quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Depressão Espiritual




Dr. Martyn Lloyd-Jones


"Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei na salvação da sua presença".
 Salmo 42:5

"Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? espera em Deus, pois ainda o louvarei. Ele ê a salvação da minha face, e o meu Deus". 
Salmo 42:11

A descrição mais simples do livro dos Salmos é que ele era o livro inspirado de oração e louvor de Israel. Contém a revelação da verdade, não de forma abstrata, mas em termos de experiência humana. A verdade revelada está imbuída nas emoções, anseios e sofrimentos do povo de Deus pelas circunstâncias que tiveram de enfrentar.
Devido isso ser uma descrição muito fiel dos Salmos, eles sempre têm sido uma fonte de conforto e encorajamento para o povo de Deus através dos séculos — tanto para os filhos de Israel como para a Igreja Cristã.
Aqui podemos observar almas nobres lutando com seus pro­blemas e consigo mesmas. Falam consigo mesmas e às suas almas, descobrindo seus corações, analisando seus problemas, censurando e animando a si mesmas. Às vezes estão animadas, outras vezes deprimidas, mas sempre sinceras consigo mesmas. É por isso que são de tanto valor para nós, se também formos sinceros conosco mesmos.
Neste salmo (42) que pretendemos considerar, o salmista está infeliz e perturbado, e por isso desabafa nestas dramáticas palavras: "Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei na salvação da sua presença".
Esta declaração, encontrada duas vezes neste salmo, é também repetida no salmo seguinte. Alguns consideram o Salmo 43 como parte do Salmo 42, e não um salmo separado. É algo que não podemos saber, e realmente não é importante, mas encontramos essa declaração em ambos os Salmos, pois está repetida no fim do Salmo 43.
O salmista está compartilhando sua perturbação, a infelicidade de sua alma, e as circunstâncias que estava atravessando quando escreveu estas palavras. Ele nos conta o motivo da sua perturbação. Provavelmente naquele período ele foi impedido de se unir aos outros em adoração na casa de Deus. Mas não só isso: ele estava claramente sendo atacado por certos inimigos. Havia pessoas que estavam fazendo todo o possível para deprimi-lo, e ele relata isso. Contudo, estamos interessados aqui particularmente na maneira que ele enfrenta a situação e pela qual trata consigo mesmo.
Nosso assunto, em outras palavras, é o que poderíamos des­crever como "depressão espiritual", as suas causas e a maneira como deve ser tratada. É interessante notar a frequência com que este assunto é tratado nas Escrituras. Isso nos leva à conclusão que é um problema muito comum, e que parece ter afligido o povo de Deus desde o princípio, pois tanto o Velho como o Novo Testamento o descrevem e o tratam demoradamente. Isso, por si só, seria razão suficiente para trazê-lo à sua atenção, mas eu também o faço porque parece ser um problema que está afligindo o povo de Deus de forma particular nos dias atuais.
Existem muitas razões para isso. Uma das maiores, sem dú­vida, são os eventos terríveis que enfrentamos nesta geração: as duas grandes guerras, e os distúrbios que resultaram delas. Certa­mente não é a única razão, mas não tenho dúvida que ela é parcialmente responsável. Entretanto, qualquer que seja a razão, o fato é que existem muitos cristãos que dão a impressão de serem infelizes. Estão abatidos, suas almas estão perturbadas dentro deles, e esta é a razão porque resolvi trazer este assunto à sua atenção.
Para fazer uma análise a fundo deste tema, precisamos pros­seguir ao longo de duas linhas de pensamento. Primeiro, precisa­mos ver o que a Bíblia ensina sobre o assunto, e então vamos examinar alguns exemplos ou ilustrações notáveis deste problema na Bíblia, e observar como as pessoas envolvidas agiram, e como Deus tratou com elas. Esta é uma boa maneira de enfrentar qual­quer problema na vida espiritual. É sempre bom começar com a Bíblia, onde encontramos ensinamentos claros sobre todo e qualquer problema, e depois examinar exemplos e ilustrações oferecidos pela mesma fonte.
Ambos os métodos podem ajudar-nos muito; e eu gostaria de enfatizar a importância de seguir tanto um como o outro. Há pessoas que só se interessam pelos exemplos, as histórias; mas se não tivermos o cuidado de captar os princípios ilustrados pelas histórias, provavelmente acabaremos por agravar nossa condição, e ainda que possamos ganhar muito através de exemplos e ilus­trações, é imprescindível que primeiro busquemos os princípios. Muitas pessoas hoje têm problemas porque, em certo sentido, estão vivendo das experiências de outros, ou cobiçando a experiência de outros; e é porque estão sempre olhando para outras pessoas e suas histórias em vez de primeiro captarem os princípios, que tantas vezes se desviam. Nosso conhecimento da Bíblia devia ter nos prevenido e protegido de tal perigo, pois invariavelmente faz ambas as coisas, como veremos em nossa discussão desse assunto. Existe este grande ensino doutrinário, claro e simples, e além disso Deus em Sua graça tem acrescentado as ilustrações para que pos­samos ver esses grandes princípios colocados em prática.
Eu nem preciso explicar porque considero importante que examinemos esta questão. Eu o faço, em parte, por aqueles que estão nesta condição, para que possam ser libertos de sua infe­licidade, inquietação, desconforto e tensão, esta perturbação que é descrita com tanta exatidão pelo salmista neste salmo. É muito triste saber que há cristãos que vivem a maior parte de suas vidas neste mundo em tal situação. Não significa que não são cristãos, mas significa que estão perdendo muito, perdendo tanta coisa importante que exige um exame do problema de depressão espiri­tual em toda a sua extensão, conforme apresentado neste salmo, nem que seja somente para o bem deles.
Mas há uma outra razão e mais importante: devemos enfren­tar este problema por amor ao reino de Deus, e para a glória de Deus. De certa forma, um cristão deprimido é uma contradição de termos, e é uma péssima recomendação do evangelho. Vivemos numa época pragmática. As pessoas hoje em dia não estão prima­riamente interessadas na verdade, e sim em resultados. Sua per­gunta sempre é: Isso funciona? Estão freneticamente buscando alguma coisa que possa ajudá-las. Nós cremos que a obra de Deus, a ampliação do Seu reino, é realizada em parte por Seu povo, e sabemos que, no curso da história da Igreja, Deus frequentemente realizou coisas notáveis através da vida de alguns cristãos muito simples e comuns. Por conseguinte, é muito importante que sejamos libertos de uma condição que dê às pessoas que nos observam a impressão que ser cristão significa ser infeliz, triste, mórbido, e que um cristão é alguém que "despreza os prazeres e vive dias laboriosos". Na verdade, há muitos que apresentam isso como razão para não serem cristãos e para desistirem de qualquer inte­resse que possam ter experimentado pela fé cristã. Dizem: "Veja esses cristãos, olha a impressão que eles dão!" E gostam de nos comparar com as pessoas do mundo — gente que parece muito entusiasmada pelas coisas em que acredita, quaisquer que elas sejam. Essa gente grita e torce nos campos de futebol, comenta os filmes que viu, está cheia de vibração e quer que todos saibam disso. Em contraste, muitas vezes os cristãos parecem estar em perpétua depressão, com uma aparência de infelicidade, falta de liberdade e ausência de alegria. Não há dúvida que esta é a razão principal porque tantas pessoas deixaram de mostrar interesse pelo cristianismo. E, para ser franco, essa atitude de certa forma é justificada, e temos que admitir que suas críticas têm razão de ser. Portanto, é necessário, não só por amor a nós mesmo, mas por amor ao reino de Deus, e pela glória do Cristo em quem confiamos, representar a Ele e Sua causa, Sua mensagem e Seu poder de tal maneira que homens e mulheres, em vez de se oporem, sintam-se atraídos e persuadidos ao nos observarem, sejam quais forem nossas circunstâncias e nossa situação. Precisamos viver de tal forma que eles sejam compelidos a dizer: "oxalá eu pudesse ser assim, oxalá eu pudesse viver neste mundo como essa pessoa vive!". Mas é óbvio que se vivermos em depressão, jamais nossa vida terá esse efeito sobre os outros.
Por enquanto quero abordar este assunto de forma geral. Quero examinar e considerar as causas gerais, e também avaliar a maneira que devemos tratar do problema em nós mesmos, se estamos sofrendo dele. Depois dessas considerações gerais, esta­remos em condições de examinar o problema de maneira mais detalhada, e quero enfatizar a importância de fazer isso. Se exami­narmos as obras e os escritos de homens famosos na história da Igreja que trataram de"ste problema específico, vamos descobrir que invariavelmente abordavam o assunto dessa forma. Eu sei que não é assim que se faz hoje em dia. Estamos sempre com pressa e queremos tudo instantaneamente. Achamos que toda verdade pode ser apresentada em poucos minutos. Mas o fato é que isso não é possível; e a razão por que tantos hoje em dia estão vivendo uma vida cristã superficial, é que não estão dispostos a tomar tempo para se examinarem a si mesmos.
Vou usar uma ilustração. Muitas vezes ouvimos falar de pes­soas que têm dificuldade em seguir um tratamento prescrito por um médico. Elas vão ao médico e recebem certas instruções. Então vão para casa certas de que sabem exatamente o que fazer. Mas quando começam a observar o tratamento, descobrem que as instruções do médico não foram suficientemente detalhadas. Ele lhes dera instruções gerais, sem se preocupar em detalhar essas instruções. Sentem-se então confusas, sem saberem o que fazer e sem se lembrarem exatamente como o tratamento deve ser observado. O mesmo se aplica ao ensino — razão porque o professor sábio apresenta primeiro os princípios gerais, mas nunca se esquece de explicá-los depois em detalhe. Declarações gerais não são suficientes em si mesmas — é preciso que sejam depois expostas de maneira específica e detalhada. Por enquanto, todavia, vamos  tratar do  quadro geral.
Antes de tudo, então, vamos examinar o problema. Seria impossível encontrar uma descrição melhor do que a que é dada aqui pelo salmista. É um quadro extraordinariamente preciso de depressão espiritual. Leiam as palavras e quase poderão ver o homem, perturbado e abatido. É quase possível ver isso em seu rosto.
Em relação a isso, notem a diferença entre o versículo 5 e o versículo 11. Vejam o versículo onze: "Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? espera em Deus, pois ainda o louvarei. Ele é a salvação da minha face, e o meu Deus". No quinto versículo ele diz: "Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu" (versão atualizada). Nesse versículo ele diz que há auxílio na presença de Deus (i.e., perante a face de Deus); mas no versículo onze ele fala da "minha face". Em outras palavras o homem que se sente abatido, desanimado e miserável, que está infeliz e depri­mido, sempre revela isso em seu rosto. Ele parece preocupado e perturbado. Basta olhar para ele, e se percebe sua condição. "Sim", diz o salmista, "mas quando realmente olho para Deus, e me sinto melhor, minha face também melhora" — "Ele é a salvação da minha face". Aquela aparência cansada, perturbada, aflita, inquieta, perplexa e introspectiva se desfaz, e eu passo a comuni­car uma impressão de paz, calma e equilíbrio. Isso não é uma máscara, e sim um resultado inevitável de olhar para Deus. Se estamos deprimidos e infelizes, queiramos ou não, vamos demonstrar isso em nosso rosto. Por outro lado, se nosso relacionamento com Deus é correto, se estamos andando no Espírito, isso inevi­tavelmente também vai se expressar em nosso semblante. Com isso não estou dizendo que devemos andar por aí com aquele perpétuo sorriso forçado no rosto, que certas pessoas consideram essencial à manifestação da verdadeira alegria cristã. Não preci­samos forçar nada — essa alegria vai se expressar naturalmente: "Ele é a salvação da minha face".
Mas contemplem de novo o quadro que esse pobre homem apresenta. Parece estar carregando o mundo todo sobre seus ombros. Está abatido, triste, perturbado, perplexo. Não só isso, ele também nos diz que chora: "As minhas lágrimas tem sido o meu alimento dia e noite". Ele chora porque está num estado de perplexidade e temor. Está preocupado consigo mesmo, com o que está acontecendo com ele, e perturbado com os inimigos que o estão atacando e insinuando coisas sobre ele e sobre o seu Deus. Tudo parece estar em cima dele, esmagando-o. Ele não consegue controlar suas emoções, e chega ao ponto de perder o apetite. Diz que suas lágrimas têm sido o seu alimento. Todos estamos familia­rizados com esse fenômeno. Se alguém está ansioso ou preocupado, perde o apetite — não quer comer. De fato, a comida parece quase que repugnante. Ainda que este seja um problema digno de nota, mesmo que somente do ponto de vista físico e médico, não decénios nos deter nele, exceto para enfatizar a importância do quadro que apresenta. Um dos problemas resultantes da depressão espiritual é que, com frequência, quando sofremos dela, não esta­mos conscientes da impressão que está sendo transmitida aos outros. Uma vez que devemos nos preocupar com isso, é bom que examinemos o quadro objetivo. Se tivéssemos a capacidade de nos ver a nós mesmos como os outros nos vêem, este muitas vezes seria o passo decisivo para a vitória e a libertação. É bom olhar para nós mesmos, tentando visualizar o quadro que estamos apre­sentando aos outros, como uma pessoa deprimida, chorosa, que não quer comer, nem ver ninguém, e está tão preocupada com seus problemas que comunica a todos um quadro de depressão e miséria.
Tendo descrito o problema de forma geral, quero agora men­cionar algumas das suas causas gerais. Eu não hesito em colocar, em primeiro lugar e acima de tudo, o temperamento. Afinal, é um fato que as pessoas são diferentes em temperamento e personali­dade. Será que alguém se surpreenderá por eu colocar isso em primeiro lugar? Ou argumentará: "Quando você fala de cristãos, não deveria abordar a questão de temperamento, ou tipo de perso­nalidade. Por certo o cristianismo elimina tudo isso, e você não deveria considerar esse aspecto como tendo influência na questão". Pois bem, essa objeção é válida, e deve ser respondida. Quero começar deixando bem claro que o temperamento, o perfil psico­lógico e a nossa personalidade não fazem a mínima diferença no que concerne à nossa salvação. Esta é, graças a Deus, a base da nossa posição como cristãos. Não importa qual é o nosso tem­peramento; somos todos salvos do mesmo modo, pelo mesmo ato de Deus em e através de Seu Filho, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Esta é nossa resposta para a psicologia, e para as críticas ao cristianismo que muitas vezes resultam do estudo da psicologia. Quero deixar uma coisa bem clara: não importa quais sejam seus antecedentes, não importa qual o temperamento que lhe foi dado neste mundo — tudo isso não faz a mínima diferença no que se refere à salvação. Não reconhecemos a existência de um "complexo religioso". Nós nos glorificamos no fato de que a história da Igreja dá provas abundantes de que todo e qualquer tipo concebível de temperamento foi, e ainda é, encontrado hoje na Igreja do Deus vivo. Mas embora eu enfatize, com todo o meu ser, o fato de que o temperamento não faz a mínima diferença quanto à nossa salvação, quero igualmente enfatizar que ele faz uma enorme dife­rença na experiência concreta da nossa vida cristã, e quando esta­mos tratando de um problema como o da depressão espiritual, esta questão do temperamento deve ser um dos primeiros fatores a ser considerado.
Em outras palavras, de acordo com minha compreensão do ensino bíblico sobre esta questão, não há nada tão importante como a necessidade, de nos conhecermos a nós mesmos, e isso tão cedo quanto possível. Pois o fato é que, embora sejamos todos cristãos, unidos num mesmo "corpo", todos somos diferentes, e os problemas e dificuldades, as tribulações e perplexidades que enfren­tamos são, em grande medida, determinadas pelas diferenças de temperamento e tipos de personalidade. Todos participamos da mesma batalha, é claro, pois todos compartilhamos da mesma salvação comum, e temos a mesma necessidade básica. Mas as manifestações do problema variam de um caso para outro, e de uma pessoa para outra. Não há nada mais fútil, ao tratar desse problema, do que agir com base na suposição de que todos os cristãos são idênticos em todos os aspectos. Não são — e Deus jamais planejou que fossem.
Este ponto pode ser melhor ilustrado por um exemplo de uma outra esfera. Todos nós somos seres humanos, tendo basicamente a mesma constituição física, no entanto sabemos muito bem que não há duas pessoas idênticas. Na verdade, somos todos diferentes em muitos aspectos. Ora, muitas vezes encontramos pessoas que defen­dem estilos de vida, ou métodos de tratamento de doenças, que ignoram completamente este fato fundamental, e portanto, estão obviamente erradas. Elas receitariam a mesma dieta para todo mundo. Prescrevem este regime universal, afirmando que vai curar todo mundo. Isso, eu digo, é impossível, e basicamente errado.
Muitas vezes tenho dito que a primeira lei fundamental da dietética se resume naquele ditado, em inglês, que traduzido diz mais ou menos o seguinte: "João da Silva não podia comer gor­dura, sua mulher não podia comer carne". Está certo! É uma declaração engraçada, num sentido, mas por outro lado, é um princípio fundamental de nutrição. João da Silva tem uma consti­tuição diferente da de sua mulher, e sugerir que a mesma dieta seria perfeita para ambos é um erro fundamental. Ambos são seres humanos, mas como seres humanos são diferentes em sua consti­tuição física. Ou, para citar outro exemplo, vejam a tendência de insistir que todas as crianças nas escolas façam ginástica. Aí temos novamente o mesmo erro. Todos diferimos em altura e cons­tituição física, e é algo irracional estabelecer uma regra inflexível para incluir todos os tipos. Alguns têm aptidão para essas coisas, e outros não; e exigir que todas as crianças participem do mesmo tipo de atividade física é tão absurdo como submeter todas as pessoas à mesma dieta. Todos necessitamos de exercício, mas não do mesmo tipo ou na mesma quantidade.
Menciono isso para ilustrar essa tendência à arregimenta­ção; e o ponto que quero esclarecer é< que não podemos estabelecer leis assim generalizadas e universais, como se os homens fossem máquinas. É errado na esfera física, como eu acabo de demonstrar, e é muito mais errado na esfera espiritual.
É bem óbvio que podemos dividir os seres humanos em dois grupos básicos — os introvertidos e os extrovertidos. Há um tipo de pessoa que está constantemente voltada para dentro de si mesma, e outro tipo cuja atenção está em geral voltada para fora. E é muito importante compreender, não só que pertencemos a um desses dois grupos, mas também que o problema de depressão espiritual tende a afetar um desses grupos mais do que afeta ao outro. Precisamos começar por conhecer e entender a nós mesmos.
Há um tipo de pessoa que é especialmente vulnerável ao pro­blema da depressão espiritual. Isso não significa que essas pessoas sejam piores do que as outras. Na verdade, eu poderia sustentar com boa base que as pessoas que se destacaram de forma gloriosa na história da Igreja eram, muitas vezes, do tipo que estamos considerando. Alguns dos maiores santos eram introvertidos; o extrovertido geralmente é uma pessoa mais superficial. Na esfera natural existe o tipo de pessoa que está sempre fazendo auto-aná­lise, avaliando tudo o que faz, e se preocupando com os possíveis efeitos de suas ações, sempre olhando para trás, sempre cheia de remorsos fúteis. Pode ser algo que foi feito uma vez para sempre, mas ela não consegue esquecê-lo. Não pode desfazer o que foi feito, entretanto passa o tempo todo se analisando, culpando e condenando. Vocês estão familiarizados com esse tipo de pessoa. Ora, tudo isso é também transferido para a esfera do espírito, afetando sua vida espiritual. Em outras palavras, há um perigo de que tais pessoas se tornem mórbidas. Eu já disse que poderia mencionar nomes. Certamente um deles foi o grande Henry Martin. Não se pode ler a vida desse grande homem de Deus sem se chegar à imediata conclusão de que ele tinha uma personalidade introspectiva. Era introvertido, e sofria de uma tendência óbvia para a morbidez e a introspecção.
Esses dois termos nos lembram que o problema fundamental dessas pessoas, é que elas muitas vezes não cuidam de estabelecer a linha divisória entre auto-análise e introspecção. Todos concor­damos com a necessidade de nos examinarmos a nós mesmos, mas também concordamos que a introspecção e a morbidez são coisas nocivas. Qual, então, é a diferença entre auto-análise e introspec­ção? Eu diria que atravessamos a linha divisória entre auto-análise e introspecção quando não fazemos outra coisa senão nos exami­nar, e quando essa auto-análise se torna o fim dominante da nossa vida. Devemos nos examinar periodicamente, porém se o fazemos constantemente, colocando, por assim dizer, a nossa alma num recipiente para dissecá-la, isso é introspecção. E se estamos sempre falando com os outros a respeito de nós mesmos, de nossos pro­blemas e dificuldades, e nos aproximamos deles com uma carranca, dizendo: "Tenho tantos problemas!" — provavelmente isso signi­fica que estamos sempre com nossa atenção toda concentrada em nós mesmos. Isso é introspecção, e pode levar à condição conhe­cida como morbidez.
Aqui, então, é o ponto aonde devemos começar. Será que nos conhecemos a nós mesmos? Sabemos quais são as áreas es­pecíficas de perigo para nós? Sabemos a que é que somos espe­cialmente vulneráveis? A Bíblia está repleta de ensinamentos sobre isso. Ela nos exorta a sermos cuidadosos com respeito às nossas forças e às nossas fraquezas. Tomemos Moisés como exemplo. Ele era o homem mais manso sobre a Terra, segundo a Bíblia; e, no entanto, seu maior fracasso teve ligação exatamente com isso. Ele afirmou sua própria vontade, e ficou irado. Temos que vigiar tanto nossas forças como nossas fraquezas. A essência da sabedoria é compreender este fato fundamental sobre nós mesmos. Se eu, por natureza, sou um introvertido, tenho que exercer uma vigilância constante e advertir a mim mesmo sobre isso, para não cair incons­cientemente num estado de morbidez. Da mesma forma, o extro­vertido precisa conhecer-se a si mesmo, mantendo vigilância contra as tentações peculiares à sua natureza. Alguns de nós, por natu­reza e devido ao nosso temperamento, somos mais suscetíveis à esta doença chamada depressão espirtual do que outros. Perten­cemos ao mesmo grupo que Jeremias, João Batista, Paulo, Lutero e muitos outros. Uma companhia muito seleta! Sim, mas não se pode pertencer a ela sem ser especialmente vulnerável a esse tipo específico de tribulação.
Agora passemos à segunda grande causa: condições físicas. Isso surpreende alguém? Há alguém que pensa que a condição física do seu corpo não importa desde que é cristão?. Bem, se pensa assim, não vai demorar para sofrer uma desilusão. A condi­ção física tem muita influência nisso tudo. É difícil marcar uma linha divisória entre esta causa e a anterior, porque o tempera­mento parece ser controlado, até certo ponto ,por condições físicas, e na verdade há pessoas que são, parece, fisicamente vulneráveis ao problema da depressão espiritual. Em outras palavras, existem certas debilidades físicas que tendem a causar depressão. Acho que Thomas Carlyle foi um bom exemplo disso. Ou tomemos aquele extraordinário pregador inglês do século passado, que pre­gou em Londres por quase quarenta anos — Charles Haddon Spurgeon — um dos maiores pregadores de todos os tempos. Esse grande homem era sujeito a depressão espiritual, e a explicação, no caso dele, sem dúvida era o fato de que ele sofria de gota, o problema que acabou causando a sua morte. Ele teve que enfrentar esse problema de depressão espiritual muitas vezes em sua forma mais intensa. Essa tendência à depressão profunda era uma conse­quência do problema de gota, problema esse que Spurgeon herdou de seus ancestrais. E há muitas pessoas que me procuram em busca de ajuda para o problema de depressão, em cujos casos se torna óbvio para mim que a causa de seu problema é, princi­palmente, física. Estão incluídos nesse grupo de causas físicas: cansaço, esgotamento, "stress", e qualquer tipo de doença. Não se pode isolar o físico, separando-o do espiritual, pois somos corpo, mente e espírito. Os melhores cristãos são mais propensos a ata­ques de depressão espiritual quando estão fisicamente fracos — e encontramos grandes ilustrações disso na Bíblia.
Quero dar uma palavra de advertência nesta altura. Não podemos esquecer a existência do diabo, nem permitir que ele nos engane, considerando espiritual aquilo que é fundamentalmente físico. Mas por outro lado, devemos ser cuidadosos nessa distin­ção em todos os aspectos; porque, se jogamos toda a culpa em nossa condição física, podemos nos tornar culpados num sentido espiritual. Entretanto, se reconhecermos que nosso físico pode ser parcialmente responsável por nosso problema espiritual, e levar­mos isso em consideração, será mais fácil tratar do espiritual.
Outra causa frequente da depressão espiritual é o que pode­ríamos chamar de "reação" — reação a uma grande bênção, ou a uma experiência extraordinária ou fora do comum. Pretendo cha­mar atenção posteriormente ao caso de Elias, assentado debaixo do zimbro? Não tenho nenhuma dúvida de que seu problema era que ele estava sofrendo de uma reação ao que acontecera no Monte Carmelo (I Reis, capítulo 19). Abraão teve a mesma experiência (Génesis, capítulo 15). Por isso, quando alguém vem me contar a respeito de alguma experiência extraordinária que teve, eu me regozijo com a pessoa, dando graças a Deus; mas passo a obser­vá-la atenta e apreensivamente depois disso, caso haja uma reação. Isso não precisa acontecer, mas pode se dar se não estivermos cientes dessa possibilidade. Se apenas compreendêssemos que quan­do Deus se agrada em nos dar uma bênção incomum, deveríamos redobrar nossa vigilância, então poderemos evitar essa reação.
Passemos para a causa seguinte. Em certo sentido, em última análise, esta é a única causa da depressão espiritual — é o diabo, o inimigo de nossas almas. Ele pode usar nosso temperamento e nossa condição física. Ele nos manipula de tal forma que acabamos permitindo que nosso temperamento nos controle e governe nossas ações, em vez de nós mantermos o controle sobre ele. São incon­táveis os meios pelos quais o diabo causa a depressão espiritual. Temos que nos lembrar dele. O seu objetivo é deprimir o povo de Deus, de tal forma que ele possa ir ao homem de mundo, dizen­do: "Eis o povo de Deus; você quer ser assim?" A estratégia do adversário de nossas almas, o adversário de Deus, é de nos levar à depressão e ao estado de espírito do salmista quando estava atravessando este período de perturbação e infelicidade.
Na verdade, posso resumir a questão desta forma: a causa básica de toda depressão espiritual é incredulidade, pois se não fosse por ela nem o diabo poderia fazer coisa alguma. É porque prestamos atenção ao diabo em vez de ouvirmos a Deus, que caímos derrotados diante dos ataques do inimigo. Por isso é que o salmista continua dizendo a si mesmo "Espera em Deus, pois ainda o louvarei". Ele volta o seu pensamento para Deus. Por quê? Porque ele estava deprimido, e tinha se esquecido de Deus, de forma que sua fé em Deus e no Seu poder, e sua confiança no relacionamento que tinha com o Senhor, não eram o que deveriam ser. Podemos, portanto, resumir tudo isso, afirmando que a causa fundamental é pura e simples incredulidade.
Até aqui, então, temos examinado as causas. E quanto ao tratamento? Abreviadamente, por ora a primeira coisa que preci­samos aprender é o que o salmista aprendeu — precisamos assu­mir o controle de nós mesmos. Este homem não se contentou em ficar sentado, sentindo pena de si mesmo. Ele fez alguma coisa a respeito. Assumiu o controle de si mesmo. Mas ele fez uma coisa ainda mais importante. Falou consigo mesmo. Ele se voltou para si mesmo, dizendo: "Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim?" Fala consigo mesmo; argumenta consigo mesmo. No entanto, alguém indaga: "Mas não é exata­mente isso que devemos evitar, já que gastar tempo demais con­sigo mesmo é uma das causas do problema? Isso contradiz suas declarações anteriores! Fomos advertidos contra introspecção e morbidez, e agora nos diz que devemos falar conosco mesmos!"
Como podemos harmonizar as duas coisas? Desta maneira: eu estou dizendo que devemos falar com o nosso "eu" em vez de permitir que o nosso "eu" fale conosco! Entendem o que isso significa? Estou dizendo que o maior problema em toda essa questão de depressão espiritual, num sentido, é que permitimos que o nosso "eu " fale conosco, em vez de nós falarmos com o nosso "eu". Estou tentando ser deliberadamente paradoxal? De modo algum. Isso é a essência da sabedoria nesta questão. Já perceberam que uma grande parte da infelicidade e perturbação em suas vidas provém do fato, que estão escutando a si mesmos em vez de falar consigo mesmos? Por exemplo, considerem os pensamentos que lhes vêm à mente quando acordam de manhã. Vocês não os originaram mas esses pensamentos começam a "falar" com vocês, trazendo de volta os problemas de ontem, etc. Alguém está falando. Quem está lhes falando? O seu "eu" está falando com vocês. Ora, o que o salmista fez foi o seguinte: em vez de permitir que esse "eu" falasse com ele, ele começou a falar con­sigo mesmo. "Por que estás abatida, ó minha alma?" ele pergunta. Sua alma estava deprimida, esmagando-o. Por isso ele se dirige a ela, dizendo: "Ouça por um momento, eu quero falar contigo". Vocês entendem o que estou falando? Se não, é porque ainda não tiveram muita experiência com estas coisas.
A arte maior na questão da vida espiritual é saber como dominar-se. Um homem precisa ter controle sobre si mesmo, deve falar consigo mesmo, exortar e examinar a si mesmo. Deve pergun­tar à sua alma: "Por que estás abatida?" "Como pode se abater assim?" Você como ele, precisa se voltar para si mesmo — re­preendendo, censurando, condenando, exortando — e dizendo a si mesmo: "Espera em Deus", em vez de resmungar e murmurar dessa maneira infeliz e deprimida. E então deve prosseguir, lem­brando-se de Deus: quem Ele é, o que Ele é, o que Ele tem feito, e o que tem prometido fazer. Tendo feito isso, termine com esta nota de triunfo: desafie a si mesmo, desafie os outros, desafie o diabo e o mundo todo, dizendo com este homem, "Eu ainda o louvarei. Ele é a salvação da minha face, e o meu Deus".
Essa é a essência do tratamento, em resumo. Os demais capí­tulos serão apenas uma exposição mais elaborada do que foi apre­sentado aqui. A essência desta questão é entender que este nosso "eu" interior — esta outra pessoa dentro de nós — precisa ser controlado. Não lhe dê atenção — fale com ele, condenando, cen­surando, exortando, encorajando, relembrando-o daquilo que você sabe — em vez de ouvir placidamente o que ele tem a dizer, permitindo que ele o leve ao desânimo e à depressão. Certamente é isto que ele sempre fará, se você lhe entregar o controle. O diabo tenta controlar o nosso "eu" interior, usando-o para nos deprimir. Precisamos nos erguer, dizendo como este homem: "Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim?" Pare com isso! "Espera em Deus, pois o louvarei. Ele é a salvação da minha face, e o meu Deus".


_____________________________
Extraído de Depressão Espiritual, Ed. PES

Nenhum comentário:

Postar um comentário