quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A REGENERAÇÃO É EFICAZ 
(parte 4)

R. C. Sproul


Dentro das formas tradicionais da teologia arminiana, existem aqueles que concordam que a regene­ração precede à fé, mas que insistem que nem sempre, ou necessariamente, ela produz a fé. Esse ponto de vista con­corda que a iniciativa cabe a Deus; que se dá pela graça divina, e que a regeneração é monergística. Esse ponto de vista está usualmente vinculado ao mesmo tipo de ponto de vista da regeneração universal.

Essa idéia está ligada à cruz. Alguns estudiosos argumentam que um dos benefícios universais da expia­ção de Cristo é que todas as pessoas foram regeneradas ao ponto que a fé agora é possível. A cruz redimiu todos os homens da morte espiritual, pois agora temos o poder de cooperar ou de não cooperar com a oferta da graça salvadora. Aqueles que cooperam, exercendo fé, são jus­tificados. Aqueles que não exercem fé nasceram de novo, mas não se converteram. Esses são espiritualmente vivifi­cados e estão espiritualmente vivos, mas permanecem na incredulidade. Agora todos são capazes de ver o reino de Deus e têm a capacidade moral de entrar no reino, mas preferem não fazê-lo.

Chamo esse ponto de vista de graça ineficaz ou de graça dependente. Está bem; perto daquilo que Tomás de Aquino rejeitava como graça cooperativa.

Quando sustento que a regeneração é eficaz, quero dizer com isso que ela atinge seu alvo desejado. Ela é eficaz. Realiza o seu trabalho. Somos vivificados para termos fé. O dom é da fé, que nos foi verdadeiramente concedido e que lançou raízes em nossos corações.

Algumas vezes, a frase chamada eficaz é usada como sinônimo da regeneração. A palavra chamada refere-se a alguma coisa que acontece dentro de nós, em dis­tinção a algo que ocorre fora de nós.

Quando o evangelho é pregado audivelmente, são emitidos sons da boca do pregador. Há uma chamada ex­terna à fé e ao arrependimento. Todo aquele que não for surdo será capaz de ouvir as palavras ditas com os seus ouvidos. Essas palavras ferem os nervos auditivos dos regenerados e dos não-regenerados igualmente.

Os indivíduos não-regenerados experimentam a chamada externa do evangelho. Essa chamada externa não efetuará a salvação, a menos que a chamada seja ouvida e abraçada pela fé. A chamada eficaz é obra do Espírito Santo, na regeneração. Nesse caso a chamada é interna. Os regenerados são chamados internamente. Todos quantos recebem a chamada interior de regeneração respondem mediante a fé. Paulo diz como segue:

E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justifi­cou, a esses também glorificou (Romanos 8.30).

Essa passagem da epístola aos Romanos é elíptica. Ou seja, requer que forneçamos uma palavra a ela, pala­vra essa que fica subentendida no texto, que não é expli­citamente declarada. A grande questão é: Qual palavra deveríamos suprir — alguns ou todos? Vamos experi­mentar a palavra "alguns".

E a alguns que predestinou, a esses também chamou; e a alguns que chamou, a esses também justificou; e a alguns que justificou, a esses também glorificou.

Acrescentar a esse texto a palavra "alguns" ape­nas tortura a passagem. Isso significaria que alguns dos predestinados nunca ouvem a chamada do evangelho.

Alguns que são chamados nunca chegam à fé e à justifica­ção. E alguns dos justificados não são glorificados. De acordo com esse esquema, não somente a chamada não seria eficaz, mas também não seriam eficazes nem a predestinação e nem a justificação.

Mas o que fica implícito no texto sagrado é que todos quantos foram predestinados também são chama­dos. E todos os que são chamados são justificados, e que todos os justificados são glorificados.

Sendo esse o caso, então devemos distinguir entre a chamada externa do evangelho, que pode ser ou não ouvida, e a chamada interna do Espírito Santo, que é ne­cessariamente eficaz. Por quê? Se todos os chamados são também justificados, então todos os chamados devem exer­cer fé. Como é óbvio, nem todos os que ouvem a chama­da externa do evangelho chegam à fé e à justificação. Mas todos os que são chamados eficazmente chegam à fé e à justificação. Nesse caso, a chamada é a obra interior do Espírito Santo, obra essa vinculada à regeneração.

Aqueles que o Espírito Santo vivifica com toda a certeza chegam à vida. Esses vêem o reino de Deus; abra­çam o reino e entram no reino.

É ao Espírito Santo de Deus que somos devedores quanto à graça da regeneração e da fé. Ele é quem conce­de o dom, é quem, quando estávamos mortos em nossos delitos, nos deu vida com Cristo, para Cristo e em Cristo. É por causa do ato misericordioso do Espírito Santo que nos vivifica que entoamos sola gratia e também soli deo gloria — para a glória de Deus somente.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A REGENERAÇÃO É GRACIOSA
 (parte 3)

R. C. Sproul

Na exposição paulina da regeneração há uma forte ênfase sobre a doutrina da graça. É necessário que cren­tes de todas as tendências teológicas reconheçam, volun­tária e jubilosamente, que a nossa salvação repousa sobre o fundamento da graça.

Durante a Reforma, os Protestantes usaram duas frases latinas como grito de guerra: Sola scriptura (as Escrituras somente) e sola fide (a fé somente). Eles insis­tiam que a autoridade suprema na Igreja, sob Cristo, é somente a Bíblia. Eles insistiam que a justificação vinha somente pela fé. Ora, Roma não negava que a Bíblia re­veste-se de autoridade; mas eles ficavam chocados diante da palavra sola. Roma também não negava que a justifi­cação envolve a fé; era a sola que os provocava para con­denarem a Lutero.

Havia ainda um terceiro grito de guerra durante a Reforma Protestante. Foi originalmente apresentado por Agostinho, mais de mil anos antes de Lutero. Era a frase sola gratia. Essa frase latina assevera que a nossa salva­ção repousa exclusivamente sobre a graça de Deus. Não há nenhuma mistura do mérito humano com a graça divi­na. A salvação não é uma realização humana; é um graci­oso dom de Deus. Essa fórmula vê-se ameaçada se se adota uma visão sinergista da regeneração.

Não foi por acidente que Paulo adicionou ao seu ensinamento sobre a regeneração que esta depende de uma obra graciosa de Deus. Vamos examinar de novo as pala­vras do apóstolo aos gentios:

Mas Deus, sendo rico e misericórdia, por causa do gran­de amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça sois salvos... para mostrar nos séculos vin­douros a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas (Efésios 2.4-10).

Alguma vez você já tentou corrigir a Bíblia? Eu certamente já o fiz, para minha grande vergonha. Em meio às discórdias teológicas, por muitas vezes tenho me admirado de por que a Bíblia não fala com maior clareza quanto a certos assuntos. Por exemplo, por que o Novo Testamento não afirma mais claramente se devemos ou não batizar infantes?

Quanto a muitas dessas questões, somos deixados a decidir à base de inferências extraídas da Bíblia. Quan­do me sinto perplexo diante de tais discórdias, usualmen­te volto ao ponto seguinte: A dificuldade não jaz na falta de clareza da Bíblia; jaz em minha falta de pensamentos claros sobre o que a Bíblia ensina.

E quando se trata da regeneração e da fé, fico perguntando como Paulo poderia ter deixado mais clara essa questão. Suponho que ele poderia ter adicionado as seguintes palavras ao segundo capítulo de Efésios: "A regeneração antecede à fé". Entretanto, honestamente penso que nem mesmo essa frase poderia ter terminado o debate. Nada existe nessas palavras que já não tenha sido dito claramente por Paulo, em seu texto, ou por Jesus, no terceiro capítulo do evangelho de João.

Por que, pois, existe tanta confusão? Minha opi­nião é que se concluirmos que a regeneração se dá por iniciativa divina, que a regeneração é monergista, que a salvação vem somente pela graça divina, não poderemos escapar à clamorosa implicação que nos leva, rápida e irresistivelmente, à eleição soberana.

Assim, que a doutrina da eleição chama a nossa atenção, estabelece-se uma grande agitação, na tentativa de fazer a fé aparecer antes da regeneração. A despeito de todas essas dificuldades acompanhantes, o ensino do após­tolo trata diretamente dessa questão:

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é graça de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2.8,9).

Nestes dois versículos o apóstolo ensina-nos que a fé pela qual somos salvos é uma fé que nos é concedida pela graça divina. Nossa fé é algo que exercemos por nós mesmos e em nós mesmos, mas não vem de nós. É um dom de Deus. Não é uma realização humana.

Visto que o dom da fé nos é dado como um fruto da regeneração, toda jactância fica excluída para sempre, salvo a jactância nas riquezas extraordinárias da miseri­córdia divina. Todos os pontos de vista centrados no ho­mem, como motivos da salvação são excluídos para sem­pre, se retivermos a palavra sola na expressão sola gratia. Por conseguinte, jamais deveríamos entristecer o Espírito Santo, tomando o crédito, para nós mesmos, daquilo que pertence exclusivamente a ele.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A INICIATIVA DIVINA (parte 2)


R. C. Sproul

A regeneração é obra soberana de Deus Espírito Santo. A iniciativa cabe a ele, e não a nós. Podemos notar que a ênfase de Paulo recai sobre a obra de Deus, e não no esforço humano:

Mas Deus, sendo rico em misericórdia...

Podemos observar que o apóstolo dos gentios não escreveu:

Mas o homem, por sua bondade, inclinou-se para Deus e se elevou a um novo nível espiritual.

Um dos momentos mais dramáticos em minha vida, quanto à moldagem de minha teologia, teve lugar em uma aula de um seminário. Um de meus professores dirigiu-se ao quadro negro, onde escreveu estas palavras com letras maiúsculas:


A REGENERAÇÃO ANTECEDE À
Essas palavras causaram um choque ao meu siste­ma. Eu tinha ingressado no seminário acreditando que a obra-chave do homem para efetuar o renascimento fosse a fé. Eu pensava então que primeiramente tínhamos que acreditar em Cristo, a fim de nascermos de novo. Uso aqui as palavras "a fim" por uma certa razão. Eu estava pensando em termos de passos que uma pessoa deve dar, em uma certa seqüência, para chegar a um destino. Eu pusera a fé no começo dessa seqüência. A ordem de acon­tecimentos se parecia um tanto com isto:

Fé — renascimento — justificação

De acordo com esse esquema das coisas, a inicia­tiva cabe a nós. Para dizermos a verdade, Deus tinha en­viado Jesus para morrer na cruz antes que eu tivesse ouvi­do o evangelho. Mas uma vez que Deus fizera essas coi­sas externas em meu favor, eu pensava que a iniciativa para me apropriar da salvação era minha tarefa.

Eu ainda não havia examinado a questão completa com muito cuidado. E nem tinha ouvido criteriosamente as palavras de Jesus a Nicodemos. Eu supunha que embo­ra eu fosse um pecador, uma pessoa nascida da carne, que vivia na carne, eu ainda dispunha de uma pequena ilhota de retidão, de um minúsculo depósito de poder es­piritual que restava em minha alma, e que me capacitava a reagir positivamente ao evangelho contando com mi­nhas próprias forças.

Talvez eu tivesse ficado confuso através do ensino tradicional da Igreja Católica Romana. Roma, e muitos outros ramos da cristandade, tinham ensinado que a rege­neração é graciosa; não pode acontecer à parte da ajuda de Deus. Ninguém tem o poder de ressuscitar a si mesmo da morte espiritual. A ajuda divina é necessária, e neces­sária de modo absoluto. Essa graça, de acordo com Roma, vem na forma do que eles chamam de graça preveniente. "Preveniente" significa aquilo que vem antes de outra coisa qualquer.

Roma adiciona a essa graça preveniente o requisi­to que devemos "cooperar com ela e assentir diante dela", antes dessa graça poder tomar conta de nossos corações.

Esse conceito de cooperação é, quando muito, apenas uma meia-verdade. É verdade até onde a fé que devemos exercer é nossa fé. Deus jamais crerá em Cris­to, ele mesmo, em nosso favor. Quando eu correspondo a Cristo, é minha reação, minha fé, minha confiança que está sendo exercitada.
A questão, no entanto, é muito mais profunda do que isso. Permanece de pé a pergunta: Coopero com a graça de Deus antes de eu ter nascido do alto, ou essa cooperação ocorre depois de eu ter nascido de novo?

Uma outra maneira de fazer essa pergunta consiste em indagar se a regeneração é monergística ou sinergística? Ela é operativa ou cooperativa? Ela é eficaz ou dependente? Algumas dessas palavras são termos teo­lógicos que requerem maiores explicações.


MONERGISMO E SINERGISMO
Uma obra monergística é algo produzido isolada­mente por uma única pessoa. O prefixo mono significa um. A palavra erg refere-se a uma unidade de trabalho. Palavras portuguesas como energia são construídas com base nessa raiz. Uma obra sinergística, por sua vez, é um trabalho que envolve cooperação entre duas ou mais pes­soas ou coisas. O prefixo sim significa "juntamente com".

Estou laborando esta distinção por um motivo. É justo dizermos que o debate inteiro entre Roma e Martinho Lutero dependia somente desse ponto em particular. A questão era a seguinte: A regeneração é uma obra monergística de Deus, ou é uma obra sinergística, que requer a cooperação entre o homem e Deus?

Quando meu professor escreveu "A regeneração antecede à fé", no quadro negro, ele estava claramente tomando o partido da resposta monergística. Para dizermos a verdade, depois que uma pessoa é regenerada, essa pessoa coopera exercendo fé e confiança em Cristo. Mas o primeiro passo, o passo da regeneração, mediante o qual uma pessoa é vivificada para que tenha vida espiri­tual, é obra de Deus e de Deus tão-somente. A iniciativa cabe a Deus, e não a nós.

A razão pela qual não cooperamos com a graça regeneradora antes dela agir em nós e sobre nós, é que não podemos mesmo cooperar. E não podemos por estar­mos espiritualmente mortos. Não podemos ajudar o Espí­rito Santo na vivificação de nossas almas, para que te­nham vida espiritual, da mesma maneira que Lázaro não podia ajudar a Jesus a ressuscitá-lo dos mortos.

É provavelmente verdade que a maioria dos cren­tes professos que há no mundo de hoje acredite que a ordem de eventos em nossa salvação seja esta: A fé ante­cede à regeneração. Somos geralmente exortados a esco­lher nascer de novo. Mas dizer a uma pessoa que escolha renascer é como exortar um cadáver a escolher a ressur­reição. Tal exortação cai sobre ouvidos surdos.

Quando comecei a pelejar na mente contra o argu­mento do professor, fiquei surpreendido ao aprender que esse ensino de sons estranhos não era nenhuma inovação recente da teologia. Descobri o mesmo ensino nos escri­tos de Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards e George Whitefield. Fiquei profundamente ad­mirado de encontrar esse ensinamento no grande teólogo católico medieval Tomás de Aquino.

Que esses gigantes da história do cristianismo te­nham chegado à mesma conclusão, sobre essa particulari­dade, exerceu sobre mim um tremendo impacto. Eu tinha consciência de que eles não eram infalíveis, nem individual e nem coletivamente. Cada um deles e todos eles podem ter-se equivocado. Mas eu estava impressionado. E especialmente impressionado por Tomás de Aquino.

Tomás de Aquino é considerado como o Doctor Angelicus da Igreja Católica Romana. Durante séculos os seus ensinamentos teológicos foram aceitos como dogma oficial pela maioria dos católicos. Portanto, ele era a últi­ma pessoa que eu esperava que aceitasse tal ponto de vista sobre a regeneração. Não obstante, Aquino insistia que a graça regeneradora é graça operativa, e não graça coope­rativa. É verdade que Aquino falava em graça preveniente, mas ele falava sobre a graça que vem antes da fé, que é a graça da regeneração.

A frase-chave na epístola paulina aos Efésios, so­bre essa questão, é a seguinte:

... e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça sois salvos (Efésios 2.5).

Nesse versículo, Paulo localizou o tempo em que ocorre a regeneração. A regeneração tem lugar quando ainda estamos mortos. Com um único raio de revelação apostólica foram esmagadas, total e completamente, to­das as tentativas para entregar a iniciativa na regeneração ao homem. Afirmamos de novo que homens mortos não cooperam com a graça divina. Os indivíduos espiritual­mente mortos não tomam qualquer iniciativa espiritual. A menos que a regeneração tenha lugar, antes de tudo, não haverá possibilidade de fé.

Isso nada apresenta de diferente do que Jesus disse a Nicodemos. A menos que um homem primeiramente nasça de novo, ele não pode ver o reino de Deus ou entrar nele. Se acreditamos que a fé antecede à regeneração, então nos opomos, em nossos pensamentos, e, portanto em nós mesmos, não somente contra Agostinho, Aquino' Lutero, Calvino, Edwards e outros, mas também faremos oposição aos ensinos de Paulo e do próprio Senhor Jesus Cristo.

domingo, 26 de dezembro de 2010

A REGENERAÇÃO NA EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS (parte 1)



R. C. Sproul
  

Em sua Epístola aos Efésios, o apóstolo Paulo fa­lou sobre a obra regeneradora do Espírito Santo:

"Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos deli­tos, nos deu vida juntamente com Cristo — pela graça sois salvos"  (Efésios 2.1-5).

Paulo provê uma descrição gráfica de nossa impo­tência espiritual antes da regeneração. Ele se dirigia aos crentes de Éfeso e descrevia uma condição anterior da qual todos eles tinham compartilhado. E adicionou a fra­se: "como também os demais" (2.3), presumivelmente referindo-se à totalidade da humanidade.

Ele declarou que essa condição anterior era um estado de morte: "estando vós mortos em vossos delitos e pecados". Novamente, é evidente que essa morte não era causada pela morte biológica, visto que ele enumera ati­vidades em que essas pessoas mortas estavam envolvidas.

O modo de conduta característico de pessoas mor­tas em seus delitos e pecados é descrito em termos de andar em um curso particular. Ele chama esse curso de "segundo o curso deste mundo" (2.1,2). Nesse caso, o curso deste mundo, como é óbvio, refere-se a um curso ou padrão oposto ao curso do céu. As palavras "deste mundo" referem-se não tanto a uma localização, e, sim, a um estilo ou a um ponto de referência. Envolve a orienta­ção dada por este mundo.

Os crentes, e os incrédulos, igualmente, comparti­lham da mesma esfera de operações. Todos vivemos nos­sas vidas neste mundo. A pessoa regenerada, entretanto, é guiada pelo alto. Ela tem seus olhos fixos no céu e seus ouvidos estão sintonizados com o Rei dos céus. Já a pes­soa não-regenerada está voltada para esta terra. Seus ou­vidos são surdos para qualquer palavra que proceda do céu; seus olhos estão cegos para a glória que vem do alto. Ela vive como um cadáver ambulante em um cemitério espiritual.

O curso deste mundo está "extraviado" (Romanos 3.12), ou seja, longe do caminho de Deus. Pelo contrá­rio, envolve uma vereda que é "segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência" (Efésios 2.2).

Os espiritualmente mortos têm um senhor. O se­nhor deles traça para eles um caminho que eles seguem voluntariamente até mesmo ansiosamente. Esse se­nhor se chama "príncipe da potestade do ar". Esse título de realeza só pode referir-se a Satanás, o principal arqui­teto de todas as coisas diabólicas. Paulo o chama de "es­pírito que agora atua nos filhos da desobediência". Sata­nás é um espírito mal, um anjo caído e corrompido, que exerce influência e autoridade sobre todas as suas hordas cativas.

Paulo estabelece um princípio de vida. Ou anda­mos de acordo com o Espírito Santo ou andamos de acor­do com o espírito maligno. Agostinho comparou, de certa feita, o homem a um cavalo, montado ou por Satanás ou pelo Espírito de Deus.

E Paulo continuou sua vivida descrição da pessoa regenerada, quanto ao seu estilo de vida ainda não-rege-nerada:

... entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vonta­de da carne e dos pensamentos (2.3).

A atenção passa agora do curso externo e da influ­ência externa de Satanás para o estado interno da condi­ção das pessoas não-regeneradas. Uma vez mais, vemos isso como uma condição universal: "entre os quais tam­bém todos nós andamos outrora" A palavra-chave descritiva dessa anterior condição interna é a palavra carne. Aqui Paulo faz eco da linguagem usada pelo Senhor Jesus em sua conversa com Nicodemos.

A palavra carne, neste ponto, deve ser entendida como um sinônimo de "corpo físico". Nossos corpos, por si mesmos, não são maus, visto que Deus nos criou como seres físicos e tornou-se, ele mesmo, um ser huma­no. A carne, por conseguinte, refere-se à natureza peca­minosa, o inteiro caráter decaído do homem.

Antes de sermos regenerados, vivemos exclusiva­mente na carne e pela carne. Nossa conduta segue as con­cupiscências da carne. Isso refere-se não exclusivamente aos apetites físicos ou sexuais, mas a um padrão de todos os desejos pecaminosos.

Paulo coroa essa acusação universal de nosso esti­lo de vida decaído, ao acrescentar: "E éramos, por natu­reza, filhos da ira, como também os demais" (2.3). Quando Paulo diz "por natureza", ele se referia ao nosso estado, com o qual entramos neste mundo. O nascimento biológi­co é o nascimento natural. A regeneração é um nascimen­to sobrenatural. Os homens não foram originalmente cri­ados como filhos da ira. A natureza humana original não era uma natureza decaída. Desde a queda de Adão e Eva no pecado, entretanto, a palavra natural refere-se ao nos­so estado de pecaminosidade inata.

Cada criança que nasce neste mundo entra em um estado corrupto. Davi declarou: "Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe" (Salmos 51.5). Todos já nascemos espiritualmente mortos. Todos já nas­cemos mortos em delitos e pecados. Na teologia chama­mos essa condição pecaminosa inerente de pecado origi­nal. O pecado original não se refere ao primeiro pecado de Adão e Eva; refere-se às conseqüências desse primeiro pecado, com a transmissão de uma natureza corrompida à inteira raça humana.

Somos, por natureza, "filhos da ira". Quão dife­rente isso soa da noção socialmente aceitável de que so­mos todos, naturalmente, filhos de Deus! Essa idéia equi­vocada é, ao mesmo tempo, milenar e generalizada! É uma falsidade que adquire credibilidade por sua repetição freqüente. Quando uma mentira é repetida por vezes sufi­cientes, as pessoas começam a crer nela.

A mentira que consiste em dizermos que, por na­tureza, somos filhos de Deus, é uma mentira que deixava chocado o Senhor Jesus. Jesus foi forçado a combater essa noção e refutá-la em seus debates com os fariseus. Os fariseus se iraram diante das críticas feitas pelo Se­nhor Jesus e disseram:

Nós não somos bastardos; temos um pai que é Deus. Re­plicou-lhes Jesus: Se Deus fosse de fato vosso pai, certa­mente me havíeis de amar; porque eu vim de Deus e aqui estou; pois não vim de moto próprio, mas ele me enviou. Qual a razão por que não compreendeis a minha lingua­gem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-Ihe aos desejos. Ele foi homicida desde o princípio e ja­mais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. Mas, porque eu digo a verdade, não me credes. Quem dentre vós me con­vence de pecado ? Se vos digo a verdade, porque razão não me credes ? Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso não me dais ouvidos, porque não sois de Deus (João 8.41-47).

Embora a Bíblia reconheça que Deus é o Pai de todos os homens no sentido de ser ele o Criador de todos os homens, há um sentido especial segundo o qual a pa­ternidade de Deus é definida não em termos biológicos, mas em termos de ética. Obediência é a palavra operativa. De acordo com o ponto de vista da Bíblia, nosso pai é aquele a quem obedecemos. Esse relacionamento é esta­belecido não por meio de laços biológicos, mas por uma obediência voluntária.

Visto que os fariseus obedeciam a Satanás, e não a Deus, disse Jesus a respeito deles: "Vós sois do diabo, que é o vosso pai" (João 8.44).

No segundo capítulo da epístola aos Efésios, Pau­lo fala tanto dos "filhos da desobediência" (vs. 2) quanto dos "filhos da ira" (vs. 3). Essas frases descrevem todos nós, em nosso estado natural e sem regeneração.

Quando Paulo terminou sua descrição sobre nosso estado não-regenerado, abrupta e gloriosamente passou a uma doxologia que louva a Deus por sua misericórdia. A palavra de transição é a palavra simples da qual nossos destinos eternos dependem. Talvez seja a mais gloriosa palavra das Escrituras, a palavra simples que cristaliza a essência mesma do evangelho. Trata-se da palavra mas. Essa minúscula conjunção muda a atitude da passagem inteira. Ela é o elo entre o natural e o sobrenatural, entre a degeneração e a regeneração:

Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do gran­de amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, no deu vida juntamente com Cristo —pela graça sois salvos, e juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que nin­guém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cris­to Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão pre­parou para que andássemos nelas (Efésios 2.4-10).


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Extraído de O Mistério do Espírito Santo, 
Cap. VI O Novo Gênesis:  O Espírito Santo e a Regeneração, Cultura Cristã.