segunda-feira, 19 de abril de 2010

DEUS É IMUTÁVEL E IMPASSÍVEL? (Parte 1)

Silas Roberto Nogueira


Deus é imutável, segundo o que Ele mesmo revela sobre Si: “porque eu, o SENHOR não mudo...” (Malaquias 3.6). Outros textos bíblicos também corroboram esse conceito sobre Deus, especialmente: Êx 3.14; Sl 102.26-28; Is 41.4;48.12; Rm 1.23; Hb 1.11,12 e Tg 1.17. A razão também aponta para a sua imutabilidade pelo fato de que Ele é autoexistente, absoluto, eterno e infinito em suas perfeições. A imutabilidade divina é uma verdade coerente com a natureza de Deus, mas como disse Dr. Lloyd-Jones “precisamos, porém, atentar um pouco mais para a imutabilidade de Deus.”[1]  E a razão para se dar atenção a isso é que podemos, se não formos cuidadosos, negar o conceito de pessoalidade de Deus.


Assim, é importante começar dizendo o que a imutabilidade não é:

  • Primeiro, a imutabilidade não é imobilidade. Charles Hodge alertava: “os teólogos, em suas tentativas de declarar, em linguagem filosófica, a doutrina da Bíblia acerca da imutabilidade de Deus, são passiveis de confundir imutabilidade com imobilidade. Ao negar que Deus pode mudar, parecem negar que ele pode agir. (...) Sabemos que Deus é imutável em seu ser, em suas perfeições e seus propósitos; e sabemos que ele é perpetuamente ativo. E, portanto, atividade e imutabilidade devem ser compatíveis; e não se deve admitir inconsistência alguma entre a explicação da última e a da primeira”.[2] Strong observa que confundir imutabilidade com imobilidade “negaria toda a vontade imperativa de Deus através da qual El entra na história. As Escrituras garantem-nos que a criação, os milagres, a encarnação, a regeneração são atos imediatos de Deus.”[3]
  • Em segundo lugar, a imutabilidade não quer dizer impassibilidade. Para alguns filósofos gregos a noção de perfeição, geralmente entendida em termos bastante estáticos, domina a visão acerca de Deus.  Para eles a perfeição exige a imutabilidade e a auto-suficiência. Assim, se Deus é perfeito, qualquer mudança torna-se uma impossibilidade. Qualquer mudança é um afastamento da perfeição ou em direção a ela, por isso Deus deve ser impassível, pois as emoções representam vulnerabilidade, ou seja, mudança. É verdade que a fé ortodoxa declara que Deus é impassível, isto é, sem paixões[4], mas, ao contrário do que alguns pensam, essa impassibilidade não é apatia, pois a Bíblia declara que o Deus cristão é amor, é misericordioso, é bom, é gracioso, é compassivo. Um Deus apático não é nem pessoal e nem relacional e menos ainda o Deus da Bíblia. 

Mas, precisamos de uma enunciação clara do que entendemos por imutabilidade. Wayne Gruden propôs: “Deus é imutável no seu ser, nas suas perfeições, nos seus propósitos e nas suas promessas; porém, Deus age e sente emoções, e age e sente de modos diversos diante de situações diferentes.” [5] Essa definição expressa a inalterabilidade divina naquilo em que Ele é de fato inalterável, isto é, nos aspectos em que as Escrituras afirmam que Ele é imutável. Podemos dizer que Deus não muda em quatro sentidos:
  • Deus é imutável em sua essência, isto é, “no seu ser”. Herman Bavink observa a importância de Deus ser imutável em Seu ser dizendo que “a doutrina da imutabilidade de Deus é da mais alta importância para a religião. O contraste entre ser e vir a ser assinala a diferença entre o criador e a criatura. Toda criatura está continuamente vindo a ser. É mutável, vive em constante azáfama, busca repouso e satisfação, e encontra repouso em deus, e só nEle, pois só Ele é puro se e não vir a ser. Daí nas Escrituras Deus ser muitas vezes chamado a Rocha...” [6]   Arthur Pink declara com acerto que a “natureza e seu ser são infinitos e, assim, não sujeitos a mutação alguma. Jamais houve tempo quando ele não era; jamais virá tempo quando Ele deixará de ser. Deua não evoluiu, nem cresceu, nem melhorou. Tudo que Ele é hoje, sempre foi e sempre será. “...eu, o Senhor, não mudo...” (Malaquias 3.6) é a Sua afirmação categórica. Ele não pode mudar para pior. Completamente imune de tudo quanto Lhe é alheio, é impossível melhoramento ou deterioração. Ele é perpetuamente o mesmo. Somente Ele pode dizer: “...EU SOU O QUE SOU...” (Êxodo 3.14). Ele é absolutamente livre da influência do curso do tempo. Não há um vinco sequer nos sobrolhos da eternidade. Portanto, o Seu poder jamais pode diminuir, nem Sua glória desvanecer-se”. [7]
  • Deus é imutável em suas perfeições, isto é, em seus atributos.  Se Deus é imutável em Sua essência, segue-se que é igualmente imutável em Seu caráter moral. (Tg 1.17) Spurgeon declarou “Ele não muda em Seus atributos. Qualquer um dos atributos de Deus era no passado, como é agora; e de cada um deles podemos cantar: "Como eras no início, és agora, e sempre serás, mundo sem fim, Amém". Acaso Ele era poderoso? Ele era o Deus poderoso quando chamou o mundo para fora do útero da não existência? Era Ele o Onipotente quando empilhou as montanhas e cavou a terra oca para formar os leitos dos rios? Sim, Ele era então poderoso e o braço dEle é agora único, Ele é o mesmo gigante em Seu poder; a seiva da nutrição dEle é interminável e a força da Sua personalidade é a mesma para sempre. Porventura Ele era sábio quando constituiu este globo poderoso, quando estabeleceu as fundações do universo? Tinha Ele sabedoria quando planejou os meios da nossa salvação e quando desde toda eternidade estabeleceu Seu grandioso plano? Sim, Ele é sábio agora; não é menos hábil, Ele não tem menos conhecimento; os olhos dEle que vêem todas as coisas não estão embaçados; Seus ouvidos ouvem todos os gritos, suspiros, choros e gemidos do Seu povo, não estão tapados para suas orações. Ele é o mesmo em Sua sabedoria, Ele sabe agora tanto quanto antes, nem mais nem menos; Ele tem a mesma capacidade ilimitada e a mesma presciência infinita. Ele permanece inalterado, bendito seja o nome dEle na Sua justiça. Justo e santo Ele era no passado; justo e santo Ele é agora. Ele está inalterado na Sua verdade; Ele promete e Ele realiza; Ele disse isso e isso será feito. Ele não varia na bondade, generosidade e benevolência da Sua natureza. Ele não Se tornou num tirano todo-poderoso, ao passo que era uma vez um Pai todo-poderoso; mas Seu forte amor permanece como uma rocha, impassível pelos furacões da nossa iniqüidade. E bendito seja o Seu precioso nome, Ele nunca mudou no Seu amor. No princípio, quando Ele firmou a aliança, quão cheio estava Seu coração de afeto pelo Seu povo. Ele sabia que o Seu Filho teria que morrer para ratificar os artigos daquele acordo. Ele sabia muito bem que tinha de dar o Seu melhor pelos amados de Suas entranhas e o enviou à terra para derramar Seu sangue e morrer. Ele não vacilou em ratificar aquela poderosa aliança, nem evitou seu cumprimento. Ele ama hoje tanto quanto no passado e quando o sol deixar de brilhar e a lua de mostrar sua tênue luz, Ele ainda amará e para sempre e sempre. Tome qualquer atributo de Deus e eu escreverei a respeito dele sempre idem (sempre o mesmo). Diga qualquer coisa que puder de Deus e isso pode ser dito num passado escuro como também num futuro luminoso e sempre permanecerá o mesmo: "Eu sou Jeová, eu não mudo".[8]
  • Deus é imutável em Seus propósitos, isto é, em seus decretos ou conselho. A Palavra de Deus declara: “O conselho do Senhor dura para sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações” (Salmo 33.11). Essa declaração é consubstanciada por outros textos, tais como Mateus 13.35; 25.34; Romanos 11.29; Efésios 1.4,11; 3.9,11; 2 Timóteo 2.19; 1 Pedro 1.20; Apocalipse 13.8, que tratam dos propósitos específicos de Deus para toda a eternidade. J. I. Packer comenta que o que Deus “executa no tempo Ele planejou desde a eternidade e tudo o que planejou na eternidade realiza no tempo. Tudo aquilo que Ele tenha, pela Sua palavra, se comprometido a realizar, será infalivelmente feito. Lemos assim a respeito da “imutabilidade do seu propósito” que levará ao gozo completo da herança prometida, e sobre o juramento imutável pelo qual Ele confirmou seu desígnio a Abraão, o arquétipo do crente, tanto para a própria segurança de Abrão como para a nossa também (Hb 6.17). Isso acontece com todos os planos anunciados por Deus. Eles não mudam nem parte alguma do seu plano eterno jamais mudará”. [9]
  • Deus é imutável em Suas promessas. Ora, se Deus é imutável quanto aos Seus propósitos é também imutável em Suas promessas. O texto de Malaquias 3.6 diz “porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso, vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” e o sentido destas palavras é que Deus é imutável em Sua fidelidade pactual, isto é, Ele está dizendo que cumprirá as suas promessas, apesar da infidelidade ou desobediência de Israel, Miquéias 7.19,20; Salmo 89.34-37; Isaías 54.10; Números 23.19.

Contudo, parece, à luz de alguns textos, que Deus às vezes muda de ideia. Como podemos entender tais textos?

Continua...

[1] LLOYD-JONES, D.M., Grandes Doutrinas Bíblicas, vol 1, p 84
[2] HODGE, Charles, Teologia Sistemática, p 295
[3] STRONG, A. H., Teologia Sistemática, Vol. 1, p 386
[4] Cf. Confissão de Fé de Westminster declara que Deus é “um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões, imutável” (II, 1), a Confissão de Fé Batista de 1689 segue nos mesmos termos.
[5] GRUDEN, W. A., Teologia Sistemática, p 111
[6] Idem, p 112
[7] PINK, A. W., Atributos, p 37
[8] SPURGEON, C. H., Deus não muda, pp 4,5. Sermão intitulado “A Imutabilidade de Deus”, pregado em 7 de janeiro 1855, quando ele tina apenas 20 anos.
[9] PACKER, J. I., O Conhecimento de Deus, p 70




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