quarta-feira, 16 de junho de 2010

UMA VEZ SALVO, SALVO PARA SEMPRE ?




(Parte 3)
Por Silas Roberto Nogueira
Material apresentado originalmente na 
1° Igreja Batista em Suzano em Julho de 2009




6. TEXTOS QUE PARECEM CONTRADITAR A DOUTRINA

(A) OS ERROS HERMENEUTICOS QUE COMETEM OS OPOSITORES

Após apresentar abreviadamente algumas bases da nossa convicção na perseverança final dos santos temos que lidar com os textos apresentados pelos opositores a esta doutrina que, segundo eles, ensinam “o cair da graça”. Antes, contudo, é preciso dizer que os opositores da doutrina da perseverança dos santos cometem alguns erros na sua interpretação das passagens que costumam usar e geralmente:
(a) aplicam aos salvos passagens que se referem a outros;
(b) interpretam passagens fora do seu contexto,
(c) usam passagens figurativas como base para formular sua doutrina e
(d) interpretam erroneamente as passagens difíceis.  

(B) PRINCÍPIOS PARA ENTENDER AS PASSAGENS DIFÍCIEIS

Dr. Lloyd-Jones, seguindo as pegadas de Dr. John Gill, pastor batista e um dos primeiros a publicar um comentário completo da Bíblia, estabelece alguns princípios para o estudo dessas passagens.
(a) O primeiro princípio é: somente as Escrituras. Isso significa que não devemos cair na tentação de buscar fora das Escrituras a explicação que pretendemos. Se crermos que a Bíblia é a Palavra de Deus, temos que crer em sua plena suficiência. 
(b) O segundo ponto é: devemos comparar Escrituras com as Escrituras. Sendo a Bíblia a Palavra de Deus, segue-se, pois que nela não há contradição. Assim, qualquer interpretação deve ser feita comparando as Escrituras com as Escrituras, de modo que a conclusão a que cheguemos jamais deve contradizer o que as Escritura dizem mais claramente em outro lugar.
(c) O terceiro princípio: devemos começar com as declarações positivas das Escrituras.  O que quero dizer é que devemos começa com os textos em que há declarações inequívocas, explícitas da segurança da salvação, não o contrário.
(d) O quarto princípio: devemos trabalhar com os textos mais difíceis, em que há pouca clareza, à luz de declarações claras, explícitas, positivas. Qualquer interpretação de textos mais difícieis deve ser coerente com as grandes declarações fundamentais das Escrituras.
(e) Um quinto princípio é: ao examinar um versículo em particular, examine-o com atenção, não ignore seu contexto e o estilo de literatura.

(C) HEBREUS 6.4-6

Não temos condições de apresentar um estudo detalhado de todas as passagens bíblicas que parecem contradizer aquilo que temos declarado até aqui no momento. No entanto, uma delas, Hebreus 6:4-6, será brevemente analisada. Quando nos aplicamos ao estudo deste texto podemos encontrar pelo menos quatro maneiras básicas de interpretá-lo: 
(a)  Como um caso de apostasia real.
(b)  Como se referindo a um caso hipotético.
(c)  Como se referindo a um grupo de judeus simpáticos à Cristo, mas ainda incrédulos.
(d)  Como não se referindo a cristãos verdadeiros.

Os wesleyanos-arminianos defendem a primeira posição, isto é, que a apostasia é real.[1] Para eles o cristão verdadeiro pode "cair da graça" vindo a perder a salvação. Há muitos problemas com essa interpretação, na verdade problemas insuperáveis, entre eles desconsiderar toda a evidência bíblica em contrário, que afirma que o cristão não perde a sua salvação,  depois não levar em conta o caráter de Deus e ainda menosprezar Seu divino poder e sabedoria providencial em nos guardar e por último não ter um entendimento correto das outras doutrinas que consubstanciam a perseverança dos santos, como já o demonstramos. Por isso nós repudiamos tal posição por ser frontalmente contrária ao testemunho das Escrituras, ofensivo ao caráter e sabedoria do Deus Triúno e ainda produzir e propagar um mau entendimento das doutrinas da eleição, regeneração, união com Cristo, propiciação, justificação, habitação e selo do Espírito Santo, adoção e a doce e contínua intercessão de Cristo.  Franklin Ferreira lembra ainda que "quando estes versículos são colocados em seu contexto, a interpretação arminiana acaba por se mostrar inviável."  

Dr. Millard J. Erickson[2] defende a segunda posição, vendo a apostasia como um caso hipotético. Para ele, contudo, o fato é que o crente pode apostatar (respeitando o sentido hipotético do texto acima), mas não o fará, estudando-o à luz de João 10:28 (onde se usa uma construção gramatical enfática no grego que indica que algo nunca acontecerá no futuro). Assim, segundo ele o crente pode cair, mas não cairá. Posição parecida segue Dr. Donald Guthrie[3].

Dr. John MacArthur[4] defende uma posição interessante, a terceira delas. Para ele a Epístola aos Hebreus foi dirigida a três grupos distintos de judeus. Um grupo era de judeus crentes, para quem o autor de Hebreus dá alento e fortalecimento por causa das perseguições dos seus compatriotas. Era ainda um grupo de crentes imaturos que haviam sido tentados a aferrarem-se as tradições do judaísmo e aos rituais simbólicos e espiritualmente destituídos de poder. Outro grupo em vista era o de judeus  incrédulos os quais não estavam convencidos das verdades básicas do evangelho, porém haviam recebido uma exposição do mesmo, a eles o autor de Hebreus dá enfoque no cap. 9, especialmente os vv. 11,14,15,27,28. Um terceiro grupo era de judeus simpáticos ao Evangelho, aqueles que estavam convencidos das verdades básicas do Evangelho, porém não haviam crido em Cristo como seu Salvador e Senhor ainda. Eles estavam intelectualmente persuadidos, porém não espiritualmente comprometidos. A este grupo é que o autor de Hebreus dirige passagens tais como 2.1-3;6.4-6;10.26-29 e 12.15-17. Tendo este entendimento por guia John MacArthur interpreta cada uma das frases de 6.4-6 como vantagens que eram possuídas por este segundo grupo de judeus, mas que são insuficientes para a salvação.  Portanto, para MacArthur “não existe nestes versículos a mais ínfima possibilidade de que se refiram a perca da salvação”.

Dr. Wayne Gruden defende a quarta posição, entendendo que o texto não se refere a cristãos verdadeiros, mas a meros professos[5]. Ele fez uma profunda análise do texto  que apresentarei de modo breve a seguir: Hebreus 6 diz que aqueles que acabam se afastando dão muitos sinais exteriores de conversão e parecem cristãos em muitos aspectos, mas não o são:  

  • Hebreus 6:4-6 à luz dos vv. 7-8. Nessa metáfora os condenados ao juízo final são comparados à terra que não produz vegetação ou fruto útil, mas só abrolhos e espinhos. Quando lembramos outras metáforas bíblicas em que o bom fruto é sinal de verdadeira vida espiritual e a ausência de frutos denuncia os falsos crentes (Mt 3.8-10; 7.15-20; 12.33-35), já temos uma indicação de que o autor está falando de pessoas cuja prova mais confiável de sua condição espiritual (fruto) é negativa, e isso indica que o autor fala de pessoas não regeneradas.
  • O uso da expressão: “foram uma vez iluminados” (v.4) pode não referir-se à salvação. A palavra grega “photizo”, traduzida por “iluminados” indica que tais pessoas compreenderam certas coisas concernentes ao evangelho, não que se tornaram crentes, ou como diz Gruden “não que tenham respondido a essas verdades com genuína fé salvífica”. A palavra é usada em João 1.9 – a luz que “ilumina a todo homem”, mas está claro neste texto que nem todos os que recebem essa luz são salvos. A palavra não é um termo técnico para as pessoas que são salvas.
  • A expressão “uma vez” (v.4 – “uma vez foram iluminados”) no grego é “hapax”- não tem o sentido de que o que ocorreu uma vez não pode ser repetido (como uma possível referência à regeneração que é irrepetível), como alguns pensam. Em Filipenses 4.16 a mesma palavra é usada, e Paulo diz que as ofertas foram enviadas não só uma vez, mas duas. É diferente da palavra “ephapax”, usada no NT para indicar coisas ou eventos únicos, Rm 6.10; Hb 7.27; 9.12;10.10.
  • A frase “provaram o dom celestial...a boa palavra...e os poderes do mundo vindouro” (v.4,5). Note que o texto diz que “provaram” e não que “receberam”, para Gruden isso indica que tais pessoas tiveram alguma vivência do poder espiritual, mas não eram genuinamente regeneradas. A palavra usada aqui aparece em Hb 2.9 – Cristo “provou” a morte, mas isso não foi uma experiência contínua, mas momentânea.
  • A frase “se tornaram participantes do Espírito Santo” (v. 4). Aqui precisamos entender o sentido do termo “participantes”, no grego “metochos”. A palavra “metochos” indica duas categorias de associação, uma mais íntima e outra uma associação mais tênue ou superficial. Por exemplo, Hb 3.14 – é usada para uma participação íntima, contudo, em Lc 5.7 – os “companheiros” de Pedro que estavam no outro barco eram meramente parceiros de pesca, não íntimos. Essas pessoas tiveram suas vidas influenciadas pelo Espírito Santo, mas não sofreram uma mudança real em virtude disso. John MacArthur seguindo uma argumentação muito próxima a de Gruden observa que “este contexto dos vv.4-6 parece excluir uma referência aos crentes verdadeiros. Poderia ser uma referência a sua participação... no ministério de milagres exercido por Jesus pelo poder do Espírito ou o ministério de convicção do Espírito Santo (Jo. 16.8), o qual pode ser resistido sem experimentar salvação (At 7.51).” 
  • A frase “impossível... renová-los” (v.6) – os que apóiam a apostasia real têm que enfrentar esse obstáculo intransponível de que os apóstatas ou desviados não poderão jamais se arrepender e voltar, como eles dizem que pode. Portanto, essas palavras só podem se aplicar àquelas pessoas que, ficando na igreja, recebendo a ministração da Palavra todos os domingos, recebendo orações e quem sabe participando até mesmo da ceia e ainda assim “voluntariamente rejeitam” a salvação, essas sim, por causa da sua relutância em entregar-se definitivamente à Cristo, não são mais passíveis de um arrependimento genuíno.   Diz Grudem “o seu coração está endurecido, a sua consciência, insensível. Que mais se poderia fazer para trazê-las à salvação? ... a sua constante familiaridade com as coisas de Deus e a forte influência do Espírito Santo só serviu para endurecê-las contra a conversão”. (Hb. 2.3).

Assim, o texto de Hebreus 6.4-6 enfoca aqueles que são meros professos, freqüentadores de igreja, não os verdadeiros cristãos. É notável a adversativa no v. 9 “mas” (ARC) ou “todavia” (ARA) que diferencia o grupo dos meros professos dos verdadeiros crentes. Aníbal Pereira Reis também observou com propriedade que o autor de Hebreus aos tratar meros professos ou nominais, “emprega o verbo na terceira pessoa: “os que já uma vez foram iluminados, e provaram... e se fizeram (6.4) ...e provaram (6.5)... e recaíram...crucificam... expõem (6.6). Nesse versículos dirigidos aos “falsos irmãos” ele não usa os verbos na segunda pessoa... tendo encerrado a brutal advertência para os “quase induzidos”, a partir do v.9 retorna a se dirigir aos verdadeiros crentes, falando-lhes outra vez na segunda pessoa do plural: “mas de vós” (6.9), “da vossa obra”, mostrastes”, servistes”, “servis” (6.10). Dirigindo-se aos verdadeiros crentes o escritor emprega a primeira pessoa do plural, do presente do indicativo, incluindo-se entre eles...”.[6] Dos verdadeiros cristãos o autor da Epístola aos Hebreus espera “coisas que são melhores” (v. 9). 

É importante também observar que das quatro interpretações possíveis, apenas uma advoga uma apostasia real e enfrenta uma forte e  insuperável contra-argumentação, como por exemplo, a enfática declaração de que é "impossível" renovar para o arrependimento aqueles que apostaram.  

CONCLUSÃO:

A doutrina da perseverança dos santos implica em que o verdadeiro cristão persevera em santidade e manifesta o caráter de Cristo. O teólogo batista Wayne Gruden declara que a doutrina da perseverança dos santos tem duas partes. Na primeira indica que “há uma garantia a ser dada àqueles que realmente nasceram de novo, pois lembra-  lhes de que o poder de Deus irá conservá-los cristãos até a morte e que certamente viverão com Cristo no céu para sempre.” Na segunda metade, “deixa claro que a perseverança na vida cristã é uma das evidências de que a pessoa realmente nasceu de novo.” Para Gruden é necessário esse segundo aspecto “para que não se dêem falsas garantias a pessoas que na verdade nunca foram crentes”. [7] A doutrina da perseverança dos santos propicia aos crentes a segurança de sua salvação, a paz, a  alegria e a liberdade do legalismo.

Você tem confiado na salvação em Cristo Jesus? Você nasceu de novo? Você percebe tendências ao crescimento espiritual?


Soli Deo Gloria!



Notas
________________________________
[1] Teologia Sistemática, uma perspectiva pentecostal, Stanley Horton, pp 376-380
[2] Introdução à teologia Sistemática, M. J. Erickson
[3] Hebreus, introdução e comentário, D. Guthrie
[4] The MacArthur Study Bible
[5] Panorama do Novo Testamento, p 378. Dr. Robert Gundry declara que essa é a “interpretação mais promissora”. Essa mesma posição é defendida por Aníbal Pereira Reis o livro Pode o Crente perder a salvação?
[6] O Crente pode perder a salvação, A. P. Reis, p 270,271
[7] Teologia Sistemática, W. A. Gruden, pág. 659