sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Homem de Deus (i)

(Sermão: “Discernindo o Homem de Deus”)
Silas Roberto Nogueira

Certa vez A. W. Tozer disse que “a igreja necessita de homens, a espécie certa de homens”. Pensando sobre isso, em minhas meditações encontrei as recomendações paulinas quanto ao ministério pastoral nas chamadas epístolas pastorais. Paulo nos fornece alguns elementos essenciais para discernirmos a espécie certa de homens que a igreja precisa:

Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão. Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado e de que fizeste a boa confissão perante muitas testemunhas. Exorto-te, perante Deus, que preserva a vida de todas as coisas, e perante Cristo Jesus, que, diante de Pôncio Pilatos, fez a boa confissão, que guardes o mandato imaculado, irrepreensível, até à manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tm 6.11-14).
 
O homem de Deus será conhecido, segundo Paulo, pelas seguintes características: (a) a quem pertence, v.11; (b) daquilo que foge, v11b; (c) aquilo persegue, v.11c; (d) pelo que combate, v.12; (e) ao que é fiel, v.13,14.

(a) A quem ele pertence

Bem, a primeira coisa que me ocorre aqui, e pode até parecer muito óbvio, é que a espécie certa de homem para a igreja de Deus é o homem de Deus. Há algumas coisas que devemos destacar sobre esta expressão.

A primeira é que o homem de Deus pertence a Deus. A história da igreja de modo geral e a experiência das igrejas locais tem deixado evidente que nem sempre o homem de Deus ocupa seu lugar na igreja de Deus, e isso para prejuízo nosso. Conta-se que quando Rafael pintava os famosos afrescos do Vaticano, alguns cardeais aproximaram-se para observar o seu trabalho. Um deles disse: “O rosto do apóstolo Paulo está vermelho demais”. Ao que Rafael imediatamente respondeu: “ele cora ao ver nas mãos de quem está a igreja”. É uma vergonha que a igreja de Deus esteja nas mãos de homens que não pertençam a Deus. É uma tristeza que o povo de Deus não saiba discernir entre tantos homens, aqueles que Lhe pertencem. Se você quer discernir entre os homens, aqueles que são homens de Deus, a primeira coisa a fazer é saber a quem eles pertencem. Pertencer a alguém é estar comprometido com esse alguém, revelando com quem se está envolvido e a quem se deve obrigações. Quando Paulo aplicou essas palavras a Timóteo marcou-o como homem pertencente a Deus, um homem afastado do terreno meramente temporal, transitório, das coisas perecíveis deste mundo. (2 Tm 2.4). Jonathan Edwards escreveu: “Hoje estive diante de Deus e entreguei-lhe tudo o que tenho e o que sou, de forma que já não pertenço a mim mesmo de modo nenhum. Eu me entreguei completamente a Ele”. Será que aqueles que se apresentam como homens de Deus pertencem a Ele?

Uma segunda implicação disso é que o homem de Deus é essencialmente diferente da maioria dos outros homens. Em certo sentido, e isto perante a lei, todos os homens são iguais, contudo, o homem de Deus é diferente de todos os demais. Isto é evidente nas palavras: “Tu, porém...”. Essas palavras põem Timóteo, o jovem pastor, em contraste com os outros homens. John Stott observou que “Timóteo é chamado para ser diferente. Ele não deve se submeter às pressões da opinião pública, ou conformar-se ao espírito de sua época, mas antes deve permanecer firme na verdade e na justiça de Deus. Creio que nada é mais necessário aos cristãos de hoje do que esta mesma coragem”.  É claro que isso pode significar estar sozinho, mas é isso que se espera do homem de Deus, que ele não tema estar sozinho. Quando disseram ao Dr. Aníbal Pereira Reis, um ex-padre convertido ao evangelho, que ele não era popular e que estaria sozinho se continuasse a pregar contra o erro com a veemência com que pregava, ele declarou: “non sum solus, sed veritas mecum”. Não estou sozinho, a verdade está comigo!”. O homem de Deus é essencialmente diferente da maioria que se sente seduzida pela popularidade e pelos holofotes. Será que aqueles que se apresentam como homens de Deus são diferentes dos outros homens?

Uma terceira implicação é que o homem de Deus é porta-voz de Deus. A expressão “homem de Deus”, na Bíblia, é geralmente aplicada aos profetas. Os profetas eram homens que falavam em nome de Deus.  O puritano Willian Perkins dizia “pregar a Palavra é profetizar em nome e como representante de Cristo”. A. W. Tozer escreveu que a “igreja é testemunha de Deus a cada geração, e os ministros da igreja são a sua voz.” Foi a Timóteo que Paulo ordenou: “prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” (2 Tm 4.2).  De modo geral a pregação contemporânea é superficial, temática, possuindo uma mescla de elementos da psicologia popular auto-ajudista, humor e jargões do evangeliquês, é breve e apresenta uma teologia diluída e poluída, na maioria das vezes sua fonte não é a Bíblia e ela não é sua base. John Stott declarou que “a pregação é indispensável ao cristianismo. Sem a pregação, perde-se parte necessária de sua autenticidade. Pois o cristianismo é, em sua essência, uma religião da Palavra de Deus”.  Qualquer homem que se apresente à igreja de Deus em nome de Deus deve pregar a Palavra de Deus, do contrário não deve ser ouvido, mas banido. Será que aqueles que se apresentam como homens de Deus dedicam-se à pregação da Palavra de Deus?

Uma quarta implicação é que o homem de Deus está a serviço de Deus.  Foi ao jovem pastor Timóteo que Paulo lembrou que um “soldado em serviço não se envolve em negócios desta vida...” (2 Tm 2.4). João Calvino comenta que o significado das palavras de Paulo é este “todo aquele que quiser lutar sob o comando de Cristo deve renunciar todas as futilidades e diversões do mundo e empregar todas as suas energias nessa luta. Em resumo, devemos manter na lembrança o antigo provérbio, Hoc age – “faze o que vem à tua mão” -, significando que na realização de nossos deveres sacros devemos estar inteiramente concentrados neles para não suceder que outros ocupem nosso cuidado e atenção.” Paulo não iniciava as suas Epístolas com a palavra “escravo” (traduzida por “servo” em português) por mera predileção pela palavra, mas para exemplificar a sua total dedicação ao Senhor. Foi David Livingstone quem declarou “não darei nenhum valor a qualquer coisa que eu tenha ou venha a possuir, a não ser que tenham valor para o reino de Cristo”. Será que aqueles que alegam ser homens de Deus são dedicados ao Senhor a este ponto?


Continua.... 

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