quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Libertação e Nova Vida

D.M. Lloyd-Jones



“Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto. Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo. Torna a dar-me (restitui-me) a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário. Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores a ti se converterão. Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha língua louvará altamente a tua justiça. Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca entoará o teu louvor.”
 Salmo 51:10-15




Em nossos três estudos anteriores, vimos que este Salmo não é apenas uma declaração clássica da doutrina bíblica e cristã do arrependimento, e que nos mostra também, de uma forma muito clara e dramática, os vários passos e estágios no processo do arrependimento, mas além disso, a um e ao mesmo tempo, ele nos lembra da maneira igualmente marcante, algumas das principais características da verdadeira e genuína experiência cristã. Aqui neste Salmo do Velho Testamento, ouvimos o clamor do coração humano que reconhece sua pecaminosidade na presença de Deus, o clamor para as muitas coisas que são supridas tão gloriosa e maravilhosamente pelo evangelho do Novo Testamento, por meio e através do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Tenho tentado traçar junto com vocês os vários passos e estágios; e tenho sido cuidadoso em ressaltar que não insistimos que todos devem experimentar essas coisas precisamente na mesma ordem, ou que deva existir um tipo de repetição mecânica daqueles elementos essenciais na experiência cristã. Todavia, temos nos preocupado em ressaltar que há certas coisas que estão invariavelmente presentes numa genuína experiência cristã; e esses são os passos que temos detalhado até agora. Primeiramente, vimos que o homem cristão é alguém que em algum momento ou outro foi despertado. Ele caiu em si mesmo e viu o caráter horrível das coisas que havia feito. Vimos que o passo seguinte era que tal homem sempre chega a perceber sua desesperada necessidade de perdão, volta-se para o verdadeiro Deus contra quem ele tem pecado, e lança-se inteiramente sobre Sua misericórdia. E então consideramos a terceira coisa que acontece ao cristão, a qual é que ele vê sua absoluta necessidade do novo nascimento e de uma nova natureza. É por isso que a doutrina da regeneração é para o verdadeiro cristão uma das mais gloriosas doutrinas de toda a Bíblia. Ele louva a Deus pelo milagre da redenção.


Agora veremos a outra característica do verdadeiro cristão, que é o fato dele mostrar certas conseqüências que advêm de tudo o que já tenho falado. Há certas conseqüências inevitáveis para aquelas coisas — a conscientização do pecado como resultado do despertar, a necessidade de perdão e a oração para a nova natureza. Então, agora quero tratar dessas conseqüências, e ao fazermos isso eu lhes lembraria mais uma vez do princípio que tenho enfatizado sempre, isto é, o que irei dizer é algo que encontramos em toda parte da Bíblia. Observem a experiência dos santos como ela nos é apresentada no Novo Testamento, e vocês verão que todos se amoldaram a um padrão fundamental. Tomem qualquer caso e comparem; todos eles são exatamente o mesmo. Isso é algo tão maravilhoso nas Escrituras; encontramos essas mesmas experiências repetidas em toda parte. Não apenas isso, se pegarem seu hinário, descobrirão que os autores que tiveram uma genuína experiência da graça de Deus em Cristo, também estão dizendo as mesmas coisas. Não importa qual a denominação a que pertençam. A experiência evangélica do novo nascimento é a mesma em todos os países e em todos os séculos, e essa é a razão porque essas grandes ilustrações que temos em nossos hinos dão testemunho e confirmam as mesmas coisas. Novamente, quando lemos as biografias dos santos através dos séculos, encontramos uma repetição das mesmas experiências. Martinho Lutero, após ter dolorosamente elaborado para si mesmo a doutrina essencial da justificação pela fé somente e a doutrina evangélica da redenção, descobriu também que Agostinho tinha dito tudo isso onze séculos antes, e quão surpreso e maravilhado ele ficou por ter descoberto o que Agostinho já havia escrito! Muitos outros santos tiveram a mesma experiência. Essas coisas são absolutas, e portanto devemos observá-las muito cuidadosamente.


Aqui, noutras palavras, temos nosso único padrão: o que importa não é o que você e eu pensamos, é o que a Bíblia ensina. As pessoas têm suas próprias idéias sobre o que constitui um cristão. Vocês percebem isso quando discutem essas coisas com outras pessoas, e elas dizem: “O que eu afirmo é isto”. E devido eles o terem dito acham que isso deve ser verdadeiro. Contudo, certamente não há um padrão definitivo do que torna um homem em cristão, exceto na Bíblia. O que conhecemos do cristianismo fora da Bíblia? Que direito temos nós de afirmar: “Isso é o que eu penso que torna um homem em cristão”? Certamente, a Bíblia é nossa única regra e autoridade. Nada conhecemos de Jesus Cristo, à parte do que encontramos na Bíblia, e não temos qualquer direito de postular o que é a experiência cristã fora do ensino da Palavra de Deus. Aí, eu digo, está o único teste e o único padrão. Eu diria novamente com Lutero: “Não conheço outro Deus senão Jesus Cristo”. Nada conheço além do que encontro na Bíblia, e o que encontro nela é que eu estou passando por este mundo, que tenho de encontrar-me com Deus face a face, que há um único caminho pelo qual eu posso fazer isso sem medo, horror, estremecimento, alarme e destruição final, e isso é prestar uma pronta obediência ao que Deus me fala em Sua própria Palavra, crer em Seu Filho o Senhor Jesus Cristo, e entregar-me e toda a minha vida a Ele. Se faço isso, se reconheço meu pecado, se percebo minha necessidade de perdão e creio que tenho isso através de Cristo e Sua perfeita obra, se suplico e oro por esse novo nascimento e o recebo, então afirmo que certas coisas me acontecerão.


Noutras palavras, afirmo que o que estou a ponto de dizer é um teste. Não posso imaginar nada mais terrível para um homem do que viver uma longa vida neste mundo presumindo e imaginando que é um cristão, e então descobrir no temível dia do Juízo que ele nunca foi um cristão de verdade. Essas são as sérias palavras do próprio Senhor Jesus Cristo: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade” (Mateus 7:22,23). Para mim (e esse é o motivo pelo qual eu sou um pregador do evangelho) a coisa mais importante para um homem nesta vida e neste mundo é saber com segurança que ele é um cristão. É o único lugar seguro, é o único lugar de segurança, e estudando este Salmo, temos mostrado certos testes que podemos aplicar a nós mesmos. Aqui está o teste final.
Quais são as conseqüências do arrependimento, da fé no Senhor Jesus Cristo e do novo nascimento? A primeira é a possessão do júbilo e da alegria. Observem como Davi colocou isso: “Faze-me”, ele disse no versículo 8, “ouvir júbilo e alegria; para que gozem os ossos que tu quebraste”. Mas ouçam novamente como ele coloca isso no versículo 12: “Torna a dar-me (restitui-me) a alegria da tua salvação”. Ele tinha conhecimento disso, contudo a havia perdido, e quer tê-la de volta. Afirmo que qualquer homem que tem sentido isso através da experiência da conversão, que nasceu de novo, é alguém que conhece esse júbilo e alegria. Ora, sejamos cuidadosos acerca disso. Há muito mal-entendimento a respeito desta questão de alegria cristã. É muito importante observar que a alegria da qual Davi fala aqui é uma alegria exclusiva, exatamente da mesma maneira que a Bíblia fala dela em toda parte. Ele não está falando sobre uma alegria e júbilo comuns; não está falando de algo temperamental. A alegria da qual ele fala é chamada “a alegria da tua salvação”. É uma alegria especial. Por essa razão me esforço para enfatizar isso. Sou muito inclinado a concordar que temperamentalmente nos diferenciamos tremendamente uns dos outros. Há algumas pessoas que parecem ter nascido com um temperamento mórbido, introspectivo, miserável e infeliz, e há outras pessoas que são naturalmente alegres, otimistas e simpáticas. Se fizermos uma análise da humanidade do ponto de vista psicológico, descobriremos que há todas as variações concebíveis, do tipo introspectivo, totalmente miserável, a esse outro tipo de pessoa que está sempre, como já falamos, jubiloso, feliz e alegre, independente do que esteja acontecendo. Com efeito, a Bíblia é bem ciente de tudo isso, é claro, mas sua grande mensagem para nós — e graças a Deus por isso! — é que a alegria da qual ela fala é totalmente independente de qualquer situação natural. E a alegria da salvação vindo de Deus que é oferecida, e não uma alegria natural qualquer. Isso é importante neste sentido: o ensino bíblico é que todo cristão deve possuir esta alegria, e embora você tenha nascido naturalmente mórbido, ainda pode desfrutar desta alegria específica.


Um caso, talvez, ajudará a estabelecer este ponto. Penso que qualquer psicólogo concordaria comigo quando digo que o apóstolo Paulo era por nascimento e por natureza um homem dado à morbidez e introspecção; não houve nada nele do tipo de pessoa que possuía aquela alegria natural. Mesmo assim jamais houve um homem que conhecia a alegria da salvação provindo de Deus mais que o apóstolo Paulo. Ou considerem outro caso, um caso mais moderno. Consideremos um homem como João Wesley. É impossível imaginar que João Wesley fosse um tipo de indivíduo alegre e feliz. Ele era a verdadeira antítese disso: erudito, um tanto distante, com uma espécie de frieza em sua natureza e pessoa — temperamentalmente, um homem naturalmente mórbido também. E mesmo assim ele se tornou um homem que conhecia esta grande alegria da salvação e se gloriava e regozijava nela. Eu poderia fornecer muitos outros exemplos para estabelecer o mesmo ponto. O que afirmo, portanto, é que se estamos carentes da alegria da salvação provindo de Deus, não podemos nos desculpar em base temperamental e dizer: “Não somos todos iguais”. Não estamos discutindo temperamentos; estamos discutindo a alegria da salvação dada por Deus que é oferecida a todos, e que, de acordo com a Bíblia, é para todos. Considerem Pedro, por exemplo, em sua Primeira Epístola (capítulo 1, versículo 8). Ele está escrevendo aos cristãos e quer que eles se regozijem, e lhes diz: “Não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso” — todos eles. Ele não diz:”alguns de vocês, os mais joviais e os mais alegres, estão regozijando na alegria”. Nada disso; todos nós, cada um, todo cristão.


Então, a pergunta que eu faço é esta: conhecemos alguma coisa acerca desta alegria, satisfação e regozijo? Tenho estabelecido que isso é uma conseqüência inevitável da verdadeira experiência evangélica do novo nascimento. Mas, caso que alguém esteja triste sobre isso, deixem-me colocá-lo da seguinte forma, pois é meu desejo ser essencialmente prático: há certas coisas que tendem a se levantar entre as pessoas e a experiência desta alegria e satisfação. Permitam-me mencionar algumas. A primeira, evidentemente, é o pecado. Essa era a essência do problema de Davi. “Restitui-me”, disse Davi, “a alegria da tua salvação.” Por que ele a tinha perdido? Ele a tinha perdido porque era culpado de adultério, assassinato e as outras coisas que já foram mencionadas. Meu querido amigo, não há necessidade de argumentar a respeito disso. Infelizmente, todos nós sabemos algo disso por dolorosa experiência. Se pecamos, quebramos a comunhão e o contato com Deus, e isso sempre nos leva à miséria e tristeza. Sempre há condições vinculadas às bênçãos de Deus. Devemos amar a Deus; Deus nos chama a amá-lO. Sei de muitas pessoas que estão vivendo uma vida cristã miserável porque não se submetem a Deus. A coisa não funciona em direções opostas. Leiam a respeito do apóstolo Paulo novamente, e a maravilhosa alegria que ele conhecia. Leiam as biografias dos santos e de suas vibrantes experiências. Por que todos nós não temos isso? Não é que elas fossem pessoas especiais. Não, Paulo disse que ele era “o principal dos pecadores”. Como então ele conhecia tamanha alegria? A essência do segredo é que ele evitava o pecado, ele vivia a vida para a qual Deus em Cristo o chamara. O pecado sempre rouba a alegria. Sejamos cuidadosos quanto a isso.


Mas há outra razão também, isto é, falta de compreensão quanto ao caminho da salvação. Há muitas pessoas que querem ser cristãs, há muitas que dariam o mundo inteiro se tão-somente pudessem ter a alegria de que se lê na Bíblia e nas vidas dos santos. E, no entanto, elas dizem: “Você sabe, parece que nunca sou capaz de apreendê-la. Tenho orado por ela e a almejado. A coisa que eu mais quero é esta grande alegria, e ainda não a tenho; sempre está me iludindo”. Bem, às vezes a razão por isso não passa de pura ignorância ou falta de ensino a respeito do caminho e os meios da salvação. Sem perceber isso, essas pessoas estão ainda confiando em si mesmas e em seus próprios esforços. Elas não perceberam que o evangelho é algo simples, que temos que vir a Deus de mãos vazias, reconhecendo que nada podemos fazer, pois ele é um dom dado por Deus. Elas estão ainda tentando tornar a si mesmas cristãs, e enquanto fizerem isso, jamais conhecerão a alegria da salvação. Deixem-me explicá-lo mais uma vez. É simplesmente isto — e como é simples! Todos nós temos pecado contra Deus. Nunca poderemos livrar-nos da nossa culpabilidade, nunca poderemos remover a mancha. Meu passado permanece e eu não posso apagá-lo; eu falho no presente e falharei no futuro. Como então eu poderia encontrar-me com Deus e ser perdoado? Ah, a resposta para tudo isso é que eu posso recebê-lo como uma dádiva imediata, que tudo têm sido realizado em Cristo, que Cristo morreu pelo meu pecado, e devido Deus ter tratado com o pecado ali, Ele me oferece este dom gratuitamente. Aí está a essência desta questão. Não precisam esperar por coisa alguma: é um dom que tem que ser recebido, assim como você está e onde estiver neste momento.


Lamentavelmente, há muitas pessoas que não reconhecem isso. Elas dizem: “Eu devo me tornar um homem melhor antes de poder dizer que sou cristão”. Isso é negar toda a doutrina do perdão. A doutrina é que em simplicidade pura e completa tudo é dado por Deus, num momento, imediatamente. Ele não pede nada de nós, exceto submissão. Espero que ninguém esteja vivendo sem a alegria da salvação, pelo fato de não reconhecer que ela é dada gratuitamente por Deus a qualquer momento. Deus não pede que você faça alguma coisa. Ele pede que você a receba agora, que você creia em Sua palavra. Oh, que tragédia, o fato das pessoas estarem privando a si mesmas dessa alegria, por esse motivo!


Deixem-me dar um exemplo disso. O problema todo com Lutero era esse. Lutero estava tentando tornar-se cristão, e era infeliz, como qualquer homem é quando tenta fazer de si mesmo um cristão, porque é coisa impossível. E então, a abençoada verdade, que essas riquezas de Deus em Cristo são dadas livremente e tudo o que ele tinha a fazer era recebê-las pela fé, foi-lhe revelada. Esse é também o caso de todos os outros santos na história da Igreja.
Uma terceira razão que explica porque muitos não têm essa alegria da salvação é o simples fato que eles gastam tanto tempo olhando para si mesmos, em vez de olharem para o Senhor. Eles erguem para si mesmos um padrão de perfeição. Lembro-me do triste caso de um homem muito piedoso que eu conheci. Ele tinha duas filhas que eram excelentes mulheres. Ambas já tinham alcançado a meia-idade quando eu as conheci. Elas viviam, em certo sentido, para as coisas de Deus, e mesmo assim, nenhuma delas ainda havia se tornado membro de uma igreja cristã, ou mesmo participado da Ceia do Senhor. Com respeito às suas vidas e conduta, vocês certamente não poderiam conhecer pessoas melhores, contudo, elas nunca haviam se tornado membros de igreja e jamais participaram do pão e do vinho. Por quê? Elas diziam que não sentiam que eram boas o suficiente. Qual era o problema com elas? Elas estavam olhando para si mesmas em vez de olharem para a consumada e perfeita obra de Cristo. Vocês olham para si mesmos e, é claro, serão miseráveis, porque no íntimo há trevas e escuridão. O melhor santo quando olha para si mesmo se torna infeliz; ele vê coisas que não deveriam estar ali, e se nós gastarmos todo o nosso tempo olhando para nós mesmos, permaneceremos na miséria, e perderemos a alegria. Auto-avaliação é coisa boa, mas introspecção é ruim. Vamos mostrar a diferença entre essas duas coisas. Podemos examinar a nós mesmos à luz das Escrituras, e se fizermos isso, estaremos sendo conduzidos a Cristo. Mas com a introspecção, um homem olha para si mesmo e continua fazendo assim, e se recusa a ser feliz até que possa se livrar das imperfeições que ainda estão ali. Oh, como é trágico o fato de ficarmos gastando nossas vidas olhando para nós mesmos em vez de olharmos para Aquele que pode nos fazer livres!

Acaso não é uma coisa maravilhosa que essa alegria é totalmente possível para criaturas como nós? Não haveria algo quase ousado sobre esta oração de Davi? “Restitui-me a alegria da tua salvação”, disse o adúltero e assassino, o mentiroso, o homem que é responsável por tantos problemas — “restitui-me a alegria da tua salvação”. Como pode um homem como esse ainda ser feliz? Seria possível? Sou grato a Deus porque isso é possível, e é o motivo pelo qual prego este evangelho a vocês. Isso é a glória desta salvação maravilhosa. Ele pode dar essa alegria a um homem que tem descido tão fundo, e pode elevá-lo para as alturas da alegria e satisfação. E faz desta forma: ele pode tornar o pior pecador alegre e feliz pelo fato de dar-lhe uma certeza de perdão e absolvição. O único que pode dar perdão é Deus, e, graças a Deus, Ele o faz! E Deus não apenas perdoa, Ele pode fazer-me ciente de que tem me perdoado. Saber isso é perder aquela sensação miserável de culpa e frustração. Ninguém mais pode fazer isso, mas Deus pode. Então, embora eu tenha afundado na mais baixa profundeza do pecado e degradação, Ele pode fazer-me regozijar em Sua grande salvação. Por conseguinte, Ele me concede isso dando-me uma nova natureza e um senso de um novo início, um novo começo. Nenhum homem pode ser realmente feliz e satisfeito, se ele sente que vai gastar o resto de sua vida exatamente como era antes, porque ele argumenta da seguinte forma: “Eu estou arrependido pelo que fiz, mas sei que vou fazer a mesma coisa novamente. Oh, desventurado homem que eu sou, em que miserável existência eu me encontro!” Todavia aqui é uma oferta de uma nova natureza, um novo início, um novo começo. Esse é o evangelho de Jesus Cristo. Ele propõe nos criar de novo, fazer de nós novos homens com a natureza divina dentro de nós, e assim temos um novo começo de vida. Não apenas isso, mas isso por sua vez faz um homem sentir que libertação é realmente possível. “Eu preciso de Ti todas as horas,” diz o cristão. “Fiques Tu bem junto a mim.” Por quê? “Tentações perdem o seu poder, quando Tu estás por perto.” Eu começo a sentir que Ele está comigo; e Ele é mais poderoso que o maligno. Ele venceu o diabo e pode me capacitar a fazer o mesmo.


Outra maneira pela qual Ele me capacita a alegrar-me e regozijar-me é que o próprio Deus me capacita a esquecer minha miséria e desventura. Essa é uma das coisas mais maravilhosas de todas. Vejam vocês, aqui está um homem como Davi, e ele tem feito todas essas coisas. Ora, se um homem como esse começa a olhar para si mesmo, ele cairá nas profundezas do desespero; mas quando Deus nos faz olhar para Cristo, Ele nos faz olhar para Seu amor, compaixão e misericórdia. Ao fazermos isso, ficamos livres de nós mesmos, esquecemos de nós mesmos — é o único caminho que eu conheço para alguém esquecer de si mesmo. O caminho para ser feliz, conforme o evangelho, é olhar para o Senhor Jesus Cristo. Observem que o Filho de Deus desceu do céu para este mundo, a fim de morrer pelos nossos pecados. Vejam-nO, pela fé, lá na glória, olhando para vocês, desejando derramar Sua grande luz, poder e força sobre as suas vidas. E quando vocês refletirem sobre Seu amor e compaixão, esquecerão de si mesmos e do pecado, e começarão a regozijar-se e a louvar ao Senhor. Vocês terão a alegria de Sua grande salvação. Assim é que acontece. Porventura vocês conhecem a alegria da salvação vindo de Deus? Vocês sabem o que é regozijar-se no Senhor, ser contentes em Cristo?


A segunda característica do cristão é sempre esta: uma profunda desconfiança de si e uma dependência do poder de Deus. Ouçam a Davi. Ele já tinha dito: “Cria em mim um coração puro... e renova em mim um espírito reto”. A Versão Revisada coloca da seguinte maneira: “Renova um espírito stedfast (inabalável) dentro em mim”. Observem vocês que ele era consciente de sua própria impureza. Davi pôde muito bem ter sentido assim. Ele foi um homem que havia experimentado a bênção de Deus, e tinha conhecimento da alegria do Senhor; e mesmo assim tinha caído nesses terríveis pecados. Então ele clamou por essa renovação dentro dele e por esse espírito inabalável. Eu ouso dizer que todo cristão sabe o que isso significa. Um cristão não é um homem que confia em si mesmo. Ele é o único que reconhece sua própria debilidade. Precisa ser um cristão para ver a grande negritude do seu coração e a fragilidade de sua própria natureza. Há um tipo de cristão, eu lamento dizer, que se comporta como se pudesse fazer todas as coisas. Ele teve uma experiência de conversão, e agora está pronto para encarar o inferno, o diabo e qualquer coisa. Pobre sujeito, ele não irá muito longe antes de perder esse senso de confiança. “Aquele, pois, que pensa estar em pé,” disse o apóstolo Paulo a tais pessoas, “veja que não caia” (1 Coríntios 10:12). Não, o cristão é um homem que reconhece sua própria fragilidade, e ele teme isso. Então ele ora por um espírito estável, um espírito inabalável. Ele quer ser um homem invulnerável.


O que mais? Aqui está a próxima coisa — “Restitui-me a alegria da tua salvação; e sustém-me.” “Sustém-me — eu não posso sustentar a mim mesmo”, ele disse. “Sustenta-me, eu sou frágil e fraco, e o mundo é sombrio e pecaminoso. Estou cercado pela tentação, insinuações e sugestões de pecado. Tenho medo de cair; sustém-me Senhor.” Esse é o cristão — um homem que reconhece que se Deus não o sustentar, ele certamente cairá.
E a última coisa que ele expressa aqui é: “Restitui-me a alegria da tua salvação; e sustém-me”, diz a Versão Autorizada, “com teu espírito livre.” É convencionado que essa é uma tradução errada; é melhor desta forma : “sustém-me com um espírito voluntário”. Noutras palavras, ele está orando por isto: “Eu peço que Tu me enchas com um espírito voluntário, para que eu esteja sempre disposto a fazer o que Tu pedires de mim. Quero estar disposto para andar no caminho dos Teus mandamentos, então restitui-me essa alegria da Tua salvação e sustém-me com um espírito reto e voluntário”. E é claro que o cristão sabe que tudo isso só é possível de uma maneira — a maneira que Davi já havia expressado nas palavras: “Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo”. Esse era o maior medo que ele tinha, que Deus, por causa do seu pecado, pudesse voltar as costas para ele. “Não faça isso”, clamou Davi; “não me lances da tua presença, não retires de mim o teu Espírito Santo.” Noutras palavras, o cristão reconhece que, como ele precisa de uma firmeza na vida, precisa de ser apoiado, precisa desse espírito voluntário, há uma única resposta, e essa resposta é o dom do Espírito Santo. E, graças a Deus, essa é a resposta do evangelho no Novo Testamento. Deus coloca Seu Espírito em nós; e o Espírito de Deus pode fazer-nos firmes, Ele pode nos sustentar, pode nos dar essa disposição, essa prontidão para andarmos no caminho dos mandamentos de Deus. A confiança do cristão nunca está nele mesmo; ela está no poder do Espírito Santo que Deus em Cristo, e através de Cristo, dá a ele.


A última coisa que devo mencionar é esta. A última característica do cristão é que ele agora deseja viver para a glória de Deus, e está desejoso para que todos os outros façam o mesmo. Ouçam Davi nos versículos 13-15: “Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores a ti se converterão. Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha língua louvará altamente a tua justiça. Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca entoará o teu louvor”. Eu não preciso me deter nisso. Qualquer homem que reconhece que Deus em Sua graça tem perdoado seu pecado, apagado as suas transgressões, lavado e purificado seu coração; qualquer homem que sabe quão vil ele tem sido, e quão maravilhosas são essa graça e vida de Deus — e qualquer homem que realmente reconheceu e experimentou isso deve necessariamente sentir que há somente uma coisa a ser feita nesta vida e neste mundo — viver para a glória de Deus. Se um homem não sente isso, ele é desprezível. Se eu me levanto aqui e afirmo que creio que Deus enviou Seu Filho unigênito para aquela cruz hedionda no Calvário para morrer por meus pecados, que Deus tem me amado de tal maneira que fez isso por mim — se afirmo isso e não quero viver para a honra e glória de Deus, estou afirmando que sou o maior ingrato e miserável que o mundo já viu. Não há necessidade de argumentarmos acerca dessas coisas. Amigo, se alguém faz uma boa ação para você, você tem um senso de gratidão para com ele, e pergunta: “Haveria alguma coisa que eu possa fazer por você? Se você tiver qualquer problema, deixe-me saber. Sinto que lhe devo tanto, deixe-me fazer o que posso por você”. E aqui está o Deus santo que nos tem perdoado de nossos pecados imundos até mesmo ao custo do sangue derramado de Seu próprio Filho! Não deveria haver necessidade de apelar aos homens para serem santos; deveria ser suficiente dizer-lhes o que Deus tem feito e então deixar isso ao seu senso de honra.


“Ó Deus”, disse Davi, “restitui-me a alegria da tua salvação; e sustém-me com teu espírito livre. Então”, inevitavelmente, “ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores a ti se converterão.” Eu gastarei meu tempo, ele disse, entoando o Teu louvor, ministrando para Tua glória. Eu persuadirei outros a virem a Ti; olharei para eles com um olhar diferente. Eu os verei como tenho visto a mim mesmo, perdendo a maior e a mais maravilhosa coisa na vida, e direi a eles: “Venham a Deus, encarem o pecado de vocês, creiam nEle, e vocês terão esta maravilhosa alegria, esta sustentação, esta força e tudo que necessitarem”. “Então” — e é esse “então”, eu digo, que é inevitável em todo verdadeiro cristão. Um cristão, noutras palavras, é um homem que reconhece a verdade sobre si mesmo, e que já recebeu tanto de Deus que quer ver todos desfrutando bênçãos semelhantes. É como um homem que pode ter sofrido por anos de alguma doença ou indisposição dolorosa, que buscou todos os médicos de seu próprio país e de outros países e não encontrou cura, e finalmente, depois de muitas tentativas, encontra o alívio e livramento. O que esse homem desejaria fazer? Ele quereria que todos os outros que estão sofrendo da mesma enfermidade saibam acerca de sua cura. Ele sente que está em débito com eles. Ele vê um caso similar e diz: “Você tem experimentado isso? Ele operou maravilhas em mim. Oxalá você tentasse isso e ficasse como eu estou!” E é exatamente isso o que ocorre com um verdadeiro cristão. O homem que é cristão está triste por aqueles que estão vivendo em pecado. Ele lamenta por este mundo infeliz tentando encontrar alegria e nunca a encontrando, tentando beber água de uma cisterna rompida e nunca encontrando satisfação. Ele vê homens chegando perto da morte, do fim da vida, próximo do julgamento e da perdição eterna, e ele se sente triste por causa deles. Percebe que eles estão cegados por satanás, perdendo a coisa mais gloriosa de todas, e quer que eles saibam disso. Assim, tendo passado por essa experiência, ele faz o máximo para que outros possam tê-la também.


Portanto, olhamos juntos para algumas das caracter­ísticas do cristão. Meu amigo, eu já disse, e afirmo novamente, a questão mais importante no mundo é simplesmente esta: você é um cristão? Você conhece algo dessa alegria? Você conhece algo dessa suprema confiança no poder do Espírito Santo? Você sente que tem alguma coisa que gostaria que outros também tivessem? Esses são alguns dos testes mais simples. Se você tem essa bênção, que Deus continue abençoando-o. Se não a possui, se sente que essas simples questões têm condenado você, e sente que realmente não é um cristão, então tudo que eu tenho a dizer é: vá e confesse isso a Deus. Não perca tempo. Diga a Ele que você tem enganado a si mesmo, que reconhece que não é um cristão. Diga a Ele que você quer ser cristão, peça a Ele que pelo Seu Espírito Santo ilumine você. É tão simples quanto isso — confesse seu pecado, reconheça sua transgressão e peça a Ele por esse perdão em Cristo; e você irá recebê-lo. Então agradeça a Deus, e vá falar a respeito dEle a outros que estão em trevas e na mesma miséria. Amém.
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Extraído de O Clamor de um Desviado, Ed. PES