quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O EVANGELHO CONTINUA RELEVANTE?


Dr. Martyn Lloyd-Jones

Foi ministro na Capela de Westminister, Londres, por longos anos.




O evangelho de Jesus Cristo confronta e desafia o mundo moderno com a declaração de que somente o evangelho tem a resposta para todas as perguntas do homem, bem como a solução para todos os seus problemas. Em um mundo que procura saída para suas tragédias e tribulações, o evangelho anuncia que a solução já se acha disponível. Em um mundo que olha ansiosamente para o futuro e que fala em planos relativos a ele, o evangelho proclama que esta busca por outra saída não apenas está errada quanto à sua direção, como também é inteiramente desne­cessária. O evangelho denuncia o hábito fatal de colocarmos as nossas esperanças em algo que virá a acontecer e afirma que tudo quanto é necessário para os homens, individual e coletivamente, já foi posto à disposição da humanidade há quase dois mil anos. Pois, a mensagem central do evangelho para os homens é que tudo quanto é mister para a salvação deles se encontra na pessoa de Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus. O evangelho proclama que Cristo é a revelação plena e final de Deus. Em Cristo, em sua vida e em seus ensinamentos vemos aquilo que o homem deve ser e qual o tipo de vida que ele deve viver. Na morte de Cristo sobre a cruz, podemos ver o pecado do mundo finalmente desmascarado e condenado. Através de sua morte, vemos o único meio pelo qual o homem pode reconciliar-se com Deus. É exclusivamente dEle que podemos receber vida nova, obtendo um novo começo. Somente quando recebemos dEle o poder, então podemos viver aquela vida que Deus tencionou que vivêssemos.

De fato, o evangelho vai mais adiante e assegura-nos que Cristo está assentado à mão direita de Deus, em poder reinante, e que continuará a reinar até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés. O evan­gelho proclama que chegará o tempo quando, ao nome de Jesus, se dobrará "todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra" (Fp 2.10). Portanto, o evangelho de Jesus Cristo confronta o homem, exorta-o a arrepender-se dos seus pecados e a olhar para aquela Pessoa sem par, que esteve nesta terra há quase dois mil anos passados, a única em quem se pode achar a salvação.

No entanto, todos temos consciência de que a expiação operada por Cristo, conforme apresentada nas Escrituras, é altamente desagradável para a mente moderna. Não existe razão tão freqüentemente apre­sentada, como explicação para a rejeição do evangelho, quanto o fato de que ele é antiqüíssimo. Em geral, as pessoas deste século consideram que os crentes se acham nessa posição ou por serem lamentavelmente ignorantes ou, então, por se terem tornado retrógrados e se recusarem a enfrentar os fatos. Para o homem moderno, nada é tão ridículo como a sugestão de que tudo quanto ele precisa hoje em dia, é de algo que vem sendo continuamente oferecido à humanidade por quase dois mil anos. Na realidade, o homem moderno recebe como insulto a afirmação de que, apesar de todo o seu conhecimento, progresso e sofisticação, espiritualmente falando ele permanece precisamente na mesma condição na qual têm estado todos os homens, através da longa história da humanidade. Ele supõe que qualquer coisa que seja muito antiga não pode ser adequada para satisfazer as necessidades da situação moderna. Por esse motivo, a vasta maioria das pessoas nem ao menos pára, a fim de considerar o evangelho. Argumentam elas que algo tão antigo não pode ser relevante para os nossos dias.

Ora, que tem o evangelho a dizer, diante de tal atitude e tal crítica? Em primeiro lugar, podemos mostrar que tal atitude é totalmente ilógica, sendo demonstração de puro preconceito. Se não estivéssemos tratando da questão mais séria e importante da vida, seria facílimo mostrar que existem aspectos, nessa questão, que são os mais ridículos. Seja como for, podemos frisar que as pessoas que rejeitam o evangelho de imediato e que se recusam ao menos a considerá-lo, por ser tão antigo, são culpadas de não estarem aplicando essa razão e lógica que elas supõem possuir. Podemos mostrar que muitos de seus próprios argu­mentos se voltam contra elas.

Por exemplo, nada existe que tais pessoas gostem tanto de reivindicar para si mesmas quanto aquilo que se deleitam em chamar de mente aberta. Apreciam o contrastarem-se com pessoas religiosas cujas mentes, conforme dizem, são rígidas e fechadas. Acusam-nos de considerar apenas um Livro e apenas uma Pessoa. Elas mesmas, por outro lado, segundo afirmam, têm mantido abertas em todas as direções as janelas de suas mentes; e, como resultado disso, têm armazenado tantos conhecimentos e informações que lhes é impossível aceitar a antiga mensagem da Bíblia. Afirmam ter mentes abertas, serem livres-pensadores.

Mas, certamente, antes de alguém poder asseverar que tem mente verdadeiramente aberta, terá de provar que ela está aberta em todas as direções. A mente ver­dadeiramente aberta é aquela voltada para o norte, para o sul, para o leste e para o oeste, como também para o passado, para o presente e para o futuro. A mente que é deliberadamente fechada em qualquer uma dessas direções não é uma mente aberta. Portanto, é obvio que quando um homem repele e rejeita o evangelho, sem ao menos levá-lo em consideração, simplesmente porque é antigo, está admitindo que deliberadamente fechou a sua mente para o passado. Isso não é um bom raciocínio. Isso não é pensar direito. Isso não é lógico. Isso nada mais é que demonstração de um total pre­conceito. Portanto, qualquer pessoa que rejeita o evangelho, somente por causa de sua antigüidade, não tem qualquer direito de considerar-se uma pessoa de mente aberta.

Mas também podemos mostrar que uma pessoa com esse tipo de mentalidade é culpado de estabelecer um falso padrão sobre essas questões. Pois é evidente que o critério mais importante e final para tal pessoa é a idade, e não a verdade. No entanto, o que importa quando se discute sobre a verdade não é a idade, mas a sua veracidade.

Esse ponto pode ser ilustrado bem facilmente. O homem que se mostra inquiridor, acerca de qualquer questão, é um homem que fala da seguinte maneira: "Meu objetivo é chegar ao alvo final e ao destino para onde me dirijo. Anseio tanto por chegar àquele alvo que estou disposto a receber conselhos e informações de qualquer um e de qualquer fonte disponível. Não me importa se tal conselho vem do passado ou do pre­sente, ou se virá do futuro. Acolherei como algo de valor qualquer coisa que me ajude a chegar ao alvo". Se tal pessoa inquirir sobre a idade de seu informante ou sobre a antigüidade da verdade por este proclamada, certamente estará introduzindo algo totalmente irrelevante à discussão. Se eu disser que só pode ser verdade aquilo que é novo e recente, aquilo que não poderia ter sido conhecido por homens do passado, então, como é óbvio, todo o meu conceito sobre a verdade está alterado; terei estabelecido um padrão que, para mim, tornou-se mais importante do que a própria verdade, a saber, a novidade.

Naturalmente, há casos em que a aplicação do padrão de datas e de antigüidade é perfeitamente legítima. Existem aqueles, por exemplo, que têm por passatempo colecionar móveis antigos. Nesse caso, não se duvide, as pessoas estão mais interessadas na antigüidade de um móvel do que em sua qualidade. Ora, enquanto o problema envolver apenas uma questão de mobiliário, não nos disporemos a discutir com aqueles que estabelecem o critério da antigüidade. Porém, quando se discute acerca do homem e de Deus; quando nos preocupamos acerca da moralidade, da castidade e da pureza; quando pensamos em termos de morte, de eternidade e de toda a condição futura da humanidade, então é claro que, se for introduzida essa questão de antigüidade e datas, será coisa puramente irrelevante e considerada totalmente alheia à discussão. Lamentavel­mente, é preciso dizer que aqueles que nutrem tal preconceito contra o evangelho dão a impressão de que sua real preocupação não é com a própria verdade, mas em serem reputados indivíduos modernos e atualizados. O interesse final deles não é a realidade, e, sim, a modernidade.

Ao prosseguirmos para o final da exposição acerca desse preconceito exibido pela rejeição ao evangelho, simplesmente por ser antigo, voltamo-nos para a ciência, uma área que é altamente valorizada pelo homem moderno, e extremamente popular em nosso tempo. Grande parte da argumentação contrária à religião cristã e à Bíblia garante que chegou a essa posição através do uso do método científico de inquirição. Dizem-nos seus defensores que a religião pertence ao terreno da imaginação e da fantasia, pertence ao mundo do romance e do faz-de-conta. A religião, asseveram eles, deve ser situada na mesma categoria do folclore ou das histórias para crianças, na mesma categoria do mundo irreal, criado pelo temor e pela fantasia. Totalmente oposto a isso, conforme ainda afiançam, é o método científico, que se preocupa exclusivamente com fatos.

Não nos interessa, no momento, demonstrar exaustivamente o erro desse argumento; mas precisamos apontar, pelo menos, os pontos relacionados a ele. Um desses pontos é que o espírito verdadeiramente científico sempre tem o cuidado em estabelecer a diferença entre a teoria e os fatos, entre a suposição e a verdade, entre as hipóteses e aquilo que pode ser comprovado e demonstrado. O campo verdadeiro da ciência é o dos fenômenos que podem ser vistos e tocados, sentidos e manuseados; no momento em que um cientista se afasta do terreno tangível, torna-se um filósofo sem maior autoridade do que qualquer outro pensador.

Uma das grandes tragédias do mundo atual é que as teorias estão sendo igualadas aos fatos, e meras hipóteses estão sendo aceitas como verdades. Muitos daqueles que descrêem da própria existência de Deus e que negam a divindade de Cristo, Aquele que é miraculoso e sobrenatural, fazem-no com base na palavra de certos cientistas bem conhecidos, que se recusam a crer em tais verdades. As asseverações dogmáticas de tais cientistas estão sendo aceitas como se fossem fatos concretos, embora, na realidade, não passem de teoria. Nenhum cientista tem conseguido provar, nem poderá fazê-lo, que Deus não existe, que Jesus de Nazaré não era, de forma singular, o Filho de Deus e que Ele não operou milagres. Ninguém pode provar que não existe vida após a morte física, o julga­mento final e o inferno. Tão-somente podem dizer que não acreditam nesses fatos. Mas a descrença deles, por mais audível e confiantemente proclamada que seja, não serve de comprovação. Portanto, nada existe de tão anticientífico quanto o modo como homens e mulheres estão confundindo hipóteses com verdades e teorias com fatos.

Essa falta de discernimento sem base científica também pode ser demonstrada de outro modo. No que consiste o verdadeiro método científico de pesquisa? Quase invariavelmente trata-se de algo assim: um jovem, a quem se dá a tarefa de fazer um trabalho de pesquisa científica, geralmente fica sob a tutela de um homem de mais idade e dirige-se a esse homem de mais idade em busca de conselhos. O que tem o homem mais idoso a dizer ao mais jovem? Porventura recomenda-lhe que comece a queimar e destruir todo o livro que já se escreveu no passado, acerca do assunto em pauta? Não, mas faz exatamente o contrário. Acon­selha ao jovem, antes de fazer qualquer experiência, a dirigir-se à biblioteca, ler e estudar toda a literatura passada sobre o tema, a fim de compreendê-la, apreendê-la e de fazer o melhor uso possível dela. E não há dúvida que se trata de um método sábio. Por que haveria um homem de desperdiçar o seu tempo, redescobrindo aquilo que já foi descoberto? Outrossim, na medida em que o jovem for examinando a literatura antiga, descobrirá muitos itens frutíferos de informação, para ajudá-lo em seu próprio trabalho de pesquisa.

O método verdadeiramente científico não volta as costas para o passado. Pelo contrário, fundamenta-se no passado, estuda-o e edifica sobre ele. Em outras palavras, nada existe de mais totalmente anticientífico do que o modo como a pessoa comum, de nossa época, rejeita a Bíblia, o evangelho em sua inteireza e a igreja cristã, sem ao menos examinar as Escrituras, sem familiarizar-se com a apresentação do evangelho e sem tomar conhecimento da história eclesiástica. Não importa o que mais seja reivindicado em favor do método usado por tal pessoa, esse método comprova ser a própria antítese do verdadeiro método científico.

Dessa maneira, temos mostrado que a rejeição ao evangelho, meramente por motivo de sua antigüidade, longe de fundamentar-se sobre o raciocínio e a razão, sobre o conhecimento e a lógica, nada mais é que a manifestação de total preconceito contra o passado.

Alguém poderia objetar, no entanto, que o caso da posição moderna ainda não foi completamente refutado. Alguém poderia concordar que repelir o evan­gelho, sem ao menos considerá-lo, por ser ele muito antigo, é demonstração de preconceito. No entanto, poderá prosseguir, dizendo que o seu caso é um tanto diferente. Talvez fale nos seguintes termos: "Não sou cristão. Embora não creia no evangelho, penso que posso provar que a minha rejeição ao evangelho se alicerça sobre o raciocínio e a evidência".

Tal pessoa passará a defender a sua posição do seguinte modo: "Quanto mais examino a vida, em todos os seus aspectos e setores, tanto mais claramente vejo que há uma lei universal a permeá-la inteiramente. Trata-se da lei do crescimento, do progresso e do desenvolvimento. Vejo que tudo está avançando e se movendo para a frente. Por exemplo, contemplo o meu jardim, na primavera, e vejo a semente que foi plantada e agora brota. Mas a semente não pára nesse ponto. Cresce, floresce e atinge plena maturidade, e então morre. Por semelhante modo, quando passeio pelos campos, na primavera, vejo os cordeirinhos brincando. Mas, não permanecem cordeiros. Também se desen­volvem e se tornam adultos. Por semelhante modo, observo nos campos um fazendeiro moderno que ara o seu terreno com a ajuda de um trator. Lembro-me dos dias em que os homens costumavam arar com a ajuda de cavalos, que puxavam arados de ferro. Tenho lido acerca dos dias quando os homens tinham por costume usar o arado de madeira, puxado por bois; e dos tempos ainda mais remotos, quando era usual os homens cavarem o solo com as próprias mãos. Esses exemplos são manifestações dessa mesma lei.

"Ainda, vejo a cidade moderna com suas facili­dades e a contrasto com as rudes cabanas de barro, em que nossos antepassados costumavam habitar. Com­paro e contrasto os médicos e cirurgiões modernos com o cirurgião-barbeiro do século XVIII e também com o médico-feiticeiro de períodos e povos ainda mais primitivos. Por toda parte, sempre percebo a mesma lei. De fato, basta-me apanhar um livro-texto sobre qualquer assunto e compará-lo com compêndios de cerca de vinte anos passados, que tratavam do mesmo assunto, para perceber, de relance, que tem havido tremendo avanço no conhecimento e nas informações. Realmente, posso comparar a maneira de se lutar na Segunda Guerra Mundial com os combates da Primeira Guerra Mundial; e até mesmo nesse caso posso ver a mesma lei em operação. Tudo na vida está se desen­volvendo, avançando, prosseguindo. Trata-se da lei universal da vida e do ser.

"Mas, quando a questão mais vital e importante de todas — a saber, o homem, com seus problemas e com a sua salvação — é mencionada, então vocês, os crentes, subitamente pedem que revertamos esse processo, voltando-nos ao passado em busca de respostas e soluções. A posição de vocês é totalmente irracional. É a mesma coisa que pedir a um homem moderno que, ao adoecer, rejeite a ajuda dos últimos avanços do conhecimento científico, para ser tratado por um cirurgião-barbeiro ou por um médico-feiticeiro. É como pedir ao agricultor moderno que rejeite a oferta de um trator, para continuar a cavar o solo com as próprias mãos. Vocês estão fazendo girar ao contrário o relógio do tempo, estão revertendo o processo essencial que se acha na própria natureza. Vocês estão solicitando que o homem cometa suicídio intelectual. Com freqüência tenho desejado poder crer no evangelho de vocês, para que eu também pudesse tornar-me um crente; mas, em vista do que tenho dito, isso é impossível, e não seria outra coisa senão um ato de completa irracionalidade."

Essa é a posição defendida, no momento, por grande número de pessoas. O que podemos responder a um argumento assim? Começamos a nossa resposta concordando inteiramente com os fatos mencionados. Não faz parte da pregação do evangelho negar os fatos, e o crente no evangelho não é tolo. Tem plena consciência dos avanços obtidos em muitos ramos do conhecimento humano. Está cônscio dos desenvolvi­mentos ocorridos em muitos setores da vida; no entanto, continua a confiar no antigo evangelho.

"Como é que vocês podem conciliar essas duas posições contraditórias?", indaga o homem moderno. Fazemo-lo da seguinte forma: concordamos inteiramente com os fatos, mas cremos que podemos demonstrar que o argumento acima, deduzido dos fatos, é falso.

Entretanto, vamos à questão de maneira positiva. Queremos apresentar as razões para continuarmos crendo na mensagem do antigo evangelho, em um mundo moderno. A primeira razão para tanto é que o homem, em si mesmo, não tem mudado em nada. Todas as modificações sobre as quais os homens tanto se jactam são apenas externas. Não são alterações no próprio homem, mas tão somente em sua maneira de agir, em seu meio ambiente. Essa declaração pode ser comprovada de muitas maneiras. Por exemplo, aceita-se o fato de que os clássicos realmente grandes da literatura mundial não têm idade, não envelhecem com o passar do tempo. A razão disso é que tratam do homem como homem, e não meramente de certos aspectos da vida humana, em certo período histórico. As tragédias gregas continuam sendo traduzidas. As peças de Shakespeare são sempre contemporâneas, pois Shakespeare, com seu profundo discernimento e com­preensão, não estava descrevendo apenas o homem da era elizabetana, mas o homem como homem. O resultado é que quando lemos as suas peças teatrais, percebemos, representadas em seus personagens, as mesmas características dos homens modernos.

O mesmo se dá no caso do Antigo Testamento. Trata-se de um livro antiqüíssimo, mas seus personagens são, em todos os pontos, iguais ao homem moderno. Consideremos, por exemplo, Caim, homem que sentia tanta inveja de seu irmão ao ponto de assassiná-lo. Porventura não há homens assim no mundo moderno? Ponderemos, em seguida, sobre um homem como Esaú, que parecia interessado apenas em comer e beber. Não haverá pessoas como Esaú, no mundo moderno? Basta-nos ouvir as conversas das pessoas em lugares públicos para descobrirmos a resposta. Ou, então, observemos um homem como Jacó, que ansiava por obter sucesso e prosperidade, mas cuja avareza era tão grande que não hesitou em defraudar a seu próprio irmão. Porventura Jacó se tornou um tipo extinto? Pensemos também em Davi, rei de Israel. Lembremo-nos de como, certo dia, assentado no pátio superior de sua casa, viu a esposa de outro homem. Ficou atraído por ela e a desejou. Resolveu possuí-la e provocou a morte de seu marido, a fim de que pudesse tê-la. Não haverá homens dessa categoria, no mundo moderno? Assim poderíamos pros­seguir, examinando cada um dos personagens do Antigo Testamento. Praticamente, em todos os exemplos estaríamos vendo retratado o típico homem moderno.

Mas alguém questiona: "Certamente há algum equívoco nessa apresentação. Você não viu ainda o homem moderno cruzar os ares de avião, a setecentos quilômetros por hora? Estará sugerindo que ele é idêntico ao homem que costumava viajar à pé, a seis quilômetros por hora?" Espere um momento! Pensemos nestes dois homens. Lá vão eles, um em alta velocidade e outro a seis quilômetros por hora. A questão vital a ser respondida é: em cada caso, qual é o objetivo da viagem? O que há de mais notável é que o objetivo é precisamente o mesmo, em ambos os casos. Eles viajam ou em busca do amor, ou da guerra ou de negócios, ou, então, pretendem divertir-se. Só há uma única verdadeira diferença entre esses dois homens: é a velocidade com que se dirigem ao mesmo alvo. Na realidade, qual é a diferença precisa entre o orgulho com que o homem moderno encara sua cultura e sua sofisticação e o orgulho daqueles que, no despertar da história, tentaram edificar a torre de Babel para atingir os céus?

Talvez possamos provar melhor e mais claramente esse ponto, afirmando que o homem moderno, a des­peito de toda a sua astúcia e habilidade, parece mostrar-se totalmente incapaz de inventar qualquer novo pecado. Não faz parte de nosso propósito detratar ou diminuir o poder e a habilidade do homem moderno. Na verdade, seu conhecimento e sua capacidade são extraordinários. Tem conseguido até mesmo dividir o átomo. Não obstante, afirmar que ele é incapaz de pensar em qualquer nova forma de pecado é dizer apenas a verdade. Verificamos que todos os pecados cometidos no mundo moderno, encontram-se mencionados no Antigo Testamento; ou, vice-versa, todos os pecados mencionados no Antigo Testamento são cometidos pelo homem de nossos dias. O homem, em si mesmo, nunca muda. Continua o mesmo indivíduo contraditório que sempre tem sido, desde a queda original. E essa é a nossa principal razão para continuarmos a apresentar ao homem moderno o antigo evangelho de Jesus Cristo.

A segunda razão para continuarmos expondo o evangelho é infinitamente mais importante. Deus não mudou! Ora, quando percebemos, conforme temos procurado mostrar, que o problema crucial do homem é o seu relacionamento com Deus, vemos então a total futilidade da questão de antigüidade e de datas. É nesse ponto que vemos com toda a clareza quão insensato é rejeitar o evangelho simplesmente por causa de sua antigüidade. Alguém já salientou admiravelmente bem esse particular, quando disse: "O tempo não deixa rugas na testa do Deus eterno". Naturalmente, tem havido avanços e desenvolvimentos, mas porventura essas coisas afetam, em qualquer sentido, o ser e o caráter de Deus? Será que por ter o homem produzido o motor de combustão interna, ou por ter conseguido liberar o poder do átomo, de alguma maneira ficaram ab-rogadas as leis de Deus ou, de alguma forma, Deus passou a abominar menos o pecado e as más ações? Não; mas a pergunta mais urgente e vital com que o homem se defronta continua sendo aquela feita por Jó, em tempos remotíssimos: "Como pode o homem ser justo para com Deus?" (Jó 9.2). Não há dúvida que existe hoje um novo cenário para os problemas, quer sejam econômicos, políticos ou educacionais, quer digam respeito à falta de moradias ou à maneira de contornar as greves. Todos esses problemas, no entanto, são temporários. Quando eles se findarem restará aquela situação inevitável, na qual nos veremos face a face com o Deus eterno, o "Pai das luzes, em quem não pode existir variação, ou sombra de mudança" (Tg 1.17).

O problema crucial do homem não é a sua própria pessoa, nem a sua felicidade, nem as condições que o circundam, enquanto se encontra neste planeta. O problema crucial do homem é o seu relacionamento com Deus, tanto agora como na eternidade. Deus é eterno, imutável e absoluto. Por conseguinte, quão grande tolice é argumentar que o homem moderno necessita de um novo remédio ou de uma nova modalidade de salvação, ao invés do "evangelho da glória do Deus bendito" (1 Tm 1.11), o qual se acha, exclusivamente, em nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Nossa terceira e última razão para recomendarmos esse antigo evangelho é que não existe nada melhor do que ele; ou, em termos mais positivos, até hoje, no mundo, nada existe além do evangelho que possa tratar tão adequadamente dos problemas e das condições humanas. Podemos concordar de todo o coração com o homem moderno, quando diz que sempre deseja o que há de melhor. A pessoa que não quer o melhor que há é um insensato. Procuremos por todos os meios ter o melhor, sem importar o quanto possa custar ou de onde venha. Também não se falta com a verdade quando se diz que, em muitas áreas da vida, a última novidade é inequivocamente o que há de melhor. Con­sideremos apenas uma ilustração. Dentre todos os admiráveis e fenomenais avanços obtidos na Segunda Guerra Mundial, nada existe que se possa comparar, nem de longe, com os progressos obtidos no campo da prevenção e tratamento dos males de nosso corpo. Todos estamos cônscios do fato que, por meio de inoculações preventivas, nossas crianças podem ser resguardadas de enfermidades como a coqueluche ou a difteria. Sabemos, por igual modo, que os homens em serviço militar no estrangeiro recebem vacinas pre­ventivas contra a febre tifóide. Por semelhante modo, já ouvimos falar dos novos tratamentos de enfermidades por meios químicos, com drogas como a sulfa e a, assim chamada, droga miraculosa — a penicilina. As últimas descobertas da medicina têm sido verdadeira­mente espantosas. A potência dos medicamentos descobertos não é questão de teoria ou opinião pessoal; é algo que pode ser comprovado estatisticamente. Por exemplo, é um fato que numa guerra, na África do Sul, morreram mais homens de febre tifóide do que em batalhas. No entanto, na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais, praticamente não houve mortes por causa de tal enfermidade, unicamente por causa de vacinas preventivas. Por semelhante modo, podemos comparar a taxa de mortalidade em doenças como a meningite e a pneumonia, antes e depois da introdução dessas drogas no mercado. A alteração é verdadeira­mente espantosa. Não há dúvida, portanto, que no tratamento dos males e enfermidades do corpo, a última novidade é o melhor que existe.

Poder-se-ia dizer a mesma coisa, entretanto, acerca do tratamento preventivo e da cura dos males da alma humana? Haverá alguma vacina maravilhosa que possa ser inoculada em nossos rapazes e moças que os torne imunes às insinuações e sugestões do pecado, com as quais se defrontam nas ruas, nos filmes cinematográficos, nos livros e revistas que lêem? Poderão ser eles inteira­mente protegidos contra as tentações? Haverá alguma droga maravilhosa que possa ser dada a um homem atormentado pela consciência acusadora, que tem uma sensação aguda de pecado e de fracasso? Haverá algum fortificante que lhe possa ser ministrado, capaz de fortalecer sua vontade debilitada, tornando-o mais que vencedor sobre os adversários que o assediam? Haverá algum composto mágico que possa ser dado a um homem que, em seu leito de morte, reconhece a sua pecaminosidade e teme encontrar com o Senhor e Juiz eterno?

Quais são os fatos? Já pudemos verificar que, no terreno físico, as estatísticas comprovam que o trata­mento mais recente é o melhor. Mas, que dizer sobre outros campos? Sejamos realistas e enfrentemos os fatos. A despeito do tremendo progresso no campo da educação, do conhecimento e da cultura, nos últimos cem anos; a despeito de todos os atos governamentais, que têm corrigido os erros e mitigado as injustiças, que têm tido por desígnio a melhoria social em quase todos os seus aspectos, quais são as verdadeiras condições que prevalecem em nossos tempos?

A resposta pode ser obtida quando consultamos os dados espantosos do incremento da delinqüência juvenil, do jogo e do alcoolismo, da imoralidade e também da infidelidade matrimonial, que tem atingido a tantos casais, levando-os à separação e ao divórcio. De fato, os resultados podem ser averiguados no rebaixamento geral do tom moral e do nível de vida na maioria dos países, na mania pelo sexo, na tendência crescente dos homens viverem apenas para os prazeres e para o que é superficial. O mundo moderno se acha desesperadamente enfermo, e talvez os seres humanos se sintam mais infelizes hoje do que em épocas passadas. Só existe uma cura para os males humanos. Quando a minha consciência me acusa, só conheço uma coisa capaz de dar-me descanso e paz. Essa cura consiste em saber que Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, o qual levou os meus pecados "em seu corpo, sobre o madeiro" (1 Pe 2.24), já me perdoou. Consiste em saber e confiar que, em vista de ter Ele me amado e morrido por mim, encontro-me livre de qualquer acusação. E, consciente como estou de minha fraqueza e fracasso, de minha falta de poder para viver uma vida digna desse nome, sou novamente conduzido a Ele. É somente por causa dEle e por causa do poder do Espírito Santo, conferido por Ele, que posso tornar-me mais do que vencedor. E quando imagino a mim mesmo, em meu leito de morte, prestes a ir ao encontro de meu Criador e Juiz eterno, a minha única esperança é que irei revestido da justiça de Jesus Cristo e que Ele me tomará pela mão e me apresentará imaculado "diante da sua glória..." (Jd 24). É somente e sempre em Cristo que encontro satisfação. Somente nEle que os meus problemas são solucionados. O mundo, com todos os seus métodos, não pode ajudar-me em meu momento de maior necessidade. Mas Cristo nunca falha. Ele, em todos os aspectos, sempre nos satisfaz. Quanto mais O contemplo, tanto mais concordo com Charles Wesley, quando declarou:

Tu, ó Cristo, és tudo quanto eu quero;

Mais que tudo encontro em Ti!

Justo e santo é o teu nome,

Em mim mesmo, sou todo injustiça;

Falso e cheio de pecado eu sou,

Mas Tu és cheio de verdade e graça.

Cristo continua sendo a única esperança para cada um dos homens; a única esperança para o mundo inteiro. O evangelho ainda é relevante? Sua antiga mensagem continua adequada? A resposta é que somente o evangelho é relevante. Somente ele pode cuidar dos problemas do homem e dar-lhes solução.

__________
Extraído do livro: Sincero mas errado, Editora Fiel.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Richard Baxter - Naquele Tempo Havia Gigantes na Terra


por
Dr. Paulo Anglada



A estatura espiritual de Richard Baxter está fora de questão. Mesmo vivendo em uma época em que havia “gigantes na terra”, tais como John Owen e Thomas Goodwin, a sua estatura espiritual era tal que o fazia sobressair-se. Não obstante, Baxter é um gigante quase desconhecido no Brasil. Só para se ter uma idéia, é reconhecido que, um século depois dele ter realizado seu ministério em Kidderminster, ainda podia ser percebida a extraordinária transformação que a cidade experimentou como resultado da sua vida e obra ali.


Entretanto, obra maior ainda foi realizada através de seus escritos. John Owen e Thomas Goodwin estão entre os escritores mais copiosos do século XVII; mas ele, Baxter, produziu aproximadamente o dobro desses autores. Cerca de 168 tratados - boa parte volumosos, conhecidos e apreciados - foram escritos por este gigante puritano do século XVII.Certamente será de grande utilidade conhecermos um pouco da vida, ministério e obras deste autor, cujos primeiros escritos, somente agora, mais de trezentos anos depois, estão começando a ser traduzidos e publicados na língua portuguesa pelas editoras PES e Clássicos Evangélicos.


VIDA E MINISTÉRIO

Nascimento e Formação: Baxter nasceu em Rowtan, na Inglaterra, no dia 12 de novembro de 1615. Sua mãe chamava-se Adeney. Seu pai, dono de uma pequena propriedade, tinha o mesmo nome que o filho, Richard Baxter, e foi um homem sóbrio, respeitável e religioso. Visto que não dispunha de recursos para mandar o filho a uma universidade, o pai de Baxter contratou os serviços de instrutores particulares para educar o filho. O país não experimentava, então, uma boa época no que diz respeito à religião e à moral, e os instrutores de Baxter refletiam essas características. Mas, como o homem não é tão produto do meio conforme comumente se pensa, o jovem Baxter superou exemplarmente as deficiências religiosas, morais e até mesmo intelectuais de seus instrutores. Assim, mesmo sem ter o privilégio de freqüentar uma universidade, é reconhecido que Baxter “alcançou conhecimento mais variado e substancial do homem e das coisas, dos livros e sistemas, de princípios e caráter, do que milhares que respiraram por dez ou quinze anos os ares universitários”.Com a idade de dezoito anos, Baxter teve a oportunidade de freqüentar a corte. Bastou um mês para que se decepcionasse com o que lá viu, e a abandonasse, retornando aos estudos. É possível que os autores que já havia lido a esta altura, tais como Burney, Sibb e Perkins, tenham ajudado na formação do seu caráter piedoso e a tomar decisão tão acertada.


Ordenação e Início do Ministério: Enfermo, consciente de suas deficiências, mas profundamente desejoso de ser útil às almas que pereciam por falta de conhecimento, Baxter foi ordenado com apenas vinte e um anos de idade. Dudley foi seu primeiro campo ministerial. Ali ensinou em uma escola e pregou o Evangelho por nove meses. Ali também teve contato com os não-conformistas, passando a aprofundar suas leituras sobre o assunto, o que o levou a questionar a sensatez da sua ordenação com tão pouca idade, e sem que tivesse amadurecido sua posição quanto aos votos que subscrevera.Depois deste pequeno período em Dudney, Baxter foi removido para Bridgenorth, onde tornou-se assistente de um idoso ministro. Três frases podem resumir seu ministério em Bidgenorth: fervor pela obra, compaixão pelos pecadores perdidos, convicção de que sua suficiência vinha do Senhor.


Ministério em Kidderminster: Em 1640, Baxter iniciou seu ministério em Kidderminster, um dos períodos mais importantes da sua vida. O seu ministério ali registrou definitivamente o seu nome e o nome da cidade na História da Igreja e do seu país. A transformação moral que a cidade experimentou foi de tal envergadura que alguns chegam a afirmar que nunca houve nada similar na Grã Bretanha. Um de seus biógrafos diz que Kidderminster “parece ter sido uma cidade escolhida por Deus para uma experiência espiritual extremamente bem sucedida, pela intervenção divina”. Quando chegou à cidade, o lugar caracterizava-se pela impiedade, espantosa aridez espiritual e, conseqüentemente, baixíssimo nível moral. Quando saiu da cidade, a excelência da piedade e moral da grande maioria de seus habitantes não era menos espantosa. O templo teve que ser aumentado; mas mesmo assim não comportava as pessoas que queriam ouvir suas pregações. Pessoas eram vistas nas ruas, em grupos, a caminho ou retornando da igreja, cantando hinos de louvor a Deus com júbilo sincero em seus corações.O ministério extraordinariamente frutífero de Baxter em Kidderminster foi longamente interrompido logo no segundo ano. O país estava dividido entre o rei e o Parlamento. Perseguido, por razões políticas, pelos partidários do rei, ele foi obrigado, juntamente com muitos outros ministros, a refugiar-se por dois anos em Coventry, um refúgio dos partidários do Parlamento. Depois disso, a situação política do país tornou-se favorável, e ele foi designado capelão, função que exerceu com empenho, até que foi obrigado a abandoná-la, seriamente enfermo. Quando se recuperou, retornou para Kidderminster, onde continuou por mais quatorze anos seu extraordinário ministério, em meio a constantes perseguições e enfermidades - as quais o acompanhariam quase que por toda a sua vida. Não há muitos homens que compreenderam tão bem e experimentaram tanto o que Paulo escreveu em 2 Coríntios 12:9,10: “De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando sou fraco, então é que sou forte”.


Atividades Subseqüentes: Depois que Baxter foi obrigado a abandonar definitivamente Kidderminster, passou dois anos em Londres, quando teve oportunidade de pregar diante do Parlamento em abril de 1660. Depois foi designado capelão do rei, e muito se empenhou por uma causa perdida: a busca da compreensão mútua entre a Igreja da Inglaterra e os Não-conformistas. A partir de então, até a sua morte, sua vida foi repleta de acontecimentos. Vivendo em uma época politicamente bastante conturbada, e sendo ele homem de princípios e célebre pregador e escritor, sofreu contínuas perseguições, acusações e prisões. Isto tudo, porém, aliado às muitas e constantes enfermidades, não o deixaram de modo algum inativo. Boa parte de seus livros foram escritos neste período, em meio a muitas dores e aflições.


Casamento: As muitas aflições de Baxter foram, em grande parte aliviadas, durante os dezenove anos deste difícil período da sua vida. Depois que saiu de Kinderminster, já com 47 anos de idade, Baxter casou-se com a Srta. Charlton, uma jovem de 23 anos, que havia sido uma das suas piedosas ovelhas naquela cidade. O casamento foi muito comentado, por causa da diferença de idade. Ele mesmo comentou, que “a notícia do casamento correu por toda parte, comentada às vezes com espanto, e às vezes como se fosse um crime. O casamento do rei não foi muito mais comentado do que o meu”. Mas um de seus biógrafos comenta que “a piedade foi a base e elo da união deles. Foi a piedade que acendeu e manteve viva a afeição recíproca entre eles. A sua profunda devoção, sua sadia discrição, talentos e diligência para com os afazeres domésticos, e sua oportuna solidariedade para com as mais variadas aflições do marido, provaram que ela era uma companheira apropriada para Richard Baxter”.


Últimos Anos e Morte: Referindo-se aos últimos anos da longa vida de Baxter, um de seus biógrafos escreveu: “Como uma estrela de primeira magnitude, nas mãos daquele que anda por entre os sete candeeiros de ouro, sua vida, luz, e resplendor permaneceram sem enfraquecer, quase até o final do último estágio da sua carreira mortal”. Realmente, quando tinha oportunidade, Baxter Pregava. Quando era impedido, muitas vezes abria sua própria casa, e ali reunia aqueles que queriam ouvi-lo, e ali mesmo pregava ousadamente o Evangelho das insondáveis riquezas de Cristo.As últimas horas de Baxter foram calmas e tranqüilas, como o por do sol. Quando perguntado com se sentia às portas da eternidade, ele respondeu: “Quase bem.” Ele sentia que dentro em breve estaria plenamente bem. Na manhã do dia 8 de dezembro de 1691, com setenta e seis anos de idade, Baxter entrou tranqüila e abundantemente na glória.Muitas pessoas piedosas, das mais extremas posições, fizeram-se presentes no seu sepultamento. Ministros conformistas e não-conformistas uniram-se, pelo menos para se despedir de um gigante espiritual que partia, deixando admiração, respeito, e bela carta de recomendação escrita nas páginas dos seus muitos e admiráveis escritos, e nos corações de centenas - quem sabe milhares - que foram convertidos e edificados pelo Espírito Santo através do seu ministério.


CARACTERÍSTICAS E CARÁTER

Constantes e Variadas Enfermidades: Como muitos outros gigantes espirituais, Baxter foi marcado pela doença. Desde a mocidade até o fim de seus dias ele foi afligido por constantes e variadas enfermidades. Foi um homem literalmente enfermo da cabeça aos pés. Padeceu com dores reumáticas, tinha problemas estomacais, sofreu com freqüentes hemorragias no nariz, além de diversas outras enfermidades. Baxter foi tratado por mais de 35 médicos, sem muito resultado, o que o levou a evitá-los. Suas muitas enfermidades, entretanto, não o impediram de ser um servo reconhecidamente mais útil e produtivo do que milhares que desfrutam de perfeita saúde.


Inteligência e Capacidade: Baxter é descrito por seus biógrafos como um homem inteligente, perspicaz, capaz, e possuidor de uma mente fértil e ativa - “uma fonte inexaurível de idéias”. Parece não ter havido assunto no âmbito da teologia sobre qual não houvesse aplicado sua mente. Seus escritos cobrem uma variedade surpreendente de assuntos, teológicos e práticos, de modo espantosamente detalhado. Por tudo isso, Baxter foi contado entre os homens mais inteligentes, talentosos e influentes de sua época.


Piedade: Por maior que tenham sido a inteligência e capacidade de Baxter, sua piedade e moral foram ainda mais distintivas. Seus dons foram sempre dirigidos para a glória daquele que os havia doado; e seus labores para a honra do seu Salvador. Como Esdras, Baxter dispôs seu coração para compreender, praticar e ensinar as insondáveis riquezas de Cristo. E ele aplicou-se de tal modo nestes propósitos, que sua mente tornou-se singularmente familiarizada com as coisas lá do alto, aonde Cristo vive assentado à direita do Pai. Os sofrimentos e perseguições que experimentou ensinaram-no a não confiar em si ou nos homens, mas no seu Senhor. Mesmo quando Baxter encontrava-se na solidão da prisão e afastado da esposa, gozou de firme confiança em Deus, encontrou profunda consolação em Cristo e alegria indizível e cheia de glória no Espírito Santo.


O Demóstenes Inglês: Baxter tem sido chamado de “O Demóstenes Inglês”. A sua inteligência e piedade revelaram-se no púlpito de modo tão eficaz, que tornava-se difícil, para o coração mais endurecido, resistir aos seus argumentos, advertências e apelos. Baxter foi um desses homens cuja pregação foi inquestionavelmente autenticada por Deus. “Seus perscrutadores sermões, seu tom solene, seus apelos diretos ao coração, foram sancionados pelos céus, e despertaram convicções e preocupações nas consciências mais calejadas”. O resultado não poderia ser outro: “Kidderminster, que por longo tempo havia sido um deserto moral, pela bênção de Deus logo se tornou como um jardim do Senhor, e adquiriu a fragrância do Carmelo, e a fertilidade do Líbano”.


Escritos: É nos escritos de Richard Baxter que podemos perceber a dimensão real da sua estatura intelectual e espiritual. Só lendo os seus livros, podemos entender quão profícua, profunda e variada foi a sua obra, e compreender o seu discernimento nos mistérios de Cristo. Não há nenhum exagero em afirmar que a magnitude dos escritos de Baxter é espantosa. Os mais copiosos escritores de sua época, tais com Lightfoot, Jeremy Taylor, Thomas Goodwin e John Owen, não escreveram mais que a metade do que Baxter escreveu. Orme, um de seus biógrafos, catalogou nada menos do que 168 tratados escritos por ele. Além disso, a obra literária de Baxter é de tal ordem, que outro de seus biógrafos, chega a exclamar: “Como um mártir constante da enfermidade como ele, pôde escrever com a serenidade o fez, é um dos grandes mistérios da história.” Nosso espanto fica ainda maior, quando atentamos para o fato que ele escreveu todos os seus livros em meio às muitas atividade ministeriais e públicas, as quais tomavam a maior parte do seu tempo, de modo que escrever, afirmou ele, “foi uma recreação em meio a atividades mais severas”.A obra de Baxter é extremamente variada. Ele escreveu para os não-convertidos, para os recém-convertidos, para os maduros na fé, e para os que se encontravam à beira da morte. Ele foi um apologista que refutou os céticos e infiéis, escreveu conselhos para o Parlamento, expôs as doutrinas do Evangelho, escreveu poesias evangélicas e, especialmente, obras devocionais e práticas visando a conversão dos pecadores e a edificação dos santos.Boa parte dos escritos de Baxter são contados entre os maiores clássicos evangélicos de todos os tempos. E os piedosos que foram seus contemporâneos, bem como aqueles que viveram nos séculos subseqüentes, que leram suas obras, dão unânime testemunho da excelência de seus escritos. Muitos deles foram traduzidos para diversas línguas e tiveram muitas edições publicadas.Dentre as suas obras mais conhecidas e importantes estão: O Descanso Eterno dos Santos, A Vida Divina, Um Tratado Sobre a Conversão, Apelo aos não Convertidos, Agora ou Nunca, Direções e Persuasões para uma Conversão Segura, Direções para Crentes Fracos e Desanimados, O Caráter de Um Crente Seguro, Pensamentos à Beira da Morte, O Pastor Reformado.Alguns destes livros, como é o caso de Um Apelo aos não Convertidos, em apenas um ano, tiveram não menos que trinta mil cópias editadas - isto no século XVII. E, até a época da morte de Baxter, boa parte destes livros já havia sido traduzida para a maioria das línguas européias, e outras línguas não européias, como o indiano.


É uma pena que apenas uma minúscula porção de tal tesouro, só agora, cerca de três séculos e meio depois, tenha sido traduzido para a nossa língua. Até onde sabemos, apenas três obras de Baxter foram publicadas em português: Quebrantamento - Espírito de Humilhação e Medita Estas Coisas, editados pela Editora Clássicos Evangélicos (dois capítulos de Direções e Persuasões para uma Conversão Segura); e O Pastor Aprovado, editado pela PES.


Que este gigante espiritual seja mais conhecido no Brasil. Que seus escritos possam ser finalmente - já com séculos de atraso - traduzidos para a nossa língua. Que estes tesouros sejam redescobertos e lidos. Que produzam entre nós, o grande bem que produziram na vida daqueles que têm tido o privilégio de lê-los. E, quiçá, possam ser instrumentos nas mãos de Deus, para fazer em alguma - quem sabe, algumas - cidades no Brasil, o que fizeram em Kidderminster: fertilizar o deserto espiritual e moral em que temos vivido.