sexta-feira, 28 de maio de 2010

UMA VEZ SALVO SALVO PARA SEMPRE?


(Parte 2)
Por Silas Roberto Nogueira
Material apresentado originalmente na 
1° Igreja Batista em Suzano em Julho de 2009



4. BASES BÍBLICAS E TEOLÓGICAS
A. BASES BÍBLICAS

Quanto às bases bíblicas, disse John Gill que “a doutrina da perseverança final dos santos, em graça, até a glória, é uma doutrina tão bem expressa nas Sagradas Escrituras, registrada ali com clareza comparável a um raio de sol, algo que tem uma evidência tão abrangente, que dificilmente se encontre em alguma outra doutrina...” [[i]]. Entre as inúmeras passagens que podem ser citadas para consubstanciar o que foi dito acima, menciono as seguintes:

·       João 3:18  Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. 
·       João 3:36  Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus. 
·       João 5: 24  Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida. 
·       João 6: 38-40  E a vontade do Pai, que me enviou, é esta: que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último Dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último Dia. 
·        João 10:27-29  As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará das minhas mãos. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las das mãos de meu Pai.  
·       João 17: 11- 15  E eu já não estou mais no mundo; mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós.  Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome. Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse. Mas, agora, vou para ti e digo isto no mundo, para que tenham a minha alegria completa em si mesmos.  Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo.  Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.
·       Romanos 5:10  Porque, se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando [já] reconciliados, seremos salvos pela sua vida. 
·       Romanos 8:28-30  Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.
·       Romanos 11:29  porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis.   
·       Filipenses 1:6   Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus. 
·        Colossenses 2:11-15  Nele, também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo, tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos. E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos;  tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu- o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.
·        1 Tessalonicenses 5:23,24 O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.24  Fiel é o que vos chama, o qual também o fará.
·        2 Tessalonicenses 3:3  Todavia, o Senhor é fiel; ele vos confirmará e guardará do Maligno. 
·       2 Timóteo 4:18  O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém! 
·       1 Pedro 1:5  que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo. 
·       Judas v. 24  Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória...

B. BASES TEOLÓGICAS

Esta doutrina é estabelecida não só por citações diretas das Escrituras como exemplificadas acima, mas por outras doutrinas a qual está ligada, constituindo-se uma inquebrantável corrente que nos mantêm seguros. No passado, quando John Owen (1616-1683) se propôs a defender a doutrina da Perseverança dos Santos do cerrado ataque do arminiano John Goodwinn (1593-1665) argumentou que ela se baseava, entre outras coisas, nas perfeições de Deus. Mais tarde, John Gill (1697-1771), teólogo batista, antecessor a C. H. Spurgeon no Tabernáculo Batista em Londres fez o mesmo dizendo inclusive que quem prega o contrário, isto é, que o salvo pode vir a perder-se, desonra tais perfeições divinas.

·      A doutrina da Perseverança dos Santos repousa na imutabilidade de Deus. A imutabilidade, como disse A. W. Pink “é uma das excelências do Criador que O distinguem de todas as Suas criaturas.” [[ii]] A imutabilidade divina quer dizer que Deus não é sujeito a qualquer alteração em Seu Ser, atributos, Seus decretos ou determinações, propósitos e promessas (Tg.1:17; Mal.3:6). Aquilo que Ele decide fazer Ele, de fato faz, e nunca, jamais em tempo algum será frustrado: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Isaías 46:9,10). A salvação é uma decisão eterna da parte de Deus, Ele decide salvar e salva (Ef.1:4-12; 2 Ts.2:13; 2 Tm.1:9,10), por conseguinte, a salvação não pode ser perdida, visto que Deus não muda: “Aquele” – Paulo está convicto disso – “que começou a boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus”. (Fp.1:6; cf. Rm.8:28-30). 
·      A doutrina da Perseverança dos Santos repousa no amor de Deus. A Bíblia diz que Deus é amor (1 Jo.4:8,16). A Bíblia descreve esse amor como eterno, (Jr.31:3), portanto, um amor perpétuo. Depois, o amor de Deus não é sujeito à influência alheia, isto é, não é atraído ou motivado por algo naquele que é objeto do seu amor: “Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o SENHOR vos amava...”( Dt. 7:7,8). É preciso dizer também que não é um amor que pode sofrer perca em sua intensidade, é imutável e infinito (Tg.1:17; Ef. 2:4;Jo.3:16; Ef. 3:19). Não é um amor caprichoso ou fraqueza complacente, mas um amor santo. João declarou que Deus é luz (1 Jo.1:5) e depois que é amor (1 Jo.4:8). Sobre isso comentou J. I. Packer “o Deus que é amor é primeiro e acima de tudo luz, e quaisquer idéias sentimentais a respeito desse amor como sendo algo indulgente, de benevolente mansidão, divorciado dos padrões e idéias morais, devem ser abolidas desde o princípio. O amor de Deus é um amor santo.” [[iii]] As Escrituras ainda revelam que o amor divino é infalível, Is. 49:15,16. Por fim, a Bíblia deixa evidente que o amor divino é inalienável, isto é, do qual ninguém pode nos separar, Rom.8:28-39. Nossa salvação provém do eterno, gratuito, imutável, infinito, santo, infalível e inalienável amor de Deus que “nos amou primeiro” e do qual ninguém nem nada poderá nos separar (Jd.1).
·      A doutrina da Perseverança dos Santos repousa na onipotência de Deus. Diversas vezes nas Escrituras nosso Deus é descrito como “Todo-poderoso” (Gn.17:1; Ap.1:8). Nada e ninguém têm poder maior do que nosso Deus, e o Senhor Jesus é quem declara que nossa segurança repousa em sua capacidade de nos guardar: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar”. (Jo.10:28,29) Pedro é quem declara que nós “somos guardados pelo poder de Deus” (1 Pe.1:5; cf. Jd. 24). A perseverança na salvação não depende do poder humano, mas no infalível poder de Deus. Se o homem não tem poder para salvar-se a si mesmo é certo que também não tenha poder para manter-se salvo. Por outro lado, somos salvos por Deus e somos igualmente mantidos salvos por Ele até o fim (Jo.17). 
·      A doutrina da Perseverança dos Santos repousa na providência de Deus. O grande teólogo batista Dr. A. H. Strong declarou: “como a vida natural não pode sustentar-se a si mesma, mas em Deus “vivemos, nos movemos e existimos” (At.17:28), do mesmo modo a vida espiritual não pode sustentar-se a si mesma, e Deus é quem mantém a fé, o amor e a santa atividade que ele originou. Se ele preserva a nossa vida natural, podemos muito mais esperar que preserve a espiritual”. [[iv]]

A doutrina da Perseverança dos Santos é estabelecida ainda sobre as doutrinas:
·      Da Eleição. Eleição é escolha, e segundo Paulo Deus nos escolheu para a salvação (2 Ts 2:13). Na Sua eterna decisão de escolher alguns para a salvação certamente já incluiu tudo o que diz respeito à manutenção dessa salvação. É ridículo pensar que aqueles que Deus escolheu antes da fundação do mundo pela Sua graça e enviou Seu Filho Amado para os redimir, não tenha igualmente planejado os meios de fazê-los permanecer em santidade até glorificá-los.
·      Da regeneração. Podemos dizer que, segundo as Escrituras, o que acontece na regeneração dura eternamente, não é nem pode ser momentâneo.  Veja o que diz o apóstolo Pedro “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente.” (1 Pedro 1:23; 1 Jo. 3:9 ). Perder a salvação é morrer espiritualmente, e segundo Pedro a semente que nos gerou é incorruptível, isto é, diferente da do homem, dos quais procedemos pela carne. O ato da regeneração não se repete e não pode ser repetido, assim o crente não pode, uma vez regenerado, perder a sua salvação.
·      Da União com Cristo [união mística]. Diz Louis Berkhof, teólogo presbiteriano que “os que estão unidos a Cristo pela fé, torna-se participantes do seu Espírito e, assim, tornam-se um corpo com Ele, pulsando neles a vida do Espírito. Compartem a vida de Cristo, e, porque Cristo vive, eles vivem também. É impossível que eles sejam retirados do corpo e, assim frustrem o ideal divino. A união é permanente, visto que se origina numa causa permanente e imutável – o livre e eterno amor de Deus”.[[v]] Cf. Gál. 2:20; Ef. 3:17; 1:13;4:30; Rom. 8:9,11,15-17; Ef.5:30; 1 Co. 6:15; Col. 3:3,4; Jo. 17:20-23.
·      Da Propiciação.  Quanto a este ponto, A. A. Hodge, teólogo presbiteriano, observou que a doutrina da perseverança é inferência necessária das doutrinas bíblicas, entre elas a da propiciação. Diz ele “da propiciação, na qual Cristo cumpriu todas as obrigações que eles [os santos] tinham para com a lei como aliança de vida, e alcançou para eles todas as bênçãos prometidas na aliança; se, pois, um deles falhasse, o seguro fundamento de todos seria abalado, Sal. 53:6,11; Mt. 20:28; 1 Pe. 2:24.” [[vi]]
·      Da Justificação. Justificação é o ato de Deus no qual Ele perdoa e aceita os eleitos como justos por causa da justiça de Cristo. (2 Cor.5:21). Na justificação somos reconciliados permanentemente com Deus, e não momentaneamente. (Rom.5:10). Todo aquele que foi justificado por Deus pode estar seguro de que não será condenado no dia do Juízo Final, afinal Deus deu Sua Palavra. (Rom.5:1-5; 8:30). Afirmar o contrário é dizer que Deus é mutável.  
·      Habitação e Selo do Espírito Santo. A Bíblia diz que o eleito recebe a habitação do Espírito Santo e isto é um sinal de que faz parte do povo de Deus (Rm.8:9). Esta habitação por si só concede segurança ao cristão de que, sendo propriedade de Deus, não poderá perder-se. No entanto, a habitação do Espírito é uma garantia ou primeira prestação da redenção final prometida e que será de fato efetivada, Jo. 14:16; 2 Co. 1:21,22; 5:5; Ef. 1:14. Se um santo pudesse perder a salvação a habitação do Espírito como selo e penhor de nada adiantaria.
·      Da Adoção ou Filiação. James I. Packer diz que a adoção é o “mais alto privilégio que o Evangelho oferece” [[vii]]. Deus concede tal privilégio [na ARA “poder”, na NVI, “direito”] a todo aquele que crê em Jesus Cristo Seu Filho (Jo.1:12; Rom.8:17; Gál. 3:26; 1 Jo.3:1,2). Como vantagem da adoção o crente pode estar seguro do amor de Deus (1 Jo. 3:1,2), da presença confirmadora do Espírito Santo (Rom.8:15), de que é herdeiro com Cristo (Rom.8:17; 1 Co.3:22), de que será alvo da disciplina divina (Hb.12:6) e acima de tudo, assim como se dá entre nós, a adoção é de caráter irrevogável. (Rom.11:29). Assim, uma vez feito filho de Deus não podemos descair dessa posição.  
·      Da intercessão de Cristo. A Bíblia apresenta Cristo como o intercessor do Seu povo e Sua intercessão por ele é sempre eficaz, Jo. 11:42; cap. 17; Hb. 7:25.  Aquele que defende a perca da salvação está dizendo que a intercessão de Cristo pelos Seus não é definitivamente eficaz. É claro que se a Sua intercessão pelos santos é ineficaz, podendo um deles que seja vir a perder-se, toda a obra realizada por nós como Sumo- Sacerdote também o é e estamos todos irremediavelmente perdidos.

5. CERTEZA DA SALVAÇÃO PODE SER ABALADA

 A antiga Confissão de Fé Batista de 1689 (cap.18, § 4) trata de três instâncias em que o crente pode ter a certeza da sua salvação abalada:
Os crentes verdadeiros podem ter a sua certeza de salvação abalada, diminuída ou interrompida, de diversas maneiras:
·      por negligência na preservação dessa certeza; por caírem em algum pecado específico, que fere a consciência e entristece o Espírito;  
[2 Pedro 1:5-10; Sl.51:8,12,14; Ef.4:30]
·      por uma tentação súbita ou veemente; 
[Mat.26:31-35 (Luc.22:31,32) com 69-72]
·      por Deus retirar de sobre eles a luz da sua presença, permitindo que mesmo os que O temem caminhem em trevas, que não tenham luz.
[Sl.77:7,8; 31:22]
Contudo, eles jamais ficam destituídos da divina semente e da vida de fé, do amor de Cristo e dos irmãos, da sinceridade de coração e da consciência do dever. É a partir dessas graças, por obra do Espírito, que a certeza da salvação pode ser revificada, no devido tempo; e, mediante elas, os crentes são preservados de um total desespero.

continua...

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[i] Teologia Sistemática, F. Ferreira, pág. 895
[ii] Os Atributos de Deus, A. W. Pink, pág. 37. 
[iii] O Conhecimento de Deus, pág. 109.
[iv] Teologia Sistemática, Vol. II, pág. 627.
[v] Teologia Sistemática, pág. 551.
[vi] Esboços de Teologia Sistemática, pág. 756
[vii] O Conhecimento de Deus, J. I. Packer, pág.188