segunda-feira, 21 de junho de 2010

ORGULHO



Silas Roberto Nogueira


“...digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém;
antes, pense com moderação....”   
Romanos 12:3


O orgulho pode ser definido basicamente como o elevado conceito que alguém faz de si mesmo. Segundo dizem, é o pior e o mais predominante dos pecados. Agostinho (354-430) considerava o orgulho como a fonte de todos os vícios. Diz ele “o orgulho é a fonte de todas as fraquezas, por que é a fonte de todos os vícios”.  Ele apontou o orgulho como a causa de queda, “qual é a origem do nosso mal a não ser o orgulho? Por que o “orgulho é o inicio do pecado” (Eclesiástico 10.13). E o que é o orgulho senão o desejo por exaltação imprópria? E isso é a exaltação imprópria, quando a alma abandona aquele a quem deve se apegar como seu fim e se torna um tipo de fim em si mesma. Isso acontece quando ela se torna a sua própria satisfação...”[1] 

Por isso bem cedo no catolicismo primitivo o orgulho foi listado como um dos pecados capitais. Esse conceito de pecados capitais nasceu segundo dizem, com o monge Evagrário Pôntico (346-399). Foi ele quem primeiro alistou as doenças que afetavam os homens e as atribuiu a pecados, no caso, sua lista tinha oito deles e entre eles se destacava como o mais grave o orgulho. Essa lista de pecados foi posteriormente modificada e oficializada, e recentemente o vaticano acrescentou-lhe alguns outros pecados da modernidade.

Mais tarde, o papa Gregório I (540-604), que havia tomado conhecimento da lista de Pôntico, tomou-a e remodelou a lista de pecados juntando “vaidade” e “orgulho”, diminuindo-os a sete. Na lista de Gregório os pecados listados se contrapõem a uma determinada virtude, no caso o orgulho vem primeiro, pois se contrapõe à pobreza de espírito, isto é, humildade.

Bem mais tarde, em 1589, o padre jesuíta Pedro Binsfeld (1545-1603), um demonologista, conjugou cada um dos pecados listados com um demônio, no caso do orgulho a ligação era com o próprio chefe dos demônios, Lúcifer.  Para Binsfeld as pessoas sob a influência de cada uma desses poderes espirituais eram levadas ao pecado correspondente.

Os reformadores e os puritanos, de modo geral, consideravam o orgulho o mal dos males e o repudiavam. Lutero demonstrou repudiar o orgulho e temê-lo “tenho mais medo do papa do meu “ego” do que do papa em Roma e todos os seus cardeais”. A chamada Teologia da Cruz [do sofrimento] de Lutero se opõe a todo orgulho, pois cultiva a autonegação. Lutero declara que “é impossível para um homem não ficar orgulhoso com as suas próprias boas obras, a menos que a experiência do sofrimento e do mal [da cruz] tenha retirado previamente todo o espírito de seu interior e o quebrantamento, ensinando que ele não é nada e suas obras não pertencem a ele, mas a Deus.” [2] Para Lutero a cruz de Cristo nos esvazia de toda a nossa autoconfiança, a cruz erradica todo o orgulho.

Calvino concordava com Agostinho em que o orgulho “foi o princípio de todos os males” [3].  Nas Institutas ele afirmou que a humildade é a única atitude que nos convém e que nada no homem é motivo de orgulho. A doutrina da predestinação desenvolvida e sistematizada pelo mestre de Genebra põe abaixo qualquer pretensão e destrói o orgulho humano. A sola gratia expurga toda e qualquer jactância humana.    

Os Puritanos, seguindo os reformadores, consideravam o orgulho algo tremendamente prejudicial à vida espiritual. Thomas Manton entendia que “o orgulho não apenas afasta o coração de Deus, também levanta-o contra Deus”. Para Manton o orgulho era a causa de todos os pecados “o orgulho é a causa de todos os outros pecados”. Richard Baxter considerava o orgulho um dos pecados mais odiosos, um comandante tirânico e um insidioso inimigo.[4] Assim, desde muito cedo o cristianismo considerou o orgulho como um grave pecado, o maior deles ou aquele que origina todos os outros e algo que tem uma conexão direta com o diabo. Sibbes pergunta: “Devem os homens ser orgulhosos depois de Deus ter sido humilde?”
           
Embora desde cedo se considerasse o orgulho como o progenitor de todos os pecados, também bem cedo o mundo achou uma forma de dar-lhe um sentido positivo. Assim, entendeu-se orgulho como respeito próprio. Aristóteles, em Ética a Nicômaco descreveu o “respeito próprio” como “justo orgulho”, que seria algo entre o “vicio por deficiência” e o “vício por excesso”. O ensinamento grego, durante os quatro últimos séculos a.C., considerava o orgulho uma virtude. Mas orgulho é um termo impróprio para o “respeito próprio”, isso porque essa expressão significa uma consciência equilibrada e justificável de valor pessoal, o que não é de modo algum pecaminoso, contudo o orgulho consiste na hiper-valorização de si mesmo. 

Paulo exorta aos crentes de Roma que não se hiper-valorizassem (“não pense de si além do que convém...”), mas que fossem “moderados” na sua autoavaliação pessoal, Rm. 12.3.  Está claro no texto que o orgulho deve ser desarraigado do nosso coração e em seu lugar deve ser cultivado um senso moderado de dignidade pessoal. Propositadamente o mundo confunde os conceitos e com isso tenta impugnar a luta contra o pecado do orgulho. Tomando uma coisa pela outra, repudiar o orgulho se torna prejudicial à auto-estima. Mas não é isso que as Escrituras ensinam, repudiar o orgulho é, via de regra, o melhor caminho para a sanidade da nossa dignidade e valor pessoal.

Mas lutar contra o orgulho não é fácil. Isso porque o  orgulho “toma muitas formas e molda e cerca o coração como as camadas de uma cebola — quando você tira uma camada, há outra debaixo dela”, escreveu Jonathan Edwards. Ninguém está imune ao orgulho, mas ele cerca de modo especial os líderes cristãos. Dr. Russel Shedd declara que a “altivez é uma tentação peculiar dos que exercem a liderança”.[5] Richard Baxter dizia que “um dos nossos pecados mais odiosos e patentes é o orgulho. Ataca até os nossos pastores e, todavia é o mais detestável e inescusável em nós, pastores, do que nos outros homens”.[6]  

Muitos líderes cristãos do passado falaram sobre as suas lutas contra o orgulho. Lutero disse: “Eu tenho mais medo do Papa do meu ‘Ego’ do que do Papa em Roma e todos os seus cardeais”. Robert Murray M’Cheyne escreveu “Eu sei se sou orgulhoso; e, todavia, eu não conheço metade desse orgulho”. Duas décadas após a sua conversão, Jonathan Edwards gemia por causa das “profundezas insondáveis e infinitas do orgulho” que ainda restavam em seu coração. Todos os grandes servos de Deus lutaram arduamente contra o orgulho por toda a sua vida e nós devemos imitá-los.

            O ministro deve repudiar o orgulho porque é pecado, Pv 21.4, e portanto, abominável a Deus , Pv 6.16,17; 16.5; 8.12,13. “O orgulho” escreve John Stott, “é mais que o primeiro dos sete pecados mortais; ele é a essência de todo o pecado”. C. S. Lewis diz que o “orgulho sempre significa inimizade: é inimizade. E não apenas inimizade entre um homem e outro, mas inimizade contra Deus”[7]. Por isso mesmo Pedro e Tiago fazem coro em dizer que Deus resiste aos soberbos, 1 Pe 5.5; Tg 4.6.  A resistência divina ao orgulhoso é imediata e continuada. O orgulhoso não receberá nada da parte de Deus, como disse Moody “Deus não manda ninguém embora de mãos vazias, a não ser os que estão cheios de si mesmos.”  

O ministro deve abominar o orgulho porque, como dizia John Wesley “é pecado de idolatria”. O orgulho é adoração de si mesmo, da criatura no lugar do Criador. Deus revela seus atributos pela Sua criação, inclusive a criação do próprio homem, mas o homem se volta para si mesmo e se coloca no lugar de Deus oferecendo a si mesmo adoração. (Rm 1.18-25). Alan Redpath declarou com propriedade que “o orgulho é a adoração idólatra de nós mesmos, a religião oficial do inferno”. Dallas Willard diz que “pessoas perdidas, em termos cristãos, são exatamente as que confundem a si mesmas com Deus.” [8] Se o homem adora a si mesmo, ele está irremediavelmente perdido, pois não reconhece outro Deus além dele mesmo e, na maioria das vezes, quando descobre, as portas da morte, que não é Deus, pois Deus é imortal, já é tarde demais. Orgulho e graça nunca habitam o mesmo lugar, disse Thomas Fuller. Graça salvadora é algo que Deus concede aos humildes, aos pobres de espírito, Mt 5.3; Tg 4.6.
           
O ministro deve combater contra o orgulho por que, como disse J. C. P. Cockerton, ele é essencialmente uma “atitude de autonomia, de autodeterminação, de independência de Deus.” C. S. Lewis estava absolutamente certo ao dizer que o orgulho é “o mais completo estado da alma anti-Deus”.  O orgulho nos infla e nos impele para longe de Deus.  O orgulho nos faz pensar que não devemos obediência a ninguém, senão a nós mesmos. O mestre de genebra  afirma que “a mais segura fonte de destruição dos homens é obedecer a si mesmo”.[9]  Sob a égide do orgulho estamos mais vulneráveis do que nunca, justamente por estarmos a mercê de alguém que é completamente incapaz de promover a nossa salvação – nós mesmos. O teólogo puritano Richard Sibbes declara que “nenhuma pessoa é mais fraca do que o orgulhoso, pois o orgulhoso baseia-se em nada.” 
           
            O ministro deve combater o orgulho porque ele é insaciável, levando ao descontentamento. C. S. Lewis declara “o orgulho está acoplado à impaciência e ao descontentamento. A razão econtra-se no centrar em si mesmo e na suposta autosuficiência. Uma vez que o ser humano individual é pequeno e muito frágil, a autosuficiencia genuina é impossível e, portanto, o descontentamento é inevitável para o orgulho. Sempre precisamos de algo além de  nós e temos muitas coisas a desejar, portanto, o contentamento preconiza uma miragem. Como Narcizo que se apaixonou pelo próprio reflexo , em uma nascente, e, em consequencia, morreu de frustração por um próprio que nunca pôde ser consumado, assim também é inevitável a frustração das pessoas orgulhosas, enamoradas por si mesmos”. [10]  Thomas Brooks acertamente declarou que “uma alma orgulhosa não se satisfaz com coisa alguma”.

            O ministro deve combater o orgulho porque ele dirige as nossas ações e ministério.  Richard Baxter declarou a predominancia do orgulho fica patente em nosso modo de conversar,  “em nosso modo de viver, em nossa companhia e em nossas atitudes pessoais diante dos outros. Ele é a base dos nossos motivos, modela o nosso pensar, determina os nossos objetivos, fomenta a inveja e pensamentos amargos contra os que são mais proeminentes do que nós, que recebem posição de celebridade. Que compenheiro astuto e sutil, que comandante tirânico e que insidioso inimigo é o pecado do orgulho! Ele acompanha os homens ao alfaiate para a escolha de roupas e determina  a moda. Quantas vezes ele escolhe os temas da nossa alocução, e até nossas palavras!” Ainda sobre o orgulho Richard Baxter declara: “tendo preparado o sermão, o orgulho sobe ao púlpito. Ele impoe a entonação, modela a eloquência e elimina tudo o que cause ofensa, para conseguir o máximo de aplauso.” [11]

            Mas a luta contra o orgulho é, particularmente difícil porque muitas vezes o orgulho do ministro está vestido com capa de humildade. Ninguém é mais orgulhoso do que aquele que pensa que é humilde. C. S. Lewis declara que “um homem nunca é tão orgulhoso como quando adota conscientemente uma atitude de humildade”.[12] Lutero quando meditava no Salmo 138.6 declarou “as pessoas verdadeiramente humildes não atentam para os efeitos de sua humildade, mas, com singeleza de coração, olham para as coisas humildes, gostam de se ocupar com elas, e, pessoalmente, jamais se dão conta de que são humildes. Agora, os falsos humildes admiram-se que sua honra e exaltação custam tanto a chegar, e seu secreto e falso orgulho não permite que se contentem com sua vida simples e só pensam em subir cada vez mais. Por isso, a verdadeira humildade jamais fica sabendo que é humilde, pois, caso soubesse, ficaria orgulhosa ao se dar conta de tão nobre virtude. Ao contrário, de coração, de vontade e com todos os sentidos, apega-se às coisas humildes. Essas são objetivo constante de sua atenção bem como as imagens que tem diante de si. E, enquanto tem olhos voltados para isso, não pode ver a si mesma nem se dar conta de que existe.”[13]

Outras vezes o orgulho do ministro dissimula a sua fealdade com a máscara da santidade. Santidade e humildade são irmãs siamesas, se uma delas está ausente a outra nunca esteve presente. Contudo, há aqueles que se orgulham da sua santidade, da sua vida de oração, das suas leituras bíblicas, dos jejuns etc. Mas a verdade é que aquele que realmente se aproxima de Deus, não se sente grande coisa, muito pelo contrário, sente-se apequenado pela grandeza divina. Se a santidade de um ministro não lhe conduz à humildade, ela pode torná-lo austero, moralista, legalista ou qualquer outra coisa, menos um santo. [14]  Dr. Joel Beeke assinala que “o cultivo da santidade exige a rejeição da soberba da vida e da concupiscência da carne”.[15]

            A luta contra o orgulho é difícil porque, na maioria das vezes, não nos damos conta de que somos orgulhosos. Conta-se que quando um general voltava vitorioso da guerra, o Senado romano o premiava com o “Triunfo”, dando-lhe o direito de desfilar com suas legiões de soldados pelas ruas de Roma, para ser aclamado pelo povo. Mas era destacado um escravo para ir atrás dele com a incumbência de, ininterruptamente, repetir a frase: “lembra-te que és mortal!” Esse era o antídoto para o orgulho que se oferecia ao general. Faltou um servo como esse a Herodes, At 12.21 segs. Se o homem se lembrasse de sua finitude não haveria lugar para o orgulho. C. S. Lewis diz que o “primeiro passo rumo à humildade é o reconhecimento do nosso orgulho”.[16] Contudo, o orgulhoso é, aos seus próprios olhos, muito humilde.

            Joel Beeke anota algumas formas que poderão nos ajudar, e em especial aos ministros, na luta contra o orgulho:

● Entenda quão profundamente o orgulho está arraigado em nós e quão perigoso ele é para o ministério. Devemos protestar conosco mesmo como o puritano Richard Mayo: “Deve ser orgulhoso o homem que pecou como tu pecaste, que viveu como tens vivido, que desperdiçou tanto tempo, que abusou tanto da misericórdia, que omitiu tantos deveres, que negligenciou tão grandes meios e, por isso, entristeceu o Espírito de Deus, transgrediu a sua Lei, desonrou o seu nome. Deve ser orgulhoso o homem que tem um coração como o que tens”.
● Olhe para Cristo. Se desejamos destruir o orgulho mundano e viver com humildade santa, olhemos para Cristo, nosso Salvador, cuja vida, conforme disse Calvino, “era nada mais do que uma série de sofrimentos”. Em nenhum outro lugar a humildade foi tão cultivada como no Getsêmani e no Calvário. Quando o orgulho ameaça você, considere o contraste entre um pastor orgulhoso e um Salvador humilde. Confesse, como Joseph Hall:
Teu jardim é o lugar
Onde o orgulho não pode entrar,
Pois, se ali ele ousasse entrar,
Logo seria afogado em sangue.

E cante, com Isaac Watts:
Quando investigo a maravilhosa cruz,
Em que morreu o Príncipe da Glória,
Meu maior ganho reputo como perda
E lanço desdém sobre todo o meu orgulho.
● Permaneça na Palavra. Em dependência do Espírito, leia, pesquise, memorize, ame, ore sobre ela e medite em passagens como Salmos 39.4-6; Salmos 51.17; Gálatas 6.14; Filipenses 2.5-8; Hebreus 12.1-4; 1 Pedro 4.1. Somente o Espírito pode destruir o poder de nosso orgulho e cultivar humildade em nosso íntimo, tomando as coisas de Cristo e revelando-as para nós.
● Busque um conhecimento mais profundo de Deus, seus atributos e sua glória. Jó e Isaías nos ensinam que nada é tão humilhante como o conhecimento de Deus (Jo 42; Is 6). Gaste tempo meditando nas grandezas e santidade de Deus, em comparação com sua pequenez e pecaminosidade.
● Pratique a humildade (Fp 2.3-4). Lembre como Agostinho respondeu a pergunta: “Quais as três virtudes que um pastor mais necessita?” Ele disse: “Humildade, humildade, humildade”. Para obter isso, procure ter maior consciência de sua depravação, bem como da hediondez e da irracionalidade do pecado. Não descanse enquanto não puder confessar diariamente como João Batista: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30), pois isto é a essência da humildade.
● Lembre, diariamente, que “a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda” (Pv 16.18). Considere suas aflições como dons de Deus para conservá-lo humilde. Considere seus talentos como dons de Deus que nunca lhe trazem qualquer honra (1 Co 4.7). Tudo que você já realizou e realizará veio das mãos de Deus.
● Encare a vitória sobre o orgulho como um processo vitalício que o chama a crescer em servidão. Esteja determinado a batalhar contra o orgulho, por considerar cada dia como uma oportunidade para esquecer-se de si mesmo e servir aos outros. Como escreveu Abraham Booth: “Não esqueça que toda a sua obra é ministerial — e não legislativa — para que você não seja um senhor da igreja, e sim um servo”. O ato de servir é intrinsecamente humilhante.
● Leia a biografia de grandes santos, como Whitefield’s Jounals (Diário de Whitefield), A Vida de David Brainerd[17], e Spurgeon’s Early Years (Os Primeiros Anos de Spurgeon)[18]. Como disse Martin Lloyd-Jones: “Se isso não o trouxer à terra, declare que você é apenas um profissional, sem esperança”. Associe-se com santos que exemplificam humildade, e não com arrogantes ou bajuladores.
● Medite naquilo que os puritanos chamavam de “as quatro últimas coisas”: a solenidade da morte, a certeza do Dia do Juízo, a amplitude da eternidade e os estados inalteráveis do céu e do inferno. Considere o que você merece por causa do pecado e qual será o seu futuro por causa da graça. Permita que o contraste o humilhe (1 Pe 5.5-7).
           
Acima de tudo lembre-se que Deus “aborrece” o orgulho (Pv 6.11; 8.13; 16.5) e o orgulhoso (Pv 16.5) e que resiste a ele ( Tiago 4.6; 1 Pedro 5.5). Note que na frase – “Deus resiste” – tanto Tiago quanto Pedro usam o verbo grego no tempo presente e na voz ativa. Isso mostra que a oposição divina ao orgulho e ao orgulhoso é uma atividade imediata e contínua e que “é evidente que não ficará impune”.  


Soli Deo Gloria



[1] Sola Gratia, pp 51,52
[2] Uma Lição sobre a Verdade: A Teologia da Cruz de Martinho Lutero, Mark Shaw, p.14, disponível em www.monergismo.com , último acesso 31/03/2010.
[3] Institutas, Livro 2, 4
[4] O Pastor Aprovado, pp 86,87
[5] A felicidade segundo Jesus, p 24
[6] O Pastor Aprovado, p 86
[7] Cristianismo Puro e Simples, p.
[8] A renovação do Coração, p. 67
[9] Institutas, livro II
[10] Cristianismo Puro e Simples, p.
[11] O Pastor Aprovado, pp 86,87,88
[12] Sete Pecados Capitais, p. 64
[14] Recomendo a leitura do artigo “Quais são as marcas visíveis das pessoas santificadas”, por J. C. Ryle disponível em http://veritasimmutabilisest.blogspot.com/2010/02/quais-sao-as-marcas-visiveis-das.html
[15] Vencendo o mundo, p. 108.
[16] Práticas Devocionais, Elben M. Lens César, p. 55
[17] Publicado pel Editora Fiel
[18] Há uma biografia de Spurgeon publicada pela PES

quarta-feira, 16 de junho de 2010

UMA VEZ SALVO, SALVO PARA SEMPRE ?




(Parte 3)
Por Silas Roberto Nogueira
Material apresentado originalmente na 
1° Igreja Batista em Suzano em Julho de 2009




6. TEXTOS QUE PARECEM CONTRADITAR A DOUTRINA

(A) OS ERROS HERMENEUTICOS QUE COMETEM OS OPOSITORES

Após apresentar abreviadamente algumas bases da nossa convicção na perseverança final dos santos temos que lidar com os textos apresentados pelos opositores a esta doutrina que, segundo eles, ensinam “o cair da graça”. Antes, contudo, é preciso dizer que os opositores da doutrina da perseverança dos santos cometem alguns erros na sua interpretação das passagens que costumam usar e geralmente:
(a) aplicam aos salvos passagens que se referem a outros;
(b) interpretam passagens fora do seu contexto,
(c) usam passagens figurativas como base para formular sua doutrina e
(d) interpretam erroneamente as passagens difíceis.  

(B) PRINCÍPIOS PARA ENTENDER AS PASSAGENS DIFÍCIEIS

Dr. Lloyd-Jones, seguindo as pegadas de Dr. John Gill, pastor batista e um dos primeiros a publicar um comentário completo da Bíblia, estabelece alguns princípios para o estudo dessas passagens.
(a) O primeiro princípio é: somente as Escrituras. Isso significa que não devemos cair na tentação de buscar fora das Escrituras a explicação que pretendemos. Se crermos que a Bíblia é a Palavra de Deus, temos que crer em sua plena suficiência. 
(b) O segundo ponto é: devemos comparar Escrituras com as Escrituras. Sendo a Bíblia a Palavra de Deus, segue-se, pois que nela não há contradição. Assim, qualquer interpretação deve ser feita comparando as Escrituras com as Escrituras, de modo que a conclusão a que cheguemos jamais deve contradizer o que as Escritura dizem mais claramente em outro lugar.
(c) O terceiro princípio: devemos começar com as declarações positivas das Escrituras.  O que quero dizer é que devemos começa com os textos em que há declarações inequívocas, explícitas da segurança da salvação, não o contrário.
(d) O quarto princípio: devemos trabalhar com os textos mais difíceis, em que há pouca clareza, à luz de declarações claras, explícitas, positivas. Qualquer interpretação de textos mais difícieis deve ser coerente com as grandes declarações fundamentais das Escrituras.
(e) Um quinto princípio é: ao examinar um versículo em particular, examine-o com atenção, não ignore seu contexto e o estilo de literatura.

(C) HEBREUS 6.4-6

Não temos condições de apresentar um estudo detalhado de todas as passagens bíblicas que parecem contradizer aquilo que temos declarado até aqui no momento. No entanto, uma delas, Hebreus 6:4-6, será brevemente analisada. Quando nos aplicamos ao estudo deste texto podemos encontrar pelo menos quatro maneiras básicas de interpretá-lo: 
(a)  Como um caso de apostasia real.
(b)  Como se referindo a um caso hipotético.
(c)  Como se referindo a um grupo de judeus simpáticos à Cristo, mas ainda incrédulos.
(d)  Como não se referindo a cristãos verdadeiros.

Os wesleyanos-arminianos defendem a primeira posição, isto é, que a apostasia é real.[1] Para eles o cristão verdadeiro pode "cair da graça" vindo a perder a salvação. Há muitos problemas com essa interpretação, na verdade problemas insuperáveis, entre eles desconsiderar toda a evidência bíblica em contrário, que afirma que o cristão não perde a sua salvação,  depois não levar em conta o caráter de Deus e ainda menosprezar Seu divino poder e sabedoria providencial em nos guardar e por último não ter um entendimento correto das outras doutrinas que consubstanciam a perseverança dos santos, como já o demonstramos. Por isso nós repudiamos tal posição por ser frontalmente contrária ao testemunho das Escrituras, ofensivo ao caráter e sabedoria do Deus Triúno e ainda produzir e propagar um mau entendimento das doutrinas da eleição, regeneração, união com Cristo, propiciação, justificação, habitação e selo do Espírito Santo, adoção e a doce e contínua intercessão de Cristo.  Franklin Ferreira lembra ainda que "quando estes versículos são colocados em seu contexto, a interpretação arminiana acaba por se mostrar inviável."  

Dr. Millard J. Erickson[2] defende a segunda posição, vendo a apostasia como um caso hipotético. Para ele, contudo, o fato é que o crente pode apostatar (respeitando o sentido hipotético do texto acima), mas não o fará, estudando-o à luz de João 10:28 (onde se usa uma construção gramatical enfática no grego que indica que algo nunca acontecerá no futuro). Assim, segundo ele o crente pode cair, mas não cairá. Posição parecida segue Dr. Donald Guthrie[3].

Dr. John MacArthur[4] defende uma posição interessante, a terceira delas. Para ele a Epístola aos Hebreus foi dirigida a três grupos distintos de judeus. Um grupo era de judeus crentes, para quem o autor de Hebreus dá alento e fortalecimento por causa das perseguições dos seus compatriotas. Era ainda um grupo de crentes imaturos que haviam sido tentados a aferrarem-se as tradições do judaísmo e aos rituais simbólicos e espiritualmente destituídos de poder. Outro grupo em vista era o de judeus  incrédulos os quais não estavam convencidos das verdades básicas do evangelho, porém haviam recebido uma exposição do mesmo, a eles o autor de Hebreus dá enfoque no cap. 9, especialmente os vv. 11,14,15,27,28. Um terceiro grupo era de judeus simpáticos ao Evangelho, aqueles que estavam convencidos das verdades básicas do Evangelho, porém não haviam crido em Cristo como seu Salvador e Senhor ainda. Eles estavam intelectualmente persuadidos, porém não espiritualmente comprometidos. A este grupo é que o autor de Hebreus dirige passagens tais como 2.1-3;6.4-6;10.26-29 e 12.15-17. Tendo este entendimento por guia John MacArthur interpreta cada uma das frases de 6.4-6 como vantagens que eram possuídas por este segundo grupo de judeus, mas que são insuficientes para a salvação.  Portanto, para MacArthur “não existe nestes versículos a mais ínfima possibilidade de que se refiram a perca da salvação”.

Dr. Wayne Gruden defende a quarta posição, entendendo que o texto não se refere a cristãos verdadeiros, mas a meros professos[5]. Ele fez uma profunda análise do texto  que apresentarei de modo breve a seguir: Hebreus 6 diz que aqueles que acabam se afastando dão muitos sinais exteriores de conversão e parecem cristãos em muitos aspectos, mas não o são:  

  • Hebreus 6:4-6 à luz dos vv. 7-8. Nessa metáfora os condenados ao juízo final são comparados à terra que não produz vegetação ou fruto útil, mas só abrolhos e espinhos. Quando lembramos outras metáforas bíblicas em que o bom fruto é sinal de verdadeira vida espiritual e a ausência de frutos denuncia os falsos crentes (Mt 3.8-10; 7.15-20; 12.33-35), já temos uma indicação de que o autor está falando de pessoas cuja prova mais confiável de sua condição espiritual (fruto) é negativa, e isso indica que o autor fala de pessoas não regeneradas.
  • O uso da expressão: “foram uma vez iluminados” (v.4) pode não referir-se à salvação. A palavra grega “photizo”, traduzida por “iluminados” indica que tais pessoas compreenderam certas coisas concernentes ao evangelho, não que se tornaram crentes, ou como diz Gruden “não que tenham respondido a essas verdades com genuína fé salvífica”. A palavra é usada em João 1.9 – a luz que “ilumina a todo homem”, mas está claro neste texto que nem todos os que recebem essa luz são salvos. A palavra não é um termo técnico para as pessoas que são salvas.
  • A expressão “uma vez” (v.4 – “uma vez foram iluminados”) no grego é “hapax”- não tem o sentido de que o que ocorreu uma vez não pode ser repetido (como uma possível referência à regeneração que é irrepetível), como alguns pensam. Em Filipenses 4.16 a mesma palavra é usada, e Paulo diz que as ofertas foram enviadas não só uma vez, mas duas. É diferente da palavra “ephapax”, usada no NT para indicar coisas ou eventos únicos, Rm 6.10; Hb 7.27; 9.12;10.10.
  • A frase “provaram o dom celestial...a boa palavra...e os poderes do mundo vindouro” (v.4,5). Note que o texto diz que “provaram” e não que “receberam”, para Gruden isso indica que tais pessoas tiveram alguma vivência do poder espiritual, mas não eram genuinamente regeneradas. A palavra usada aqui aparece em Hb 2.9 – Cristo “provou” a morte, mas isso não foi uma experiência contínua, mas momentânea.
  • A frase “se tornaram participantes do Espírito Santo” (v. 4). Aqui precisamos entender o sentido do termo “participantes”, no grego “metochos”. A palavra “metochos” indica duas categorias de associação, uma mais íntima e outra uma associação mais tênue ou superficial. Por exemplo, Hb 3.14 – é usada para uma participação íntima, contudo, em Lc 5.7 – os “companheiros” de Pedro que estavam no outro barco eram meramente parceiros de pesca, não íntimos. Essas pessoas tiveram suas vidas influenciadas pelo Espírito Santo, mas não sofreram uma mudança real em virtude disso. John MacArthur seguindo uma argumentação muito próxima a de Gruden observa que “este contexto dos vv.4-6 parece excluir uma referência aos crentes verdadeiros. Poderia ser uma referência a sua participação... no ministério de milagres exercido por Jesus pelo poder do Espírito ou o ministério de convicção do Espírito Santo (Jo. 16.8), o qual pode ser resistido sem experimentar salvação (At 7.51).” 
  • A frase “impossível... renová-los” (v.6) – os que apóiam a apostasia real têm que enfrentar esse obstáculo intransponível de que os apóstatas ou desviados não poderão jamais se arrepender e voltar, como eles dizem que pode. Portanto, essas palavras só podem se aplicar àquelas pessoas que, ficando na igreja, recebendo a ministração da Palavra todos os domingos, recebendo orações e quem sabe participando até mesmo da ceia e ainda assim “voluntariamente rejeitam” a salvação, essas sim, por causa da sua relutância em entregar-se definitivamente à Cristo, não são mais passíveis de um arrependimento genuíno.   Diz Grudem “o seu coração está endurecido, a sua consciência, insensível. Que mais se poderia fazer para trazê-las à salvação? ... a sua constante familiaridade com as coisas de Deus e a forte influência do Espírito Santo só serviu para endurecê-las contra a conversão”. (Hb. 2.3).

Assim, o texto de Hebreus 6.4-6 enfoca aqueles que são meros professos, freqüentadores de igreja, não os verdadeiros cristãos. É notável a adversativa no v. 9 “mas” (ARC) ou “todavia” (ARA) que diferencia o grupo dos meros professos dos verdadeiros crentes. Aníbal Pereira Reis também observou com propriedade que o autor de Hebreus aos tratar meros professos ou nominais, “emprega o verbo na terceira pessoa: “os que já uma vez foram iluminados, e provaram... e se fizeram (6.4) ...e provaram (6.5)... e recaíram...crucificam... expõem (6.6). Nesse versículos dirigidos aos “falsos irmãos” ele não usa os verbos na segunda pessoa... tendo encerrado a brutal advertência para os “quase induzidos”, a partir do v.9 retorna a se dirigir aos verdadeiros crentes, falando-lhes outra vez na segunda pessoa do plural: “mas de vós” (6.9), “da vossa obra”, mostrastes”, servistes”, “servis” (6.10). Dirigindo-se aos verdadeiros crentes o escritor emprega a primeira pessoa do plural, do presente do indicativo, incluindo-se entre eles...”.[6] Dos verdadeiros cristãos o autor da Epístola aos Hebreus espera “coisas que são melhores” (v. 9). 

É importante também observar que das quatro interpretações possíveis, apenas uma advoga uma apostasia real e enfrenta uma forte e  insuperável contra-argumentação, como por exemplo, a enfática declaração de que é "impossível" renovar para o arrependimento aqueles que apostaram.  

CONCLUSÃO:

A doutrina da perseverança dos santos implica em que o verdadeiro cristão persevera em santidade e manifesta o caráter de Cristo. O teólogo batista Wayne Gruden declara que a doutrina da perseverança dos santos tem duas partes. Na primeira indica que “há uma garantia a ser dada àqueles que realmente nasceram de novo, pois lembra-  lhes de que o poder de Deus irá conservá-los cristãos até a morte e que certamente viverão com Cristo no céu para sempre.” Na segunda metade, “deixa claro que a perseverança na vida cristã é uma das evidências de que a pessoa realmente nasceu de novo.” Para Gruden é necessário esse segundo aspecto “para que não se dêem falsas garantias a pessoas que na verdade nunca foram crentes”. [7] A doutrina da perseverança dos santos propicia aos crentes a segurança de sua salvação, a paz, a  alegria e a liberdade do legalismo.

Você tem confiado na salvação em Cristo Jesus? Você nasceu de novo? Você percebe tendências ao crescimento espiritual?


Soli Deo Gloria!



Notas
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[1] Teologia Sistemática, uma perspectiva pentecostal, Stanley Horton, pp 376-380
[2] Introdução à teologia Sistemática, M. J. Erickson
[3] Hebreus, introdução e comentário, D. Guthrie
[4] The MacArthur Study Bible
[5] Panorama do Novo Testamento, p 378. Dr. Robert Gundry declara que essa é a “interpretação mais promissora”. Essa mesma posição é defendida por Aníbal Pereira Reis o livro Pode o Crente perder a salvação?
[6] O Crente pode perder a salvação, A. P. Reis, p 270,271
[7] Teologia Sistemática, W. A. Gruden, pág. 659