quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A REGENERAÇÃO É GRACIOSA
 (parte 3)

R. C. Sproul

Na exposição paulina da regeneração há uma forte ênfase sobre a doutrina da graça. É necessário que cren­tes de todas as tendências teológicas reconheçam, volun­tária e jubilosamente, que a nossa salvação repousa sobre o fundamento da graça.

Durante a Reforma, os Protestantes usaram duas frases latinas como grito de guerra: Sola scriptura (as Escrituras somente) e sola fide (a fé somente). Eles insis­tiam que a autoridade suprema na Igreja, sob Cristo, é somente a Bíblia. Eles insistiam que a justificação vinha somente pela fé. Ora, Roma não negava que a Bíblia re­veste-se de autoridade; mas eles ficavam chocados diante da palavra sola. Roma também não negava que a justifi­cação envolve a fé; era a sola que os provocava para con­denarem a Lutero.

Havia ainda um terceiro grito de guerra durante a Reforma Protestante. Foi originalmente apresentado por Agostinho, mais de mil anos antes de Lutero. Era a frase sola gratia. Essa frase latina assevera que a nossa salva­ção repousa exclusivamente sobre a graça de Deus. Não há nenhuma mistura do mérito humano com a graça divi­na. A salvação não é uma realização humana; é um graci­oso dom de Deus. Essa fórmula vê-se ameaçada se se adota uma visão sinergista da regeneração.

Não foi por acidente que Paulo adicionou ao seu ensinamento sobre a regeneração que esta depende de uma obra graciosa de Deus. Vamos examinar de novo as pala­vras do apóstolo aos gentios:

Mas Deus, sendo rico e misericórdia, por causa do gran­de amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça sois salvos... para mostrar nos séculos vin­douros a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas (Efésios 2.4-10).

Alguma vez você já tentou corrigir a Bíblia? Eu certamente já o fiz, para minha grande vergonha. Em meio às discórdias teológicas, por muitas vezes tenho me admirado de por que a Bíblia não fala com maior clareza quanto a certos assuntos. Por exemplo, por que o Novo Testamento não afirma mais claramente se devemos ou não batizar infantes?

Quanto a muitas dessas questões, somos deixados a decidir à base de inferências extraídas da Bíblia. Quan­do me sinto perplexo diante de tais discórdias, usualmen­te volto ao ponto seguinte: A dificuldade não jaz na falta de clareza da Bíblia; jaz em minha falta de pensamentos claros sobre o que a Bíblia ensina.

E quando se trata da regeneração e da fé, fico perguntando como Paulo poderia ter deixado mais clara essa questão. Suponho que ele poderia ter adicionado as seguintes palavras ao segundo capítulo de Efésios: "A regeneração antecede à fé". Entretanto, honestamente penso que nem mesmo essa frase poderia ter terminado o debate. Nada existe nessas palavras que já não tenha sido dito claramente por Paulo, em seu texto, ou por Jesus, no terceiro capítulo do evangelho de João.

Por que, pois, existe tanta confusão? Minha opi­nião é que se concluirmos que a regeneração se dá por iniciativa divina, que a regeneração é monergista, que a salvação vem somente pela graça divina, não poderemos escapar à clamorosa implicação que nos leva, rápida e irresistivelmente, à eleição soberana.

Assim, que a doutrina da eleição chama a nossa atenção, estabelece-se uma grande agitação, na tentativa de fazer a fé aparecer antes da regeneração. A despeito de todas essas dificuldades acompanhantes, o ensino do após­tolo trata diretamente dessa questão:

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é graça de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2.8,9).

Nestes dois versículos o apóstolo ensina-nos que a fé pela qual somos salvos é uma fé que nos é concedida pela graça divina. Nossa fé é algo que exercemos por nós mesmos e em nós mesmos, mas não vem de nós. É um dom de Deus. Não é uma realização humana.

Visto que o dom da fé nos é dado como um fruto da regeneração, toda jactância fica excluída para sempre, salvo a jactância nas riquezas extraordinárias da miseri­córdia divina. Todos os pontos de vista centrados no ho­mem, como motivos da salvação são excluídos para sem­pre, se retivermos a palavra sola na expressão sola gratia. Por conseguinte, jamais deveríamos entristecer o Espírito Santo, tomando o crédito, para nós mesmos, daquilo que pertence exclusivamente a ele.

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