segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Juízo Final (i)


Silas Roberto Nogueira

O tema não é certamente aprazível.  Dizem que D. L. Moody sempre chorava ao tratar sobre o assunto.  É um tópico solene e até certo ponto não plenamente revelado. Entretanto, é impossível estudar as Escrituras de modo sério e ignorar o assunto que o autor de Hebreus classifica entre os “princípios elementares” (Hb 6.1,2).

A religião natural nos leva a esperar uma futura retribuição por nossos atos e, é claro, algum tipo de julgamento pelo qual a retribuição será outorgada. No Zoroastrismo (ou Masdeísmo), religião persa primitiva, no final dos tempos haveria o julgamento derradeiro de todas as almas e a ressurreição dos mortos. Não fica claro se o inferno tem duração eterna, se os maus se agitarão eternamente "nas trevas". A mitologia pagã tinha os seus juizes, Éaco[1], Minos[2] e Radamanto[3], por quem os mortos teriam o seu lugar e condição determinados no outro mundo. No islamismo o dia do julgamento final (Yaum al-Qiyamah) é o momento em que cada ser humano será ressuscitado e julgado na presença de Aláh pelas ações que praticou. Os seres humanos livres de pecado serão enviados diretamente para o paraíso, enquanto que os pecadores devem permanecer algum tempo no inferno antes de poderem também entrar no paraíso. As únicas pessoas que permanecerão para sempre no inferno são os hipócritas religiosos, isto é, aqueles que se diziam muçulmanos, mas de fato nunca o foram. A doutrina de um julgamento universal e público, no entanto, é uma peculiaridade da revelação bíblica. James I. Packer está certo quando diz que “há poucas coisas na Bíblia mais fortemente destacadas que a realidade da ação de Deus como juiz”. A realidade do juízo final é estabelecida como um fato pelos juízos de Deus na história.
Deus julgou Adão e Eva, expulsando-os do Jardim e amaldiçoando sua vida na terra (Gn 3). Deus julgou o mundo corrupto dos dias de Noé enviando o dilúvio para destruir a humanidade (Gn 6-8). Ele julgou Sodoma e Gomorra, destruindo-as por meio de uma catástrofe vulcânica (Gn 18,19). Julgou os egípcios, que dominavam os israelitas, exatamente como havia prometido fazer (Gn 15:14), mandando contra eles o terror das dez pragas (Êx 7-12). Deus também julgou os adoradores do bezerro de ouro usando os levitas como seus executores (Êx 32:26-35). Julgou Nadabe e Abiú por lhe oferecerem fogo estranho (Lv 10:1-3), bem como Coré, Data e Abirã, que foram engolidos por um tremor de terra. Deus julgou Acã por roubo sacrílego, eliminado a este e aos seus (Js 7). Julgou Israel por infidelidade depois da entrada em Canaã, permitindo que caísse sob o domínio de outras nações (Jz 2:11-15; 3:5-8; 4:1-3). Antes de entrar na terra prometida, Deus havia ameaçado banir seu povo como castigo final para a impiedade, e depois de repetidas admoestações feitas pelos profetas, ele os julgou, cumprindo sua ameaça: o reino do norte (Israel) caiu vítima do cativeiro assírio e o reino do sul (Judá), do babilônico (2Rs 17; 22:15-17; 23:26,27). Na Babilônia, Deus julgou Nabucodonosor e Belsazar por impiedade. Ao primeiro foi dado tempo para corrigir sua vida (Dn 4:5,27,34), ao segundo, não (Dn 5; 5,6,23-38,30). As narrativas do julgamento divino não estão confinadas apenas no Antigo Testamento. Na história do neotestamentária, o julgamento cai sobre os judeus por haverem rejeitado o Messias (Mt 21:43,44; 1Ts 2:14-16); sobre Ananias e Safira por terem mentido a Deus (At 5); sobre Herodes por seu orgulho (At 12:21); sobre Elimas por sua oposição ao Evangelho (At 13:8); sobre os cristãos de Corinto, afligidos por doenças (fatais em muitos casos), por sua irreverência grosseira, particularmente em relação à ceia do Senhor (1Co 11:29-32). [4]

O Juízo Final, no dizer de Wayne Gruden, é a culminação de muitos prenúncios em que Deus premiou a justiça e puniu a injustiça ao longo da história. [5]  Se Deus exerceu juízo na história, certamente estabeleceu “um dia em que há de julgar o mundo com justiça...” (At.17.31)
Quando passamos da história para os ensinamentos bíblicos — a lei, os profetas, a literatura sapiencial, as palavras de Cristo e dos apóstolos —, percebemos que o propósito da ação de Deus no julgamento sobrepuja tudo o mais. A legislação mosaica proveio de um Deus que é justo juiz e que não hesitará em punir mediante uma atuação providencial direta se seu povo infringir sua lei. Os profetas acolheram esse tema; na verdade, a maior parte de seus ensinamentos registrados consiste na exposição e aplicação da lei, e de ameaças de julgamento contra os impenitentes e os transgressores da lei. Eles gastaram muito mais tempo proclamando o julgamento que prognosticando o Messias e seu Reino! Na literatura sapiencial aparece o mesmo ponto de vista: a única certeza fundamental subjacente a todas as discussões sobre os problemas da vida em Jó, em Eclesiastes e em todas as máximas práticas de Provérbios é que "Deus o trará a julgamento", "Pois Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja mal" (Ec 11:9; 12:14).
As pessoas que não leem a Bíblia confiantemente nos asseguram de que quando vamos do Antigo para o Novo Testamento, o tema do julgamento divino passa para segundo plano. Entretanto, se examinarmos o Novo Testamento, mesmo superficialmente, perceberemos logo que a ênfase do Antigo Testamento na ação de Deus como Juiz, longe de ser reduzida, é na realidade intensificada. Todo o Novo Testamento é dominado pela certeza da chegada do dia do juízo universal e pela questão que ele levanta: Como podemos nós, pecadores, nos reconciliar com Deus enquanto há tempo? O Novo Testamento menciona o "dia do julgamento", "o dia da ira", "a ira vindoura" e proclama Jesus, o divino Salvador, como o Juiz indicado por Deus. O juiz que está à porta (Tg 5:9) "pronto para julgar os vivos e os mortos" (1Pe 4:5), o "justo juiz" que dará a Paulo sua coroa (2Tm 4:8) é o Senhor Jesus Cristo. "Foi a ele que Deus constituiu juiz de vivos e de mortos" (At 10:42). Deus "estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio do homem que destinou" (At 17:31), disse Paulo aos atenienses. E aos romanos escreveu: "no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, mediante Cristo Jesus, conforme o declara o meu evangelho" (Rm 2:16). O próprio Jesus disse o mesmo: "... o Pai [...] confiou todo julgamento ao Filho [...] Deu-lhe autoridade para julgar [...] está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados" (To 5:22,27-29). O Jesus do Novo Testamento, que é o Salvador do mundo, é também o seu Juiz.  [6]

Continua...


[1] Éaco, sua sabedoria e a sua paixão pela justiça fizeram com que os deuses o escolhessem para juiz das suas querelas e, mais tarde, para assessor no tribunal do Além, presidido por Hades, ao lado de Minos e Radamanto. Ele estava, particularmente, encarregado de julgar, nos infernos, os "acontecimentos europeus"
[2] Minos, no Inferno de Dante, é quem ouve as confissões dos mortos e designa-os a um círculo e subcírculo específico, de acordo com a falta mais grave relatada.
[3] Radamanto, por causa de sua integridade, ao morrer tornou-se um dos juízes do Hades. Segundo Platão, supunha-se que Radamanto julgava as almas vindas da Ásia, enquanto Éaco fazia o mesmo com as ocidentais, tendo Minos o voto decisivo.
[4] Conhecimento de Deus, p.125
[5] Teologia Sistemática, p. 974
[6] O Conhecimento de Deus, p.124

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