terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A INICIATIVA DIVINA (parte 2)


R. C. Sproul

A regeneração é obra soberana de Deus Espírito Santo. A iniciativa cabe a ele, e não a nós. Podemos notar que a ênfase de Paulo recai sobre a obra de Deus, e não no esforço humano:

Mas Deus, sendo rico em misericórdia...

Podemos observar que o apóstolo dos gentios não escreveu:

Mas o homem, por sua bondade, inclinou-se para Deus e se elevou a um novo nível espiritual.

Um dos momentos mais dramáticos em minha vida, quanto à moldagem de minha teologia, teve lugar em uma aula de um seminário. Um de meus professores dirigiu-se ao quadro negro, onde escreveu estas palavras com letras maiúsculas:


A REGENERAÇÃO ANTECEDE À
Essas palavras causaram um choque ao meu siste­ma. Eu tinha ingressado no seminário acreditando que a obra-chave do homem para efetuar o renascimento fosse a fé. Eu pensava então que primeiramente tínhamos que acreditar em Cristo, a fim de nascermos de novo. Uso aqui as palavras "a fim" por uma certa razão. Eu estava pensando em termos de passos que uma pessoa deve dar, em uma certa seqüência, para chegar a um destino. Eu pusera a fé no começo dessa seqüência. A ordem de acon­tecimentos se parecia um tanto com isto:

Fé — renascimento — justificação

De acordo com esse esquema das coisas, a inicia­tiva cabe a nós. Para dizermos a verdade, Deus tinha en­viado Jesus para morrer na cruz antes que eu tivesse ouvi­do o evangelho. Mas uma vez que Deus fizera essas coi­sas externas em meu favor, eu pensava que a iniciativa para me apropriar da salvação era minha tarefa.

Eu ainda não havia examinado a questão completa com muito cuidado. E nem tinha ouvido criteriosamente as palavras de Jesus a Nicodemos. Eu supunha que embo­ra eu fosse um pecador, uma pessoa nascida da carne, que vivia na carne, eu ainda dispunha de uma pequena ilhota de retidão, de um minúsculo depósito de poder es­piritual que restava em minha alma, e que me capacitava a reagir positivamente ao evangelho contando com mi­nhas próprias forças.

Talvez eu tivesse ficado confuso através do ensino tradicional da Igreja Católica Romana. Roma, e muitos outros ramos da cristandade, tinham ensinado que a rege­neração é graciosa; não pode acontecer à parte da ajuda de Deus. Ninguém tem o poder de ressuscitar a si mesmo da morte espiritual. A ajuda divina é necessária, e neces­sária de modo absoluto. Essa graça, de acordo com Roma, vem na forma do que eles chamam de graça preveniente. "Preveniente" significa aquilo que vem antes de outra coisa qualquer.

Roma adiciona a essa graça preveniente o requisi­to que devemos "cooperar com ela e assentir diante dela", antes dessa graça poder tomar conta de nossos corações.

Esse conceito de cooperação é, quando muito, apenas uma meia-verdade. É verdade até onde a fé que devemos exercer é nossa fé. Deus jamais crerá em Cris­to, ele mesmo, em nosso favor. Quando eu correspondo a Cristo, é minha reação, minha fé, minha confiança que está sendo exercitada.
A questão, no entanto, é muito mais profunda do que isso. Permanece de pé a pergunta: Coopero com a graça de Deus antes de eu ter nascido do alto, ou essa cooperação ocorre depois de eu ter nascido de novo?

Uma outra maneira de fazer essa pergunta consiste em indagar se a regeneração é monergística ou sinergística? Ela é operativa ou cooperativa? Ela é eficaz ou dependente? Algumas dessas palavras são termos teo­lógicos que requerem maiores explicações.


MONERGISMO E SINERGISMO
Uma obra monergística é algo produzido isolada­mente por uma única pessoa. O prefixo mono significa um. A palavra erg refere-se a uma unidade de trabalho. Palavras portuguesas como energia são construídas com base nessa raiz. Uma obra sinergística, por sua vez, é um trabalho que envolve cooperação entre duas ou mais pes­soas ou coisas. O prefixo sim significa "juntamente com".

Estou laborando esta distinção por um motivo. É justo dizermos que o debate inteiro entre Roma e Martinho Lutero dependia somente desse ponto em particular. A questão era a seguinte: A regeneração é uma obra monergística de Deus, ou é uma obra sinergística, que requer a cooperação entre o homem e Deus?

Quando meu professor escreveu "A regeneração antecede à fé", no quadro negro, ele estava claramente tomando o partido da resposta monergística. Para dizermos a verdade, depois que uma pessoa é regenerada, essa pessoa coopera exercendo fé e confiança em Cristo. Mas o primeiro passo, o passo da regeneração, mediante o qual uma pessoa é vivificada para que tenha vida espiri­tual, é obra de Deus e de Deus tão-somente. A iniciativa cabe a Deus, e não a nós.

A razão pela qual não cooperamos com a graça regeneradora antes dela agir em nós e sobre nós, é que não podemos mesmo cooperar. E não podemos por estar­mos espiritualmente mortos. Não podemos ajudar o Espí­rito Santo na vivificação de nossas almas, para que te­nham vida espiritual, da mesma maneira que Lázaro não podia ajudar a Jesus a ressuscitá-lo dos mortos.

É provavelmente verdade que a maioria dos cren­tes professos que há no mundo de hoje acredite que a ordem de eventos em nossa salvação seja esta: A fé ante­cede à regeneração. Somos geralmente exortados a esco­lher nascer de novo. Mas dizer a uma pessoa que escolha renascer é como exortar um cadáver a escolher a ressur­reição. Tal exortação cai sobre ouvidos surdos.

Quando comecei a pelejar na mente contra o argu­mento do professor, fiquei surpreendido ao aprender que esse ensino de sons estranhos não era nenhuma inovação recente da teologia. Descobri o mesmo ensino nos escri­tos de Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards e George Whitefield. Fiquei profundamente ad­mirado de encontrar esse ensinamento no grande teólogo católico medieval Tomás de Aquino.

Que esses gigantes da história do cristianismo te­nham chegado à mesma conclusão, sobre essa particulari­dade, exerceu sobre mim um tremendo impacto. Eu tinha consciência de que eles não eram infalíveis, nem individual e nem coletivamente. Cada um deles e todos eles podem ter-se equivocado. Mas eu estava impressionado. E especialmente impressionado por Tomás de Aquino.

Tomás de Aquino é considerado como o Doctor Angelicus da Igreja Católica Romana. Durante séculos os seus ensinamentos teológicos foram aceitos como dogma oficial pela maioria dos católicos. Portanto, ele era a últi­ma pessoa que eu esperava que aceitasse tal ponto de vista sobre a regeneração. Não obstante, Aquino insistia que a graça regeneradora é graça operativa, e não graça coope­rativa. É verdade que Aquino falava em graça preveniente, mas ele falava sobre a graça que vem antes da fé, que é a graça da regeneração.

A frase-chave na epístola paulina aos Efésios, so­bre essa questão, é a seguinte:

... e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça sois salvos (Efésios 2.5).

Nesse versículo, Paulo localizou o tempo em que ocorre a regeneração. A regeneração tem lugar quando ainda estamos mortos. Com um único raio de revelação apostólica foram esmagadas, total e completamente, to­das as tentativas para entregar a iniciativa na regeneração ao homem. Afirmamos de novo que homens mortos não cooperam com a graça divina. Os indivíduos espiritual­mente mortos não tomam qualquer iniciativa espiritual. A menos que a regeneração tenha lugar, antes de tudo, não haverá possibilidade de fé.

Isso nada apresenta de diferente do que Jesus disse a Nicodemos. A menos que um homem primeiramente nasça de novo, ele não pode ver o reino de Deus ou entrar nele. Se acreditamos que a fé antecede à regeneração, então nos opomos, em nossos pensamentos, e, portanto em nós mesmos, não somente contra Agostinho, Aquino' Lutero, Calvino, Edwards e outros, mas também faremos oposição aos ensinos de Paulo e do próprio Senhor Jesus Cristo.

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