domingo, 16 de janeiro de 2011

A Mortificação do Pecado (III)

Silas Roberto Nogueira

Consideremos agora a frase “mortificardes os feitos do corpo”.  Aqui Paulo apresenta o dever que nos cabe executar.  Aqui chegamos propriamente ao assunto, a mortificação.

Nossa abordagem, no entanto, focalizará primeiramente a frase “feitos [obras, ARC; atos, NVI] do corpo”.  O termo “feitos” refere-se às práticas pecaminosas características da natureza caída, Cl. 3:9; Gál.5:19.  Ao referir-se primeiro àquilo que fazemos através do corpo, Paulo deixa claro que não considera o corpo mau por si mesmo. O pecado acha expressão através do corpo, no entanto o pecado é um princípio interior, Mc. 7:18-23. Quanto a isso comenta Owen:
A maior preocupação de Paulo não é com os “feitos” externos, mas com suas causas internas. É com o desinibido desejo mal, o qual produz os feitos que precisamos lidar radicalmente. [i]

O uso do termo “corpo” chama a atenção. Usualmente Paulo empregaria o termo “carne”, no entanto optou por um equivalente, “corpo”. A razão para usar “corpo” aqui parece ser a fim de emprestar maior vivacidade ao que vem sendo dito. Seus leitores imediatamente entenderiam o uso do termo como que significando o instrumento que o pecado em nós usa para se expressar, Rm. 6:6,12. Não há nada que sugira que o “corpo” é inerentemente pecaminoso, ou que a matéria é má, como alguns hereges do passado ensinaram. O que Paulo realmente está ensinando aqui é que o pecado ainda está em nós, embora nascidos de novo, embora regenerados. O Dr. Lloyd-Jones, porém objetou que o sentido seja o equivalente à “carne”, para ele Owen escorregou aqui entendendo o termo “corpo” como “carne”, isto é, não entendendo o termo em seu sentido literal, diz ele:
Devemos tratar primeiro da palavra “corpo”, a qual significa o nosso corpo físico, a nossa estrutura física, como no versículo dez. Não significa “carne”. Até o grande Dr. John Owen perde o rumo neste ponto e trata o termo como significando “carne”, e não corpo. ...Ele se refere ao corpo físico, no qual o pecado ainda permanece...[ii]

Mas, em que pese a palavra do digníssimo Dr. Lloyd-Jones, Owen esta certo [pois incluiu o sentido literal ao dizer que  termo pode  expressar o indivíduo total] e, de fato não há divergência entre os dois modos de entender, mas são complementares, pois a conclusão é a mesma, o pecado remanescente. Assim, o Dr. Lloyd-Jones assinala com sabedoria:
...apesar do cristão ter sido regenerado, o pecado ainda permanece em seu corpo mortal. Daí o problema que há em viver a vida cristã, daí o conflito e a luta contra o pecado enquanto estamos neste mundo; pois o corpo ainda é a sede e instrumento do pecado e da corrupção. O nosso corpo ainda não foi libertado. Ele será libertado, mas, por enquanto, o pecado permanece nele. [iii]

A batalha é travada dentro de nós, no nosso interior: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer”, Gl. 5:17; Rm. 7: 15 segs.. Escreveu Owen quanto a isso:
“não é fácil expressarmos com que vigor e variedade o pecado se manifesta nesta questão. Às vezes, o pecado propõe diversões, às vezes causa exaustão, às vezes descobre empecilhos, às vezes desperta afetos contrários, às vezes gera preconceitos e, de uma maneira ou de outra, embaraça a alma, de tal modo a jamais permitir que a graça obtenha absoluto e total sucesso, na realização do seu dever. [iv]

Calvino acertadamente declarou que a vida espiritual não será mantida sem luta. É ilusão achar que haverá tempo de trégua nesta batalha senão até a morte. Paulo usou o tempo verbal presente – “milita” (Gl.5:17) o que indica que a batalha não terá fim enquanto não formos revestidos de incorruptibilidade. Há que se dizer que a ausência desse conflito interior indica igualmente a ausência do Espírito Santo, por conseguinte, o fato de que não se está em Cristo como se pensa.

continua...

[i] Idem, p.89
[ii] Romanos, p.179
[iii] Idem, p.180
[iv] Vocábulos de Deus, J. I Packer, Fiel, p.168

Nenhum comentário:

Postar um comentário