quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Mortificação do Pecado (IV)

Por 
Silas Roberto Nogueira

Chegamos à palavra “mortificardes”. O termo explica-se por si mesmo. Paulo emprega linguagem figurada cujo sentido é o de amortecer, tornar inoperante, extinguir, tirar a sua força vital. Assim, o que o apóstolo conclama aqui é que devemos matar, amortecer, fazer nulo, dar cabo, enfraquecer, tirar a força do pecado em nós manifesto pelos feitos do nosso corpo. Comenta Owen:
A natureza pecaminosa (ou o pecado remanescente) é comparada a uma pessoa, “o velho eu”, com seus recursos, habilidades, sabedoria, sutileza, força, etc. Isto, diz-nos Paulo, precisa morrer. Precisa ser morto (mortificado), ou seja, sua força, poder e vida precisam ser tirados pelo Espírito. [i]

Nosso alvo é, pois, no poder do Espírito enfraquecer o pecado de modo que se torne inoperante. James I. Packer, com a sabedoria que lhe é peculiar, observou que “não nos é prometido que atingiremos o nosso alvo nesta vida, mas nos foi ordenado que avancemos na direção do mesmo, atacando aquelas inclinações e aqueles hábitos mediante os quais a presença do pecado é reconhecida. Não convém meramente que resistamos aos ataques do pecado; precisamos tomar a iniciativa contra ele. Nas palavras de John Owen, devemos procurar “não apenas desapontar o pecado, para que o mesmo não se manifeste...mas devemos buscar a vitória contra o mesmo e persegui-lo até a conquista total”. Está em pauta não somente uma contra-ofensiva, mas a erradicação do pecado. Matar, até onde isso nos for possível, é o alvo em vista”. [ii]

A mortificação é uma daquelas coisas que nos cabe fazer enquanto estivermos vivos, a forma verbal usada por Paulo aqui indica isso. A nossa alegria e vigor espiritual dependem da mortificação do pecado e nada é capaz de nos apartar disso senão o pecado. (Sl.51:12)  Owen nos adverte: “mate o pecado, ou ele matará a sua paz e gozo”.[iii]  Um outro ponto aqui quanto a mortificação, subjacente ao anterior, é que é uma disciplina dolorosa. Packer declara acertadamente que “os hábitos pecaminosos tornaram-se uma parte tão entranhada de nós mesmos que tentar destruí-los assemelha-se ao decepar de uma mão ou arrancar de um olho (cf. Mt. 5:29,30). O “eu” carnal, que naturalmente procura sobreviver, fará tudo quanto estiver ao seu alcance para impedir-nos de matá-lo”. [iv]

Em certo sentido a mortificação foi realizada, mas por outro lado, ainda não. Existe uma tensão entre o que já foi feito por Cristo na cruz e o que precisa ser feito pelo cristão diariamente. Isso é evidente em dois textos paulinos, o primeiro diz “fazei, pois morrer a vossa natureza terrena” (Cl. 3:5). O tempo verbal usado aqui indica uma ação já realizada (Rm. 6:3-11;Cl. 2:12,20). No entanto, no segundo texto, objeto de nosso estudo, Rm. 8:13 “se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis” – o apóstolo usa o tempo verbal presente, como já mencionamos, e isso implica em que a mortificação é uma tarefa contínua. John Owen reconheceu essa tensão:

Em certo sentido este é um fato que já ocorreu. Diz-se que o velho eu já está “crucificado com Cristo” (Rom.6:6). “Morremos com Cristo” (Rom.6:8). Isto aconteceu quando nascemos de novo (Rom.6:3-8). Entretanto, cada cristão tem os remanescentes de uma natureza pecaminosa que irão constantemente procurar se expressar. É dever de cada cristão mortificar os remanescentes desta natureza pecaminosa. Isto precisa ser feito continuamente de modo que aos desejos da natureza pecaminosa não seja dada oportunidade para se expressarem (Gál. 5:16) [v]

Continua...


[i] A Tentação, A Mortificação, p.89
[ii] Vocábulos de Deus, pp.168,169
[iii] A Tentação, A Mortificação, p.91
[iv] Vocábulos, p.169
[v] A Tentação, A Mortificação, p.90

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