quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

APRENDENDO A SER CONTENTE


D. M. Lloyd-Jones


"Ora, muito me regozijei no Senhor por finalmente reviver a vossa lembrança de mim; pois já vos tínheis lembrado, mas não tínheis tido oportunidade. Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessidade".
Filipenses 4:10-12


Temos nas palavras de Filipenses 4:10-12 uma dessas passa­gens das Escrituras que sempre me fazem sentir que a única coisa correta e apropriada a fazer, depois de sua leitura, é pronunciar a bênção! Quase que estremecemos ao nos aproximarmos de tão nobres palavras, que trazem à nossa mente um dos pontos altos da experiência cristã do grande apóstolo dos gentios. Todavia, é nosso dever, ainda que nos aproximemos desta passagem com temor e tremor, tentar analisar e expor o que ela diz. No nono versículo deste capítulo o apóstolo chegou ao fim das exortações que estava ansioso por endereçar aos membros da igreja de Filipos. Ele termi­nou de expor a doutrina, mas não pode ainda terminar a carta; precisa fazer mais uma coisa, ou seja, expressar a sua profunda gratidão aos membros da igreja de Filipos pela oferta pessoal que haviam enviado a ele quando estava aprisionado em Roma, através do seu amigo e irmão Epafrodito.
De certa forma, essa é a razão porque Paulo estava lhes escre­vendo. A igreja filipense tinha lhe enviado uma oferta. Não sabemos exatamente do que se tratava, se foi em dinheiro ou bens, mas eles tinham lhe enviado uma oferta por seu emissário Epafrodito. Agora Epafrodito ia voltar para lá, e Paulo envia a carta com ele; e tendo terminado a exposição da doutrina, quer agradecer a expressão do amor e cuidado deles para com ele em seu sofrimento e prisão. E é isso que ele passa a fazer nestes dez versículos se­guintes, do versículo dez ao versículo vinte. Sinto que não há nada mais interessante nesta epístola, do que observar em detalhes a maneira como o apóstolo agia e como ele apresenta seus agradeci­mentos aos membros da igreja em Filipos é cheia de instrução e interesse. É óbvio que a questão de apresentar seus agradecimentos aos filipenses por sua oferta e seu carinho apresentava um problema para o apóstolo. Seria de se pensar que certamente não podia haver qualquer problema em agradecer a um grupo de pessoas que foi amável e generoso; no entanto, era obviamente um problema para Paulo. Ele leva dez versículos pala fazer isso. Podemos vê-lo muitas vezes tratando de uma poderosa doutrina em um versículo ou dois, mas quando se trata de simplesmente agradecer aos membros da igreja de Filipos por sua bondade e generosidade, ele precisa de dez versículos. Observamos também que ele se repete. "Não digo isto como por necessidade". E mais adiante: "Não que procure dádivas". Ele tem um argumento aqui, mas parece lutar para en­contrar as palavras certas.
O problema de Paulo provavelmente era este. Ele estava ansio­so por agradecer à igreja de Filipos por sua generosidade. Mas ao mesmo tempo ele estava igualmente ansioso, ou talvez até mais ansioso, por lhes mostrar que não estivera esperando com impaciên­cia, ou aguardando esta expressão da sua generosidade, e ainda mais, que ele de forma alguma estava dependendo da sua bondade e generosidade. Dessa maneira, ele estava enfrentando um problema. Precisa fazer estas duas coisas ao mesmo tempo: precisa expressar sua gratidão aos membros da igreja em Filipos, mas tem que fazer isso de um modo que não deprecie nem diminua a realidade da sua experiência de um-homem cristão dependente de Deus. Por isso ele usa dez versículos para fazer isso. Era o problema de um cavalheiro cristão, sensível aos sentimentos dos outros, tentando conciliar estas duas coisas. E que grande cavalheiro era este apóstolo — como se preocupava com os sentimentos dos outros! Como cava­lheiro ele está ansioso por expressar sua profunda gratidão e fazê-los saber que a bondade deles realmente o comoveu; no entanto, ele está preocupado em deixar bem claro que não havia passado o tempo imaginando por que não tinham pensado em suas necessidades, sofrendo devido não terem lhe enviado nada enquanto estava ali na prisão, pensando por que as igrejas não tinham enviado recursos para aliviar seu sofrimento. Ele queria deixar perfeitamente claro que esta não havia sido a sua condição, e o que temos nestes dez versículos é o método do apóstolo resolver esse problema particular.
Ora, o fato que precisamos captar a respeito da verdade cristã, é que ela governa toda a nossa vida. O evangelho cristão domina toda a vida do cristão. Controla seu pensamento, como vemos no oitavo versículo; controla suas ações, como está no nono versículo. E agora, nestes dez versículos, vemos como um cristão, mesmo numa questão como esta, de agradecer uma gentileza, faz isso de uma forma e maneira que é diferente de uma pessoa que não é cristã. O cristão não pode fazer coisa alguma, mesmo numa questão como esta, exceto de uma forma verdadeiramente cristã. Então aqui, o apóstolo mostra ao mesmo tempo sua gratidão aos seus amigos, e sua gratidão ainda maior ao Senhor. Paulo tinha zelo pela reputação do Senhor, e temia que, ao agradecer aos filipenses por sua oferta, ele de alguma forma desse a impressão de que o Senhor não era suficiente. Isso era prioritário. Ele amava os filipenses, e estava profundamente grato a eles. Mas amava o seu Senhor ainda mais, e temia que, ao lhes agradecer, podia de alguma forma dar-lhes uma sugestão que fosse de que o Senhor não era suficiente para ele, ou que estava dependendo dos filipenses, em última análise.
Nesta poderosa passagem, o apóstolo passa a mostrar com estas afirmações espantosas e notáveis, a primazia e toda-suficiência do Senhor, enquanto que ao mesmo tempo expressa sua gratidão e seu amor aos filipenses por sua manifestação de cuidado e solicitude pessoal a seu respeito. A essência da questão é encontrada nos versículos onze e doze. Aqui temos a doutrina: "Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância: Em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessi­dade".
Precisamos examinar esta grande doutrina que Paulo apresenta desta forma. Temos dois grandes princípios aqui. O primeiro, é claro, é a condição à qual o apóstolo chegou. O segundo é a maneira como ele chegou a essa condição. Estes princípios constituem o tema desta grande declaração.
Vamos primeiro examinar a condição que o apóstolo alcançou. Ele a descreve com a palavra traduzida aqui como "contente" — "porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação". Mas é importante que captemos o sentido exato e preciso desta palavra. A palavra "contente" não oferece uma explicação completa; na verdade, significa que ele é "auto-suficiente", independente das circunstâncias, acontecimentos ou condições — "ter suficiência em si mesmo". Esse é o sentido real da palavra traduzida como "con­tente". "Já aprendi a viver contente em toda e qualquer situação; sou auto-suficiente, independente das circunstâncias, independente dos acontecimentos ou condições que me cercam". A afirmação feita pelo apóstolo é que ele chegou a um ponto em que pode dizer, com toda sinceridade, que ele não depende de sua posição, das circunstâncias, do ambiente ou de qualquer coisa que possa lhe acontecer. E que isso não era simples declaração retórica por parte do apóstolo torna-se evidente através dos registros que temos da vida deste homem em inúmeras partes do Novo Testamento. Temos um exemplo interessante disso no capítulo 16 do livro de Atos dos Apóstolos, descrevendo a ocasião da primeira visita de Paulo a Filipos, onde viviam os destinatários desta carta. Paulo e Silas tinham sido presos, açoitados e jogados na prisão com seus pés presos ao tronco. As condições físicas dificilmente poderiam ter sido piores; no entanto tiveram tão pouco efeito sobre Paulo e Silas que "perto da meia noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus" (Atos 16:25). Independente das circunstâncias, con­tente em qualquer situação, auto-satisfeito, sem depender do que o cercava. Também encontramos a mesma atitude na famosa pas­sagem da Segunda Epístola aos Coríntios, capítulo doze, onde Paulo nos conta como aprendeu a ser independente do "espinho na carne" — auto-suficiente, apesar dele.  Lembrem-se também como ele exortou Timóteo a se apropriar deste princípio, dizendo: "Mas é grande ganho a piedade com contentamento" (I Timóteo 6:6). "Não há nada igual; se você tem isso, você tem tudo", ele diz, com efeito. Paulo já era velho nessa época, e escreve ao jovem Timóteo dizendo: "A primeira coisa que você precisa aprender é a viver independente das circunstâncias e condições — grande ganho é a piedade com contentamento". Estas são apenas algumas de muitas ilustrações semelhantes que poderíamos mencionar.
Todavia, o ensino do Novo Testamento não só afirma que isso era real na vida de Paulo, mas também deixa claro que é uma posição que todos deveríamos alcançar como cristãos. Lembrem-se como. o Senhor enfatizou este ponto no capítulo seis do Evangelho de Mateus: "Não vos inquieteis pois pelo dia de amanhã" — não fiquem ansiosos e preocupados com alimento e vestuário e coisas desse tipo. Essa é a gloriosa independência do que possa nos acon­tecer, e que todos deveríamos conhecer e experimentar em nossa vida. É auto-suficiência no bom sentido.
Mas é extremamente importante que tenhamos uma compreen­são clara em nossas mentes quanto ao que isso significa. A palavra "contente" tende a provocar concepções erradas do que o apóstolo está ensinando. Esta declaração de Paulo pode ser interpretada de tal forma que chegue até a justificar a acusação levantada contra o evangelho cristão, de que ele nada mais é do que o "ópio do povo". É uma característica desta geração em que estamos vivendo, o fato de que grande número de pessoas tende a pensar que o evangelho cristão tem sido um obstáculo à marcha do progresso da humanidade, que tem sido um estorvo ao avanço do progresso, que tem sido nada mais que "o entorpecente do povo". Dizem que é uma doutrina que ensinou as pessoas a suportar todo e qualquer tipo de condições, por mais injustas ou infames que fossem. Tem havido uma violenta reação política contra o evangelho de Cristo porque muitas pessoas interpretaram dessa forma errônea passagens como esta, expressando-as assim:
O rico em seu castelo,
O pobre ao seu portão,
Deus os criou, exaltados ou humildes,
E determinou o seu quinhão.
Ora, isso é um absurdo, e é uma negação total do que o apóstolo está ensinando aqui. E no entanto, quantas vezes já foi interpretado assim! É uma lástima que o mesmo homem que pôde escrever o hino: "Há uma colinha distante", podia ser culpado de uma tal violação dos ensinos da Bíblia: "O rico em seu castelo, o pobre ao seu portão". Acaso, foram os homens destinados a ser assim, e assim permanecer para sempre? A Bíblia não ensina isso; não diz que o homem deve se contentar em permanecer na pobreza, que nunca deve se esforçar para melhorar sua situação. Não há nada na Bíblia que conteste a proposição de que. todos os homens são iguais aos olhos de Deus, e que todos têm direito a oportunidades iguais. Muito dano já foi feito à Igreja de Cristo porque declarações como esta do texto que estamos considerando foram mal interpre­tadas dessa forma.
E também não significa indiferença às circunstâncias. Isso seria a resignação negativa de um estoicismo pagão, sem qualquer relação com a posição cristã. O que, então, significa? Para colo­cá-lo positivamente, o que o apóstolo está dizendo aqui é que ele não era controlado ou governado por circunstâncias. Se podemos melhorar nossas circunstâncias por meios legítimos e justos, certa­mente devemos fazê-lo; mas se não pudermos, e tivermos que permanecer numa posição difícil e penosa, não devemos permitir que ela nos governe, nem que nos desanime ou controle; não deve­mos permitir que essa situação determine nossa alegria ou miséria. "Vocês devem chegar a um ponto em que não são mais controlados por sua situação, qualquer que ela seja", diz o apóstolo. Isto é o que ele afirma de si mesmo. "Quaisquer que sejam minhas cir­cunstâncias ou condições", ele na verdade está dizendo, "eu estou no controle. Sou senhor da situação, não sou governado por ela, sou livre; minha felicidade não depende do que está acontecendo comigo. Minha vida, minha felicidade, minha alegria e minha experiência são independentes das coisas que estão acontecendo à minha volta, ou até mesmo das coisas que estão acontecendo comigo". Gostaria de mencionar novamente que Paulo estava na prisão, provavelmente acorrentado a um soldado à sua direita e outro à sua esquerda, quando escreveu estas palavras, e no entanto, mesmo nessas condições, ele pode dizer que não dependia das suas circunstâncias. "Minha vida", ele diz, "não é controlada nem determinada pelas coisas que estão acontecendo comigo; estou numa situação em que posso me elevar acima delas. Estas coisas não são fatores determinantes na minha vida e experiência".
Essa é sua reivindicação, e ele está ansioso por enfatizar que é uma reivindicação que abrange tudo. Observem novamente suas palavras. Tendo feito a declaração geral, ele agora a amplia: "Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira e em todas as coisas estou instruído" — novamente ele volta a isso — "tanto a ter fartura como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer' necessidade". Ele queria tornar a extensão e o alcance da sua reivindicação perfeitamente claro. Vejam os para­doxos. Ela sabia como estar abatido, ter fome e padecer necessidade; por outro lado, ele sabia como ter fartura, como ter abundância. Seria interessante discutir as dificuldades relativas a essas duas situações. O que é mais difícil — estar abatido, ou ter abundância, sem perder o contentamento? Não sei se realmente podemos res­ponder essa pergunta. Ambos são extremamente difíceis, e creio que um é tão difícil quanto o outro. Posso estar abatido sem ficar ressentido, preocupado ou ansioso? Posso sofrer a falta de alimento e vestuário, posso ser diminuído em minha profissão ou trabalho, posso de uma forma ou outra ser humilhado e ainda permanecer em meu espírito exatamente como era antes? Como isso é difícil — assumir um lugar inferior, ser magoado, ser insultado, ver outros sofrendo da mesma forma, ou sofrer necessidade ou dor física — saber como estar abatido, ter fome ou sofrer necessidade de alguma forma. Uma das maiores tarefas da vida é descobrir como sofrer alguma ou todas essas coisas sem ficar amargurado ou ressentido, sem reclamações, aborrecimento ou amargura de espírito, e descobrir como não ficar preocupado ou ansioso. Paulo nos diz que aprendeu como fazer isso. Ele experimentou todo tipo de provas e tribulações, e no entanto não se deixou afetar por elas. Vamos então examinar o outro lado. "Sei ter abundância", diz Paulo. "Sei como ter fartura, como ser honrado". E isso também é difícil! Como é difícil para a pessoa rica não sentir completa independência de Deus. Quando somos ricos e podemos arranjar e manipular tudo, tendemos a nos esquecer de Deus. A maioria se lembra dEle quando está abatido. Quando estamos em necessidade, começamos a orar, mas quando temos tudo, como é fácil esquecer de Deus! Vou deixar com vocês a decisão sobre qual das duas situações é mais difícil. O que Paulo está dizendo é que ele é completamente livre, em qualquer destas posições. A pobreza não o abate, a riqueza não o exalta ou leva a perder sua firmeza. Ele diz que não depende nem de uma nem de outra, que é auto-sufi­ciente neste sentido, que sua vida não é controlada por essas coisas, que ele é o que é à parte delas. Quer ele tenha abundância ou sofra necessidade, não tem qualquer importância.
Mas ele não se limita a isso; prossegue, dizendo: "Em toda a maneira e em todas as coisas". Ou seja em cada coisa, em detalhe; em todas as coisas, em conjunto. E Paulo faz esta distinção delibe­radamente. Ele diz que não há limite no que está declarando: "Em cada e qualquer coisa, eu sou assim". Então ele acrescenta: "E agora vou colocá-las todas juntas — em todas as coisas, o que quer que aconteça comigo, eu sou auto-suficiente, não dependo das circunstâncias; minha vida, minha felicidade e alegria não são determinadas ou controladas por elas".
Essa, de acordo com o apóstolo, é a maneira correta de viver — isso é a vida cristã. É bom que confrontemos esta poderosa declaração. Estamos vivendo em dias de incerteza, e pode ser que a primeira e maior lição que todos tenhamos que aprender é saber como viver sem permitir que as circunstâncias afetem nossa paz e alegria interior. E no entanto, talvez não tenha havido outra época na história quando foi tão difícil aprender esta lição, como hoje em dia. Tudo na vida é organizado de tal forma atualmente que se torna quase impossível viver esta vida cristã auto-suficiente. Mesmo no sentido natural todos dependemos tanto das coisas que são feitas por nós e para nós e ao nosso redor, que se tornou extremamente difícil viver a nossa própria vida. Ligamos o rádio ou a televisão, e gradualmente nos tornamos dependentes deles, e o mesmo acontece com os jornais, o cinema, e nossos meios de diversão. O mundo tem se incumbido de organizar a nossa vida em todos os aspectos, e mais e mais nos tornamos dependentes dele. Temos uma boa ilustração disso nos dias iniciais da Segunda Guerra Mundial, quando os regulamentos do "blackout" foram impostos sobre o povo da Inglaterra. Falava-se de algo chamado "o tédio do blackout". Muitas pessoas descobriram que era quase impossível para elas, passar noites em seguida em suas próprias casas, sem fazer nada. Tinham se tornado dependentes do cinema, do teatro, e várias outras formas de diversão, e quando estas coisas lhes foram tiradas, ficaram sem saber o que fazer consigo mesmas — "o tédio do blackout". Essa é a própria antítese do que Paulo está descrevendo aqui. Mas está se tornando mais e mais a tendência na vida do homem moderno; mais e mais nos tornamos dependentes do que outros fazem por nós. É o oposto absoluto do que Paulo está ensinando aqui.
Ah, mas isto não acontece apenas com o mundo em geral — está acontecendo também com o povo cristão! Eu sou de opinião que um dos maiores perigos que confrontamos, num sentido espiritual, é o de nos tornarmos dependentes de reuniões. Uma espécie de "mania de reuniões" tem se desenvolvido entre os cristãos, e há os que parecem estar sempre em alguma reunião. Ora, reuniões são de grande valor, sem dúvida. Ninguém me entenda mal, pen­sando que sou de opinião que apenas se deve ir a um lugar de adoração no domingo. Reuniões são uma coisa muito boa, excelente mesmo, mas devemos ser cuidadosos para não nos tornarmos tão dependentes delas que, se um dia adoecermos e ficarmos de cama, não saibamos o que fazer conosco mesmos. Podemos nos tornar dependentes demais até mesmo de reuniões cristãs — ou de uma atmosfera cristã. Alguém estava discutindo comigo há algum tempo o que é conhecido como o "vazamento" que acontece entre os membros de certas organizações cristãs que se concentram no tra­balho entre os jovens. Temos um problema muito real aqui. En­quanto estão na atmosfera daquela organização cristã, esses jovens são dedicados e interessados, mas em poucos anos eles estão per­didos para a Igreja. Qual é a causa desse "vazamento"? Frequente­mente é que eles se tornaram dependentes demais de uma certa atmosfera ou ambiente, e de forma que, quando saem para o mundo, ou mudam para outro local onde já não estão cercados por toda aquela comunhão cristã, eles subitamente vacilam e caem. É sobre isso que o apóstolo está nos advertindo, entre outras coisas. Precisamos nos precaver do perigo de depender de fontes de apoio, até mesmo no serviço e testemunho cristão. Por isso Paulo nos exorta a alcançar aquela posição em que não dependemos do que acontece ao nosso redor, até mesmo nesta área. Devemos cultivar tal gloriosa auto-suficiência.
O professor Whitehead expressou uma grande verdade quando disse em sua definição de religião, que "religião é o que o homem faz com sua própria solidão". Você e eu, em última análise, somos o que somos quando estamos sozinhos. Confesso que para mim, em certo sentido, é mais fácil pregar de um púlpito do que estar sozinho em meu escritório; provavelmente é mais fácil para a maioria dos cristãos apreciar a presença do Senhor em companhia de outros cristãos do que quando estão sozinhos. Paulo quer que venhamos a usufruir do que ele desfrutava. Ele tinha um amor a Deus que o libertava de tudo que estava acontecendo, ou podia vir a acontecer a ele — em tudo, em todas as coisas, onde quer que estivesse, o que quer que estivesse acontecendo, ele estava contente. Humilhado ou honrado, em necessidade ou fartura, não tinha importância — ele tinha essa vida, essa vida escondida com Cristo.
Vamos considerar brevemente a segunda questão que temos aqui, ou seja, como o apóstolo alcançou esta condição. Novamente ele faz uma declaração muito interessante. Notem que ele diz: "aprendi", ou melhor, "cheguei a aprender". Dou graças a Deus que Paulo disse isso. Ele não foi sempre assim, como também nós não somos. Ele "chegou a aprender". E também encontramos outra palavra interessante. Ele diz: "Em toda a maneira e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome". Todos os estudiosos concordam que o que Paulo realmente está dizendo aqui é: "Eu fui iniciado, fui admitido ao mistério, aprendi o segredo".
Paulo diz que ele aprendeu como chegar a esta condição. E temos várias sugestões no Novo Testamento de que isso foi particularmente difícil para ele. Paulo era uma pessoa sensível, era orgulhoso por natureza, e, além disso, era um homem extremamente ativo. Nada podia ser mais irritante para alguém assim do que ficar preso. Ele tinha sido criado como um cidadão romano, mas aqui está ele, suportando escravidão, não passando seus dias com grandes intelectuais, mas entre escravos. Como ele consegue isso? "Ah", ele diz, "eu cheguei a aprender. Fui admitido ao mistério, aprendi o segredo".
Mas como ele aprendeu? Vou tentar responder esta pergunta. Em primeiro lugar, foi por pura experiência." Basta chamar sua atenção para a Segunda Epístola aos Coríntios, capítulo doze, especialmente os versículos nove e dez, sobre o "espinho na carne". Paulo não gostava daquilo. Lutou contra ele, e três vezes orou para que fosse removido. Mas não foi removido. Ele não conseguia se reconciliar com a idéia. Era impaciente, estava ansioso por continuar pregando, e esse espinho na carne o estava abatendo. Mas então recebeu a lição do Senhor: "A minha graça te basta". Paulo aprendeu como resultado da experiência do tratamento de Deus. Ele tinha que aprender, e a experiência nos ensina a todos. Alguns de nós somos muito lentos em aprender, mas Deus, em Sua bondade, pode nos mandar uma doença, às vezes Ele pode até nos abater — qualquer coisa para nos ensinar esta grande lição e nos levar a esta abençoada condição.
Mas não foi somente por experiência, Paulo veio a aprender esta grande verdade, elaborando um grande argumento. Quero apresentar alguns passos desse argumento que vocês podem testar por si mesmos. Creio que a lógica do apóstolo seguiu esta linha de pensamento. Ele disse a si mesmo:
Circunstâncias e condições estão sempre mudando; portanto não devo depender delas.
O que é de importância suprema e vital é o meu relaciona­mento com Deus — esta é a coisa prioritária.
Deus está preocupado comigo, como meu Pai, e nada acontece comigo que Deus não saiba. Até os cabelos da minha cabeça estão contados. Nunca devo esquecer isso.
A vontade de Deus e os Seus caminhos são um grande mistério, mas eu sei que tudo o que Ele decreta ou permite é necessariamente para o meu bem.
Cada situação na vida é o desenrolar de alguma manifesta­ção do amor e da bondade de Deus. Portanto é meu dever procurar essas manifestações peculiares da Sua bondade, e estar preparado para bênçãos e surpresas, porque "os pensamentos dEle não são os meus pensamentos, nem os Seus caminhos os meus caminhos". Qual, por exemplo, foi a grande lição que Paulo aprendeu na questão do espinho na carne? Foi esta: "Quando estou fraco, então sou forte". Paulo aprendeu através da fraqueza física esta manifes­tação da graça de Deus.
Portanto não devo considerar condições e circunstâncias em e por si mesmas, mas como parte dos tratamentos de Deus comigo, na obra de aperfeiçoar minha alma e me trazer à perfeição final.
Quaisquer que sejam minhas condições neste momento, elas são apenas temporárias, são passageiras, e jamais podem me roubar a alegria e a glória que me aguardam com Cristo.
Penso que Paulo raciocinou e argumentou dessa forma. Ele enfrentou condições e circunstâncias à luz da verdade cristã e do evangelho cristão, e elaborou estes passos e estágios. E tendo feito isso, ele diz "Aconteça comigo qualquer coisa que alguém possa imaginar — eu permaneço exatamente na mesma posição. O que quer que aconteça comigo, eu me mantenho firme".
O grande princípio que emerge claramente é que ele aprendera a encontrar seu regozijo e sua satisfação em Cristo, sempre e somente em Cristo. Esse é o aspecto positivo da questão. Precisamos aprender a depender dEle, e para que isso aconteça, precisamos conhecê-lO, ter comunhão com Ele, e encontrar nosso gozo e alegria nEle. Para falar claro, o perigo que corremos às vezes é passar tempo demais lendo a respeito dEle! O dia pode chegar — e na verdade chegará — em que não seremos capazes de ler. Então vem o teste. Ainda seremos felizes? Vocês O conhecem tão bem que, ainda que fiquem cegos ou surdos, esta fonte ainda vai jorrar, vai continuar aberta? Vocês O conhecem tão bem que podem falar com Ele, ouvir Sua voz, e se deleitar nEle sempre? Tudo estará bem porque vocês sempre foram tão dependentes do seu relacio­namento com Ele que nada mais realmente importa? Essa era a posição do apóstolo. Sua intimidade com Cristo era tão profunda e tão grande que ele havia se tornado independente de qualquer outra coisa.
Finalmente, creio que o que mais o ajudou a aprender esta lição foi olhar para o grande e perfeito exemplo do próprio Cristo. "Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual pelo gozo que lhe estava proposto suportou a cruz, desprezando a afronta" (Hebreus 12:1-4). Paulo olhou para Ele, e viu Seu perfeito exemplo, e o aplicou à sua própria vida. "Não atentando nós nas coisas que se vêem mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas" (II Coríntios 4:18).
"Tenho aprendido, qualquer que seja a situação em que me encontre, a ser auto-suficiente e independente das circunstâncias".
Cristãos, vocês podem dizer isso, vocês conhecem essa condi­ção? Que isto seja uma prioridade para nós, que seja nossa ambição, que empenhemos toda a nossa energia e façamos tudo ao nosso alcance para chegar a esta bendita condição. A vida talvez nos force a chegar a esse ponto, mas mesmo que as circunstâncias não o façam, o dia vai chegar, ou mais cedo ou mais tarde, quando a terra e tudo que é terreno vai passar, e na solidão final da alma estaremos sozinhos enfrentando a morte e a eternidade. A coisa suprema da vida é poder dizer, como o próprio Cristo, naquela hora: "Mas não estou só porque o Pai está comigo" (João 16:32).
Que Deus, em Sua infinita graça, nos capacite a aprender esta lição vital, e para chegar a isso, que aprendamos a proferir com frequência a oração de Augustus Toplady:
Quando eu exalar meu último suspiro,
E meus olhos se fecharem na morte,
Quando eu me elevar por caminhos desconhecidos,
E Te contemplar no Trono do Juízo,
Rocha eterna, ferida por mim,
Que eu possa me refugiar em Ti.
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Extraído do livro Depressão Espiritual, Ed. PES