segunda-feira, 16 de maio de 2011

Expiação Limitada

Silas Roberto Nogueira

Texto: Efésios 1.7-12

E
ste é com certeza o ponto mais controverso dos cinco em que se pode resumir a soteriologia reformada. Trata-se da extensão da expiação, em outras palavras procura responder de modo objetivo por quem Cristo morreu.  Esse foi o ponto mais debatido no Sínodo de Dort  e parece que ainda hoje é motivo de debates acirrados.  Boa parte da controvérsia se dá “porque a comunidade cristã tem sido condicionada emocionalmente por falsas práticas, que se originaram de falsas doutrinas relacionadas com o surgimento de missionários e com o levantamento de fundos para missões” [1]. Pode-se dizer também que boa parte da controvérsia reside numa má compreensão da própria doutrina da redenção. Spurgeon diz com sabedoria que “a doutrina da redenção é uma das mais importantes doutrinas do sistema da fé. Errar neste ponto nos levaria invariavelmente a mais completa confusão de todo o sistema de nossas crenças”.[2] De modo geral há quatro pontos de vista sobre a extensão da redenção. Há aqueles que defendem o que chamamos de redenção ilimitada ou universal. Segundo os advogados desse sistema todos serão finalmente salvos, pois essa era a ideia original de Deus. Entre os chamados Pais da Igreja, Clemente de Alexandria (160-215) e Orígenes defendiam esse modo de pensar, este último, por sinal, cria que até mesmo o diabo seria redimido. Há muitos teólogos modernos que defendem alguma forma de universalismo. Uma segunda teoria é a da redenção limitada universal defendida pelos arminianos. Eles defendem que a redenção é universal em seu desígnio e limitada em sua realização. Em outras palavras a redenção é potencialmente oferecida a todos, mas só é real para os que se decidem por Cristo. O terceiro ponto é o da redenção hipotética ou universalismo hipotético. Esse ponto de vista foi desenvolvido por Moises Amyraut e defendido por Richard Baxter. O que se defende aqui é que Cristo morreu hipoteticamente por todos, sem exceção, mas a graça de Deus e a eleição garantem que somente os eleitos crerão. Por último temos aquilo que pretendemos expor hoje a redenção particular, mais conhecida como expiação limitada.  Por essa expressão defendemos que a redenção refere-se exclusivamente aos eleitos de Deus, em outras palavras, que o sacrifício de Cristo visava salvar apenas aqueles que Deus, o Pai, escolheu. Com tal doutrina não estamos limitando o poder do sangue de Cristo, o poder do sangue de Cristo é ilimitado. Com tal doutrina não estamos limitando o valor do sangue de Cristo, pois o sangue de Cristo é infinitamente precioso. Com tal doutrina também não negamos que alguns benefícios da morte de Cristo se estendam a toda humanidade. Nossa abordagem segue a mesma linha da anterior, isto é, tratamos do assunto com reverência e de maneira não argumentativa ou especulativa.

1.    A EXPIAÇÃO É PARTICULAR POR CAUSA DA ELEIÇÃO PESSOAL, v.4
A escolha de Deus em Cristo de alguns para a salvação fez de Cristo o salvador dos escolhidos, v.4. A posição dos pronomes no grego no v. 4 é enfática e revela que Deus pôs junto, Cristo e a nós, em sua mente, de modo que a escolha nele implica em que ele se torne o redentor dos eleitos. Essa é a aliança entre o Pai e o Filho. Deus escolhe alguns homens desde a eternidade para a salvação, o Filho encarna para redimir os eleitos, Mt 1.21; Mt 20.28.

2.    A EXPIAÇÃO É PARTICULAR POR CAUSA DA SUA EFICÁCIA, v.7
Observe as palavras “em quem temos”. Paulo usa aqui o presente do indicativo o que quer dizer que a redenção é eficiente, um fato. Em outras palavras, quando Deus nos viu em Cristo, quando nem mesmo existíamos, já nos viu redimidos em nEle, quando Ele ainda nem mesmo tinha morrido na cruz, 1 Pe. 1.18-20. Quando Paulo dá suas últimas recomendações aos presbíteros da Igreja em Éfeso, ele diz que eles deveriam pastorear o rebanho de Deus, a Sua Igreja que Ele havia comprado com Seu sangue, At 20.28. Observe a frase – “a qual ele comprou”, passado, isto é, um fato certo. Em outras palavras, o sangue de Cristo é eficaz, aqueles por quem foi derramado são de fato redimidos. Leiamos o Apocalipse 5.6-10. Note que essa visão é futura, pois todos os remidos de todas as épocas estão ali, mas observe o vers.9 que usa o aoristo – “compraste” - o que indica uma ação concluída no passado. O que isso significa é que aqueles de toda tribo, raça, língua e nação por quem Cristo derramou seu sangue serão redimidos. Se alguém por quem Cristo morreu não for salvo seu sangue não seria eficiente o suficiente para salvá-lo e seu sacrifício seria em vão. Contudo, nenhum daqueles por quem Cristo morreu poderá perder-se, pois seu sacrifício é plenamente eficiente e consequentemente particular. 

3.    A EXPIAÇÃO É PARTICULAR POR SUA A NATUREZA REMIDORA, v.7
Observe a palavra “redenção”. O sentido dessa palavra é o de um resgate pago por alguém para libertar outro, é libertação. A Bíblia diz especificamente do que fomos libertos, da Lei (Gl 3.13;4.5), do poder do pecado (Rm 6.18,22), do poder da morte (Sl 49.15; Os 3.14), das vãs tradições (1 Pe 1.18) e do poder das trevas (Cl 1.13,14). Agora note o termo “temos”, além do sentido de eficácia, como já vimos, transmite a ideia de particularidade, pois se refere aos escolhidos de Deus. Pedro estabelece o caráter particular da redenção ao dizer que a redenção se deve ao precioso sangue de Cristo derramado por nós (1 Pe 1.17-20), em outras palavras, que a geração eleita é  povo adquirido (1 Pe 2.9). Um segundo ponto a ser esclarecido é que o caráter da redenção é substitutivo, isto é, vicário. A substituição implica em particularidade. A redenção não poderia ser efetuada pelo homem (Sl 49.7), portanto o preço do resgate deveria ser pago por outro. E foi. Paulo afirma “em quem temos”, isto é, o “Amado” (v.6), Cristo. Isaías declara que Cristo “tomou sobre si” as nossas iniquidades (Is 53.5,11,12) e Pedro diz que na cruz Ele carregou os nossos pecados (1 Pe 2.24). Paulo assegura que Cristo morreu “por nós” (Rm 5.9; Ef 5.2) e “por nossos pecados” (1 Co 15.3). Ora, se o sacrifício de Cristo foi substitutivo, isto é, se ele tomou o nosso lugar segue-se que tal sacrifício tem um caráter particular. Pois, se Cristo morreu no lugar de alguém para redimi-lo e tal pessoa não foi redimida, segue-se que o sangue de Cristo foi derramado em vão, foi ineficaz. E se alguém por quem Cristo morreu não foi salvo, que segurança temos da nossa própria salvação? Contudo, Paulo afirma categoricamente que nEle nós “temos a redenção”, isto é, podemos estar seguros de que a redenção foi efetuada.

Conclusão:
O fato é que não se pode desvincular suficiência de eficácia. Ora, a morte de Cristo não foi potencial, mas autêntica, vicária e substitutiva. É preciso lembrar que se negarmos a eficácia da morte de Cristo igualmente negamos a sua suficiência. Se Cristo morreu no lugar e pelos pecados de determinado homem e ele não é redimido, logo o sacrifício de Cristo não foi suficiente. A verdade é que todos nós cremos em alguma forma de expiação limitada, sejam calvinistas, semi-calvinistas ou arminianos. John White lembra que “se você não crê na doutrina reformada da “expiação limitada”, você crê em alguma forma de expiação limitada! Como pode ser isso? A menos que você seja um universalista (ou seja, crê que todas as pessoas serão salvas), então você crê que a expiação realizada por Cristo, se foi realizada em favor de todos os homens, é limitada em seus efeitos. Você crê que Cristo morreu em favor de alguém e, apesar disso, aquela pessoa pode ficar perdida por toda a eternidade. Você limita o poder e o efeito da expiação. Eu limito o escopo da expiação, enquanto afirmo que seu poder e efeito são ilimitados! Um escritor expressou isso muito bem, quando disse: “Não deve haver qualquer mal-entendido quanto a este assunto. O arminiano limita a expiação assim como o faz o calvinista. Este limita a extensão quando afirma que ela não se aplica a todas as pessoas... O arminiano, por sua vez, limita o poder da expiação, pois ele afirma que ela não salva ninguém. O calvinista limita quantitativamente a expiação, mas não qualitativamente; o arminiano limita-a quantitativamente, mas não qualitativamente.[3]



[1] Os Cinco Pontos do Calvinismo, D. E. Spencer, p. 40
[2] Redenção Particular, C. H. Spurgeon, p. 4
[3] Fé para Hoje, n. 17, 2003, p.17
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Terceiro sermão da série As Doutrinas da Graça, exposição realizada na Comunidade Batista da Graça, Rua Tókio, 842, Cid Edson, Suzano/SP, maio de 2011. 

Um comentário:

  1. Caro Silas,

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