terça-feira, 16 de novembro de 2010

EQUILÍBRIO ENTRE A GRAÇA DIVINA E O ESFORÇO HUMANO

Silas Roberto Nogueira[1]


"Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo, por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor. Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele a quem estas coisas não estão presentes é cego, vendo só o que está perto, esquecido da purificação dos seus pecados de outrora. Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum.  Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e  Salvador Jesus Cristo." (2 Pedro 1:3-11)
  



Após a saudação o autor trata, nestes versículos, do equilíbrio entre a graça divina e o esforço humano quanto à vida cristã. Os cristãos devem fugir da corrupção que há no mundo e farão isso tanto pela graça divina que os supre suficientemente para a vida e piedade quanto pelo esforço humano, que os impede de uma vida estéril e confirma a sua eleição além de ter como resultado final a entrada triunfal no reino eterno. 

1. A graça de Deus nos capacita a fugir da corrupção do mundo (3-4)
Pedro denuncia aqui os falsos mestres que prometiam liberdade, sendo eles mesmos escravos da corrupção (2:19), pois, ao invés de fugirem dela, eram por ela dominados. A verdadeira libertação tem origem na graça e no poder de Deus, pois é Ele quem nos capacita a fugir da corrupção que há no mundo.

(3) “pelo seu divino poder” – Pedro inicia dizendo que é pelo poder de Deus, não pela iniciativa humana, que somos capacitados a fugir da corrupção que há no mundo. O apóstolo Paulo revela onde o poder divino atua: “no homem interior” (o núcleo central da personalidade); o como: “que sejais fortalecidos com poder...”; e através de quem: “mediante o seu Espírito” (Ef.3.16). 

“nos têm sido doadas todas as coisas” – o que o apóstolo diz aqui aos seus destinatários originais e a nós hoje é que o cristão é alguém que tem toda a sua suficiência em Cristo Jesus. Deus por meio de Seu Filho Jesus Cristo não nos dá tudo quanto talvez queiramos, mas, sim, tudo quanto precisamos para a “vida e a piedade”. (Cl. 2.8-10; 2 Co. 9.8). Assim, o cristão é alguém que tem sua suficiência em Deus. John MacArthur escreve que “como cristãos, encontramos em Cristo e Suas provisões plena suficiência para nossas necessidades. Não existe tal coisa como o cristão incompleto ou deficiente. O divino poder de nosso Salvador já nos outorgou tudo relacionado à vida e à piedade. A sabedoria humana nada oferece para aumentar isso. No momento da salvação, cada cristão recebe tudo que precisa; ele precisa crescer e amadurecer, mas nenhum dos recursos necessários lhe falta. Não há necessidade de se buscar algo mais”. Cf. Fp.4.19.

“vida e piedade” – nosso autor gosta de utilizar pares de palavras cujos significados são muito próximos. Note que Pedro menciona primeiro a palavra “vida” e depois “piedade”. Isso não foi casual, mas deliberado. É que vida espiritual tem que vir primeiro, tem que existir antes que haja piedade. Piedade atualmente é um termo descolorido, mas nos dias apostólicos significava a verdadeira religião que se manifestava na reverência ou temor diante daquilo que é majestoso e divino, em adoração e em uma vida de obediência, 2 Pe.3.11. A vida divina no homem expressa-se em piedade, sem aquela não pode existir esta. (Tt. 2.11-14). O que Pedro deixa bem claro é que tanto uma quanto a outra são ações graciosas de Deus. (Fp.2.13).

“pelo pleno conhecimento” - Pedro deixa claro que a nossa suficiência em Deus é “pelo conhecimento completo daquele que nos chamou...”. A frequente menção do termo “conhecimento” é um ataque sutil do apóstolo a uma forma de ensino que misturava elementos filosóficos, religiosos e místicos que valorizava o conhecimento esotérico como forma de alcançar Deus. O objeto do conhecimento é Aquele “que nos chamou para (ou por) a sua própria glória e virtude” – isto é, Deus. O conhecimento de Deus é mediado pelo conhecimento de Cristo, pois Deus é conhecido como Salvador somente em e através de Jesus Cristo, Mt.11.27; Jo.17.3. É somente através do conhecimento (experimental) de Cristo como Senhor e Salvador que todo o suprimento divino é poderosamente disponibilizado ao cristão. É esse suporte divino que nos capacita para uma vida de santidade, o fugir da corrupção do mundo.

(4) “pelas quais”uma referência aos pares “glória e virtude”. Michael Green comenta que “Jesus Cristo chama os homens pela Sua excelência moral (areté) e pelo impacto total da Sua pessoa (doxa).” Assim, é por meio dEle que as “mui grandes e preciosas promessas” nos têm sido doadas. (2 Co.1:20). O puritano Robert Traill (1642-1716) declara “o Deus do cristão é o Deus da promessa” e Cristo “é o canal por meio de quem elas fluem” e acrescenta “a pessoa que não vê Cristo em todas as promessas de Deus tem a visão deturpada; não tem a visão correta de Cristo, a não ser que veja todas as promessas nEle”. 

 “promessas” – a palavra “promessas” é usada por Pedro só mais uma vez em 3.13 e se refere à Segunda Vinda de Cristo. No entanto, aqui o significado parece ser que a nós foi dada a promessa de compartilharmos de algo da excelência moral de Cristo nesta vida, e de Sua glória na vida futura.

“para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina” – à luz das suas palavras em 1 Pe.1:23 – o sentido da frase aqui é o mesmo que ser regenerado ou nascer de novo (Jo.3:3 segs; 1 Jo.5:1; Tt.3:5; Tg.1:18). A regeneração é iniciativa divina que propicia a santificação que exige diligente esforço humano em fugir “das paixões que há no mundo”.

“livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo”  - o que Pedro afirma aqui é que por sermos participantes da natureza divina algo deve acontecer conosco, devemos nos livrar “da corrupção das paixões que há no mundo”. A palavra “livrando-vos” [“havendo escapado”, ARC; “fugissem”, NVI] é usada mais duas vezes por Pedro, 2.18 (“fugir”), 20 (“escapado”) e ilustra uma fuga com sucesso. Aquele que é participante da natureza divina não pode viver na prática do pecado, 1 Pe.1.16. (Rm.6:1-13; Ef.4:17 a 5:16; Cl.3:1 segs; 1 Jo.3:6-10). 

2. Qualidades que nos tornam produtivos (5-9)
Pedro nos diz que por causa do nosso novo nascimento, das preciosas promessas e do divino poder que nos são dados em Cristo, não podemos acomodar-nos, mas precisamos reunir “toda a diligência” para desenvolver uma vida espiritual produtiva e eficaz.

(5) “por isso mesmo” – tendo em vista o que Deus fez por nós, Pedro enfatiza nossa parte no processo de santificação.

“vós, reunindo toda a vossa diligência” - O primeiro ponto é que para desenvolver a nossa salvação é preciso esforçar-nos ao máximo. O sentido de “reunido toda a vossa diligência” é o de que devemos trazer a este relacionamento com Deus, ao lado do que Ele já realizou por nós, cada grama de determinação que pudermos carregar. A salvação é de graça, a santificação exige todo esforço humano possível.   

“associai com a vossa fé”- O segundo ponto é que devemos agregar alguns elementos à nossa fé. Há um imperativo aqui – “associai” (ARA). Uma palavra que ilustra a participação conjunta de um homem rico ao Estado para financiar as artes, especialmente o teatro. Assim, o termo quer significar que o crente tem uma contribuição importante no desenvolvimento da sua salvação.

“Virtude” – o terceiro ponto é o que Pedro ordena que acrescentemos à nossa fé, nesse primeiro momento. A primeira qualidade citada é “virtude” (gr. areté), que só ocorre mais uma vez no Novo Testamento, em Fp.4:8. Era uma palavra muito comum nas listas dos filósofos gregos com o significado de “excelência moral”. Ao usar esse termo Pedro quer dizer que o cristão é antes de tudo um ser ético, ao contrário dos falsos mestres, que não possuíam princípios morais (3:17).  

“conhecimento”  - a segunda qualidade espiritual é justamente “conhecimento” (ARA, NVI) ou “ciência” (ARC, ACF e AR) a palavra chave da Epístola. Pedro parece sugerir que a qualidade anterior é o solo ou atmosfera em que se nutre a seguinte.  O elemento intelectual é necessário à vida cristã, por isso Pedro o nomeia. O sentido do termo conhecimento aqui é o de sabedoria prática, isto é, a sabedoria que discerne entre o bem e o mal e que mostra o caminho por onde se foge do mal (Hb.5:14). Este conhecimento é obtido no exercício prático da virtude o qual por sua vez leva a um conhecimento mais profundo de Cristo.

(6) “domínio próprio” – o mesmo que “autocontrole”, uma qualidade estimada na filosofia estóica. Para Paulo, domínio próprio é fruto do Espírito (Gál. 2:22). Os filósofos estóicos pensavam que o domínio próprio era a capacidade de alguém ser senhor de si e, portanto libertar-se ao máximo da dependência das circunstâncias de sua existência.   No cristianismo essa qualidade espiritual tinha a ver com o controle sobre os desejos materiais, frequentemente, mas não exclusivamente os desejos sexuais. Os falsos mestres não tinham controle sobre tais desejos (2:13-19).

“perseverança” - a quarta qualidade moral é a “perseverança” (ARA, AR, NVI) ou “paciência” (ARC,ACF). Nos escritos de Aristóteles achou-se o contraste interessante entre o domínio próprio e a perseverança. Para ele o domínio próprio tem a ver com os prazeres e a perseverança com os pezares. Tanto para Paulo quanto para Tiago as provações da nossa fé produzem perseverança (Rom. 5:3,4; Tg.1:3,4). A inconstância denuncia a ausência de fé verdadeira. (Mc.4:16,17;18,19).                                                                         

“piedade” - A quinta qualidade é piedade, palavra mencionada no v.3 e em 3:11. O sentido do termo é “reverência para com Deus”. A piedade é uma consciência muito prática da presença de Deus em todos os aspectos da vida. Um dos grandes exemplos de piedade foi Noé, Gn.6:9. Antes dele, Enoque, que segundo a narrativa de Gn.5:24 também andou com Deus em sua geração.

(7) “fraternidade” – o apóstolo nomeia nesse momento duas qualidades que expressam amor. A sexta qualidade espiritual é “fraternidade” palavra traduzida em outros lugares por “amor fraternal”, Rm.12:10; 1 Ts.4:9; Hb.13:1; 1 Pe.1:22.

“amor”- a sétima qualidade espiritual é o amor, a coroa do avanço ou progresso cristão. Este tipo de amor pode ser definido como sendo um desejo deliberado pelo sumo bem da pessoa amada, que é demonstrado em ações sacrificiais pelo bem daquela pessoa. É justamente o amor que Deus provou ter por nós (Rom.5:8; Jo.3:16) e é justamente esse amor que Ele quer que manifestemos aos outros, 1 Jo.3:16. O amor, que Pedro menciona como a última de uma série de sete virtudes é fruto da fé em Deus. Sem o amor, nenhuma qualidade espiritual tem sentido, 1 Co. 13.

(vv. 8,9) Nesses versículos o apóstolo apresenta de maneira positiva e negativa a razão pela qual devemos associar à nossa fé as qualidades espirituais mencionadas. (a) positivamente (v.8)– se tais coisas estão presentes em nós (“vós”) e ainda diligentemente nós as desenvolvermos (“aumentando”) não seremos ociosos e muito menos estéreis no conhecimento de Jesus Cristo. (b) negativamente (v.9) – quando tais coisas estão ausentes em alguém (“aquele”), o mesmo é deficiente em sua visão espiritual e esquecendo-se deliberadamente da purificação dos seus antigos pecados, vivendo de modo contraditório aquilo que outrora professou.

3. Consolidação da nossa vocação e eleição (10,11)
Nesses versículos Pedro declara que (a) a vida santa é garantia da vocação (chamada) e eleição. Em outras palavras, uma vida sem as qualidades espirituais acima mencionadas desmente a eleição do indivíduo, na sua primeira Epístola Pedro diz: “eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito...” (1 Pe.1:2); (b) que o desenvolver de uma vida santa tem dois resultados práticos – o primeiro é que não ocorrerá aquele tropeço final (Jd.24; Sl.15:5;37:24) e o segundo é que a entrada no reino eterno nos será amplamente suprida, isto é, entraremos no reino eterno em triunfo.




Pedro deixou claro que o cultivo da nova vida recebida é responsabilidade do cristão. Devemos empregar toda a nossa energia em desenvolver a nossa salvação, pois isso evidenciará a nossa eleição e redundará em recompensas celestiais. Outro ponto importante que Pedro nos revela nesse trecho é que a perspectiva ética do cristianismo está ligada à sua perspectiva escatológica.  



[1] Extraído e Adaptado da Série de Sermões em 2° Pedro

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Grupo Milad-Nao tenhas sobre ti.flv

VOCÊ SABE COMO TIRAR O MELHOR PROVEITO DE UM SERMÃO?


Silas Roberto Nogueira



Para mim a melhor expressão de piedade cristã está no movimento puritano, aliás, seria estranho que tivessem essa alcunha se porventura não fossem piedosos. Um dos manuais de piedade da época dos puritanos tem um trecho que trata de ensinar o cristão a tirar o melhor proveito de um sermão. Os puritanos tinham um alto conceito da pregação, por isso mesmo ensinavam os fiéis a apreciar um sermão. Lewis Bayly, que escreveu um dos mais bem conhecidos manuais de piedade conhecidos nos séculos 17 e 18, recomenda:


“...para que você faça melhor proveito por ouvir [um sermão], note:
(a)    A coerência e a explicação do texto.
(b)   A essência ou o principal escopo do Espírito Santo nesse texto.
(c)    As divisões ou partes do texto
(d)   As doutrinas; e, em cada doutrina, suas provas, seus argumentos e seus usos.


De quantos métodos há, este é o mais fácil para os ouvintes (desde que habituados a ele), pois os ajuda a lembrar o sermão. Por isso muitos se apegam a este método e o praticam os ministros fiéis, que desejam edificar o seu povo no conhecimento de Deus e em Sua religião verdadeira.


Se o método do pregador for estranho ou confuso, esforce-se para lembrar os seguintes pontos:
i.     Quantas coisas ele ensinou que você não sabia; e seja agradecido.
ii.    Que pecados ele reprovou, dos quais a sua consciência lhe diz que você é culpado; então trate de se corrigir.
iii.    Das virtudes às quais ele exortou os ouvintes, quais não são tão perfeitas em sua pessoa; e então empenhe-se em praticá-las com mais zelo e diligência.


Mas, ao ouvir, aplique cada expressão como proferidas a você por Deus, e não pelo homem (Is 2:3; At 10:33: Gl 4:14; 1 Ts 2:13), e esforce-se não tanto para ouvir o som das palavras do pregador em seus ouvidos, mas, sim, para sentir a operação do Espírito agindo em seu coração.”[1]


Num sermão o nosso Bom Pastor fala conosco e uma das marcas de que somos Suas ovelhas é justamente o fato de que podemos discernir a Sua voz (João 10). Por isso é preciso atenção quando um sermão está sendo proferido. Assim como os pais são desonrados quando falam com seus filhos e eles o ignoram, nosso Salvador é desonrado quando ignoramos o que Ele nos diz por meio de um sermão. A exposição da Palavra de Deus é um momento solene, Deus está falando com Seu povo, nós, como o jovem Samuel, deveríamos dizer: “fala, SENHOR, porque o teu servo ouve”. É assim que temos feito? 


Soli Deo Glória!



[1] A Prática da Piedade, pp 275,276