabulário do que com um argumento bem fundamentado. No entanto, o pós-modernismo não deve ser deixado de lado como algo sem importância ou irrelevante. Essa não é uma questão de preocupação somente entre os acadêmicos e a vanguarda – esse novo movimento representa um desafio crucial à igreja cristã e ao pastor.

Na verdade, o pós-modernismo pode não ser considerado como um movimento ou uma metodologia. Ele pode ser melhor descrito como uma disposição mental que se afasta das certezas da era moderna. Essa disposição mental é o cerne do desafio pós-moderno.

O que delineia essa disposição mental pós-moderna? Esse novo movimento é útil para a nossa proclamação do evangelho? Ou a era pós-moderna traz um grande afastamento da verdade cristã? Uma olhada nos aspectos fundamentais do pós-modernismo pode ser útil.

A Desconstrução da Verdade

Ainda que a natureza da verdade venha sendo debatida ao longo dos séculos, o pós-modernismo tem transformado esse debate em seu carro-chefe. Embora a maioria dos argumentos ao longo da história tenha se focalizado nas afirmações antagônicas acerca da verdade, o pós-modernismo rejeita até mesmo a mera noção da verdade como algo imutável, universal, objetivo ou absoluto.

A tradição cristã compreende a verdade como algo estabelecido por Deus e revelado através da auto-revelação de Deus nas Escrituras. A verdade é eterna, imutável e universal. Nossa responsabilidade é regrar a nossa mente em conformidade com a verdade revelada de Deus e testemunhar essa verdade. Servimos a um salvador que identificou-se como sendo "o Caminho, a Verdade e a Vida" e exigiu fé nEle.

A ciência moderna, em si mesma um produto do Iluminismo, rejeitou a revelação de Deus como fonte da verdade e colocou o método científico em seu lugar. A modernidade tentou estabelecer a verdade baseada na precisão científica, através do processo do pensamento indutivo e da investigação. As outras disciplinas tentaram seguir o exemplo dos cientistas, estabelecendo uma verdade objetiva por meio do pensamento racional. Os modernistas estavam confiantes de que a sua abordagem produziria verdades universais e objetivas por intermédio da razão humana.

Os pós-modernistas rejeitam tanto a abordagem dos cristãos quanto a dos modernistas no assunto da verdade. Conforme a teoria pós-modernista, a verdade não é universal, não é objetiva ou absoluta e não pode ser determinada pelos métodos normalmente aceitos. Ao invés disso, os pós-modernistas argumentam que a verdade é construída socialmente, que ela é plural e inacessível à razão universal.

Conforme afirma o filósofo pós-moderno Richard Rorty, a verdade é fabricada e não descoberta. De acordo com os desconstrucionistas, uma ramificação influente dos pós-modernistas, toda verdade é construída socialmente. Ou seja, os grupos sociais constroem a sua própria "verdade" para servir aos seus interesses. De acordo com o argumento de Michel Foucault, um dos teóricos pós-modernistas mais importantes, toda reivindicação da verdade é construída para servir àqueles que estão no poder. Dessa forma, o papel do intelectual é desconstruir a reivindicação da verdade para libertar a sociedade.

Aquilo que tem sido entendido e afirmado como sendo a verdade, declaram os pós-modernistas, nada mais é do que uma estrutura de pensamento conveniente, planejado para oprimir aqueles que não estão no poder. A verdade não é universal, porque cada cultura estabelece a sua própria verdade. A verdade não é objetivamente real, pois toda verdade é meramente construída – como afirmou Rorty, a verdade é fabricada e não descoberta.

Não é preciso ter muita imaginação para perceber que esse relativismo radical é um desafio direto ao evangelho cristão. A nossa reivindicação não é pregar uma verdade entre muitas. Não cremos que o evangelho cristão é uma verdade construída pela sociedade, mas sim a Verdade que liberta pecadores do pecado – e ela é objetiva, universal e historicamente verdadeira. E como o falecido Francis Schaeffer nos instruiu, a igreja cristã deve lutar pela verdade verdadeira.

A Morte da Metanarrativa

Visto que os pós-modernistas acreditam que toda verdade é construída socialmente, devemos resistir a qualquer apresentação de uma verdade absoluta, universal e estabelecida. Todas as vastas e maravilhosas asseverações acerca da verdade, do sentido da vida e da existência humana são rejeitadas como "metanarrativas" que reivindicam muito mais do que aquilo que podem oferecer.

Jean-François Lyotard, provavelmente o mais famoso pós-modernista europeu, definiu o pós-modernismo nestes termos: "Simplificando ao extremo, pós-modernismo é a incredulidade contra as metanarrativas".[i] Assim sendo, todos os grandiosos sistemas filosóficos estão mortos, e todas as asseverações culturais são limitadas; tudo o que resta são histórias aceitas como verdade por diferentes grupos e culturas. As afirmações sobre uma verdade universal – as metanarrativas – são opressivas, "totalitárias" e devem ser rejeitadas.

O problema nessa questão, é lógico, é que o cristianismo não faz sentido sem o evangelho – que é uma metanarrativa. Na verdade, o evangelho cristão é nada menos do que a Metanarrativa de todas as metanarrativas. Para o Cristianismo, abandonar a reivindicação de que o evangelho é uma verdade universal e objetivamente estabelecida é o mesmo que abandonar o ponto essencial da nossa fé. O cristianismo é a grandiosa metanarrativa da redenção. Nossa história começa com a criação do Deus soberano e onipotente; continua por meio da queda da humanidade no pecado e da redenção dos pecadores por intermédio da obra substitutiva de Cristo na cruz; e promete um duplo destino eterno para toda a humanidade – os redimidos, para sempre com Deus, na glória; e os não-redimidos, no castigo eterno. Essa é a mensagem que pregamos – e ela é uma metanarrativa gloriosa e transformadora de vidas.

Não pregamos o evangelho como se fosse uma narrativa dentre muitas narrativas verdadeiras ou como a "nossa" narrativa, paralelamente às narrativas autênticas dos outros. Não podemos recuar, afirmando que a verdade bíblica é simplesmente para nós. A nossa reivindicação é que a Bíblia é a Palavra de Deus para todos. Isso é profundamente ofensivo para a cosmovisão pós-modernista, que ataca, com imperialismo e opressão, a todos quantos asseveram verdades universais.

O Falecimento do Texto

Se a metanarrativa está morta, logo, os maravilhosos textos por detrás das metanarrativas também estão mortos. O pós-modernismo afirma que é uma falácia atribuir significado a um texto, ou mesmo ao que o autor disse. O leitor é quem estabelece o significado, e nenhum controle limita o significado da leitura.

Jacques Derrida, líder da literatura desconstrucionista, descreve essa mudança nos termos "morte do autor" e "morte do texto". O significado fabricado, mas não descoberto, é criado pelo leitor no ato da leitura. O texto deve ser desconstruído para que possa libertar-se do autor e permanecer um texto vivo, como uma palavra livre.

Esse novo método de hermenêutica explica muitos dos correntes debates na literatura, na política, no direito e na teologia. Todos os textos – quer sejam as Sagradas Escrituras, a Constituição dos Estados Unidos ou as obras de Mark Twain – são submetidos ao criticismo e à dissecação esotérica, tudo em nome da libertação.

Segundo os pós-modernistas, os textos revelam uma mensagem oculta, com intenções opressoras da parte do autor e, por essa razão, devem ser desconstruídos. Essa não é uma mera questão de importância acadêmica. É o argumento por detrás das muitas interpretações contemporâneas da Constituição, feitas pelos juízes; das apresentações dos assuntos na mídia e da fragmentação da erudição bíblica moderna. O surgimento de escolas de interpretações voltadas para grupos de interesse como o das feministas, dos liberalistas, dos homossexuais e vários outros é a questão central desse princípio pós-moderno.

Conseqüentemente, a Bíblia é submetida à uma reinterpretação radical, geralmente com pouca ou nenhuma consideração pelo significado óbvio do texto ou pela intenção evidente do autor humano. Os textos que não agradam a mente pós-modernista são rejeitados como opressivos, patriarcais, heterossexuais, homofóbicos ou deturpados por outros preconceitos ideológicos ou políticos. A autoridade do texto é negada em nome da libertação, e as interpretações mais fantasiosas e ridículas são celebradas como "convincentes" e até mesmo "autênticas".

É claro que a noção de "morte do autor" assume um significado completamente novo quando aplicado às Escrituras, pois reivindicamos que a Bíblia não é meramente palavras de homens, mas sim a Palavra de Deus. A insistência pós-modernista na morte do autor é inerentemente ateísta e anti-sobrenatural. A reivindicação de uma revelação divina é descartada como apenas mais uma das exteriorizações do poder opressivo. Quando a verdade é negada, o que prevalece é a terapia. A questão crucial muda de "O que é a verdade?" para "O que faz com que eu me sinta bem?". Essa tendência cultural tem se desenvolvido ao longo do século, mas agora tem alcançado proporções épicas.

A cultura que confrontamos está quase que completamente submissa ao que Philip Reiff chamou de "triunfo da terapêutica". Num mundo pós-moderno, todas as questões acabam girando em torno do eu. Portanto, tudo o que resta como alvo de muitas abordagens educacionais e teológicas é elevar a auto-estima. Categorias de palavras como "pecado" são rejeitadas como opressivas e prejudiciais à auto-estima.

As abordagens terapêuticas são dominantes numa cultura formada de indivíduos que não têm sequer a certeza de que a verdade existe – mas que estão convictos de que nossa auto-estima deve permanecer intacta. O certo e o errado são descartados como lembranças obsoletas de um passado opressivo. Em nome de nossa própria "autenticidade", rejeitaremos todos os padrões morais inconvenientes e substituiremos a preocupação com o certo e o errado pela afirmação dos nossos direitos.

A Teologia é igualmente reduzida à terapia. Sistemas teológicos inteiros, bem como suas abordagens, são construídas de modo a reduzir o seu alvo a nada mais do que à elevação da auto-estima de indivíduos e grupos especiais. Essas teologias do "sentir-se bem" dispensam a "negatividade" dos textos bíblicos ofensivos ou até mesmo a Bíblia inteira. Categorias de palavras como "perdição" e julgamento ficam de fora. No lugar delas estão as vagas noções sobre aceitação sem arrependimento e completude sem redenção. Podemos não saber (ou nos importar) se somos salvos ou perdidos, mas certamente nos sentimos bem melhor acerca de nós mesmos.

O Declínio da Autoridade

Visto que a cultura pós-moderna está comprometida com uma visão radical de libertação, todas as autoridades devem ser subvertidas. Dentre todas as autoridades destronadas estão: textos, autores, tradições, metanarrativas, a Bíblia, Deus e todos os governos no céu e na terra. Exceto, é claro, a autoridade dos teóricos pós-modernistas e dos personagens eminentes da cultura, que exercem o seu poder em nome dos povos oprimidos em toda parte.

Segundo os pós-modernistas, aqueles que estão em posição de autoridade utilizam seu poder para continuarem no poder e servirem aos seus próprios interesses. Suas leis, tradições, textos e "verdade" nada mais são do que aquilo que é projetado para mantê-los no poder.

Assim, a autoridade dos líderes governamentais passa a ser corroída, da mesma forma como a autoridade dos professores, dos líderes comunitários, dos pais e dos pastores. Enfim, a autoridade de Deus é rejeitada como sendo totalitária e autocrática. E como os pastores são representantes dessa deidade autocrática, devemos resistir à autoridade deles de igual modo.

Doutrinas, tradições, credos e confissões de fé – tudo deve ser rejeitado e taxado como algo que limita a auto-expressão e representa &a autoridade opressiva. Os pregadores são tolerados, contanto que apóiem as mensagens terapêuticas que elevam a auto-estima; e resistidos, sempre que introduzem reivindicações sobre a autoridade divina ou à verdade universal em seus sermões.

A Destituição da Moralidade

Ivan, na novela de Fyodor Dostoyevsky, Os Irmãos Karamasov, estava certo; se Deus está morto, tudo é permissível. O Deus permitido no pós-modernismo não é o Deus da Bíblia, mas sim uma vaga idéia de espiritualidade. Não há tábuas da lei, nem os Dez Mandamentos... não há regras.

A moralidade, juntamente com outros alicerces culturais, é descartada como opressiva e totalitária. Um relativismo moral abrangente é a marca da cultura pós-moderna. Não estou dizendo que os pós-modernistas relutam em utilizar uma linguagem moral. Ao contrário, a cultura pós-modernista está recheada de discurso moral.

A homossexualidade, por exemplo, é abertamente defendida e aceita.& O avanço dos estudos sobre gays e lésbicas nas universidades, o aparecimento do poder político homossexual e as imagens eróticas homossexuais, agora comuns na cultura popular, marcam essa dramática reviravolta moral. A homossexualidade não é mais considerada um pecado. A homofobia é criticada como se fosse pecado, e as reivindicações por tolerância aos "estilos de vida alternativos" agora se transformaram em reivindicações públicas para a celebração de& todos os estilos de vida como moralmente iguais.

Michael Jones descreveu a modernidade como "promiscuidade sexual racionalizada", e a pós-modernidade é a sua extensão lógica. Michael Foucault, que argumentou que toda moralidade sexual é um abuso de poder, clamou para que o pós-modernismo celebrasse a "perversidade polimorfa". Ele viveu e morreu dedicando-se a esse estilo de vida, e sua profecia tem se cumprido nesta década.

O Ministério Cristão numa Era Pós-moderna

O pós-modernismo representa o único desafio a ser encarado pelo Cristianismo nesta geração. Walter Truett Anderson descreveu a realidade pós-moderna em seu engenhoso livro Reality Isn't What it Used to Be (A Realidade não é Como Costumava Ser).[ii] Esta é a reivindicação central do pós-modernismo: a realidade não é o que costumava ser, e jamais o será novamente. Agora, a humanidade é maior de idade; faremos nossa própria verdade; definiremos nossa própria realidade e nos empenharemos pela nossa auto-estima.

Nessa cultura, o ministério pastoral é mais estranho do que costumava ser. Atualmente, os conceitos pós-modernos de verdade reinam na era pós-moderna, e até mesmo nos bancos das igrejas pós-modernas. Pesquisas indicam que a maioria crescente daqueles que professam ser cristãos rejeitam até mesmo a noção de uma verdade absoluta.

A "morte do texto" fica evidente pela resistência à pregação bíblica em muitas igrejas. Os ouvidos pós-modernos não querem mais ouvir o "assim diz o Senhor" do texto bíblico. Uma vez que a verdade é fabricada e não descoberta, podemos projetar a nossa própria religião ou espiritualidade pessoal e omitir doutrinas e mandamentos morais inconvenientes. O pós-modernismo promete que o indivíduo pode construir uma estrutura pessoal de espiritualidade, livre de interferências ou autorização externas. Sob o lema: "Não existe outra verdade como a minha verdade", as crianças do pós-modernismo estabelecerão seu próprio sistema doutrinal e desafiarão a correção.

Gene Veith, deão da Faculdade Ciências Humanas, na universidade de Concórdia, contou-nos sobre um jovem que afirmava ser cristão, professava crer em Cristo e amava a Bíblia, mas também cria na reencarnação. Seu pastor confrontou sua crença na reencarnação dirigindo o jovem para Hebreus& 9.27. O texto foi lido: "E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo". O jovem voltou o olhar para o seu pastor e respondeu: "Bem, essa é a sua interpretação".[iii]

Em nome do pós-modernismo, qualquer coisa pode ser explicada como uma questão de interpretação. O conceito dos jogos de linguagem wittgenstein declara que cada sentença deve ser avaliada com cuidado. Um conceito tão claro e óbvio como a primeira linha do Credo Apostólico: "Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do céu e da terra" deve ser analisado nos termos das intenções do falante. Essa confissão assevera a crença de que Deus é, de fato, o criador do céu e da terra ou essa afirmação é um mero sentimento pessoal?

A estranheza do ministério pastoral na era pós-moderna pode ser vista em estudos bíblicos que não estudam a Bíblia, mas são exercícios psicológicos de auto-conhecimento, com o tipo de moralidade self-service, praticada por muitos membros de igreja; e a crescente aceitação de outras religiões como caminhos válidos para a salvação.&&&

A cultura moderna é revoltada contra a verdade, e o pós-modernismo não é nada senão a forma mais recente dessa revolta. Nesses tempos estranhos, o ministério pastoral clama por convicções não diluídas e por uma apologética fiel. As tentações para comprometer a mensagem são grandes, e a oposição que se levanta contra todo aquele que tem a pretensão de pregar a verdade absoluta e eterna é severa. Entretanto, essa é a tarefa da igreja cristã.

Precisamos compreender o pós-modernismo, ler os escritos de seus teóricos e aprender sua linguagem. Isso é muito mais um desafio missionário do que um exercício intelectual. Não podemos nos dirigir a uma cultura pós-moderna a menos que entendamos sua mente.

Devido a sua própria natureza, o pós-modernismo está condenado à auto-destruição. Seus princípios centrais não podem ser aplicados de maneira consistente. (Apenas peça para que um acadêmico pós-moderno aceite "a morte do texto" nas cláusulas de seu contrato). A igreja deve continuar a ser o povo da verdade, apegando-se às reivindicações de Cristo, e batalhando pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. O pós-modernismo rejeita qualquer menção a uma verdade que foi entregue "uma vez por todas", mas a igreja não pode comprometer o seu testemunho.

O ministério pastoral está mais estranho do que costumava ser. No entanto, esta é uma era de grandes oportunidades para evangelização, pois à medida que os deuses do pós-modernismo morrem, a igreja testemunha a Palavra da Vida. Em meio à uma era pós-moderna, nossa tarefa é testemunhar a Verdade e recolher os cacos à medida que a cultura se despedaça.


[i] Jean-Francois Lyotard, The Postmodern Condition: A report on Knowledge, trans. Geoff Bennington and Brian Massumi, "Theory and History of Literature," vol. 10. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1984. p. 24.



[ii] Walter Truett Anderson, Reality Isn't What it Used to Be. San Francisco: Harper and Row, 1990.



[iii] Gene Veith, "Catechesis, Preaching, and Vocation," in Here We Stand, ed. James Boice and Ben Sasse. Grand Rapids: Baker Book House, 1996. pp. 82-83.

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Traduzido por: Waléria Coicev

Revisão: Tiago Santos

Copyright © R. Albert Mohler Jr.


PRECISAMOS NOVAMENTE DE HOMENS DE DEUS

A. W. Pink


A igreja, neste momento, precisa de homens, o tipo certo de homens, homens ousados. Afirma-se que necessitamos de avivamento e de um novo movimento do Espírito; Deus, sabe que precisamos de ambas as coisas. Entretanto, Ele não haverá de avivar ratinhos. Não encherá coelhos com seu Espírito Santo.



A igreja suspira por homens que se consideram sacrificáveis na batalha da alma, homens que não podem ser amedrontados pelas ameaças de morte, porque já morreram para as seduções deste mundo. Tais homens estarão livres das compulsões que controlam os homens mais fracos. Não serão forçados a fazer as coisas pelo constrangimento das circunstâncias; sua única compulsão virá do íntimo e do alto.


Esse tipo de liberdade é necessária, se queremos ter novamente, em nossos púlpitos, pregadores cheios de poder, ao invés de mascotes. Esses homens livres servirão a Deus e à humanidade através de motivações elevadas demais, para serem compreendidas pelo grande número de religiosos que hoje entram e saem do santuário. Esse homens jamais tomarão decisões motivados pelo medo, não seguirão nenhum caminho impulsionados pelo desejo de agradar, não ministrarão por causa de condições financeiras, jamais realizarão qualquer ato religioso por simples costume; nem permitirão a si mesmos serem influenciados pelo amor à publicidade ou pelo desejo por boa reputação.



Muito do que a igreja faz em nossos dias, ela o faz porque tem medo de não fazê-lo. Associações de pastores atiram-se em projetos motivados apenas pelo temor de não se envolverem em tais projetos.



Sempre que o seu reconhecimento motivado pelo medo (do tipo que observa o que os outros dizem e fazem) os conduz a crer no que o mundo espera que eles façam, eles o farão na próxima segunda-feira pela manhã, com toda a espécie de zelo ostentoso e demonstração de piedade. A influência constrangedora da opinião pública é quem chama esses profetas, não a voz de Jeová.


A verdadeira igreja jamais sondou as expectativas públicas, antes de se atirar em suas iniciativas. Seus líderes ouviram da parte de Deus e avançaram totalmente independentes do apoio popular ou da falta deste apoio. Eles sabiam que era vontade de Deus e o fizeram, e o povo os seguiu (às vezes em triunfo, porém mais freqüentemente com insultos e perseguição pública); e a recompensa de tais líderes foi a satisfação de estarem certos em um mundo errado.



Outra característica do verdadeiro homem de Deus tem sido o amor. O homem livre, que aprendeu a ouvir a voz de Deus e ousou obedecê-la, sentiu o mesmo fardo moral que partiu os corações dos profetas do Antigo Testamento, esmagou a alma de nosso Senhor Jesus Cristo e arrancou abundantes lágrimas dos apóstolos.


O homem livre jamais foi um tirano religioso, nem procurou exercer senhorio sobre a herança pertencente a Deus. O medo e a falta de segurança pessoal têm levado os homens a esmagarem os seus semelhantes debaixo de seus pés. Esse tipo de homem tinha algum interesse a proteger, alguma posição a assegurar; portanto, exigiu submissão de seus seguidores como garantia de sua própria segurança. Mas o homem livre, jamais; ele nada tem a proteger, nenhuma ambição a perseguir, nenhum inimigo a temer. Por esse motivo, ele é alguém completamente descuidado a respeito de seu prestígio entre os homens. Se o seguirem, muito bem; caso não o sigam, ele nada perde que seja querido ao seu coração; mas, quer ele seja aceito, quer seja rejeitado, continuará amando seu povo com sincera devoção. E somente a morte pode silenciar sua terna intercessão por eles.


Sim, se o cristianismo evangélico tem de permanecer vivo, precisa novamente de homens, o tipo certo de homens. Deverá repudiar os fracotes que não ousam falar o que precisa ser externado; precisa buscar, em oração e muita humildade, o surgimento de homens feitos da mesma qualidade dos profetas e dos antigos mártires. Deus ouvirá os clamores de seu povo, assim como Ele ouviu os clamores de Israel no Egito. Haverá de enviar libertação, ao enviar libertadores. É assim que Ele age entre os homens.



E, quando vierem os libertadores... serão homens de Deus, homens de coragem. Terão Deus ao seu lado, porque serão cuidadosos em permanecer ao lado dEle; serão cooperadores com Cristo e instrumentos nas mãos do Espírito Santo...


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