segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A Mortificação do Pecado (VI)

Silas Roberto Nogueira

Podemos dizer que a mortificação dos feitos do corpo por meio do Espírito inclui as seguintes ações: 

Em primeiro lugar, você precisa estar ciente da sua superioridade. James Packer declara que “ninguém se encoraja muito para uma batalha sobre a qual ele pensa que não poderá vencer. Esperar a derrota é o meio para garanti-la... ao crente está vedado um tão desastroso pessimismo”. Paulo nos diz : “a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado...” (Rm 8.2). O que Paulo diz aqui é o Espírito Santo é aquele que nos livra do poder escravizador do pecado.[i] F. F. Bruce comenta “o conflito entre as duas naturezas prossegue, mas onde o Espírito Santo tem domínio e a direção, a velha natureza é compelida a recuar”.[ii] Dr. Lloyd-Jones comentou com acerto sobre isso:

Para começar, temos que entender espiritualmente a nossa situação, pois muitos dos nossos problemas são devidos ao fato devidos ao fato de que não compreendemos, e não lembramos, quem somos e o que somos como cristãos. [iii]

Em sua Primeira Epístola, Pedro nos diz que tudo o que diz respeito à piedade nos foi conferido em Cristo, 1.2-4:

“graça e paz vos sejam multiplicadas, no pleno conhecimento de Deus e de Jesus, nosso Senhor. Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo”

O que Pedro nos diz aqui é que nós temos plena suficiência em Cristo para a vida cristã e isto obviamente inclui poder para a mortificação do pecado pelo Espírito.  Na regeneração o Espírito nos vivificou (Ef .2.5; Cl 2.12,13,31) ou nos fez nascer de novo (Jo 1.12; cap 3; Tg 1.18; 1 Pe 1.3; 1 Jo 5.18). Na prática o que isso significa é que o Espírito Santo trocou o nosso coração e por um novo coração, Ez 36.26. Isso representa um poderoso golpe mortal contra a nossa velha natureza para que não sirvamos mais ao pecado e para que ele não tenha mais domínio sobre nós, Rm 6.6,14. Além disso, o Espírito veio habitar-nos, Ez 36.26,27; Rm 9-11. A habitação do Espírito Santo no crente é uma força opositora ao pecado (Gl 5.16,17) e lhe transmite poder para manifestar o caráter de Cristo, Gl 5.22. Em outras palavras, o Espírito Santo desperta o crente à obediência à verdade e o fortalece a agir conforme a verdade, Fp 2.13.    Martyn Lloyd-Jones comenta sobre isso:

Se você é cristão, o Espírito Santo de Deus está em você e está operando em você. Ele nos capacita, Ele nos dá força, Ele nos dá poder. Ele “medeia” para nós a grande salvação que o Senhor Jesus Cristo realizou por nós, e nos habilitou a desenvolvê-la. Portanto, o cristão nunca deve queixar-se de falta de capacidade e de poder. Um cristão dizer, “não posso fazer isso”, é negar as Escrituras. Um homem em quem reside o Espírito Santo nunca deve proferir tais palavras; é negar a verdade a respeito dele próprio.[iv]

Em segundo lugar, você precisa se submeter ao Espírito Santo, isto é, você precisa andar no Espírito. Paulo diz: “a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (v.4) . O andar cristão normal é no Espírito Santo – “nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito”. Aos crentes gálatas, Paulo disse: “Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne.” (5.16). Em outras palavras, a mortificação do pecado só pode ocorrer quando andamos no Espírito. Não consigo encontrar uma explicação melhor para o andar no Espírito do que a que Paulo oferece em Romanos 8.5: “Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito”.  Paulo define o andar no Espírito como uma inclinação dos pensamentos, dos afetos, dos interesses e dos propósitos. Em outras palavras, a inclinação representa o princípio governante da vida do homem. Aos crentes efésios Paulo expos a mesma verdade nos seguintes termos: “...não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (5.18).  Quando alguém está embriagado o poder dominante é a bebida, ele está sob o poder e a influência do álcool e o resultado é a “dissolução”. Por outro lado, quando o poder e a influência dominante é o Espírito os resultados são diferentes. Nós devemos ser cheios do Espírito Santo, devemos nos submeter ao Seu controle, ao Seu domínio, ao Seu poder, à Sua influência. Isso é o que distingue os filhos de Deus: “pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14).

Em terceiro lugar, você deve buscar crescimento espiritual. O apóstolo Pedro ordena “crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 3.18). James I. Packer cita John Owen quanto a isso:

Crescer, vicejar e aprimorar-se na santidade universal é o grande meio para a mortificação do pecado...Quanto mais abundarmos nos frutos do Espírito, menos preocupados ficaremos com as obras da carne... Isso é que derrota o pecado; sem isso, coisa alguma contribuirá para tal derrota.”
Então Packer prossegue:

Precisamos nutrir a nossa nova natureza com a verdade de Deus e exercitá-la continuamente na oração, na adoração, no testemunho e em uma obediência consistente e total. Deveríamos planejar a prática e o desenvolvimento de qualidades mais contrárias aos pecados dos quais precisamos nos desvencilhar: a generosidade, se o nosso problema é a cobiça; o hábito de louvar, se o problema é a autocompaixão; a paciência e a tolerância, se o problema é o mau temperamento; o planejamento da vida diária, se é a indolência; ou quaisquer outras qualidades. Precisamos interceptar as tentativas do pecado em recuperar o controle de nossos corações e poderes, mantendo-nos atarefados no serviço de Deus. Crentes débeis, descuidados, de corações e mentes divididas, jamais poderão mortificar o pecado”[v] 

O apóstolo Pedro afirma a nossa responsabilidade e diligência no desenvolvimento da nossa vida espiritual, 2 Pe 1.3-11. Owen deixa faz questão de esclarecer este ponto dizendo:
O Espírito santo não mortifica o pecado no cristão sem a obediência e a cooperação do cristão. Ele age em nós e sobre nós, do modo que for apropriado à natureza humana. ... Efetua em nós e a nosso favor, não contra nós ou sem nós. [vi]

Em quarto lugar, você deve ser vigilante quanto às tentações. Devemos orar para que Deus não nos deixe cair em tentação, Mt 6.13; Lc 11.4. Contudo, é nosso dever também fugir da tentação, Sl 18.23b. Packer comenta que “é pura presunção, e não fé, esperar que Deus, em seu poder soberano, mate em nós as concupiscências, ao mesmo tempo em que lemos má literatura, aceitamos más companhias e nos expomos às influências que fomentam as concupiscências; é mais provável atrair uma maldição do que uma benção.”[vii] Owen adverte:

Lembre-se, aquele que ousa brincar com as oportunidades para pecar ousará pecar. A maneira de evitar o adultério... é: “afasta o teu caminho da mulher adúltera, e não te aproximes da porta da sua casa” (Pv 5.8)[viii]

Em quinto lugar, você deve orar. O fato de mencionarmos a oração somente aqui não significa que você deve fazer tudo o que foi mencionado e, se não der certo, então você deve orar, mas fazer tudo o que foi mencionado em oração. Nossa oração deve incluir  um pedido de livramento das tentações – “não nos deixe cair em tentação” (Mt 6.13; Lc 11.4) , como o Senhor nos ensinou. John Stott comenta sobre esta petição na oração do Senhor:

O pecador cujo mal praticado no passado foi perdoado anseia ser libertado de sua tirania no futuro.
E o bispo J. C. Ryle declara:

Rogamos que ele, que ordena todas as coisas no céu e na terra, não nos deixe incorrer naquilo que é prejudicial às nossas almas, e que jamais permita que sejamos tentados acima do que somos capazes de suportar (1 Co 130.13).

A oração mortifica o pecado porque nos inclina cada vez mais para Deus, Sl 119.36, 112; Rm 8.6 (ARC). Aquele que não dedica tempo a oração não terá forças para mortificar o pecado.  


Continua  (parte final)

[i] Romanos, G. Wilson, p. 148
[ii] Romanos, Introdução e Comentário, F. F. Bruce, Vida Nova,  p. 130
[iii] Romanos, p. 185
[iv] Romanos, pp 183,184
[v] Vocábulos de Deus, p. 172
[vi] A Tentação, A mortificação, p. 107
[vii] Vocábulos de Deus, p 172
[viii] A Tentação, A Mortificação, p. 159

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