quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A Mortificação do Pecado (II)

Silas R. Nogueira

Há duas coisas ainda a serem notadas quanto a essa relação antitética, observadas pelo Dr. John Murray.[i] A primeira é que é uma sequência inevitável e invariável, sendo estabelecida por Deus, nem Ele mesmo transgride ou infringe. Ele estabeleceu e fixou que a vida não provém de um viver carnal, fazer o contrário seria uma contradição de Si mesmo. A segunda é que a doutrina da segurança eterna do crente não anula esta sequência. Um mal entendido que perdura é o de que alguém será salvo mesmo que viva segundo a carne, a chamada teoria do crente carnal. No entanto, o que o texto deixa claro é que o viver carnal produzirá morte, não vida.

Uma segunda observação é a quem é dirigida essa exortação. A NVI supriu o texto com o pronome “vocês”, referindo-se obviamente aos membros da igreja em Roma, a quem Paulo anteriormente se referiu como “os que estão em Cristo” (v.1, cf. vv. 9,10,11,12).  Disso deduz Owen:
É estupidez e ignorância se esperar que qualquer um, exceto um verdadeiro cristão, desempenhe este dever. [ii]  

Os homens estão divididos em dois grupos – os que estão na carne e os que estão em Cristo, v.5. Não há, como se supõe um terceiro grupo, um meio termo entre os dois, mas somente esses dois. Não é ao primeiro grupo, o dos que estão na carne que Paulo conclama a mortificação, mas os que estão em Cristo. A razão para isso, segundo Paulo é que os que estão na carne - irregenerados - têm suas mentes, vontade e afeições (“cogitam” tem esse sentido) voltadas para as coisas da carne (v.5), ou seja, as coisas espirituais não lhes proporcionam prazer algum, são na verdade repugnantes. Mas o mesmo não se dá com aqueles que estão em Cristo – regenerados – eles são inclinados às coisas do Espírito, pois Ele os regenerou de modo que as suas disposições mentais, sua vontade e suas afeições foram renovadas e as coisas espirituais lhes são agradáveis, deleitosas. Portanto, a esses a chamada à mortificação é não somente aceitável como também possível e até mesmo prazerosa (Sl 40:8).

Em terceiro lugar devemos notar as palavras “mas, se pelo Espírito” (ARA; ACF).  Espírito é palavra que aparece neste capítulo 14 vezes. A ARC grafou espírito nos vv.10, 13,15 e Espírito nos vv.2,4,5,6,9,11 e 14. Contudo, aqui deve ser com maiúscula e não deve haver dúvidas de que é uma referência ao Espírito Santo, do contrário a causa eficiente da mortificação não seria Deus, mas o homem. Owen observou:
A mortificação baseada em nossas próprias forças, efetuada pelos meios de invenção pessoal, com a finalidade de uma justiça própria, é a alma e a substância de todas as religiões falsas existentes no mundo. [iii]

Quando o Dr. Lloyd-Jones chegou a esse trecho de suas exposições em Romanos declarou:
O Espírito é mencionado particularmente, como é natural, porque a Sua presença e a Sua obra constituem a singular e peculiar marca di verdadeiro cristianismo. É isso que diferencia o cristianismo do moralismo, do “legalismo” e do falso puritanismo – “pelo Espírito”! Como já vimos, o Espírito Santo está em nós, cristãos. Você não pode ser cristão sem Ele. Se você é cristão, o Espírito Santo de Deus está em você e está operando em você. Ele nos capacita, Ele nos dá força, Ele nos dá poder. Ele “medeia” para nós a grande salvação que o Senhor Jesus Cristo realizou por nós, e nos habilitou a desenvolvê-la. Portanto, o cristão nunca deve queixar-se de falta de capacidade e de poder. Um cristão dizer, “não posso fazer isso”, é negar as Escrituras. Um homem em quem reside o Espírito Santo nunca deve proferir tais palavras; é negar a verdade a respeito dele próprio.  [iv]

O Espírito Santo é quem torna o homem desejoso de mortificar sua natureza carnal e é o único a torná-lo capaz para isso, além disso, quando Ele exerce Seu poder soberano em nós e por nós, é impossível haver fracasso. Basicamente o que o Espírito faz é produzir seu fruto no homem interior (Gl 5:19-23) o que dizia Owen “tem um efeito dramático na raiz e no hábito do pecado – enfraquecendo-o, destruindo-o e removendo-o”.[v]  No entanto, Owen enfatizou que “a mortificação não é obra do Espírito de modo exclusivo do que todas as outras graças e obras o são. O Espírito é o autor de cada graça e de cada boa obra,e, contudo, é o cristão quem exercita estas graças e,de fato, realiza estas boas obras. Ele “é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade” (Fp. 2:13) [vi] “Porque todas as nossas obras tu as fazes por nós” (Is.26:12; cf. 2 Ts. 1:11; Cl. 2:12; Zc.12:10).  


Continua...



[i] Romanos, John Murray, Ed. Fiel, p.320
[ii] Op cit, p. 88
[iii] Romanos, Geoffrey B. Wilson, PES, p. 157.
[iv] Romanos, exposição sobre o capítulo 8:5-17, D. M. Lloyd-Jones, PES, pp.183,184
[v] A Tentação, A Mortificação, o que todo cristão precisa saber, p.104.
[vi] Idem, p.105

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