terça-feira, 8 de dezembro de 2009

OS PURITANOS E O MINISTÉRIO

Rev. D. J. MacDonald





O termo “Puritano” foi usado pela primeira vez no reinado de Elizabeth (1558–1603) como uma expressão de reprovação para aqueles que, aos olhos dos seus oponentes, eram muito tomados com a pureza da Igreja visível. Os Puritanos consideravam incompletas as reformas religiosas do reinado de Edward VI (1547–53). A Igreja na Inglaterra foi grandemente reformada em doutrina, mas no seu governo e na sua prática, existia muito para o que não havia base bíblica. Quando Elizabeth subiu ao trono em 1558, ela produziu o que mais tarde foi conhecido como a “acordo religioso Elizabetano”, que basicamente era um dispositivo político – o objetivo principal da rainha era consolidar a sua própria posição. Isso levou a uma “Igreja aberta”, que podia e que realmente aceitava quase que tudo dos fanáticos Papistas, por um lado, e quase que tudo dos Reformadores persuadidos, por outro lado.

Os Puritanos, crendo como eles criam que as Escrituras são a única regra para a prática tanto quanto para a doutrina da Igreja, opunham-se ao novo regime religioso. Eles encontraram-se em oposição a Elizabeth, a James I e a Charles I e, embora desfrutassem de um rápido período de trégua sob a lei de Cromwell, eles foram forçados a deixar a Igreja da Inglaterra em 1662, quando aproximadamente 2.000 ministros recusaram submeter-se ao Ato de Uniformidade. Em todo o século dezessete e também depois, a influência dos Puritanos diminuiu continuamente e, até que uma nova onda de interesse nos seus escritos aparecesse na década de 50 (em grande parte através do trabalho da organização “Banner of Truth Trust”), eles permaneceram como que algo de uma imparidade histórica, aos olhos da maioria.

Não podemos questionar, então, Por que deveríamos nos preocupar hoje com as opiniões dos Puritanos? A pergunta pode ser respondida rapidamente. Durante a era Puritana, mais ou menos entre 1560–1700, a Igreja da Inglaterra foi favorecida pela pregação, pela influência e pelas obras de alguns dos mais proeminentes escritores Puritanos. Nomes como Owen, Flavel, Manton, Perkins e Watson vêm prontamente à mente. Estes, com muitos outros, juntam-se aos mais proeminentes nomes da Reforma Protestante. Sua doutrina, prática e louvor eram embasados no preceito completamente Calvinista, “Pela Escritura somente”, e assim os seus escritos e idéias são tão aceitáveis hoje como sempre têm sido, para todos quantos desejam descobrir “o que diz a Escritura”.

Os Puritanos escreveram muito sobre o ofício e o trabalho do ministério evangelístico e, só por tal motivo, merecem ser lidos e estimados. Existe muito pouco escrito pelos Puritanos sobre o ministério que, por si só, nos confortará. O motivo para isso é que eles estabelecerem um padrão muito alto para todos os aspectos do ministério, e isso talvez deixará algum de nós dolorosamente consciente de estar aquém do padrão estabelecido pelos Puritanos. Todavia nós somos deixados com a impressão indubitável de que o padrão Puritano para ministros é nada menos que o padrão exigido pela Palavra de Deus, ao qual nós devemos buscar atingir, em meio aos muitos males espirituais dos nossos dias e a despeito das nossas sentidas fraquezas e trevas. Além disso, podemos ver nos seus escritos o poder de Deus para tomar homens de paixões similares às nossas e transformá-los em valorosos servos de Cristo em tempos difíceis. É pelo operar desse poder em nossas vidas e em nossos corações que nós certamente clamamos, pois será esse poder que fará o evangelho que pregamos ser “o poder de Deus para a salvação” em larga escala, algo que nós nunca experimentamos, na nossa época.

Eu proponho trabalhar o assunto sob cinco tópicos: 1. O chamado para o ministério. 2. A dificuldade do ministério. 3. A responsabilidade do ministério . 4. A primazia da pregação. 5. Algumas aplicações diretas dos princípios Puritanos.

1. O chamado para o ministério

Os sentimentos dos puritanos neste assunto são melhor sumarizados por Thomas Manton: “Que ninguém pode entrar no trabalho ou no ofício do ministério sem um chamado está, eu suponho, fora de controvérsia. Este chamado é interno e externo. Agora, o que é o chamado interno? Eu respondo, Deus nos chamou quando ele nos fez capazes e desejosos; a inclinação e a capacidade são de Deus; dons e talentos são nossas cartas de apresentação que trazemos ao mundo [para mostrar] que somos chamados por Deus e autorizados para a obra. É verdade que existe uma distância e uma diferença nas capacidades, mas todos quantos podem enxergar-se como chamados de Deus, devem ser capazes e aptos para ensinar.”

A que William Perkins acrescenta, “Saberias tu se Deus te enviaria ou não? Então tu deves perguntar à tua consciência e perguntar à Igreja. Tua consciência deve julgar a tua disposição e a Igreja, a tua capacidade. Da mesma forma como tu não podes confiar em outros homens para julgar a tua inclinação ou afeição, assim também tu não podes confiar no teu próprio julgamento para julgar a tua suficiência ou o teu valor. Se a tua consciência testifica a ti que o teu desejo de servir a Deus e à Sua igreja acima de qualquer outro desejo, e se em provas feitas dos teus dons e aprendizado a Igreja . . . aprova o teu desejo e a tua capacidade de trabalhar a serviço de Deus no Seu ministério, e portanto através de um chamado público te permitem seguir; então Deus Ele próprio te permitiu seguir.”

Manton segue dizendo, “O chamado interno não é suficiente; para preservar a ordem na Igreja um chamado externo é necessário. Como Pedro, em Atos 10, foi chamado por Deus para ir até a casa de Cornélio e então, além disso, ele recebeu um chamado do próprio Cornélio, assim devemos também nós, tendo um chamado interno do Espírito, esperar por um chamado externo da Igreja, do contrário não podemos legalmente ser admitidos para o exercício de um ofício e função tais. Assim, como no Antigo Testamento, a tribo de Levi e a casa de Aarão foram indicados por Deus para o serviço do altar, ainda assim ninguém poderia exercer o chamado de um Levita ou servo como um sumo sacerdote até ser ungido e purificado pela Igreja (Êxodo 28:35). Assim os ministros do evangelho, embora chamados por Deus, devem ter sua separação externa e apartados para aquela obra pela Igreja, como diz o Espírito Santo: “Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.” (Atos 13:2). Vejam, o Espírito de Deus os havia escolhido, todavia comanda à Igreja, aos anciãos em Antioquia, para aparta-los para a obra do ministério.”

Este é um resumo sucinto da posição dos Puritanos relativa ao chamado para o ministério. Esta posição ainda é a regra mestra, tanto quanto se refere às Igrejas que intitulam-se Reformadas. Os Puritanos colocam a responsabilidade nos candidatos e na Igreja. Ao candidato cabe discernir o seu próprio desejo; à Igreja cabe discernir quanto aos seus dons e capacidade. Isso ilustra a necessidade de discernimento, particularmente pela Igreja, quando tais julgamentos solenes têm de ser feitos.

Penso que uma breve citação de John Flavel será uma conclusão apropriada a esta seção do nosso tema: “Este ofício deve ser confiado ‘a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros.' (II Tim 2:2) — não a principiantes. Eu sei que as necessidades das igrejas são grandes, mas eu lhes imploro suprir suas demandas com bom ritmo, mas sem mais precipitação. O que é bom o bastante, em seu tempo virá. É menos arriscado colocar um rústico ignorante numa farmácia para manipular e preparar medicamentos para corpos humanos do que confiar a um homem destituído de ambas, prudência e lealdade, com as dispensações das ordenanças de Cristo para as almas dos homens. Quais sejam os fins secretos dos homens, não podemos sabê-los, mas a qualificação para a obra nós podemos, e devemos, saber. Eu não desencorajaria ninguém que pareça possuir inclinações pias combinadas com qualificações competentes. Muitos podem ser úteis sem poder serem excelentes, e eu penso que os homens mais comuns têm prestado os maiores serviços à Igreja de Cristo. Mas ainda, fidelidade e prudência são qualificações indispensáveis. A solene recomendação é para não impormos as mãos em ninguém, precipitadamente (I Tim 5:22).”

2. A dificuldade do ministério

“O trabalho do pregador,” diz Perkins, “é permanecer na presença de Deus, adentrar no santo dos santos, ir entre Deus e o Seu povo, ser a boca de Deus para o povo, e a do povo para Deus; ser o intérprete da eterna lei do Antigo Testamento e do sempiterno evangelho do Novo Testamento; permanecer no espaço do Próprio Deus; cuidar e encarregar-se de almas; estas considerações são tantas maravilhas para a consciência de homens que aproximam-se com reverência, e não com descuidada pressa, ante o trono santo.”

“Não é difícil ensinar?” pergunta John Collings, em sua “A Vindication of the Great Ordinance of God, a Gospel Ministry” (1651). “Meus amados amigos, estamos consigo em muito temor e tremor; e quando consultamos os originais, pesamos a coerência de um texto, comparado nossos pensamentos com os pensamentos de muitos outros divina e principalmente comparados Escritura com Escritura, ainda assim estamos nós em tremor e vemos razão para clamar ao Senhor com Agostinho (antes da nossa interpretação da Escritura), Concede, Senhor, que nós não nos enganemos na compreensão da Tua vontade e que não enganemos a outros, com uma falsa interpretação.”

Sempre que olhamos ou mergulhamos nos escritos dos Puritanos, ficamos com a impressão de que eles tinham uma visão séria e elevada do ministério. “Era”, diz Iain Murray, “uma vida que os enchia de emoção, de reverência. Eles tinham o mesmo espírito que Lutero, que costumava dizer que se ele pudesse novamente escolher seu chamado, ele cavaria um buraco ou faria qualquer outra coisa que não tomar sobre si o ofício de um ministro. Calvino, mesmo após haver escrito sua obra mestra “As Institutas” , julgava-se insuficiente para aceitar o peso da função ministerial. Knox . . . foi tão profundamente afetado pela responsabilidade do ofício que foi com grande dificuldade que ele pode ser induzido a iniciar o seu ministério de pregação. Knox tremeu ao tomar sobre si o ofício do ministério, não somente devido ao seu senso de incapacidade, mas por saber que as responsabilidades do ofício, uma vez aceitas devem, a qualquer custo, serem levadas a cabo.

“Foi escrito sobre James Durham que, ao aproximar-se do fim da vida, ele disse que se pudesse viver outros dez anos, ele escolheria estudar durante nove anos em preparação para pregar no décimo. Perkins estava tão impressionado pela carga sob a qual se encontrava, que ele escreveu na página título de seus livros, ‘Tu és um ministro da Palavra. Cuide dos teus negócios.' Thomas Shepherd, falando a alguns jovens ministros que o visitaram em seu leito de morte, disse, ‘Sua tarefa é grandiosa e exige grande seriedade. Da minha parte, eu nunca preguei um sermão o qual, durante a preparação não me custasse orações com lágrimas e choro forte. Eu nunca subi num púlpito como se não fosse prestar contas de mim mesmo a Deus'.”

3. A responsabilidade do ministério

Vez após vez os Puritanos escreveram sobre este tema. O reformador Hugh Latimer disse num sermão, “Deus vos tem comandado a pregar. Se não alertais o ímpio, ele morrerá em sua impiedade, mas eu exigirei contas do seu sangue, na vossa seara” “Atentai para isso, marcai bem; Eu pedirei o sangue dele, na vossa seara. Se não performais o vosso ofício, se não ensinai e não alertai aos povos, recebereis a condenação eterna por isso.” Essas breves citações parecem capturar o espírito dos Puritanos, uma vez que eles consideravam sua responsabilidade terrível como aqueles que pregavam a Palavra de Deus aos seus semelhantes. Nós, na nossa época, faríamos bem em deixar estas palavras penetrarem em nossos ouvidos, pois nossa responsabilidade não é menor do que era a deles, embora vivamos numa época muito mais frívola, na qual a seriedade em cada faceta da vida parece ser dispensada dos pensamentos da maioria dos homens.

Um pregador da Nova Inglaterra, Daniel Dana (nascido em 1760), ecoa este tema da responsabilidade ministerial quando diz, “Ao Cristão em particular são confiados os assuntos de uma alma, e quando ele reflete que o sua breve passagem pela vida dará compleição a toda a sua eternidade e que ele está constantemente na divisa entre infindáveis alegrias ou misérias, o pensamento deve calar no mais fundo do seu espírito. Mas ao ministro é confiado o cuidado para com centenas de almas. De fato, milhares e dezenas de milhares de seres imortais, estejam perto ou longe, sejam existentes ou ainda por virem a nascer, podem receber sua estampa para eternidade sob a influência do ministro. Que considerações avassaladoras são estas! Quão perfeitas para massacrar um espírito frágil! Todavia o ministro de cuja mente elas são banidas, não aprendeu a primeira lição da sua vocação.

“É tarefa constante, recorrente, do ministro Cristão, conversar com as sublimidades do evangelho – meditar nos seus mistérios profundos e insondáveis. Estes são os assuntos que ocuparam desde a eternidade a mente do Deus infinito. São estes os temas nos quais mentes angelicais se perdem. Aqui estão envolvidos ao mesmo tempo as glórias da Divindade e o destino eterno de milhões de seres criados. E qual o espírito no qual temas como estes devem ser compreendidos? Mente nenhuma, a não ser uma profundamente séria, está preparada para adentrar esta área santificada.

“O verdadeiro ministro olha para além do tempo. Ele está cercado por seres imortais que se esquecem da sua imortalidade, com criaturas moribundas que vivem somente para este mundo; com pecadores que, inconscientes da sua culpa e depravação, negligenciam suas almas e o seu Salvador. O verdadeiro ministro vive menos para o presente do que para o futuro. Ele tem a eternidade em seus olhos. Ele vive e ele age, ele ora e prega para a eternidade. Assim é que a milhões de anos, sua vida e seus atos, seus sermões e suas preces podem ser lembradas por milhões de seres além dele próprio, com alegria ou angústia indizíveis.” 8 Não admira que até o Apóstolo Paulo disse, “...E para estas coisas quem é idôneo?” (II Co 2:16).

Flavel escreve nas mesmas linhas: “Nós temos uma solene carga nos dada por Cristo: ‘Conjuro-te, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no Seu reino, Que pregues a Palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda longanimidade e doutrina.” (II Tim 4:1-2). Deve ser realmente uma droga poderosíssima, que pode tanto estupidificar anestesiar a consciência de um ministro, de forma a ele não sentir a autoridade terrível de tal carga. As almas imortais e preciosas dos homens são a nós confiadas, almas a respeito das quais Deus ocupou os Seus pensamentos desde a eternidade, pelo propósito das quais Cristo derramou o Seu próprio sangue, pela vitória e pelas bodas Dele próprio com as quais Ele vos colocou no ofício, de cujas mãos ele também exigirá contas quanto a elas, no grande dia.”

Depois de citar o versículo, “Assim que, sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens...” (2 Co 5:11), Flavel continua, “Ó amados, acautelemo-nos de cometermos, ou de negligenciarmos, qualquer coisa que possa colocar-nos no círculo dos terrores daquele dia. Que a nossa diligência e a nossa fidelidade, nossa constância e seriedade, induzam a um testemunho das nossas congregações, como fez o apóstolo da sua, em Atos 20:26 – que estamos puros do sangue de todos.”

Ao escrever sobre o ministério, muitos escritores Puritanos vez após vez enfatizam o ponto de que homem algum na terra encontra-se em posição mais solene do que o ministro do evangelho. Ninguém terá de prestar conta de tanto, no último dia. Esta visão do ministério tem estado perdida nos nossos dias. Contudo, estejamos convencidos da verdade desta visão e busquemos graça e humildade para aplica-la a nós mesmos, estando convencidos de que não se trata de demanda de nenhuma era ou época na história da Igreja de Deus, mas a exigência da Palavra de Deus em todas eras. Thomas Brooks diz, “Agora seria melhor para um homem ter sobre si o sangue do mundo inteiro, do que o sangue de uma alma. O sangue das almas, acima de todos os sangues, clama mais alto e fere mais profundamente. Por esta razão aquela passagem de Paulo em I Coríntios 9:16: ‘...e ai de mim, se não anunciar o evangelho!' O moto que deveria ser colocado na porta do escritório dos pregadores, nas suas paredes, em todos os livros que eles lêem e nas cadeiras em que se assentam deveria ser este: ‘o sangue de almas, o sangue de almas!' Foi um conforto e uma honra para Paulo, que ele manteve-se puro do sangue de todos.”

Sob o título de responsabilidade ministerial nós podemos apropriadamente citar as palavras de Richard Baxter, onde ele falava particularmente a ministros na obra “the oversight of ourselves” ( “o nosso próprio erro” ): “Não se contentem com um estado de graça, mas tenham cuidado também com que suas graças sejam mantidas em exercício vigoroso e animado e que vocês preguem a si mesmos os sermões que vocês preparam, antes de prega-los a outros.”

“Eu confesso”, ele continua, “e deve dize-lo por lamentável experiência própria, que eu transmito ao meu rebanho os distúrbios da minha própria alma. Quando permito que meu coração se esfrie, minha pregação é fria. Muitas vezes posso observar no melhor do meu povo que quando minha pregação se torna fria, eles também se esfriam. Nós somos as amas dos pequeninos de Cristo. Se negligenciamos o nosso próprio alimento, ficaremos desnutridos e isso logo será visível na magreza deles e no desempenho irresponsável de suas diversas tarefas. Ó amados, cuidem portanto dos seus próprios corações; afastem-se de luxúrias e de paixões e de inclinações mundanas; busquem a vida de fé e de amor e de zelo. Acima de tudo, estejam sempre em oração e meditações em secreto. Cuidem , portanto, das suas próprias almas e das dos demais.

“Cuidem de si mesmos, para que o seu exemplo não contradiga sua doutrina; para que não se ponham tal como muro na frente de cegos, o que pode ser a oportunidade para a ruína deles; para que o seu procedimento não desminta o que proferem suas línguas e venha a ser o maior obstáculo para o sucesso dos seus próprios labores. Muito atravanca a nossa obra quando outros homens passam toda a semana contradizendo às pobres pessoas, em privado, o que nós lhes pregamos em público, da Palavra de Deus; mas muito maior prejuízo para a sua obra será se houver contradição em vocês mesmos, se os seus atos propiciarem mentira às suas línguas; e se o que vocês construírem com suas bocas durante uma hora ou duas no domingo, depois passarem o restante da semana a destruir com suas mãos. Este é o caminho para fazer homens acharem que a Palavra de Deus é nada senão uma fábula sem fundamento e tornar a pregação não melhor que conversa sem propósito. Aquele que intenta o que fala, certamente fará como fala. Uma palavra orgulhosa, esnobe, arrogante, uma disputa desnecessária, um ato de inveja, pode matar um sermão, e destruir os frutos de tudo o que vocês tenham estado a fazer.

“Vocês dão tão pouca importância ao seu trabalho que não lutarão contra uma injúria ou contra uma palavra errada, ou submeter-se ao mais humilde, nem refrear seu orgulho próprio e palavras altivas, para ganhar almas? É um erro palpável de alguns ministros que fazem tal desproporção entre sua pregação e seu modo de viver, que estudam muito sobre como pregar corretamente — e estudam pouco, ou nada, sobre como viver corretamente. A semana inteira é pouco para estudarem sobre como pregar durante duas horas; e todavia uma hora somente lhes parece demais para estudar sobre como viver durante a semana. Eles relutam, hesitam em colocar mal uma palavra em seus sermão, mas não pensam sobre dispensar inapropriadamente as afeições, palavras e ações no decurso de suas vidas. Oh, curioso é como tenho ouvido pregações de homens, e observado como vivem negligentemente. É certo, amados, que nós temos grande razão para cuidar do que fazemos, tanto quanto do que dizemos. Se somos de fato os servos de Cristo, não devemos ser línguas de servos somente, mas devemos servi-Lo com todos os nossos atos. Como o nosso povo deve ser praticantes da Palavra, e não somente ouvintes, assim também nós devemos ser praticantes da Palavra, e não somente porta-vozes.

“Cuidem-se, para que vocês não vivam nestes pecados contra os quais vocês pregam a outros, e para que vocês não sejam culpados daquilo que vocês diariamente condenam. Farão vocês seu trabalho de magnificar a Deus e, estando aquela tarefa cumprida, desonra-Lo tanto quanto os demais? Pregarão vocês sobre as leis de Deus para então, voluntariamente quebra-las? Se os juízos de Deus são verdadeiros, por que vocês não os temem? Se são falsos, por que então incomodam aos homens desnecessariamente e os põem tão alarmados sem motivo? “Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?” (Rm 2:23). O que! A mesma língua que fala o mal, falará também contra o mal? Julgarão e difamarão e reprovarão estes lábios ao próximo, lábios estes que levam a cabo tal como os outros? Ó amados, é mais fácil esconder-se no pecado do que sobrepuja-lo. Cuidem de si mesmos, sob pena de condenar o pecado e todavia não vence-lo.”

4. A primazia da pregação

Por “primazia da pregação” os Puritanos entendiam que a pregação era a parte mais importante da vida de um ministro. Quaisquer dons, dotes ou conhecimentos que um ministro possuísse, eram para serem usados para o grande fim de fazer dele um pregador. O Apóstolo diz, “Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar...” {I Co 1:17}. Isso não significa que o batismo não seja importante, mas que a pregação é mais importante 2 . O próprio Paulo assim afirma novamente, quando diz, “...e ai de mim, se não anunciar o evangelho !” {I Co 9:16}. A importância da pregação e a preparação para tanto, como visto nos escritos e na prática dos Puritanos, é resumido sucintamente nas palavras de J. C. Ryle: “Alguns podem estar prontos a dizer, ‘Eu trabalhei para Deus durante a semana inteira. Eu fui à escola, visitei de casa em casa, distribuindo folhetos, e se meus sermões no dia do Senhor não são tudo o que poderiam ser, de maneira nenhum tenho sido preguiçoso.' Devemos nos lembrar que todas as obras nesta descrição, se interferem com a preparação dos nossos sermões, trata-se de trabalho em vão .” 3 Quantos de nós se contentaria em dizer, “Passamos a semana visitando de casa em casa distribuindo folhetos e etc.”? Quão mundano é o que ocupa por demais a nossa mente durante a semana, como podemos fazer disso uma desculpa para a nossa falta de preparação de sermão?

Henry Smith (1550-1591), palestrante em St Clement Danes , em Londres, escreve, “Se você precisa tomar cuidado com o que ouve, então nós precisamos tomar cuidar como pregamos. Assim é que Paulo não apontou ninguém mais como pregadores, senão aqueles que ‘manejam bem a Palavra da verdade' {II Timóteo 2:15}, ou seja, em boas palavras e no método correto; e porque ninguém pode fazê-lo sem estudo e meditação, portanto ele ensinou a Timóteo a ‘apresentar-se à doutrina', isto é, a fazer um estudo e batalhar por isso. Pois como Pedro disse que nas epístolas de Paulo há muitas coisas difíceis de serem entendidas, também nas epístolas de Pedro, de João e de Tiago há muitas coisas que Davi, antes, chamou de maravilhas da lei, e Paulo chamou de o mistério da salvação, e Cristo chamou de tesouro escondido no chão.” “O trigo é bom,” continua Smith, citando Amós 8:6, “mas aqueles que vendem o seu refugo são reprovados. Também a pregação é boa, mas esta recusa em pregar não passa de blasfêmia, pois um toma o nome de Deus em vão, o outro toma a Palavra de Deus em vão. Como nem todo som é música, assim nem todo sermão é pregação, mas pior do que se quem o faz lesse uma homilia. Pois se Tiago nos exorta a considerar o que pedimos antes de orarmos, muito mais deveríamos nós considerar antes que venhamos a pregar.” 4

Ao enfatizar a importância da pregação, diz Perkins, “O primeiro título de um ministro de Deus é mensageiro . Ele é o mensageiro do Senhor das multidões. Em Apocalipse os ministros de sete igrejas são chamados de anjos dessas igrejas; em outra passagem um ministro é um anjo do Senhor, e em outra, o anjo da igreja — isto é, um anjo ou mensageiro enviado por Deus à igreja. Este ponto tem ampla aplicação:

“Primeiramente, para os próprios ministros. Você deve compreender a sua tarefa. Ministros são mensageiros: esta é a própria natureza do seu chamado. Portanto você deve pregar a Palavra de Deus e entregá-la exatamente como a recebeu. Embaixadores não portam sua própria mensagem, mas a mensagem dos seus senhores e mestres, que os enviaram. Similarmente, ministros portam a mensagem do Senhor das multidões e são portanto obrigados a entregá-la como sendo a mensagem do Senhor, e não sua própria. A Palavra de Deus é pura. Deve ser, portanto, estudada e entregue de maneira pura. Que todos aqueles que são anjos de Deus — e desejam ser honrados como Seus anjos e Seus embaixadores — cumprir com a responsabilidade de um anjo de Deus, de forma que, como muitos homens desfiguram uma boa estória pela forma como a contam, eles não tirem o poder e a majestade da Palavra de Deus pela forma como a entregam.

“Em segundo lugar, se ministros são os anjos de Deus, eles devem pregar a Palavra de Deus de tal forma que expresse e demonstre o Espírito de Deus. Pregar na demonstração do Espírito de Deus é pregar com tal simplicidade, e todavia com poder tal, que mesmo aquele menos dotado intelectualmente reconheça não ser um homem, mas Deus, quem o está ensinando. E ainda assim, a consciência do mais poderoso possa sentir que não um homem, mas Deus, o reprovando através do poder do Espírito. É tido como grande admiração aos olhos do mundo, quando dizem de um pregador: “Ele é um sábio de fato”, porque ele tem erudição, lê bastante, tem uma boa memória e uma boa entrega. Mas o que recomenda um homem ao Senhor seu Deus e à sua própria consciência é que ele prega com uma sinceridade adequada à habilidade, e tão poderosamente à consciência do pecador, que este percebe que Deus está presente no pregador.

“Em terceiro lugar, há uma aplicação importante aos ouvintes. Eles são ensinados que se os seus ministros são anjos enviados a eles por Deus, então eles devem ouvi-los prazerosamente, de bom grado, reverentemente e obedientemente, porque eles são enviados por Deus, e é a Sua mensagem que eles entregam. Todos Cristãos devem fazê-lo, não somente quando a doutrina a qual é pregada os satisfaz, mas também quando ela corta de lado a lado nossa corrupção e é completamente contrária às nossas disposições. Pode ser altamente desagradável e ferir nossos desejos naturais, mas desde que seja uma mensagem do nosso Deus e Rei e o pregador seja o mensageiro daquele Deus, ambos, ele e a mensagem devem ser recebidos com respeito e com uma obediência que venha dos nossos corações e almas. Esta é a razão porque respeito e honra devem ser prestados por todos Cristãos aos ministros de Deus, especialmente quando eles adornam o seu alto chamado com uma vida santa: eles são os anjos de Deus, entregando as mensagens e as cargas que eles receberam de Deus.

“O ministro de Deus é também um intérprete . Ele é alguém que é capaz de entregar a reconciliação feita entre Deus e o homem; isto é, primeiro, ele é alguém que pode expandir e explicar o pacto da graça, e corretamente estabelecer como a reconciliação é alcançada. Segundo, ele é alguém que pode aplicar, precisa e apropriadamente, os meios do operar externo da reconciliação. Em Apocalipse, João recebe de Cristo. Ele deve tomar o livro — isto é, a Escritura — e comê-lo. Então, após tê-lo comido, ele deve ir e pregar aos povos, línguas e nações {Apocalipse 10:8 – 11). Através de João, Cristo ensina a Sua Igreja de forma permanente que ministros não são capazes de pregar a nações e a reis, até que tenham comido o Livro de Deus, ou seja, até acima e além de todo o aprendizado que o homem possa transmitir, eles também são ensinados pelo Próprio Espírito de Deus. É o seu ensino que faz de um homem um verdadeiro intérprete. Sem isso ele não pode ser um. Como pode alguém ser intérprete de Deus para o Seu povo, a menos que ele conheça a mente do Próprio Deus? E como pode ele conhecer a mente de Deus, exceto pelo ensinamento do Espírito de Deus?

“O que estou enfatizando é isto: um ministro deve ser um intérprete divino, um intérprete do que Deus tem a dizer. Portanto, ele não deve somente ler o livro, mas comê-lo. Ele deve não somente ter o conhecimento das coisas divinas fluindo em seu cérebro, mas gravado em seu coração e impresso em sua alma pelo dedo espiritual de Deus. Para tanto, além de todo o seu próprio estudo, meditação e uso de comentários e outros auxílios humanos, ele deve orar com Davi, “Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da Tua lei.” {Salmo 119:18}

“Além disso, uma vez que ministros são intérpretes, eles devem aspirar santificação e santidade em suas próprias vidas. Na profecia de Isaías, o Reino da Assíria é dito ser santificado, ou separado, para destruir os inimigos de Deus. Se um certo tipo de santificação é necessário para a obra de destruição, quanto mais é a verdadeira santificação necessária para a grande e gloriosa obra de edificação da Igreja de Deus? ” 5

5. Algumas implicações diretas dos princípios Puritanos

Em 1688, John Flavel dirigiu-se a uma assembléia de ministros nas palavras do Salvador conforme registradas em Mateus 24:45: “Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o seu senhor constituiu sobre a Sua casa, para dar o sustento a Seu tempo?” Ele diz, “ Fiel e sábio , ambos adjetivos constituem o caráter do ministro evangélico completo — sua sabedoria ou prudência o capacita para discernir, e sua lealdade o obriga a distribuir alimento saudável ao seu rebanho. Fidelidade ou prudência fala de diligência. Um homem negligente não pode ser um servo fiel. As labutas do ministro são adequadamente comparadas à lida de homens na colheita, ao esforço de mulheres no parto, e às agonias de soldados nas frentes de batalha. Fidelidade tem a ver com constância e estabilidade. “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.” {Apocalipse 2:10}. Oh sim, nós devemos lutar em defesa da verdade que pregamos, assim como estudá-las até tornarmos-nos pálidos e declará-las até desfalecermos.

“Fidelidade ministerial inclui nossa imparcialidade em todas as administrações da casa de Deus. Aquele que é parcial não pode ser fiel. Quão solenemente Paulo ordena esta carga a Timóteo: “Conjuro-te diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos, que sem prevenção guardes estas coisas, nada fazendo por parcialidade” {I Timóteo 5:21}. Irmãos, vocês muito cedo comparecerão perante um juiz imparcial, vejam que sejam mordomos imparciais. Lembrem-se que todas almas são classificadas a um valor no livro de vosso Mestre. Seu Redentor pagou tanto por uma quanto por outra. Tomem o mesmo cuidado, manifestem o mesmo amor, atendam com a mesma diligência a mais fraca e pobre alma que está confiada ao seu cuidado.

“Prudência ministerial nos levará a construir um bom alicerce de conhecimento nas almas do nosso povo, por catequizá-los e instruí-los nos princípios do Cristianismo, sem o qual labutamos em vão. Exceto se tiverem um povo com conhecimento, vocês provavelmente não terão um povo piedoso. Todos os seus excelentes sermões serão feitos em pedaços, lançados contra a rocha da ignorância do seu povo. Vocês não podem nunca lançar-se num projeto melhor para promover o sucesso do seu trabalho, que o da catequese.” Aqui eu devo interromper Flavel, para perguntar, se isto é a pedra de tropeço para o sucesso das nossas labutas, não deveria ser então identificada e o remédio aplicado?

Flavel continua, “A prudência ministerial se descobre na escolha de tais assuntos como as almas do nosso povo mais almejam. Um ministro prudente estudará as almas do seu povo mais do que os melhores livros em sua biblioteca e escolherá, não o que lhe seja mais fácil, mas o que seja mais necessário a eles. Ministros que estão inteirados com o estado do seu rebanho como deveriam estar, raramente estarão perdidos na escolha dos assuntos. Prudência capacitará o homem de Deus a dar a cada um seu alimento apropriado, e medicação na época devida. Isto nos fará gastar mais e mais horas em nossos estudos, para que pelo nosso esforço possamos salvar a nós mesmos e àqueles que nos ouvem.

“Prudência ministerial não somente nos direcionará na escolha dos nossos assuntos, mas também na linguagem, na qual os entregaremos ao nosso povo. Um estilo grave e apropriado torna-se os lábios dos embaixadores de Cristo. Prudência nunca nos permitirá sermos rudes ou engajar em expressões floreadas. Devemos nos esforçar por simplificar os mistérios mais sublimes do evangelho à capacidade dos mais iletrados dos nossos ouvintes. O maior dos créditos que podemos aspirar é nos aproximarmos ao máximo do louvor prestado ao maior pregador de todos os tempos: “E a grande multidão o ouvia de boa vontade.” {Marcos 12:37}

“Prudência ministerial direcionará os servos de Cristos ao rigor e seriedade em seu comportamento, a manter a estima do seu povo. Prudência não permitirá que os ministros de Cristo misturarem-se com vãs companhias, tomarem liberdade em zombarias sem benefícios e estórias vãs; nem permitira, por outro lado, uma austeridade carrancuda e desencorajadora, mas temperará seriedade com afabilidade.

“A vocês que são estudantes ou recém formados eu dirigirei uma palavra de conselho: tomem cuidado para evitar aquele espírito vão e volúvel que está em toda parte nesta época desprovida de seriedade. As pessoas têm olhos para ver o que nós fazemos, tanto quanto ouvidos para ouvir o que dizemos. Deveríamos nos esforçar por sermos capazes de dizer como Paulo: “O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei...” {Fp 4:9}.

“Prudência ministerial frequentemente os porá de joelhos para buscar as bênçãos de Deus para os seus labores. Saibam que todo o seu sucesso no ministério depende disso, como está escrito: “Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento.” {I Co 3:7}

“Prudência ministerial os levará a cultivar e alimentar o amor fraternal, pois uma vez que a cobiça, o orgulho ou interesse carnal infiltram-se entre os irmãos, não há palavras que possam dizer que danos e pecados irromperão em seu meio, para afronta a Cristo e ao evangelho. Eu, portanto, em o nome de Cristo, como se de joelhos, sinceramente imploro e suplico aos meus irmãos, por todo o respeito que têm pela honra de Cristo, as almas de seu povo, seu próprio bem-estar, e o sucesso de suas lutas, que nenhuma inveja ou disputa ou menosprezo seja nem por uma vez admitida e mencionada entre eles.”

Encerro com uma citação final de Richard Baxter, onde ele confessa, “Algumas destas palavras de Paulo têm sido tão frequentemente apresentadas ante meus olhos e impressas em minha consciência que eu tenho sido em muito convencido por elas da minha responsabilidade e da minha negligência:

(a) Nosso negócio geral: Servir ao Senhor com toda humildade, com muitas lágrimas.

(b) Nossa ocupação especial: Cuidar de nós mesmos, e de todo o rebanho.

(c) Nossa doutrina: Arrependimento para com Deus, e fé em nosso Senhor Jesus Cristo.

(d) O local e forma de ensino: Eu os tenho ensinado publicamente, e de casa em casa.

(e) Sua diligência, seriedade e afeição: Não cessei de alertar a todos dia e noite e com lágrimas. Isso é o que deve ganhar almas e preservá-las.

(f) Sua lealdade: Não ocultei nada que fosse benéfico para vocês, e não deixei de declarar-lhes todos os conselhos de Deus.

(g) Seu desinteresse e autonegação pelo bem do evangelho: Eu não cobicei nem a prata, nem o ouro e nem o adorno de homem algum; sim, estas mãos têm provido para as minhas necessidades, e àqueles que comigo estiveram, lembrando das palavras do Senhor Jesus, como Ele disse, melhor é dar do que receber.

(h) Sua paciência e perseverança: Nenhuma dessas coisas me toca, nem contam em minha vida como preciosas, de modo que eu posso terminar com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus.

(i) Sua religiosidade: Eu os comendo a Deus e à palavra da Sua graça, a qual pode levantá-los, e dar-lhes herança dentre todos aqueles que são santificados.

(j) Sua pureza de consciência: “Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos.”
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Traduzido por: Eli Daniel da Silva