quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Carta ao Irmão Adventino


Querido Adventino:

1. Escatologia é a doutrina que trata das últimas coisas. É um estudo fascinante e importante, primeiro porque nos fornece uma filosofia de história.  A história será consumada, ela caminha de acordo com um propósito e não ao acaso, se move numa direção, não aleatoriamente. A Bíblia deixa claro que tudo foi criado em conformidade com um plano que inclui sequência, equilíbrio, correspondência e clímax. A escatologia bíblica nos oferece sentido, significado, propósito (Ec. 3:1,117; Is. 46:9-11; Ef.1:11-14). Em segundo lugar a escatologia é uma certeza, não uma probabilidade. O último livro da Bíblia é uma “Revelação” (Apocalipse) das coisas que em breve “devem” (necessariamente) acontecer (1:1;22:6), não das coisas que poderão ou não acontecer. Isso deve conferir ao cristão segurança quanto à vitória final do seu Senhor.

2. No entanto, na escatologia multiplicam-se as divergências. Basicamente se diverge quanto à questão de um reino milenar literal e se Cristo vem antes (para inaugurá-lo) ou depois desse período (amilenistas e pós-milenistas). Para os que dizem que Cristo vem antes do Milênio (pré-milenistas), há divergências quanto a se Sua vinda se dará também antes (pré-tribulacionistas) ou depois da grande tribulação (pós-tribulacionistas). Cada uma dessas escolas conta com homens piedosos e capacitados e que embora divirjam nesse ou naquele ponto, concordam em coisas essenciais.

3. Creio na segunda vinda de Cristo. Há uma abundância de textos bíblicos que falam de uma segunda vinda de Cristo, e se estiverem certos os que trabalham com estimativas, isso está em torno de uma menção a cada vinte e cinco versículos. Ele vai voltar, disse que o faria e o fará. Pré-milenistas, sejam eles pré-tribulacionistas ou não, amilenistas e pós-milenistas concordam quanto a isso.

4. Creio que sua segunda vinda está próxima. Segundo se lê na Bíblia estamos vivendo, desde a encarnação, os “últimos dias” (Hb.1:1; 1 Jo.2:18; 1 Pe. 1:20; 4:7; 1 Co. 10:11). Assim a escatologia foi inaugurada, mas, obviamente não consumada. Vivemos os últimos dias, mas o último dia ainda virá e não tardará. Gosto das palavras de Paulo “e digo isto, conhecendo o tempo, que já e hora de despertardes do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do quando aceitamos a fé.” Rm. 13:11 ACF). Com isso amilenistas, pós-milenistas e pré-milenistas concordam. Os dispensacionalistas dão maior ênfase à questão da iminência da Segunda Vinda em decorrência da sua concepção equivocada quanto ao arrebatamento pré-tribulacional.

5. Creio que a segunda vinda será visível e inconfundível. Quando Cristo fala da sua segunda vinda ele o faz em termos que indicam visibilidade. Os próprios termos que Cristo e os apóstolos usaram para referir-se à segunda vinda também indicam a visibilidade da sua segunda vinda. Amilenistas, pós-milenistas e pré-milenistas concordam que o retorno de Cristo será visível. É preciso dizer que no arranjo pré-milenista pré-tribulacionista, a segunda vinda só será visível em sua segunda fase, isto é, após a grande tribulação, pois postulam uma vinda secreta, para a igreja antes do irromper do período tribulacional. Em todo caso não chegam a negar uma vinda visível e inconfundível.  

6. Creio que na sua segunda vinda haverá a ressurreição dos mortos “em Cristo” e a transformação dos justos que estiverem vivos (1 Ts. 4:13 segs; 1 Co. 15). Nenhuma escola escatológica discorda que haverá ressurreição dos mortos quando da segunda vinda, entretanto, os amilenistas e pós-milenistas estão de acordo que essa ressurreição será um evento único, abrangendo justos e injustos, discordando dos pré-milenistas, que defendem duas ressurreições separadas, uma a dos justos, quando da segunda vinda e outra, mil anos depois, dos injustos (Ap.20).

7. Creio em um reino milenar de Cristo. Crêem nisso também todas as escolas teológicas, mas divergem quanto à natureza desse reino. Amilenistas, por exemplo, não negam que exista reino milenar de Cristo como comumente se pensa ou fazem crer os que se opõe a esse sistema. Pode-se dizer que o amilenismo defende um milênio realizado e não literal, aqui e agora. O pós-milenismo entende que o milênio não é literal, mas uma consequência do reinado de Cristo nos corações da maior parte da humanidade, após o que Ele deve voltar. Já os pré-milenistas aguardam um período próprio em que Cristo reinará literalmente, após a sua segunda vinda. Os pré-tribulacionistas, defendem uma posição especial para Israel nesse período, os pós-tribulacionistas não pensam assim e são menos literais. Seja como for, percebe-se que a divergência é menor do que se pensa em linhas gerais e se avolumam quanto às minúcias.

8. Creio que a segunda vinda se dará após a grande tribulação, Mt. 24:29-30. Amilenistas, pós-milenistas e pelo menos uma forma de pré-milenismo defendem que a segunda vinda se dará após a grande tribulação, isto é, são pós-tribulacionistas. Uma forma de pré-milenismo, também chamados de Dispensacionalismo, defende uma segunda vinda antes ou pré-tribulação. No entanto, todos concordam que haverá o tal período, mas discordam quanto ao relacionamento dele com a segunda vinda de Cristo. No entanto, é preciso dizer que o pré-tribulacionismo não pode ser encontrado na história da escatologia antes de 1800. Na verdade surgiu numa profecia numa igreja carismática pastoreada por Edward Irving e que foi tomada por John Nelson Dabry como sendo a voz do Espírito. Posteriormente, ele, talentoso no manuseio das Escrituras, sistematizou e popularizou o ensino que logo estava nas notas de rodapé de uma Bíblia que C. I. Scofield publicou. Hoje, passados tantos anos, esse ensino está presente em muitas denominações, mas não é de fato legitimamente escriturístico. Por isso e outros motivos creio que a segunda vinda será pós-tribulacional, como já demonstrei em outro post.

9. Creio que Cristo “já” reina, mas “ainda não” - haverá um milênio, Ap.20. Esse é um entendimento que aproxima “relativamente” os amilenistas (que concordam com o “já”) e pré-milenistas pós-tribulacionistas e, desde a década de 80, um novo tipo de dispensacionalismo, que foi batizado de “progressivo”. Isso não é compartilhado pelos dispensacionalistas da antiga, os chamados “normativos”. Esse entendimento “já/ainda não” do pré-milenismo pós-tribulacionista ficou mais bem conhecido pela defesa vigorosa de George E. Ladd, que infelizmente tem poucas obras publicadas em português. Parece que esse também é o entendimento de Dr. Russell P. Shedd e de outros teólogos brasileiros, mas lamento em dizer-lhe que não é muito popular.

10. É óbvio que ao defender um milênio estou dizendo que creio em duas ressurreições. Quando se investiga a posição pré-tribulacionista vê-se que o sistema exige mais que duas ressurreições, o que vai além do texto bíblico. Não há como tratar do assunto aqui, mas basta seguir a lógica da coisa, uma ressurreição se dará na segunda vinda secreta, se eles defendem a salvação no período tribulacional, os que morreram deverão ser ressuscitados ou imediatamente (?) ou quando Cristo voltar literalmente (?), o que seria uma segunda ressurreição de justos e finalmente uma terceira ressurreição, a dos injustos, no fim do milênio. Mas, levando em consideração que só menciona duas ressurreições na Bíblia, separada por um período de mil anos (Ap.20), não posso aceitar o arranjo dispensacional. Os amilenistas e pós-milenistas ensinam que haverá uma única ressurreição, na segunda vinda, justos e injustos ressuscitarão ao mesmo tempo e, como fazemos uma defesa de um reino milenar, divergimos deles aqui. 

11. Também não compactuo de uma distinção rígida entre Israel e Igreja, como os pré-tribulacionistas ou dispensacionalistas. Nisso há uma aproximação entre amilenistas, pós-milenistas, pré-milenistas pós-tribulacionistas e atualmente dos dispensacionalistas progressivos. “Dois povos” e “dois programas” é o mesmo que defender dois modos de salvação, uma conclusão lógica que Scofield deixou escapar numa das notas de sua Bíblia e que posteriormente foi corrigida pelos dispensacionalistas, entre eles, Charles Ryrie. A Bíblia deixa claro que Deus tem um povo (Tt.2:14), não parece correto levantar um muro que Deus já derrubou (Ef.2:14).

12. Embora partilhe da idéia de que vivemos os últimos tempos, como já mencionei acima, não compactuo da mentalidade escatomaníaca de buscar cumprimento de sinais da segunda vinda em tudo que acontece. Toda virada de século aparece gente dizendo que Cristo vai voltar, há excitação com a escolha de um novo papa e com eleição de um líder mundial entre os escatomaníacos, mas é preciso cuidado com isso tudo. Os discípulos estavam com os olhos postos nas nuvens, mas foram exortados a cumprir o mandato divino pelos anjos (At.1.11). Nossos olhos devem estar postos nas nuvens, mas não a ponto de nos tornar imóveis, estáticos. Estar vigilante é estar preparado, a mentalidade escatomaníaco fica fascinada pelos sinais e se distrai, perde a sobriedade, tão necessária para a leitura correta dos sinais dos tempos.

13. Confesso que não partilho do otimismo pós-milenista de uma humanidade redimida e um milênio instaurado por conta disso. O desenrolar da história dá outro indicativo. O que parece anteceder a segunda vinda não são tempos bons, nesse aspecto participo de um pessimismo (moderado) que caracteriza o pré-milenismo. Quando uma mulher está para dar a luz, as dores de parto se intensificam, acho que nenhuma delas quer que esse tempo se perpetue ou mesmo que são os melhores, mas que passe o quanto antes. Para mim, vivemos as dores de parto, não considero os melhores momentos, mas sei o que eles significam, por isso espero com confiança dias melhores que o Filho de Deus trará ao irromper no céu.

14. Confesso que o pessimismo pré-milenista é muitas vezes paralisante. Luto contra a mentalidade de que já que as coisas devem piorar devemos cruzar os braços e deixar que tudo sucumba no caos como se isso fizesse com que a segunda vinda se antecipasse. O cristão deve empenhar-se ao máximo em que as coisas sejam melhores no que depender dele, seja na igreja ou na sociedade. Devemos nos lembrar que somos mordomos enquanto estamos aqui e que Cristo nos recompensará pela nossa fidelidade quanto àquilo que ele nos responsabilizou. O engajamento do cristão em causas sociais ou ecológicas deve ser feito com cautela, mas deve ser feito. Não é porque o homem pecou que Deus retirou de sobre ele a responsabilidade de zelar pelo mundo em que habita.

15. Confesso que não entendo que esta era (da igreja) seja o milênio, como os amilenistas. Partilho de muitos pontos de vista com eles, mas quanto a isso seguimos caminhos diferentes. A providência divina é que tem impedido que as coisas não se tornem piores de uma só vez, mas isso não implica em que o diabo esteja amarrado ou que estejamos vivendo o período milenial.

16. Confesso que não tenho uma visão milenar tão minuciosa quanto os dispensacionalistas. Essa é uma ponta solta do pré-milenismo histórico, como Millard J. Erickson, ele mesmo um pré-milenista histórico, já havia notado isso. Os dispensacionalistas progressivos fizeram um relativo avanço no seu entendimento do milênio, embora ainda mantenham uma distinção Israel/Igreja, quanto a esse tema. Mesmo assim não me agrada o fato de que Israel terá uma posição tão privilegiada sobre a Igreja, como eles afirmam.

17. Em fim, confesso que não tenho um quadro completo do programa escatológico com as minúcias todas integradas e conectadas de modo que não haja nenhuma ponta solta [como eu gostaria e como alguns afirmam possuir]. Nenhuma escola escatológica possui isso, em todas elas há pontas soltas. Seja como for, lembre-se que devemos concordar quanto às coisas essenciais e naquilo que não é essencial, deve haver certa liberdade.

Perdoe-me ter sido tão prolixo, não era minha intenção estender-me tanto.

Um forte abraço.

Silas Roberto Nogueira