segunda-feira, 30 de maio de 2011

A Perseverança dos Santos

Silas Roberto Nogueira

(Leiam o artigo: Uma Vez Salvo, Salvo para Sempre?)

Efésios 1.4-14

A Perseverança dos Santos é o último dos cinco pontos em que se divide a soteriologia reformada. Antes de oferecer uma definição positiva do assunto, sinto-me compelido a fazê-lo de modo negativo, isto é, dizendo o que não é:
(a)   Não afirmamos que uma pessoa regenerada é salva no fim, não importando o aconteça após a sua “regeneração”. A teoria do crente carnal afirma que uma pessoa será salva mesmo se viver na prática do pecado, mas não é isso que afirmamos com a perseverança dos santos. Note que afirmamos a perseverança dos santos, não a perseverança dos pecadores.
(b)   Não afirmamos  que a salvação é iniciada pela fé e preservada pela vontade humana ou pelas obras. Em outras palavras é o homem que se mantém a si mesmo salvo. Mas não é isso o que a Bíblia declara, pelo contrário, afirma que somos guardados pelo poder de Deus.
(c)   Não afirmamos que o crente jamais possa, momentaneamente, desviar-se dos caminhos do Senhor. É importante lembrar que “os crentes verdadeiros às vezes caem em tentações e cometem pecados graves, mas esses pecados não os separam de Cristo. O Espírito os erguerá, e os ajudará a continuar e perseverar em santidade”
(d)   Não afirmamos que todos os membros da igreja local têm sua salvação garantida por serem membros da igreja. Observe que afirmamos a Perseverança dos Santos, não a constância dos hipócritas. Thomas Brooks dizia que o hipócrita só é constante em sua inconstância. 
(e)   Não afirmamos que os crentes são mantidos salvos contra a sua própria vontade. O homem não é salvo contra a sua vontade e não permanece salvo contra a sua vontade.
Perseverança dos Santos é a doutrina que afirma que os que foram regenerados continuarão no caminho da salvação, de maneira que o que foi iniciado neles pelo poder de Deus tem pelo mesmo poder, prosseguimento e consecução, sendo plena e eficazmente realizado. Do ponto de vista histórico-teológico estamos sozinhos na afirmação dessa doutrina. Católicos, luteranos, metodistas e pentecostais defendem a teoria de que um salvo pode vir a perder-se finalmente.  Como declarou certa vez James Kennedy aí encontramos um sinal distintivo da fé calvinista, pois virtualmente todas as demais posições têm dito que é possível alguém perder-se, depois de haver sido salvo. Acho que foi por isso que Lloyd-Jones certa vez declarou que era tão difícil ser calvinista, pois temos que discordar de todo o mundo. O fato é que não discordamos por mero prazer em discordar, não temos um espírito cismático, não somos chegados à controvérsia, mas estamos afirmando a verdade da Palavra de Deus, coisa que alguns querem contradizer ou não aceitar. Nós nos conformamos à Palavra, nossas mentes e corações estão cativos à Palavra de Deus. Assim, podemos dizer que a Perseverança dos Santos é peculiar à fé reformada. E não nos envergonhamos de levantar a bandeira da verdade. Passemos ao estudo do nosso texto, que nos ensina que a Perseverança dos Santos está baseada:

1.    NA NOSSA ELEIÇÃO, v.4
A Perseverança dos Santos é uma consequência lógica dos outros pontos já expostos. Se Deus nos escolheu por Sua livre graça da nossa radical depravação, enviou seu Filho para redimir-nos de modo tão específico e nos chamou de modo tão eficaz pelo Seu evangelho e pelo Seu Espírito, não poderá perder-nos. Postular que alguém que Deus escolheu, o Filho Salvou e o Espírito chamou pode perder-se é blasfemar contra a Trindade Santa. Paulo deixa claro que aqueles que foram chamados segundo o eterno propósito serão glorificados, Rm 8.28-30. Essa é a chamada corrente dourada da fé reformada, corrente cujos elos não são de aço, titânio ou platina, mas da eterna Palavra de Deus.

Thomas Watson, um puritano, declarou a vocação de Deus é fundamentada em seus decretos, e seus decretos são eternos. Como declara a Escritura – “os dons e a vocação são irrevogáveis” (Rm 11.29).

2.    NA NOSSA ADOÇÃO, v.5,6
Paulo nos diz que fomos “predestinados para sermos filhos” adotivos e a Perseverança os santos repousa nesse fato.  Adoção tem um caráter irrevogável, não se pode voltar atrás. Fomos adotados e por isso mesmo não perdemos a nossa condição de filhos. O fato é que como “filhos da ira” (2.2) estávamos sob condenação, contudo nosso “status” foi alterado por Deus e isso não foi por causa de alguma virtude nossa, mas pelo seu amor soberano. J. I. Packer diz que a adoção é o privilégio mais sublime que o evangelho oferece. É por esse privilégio que nos referimos a Deus como Pai, Rm 8.15.

Deus jamais rasga a certidão de nascimento de um filho. O filho pródigo não deixou de ser filho por ter feito o que fez – uma vez filho, sempre filho!

3.    NA NOSSA REDENÇÃO, v. 7-10
Paulo nos diz que nossa redenção foi efetuada em Cristo. A palavra “redenção” nos dias de Paulo significava a compra de um escravo do seu senhor para pô-lo em liberdade.  O tempo verbal indica uma salvação certa e segura, a qual não se pode perder. A Bíblia diz que Cristo, nosso redentor, é quem nos estabelecerá até o fim (1 Co 1.8,9). 

Duas coisas são mencionadas em conexão com a redenção nos asseguram uma salvação eterna, a qual não se perde: 

a) Perdão. Somos perdoados e justificados por meio de Cristo, nenhuma condenação pesa sobre nós, Rm 8.33-39.

b) Compreensão do proposito da salvação, v.8-10.  Somos salvos para a glória de Deus.  

O puritano Ebenezer Erskine (1680-1754) certa vez perguntou a uma mulher enferma que estava às portas da morte sobre se ela poderia escorregar das mãos do Senhor e perder a sua salvação. Ela prontamente respondeu que não poderia escorregar por entre os dedos do Senhor porque era um de seus dedos. Depois concluiu dizendo que se perdesse a sua salvação, o Senhor perderia mais do que ela, pois enquanto ela perderia somente a sua salvação, Ele perderia a Sua glória.

4.    NA NOSSA AQUISIÇÃO, v. 11-14
A última parte do nosso texto ressalta a perseverança dos santos com base na nossa aquisição por parte de Deus. O v. 11 diz que fomos “feitos herança” – como Paulo usa o verbo na voz passiva, o sentido aqui é o de que nós nos tornamos herança de Deus, isto é, propriedade peculiar dEle. Quem poderia sequestrar os bens de Deus, a sua possessão? Mas, ao mesmo tempo em que somos herança de Deus, Ele nos fez seus herdeiros. O apóstolo Pedro afirma que fomos regenerados e somos guardados por Deus para herdarmos uma herança “incorruptível”, 1 Pe 1.3-5.

Richard Sibbes dizia “não apenas uma herança está sendo guardada para nós, como também estamos sendo guardados para ela”.

CONCLUSÃO
Mas, é preciso dizer algumas palavras ainda sobre a Perseverança dos Santos:

a) É uma obra tanto do crente como de Deus. A graça de Deus na perseverança dos santos é ativa, dinâmica. Implica em que os eleitos querem ser santos. Os crentes perseveram ativamente na luta contra o pecado, visando à santificação (Fp 2.12). Dizia Alexander MacLaren  que “a raiz de toda constância está na consagração a Deus”.

b) Devemos levar em conta o uso dos meios para a Perseverança. Esses meios são a comunhão com os santos (Sl 133), a participação digna da Ceia (1 Co 11.23 segs), a oração (Mt 26.41; Ef 6.18) o estudo bíblico e a meditação na Palavra de Deus (Sl 1). 

Podemos dizer com o apóstolo Paulo - "eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu tesouro até aquele dia" (2 Tm 1.12). 
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Notas do último sermão da série As Doutrinas da Graça. 

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