quinta-feira, 10 de março de 2011

O Homem de Deus (iii)

Silas Roberto Nogueira

A piedade sem o contentamento representa um enorme prejuízo para a alma. Somente quando a piedade vem com o contentamento é que ela é verdadeira fonte de lucro, diz Paulo. O homem de Deus deve fugir da piedade desacompanhada do contentamento. A palavra contentamento tem o sentido de suficiência, aquilo que é suficiente em si mesmo. O que Paulo quer dizer aqui é que a piedade deve ser acompanhada de uma satisfação íntima com a situação que Deus, em Sua sempre santa e muito sábia providência, nos determinou. Paulo referiu-se a este contentamento em Filipenses 4.11-13. A memorável frase “tudo posso naquele que me fortalece”, muito usada fora do seu contexto original, trata exatamente desse tipo de contentamento. Em tempos de teologia da prosperidade, Paulo faz uma declaração que causa arrepios e náuseas em alguns pastores, missionários, bispos e apóstolos midiáticos que costumam cruzar os céus em seus jatinhos particulares, vv.7,8:

Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.

Tais homens jamais orariam com Agur:
Duas coisas te peço; não mas negues, antes que eu morra: afasta de mim a falsidade (hipocrisia religiosa, leviandade) e a mentira (literalmente: “falar mentira”); não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário; para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: Quem é o SENHOR? Ou que, empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus. (Pv 30.7-9)
 
O autor de Hebreus no cap. 13.5 declara “... contentai-vos com as coisas que tendes”. O contentamento é a jóia rara do cristianismo contemporâneo.

Em segundo lugar o homem de Deus deve fugir da ânsia pela riqueza,vv. 9-10.  O grande mestre de Genebra comenta que Paulo aqui adverte “sobre quão perigoso pode tornar-se um incontrolável anelo” pela riqueza “especialmente entre os ministros da igreja”.  Não é o “desejo” em si que Paulo condena, ele não é um adepto do estoicismo, suas palavras se voltam contra o desejo de ser rico. Literalmente, tais pessoas estão “querendo” ser ricos, isto é, vêem em toda e qualquer oportunidade uma forma de obter lucro. Estão concentrados nisso, são capazes de tudo para obterem aquilo que querem e não se deterão diante de nada e ninguém até que alcancem o seu intento. Esse desejo é maligno e é característico dos falsos mestres (2 Pe 2.3,14), não do homem de Deus. O apóstolo Paulo deixa evidente que o que norteia o seu pensamento quanto às riquezas é o seguinte:  
(a)  Nada levamos deste mundo, v.7. Pode ser que Paulo tenha em mente as palavras de Jó: “nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei...” (1.21; Ecl. 5.14,15). Levaremos para o túmulo tão somente aquilo que somos. A morte deixa evidente o valor transitório das riquezas deste mundo, por isso o Senhor nos ordena ajuntar tesouros no céu, não na terra, Mt  6.20.
(b)  Devemos nos satisfazer com o básico, v.8. A satisfação das necessidades básicas deveria contentar ao cristão. Precisamos de bem menos do que imaginamos. Não é a abundância de recursos que traz alegria, Fp 4.11. O autor de Hebreus exorta: “seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: de maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei...” (Hb 13.5,6). Precisamos aprender a discernir as nossas necessidades do nosso desejo. 




continua...

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