quarta-feira, 17 de março de 2010

COMO DEVEMOS CULTUAR


John MacArthur
João 4:23, 2 Timoteo 3:17

Flip Wilson, um famoso comediante norte-americano, tinha em seu repertório um personagem chamado Reverendo Leroy, que pastoreava a “Igreja do Que Está Acontecendo Agora”. No início da década de 1970, o Reverendo Leroy e sua igreja eram uma paródia ultrajante. Mas, na verdade, a comunidade evangélica de nossos dias está enxameada com Reverendos Leroys, e muitas igrejas poderiam convenientemente receber o nome de “Igreja do Que Está Acontecendo Agora”.

Não há limites no que se refere a quão longe algumas igrejas avançarão no propósito de se tornarem “relevantes” e “modernas” em seus cultos. E parece que não existe mais nada excessivamente profano ou abusivo para ser introduzido no “culto”.

A revista Los Angeles Times recentemente falou sobre uma Igreja no sul da Califórnia que distribuiu panfletos anunciando seus cultos como “Horas Agradáveis da Música Country de Deus”. Os panfletos audaciosamente prometiam “dança semelhante à quadrilha logo depois do culto”. De acordo com o artigo da revista, “o pastor também dançou, calçado de botas de couro e vestido com jeans”. O pastor justifica esse movimento com a revitalização de sua igreja. O artigo da revista descreve a manhã de domingo na igreja:

“Os membros ouvem os sermões, cujos temas incluem ‘A Pickup Ford do Pastor e Sexo Cristão’ (classificado com R, que significa ‘relevância, respeito e relacionamento’, disse o pastor, ‘e mais engraçado do que parece’). Após o culto, os membros dançam com músicas de uma banda chamada Os Anjos do Cabaré (e o que mais poderia ser?). A freqüência à igreja está aumentando rapidamente...”

Você pode imaginar que isto é apenas uma aberração de uma igreja desconhecida e excêntrica. Infelizmente, este não é o caso. A teoria contemporânea do crescimento de igreja tem aberto uma porta ampla para tais absurdos. Às vezes, parece que P. T. Barnum (1810-1891) é o principal modelo para muitos que nesses dias participam do movimento de crescimento de igreja. Na verdade, o convite abaixo para um culto dominical vespertino apareceu no boletim de uma das maiores e mais conhecidas igrejas que integram o “Cinturão da Bíblia” nos Estados Unidos:

“Circo – Vejam Barnum e Bailey, quando o mágico do grande e famoso circo vier à Comunhão do Divertimento! Palhaços! Acrobatas! Animais! Pipoca! Que grande noite!”

Essa mesma igreja, em certa época, teve seu conselho de pastores introduzido num ringue de luta corporal, durante o culto dominical, indo mesmo ao ponto de ter um lutador profissional treinando os pastores a jogarem um ao outro no ringue, puxarem os cabelos e derrubarem uns aos outros, sem realmente machucarem-se. Estes não são incidentes extraordinários. Muitas igrejas estão seguindo métodos semelhantes, utilizando todos os meios disponíveis para apimentar seus cultos.

É evidente que o culto dominical está passando por uma revolução sem paralelo em toda a história da Igreja.


O Verdadeiro Culto

Anos atrás, enquanto eu pregava sobre o Evangelho de João, fui tocado pelo profundo significado da verdadeira adoração – “Vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores” (Jo 4.23). Percebi, tão claramente como nunca havia percebido antes, as implicações da afirmativa – “adorarão... em espírito e em verdade”. Essa frase sugere, primeiramente, que a adoração verdadeira envolve tanto o intelecto quanto as emoções. Salienta a verdade de que a adoração tem de ser focalizada em Deus, não no adorador. O contexto também demonstra que Jesus estava dizendo que a adoração verdadeira é mais uma questão de essência do que de forma. Ele estava ensinando que a adoração envolve o que fazemos em nossa vida, não apenas o que fazemos no lugar formal de adoração.

Interrompi naquele ponto as mensagens sobre João 4 e continuei o assunto com um estudo tópico sobre adoração. A editora Moody Press pediu que colocasse essas mensagens em um livro, que foi publicado sob o nome de The Ultimate Priority (A Prioridade Crucial). Esse estudo sobre adoração afetou-me mais profundamente do que qualquer outra série de sermões que já havia preparado. Mudou para sempre minha opinião sobre o que significa adorar a Deus.

Aquela série de estudos também marcou o início de uma nova etapa para nossa igreja. Nossa adoração coletiva adquiriu nova profundidade e significado. As pessoas começaram a ficar conscientes de que cada aspecto do culto da igreja – música, oração, pregação e, mesmo, as ofertas – é adoração oferecida a Deus. Começaram a ver as superficialidades como uma ofensa a um Deus santo e a considerar o culto como uma atividade em que deveriam ser participantes e não espectadores isolados. Se o culto é algo que oferecemos a Deus – e não um show elaborado para beneficiar a congregação – então cada aspecto do culto tem de ser agradável a Deus e estar em harmonia com sua Palavra. Portanto, o resultado de nossa nova ênfase sobre o culto foi o aprofundamento de nosso compromisso com a centralidade das Escrituras.

Sola Scriptura

Alguns anos depois daquela série de estudos sobre adoração, preguei sobre o Salmo 19. Minha reação foi a de alguém que estava contemplando pela primeira vez o poder daquilo que o salmista estava afirmando sobre a suficiência das Escrituras.

A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma.

O testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices.

Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração.

O mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos.

O temor do Senhor é límpido e permanece para sempre.

Os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos.

São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado;

são mais doces do que o mel e o destilar dos favos.


O argumento central da mensagem deste salmo é: a Escritura é completamente suficiente para satisfazer todas as necessidades da alma humana. Sugere que toda a verdade espiritual e essencial está contida na Palavra de Deus. Pense nisso: a verdade das Escrituras pode restaurar a alma danificada pelo pecado, outorgar sabedoria espiritual, confortar o coração abatido e trazer iluminação espiritual. Em outras palavras, a Bíblia resume tudo que precisamos saber a respeito da verdade e da justiça; ou, como o apóstolo Paulo escreveu, a Bíblia é capaz de nos habilitar para toda boa obra (2 Tm 3.17).

Esta série de estudos sobre o Salmo 19 marcou outro movimento na vida de nossa igreja, colocando-nos face a face com um dos princípios dos reformadores – Sola Scriptura. Em uma época quando muitos evangélicos parecem estar se voltando em massa para a esperteza mundana nas áreas de psicologia, negócios, política, relacionamentos e entretenimento, as Escrituras nos são indicadas como a única fonte que podemos recorrer para encontrar a infalível verdade espiritual. A série de estudos teve um impacto sobre cada aspecto da vida de nossa igreja.

A Suficiência das Escrituras: Um Princípio Para Regular o Culto

Como podemos aplicar a suficiência das Escrituras ao culto da igreja? Os reformadores responderam essa pergunta aplicando Sola Scriptura à adoração, estabelecendo o que eles chamaram de Princípio Regulador. João Calvino foi o primeiro a articular de maneira sucinta esse princípio:

“Não podemos adotar qualquer artifício [em nosso culto] que pareça satisfazer a nós mesmos, e sim levar em conta as exortações dAquele que tem o direito de prescrevê-las. Portanto, se desejamos que Ele aprove nosso culto, esta regra, que Ele mesmo enfatiza com muita rigidez, tem de ser observada com zelo... Deus reprova todos os tipos de cultos não sancionados expressamente por sua palavra”.

Calvino sustentava este princípio utilizando diversas passagens bíblicas, incluindo 1 Samuel 15.22 – “Obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender, melhor do que a gordura de carneiros” – e Mateus 15.9: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens”.

John Hooper, um pastor inglês, contemporâneo de Calvino, afirmou assim este mesmo princípio: “Na igreja não deve ser utilizado nada que não tenha a expressa aprovação das Escrituras, para apoiá-lo, ou que seja algo indiferente em si mesmo, ou seja, que não traga qualquer proveito quando utilizado e nenhum prejuízo quando omitido”.

William Cunningham, um historiador da Igreja, que viveu no século XIX, definiu nesses termos o princípio regulador: “É insustentável e ilícito introduzir no governo e no culto da igreja qualquer coisa que não tem a sanção positiva das Escrituras”.

Os reformadores e puritanos aplicavam o princípio regulador contra os ritos formais, as vestes sacerdotais, a hierarquia eclesiástica e outros resquícios do culto da Igreja Católica. O princípio regulador era freqüentemente citado pelos reformadores ingleses que se opunham aos elementos da Igreja Alta no anglicanismo, os quais haviam sido emprestados da tradição católica romana.Foi o comprometimento de muitos puritanos com o princípio regulador que levou centenas de pastores puritanos a serem excluídos, por decreto, dos púlpitos da Igreja da Inglaterra em 1662.

Além disso, a simplicidade da forma de culto das igrejas presbiterianas, batistas, congregacionais e de outras tradições evangélicas é o resultado da aplicação do princípio regulador.

Os evangélicos de nossos dias fariam bem se recuperassem a mesma confiança que seus antecessores espirituais tinham em relação às Escrituras. Uma boa quantidade de tendências prejudiciais que estão ganhando importância nesses dias revelam a decrescente confiança dos evangélicos na suficiência das Escrituras. Por um lado, existe, como já observamos, uma atmosfera de circo em algumas igrejas que empregam métodos pragmáticos que trivializam aquilo que é santo, para impulsionar a freqüência de pessoas na igreja. Por outro lado, um crescente número de evangélicos está abandonando as formas simples de adoração, em favor do formalismo da Igreja Alta. Alguns estão deixando completamente o evangelicalismo e unido-se à Igreja Ortodoxa e ao catolicismo romano.

Enquanto isso, algumas igrejas simplesmente abandonaram toda a objetividade, optando por um estilo de culto turbulento, emocional e destituído de qualquer sentido racional. Talvez um dos mais comentados movimentos que está varrendo o cristianismo no presente é o fenômeno conhecido como “Bênção de Toronto”, onde toda a congregação ri incontrolavelmente, sem qualquer motivo racional, late como cachorros, ruge como leões, cacareja como galinhas, pula, corre e convulsiona. Eles vêem isso como uma evidência de que o poder de Deus lhes foi transmitido.

Nenhuma dessas tendências está avançando por motivos bíblicos consistentes. Pelo contrário, seus defensores citam argumentos pragmáticos ou procuram o apoio de interpretações erradas de textos das Escrituras, do revisionismo da história ou tradições antigas. Esta é exatamente a mentalidade contra a qual os reformadores lutavam.

Um novo entendimento de Sola Scriptura – a suficiência das Escrituras – tem de nos estimular a continuar reformando nossas igrejas, a regular nossos cultos de acordo com as normas bíblicas e a desejar intensamente ser pessoas que adoram a Deus em espírito e em verdade.

Aplicando Sola Scriptura ao Culto

A questão que surge a seguir é sobre como o princípio Sola Scriptura pode ser usado para regular o culto. Alguém pode indicar o fato de que Charles Spurgeon utilizava o princípio regulador para excluir o uso de qualquer instrumento musical no culto. Spurgeon recusou permitir a utilização de um órgão no Tabernáculo Metropolitano, porque acre- ditava que não havia base bíblica para música instrumental no culto cristão. Na verdade, ainda existem crentes que, pelo mesmo motivo, se opõem a música instrumental.

É óbvio que nem todos os que afirmam a ortodoxia do princípio regulador necessariamente concordam em todos os detalhes sobre como ele deveria ser aplicado. Alguns poderiam salientar tais diferenças nas questões práticas e sugerir que todo o princípio regulador é, por isso mesmo, insustentável. William Cunningham observou que críticas contra o princípio regulador freqüentemente procuram desacreditá-lo recorrendo à tática do reduzi-lo ao absurdo.

Aqueles que não apreciam o princípio regulador, por qualquer motivo, geralmente procuram nos co-locar em dificuldades, pondo sobre ele uma rigorosa conotação, dando-lhe, deste modo, uma aparência de algo absurdo. Mas o princípio regulador tem de ser interpretado e ex- plicado com o exercício do bom senso. Dificuldades e diferenças de opiniões podem surgir a respeito dos detalhes, mesmo quando o discernimento correto e o bom senso influenciam a interpretação e aplicação do princípio. Mas isto não oferece qualquer fundamento para negar ou duvidar das verdades ou da ortodoxia do próprio princípio regulador.9

Cunningham reconheceu que o princípio regulador com freqüência é empregado para argumentar contra coisas que podem ser reputadas como relativamente sem importância, tais como ritos, cerimônias, vestimentas, órgãos, ajoelhar-se, prostrar-se e outros recursos exteriores da religião formal. Por causa disso, Cunningham afirmou: “Algumas pessoas parecem imaginar que o princípio regulador se preocupa com a insignificância intrínseca das coisas”.10 Portanto, muitos concluem: os que advogam o princípio regulador fazem-no porque realmente gostam de contender por coisas insignificantes.

Com certeza, ninguém se deleitaria em disputas por questões irrelevantes. É verdade que o princípio regulador ocasionalmente tem sido utilizado daquela maneira. Uma obsessão por aplicar qualquer princípio aos menores detalhes pode facilmente se tornar uma forma destrutiva de legalismo.11

Mas o princípio Sola Scriptura, aplicado ao culto, é sempre digno de ser defendido com ferocidade. O princípio em si mesmo não é trivial. Além disso, a falha de apegar-se à prescrição bíblica no que se refere ao culto é exatamente aquilo que mergulhou a igreja nas trevas e na idolatria da Idade Média.

Não tenho interesse em suscitar um debate sobre instrumentos musicais, vestimentas pastorais, decoração do templo ou outros assuntos. Se existem aqueles que utilizam o princípio regulador como um trampolim para tais debates, excluam-me de entre eles. As questões que inflamam minha preocupação relacionada ao culto contemporâneo são mais profundas do que tais assuntos. Referem-se ao próprio âmago do que significa adorar a Deus em espírito e em verdade.

Minha preocupação é esta: o fato de a igreja moderna ter abandonado o Sola Scriptura abriu as portas para diversos abusos grotescos e imagináveis, incluindo cultos com banda de cabaré, a atmosfera de espetáculos carnavalescos e exibições de luta livre. Mesmo a mais liberal e ampla aplicação do princípio regulador do culto teria um efeito corretivo em tais abusos.

Pense, por um momento, no que aconteceria à adoração coletiva, se a igreja contemporânea levasse a sério o Sola Scriptura. Quatro diretrizes bíblicas para o culto imediatamente viriam à nossa mente. Essas diretrizes caíram em um trágico estado de negligência. Recuperá-las com certeza produziria uma nova reforma no culto da igreja moderna.

Pregar a Palavra. Na adoração coletiva, a pregação da Palavra deve ter a primazia. Todas as instruções do Novo Testamento aos pastores centralizam-se nessas palavras de Paulo a Timóteo: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” (2 Tm 4.2). Em outra carta, o apóstolo resumiu seu conselho ao jovem pastor: “Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino” (1 Tm 4.13). Evidentemente, o ministério de pregar a Palavra era o âmago das responsabilidades pastorais de Timóteo.

Na igreja do Novo Testamento, as atividades da comunidade de crentes eram completamente centralizadas “na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42). A pregação da Palavra era o centro de todo o culto. Em certa ocasião, Paulo pregou a um grupo de crentes até depois da meia-noite (At 20.7-8). O ministério da Palavra tinha uma parte tão crucial na vida da igreja, que, antes de um membro ser qualificado para servir como presbítero, teria de ser provado como alguém habilidoso em ensinar a Palavra (cf. 1 Tm 3.2; 2 Tm 2.24; Tt 1.9).

O apóstolo Paulo caracterizou assim a sua própria chamada: “Me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus"

(Cl 1.25 – ênfase acrescentada). Você pode estar certo de que a pregação era um elemento predominante em todo culto do qual Paulo participava.

Muitas pessoas vêem a pregação e a adoração como dois aspectos distintos do culto da igreja, como se a pregação não tivesse qualquer ligação com a adoração e vice-versa. Mas este é um conceito errôneo. O ministério da Palavra é a plataforma sobre a qual a verdadeira adoração é edificada. Em seu livro Between Two Worlds (Entre Dois Mundos), John Stott afirmou muito bem:

“A Palavra e a Adoração pertencem indissoluvelmente uma à outra. Toda a adoração é uma resposta inteligente e amável à revelação de Deus, porque é a adoração de seu nome. Portanto, a adoração aceitável é impossível sem a pregação. Pregar é tornar conhecido o nome de Deus, e adorar é louvar o nome do Senhor sobre o qual fomos informados. Ao invés de ser uma intrusão alienígena à adoração, o ler e o pregar a Palavra são realmente indispensáveis à adoração. As duas não podem ser divorciadas”.

Pregar é um aspecto insubstituível de toda a adoração coletiva. Na verdade, todo o culto da igreja gira em torno do ministério da Palavra. Todas as outras coisas são preparatórias ou uma reação à mensagem das Escrituras.

Quando o teatro, a música, a comédia e outras atividades têm a permissão de usurpar o lugar da pregação da Palavra, a verdadeira adoração inevitavelmente é prejudicada. E, quando a pregação é subjugada à pompa e à circunstância, ela também obstrui a adoração genuína. Um culto de adoração sem o ministério da Palavra tem um valor questionável. Além disso, a “igreja” onde a Palavra de Deus não é regularmente e fielmente pregada não é uma verdadeira igreja.

Edificar o Rebanho. As Escrituras nos dizem que o propósito dos dons espirituais é a edificação de toda a igreja (Ef 4.12; cf. 1 Co 14.12). Por esse motivo, todo o ministério da igreja tem de produzir edificação, fazendo o rebanho crescer espiritualmente e não apenas estimulando emoções.

Acima de tudo, o ministério da igreja deve ter como alvo o promover a adoração verdadeira. Para alcançar esse objetivo, ele tem de ser edificante. Isso está implícito na ex- pressão “que... o adorem em espírito e em verdade”. Como já observamos, a adoração deve envolver o intelecto e as emoções. A adoração deve ser emocionante, profundamente sentida e tocante. Mas o importante não é estimular as emoções, enquanto desligamos nosso intelecto. A adoração verdadeira mescla a mente e o coração em uma resposta de adoração pura, fundamentada na verdade revelada da Palavra de Deus.

A música pode, às vezes, nos comover pela agradável beleza da melodia, mas este sentimento não é adoração. Por si mesma, a música, sem a verdade contida nos versos, não é um recurso legítimo para a adoração autêntica. De maneira semelhante, uma história comovente pode ser tocante ou inspirativa, mas, se a mensagem que ela transmite não estiver no contexto da verdade bíblica, quaisquer sentimentos que ela desperte não têm qualquer utilidade em fomentar a verdadeira adoração. Emoções fortes despertadas durante o culto não constituem necessariamente uma evidência de que houve verdadeira adoração.

A adoração genuína é uma resposta à verdade divina. É emotiva porque surge de nosso amor a Deus. No entanto, a adoração verdadeira também deve ser fruto de um correto entendimento de sua lei, sua justiça, sua misericórdia e seu ser. A genuína adoração reconhece Deus conforme Ele se revela nas Escrituras. Por exemplo, através das Escrituras, sabemos que Ele é a única, perfeitamente santa, onipotente, onisciente e onipresente fonte da qual flui toda bondade, misericórdia, verdade, sabedoria, poder e salvação. Adorar significa atribuir glória a Deus por causa dessas verdades; significa louvá-Lo por aquilo que Ele é, aquilo que tem feito e aquilo que tem prometido. Por conseguinte, adoração tem de ser uma resposta à verdade que Ele revelou a respeito de si mesmo. Tal adoração não pode resultar de um vazio. É motivada e vitalizada pela verdade objetiva da Palavra de Deus.

Cerimônias mortas e entretenimento também são incapazes de provocar essa adoração, não importa quão emocionantes tais coisas sejam. Elas não edificam. No máximo, elas podem despertar emoções. Mas isso não é adoração.

Honrar o Senhor. Hebreus 12.28 afirma: “Retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor”. Esse versículo nos fala sobre a atitude com que devemos adorar. A palavra grega traduzida por “sirvamos” é latreuo, que literalmente significa “cultuar”. O argumento principal é que a adoração tem de ser realizada com reverência, de uma maneira que honra a Deus.

Na adoração coletiva, não existe lugar para a atmosfera frívola, superficial e leviana que freqüentemente prevalece nas igrejas modernas que procuram ser relevantes. Substituir o culto de adoração por um espetáculo distancia-se tanto quanto possível da atitude de adoração bíblica “com reverência e temor”.

“Reverência e temor” referem-se ao solene sentimento de honra que resulta de percebermos a majestade de Deus. Exige uma percepção da santidade de Deus e de nossa própria pecaminosidade. Tudo na adoração coletiva da igreja deve ter como alvo o fomentar esse tipo de atmosfera.

Por que igrejas substituem a adoração por entretenimento e comédia nos cultos no Dia do Senhor? Muitas que o têm feito declaram que têm o objetivo de alcançar os não-crentes; querem criar um ambiente “amigável”, que será mais atraente aos incrédulos. O objetivo concreto deles é “relevância”, ao invés de “reverência”. Seus cultos são idealizados para alcançar os incrédulos com o evangelho, e não para os crentes se reunirem a fim de adorarem a Deus e serem edificados. Muitas dessas igrejas não atribuem qualquer ênfase às ordenanças do Novo Testamento. A Ceia do Senhor, quando observada nessas igrejas, é transformada em um culto insignificante, no meio da semana. O batismo se torna real- mente opcional e normalmente são realizados em qualquer outra ocasião, exceto nos cultos dominicais.

O que está errado nisso? Existe problema em utilizar os cultos do Dia do Senhor como reuniões evangelísticas? Há uma razão bíblica que justifica o domingo como dia em que os crentes se reúnem para adoração?

As Escrituras e a história nos fornecem inúmeras razões para separarmos o primeiro dia da semana para adoração e comunhão entre os crentes. Infelizmente, uma consideração mais detalhada desses argumentos está fora do escopo desse breve artigo. Mas uma simples aplicação do princípio regulador oferece bastante orientação.

Por exemplo, aprendemos das Escrituras que o primeiro dia da semana era o dia em que a igreja apostólica se reunia para celebrar a Ceia do Senhor: “No primeiro dia da se- mana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os” (At 20.7). O após- tolo instruiu os crentes de Corinto a fazerem suas ofertas, sistematicamente, no primeiro dia da semana, deixando claramente implícito que este era o dia em que eles deveriam se reunir para adoração. A história nos revela que a igreja dos primeiros séculos se referia ao primeiro dia da semana como o Dia do Senhor, uma expressão que encontramos em Apocalipse 1.10.

Além disso, a Bíblia sugere que as reuniões regulares da igreja primitiva não visavam a propósitos evangelísticos, e sim, primariamente, ao encorajamento mútuo e à adoração na comunidade de crentes. Esta é a razão por que o escritor de Hebreus fez o seguinte apelo: “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb 10.24-25 – ênfase acrescentada).

Com certeza, havia ocasiões em que os incrédulos vinham às reuniões dos crentes. As reuniões da igreja do primeiro século eram essencialmente públicas, assim como muitas o são hoje. Mas o próprio culto tinha como objetivo a adoração a Deus e a comunhão entre os crentes. O evangelismo acontecia no contexto da vida diária, à medida que os crentes propagavam o evangelho. Eles se reuniam para adoração e comunhão e se separavam para evangelizar. Quando uma igreja torna todas as suas reuniões evangelísticas, os crentes perdem a oportunidade de crescer, de serem edificados e de adorar.

Também não existe qualquer fundamento bíblico para adaptarmos os cultos semanais de acordo com a preferência dos incrédulos. Na realidade, essa prática parece contrária ao espírito de tudo que as Escrituras dizem a respeito da comunidade de crentes.

Quando a igreja se reúne, no Dia do Senhor, essa não é uma ocasião para entreter o incrédulo, divertir os irmãos ou satisfazer as “necessidades sentidas” de nossos ouvintes. Pelo contrário, é uma ocasião para, como igreja, nos humilharmos diante de nosso Deus e honrá-Lo com nossa adoração.

Não Confiar na Carne. Em Filipenses 3.3, o apóstolo Paulo descreve nesses termos a adoração cristã: “Porque nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne” (ênfase acrescentada).

Mais adiante nessa carta, Paulo testemunhou como ele chegou a perceber que seu legalismo farisaico, no qual ele vivia antes de tornar-se crente, não tinha qualquer valor. Ele mostrou como anteriormente tinha obsessão por questões exteriores e carnais, tais como circuncisão, descendência e obediência à lei, ao invés de se interessar pelas questões mais importantes a respeito do estado de sua alma. A conversão de Paulo na estrada de Damasco mudou tudo isso. Seus olhos foram abertos à gloriosa verdade da justificação pela fé. Ele compreendeu que a única maneira de estar e ser aceito na presença de Deus era ser vestido com a justiça de Cristo. Paulo aprendeu que a simples obediência a ritos religiosos, tais como a circuncisão e as cerimônias prescritas na lei, não tinha qualquer valor espiritual. De fato, ele rotulou essas coisas como “refugo”, literalmente, “esterco”.

Até hoje, a maioria das pessoas que falam sobre adoração geralmente têm em mente as coisas externas – a liturgia, as cerimônias, a música, o ajoelhar-se e outros aspectos for- mais. Recentemente li o testemunho de um homem que abandonou o cristianismo evangélico e se uniu ao catolicismo romano. Uma das principais razões que ele apresentou para deixar o evangelicalismo foi que ele encontrou no catolicismo romano uma liturgia que “se parecia mais com adoração”. Quando ele explicou isso, tornou-se evidente que ele realmente estava dizendo que a Igreja Católica oferece mais instrumentos de rituais formalistas – acender velas, imagens, ajoelhar-se, rezar, benzer e outras coisas assim. Ele equiparou essas coisas à adoração.

Mas estas coisas nada significam em relação à adoração verdadeira, em espírito e em verdade. Na realidade, como invenções humanas – não prescrições bíblicas – correspondem exatamente ao tipo de artifícios carnais que Paulo chamou de “esterco”.

A história e a experiência nos mostram que é incrivelmente grande a tendência humana para acrescentar aparatos carnais à adoração prescrita por Deus. Israel fez isso no Antigo Testamento, culminando na religião dos fariseus. As religiões consistiam em nada mais do que rituais da carne. O fato de que tais cerimônias freqüentemente são belas e emocionantes não as transforma em adoração verdadeira. As Escrituras são claras em afirmar que Deus condena todos os acréscimos humanos àquilo que Ele ordenou de maneira explícita – “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15.9). Nós, que amamos a Palavra de Deus e cremos no princípio Sola Scriptura temos de nos acautelar diligentemente contra essa tendência.

A Adoração é Prioridade Crucial

Nosso Senhor disse a Marta, que estava aflita devido aos afazeres domésticos por receber muitos convidados: “Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa” (Lc 10.41-42).

A verdade principal é evidente. Maria, que se assentara aos pés de Jesus, em adoração, escolhera “a boa parte”, e esta não lhe seria tirada. A adoração de Maria tinha um significado eterno, enquanto toda a intensa atividade de Marta não significou absolutamente nada, além daquela tarde especial.

Nosso Senhor estava ensinando que a adoração é a atividade essencial que deve preceder todas as outras atividades da vida. Se isto é verdade em nossas vidas particulares, não deveríamos nós tributar maior importância à adoração no contexto da congregação dos crentes?

O mundo está cheio de religião falsa e superficial. Nós, que amamos a Cristo e cremos que sua Palavra é verdadeira, não ousemos moldar nossa adoração aos estilos e preferências de um mundo incrédulo. Pelo contrário, temos de reputar como nosso principal objetivo ser adoradores em espírito e em verdade. Devemos ser pessoas que adoram a Deus no Espírito, se gloriam em Cristo Jesus e não confiam na carne. Para fazer isso, temos de permitir que somente a Escritura – Sola Scriptura – regule nossa adoração.



quarta-feira, 10 de março de 2010

O "Crente Carnal" à luz do ensino de John Owen sobre a mortificação


Valdeci dos Santos

INTRODUÇÃO

O atual renascimento do interesse pela espiritualidade parece confirmar a suspeita de Richard Lovellace de que a espiritualidade é uma "indústria promissora." Apesar dos protestos de alguns estudiosos a respeito da terminologia utilizada e da ausência de clareza teológica a esse respeito, a comunidade protestante continua não só usando o termo, mas também desenvolvendo outras aplicações para o mesmo. No entanto, o aumento do interesse cristão na espiritualidade não parece estar sendo acompanhado pela prática da mesma. Packer afirma que "um líder muito conhecido disse que o cristianismo na América do Norte tem 4.800 quilômetros de extensão e apenas 1,5 centímetros de profundidade; e indícios desta superficialidade têm sido divulgados também em outros lugares." As razões de tamanha deformidade? Packer sugere que isto se deve, "em última instância, a termos perdido nossa perseverança no evangelho bíblico" e que, "sem notar, durante o século passado permutamos aquele evangelho por um produto substituto, que, mesmo sendo bastante semelhante em certos detalhes, como um todo é completamente diferente." Na apresentação desse "novo evangelho," a falácia do crente carnal ocupa um dos papéis principais.

Este estudo procura discernir o ensinamento do evangelho bíblico através de uma comparação entre dois ensinos essencialmente opostos, a saber, a teoria moderna do "crente carnal" e a ênfase de John Owen na mortificação do pecado. A relevância deste estudo consiste não somente em ser um exercício acadêmico, mas também em oferecer um melhor entendimento bíblico de como viver a vida cristã. O presente trabalho consistirá da apresentação dos dois ensinos, com uma conclusão final baseada na exatidão bíblica de cada proposta, seguida de aplicações práticas.

I. APRESENTANDO A TEORIA DO "CRENTE CARNAL"

Uma análise da literatura pertinente não é suficiente para se chegar a um acordo final quanto à origem histórica da teoria do "crente carnal." Reisinger declara que "há menos de duzentos anos atrás esse assunto era desconhecido nas igrejas da América do Norte." Wayne Grudem, porém, tentando ser mais preciso, faz uma ligação desta teoria com o antigo moto popular do movimento de Keswick "relaxe e deixe Deus agir." De acordo com Grudem, esta ênfase na passividade do crente com relação à santificação era apresentada como "um resumo de como viver a vida cristã."

Packer assume uma posição diferente da de Grudem, e afirma que "o ensino original de Keswick não cometeu este tipo de lapso." Para Packer, a teoria do "crente carnal" é apenas uma ramificação do ensino de Keswick, devido especialmente à influência wesleyana existente no mesmo. Segundo ele, a ala original do movimento de Keswick ensinava duas salvações distintas e separadas uma da outra, a primeira sendo a salvação da culpa do pecado, e a outra, do poder do pecado. Foi esse ensino que posteriormente deu origem à teoria do "crente carnal," que acabou tornando-se o padrão de todo pensamento evangélico, salvo nos luteranos e calvinistas confessionais." Portanto, para Packer, o movimento de Keswick foi apenas a causa virtual da teoria do "crente carnal," em vez da causa efetiva.

A falta de unanimidade marca a opinião dos estudiosos quanto à origem histórica da teoria do "crente carnal." Mas o oposto é verdade com relação à essência de seu ensino. Reisinger resume esta teoria explicando que aqueles que se rotularam crentes carnais "acreditam que irão para o céu, mesmo que não de primeira classe, e com poucas recompensas." Essa crença está baseada na divisão tricotômica do ser humano, que afirma ser o homem composto de três elementos distintos, corpo, alma e espírito. Esse conceito, via de regra rejeitado pelos reformados, foi popularizado nas notas da conhecida Bíblia de Referência de Scofield sobre 1 Coríntios 3.1-4. De acordo com ela, Paulo classifica a humanidade em três categorias: "natural", isto é, o homem adâmico, não renovado através do novo nascimento; "espiritual", isto é, o homem renovado, cheio do Espírito e que anda no Espírito em plena comunhão com Deus; "carnal", isto é, o homem renovado que, vivendo na carne, permanece um bebê em Cristo.

Focalizando a comunidade cristã, McQuilkin afirma que "a Escritura reconhece uma diferença básica entre cristãos. Ela faz distinção entre crentes carnais – ‘da carne’ – que se comportam como pessoas não convertidas, e crentes espirituais, cujas vidas são dirigidas pelo Espírito de Deus." Esta mesma classificação é encontrada na tradição wesleyana, que declara: "Em [1 Coríntios] 3:1-4 o apóstolo contrasta o homem espiritual com o carnal. Aqui ele abandona o homem natural incrédulo para cuidar do imaturo crente carnal da igreja de Corinto."

Uma apresentação mais recente dessa teoria do crente carnal tem sido feita de modo especial pela Sociedade Evangélica da Graça, com ênfase no fato de que uma pessoa pode ser genuinamente salva tendo Jesus como "Salvador" mas não como "Senhor." Um resumo desta teoria pode ser esquematizado através do seguinte diagrama:



É importante notar que três elementos básicos estão envolvidos em qualquer

apresentação da teoria do "crente carnal." Primeiramente, ela divide a humanidade em três categorias. Em segundo lugar, afirma-se que a categoria "crente carnal" é uma categoria válida na vida cristã. Por fim, geralmente se insiste em 1 Coríntios 3.1-4 como a maior evidência bíblica para seu ensinamento. Um exame dessa interpretação revela um elemento novo na compreensão tradicional do termo "carnal."

Historicamente, o termo "carnal" tem sido usado para se referir a: 1) falsos cristãos, 2) aqueles que estão sob o domínio da natureza caída, 3) aqueles que têm apenas um interesse meramente externo no evangelho, e 4) cristãos que necessitam maturidade e têm problemas comportamentais. Apesar da variedade de aplicações dessa expressão, existe certa unanimidade na interpretação clássica de que a expressão não foi usada por Paulo em 1 Coríntios 3.1-4 para recomendar ou descrever um novo nível ontológico da existência cristã. Paulo usou esta expressão para repreender o comportamento carnal dos coríntios. Como Gordon D. Fee defende: "Paulo faz um ataque frontal e declara que os coríntios não são nem um pouco espirituais." Da mesma maneira, Gaffin afirma que "um crente ‘carnal’ ou ‘não espiritual’ é uma contradição de termos." Com efeito, o único sentido no qual há crentes "não espirituais" é aquele em que "eles mostram um comportamento altamente ‘não espiritual’, que deve ter um fim."

A interpretação histórica tradicional concorda que Paulo não estava introduzindo uma classe opcional e genuína de cristãos em 1 Coríntios 3.1-3. Portanto, isto "não nos incentiva a pensar que é possível aceitar-se Jesus como Salvador e, desta forma, ser promovido do nível ‘natural’ para o ‘carnal’, como em trânsito para o estágio ‘espiritual’, em cujo ponto se aceita Jesus como Senhor." A introdução de um novo nível ontológico de cristãos nesta passagem foi uma adição da exegese da teoria do "crente carnal."

Concluindo, a teoria do "crente carnal" é uma parte essencial do "novo evangelho" que "é tão exclusivamente interessado em ser ‘útil’ ao homem" que contraria qualquer ênfase na necessidade de mortificação do pecado na vida cristã. Como Grudem afirma, esse ensinamento acaba por induzir os cristãos a "se tornarem preguiçosos e negligenciar o papel ativo que a Escritura os ordena cumprir em sua própria santificação."

II. O ENSINO DE JOHN OWEN SOBRE A MORTIFICAÇÃO

Procuremos agora contrapor a essa linha de interpretação o pensamento do famoso puritano John Owen (1616–1683). Apesar da formulação da teoria do "crente carnal" ser desconhecida no tempo de John Owen, ele trabalhou com uma forma prática dessa argumentação em seu "discurso" sobre a mortificação. Nele, Owen argumenta contra "muitos crentes professos … que, em vez de demonstrarem os maravilhosos e evidentes frutos da mortificação como era de se esperar, deixaram de produzir ainda que folhas da mesma."

Owen ressaltou que dois erros resultam dessa maneira descuidada de se viver a vida cristã: primeiramente, "há um mal para o próprio crente professo não mortificado." Desde que "a ramificação de uma maldição não mortificada é a digestão do pecado sem nenhuma resistência pelo coração," este estilo de vida pode conduzir à apostasia e perdição. Em segundo lugar, há um mal para outros, devido a uma dupla influência: 1) "Isso endurece os seus corações, por gerar neles a certeza de que estão em tão boa condição" quanto os seus irmãos em Cristo, e 2) Isso os engana, porque "os faz acreditar que se eles puderem elevar sua condição espiritual somente um pouco, tudo estará bem com eles." Conseqüentemente, baseado em Romanos 8:13, Owen defende a tese de que "os mais seletos crentes, que estão seguramente libertos do poder condenador do pecado, devem ainda continuar, todos os seus dias, a mortificar o poder do pecado arraigado." Tal exortação à morte diária ao pecado carrega uma contra-resposta apropriada aos defensores da teoria do "crente carnal." Um claro entendimento bíblico a este respeito é crucial para qualquer tentativa de retorno à apresentação bíblica da vida cristã.

Duas proposições são vitais para se captar a ênfase de Owen na mortificação: 1) a mortificação é uma chamada fundamental para a vida cristã, e 2) a mortificação é um dos maiores deleites na vida cristã. No presente artigo, será dada atenção especial a essas duas proposições.

A. A mortificação é uma chamada fundamental para a vida cristã

Para Owen, a mortificação não é o esse, mas o benne esse da vida cristã. Ele desaprovou qualquer sugestão de que alguém possa obter vida ou merecer o favor de Deus pelo processo da mortificação. De acordo com ele, apenas "o vigor, o poder e o conforto de nossa vida espiritual dependem da mortificação das obras da carne." Desta forma, mortificação não é mutilação própria, mas é "arrancar o princípio de todo o seu vigor, força e poder [do pecado arraigado], de tal maneira que ele não possa agir ou se empenhar, ou realizar qualquer ato próprio." Mas, para experimentar as delícias da vida cristã, o crente não deve "cessar o seu trabalho um dia sequer; mate o pecado ou ele o matará." Então, a mortificação é um chamado fundamental na vida cristã.

Para enfatizar a urgência do chamado para a mortificação na vida cristã, Owen usou vários argumentos, entre os quais três parecem ser seus preferidos. Primeiro, a realidade do pecado arraigado. Segundo, a constância da tentação para pecar. E terceiro, a obra do agente eficaz da mortificação.

1. O Pecado Arraigado

Owen enfatizou a verdade de que o domínio do pecado foi completamente destronado na vida do cristão. Ele também reconheceu que o tornar-se um cristão não anula a tendência pecaminosa. Segundo Owen, "há um poder remanescente do pecado arraigado nos crentes, com uma tendência constante ao mal … apesar de seu domínio ter sido quebrado, sua força enfraquecida e debilitada, suas raízes mortificadas, ele ainda é uma lei de grande força e eficácia." Além disso, Owen enfatizou seis princípios a respeito da contínua realidade do pecado arraigado na vida cristã. Primeiramente, "há um certo grau de pecaminosidade que reside em nós enquanto estamos no mundo." Em segundo lugar, "o pecado não apenas continua habitando em nós, mas está ativo, atuando continuamente para produzir as obras da carne." Em terceiro lugar, se nós deixamos o pecado em um canto, sem mortificá-lo prontamente cada dia, "ele produzirá frutos enormes, malditos, escandalosos, destruidores da alma." Em quarto lugar, uma das principais razões pelas quais o Espírito e uma nova natureza foram dados a nós é para que possamos nos opor ao pecado. Em quinto lugar, a negligência na área da mortificação lança o crente em grande contradição. Finalmente, esse é o dever presente do crente – seguir a santidade. Concluindo, Owen sustenta o princípio de que "o pecado – já completamente vencido na cruz – deve ser tratado implacavelmente e cortado pela raiz, ou ele reviverá e continuará a saquear seu coração [do cristão] e a minar seu vigor espiritual."

Para realçar a importância da pecaminosidade arraigada, Owen sustenta a idéia de que o seu efeito é inimizade contra Deus; e "inimigos podem ser reconciliados, mas não a inimizade; então, a única maneira de reconciliar inimigos é destruir a inimizade." Além disso, desde que "a graça transforma a natureza do pecado," o único tratamento adequado ao pecado na vida cristã é a mortificação. Owen não interpreta mortificação como perfeição, nem como "dissimulação de um pecado." Ele insistiu também em que mortificação não é o aperfeiçoamento do temperamento das pessoas, nem consiste em distrair o pecado. Pelo contrário, ele argumentou que "aquele que é incumbido de matar um inimigo faz apenas metade de seu trabalho se, após atingi-lo, sai antes que o mesmo morra." Portanto, o conceito de mortificação para Owen é o enfraquecimento da carne na vida cristã, como um homem pregado na cruz, cuja morte é certa.

2. A Constância da Tentação

Através da sua exposição de Mateus 26:41, fica claro que para Owen "o homem pode estar descontente com o pecado, mas freqüentemente disposto à tentação; sem que ele tema a tentação, nunca terá vitória sobre os seus resultados." Tentação, segundo ele, "é qualquer coisa, estado, maneira ou condição que, sob qualquer circunstância, tem a força ou eficácia de seduzir, retirar a mente e o coração de um homem da obediência que Deus requer dele diante de qualquer pecado, em qualquer grau." Conseqüentemente, a tentação tem um duplo propósito: 1) despertar a manifestação do mal existente no coração do ser humano, e 2) desviar o ser humano da comunhão com Deus. Deve-se, contudo, atentar para o fato de que o ser humano só peca quando ele cai em tentação.

A tentação pode ser interna ou externa, mas "todo pecado vem de tentação… O pecado é um fruto que vem apenas daquela raiz." O mal da tentação é ativo; ela entra e comunga com o coração, debate com a mente e ainda atrai e seduz os sentimentos." Além disso, quando a tentação vence, afeta o ser humano como um todo.

Para se preservar da tentação, duas coisas devem ser feitas: orar e vigiar. A importância da oração, segundo Owen, está no fato de que "não existe qualquer coisa em nosso próprio poder que nos mantenha e nos preserve de entrar em tentação." Com respeito a "vigiar," Owen defendeu que isto significa "estar de guarda, prestar atenção, considerar todas as maneiras e métodos através dos quais um inimigo possa nos abordar." Ele também ofereceu algumas instruções gerais a serem observadas neste sentido, tais como: 1) Sempre ter em mente "o grande perigo que entrar em tentação significa para qualquer alma," 2) Observar períodos "nos quais os homens geralmente entram em tentação," 3) Insistir em conhecer a condição de nosso próprio coração, e 4) Ter alguma provisão "contra a proposta de qualquer tentação." Estes princípios gerais, de acordo com Owen, são passos essenciais a serem tomados no processo da mortificação.

3. O Agente Eficaz da Mortificação

A urgência do chamado à mortificação, de acordo com Owen, está intimamente ligada ao agente eficaz na realização desse dever, que é o Espírito Santo. Owen enfatizou que "todas as outras maneiras de mortificação são vãs, toda ajuda nos deixa desamparados, esta tarefa deve ser executada pelo Espírito." Primeiro, porque a base para a mortificação é a obra do Espírito na regeneração. Segundo, a habitação do Espírito no coração do crente tem o propósito de mortificar o pecado. Owen criticou o catolicismo romano por seus "meios e métodos equivocados de mortificação." Ele enfatizou que o pecado não pode ser mortificado através de rituais, cerimônias ou do monasticismo. Portanto, os recursos humanos nunca terão sucesso final na mortificação de pecados, pois: 1) "Muitos dos métodos que eles usam e nos quais insistem nunca foram indicados por Deus para serem
utilizados com esse propósito," e 2) Aqueles recursos que foram apontados por Deus, não são usados por eles em seus devidos lugares e ordem."

Com relação ao processo usado pelo Espírito na mortificação do pecado na vida do pecador, Owen destacou três princípios. Primeiramente, ele atua "fazendo nossos corações abundarem em graça e nos frutos, que são contrários à carne." Essa renovação do Espírito Santo é, então, um grande método de mortificação. Em segundo lugar, "ao trabalhar na raiz e hábito de pecar, para enfraquecer, destruir e extinguir o pecado." O Espírito é chamado Espírito de julgamento e fogo através do qual "ele queima até o final a raiz da lascívia." E em terceiro lugar, o Espírito traz a cruz de Cristo ao coração do pecador pela fé e dá ao mesmo união com Cristo. Vale a pena lembrar que o Espírito "trabalha em nós e conosco, e não contra nós ou sem nós." Assim, Owen enfatizou dois aspectos essenciais na santificação: 1) Deus dá o que ele mesmo ordena e 2) Deus e o ser humano cooperam na mortificação.

B. A Mortificação é um dos Maiores Deleites da Vida Cristã

A mortificação do pecado não é apenas um chamado à luta, mas também um chamado ao deleite. As delícias da mortificação resultam de sua utilidade na vida cristã. De acordo com Owen, "a vida, o vigor e o conforto de nossa vida espiritual dependem muito de mortificarmos o pecado que está em nós." Como estes resultados são os mais íntimos desejos do coração do verdadeiro crente, seu cumprimento é motivo de grande deleite.

Mesmo destacando a importância da mortificação como um convite ao deleite espiritual, Owen cuidadosamente afirmou que o primeiro não é a razão final do segundo. A mortificação se relaciona ao deleite espiritual apenas como um meio, não como uma fonte última. Segundo ele, o deleite espiritual está necessariamente ligado à mortificação. Por sua vez, vida, vigor, consolação, etc. são privilégios imediatos de nossa adoção, não da mortificação. Mas na nossa caminhada diária com Deus, a mortificação é conditio sine qua non para nosso vigor e conforto na vida cristã normal. Com a distinção feita acima, Owen negou qualquer possibilidade de uma fórmula mágica para alcançar bênçãos espirituais à parte de uma unidade espiritual com Cristo. Além disso, ele também realçou a contradição prática de estar unido com Cristo e negligenciar mortificação de pecados na vida diária.

A importância da mortificação para se atingir deleite espiritual, segundo Owen, é baseada em três fatores: Primeiro, ela impede que o pecado prive o crente da força espiritual necessária no dia-a-dia. Segundo, ela possibilita ao crente reconhecer "os favores divinos e providencia lugar para os mesmos crescerem em nossos corações." E terceiro, ela alimenta sinceridade na vida, que é essencial para a paz e força espiritual. Como resultados práticos, "o orgulho é enfraquecido pela implantação e crescimento da humildade, a ira pela paciência, a impureza pela castidade de mente e consciência."

CONCLUSÃO

Diferentes contextos culturais podem produzir expressões teológicas que, apesar da distância histórica e cultural, estão relacionadas entre si por alguns elementos comuns. Com esta pressuposição em mente, tentei avaliar o ensino acerca do "crente carnal." Entendo que essa idéia é uma falácia, uma contradição do ensino bíblico quanto à mortificação do pecado. Como exposto anteriormente, estes dois ensinos são mutuamente exclusivos. Enquanto a doutrina do crente carnal defende uma atitude de descanso [uma poltrona], o segundo defende um instrumento de guerra e luta [uma espada] como uma descrição verdadeira do empenho cristão em direção à santidade. Enquanto o primeiro defende passividade e quietude em relação à santidade, a doutrina da mortificação insiste que a vida cristã é uma luta contínua contra a carne. A validade dos mesmos, no entanto, deve ser julgada pela exatidão da interpretação das passagens bíblicas que se utilizam, bem como de seus resultados práticos.

Com relação ao suporte bíblico, está claro que a exegese sugerida pela teoria do crente carnal é superficial, sem evidências claras e equivocada. Além disso, como Reisinger declara, "interpretar I Coríntios 3:1-4 de modo a classificar os homens em três categorias é violar uma regra básica para a interpretação da Escritura, a saber, que cada passagem em particular deve ser interpretada à luz do todo." A ênfase de Owen na mortificação, por outro lado, surge de uma salutar interpretação bíblica. O valor dos conceitos pastorais de Owen baseia-se na exatidão do suporte bíblico dos mesmos. Por isto, a razão teológica de Owen é realista, ao passo que a teologia por detrás da teoria do crente carnal é enganadora.

No campo prático, mesmo que as evidências mostrem que a teoria do crente carnal tem influenciado uma grande parte da comunidade evangélica, esta influência resulta em grande perigo para o cristianismo como um todo e para o cristão como indivíduo. O perigo para o cristianismo encontra-se na elaboração de um evangelho diluído, no qual fé salvadora e fé enganadora – não genuína – não são diferenciadas, uma falsa garantia é ensinada, o antinomianismo é propagado, uma dicotomia cristológica com implicações soteriológicas é defendida e um segundo trabalho da graça é tornado necessário. A ênfase de Owen na mortificação, por outro lado, encoraja humildade, atividade e crescimento espiritual. Conseqüentemente, ela promove um viver saudável e isso precisa ser urgentemente reconquistado pela comunidade cristã atual.