segunda-feira, 19 de abril de 2010

DEUS É IMUTÁVEL E IMPASSÍVEL? (Parte 1)

Silas Roberto Nogueira


Deus é imutável, segundo o que Ele mesmo revela sobre Si: “porque eu, o SENHOR não mudo...” (Malaquias 3.6). Outros textos bíblicos também corroboram esse conceito sobre Deus, especialmente: Êx 3.14; Sl 102.26-28; Is 41.4;48.12; Rm 1.23; Hb 1.11,12 e Tg 1.17. A razão também aponta para a sua imutabilidade pelo fato de que Ele é autoexistente, absoluto, eterno e infinito em suas perfeições. A imutabilidade divina é uma verdade coerente com a natureza de Deus, mas como disse Dr. Lloyd-Jones “precisamos, porém, atentar um pouco mais para a imutabilidade de Deus.”[1]  E a razão para se dar atenção a isso é que podemos, se não formos cuidadosos, negar o conceito de pessoalidade de Deus.


Assim, é importante começar dizendo o que a imutabilidade não é:

  • Primeiro, a imutabilidade não é imobilidade. Charles Hodge alertava: “os teólogos, em suas tentativas de declarar, em linguagem filosófica, a doutrina da Bíblia acerca da imutabilidade de Deus, são passiveis de confundir imutabilidade com imobilidade. Ao negar que Deus pode mudar, parecem negar que ele pode agir. (...) Sabemos que Deus é imutável em seu ser, em suas perfeições e seus propósitos; e sabemos que ele é perpetuamente ativo. E, portanto, atividade e imutabilidade devem ser compatíveis; e não se deve admitir inconsistência alguma entre a explicação da última e a da primeira”.[2] Strong observa que confundir imutabilidade com imobilidade “negaria toda a vontade imperativa de Deus através da qual El entra na história. As Escrituras garantem-nos que a criação, os milagres, a encarnação, a regeneração são atos imediatos de Deus.”[3]
  • Em segundo lugar, a imutabilidade não quer dizer impassibilidade. Para alguns filósofos gregos a noção de perfeição, geralmente entendida em termos bastante estáticos, domina a visão acerca de Deus.  Para eles a perfeição exige a imutabilidade e a auto-suficiência. Assim, se Deus é perfeito, qualquer mudança torna-se uma impossibilidade. Qualquer mudança é um afastamento da perfeição ou em direção a ela, por isso Deus deve ser impassível, pois as emoções representam vulnerabilidade, ou seja, mudança. É verdade que a fé ortodoxa declara que Deus é impassível, isto é, sem paixões[4], mas, ao contrário do que alguns pensam, essa impassibilidade não é apatia, pois a Bíblia declara que o Deus cristão é amor, é misericordioso, é bom, é gracioso, é compassivo. Um Deus apático não é nem pessoal e nem relacional e menos ainda o Deus da Bíblia. 

Mas, precisamos de uma enunciação clara do que entendemos por imutabilidade. Wayne Gruden propôs: “Deus é imutável no seu ser, nas suas perfeições, nos seus propósitos e nas suas promessas; porém, Deus age e sente emoções, e age e sente de modos diversos diante de situações diferentes.” [5] Essa definição expressa a inalterabilidade divina naquilo em que Ele é de fato inalterável, isto é, nos aspectos em que as Escrituras afirmam que Ele é imutável. Podemos dizer que Deus não muda em quatro sentidos:
  • Deus é imutável em sua essência, isto é, “no seu ser”. Herman Bavink observa a importância de Deus ser imutável em Seu ser dizendo que “a doutrina da imutabilidade de Deus é da mais alta importância para a religião. O contraste entre ser e vir a ser assinala a diferença entre o criador e a criatura. Toda criatura está continuamente vindo a ser. É mutável, vive em constante azáfama, busca repouso e satisfação, e encontra repouso em deus, e só nEle, pois só Ele é puro se e não vir a ser. Daí nas Escrituras Deus ser muitas vezes chamado a Rocha...” [6]   Arthur Pink declara com acerto que a “natureza e seu ser são infinitos e, assim, não sujeitos a mutação alguma. Jamais houve tempo quando ele não era; jamais virá tempo quando Ele deixará de ser. Deua não evoluiu, nem cresceu, nem melhorou. Tudo que Ele é hoje, sempre foi e sempre será. “...eu, o Senhor, não mudo...” (Malaquias 3.6) é a Sua afirmação categórica. Ele não pode mudar para pior. Completamente imune de tudo quanto Lhe é alheio, é impossível melhoramento ou deterioração. Ele é perpetuamente o mesmo. Somente Ele pode dizer: “...EU SOU O QUE SOU...” (Êxodo 3.14). Ele é absolutamente livre da influência do curso do tempo. Não há um vinco sequer nos sobrolhos da eternidade. Portanto, o Seu poder jamais pode diminuir, nem Sua glória desvanecer-se”. [7]
  • Deus é imutável em suas perfeições, isto é, em seus atributos.  Se Deus é imutável em Sua essência, segue-se que é igualmente imutável em Seu caráter moral. (Tg 1.17) Spurgeon declarou “Ele não muda em Seus atributos. Qualquer um dos atributos de Deus era no passado, como é agora; e de cada um deles podemos cantar: "Como eras no início, és agora, e sempre serás, mundo sem fim, Amém". Acaso Ele era poderoso? Ele era o Deus poderoso quando chamou o mundo para fora do útero da não existência? Era Ele o Onipotente quando empilhou as montanhas e cavou a terra oca para formar os leitos dos rios? Sim, Ele era então poderoso e o braço dEle é agora único, Ele é o mesmo gigante em Seu poder; a seiva da nutrição dEle é interminável e a força da Sua personalidade é a mesma para sempre. Porventura Ele era sábio quando constituiu este globo poderoso, quando estabeleceu as fundações do universo? Tinha Ele sabedoria quando planejou os meios da nossa salvação e quando desde toda eternidade estabeleceu Seu grandioso plano? Sim, Ele é sábio agora; não é menos hábil, Ele não tem menos conhecimento; os olhos dEle que vêem todas as coisas não estão embaçados; Seus ouvidos ouvem todos os gritos, suspiros, choros e gemidos do Seu povo, não estão tapados para suas orações. Ele é o mesmo em Sua sabedoria, Ele sabe agora tanto quanto antes, nem mais nem menos; Ele tem a mesma capacidade ilimitada e a mesma presciência infinita. Ele permanece inalterado, bendito seja o nome dEle na Sua justiça. Justo e santo Ele era no passado; justo e santo Ele é agora. Ele está inalterado na Sua verdade; Ele promete e Ele realiza; Ele disse isso e isso será feito. Ele não varia na bondade, generosidade e benevolência da Sua natureza. Ele não Se tornou num tirano todo-poderoso, ao passo que era uma vez um Pai todo-poderoso; mas Seu forte amor permanece como uma rocha, impassível pelos furacões da nossa iniqüidade. E bendito seja o Seu precioso nome, Ele nunca mudou no Seu amor. No princípio, quando Ele firmou a aliança, quão cheio estava Seu coração de afeto pelo Seu povo. Ele sabia que o Seu Filho teria que morrer para ratificar os artigos daquele acordo. Ele sabia muito bem que tinha de dar o Seu melhor pelos amados de Suas entranhas e o enviou à terra para derramar Seu sangue e morrer. Ele não vacilou em ratificar aquela poderosa aliança, nem evitou seu cumprimento. Ele ama hoje tanto quanto no passado e quando o sol deixar de brilhar e a lua de mostrar sua tênue luz, Ele ainda amará e para sempre e sempre. Tome qualquer atributo de Deus e eu escreverei a respeito dele sempre idem (sempre o mesmo). Diga qualquer coisa que puder de Deus e isso pode ser dito num passado escuro como também num futuro luminoso e sempre permanecerá o mesmo: "Eu sou Jeová, eu não mudo".[8]
  • Deus é imutável em Seus propósitos, isto é, em seus decretos ou conselho. A Palavra de Deus declara: “O conselho do Senhor dura para sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações” (Salmo 33.11). Essa declaração é consubstanciada por outros textos, tais como Mateus 13.35; 25.34; Romanos 11.29; Efésios 1.4,11; 3.9,11; 2 Timóteo 2.19; 1 Pedro 1.20; Apocalipse 13.8, que tratam dos propósitos específicos de Deus para toda a eternidade. J. I. Packer comenta que o que Deus “executa no tempo Ele planejou desde a eternidade e tudo o que planejou na eternidade realiza no tempo. Tudo aquilo que Ele tenha, pela Sua palavra, se comprometido a realizar, será infalivelmente feito. Lemos assim a respeito da “imutabilidade do seu propósito” que levará ao gozo completo da herança prometida, e sobre o juramento imutável pelo qual Ele confirmou seu desígnio a Abraão, o arquétipo do crente, tanto para a própria segurança de Abrão como para a nossa também (Hb 6.17). Isso acontece com todos os planos anunciados por Deus. Eles não mudam nem parte alguma do seu plano eterno jamais mudará”. [9]
  • Deus é imutável em Suas promessas. Ora, se Deus é imutável quanto aos Seus propósitos é também imutável em Suas promessas. O texto de Malaquias 3.6 diz “porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso, vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” e o sentido destas palavras é que Deus é imutável em Sua fidelidade pactual, isto é, Ele está dizendo que cumprirá as suas promessas, apesar da infidelidade ou desobediência de Israel, Miquéias 7.19,20; Salmo 89.34-37; Isaías 54.10; Números 23.19.

Contudo, parece, à luz de alguns textos, que Deus às vezes muda de ideia. Como podemos entender tais textos?

Continua...

[1] LLOYD-JONES, D.M., Grandes Doutrinas Bíblicas, vol 1, p 84
[2] HODGE, Charles, Teologia Sistemática, p 295
[3] STRONG, A. H., Teologia Sistemática, Vol. 1, p 386
[4] Cf. Confissão de Fé de Westminster declara que Deus é “um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões, imutável” (II, 1), a Confissão de Fé Batista de 1689 segue nos mesmos termos.
[5] GRUDEN, W. A., Teologia Sistemática, p 111
[6] Idem, p 112
[7] PINK, A. W., Atributos, p 37
[8] SPURGEON, C. H., Deus não muda, pp 4,5. Sermão intitulado “A Imutabilidade de Deus”, pregado em 7 de janeiro 1855, quando ele tina apenas 20 anos.
[9] PACKER, J. I., O Conhecimento de Deus, p 70




terça-feira, 13 de abril de 2010



VENCENDO O MUNDO
JOEL BEEKE
Editora Fiel

Joel Beeke é pastor da Heritage Netherlands Reformed Congregation em Grand Rapids, Michigan, preside e leciona Teologia Sistemática e Homilética no Seminário Teológico Puritano Reformado e é um escritor prolífico, especialmente apreciado entre os reformados.

Neste livro, VENCENDO O MUNDO, (título original em inglês Overcoming The World – Grace to the daily battle, por P&R Publishing) Joel Beeke aborda a piedade pessoal e a santidade nas Escrituras. Ele nos ajuda a entender o mundanismo, seus ardis e sutilezas, e expõe os seus perigos. Para Beeke a piedade e a santidade são o antídoto contra o mundanismo que afeta a igreja, por isso ele se posiciona biblicamente contra isso e nos exorta a fazer o mesmo. O livro, com uma capa criativa, uma boa diagramação e revisão, com 215 páginas, é dividido em quatro partes.

A primeira é intitulada "Vencendo o mundo pela fé" possui três capítulos não muito extensos. O material foi tomado de algumas mensagens que Beeke fez no na Escola de Teologia do Tabernáculo Metropolitano (a Igreja pastoreada por C. H. Spurgeon) em Londres, em 2002, tendo com base 1 João 5.4,5. Nessa primeira parte, Beeke nos “mostra como o mundanismo pode ser vencido somente por meio da fé salvadora em Jesus Cristo” (prefácio). Para alguns essa é talvez a parte mais frágil do livro, pois Beeke parece não apresentar o vigor e as suas habilidades exegéticas, contudo, não é desapontador ou superficial.  

A segunda parte, “Vencendo mundo por meio da piedade: a resposta de Calvino ao mundanismo” está dividida em quatro capítulos e é uma pesquisa histórica informativa. O autor apresenta “como ponto de vista de João Calvino sobre a piedade constitui uma resposta abrangente e positiva aos problemas do mundanismo” (prefácio). Beeke nos apresenta uma boa parte de teologia histórica, com ênfase pastoral. Ele compreende não só os compromissos conceituais do mestre de Genebra, mas também as preocupações pastorais do grande reformador – e a interação entre os dois.

A terceira parte, “Vencendo o mundo por meio da santidade”, é dividida em cinco capítulos. Ele faz um chamado ao cultivo da santidade “como um antídoto ao mundanismo” (prefácio).  Aqui Beeke é magistral, vigorosamente bíblico e mais prático que teórico. Exemplo dessa praticidade está no capítulo 9, “Como cultivar a santidade”, onde Beeke propõe uma fórmula bíblica para um viver santo, baseada em 1 Coríntios, assinala ele: “Quando você estiver hesitante quanto a um modo de agir, pergunte a si mesmo:

  • ·         Isto glorifica a Deus? (1 Co 10.31)
  • ·         É coerente com o senhorio de Cristo? (1 Co 7.23)
  • ·         É coerente com exemplos bíblicos? ( 1 Co 11.1)
  • ·         É lícito e benéfico para mim – nos aspectos espiritual, físico e mental? ( 1 Co 6.9-12)
  • ·         Ajuda os outros de maneira positiva e não fere desnecessariamente? (1 Co 10.33; 8.13)
  • ·         Isto me coloca sob um poder escravizante? ( 1 Co 6.12)” (p 92)

A quarta parte vale o preço do livro, e foi intitulada "Vencendo o mundo no ministério." Os pastores irão encontrar insights de Beeke que são tanto um incentivo quanto um desafio. Os capítulos sobre a "sua luta contra orgulho" (cap 17, p 145) e "Seu Conflito com as críticas" (cap. 18, p 151) vem do coração de um pastor experiente e são de grande valor prático para todos os ministros da Palavra, especialmente os mais novos. Ele apresentou algo desse capítulo na 24° Conferência da Fiel em 2008 e por isso talvez pareça familiar para alguns leitores que lá estiveram. Nenhum ministro deve desconsiderar as seguintes palavras: “Nós, pastores, que estamos sempre sob o olhar das pessoas, somos particularmente inclinados ao pecado de orgulho. Conforme escreveu Richard Greenham: “Quanto mais piedoso for um homem, quanto mais graças e bênçãos de Deus estiverem sobre ele, tanto mais ele precisará orar, porque satanás está muito ocupado em agir contra ele e porque é propenso a se envaidecer com uma presunçosa santidade”. O orgulho se alimenta de qualquer coisa...” (p 146).

Joel Beeke demonstra um conhecimento profundo dos puritanos, aliás, ele é reconhecidamente uma autoridade no assunto. Além disso, ele pensa e escreve como um puritano moderno. Para quem gosta de escritos ao estilo dos puritanos, este volume será tão agradável como é convincente. É leitura obrigatória, especialmente para os pastores.

Tolle, lege!
Silas Roberto Nogueira 

terça-feira, 6 de abril de 2010

O Verdadeiro Discipulado Cristão


por
Dr. David Martin Lloyd-Jones


Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás e já não andavam com ele. Então disse Jesus aos doze: queria vós também retirar-vos? Respondeu-lhe pois Simão e Pedro: Senhor para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” (João 6:66-68).

Sinto que é sempre um tema interessante e proveitoso tentar decidir qual destas duas posições é mais perigosa para um homem - declarar franca e abertamente que não tem qualquer interesse em Cristo e na religião ou seguir a Cristo motivado por uma razão falsa ou errada. Sei que cada teólogo nesta congregação será levado a dizer imediatamente que em última análise não há nenhuma diferença entre os dois; que o homem que segue a Cristo por uma razão errada esta tão fora do reino de Deus quanto aquele que não manifesta qualquer desejo de seguir a Cristo. Isso é verdade, porém eu creio que há uma distinção muito importante entre os dois se os examinarmos puramente do ponto de vista humano, pois o problema com o homem que segue a Cristo por uma razão falsa ou errada é que ele não só esta iludindo a si mesmo, mas também está enganando a Igreja. Mas quando nos defrontamos com um quem não crê em Cristo, então sabemos exatamente o que dizer e o que fazer com ele. Quando um homem se apresenta como uma pessoa religiosa, a Igreja tende a aceitar suas declarações pensando que seria um insulto questioná-lo. A Igreja presume que uma vez que ele professa ser religioso, isso significa que ele é um cristão. Um dos lugares mais perigosos para um homem é a Igreja do Deus vivo.
Creio que este ponto poderia ser uma boa explicação para a atual situação da Igreja hoje em dia. Vemos uma excessiva prontidão em ligar o fato de alguém ser membro de uma Igreja com verdadeiro discipulado, presumindo que todos aqueles que se unem à Igreja realmente estão seguindo a Cristo. Sei que a Igreja talvez tenha bons motivos para isso. Ela sente que é bom que as pessoas estejam sob sua influência, para que possam ser protegidas das tentações do mundo. A tragédia, no entanto, é que com freqüência ela toma por certo que essas pessoas são verdadeiramente cristãs. E assim a igreja tem dirigido a tais pessoas mensagens que são apropriadas para o verdadeiro cristão, mas que não têm muito valor para aquele a quem falta a essência da fé. Então é por isso que afirmo que a Igreja pode ser um lugar muito perigoso. É possível que por pertencerem à Igreja tais pessoas nunca venham a ouvir algumas das perguntas fundamentais e básicas que todo cristão deve ser capaz de responder. Existe um perigo muito real de presumirmos por razões erradas e falsas que somos cristãos. E não hesito em declarar que é um perigo muito grande e real. E se vocês pedissem que eu comprovasse e justificasse o uso desse adjetivos, eu poderia fazê-lo com facilidade por meio das páginas do próprio Novo testamento.
Certamente não há nada mais notável, na leitura da história da vida de nosso Senhor Jesus Cristo nos Evangelhos, do que observar a forma como Ele sempre quis Se certificar que homens e mulheres não O seguissem motivados por uma razão errada. Vocês podem encontrá-lo constantemente parando e perguntando a homens e mulheres se O estavam seguindo pela razão certa. Ele parecia preocupado em não atrair aqueles que não tinham se apropriado do que era certo e verdadeiro. Não há maior paródia da vida de Cristo do que declarar que nosso bendito Senhor, no fim de Sua vida, ficou decepcionado quando Se viu abandonado por seus amigos; que Seu coração se partiu porque Ele nunca imaginara tal deserção, e que ela O surpreendeu. Não há nada mais falso, à luz do quadro que o Novo Testamento dá de Jesus. Lemos que nosso Senhor estava ciente dessa possibilidade desde o princípio e até mesmo a predisse. Ele Se esforçava constantemente para examinar Seus seguidores porque sabia com certeza o que iria acontecer no fim. Todos lembramos as maravilhosas palavras do Senhor no fim do sermão do Monte: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: nunca vos conheci apartai-vos de mim”. Eles pensavam que tudo estava bem; mas naquele dia descobrirão que estavam errados. Lembramos também da parábola da casa edificada sobre a rocha e da que foi edificada sobre a areia: “Prestem atenção como vocês escutam!” diz o Senhor. “Examinem-se e esquadrinhem-se a si mesmos”. Também lembramos da parábola do semeador, em que nosso Senhor parece estabelecer, como um princípio fundamental, que dentre todos os que O seguem, somente vinte e cinco por cento realmente têm apreendido a verdade. Quero também chamar a sua atenção para a parábola da rede que recolheu um certo número de peixes de toda qualidade — alguns bons, e outros maus —realçando a grande diferenciação entre as pessoas. Mas talvez a ilustração mais perfeita desse princípio pode se encontrada em um dos três quadros apresentados no fim do nono capitulo do Evangelho de Lucas. Vocês por certo se lembram do jovem que veio a Jesus dizendo: “Senhor ,eu te seguirei onde quer que fores”. Talvez acrescentando: “não sei quanto a essas outras pessoas, porém eu estou do Teu lado”. “Certamente”, alguém dirá, “esse é o tipo de homem que a Igreja de Deus está buscando hoje em dia. Certamente nosso Senhor o recebeu de braços abertos!” Mas foi a esse homem que Jesus disse: “As raposas tem covis e as aves do céu ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. Cristo Se volta para esse zelote, e diz: “Você esta cheio de zelo, entusiasmo e êxtase, mas realmente entende o que significa Me seguir? Significa ostracismo, e talvez renúncia às coisas que mais valoriza na vida. Certifique-se de que sabe exatamente o que significa discipulado cristão”. Ao ler os Evangelhos, vocês verão que nosso Senhor estava constantemente advertindo as pessoas, e esclarecendo que havia a possibilidade de alguém segui-lO motivado por uma razão errada ou espúria.
Os escritores das Epístolas reiteraram a mesma mensagem, inculcando-a nos cristãos da Igreja Primitiva.
Não seria bom que examinássemos a nós mesmos, fazendo a mesma pergunta, ou seja, se O estamos seguindo motivados por uma razão certa ou errada? Por que estamos seguindo a Jesus? Qual é o significado exato que vemos em nossa ligação com a igreja que freqüentamos? Essa é a pergunta que eu gostaria de examinar com vocês à luz deste texto. Sempre achei que este capítulo (João 6) é um exemplo clássico de todo esse assunto. O evangelista, sob inspiração divina, parece ter reunido neste capítulo a maior das razões falsas ou espúrias pelas quais homens se contentam em seguir a Cristo : todas estão agrupadas aqui. Observe a divisão do texto.
“Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás”. Por outro lado os doze permaneceram. Aqui está a divisão — os muitos que voltaram atrás e os poucos que permaneceram. Muitos O tinham seguido pela razão errada. Poucos O seguiram e O acompanharam motivados pela razão certa e verdadeira.
Vamos examinar, antes de tudo, algumas das razões erradas pelas quais homens seguem a Jesus Cristo. Existem pessoas que se unem a uma igreja pela simples razão que muitos outros estão fazendo a mesma coisa. Vemos claramente no Novo Testamento, bem como na história subseqüente da Igreja Cristã, uma vasta expressão de psicologia das massas. Há pessoas que sempre estão prontas a se unirem a uma multidão, e sempre ficam fascinadas por aquilo que todos os demais parecem estar fazendo. Há pessoas que estão numa igreja pela simples razão que alguém as levou ou então viram outras pessoas indo a essa igreja. Nunca perguntaram a si mesmas: “Porque estou na igreja?” Parece ser a coisa certa a fazer: os pais e os avós fizeram isso; é uma tradição em sua localidade; outros fazem isso, e, portanto, elas também fazem. Há pessoas que simplesmente “nadam com a corrente”. Fazem algo porque outras pessoas estão fazendo aquilo. Deus permita que nenhum de nós nesta igreja irrefletidamente, sem jamais ter considerado o significado de ser membro de igreja, e o que está envolvido. Houve muitos que seguiram o Senhor simplesmente porque viram que as multidões O rodeavam. Que o Senhor nos liberte de ser parte desse grupo!
Outra razão foi mencionada pelo Senhor no versículo 26: “Na verdade na verdade vos digo que me buscais, não pelo sinais que vistes, mas porque comeste do pão, e vos saciaste”. Que Ele quis dizer com isso? Ele estava sugerindo que essas pessoas tinham uma razão puramente mercenária e materialista para segui-lO. Vieram correndo após o Senhor, e aparentemente O estavam adorando; mas não estavam realmente interessadas no aspecto espiritual, no divino e no sobrenatural. Por que O seguiram? Porque receberam dEle aquilo que as atraía — os pães. Estavam ansiosas por alimento, e por essa razão egoísta é que seguiram a Jesus, porque receberam dEle aquilo que desejavam. Não sei se esta razão é uma razão muito comum para que as pessoas se unam à Igreja, pois a religião não é tão popular hoje em dia como era no passado; porém temos que concordar que talvez a verdadeira tragédia era que os homens tinham a tendência de se unirem à Igreja porque ela lhes dava posição, reputação, poder e influência. Infelizmente muitos há que se uniram à Igreja pelo motivo que isso beneficiaria seus negócios ou sua profissão; fizeram uso da Igreja para o avanço de seus interesses ou desejos pessoais. São as pessoas que seguem a Cristo porque desejam comer do pão que Ele dá, porque querem se satisfazer. Talvez devêssemos incluir nesta categoria aqueles que seguem a Cristo porque estão interessados na doutrina do perdão dos pecados, e porque querem tirar proveito da Sua cruz; eles não querem sofrer o castigo eterno; não gostam da noção do inferno. Cristo anuncia perdão dos pecados, e eles O seguem, não porque desejam santidade ou porque realmente O amam, mas só porque temem o inferno e estão com medo do castigo eterno. Esta são as pessoas que tornam até mesmo a cruz de Cristo em mercadoria, e a usam como um manto para cobrir seus pecados. Usam a cruz para o proveito dos seus próprios desejos pessoais e mercenários. Seguem a Cristo somente para os seus próprios fins, e não porque Ele é o Filho de Deus e o Salvador do mundo.
E então, no versículo 2 deste capítulo, encontramos outra coisa muito interessante: “E grande multidão o seguia; porque via os sinais que operava sobre os enfermos”. Ora, este é um tipo de pessoa muito interessante, e que encontramos com freqüência nas páginas do Novo Testamento. Temos uma descrição do mesmo tipo de pessoa no segundo capítulo: “E, estando ele em Jerusalém pela páscoa, durante a festa, muitos vendo os sinais que fazia, creram no seu nome” (João 2:23). Este grupo dos que estão preocupados com os aspectos externos da região parece ser bem grande na época atual. São as pessoas que estão interessadas no fenômeno da religião parece ser bem grande na época atual. São as pessoas que estão interessadas no fenômeno da religião; elas seguem a Jesus porque vêem os milagres que Eles realiza. O poder miraculoso de Cristo as atrai. Se há manifestação de poder sobrenatural, elas sempre estão lá. São atraídas pelo fenômeno da religião, e não pela verdade da religião. Nosso Senhor Jesus Cristo realizou muitos milagres; e Ele o fez deliberadamente. Seu alvo e propósito ao realizar milagres foi manifestar o Seu poder. Todavia, notamos algo interessante. Ele não confia naqueles que estão mais interessados nos milagres do que nEle mesmo ou naqueles que estão mais interessados no fenômeno do que no poder. Jesus Cristo, pela graça de Deus, ainda opera milagres neste mundo pecaminoso, e ainda transforma a vida das pessoas. Ainda existem fenômenos gloriosos em conexão com o reino de Deus em Cristo Jesus. Mas Cristo, o Filho de Deus, não veio à terra simplesmente para realizar milagres ou fazer obras maravilhosas, e assim manifestar o Seu poder; e nem veio apenas para mudar nossas vidas; Ele veio, antes de tudo, para purificar para Si um povo Seu especial, zeloso de boas obras. Ele veio para reconciliar os homens com Deus, e para nos levar ao conhecimento da verdade. Devemos nos precaver de segui-lO simplesmente porque estamos mais interessados no fenômeno do que na verdade em si.
E isso me traz ao último grupo, que é encontrado nos versículos 14 e 15, onde lemos: “Vendo pois aqueles homens o milagre que se Jesus tinha feito, diziam: este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo. Sabendo pois Jesus que haviam de vir arrebatá-lo, para o fazerem rei, tornou a retirar-se, ele só, para o monte”. Temos aqui um grupo muito interessante de pessoas, que O seguem porque estão completamente enganadas a respeito de Cristo e de Sua mensagem. Qual foi o milagre que tinham visto? Foi o dos cinco mil sendo alimentados. Essas pessoas, de acordo com o contexto, tinham seguido o Senhor por alguns dias ou talvez semanas. Tinham ouvido as Suas Palavras; mas foi somente quando viram o milagre que disseram: “Este é o Messias. Este é o profeta que havia de vir”. Então lemos que conspiraram entre si e concordaram que deviam se aproximar dEle e levá-lO à força para Jerusalém, a fim de O proclamarem rei. Jesus, porém, percebeu sua intenções e Se retirou para um monte, permanecendo ali sozinho. Aqueles judeus tinham uma concepção política do reino de Deus. Pensavam no Messias como um libertador político, como alguém que os libertaria da escravidão de Roma e Se estabeleceria como rei em Jerusalém, onde reinaria supremo sobre todos os Seus inimigos e sobre o mundo todo. E esses homens se aproximaram dEle com essa idéia em suas mentes; mas Ele os repeliu. E aqueles homens acabaram sendo parte do grupo que se afastou dEle. Quantos, ainda hoje, pensam em Jesus como um revolucionário político, ou um reformador social! Quantos ainda hoje pensam no reino de Deus como sendo primeiramente secular e político! Quantas pessoas pensam que uma das funções principais da Igreja é tratar da condição social do mundo, e assumir o seu lugar nos vários setores e níveis da vidahumana, e decidir as grandes questões relacionadas com a indústria e a política e assuntos internacionais! Quantas pessoas ainda pensam em Cristo como um reformador social ou agitador político! E quantas outras pensam nEle como o pálido Galileu que mantém os homens à distância, e que é refinado demais até para tocar no mundo. Há os que pensam nEle como o grande Artista, ou o grande Asceta ou o incomparável Filósofo. Há os que se aproximam da Bíblia como se fosse apenas uma coletânea de jóias literárias. Se tirássemos todos esses grupos da Igreja, eu me pergunto quantos restariam! Receio que esse“muitos” assumiria proporções alarmantes!
Creio que não preciso me justificar se lhes fizer a pergunta: “Vocês seguem a Cristo? Já se defrontaram com esta pergunta? Já encararam estas possibilidades face a face?” Essas pessoas que eu mencionei estavam seguindo a Cristo. Tinham estado com Ele por vários dias; consideravam-se Seus discípulos. Mas então lemos que muitos dos Seus discípulos, Seus seguidores, aqueles que tinham ouvido Suas palavras, já não andavam mais com Ele. Porque é que nós O seguimos? Somos motivados pela razão correta ou somos culpados de seguirmos motivados por uma dessas razões falsas? Qual é a verdadeira razão para seguirmos a Cristo? A resposta naturalmente está nas grandes palavras de Simão Pedro: “Então disse Jesus aos doze: quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe pois Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Ora, podemos nos alegrar com esta resposta, pois, como o contexto nos revela, o Senhor testou a fé do doze. Muitos estavam se afastando. “Lá vão eles; estão vendo?” diz o Senhor, voltando-Se para os doze. “Eles ouviram os mesmo sermões que vocês, e viram os mesmos milagres; vocês estão exatamente na mesma posição. Querem ir com eles? Vocês tem Me seguido pela mesma razão que eles? Porque, se é assim, prefiro que não Me sigam. Vocês também querem retirar-se?” E Simão Pedro respondeu com confiança e com certeza. Temos aqui, em suas palavras, o mínimo irreduzível do verdadeiro discípulado cristão. Que significam essas palavras de Pedro? Precisamos dividi-las e analisá-las. “Senhor, para quem iremos nós?” ele indaga. Devemos interpretar essa frase unicamente de uma forma emocional? Como se Pedro tivesse se voltado para o Senhor, dizendo: “Tivemos tantos momentos maravilhoso juntos, e a vida seria impossível sem Ti”. Era simplesmente uma ligação emocional? Sim, era, mas também era muito mais que isso. Era uma definição de fé básica e profunda. “A quem iremos, se Te deixarmos?” Porque ir a alguém? Por que Pedro faz essa pergunta? Porque aqui descobrimos a declaração primária da confissão cristã. Pedro pergunta: “A quem iremos nós?” porque entende que não pode salvar-se a si mesmo. Pedro havia compreendido há muito tempo sua própria condição sem esperança. Ele estava buscando salvação em alguém fora de si mesmo. E, tendo enfrentado a lei, e tendo visto a João Batista, e tendo contemplado a face de Cristo, ele tinha reconhecido há muito tempo a sua condição diante de Deus. Junto com os seus compatriotas, ele estivera aguardando o Messias. Todavia, Pedro não se limita a admitir que não pode salvar a si mesmo. Ele também declara aqui, peremptoriamente, que tem certeza absoluta que ninguém mais pode salvá-lo senão Cristo. A quem mais podemos seguir? Não há nenhum outro. “Eu não posso me salvar a mim mesmo e nenhum homem pode me salvar”, diz Pedro. Sempre há esta declaração negativa na confissão cristã primária e básica. Eu me pergunto em quê, ou em quem, estamos depositando a nossa confiança e a nossa fé? O homem que tem qualquer alternativa concebível para Cristo não é um cristão. A que nos apegamos, quando pensamos em morte e eternidade? Ainda estamos confiando nessa ilusão de um mundo que está, supostamente, avançando e se desenvolvendo? Ainda imaginamos, credulamente, que meras realizações intelectuais podem nos preparar para o céu?
“Não posso salvar a mim mesmo”, diz Pedro. “Homens não podem me salvar. O mundo não pode me salvar. Mas eu creio que Tu podes”. E ele dá esta razão: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Tu tens as palavras da vida eterna”. Na face de Jesus Cristo, Pedro viu a Deus.
Vocês já tomaram uma posição com Simão Pedro? Já compreenderam sua própria falência e pecaminosidade? Já disseram a Cristo: “Tu tens que me salvar, e Tu somente?” Pedro não se contenta em apenas declarar que Cristo é o Filho do Deus vivo. Ele diz: “Não podemos Te deixar, pois Tu tens as palavras da vida eterna”. Foram essas palavras de Cristo que fizeram com que os outros se retirassem. Essas pessoas tinham seguido a Cristo; tinham escutado Seus sermões; tinham observado Seus milagres. Então nosso Senhor, em uma de Suas mensagens, comparou-Se a Si mesmo com o maná mandado do céu, e continuou dizendo que Ele era o pão da vida, e quem não comesse da Sua carne jamais poderia ter vida eterna. “Muitos pois dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: duro é este discurso”. E finalmente acabaram se afastando por causa dessas palavras. Ele falou que os homens deviam comer da Sua carne e beber do Seu sangue, e estabeleceu isso como uma condição essencial para a vida eterna. “Como pode ser isto?” perguntaram. Foram essas palavras que os ofenderam. Pedro, no entanto, diz: “Eu não entendo tudo, mas eu creio”. Meus amigos, não basta atribuirmos divindade a Jesus de Nazaré de forma singular. Não é suficiente que creiamos sem Seus milagres e em Suas obras sobrenaturais. Nós somente estamos seguindo Cristo, real e verdadeiramente, quando cremos que é Ele quem opera a nossa salvação através do Seu corpo quebrado e Seu sangue derramado. “Eu não entendo a doutrina da expiação; não posso compreender seu significado; parece absurda, e quase imoral”, vocês dizem. Não estou pedindo que entendem isso tudo. Simão Pedro não entendia, mas assim mesmo a aceitou, e entregou a sua vida a Cristo. Jesus Cristo Se oferece a nós, crucificado e ressurreto — alguém que foi ferido pelos açoites que nós merecíamos, que deu Sua vida em resgate por muitos, que, pelo Seu Espírito Santo, quer habitar em nós; que não só nos liberta da culpa do nosso pecado passado, mas que também nos liberta do poder do pecado, e da poluição do pecado, e que está adiante do nós, dizendo: “Apropriem-se de Mim”.
“Quereis vós também retirar-vos?” Milhares estão se retirando. Na verdade, esta nação e o mundo estão se tornando cada vez mais ímpios. O homem, em seu orgulho intelectual, está rejeitando a Palavra de Deus. “Quereis também vos retirar-vos?” Que todos nos voltemos para Ele, como Simão Pedro, dizendo: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus”.

* Sermão pregado na manhã da primeira visita do Dr. Lloyd-Jones à Capela de Westminster, no dia 29 de dezembro de 1935; e anteriormente, em Sandfields.