sexta-feira, 28 de maio de 2010

UMA VEZ SALVO SALVO PARA SEMPRE?


(Parte 2)
Por Silas Roberto Nogueira
Material apresentado originalmente na 
1° Igreja Batista em Suzano em Julho de 2009



4. BASES BÍBLICAS E TEOLÓGICAS
A. BASES BÍBLICAS

Quanto às bases bíblicas, disse John Gill que “a doutrina da perseverança final dos santos, em graça, até a glória, é uma doutrina tão bem expressa nas Sagradas Escrituras, registrada ali com clareza comparável a um raio de sol, algo que tem uma evidência tão abrangente, que dificilmente se encontre em alguma outra doutrina...” [[i]]. Entre as inúmeras passagens que podem ser citadas para consubstanciar o que foi dito acima, menciono as seguintes:

·       João 3:18  Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. 
·       João 3:36  Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus. 
·       João 5: 24  Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida. 
·       João 6: 38-40  E a vontade do Pai, que me enviou, é esta: que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último Dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último Dia. 
·        João 10:27-29  As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará das minhas mãos. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las das mãos de meu Pai.  
·       João 17: 11- 15  E eu já não estou mais no mundo; mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós.  Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome. Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse. Mas, agora, vou para ti e digo isto no mundo, para que tenham a minha alegria completa em si mesmos.  Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo.  Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.
·       Romanos 5:10  Porque, se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando [já] reconciliados, seremos salvos pela sua vida. 
·       Romanos 8:28-30  Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.
·       Romanos 11:29  porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis.   
·       Filipenses 1:6   Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus. 
·        Colossenses 2:11-15  Nele, também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo, tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos. E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos;  tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu- o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.
·        1 Tessalonicenses 5:23,24 O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.24  Fiel é o que vos chama, o qual também o fará.
·        2 Tessalonicenses 3:3  Todavia, o Senhor é fiel; ele vos confirmará e guardará do Maligno. 
·       2 Timóteo 4:18  O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém! 
·       1 Pedro 1:5  que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo. 
·       Judas v. 24  Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória...

B. BASES TEOLÓGICAS

Esta doutrina é estabelecida não só por citações diretas das Escrituras como exemplificadas acima, mas por outras doutrinas a qual está ligada, constituindo-se uma inquebrantável corrente que nos mantêm seguros. No passado, quando John Owen (1616-1683) se propôs a defender a doutrina da Perseverança dos Santos do cerrado ataque do arminiano John Goodwinn (1593-1665) argumentou que ela se baseava, entre outras coisas, nas perfeições de Deus. Mais tarde, John Gill (1697-1771), teólogo batista, antecessor a C. H. Spurgeon no Tabernáculo Batista em Londres fez o mesmo dizendo inclusive que quem prega o contrário, isto é, que o salvo pode vir a perder-se, desonra tais perfeições divinas.

·      A doutrina da Perseverança dos Santos repousa na imutabilidade de Deus. A imutabilidade, como disse A. W. Pink “é uma das excelências do Criador que O distinguem de todas as Suas criaturas.” [[ii]] A imutabilidade divina quer dizer que Deus não é sujeito a qualquer alteração em Seu Ser, atributos, Seus decretos ou determinações, propósitos e promessas (Tg.1:17; Mal.3:6). Aquilo que Ele decide fazer Ele, de fato faz, e nunca, jamais em tempo algum será frustrado: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Isaías 46:9,10). A salvação é uma decisão eterna da parte de Deus, Ele decide salvar e salva (Ef.1:4-12; 2 Ts.2:13; 2 Tm.1:9,10), por conseguinte, a salvação não pode ser perdida, visto que Deus não muda: “Aquele” – Paulo está convicto disso – “que começou a boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus”. (Fp.1:6; cf. Rm.8:28-30). 
·      A doutrina da Perseverança dos Santos repousa no amor de Deus. A Bíblia diz que Deus é amor (1 Jo.4:8,16). A Bíblia descreve esse amor como eterno, (Jr.31:3), portanto, um amor perpétuo. Depois, o amor de Deus não é sujeito à influência alheia, isto é, não é atraído ou motivado por algo naquele que é objeto do seu amor: “Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o SENHOR vos amava...”( Dt. 7:7,8). É preciso dizer também que não é um amor que pode sofrer perca em sua intensidade, é imutável e infinito (Tg.1:17; Ef. 2:4;Jo.3:16; Ef. 3:19). Não é um amor caprichoso ou fraqueza complacente, mas um amor santo. João declarou que Deus é luz (1 Jo.1:5) e depois que é amor (1 Jo.4:8). Sobre isso comentou J. I. Packer “o Deus que é amor é primeiro e acima de tudo luz, e quaisquer idéias sentimentais a respeito desse amor como sendo algo indulgente, de benevolente mansidão, divorciado dos padrões e idéias morais, devem ser abolidas desde o princípio. O amor de Deus é um amor santo.” [[iii]] As Escrituras ainda revelam que o amor divino é infalível, Is. 49:15,16. Por fim, a Bíblia deixa evidente que o amor divino é inalienável, isto é, do qual ninguém pode nos separar, Rom.8:28-39. Nossa salvação provém do eterno, gratuito, imutável, infinito, santo, infalível e inalienável amor de Deus que “nos amou primeiro” e do qual ninguém nem nada poderá nos separar (Jd.1).
·      A doutrina da Perseverança dos Santos repousa na onipotência de Deus. Diversas vezes nas Escrituras nosso Deus é descrito como “Todo-poderoso” (Gn.17:1; Ap.1:8). Nada e ninguém têm poder maior do que nosso Deus, e o Senhor Jesus é quem declara que nossa segurança repousa em sua capacidade de nos guardar: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar”. (Jo.10:28,29) Pedro é quem declara que nós “somos guardados pelo poder de Deus” (1 Pe.1:5; cf. Jd. 24). A perseverança na salvação não depende do poder humano, mas no infalível poder de Deus. Se o homem não tem poder para salvar-se a si mesmo é certo que também não tenha poder para manter-se salvo. Por outro lado, somos salvos por Deus e somos igualmente mantidos salvos por Ele até o fim (Jo.17). 
·      A doutrina da Perseverança dos Santos repousa na providência de Deus. O grande teólogo batista Dr. A. H. Strong declarou: “como a vida natural não pode sustentar-se a si mesma, mas em Deus “vivemos, nos movemos e existimos” (At.17:28), do mesmo modo a vida espiritual não pode sustentar-se a si mesma, e Deus é quem mantém a fé, o amor e a santa atividade que ele originou. Se ele preserva a nossa vida natural, podemos muito mais esperar que preserve a espiritual”. [[iv]]

A doutrina da Perseverança dos Santos é estabelecida ainda sobre as doutrinas:
·      Da Eleição. Eleição é escolha, e segundo Paulo Deus nos escolheu para a salvação (2 Ts 2:13). Na Sua eterna decisão de escolher alguns para a salvação certamente já incluiu tudo o que diz respeito à manutenção dessa salvação. É ridículo pensar que aqueles que Deus escolheu antes da fundação do mundo pela Sua graça e enviou Seu Filho Amado para os redimir, não tenha igualmente planejado os meios de fazê-los permanecer em santidade até glorificá-los.
·      Da regeneração. Podemos dizer que, segundo as Escrituras, o que acontece na regeneração dura eternamente, não é nem pode ser momentâneo.  Veja o que diz o apóstolo Pedro “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente.” (1 Pedro 1:23; 1 Jo. 3:9 ). Perder a salvação é morrer espiritualmente, e segundo Pedro a semente que nos gerou é incorruptível, isto é, diferente da do homem, dos quais procedemos pela carne. O ato da regeneração não se repete e não pode ser repetido, assim o crente não pode, uma vez regenerado, perder a sua salvação.
·      Da União com Cristo [união mística]. Diz Louis Berkhof, teólogo presbiteriano que “os que estão unidos a Cristo pela fé, torna-se participantes do seu Espírito e, assim, tornam-se um corpo com Ele, pulsando neles a vida do Espírito. Compartem a vida de Cristo, e, porque Cristo vive, eles vivem também. É impossível que eles sejam retirados do corpo e, assim frustrem o ideal divino. A união é permanente, visto que se origina numa causa permanente e imutável – o livre e eterno amor de Deus”.[[v]] Cf. Gál. 2:20; Ef. 3:17; 1:13;4:30; Rom. 8:9,11,15-17; Ef.5:30; 1 Co. 6:15; Col. 3:3,4; Jo. 17:20-23.
·      Da Propiciação.  Quanto a este ponto, A. A. Hodge, teólogo presbiteriano, observou que a doutrina da perseverança é inferência necessária das doutrinas bíblicas, entre elas a da propiciação. Diz ele “da propiciação, na qual Cristo cumpriu todas as obrigações que eles [os santos] tinham para com a lei como aliança de vida, e alcançou para eles todas as bênçãos prometidas na aliança; se, pois, um deles falhasse, o seguro fundamento de todos seria abalado, Sal. 53:6,11; Mt. 20:28; 1 Pe. 2:24.” [[vi]]
·      Da Justificação. Justificação é o ato de Deus no qual Ele perdoa e aceita os eleitos como justos por causa da justiça de Cristo. (2 Cor.5:21). Na justificação somos reconciliados permanentemente com Deus, e não momentaneamente. (Rom.5:10). Todo aquele que foi justificado por Deus pode estar seguro de que não será condenado no dia do Juízo Final, afinal Deus deu Sua Palavra. (Rom.5:1-5; 8:30). Afirmar o contrário é dizer que Deus é mutável.  
·      Habitação e Selo do Espírito Santo. A Bíblia diz que o eleito recebe a habitação do Espírito Santo e isto é um sinal de que faz parte do povo de Deus (Rm.8:9). Esta habitação por si só concede segurança ao cristão de que, sendo propriedade de Deus, não poderá perder-se. No entanto, a habitação do Espírito é uma garantia ou primeira prestação da redenção final prometida e que será de fato efetivada, Jo. 14:16; 2 Co. 1:21,22; 5:5; Ef. 1:14. Se um santo pudesse perder a salvação a habitação do Espírito como selo e penhor de nada adiantaria.
·      Da Adoção ou Filiação. James I. Packer diz que a adoção é o “mais alto privilégio que o Evangelho oferece” [[vii]]. Deus concede tal privilégio [na ARA “poder”, na NVI, “direito”] a todo aquele que crê em Jesus Cristo Seu Filho (Jo.1:12; Rom.8:17; Gál. 3:26; 1 Jo.3:1,2). Como vantagem da adoção o crente pode estar seguro do amor de Deus (1 Jo. 3:1,2), da presença confirmadora do Espírito Santo (Rom.8:15), de que é herdeiro com Cristo (Rom.8:17; 1 Co.3:22), de que será alvo da disciplina divina (Hb.12:6) e acima de tudo, assim como se dá entre nós, a adoção é de caráter irrevogável. (Rom.11:29). Assim, uma vez feito filho de Deus não podemos descair dessa posição.  
·      Da intercessão de Cristo. A Bíblia apresenta Cristo como o intercessor do Seu povo e Sua intercessão por ele é sempre eficaz, Jo. 11:42; cap. 17; Hb. 7:25.  Aquele que defende a perca da salvação está dizendo que a intercessão de Cristo pelos Seus não é definitivamente eficaz. É claro que se a Sua intercessão pelos santos é ineficaz, podendo um deles que seja vir a perder-se, toda a obra realizada por nós como Sumo- Sacerdote também o é e estamos todos irremediavelmente perdidos.

5. CERTEZA DA SALVAÇÃO PODE SER ABALADA

 A antiga Confissão de Fé Batista de 1689 (cap.18, § 4) trata de três instâncias em que o crente pode ter a certeza da sua salvação abalada:
Os crentes verdadeiros podem ter a sua certeza de salvação abalada, diminuída ou interrompida, de diversas maneiras:
·      por negligência na preservação dessa certeza; por caírem em algum pecado específico, que fere a consciência e entristece o Espírito;  
[2 Pedro 1:5-10; Sl.51:8,12,14; Ef.4:30]
·      por uma tentação súbita ou veemente; 
[Mat.26:31-35 (Luc.22:31,32) com 69-72]
·      por Deus retirar de sobre eles a luz da sua presença, permitindo que mesmo os que O temem caminhem em trevas, que não tenham luz.
[Sl.77:7,8; 31:22]
Contudo, eles jamais ficam destituídos da divina semente e da vida de fé, do amor de Cristo e dos irmãos, da sinceridade de coração e da consciência do dever. É a partir dessas graças, por obra do Espírito, que a certeza da salvação pode ser revificada, no devido tempo; e, mediante elas, os crentes são preservados de um total desespero.

continua...

_____________________________________
[i] Teologia Sistemática, F. Ferreira, pág. 895
[ii] Os Atributos de Deus, A. W. Pink, pág. 37. 
[iii] O Conhecimento de Deus, pág. 109.
[iv] Teologia Sistemática, Vol. II, pág. 627.
[v] Teologia Sistemática, pág. 551.
[vi] Esboços de Teologia Sistemática, pág. 756
[vii] O Conhecimento de Deus, J. I. Packer, pág.188

quarta-feira, 19 de maio de 2010

UMA VEZ SALVO, SALVO PARA SEMPRE?

(Parte 1)
Por Silas Roberto Nogueira
(Material apresentado originalmente na 1° Igreja Batista em Suzano em Julho de 2009)

O debate sobre a possibilidade de o crente perder ou não a salvação é antigo e atingiu seu clímax no séc. XVII.  Toda a polêmica está ligada ao nome de Jacob Van Harmazoon (1560-1609), mais conhecido (forma latinizada do seu nome) como Jacobus Arminius. Arminius foi um teólogo holandês que, embora educado no calvinismo sob Teodoro de Beza, se opôs à posição  extremada do calvinismo dos seus dias, o supralapsarianismo. [[i]] No entanto, ele não se desfez da doutrina da segurança eterna dos santos na qual creu até o fim dos seus dias, a apostasia nesse ponto coube aos seus discípulos. [[ii]]


Após a morte de Arminius alguns dos seus discípulos sistematizaram o seu pensamento em alguns pontos básicos, entre os quais estava a possibilidade do crente perder a sua salvação, o “cair da graça”. Esse documento, conhecido como Articuli Arminiani sive Remonstrantia (1610), que se opunha ao sistema calvinista até então aceito pela igreja estatal, foi apresentado ao parlamento holandês como uma alternativa à teologia reformada. [[iii]] A disputa teológica (e política, visto que interesses políticos entraram na pauta) acirrou-se até que foi convocado um Sínodo na cidade de Dordrecht, de 13 de novembro de 1618 a 9 de maio de 1619, cuja função era examinar o cinco pontos do arminianismo à luz das Escrituras. Os arminianos ou “remonstrantes” se fizeram representar por 12 de seus líderes, o mais destacado Simon Episcopius (1583-1643), professor de teologia em Leyden, é a quem se atribui a sistematização do pensamento de Arminius. Outros teólogos vieram de outras partes da Europa, Grã-Bretanha, Palatinado, Helvetia, Genebra, Bremen, Bélgica, Zutânia, Austrália, Nova Zelândia, Frísia, Transilvânia, Groningen, Drentia, Gálica-Belga, Hesse, Suíça, Bradenburg, Utrecht e Balcanquali. Após 154 sessões o veredicto dos teólogos do Sínodo de Dort (como ficou conhecido) foi que o arminianismo era incompatível com o ensino da Bíblia, condenando-o e ratificando a fé reformada.


Mas o arminianismo não foi erradicado, antes se espalhou por todo mundo e é defendido por muitas denominações desde aqueles dias até hoje. A posição oficial do Metodismo, seguindo João Wesley (pai do metodismo) é a de que o crente pode perder a sua salvação. Em um dos seus sermões ele declara:


Se as Escrituras são verdadeiras, aqueles que são santos ou justos no julgamento do próprio Deus; os que possuem a fé que purifica o coração, que produz uma boa consciência; os que são ramos da videira verdadeira, de quem Cristo diz: “Eu sou a videira, vós as varas” ; os que de tal modo conhecem a Cristo que, através desse conhecimento, escaparam da poluição do mundo; os que vêem a luz da glória de Deus no rosto de Jesus Cristo e que são participantes do Espírito santo, do testemunho e dos frutos do Espírito; os que vivem pela fé no Filho de Deus; os que são santificados pelo sangue da aliança, podem, contudo, cair e perecer eternamente [iv]


Seguem a posição arminiana/wesleyana os pentecostais e neo-pentecostais. A posição da Igreja Católica Romana, exposta no Concílio de Trento é que deve ser considerado anátema aquele que diz que tem certeza da salvação [“Se alguém disser que o homem, uma vez justificado, não pode perder a graça...seja anátema” - Conc. de Trento, Sess.vi, Can. 23].   Os Batistas, de modo geral, sustentam que o crente não pode perder a sua salvação, assim também a maioria das igrejas reformadas.

2. DEFININDO A DOUTRINA
UMA DECLARAÇÃO NEGATIVA

O fato é que boa parte da polêmica quanto à doutrina da Perseverança dos Santos reside na má compreensão daquilo que se pretende dizer com ela.  Berkhof, teólogo presbiteriano, está certo em dizer que a exposição da doutrina da perseverança dos santos deve ser feita com cuidado por causa dos mal entendidos que surgem da incompreensão do assunto. [[v]] Assim, antes de oferecer uma definição positiva do assunto, sinto-me compelido a fazê-lo de modo negativo, isto é, dizendo o que não é.


(a) Em primeiro lugar, quando afirmamos a Perseverança dos Santos não queremos dizer que uma pessoa regenerada é salva no fim, não importando o aconteça após a sua “regeneração”. Alguns têm dito que se você confessa Cristo como seu salvador, não importa a vida que viva ou as obras que realize ou deixa de realizar, será finalmente salvo. Esse é o erro em que caiu o teólogo batista R. T. Kendall em seu livro Once Saved, Always Saved (Uma vez Salvo, Salvo para Sempre) quando diz:

eu afirmo categoricamente que a pessoa que é salva, “que confessa que Jesus é Senhor e crê no seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos,” vai para o céu quando morrer, não importando que obras (ou falta de obras) possam acompanhar tal fé. Em outras palavras, não importa que pecado (ou ausência de obediência cristã) possa acompanhar tal fé. [[vi]]

Não poderia deixar de mencionar nessa mesma linha a teoria igualmente perigosa do “crente carnal” defendida por alguns estudiosos como Lewis S. Chafer e mais atualmente Zane C. Hodges [[vii]].  Os que defendem essa teoria descrevem o “crente carnal” como alguém que, embora regenerado, vive no pecado, como um irregenerado, mas que finalmente será salvo, embora suas obras sejam queimadas.  O fato é que tanto Kendall quanto os defensores da teoria do “crente carnal” contrariam as Escrituras com tais declarações, deturpam a Doutrina da Perseverança dos Santos em todos os símbolos de fé que a expõem, seja a Confissão de Fé de Westminster e seus Catecismos ou nas Confissões de Fé Batistas de 1689, New Hampshire, a atual Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira e outras onde tal doutrina é afirmada e ainda colaboram para a má compreensão do ensino perfeitamente bíblico e a perpetuação do erro. 


(b) Em segundo lugar, quando afirmamos a Perseverança dos Santos não queremos dizer com isso que a salvação é iniciada pela fé e preservada pela vontade humana ou pelas obras. Em outras palavras é o homem que se mantém a si mesmo salvo.  Berkhof notou que poderiam chegar a essa conclusão os que seguissem a definição do teólogo batista A. H. Strong sobre a Perseverança dos Santos. [[viii]] De fato Strong define a Perseverança como “continuação voluntária da parte do cristão na fé e nas boas obras” e a considera “o lado humano ou aspecto do processo espiritual que, visto do lado divino, chamamos santificação. Não é mera conseqüência da conversão, mas envolve constante atividade da vontade humana a partir do momento da conversão até o fim da vida”. [[ix]] O equívoco aqui está em considerar a perseverança como uma realização apenas humana, circunscrita somente à sua vontade. Perseverança é obra de Deus, primariamente e do homem, secundariamente. O homem coopera com ela pela fé, mas não a produz por si só.   Walter T. Conner (1877-1952), teólogo batista, declara a doutrina da Perseverança dos Santos significa que “a pessoa deve perseverar naquilo em que principiou, a saber: a fé. Não significa que outra coisa que não seja a fé seja necessária para a salvação, mas que a perseverança é uma qualidade da fé salvadora. A fé que não possui em si o caráter de persistência, não é fé salvadora”. [[x]]


(c) Em terceiro  lugar,  quando  afirmamos a  Perseverança  dos  Santos  não  queremos dizer que o crente jamais possa, momentaneamente, desviar-se dos caminhos do Senhor. É importante lembrar que “os crentes verdadeiros às vezes caem em tentações e cometem pecados graves, mas esses pecados não os separam de Cristo. O Espírito os erguerá, e os ajudará a continuar e perseverar em santidade” [[xi]]


(d) Em quarto lugar, quando afirmamos a Perseverança dos Santos não queremos dizer que todos os membros da igreja local têm sua salvação garantida. Reconhecemos que entre o trigo há joio e que não temos todos os elementos para uma distinção precisa e absoluta daqueles que conseguem dissimular sua verdadeira natureza até que o Senhor o manifeste arrancando-o do meio de nós.


(e) Em quinto lugar, quando afirmamos a Perseverança dos Santos não significa que os crentes são mantidos salvos contra a sua própria vontade. O homem não é salvo contra a sua vontade e não permanece salvo contra a sua vontade. Nas palavras de Conner “se a pessoa crê que a fé pode ser produzida pelo Espírito Santo no coração do homem, no início da vida cristã, sem interferir na liberdade do homem, então não há razão por que não deva crer que o mesmo Espírito conservará a fé viva sem violentar-lhe a liberdade. Se Deus pode operar a fé no pecador não regenerado, sem fazer violência à sua liberdade, por que não pode Deus conservar viva a fé no coração do regenerado, sem interferir em sua liberdade?” [[xii] ]


3.UMA DECLARAÇÃO POSITIVA
Bem, depois de dizer o que a Perseverança dos Santos não é, penso que chegou o momento de fazermos uma declaração positiva, isto é, o que ela é. Perseverança dos Santos é a doutrina que afirma que os que foram regenerados continuarão no caminho da salvação, de maneira que o que foi iniciado neles pelo poder de Deus tem pelo mesmo poder, prosseguimento e consecução, sendo plena e eficazmente realizado. Isso é expresso na antiga Confissão de Fé dos Batistas de 1689, nos seguintes termos:

Os que Deus aceitou no Amado, aqueles que foram chamados eficazmente e santificados por seu Espírito, e receberam a fé preciosa (que é dos seus eleitos), esses não podem decair totalmente nem definitivamente do estado de graça. Antes, hão de perseverar até o fim e ser eternamente salvos, tendo em vista que os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis, e Ele continuamente gera e nutre neles a fé, o arrependimento, o amor, a alegria, a esperança e todas as graças que conduzem à imortalidade. Ainda que muitas tormentas e dilúvios se levantem e se dêem contra eles, jamais poderão desarraigá-los da pedra fundamental em que estão firmados, pela fé.

Na Confissão de Fé de New Hampshire (1833):
Cremos que são crentes legítimos aqueles que resistem até o fim; que seus perseverantes vínculos com Cristo é o grande marco que os distingui dos professos superficiais; que uma especial providência zela por seu bem-estar; e eles são guardados pelo poder de Deus através da fé para a salvação.

Na atual Declaração de Fé dos Batistas Brasileiros:
A salvação do crente é eterna. Os salvos perseveram em Cristo e estão guardados pelo poder de Deus. Nenhuma força ou circunstância tem poder para separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus. O novo nascimento, o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do Espírito Santo asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação

Há diversos grupos batistas no mundo, os mais representativos no Brasil (além dos da C. B. B.), mantém a doutrina da perseverança dos santos.

Continua...


[i] História da Teologia Cristã, Roger Olson, Vida, p. 465
[ii] A Soberania Banida, R. K. Mc Gregor Wright, pág. 30
[iii] História da Teologia Cristã, Roger Olson, pág. 482
[iv] Teologia Sistemática, Franklin Ferreira, pág. 891
[v] Teologia Sistemática, L. Berkhof, pág.
[vi] Citado por Paulo Anglada em Fides Reformata, Vol. III, 1998, pág. 3.
[vii] Algumas obras condenam esse ensino, entre elas Existe Mesmo o Crente Carnal, E. Reisinger, O Evangelho Segundo Jesus, John F. MacArthur, ambos da Ed. Fiel, e Cristo, o Senhor, Michael Horton, Cultura Cristã.
[viii] Teologia Sistemática, L. Berkhof, pág. 550
[ix] Teologia Sistemática, A. H. Strong, Vol. II, págs. 624,625
[x] O Evangelho da Redenção, W. T. Conner, pág. 206
[xi] Teologia Sistemática, F. Ferreira, pág. 885,886
[xii] O Evangelho da Redenção, pág. 206