segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DEUS LUTA COM JACÓ

Silas Roberto Nogueira

(De uma série de mensagens em Gênesis)

Texto: Gênesis 32

Jacó está retornando à sua terra natal após vinte anos e terá que enfrentar as consequências das suas antigas escolhas. O momento crucial na vida de Jacó não está no seu encontro com Esaú, mas no seu encontro com Deus. Depois deste encontro transformador, Jacó estará apto a encontrar seu irmão Esaú. Vejamos algumas lições deste trecho das Escrituras.

A PROVIDÊNCIA DE DEUS, Gn 32.1,2
Do mesmo modo como os anjos apareceram a Jacó por ocasião de sua viagem para o exílio, aqui também o Senhor envia graciosamente seus anjos para certificá-lo da protetora presença divina em face da ameaçadora presença de Esaú. Os anjos (“anjos de Deus” – hb. mal’ak ‘elohin, lit. mensageiros de Deus) a Bíblia não nos oferece uma definição do que são os anjos, contudo revela a sua natureza e função – “espíritos ministradores” (Hb 1:14). Os anjos são “espíritos”, isto é, seres espirituais e morais (2 Pe 2:4), isto é, há anjos bons e maus (geralmente denominados “demônios” ou “espíritos maus”). Os anjos bons atuam como ministros da parte de Deus “para o serviço” a favor dos que “hão de herdar a salvação”. O termo “Maanaim” – lit. significa “acampamento, exército ou dois campos” – o que parece é que Jacó visualizou, por um lado, o exército do Senhor e, por outro, o ajuntamento indefeso que lavava consigo (v.5). O relato aqui nos remete à cena de Eliseu, 2 Rs 6:8-23. Há uma diferença entre os anjos referidos aqui e Aquele que entra em luta corporal com Jacó, mais tarde. Esse último, embora também chamado “anjo” (Os. 12.4) é identificado como Deus, v.30 e Os. 12.3. Como nenhum anjo da Bíblia é identificado como sendo Deus a não ser o “anjo de Jeová”, parece que aqui este é o caso. O “anjo de Jeová” é uma manifestação de Cristo pré-encarnado.           
                                                                                                                                                                                                                                  
Embora os anjos de Deus tenham aparecido a Jacó como uma prova da proteção divina, ele se sentia inseguro quanto ao que poderia ocorrer no seu encontro com Esaú. Jacó ainda não aprendera a confiar totalmente em Deus.

A ESTRATÉGIA DE JACÓ, vv.3-8
Ao pensar no encontro com Esaú, o pânico se apoderou de Jacó e trouxe-lhe à memória recordações do que havia feito a seu irmão. Outra vez o velho manipulador vem à tona. Jacó estabelece uma estratégia para proteger-se de Esaú. Carlos Osvaldo comenta “a reação de Jacó à aparente ameaça de vingança por parte de Esaú revela uma fé ainda fraca e atormentada pela tendência de recorrer ao suborno e ao engano para alcançar seus objetivos”.

Primeiro Jacó envia mensageiros com um discurso pronto, v. 3-5. Ao anunciar a Esaú tudo o que possuía, Jacó intencionava persuadir Esaú de que o Senhor o tinha abençoado de modo inteiramente à parte daquela bênção que ele havia, tão sutilmente, tomado do irmão mais velho. É como se dissesse que a usurpação não lhe valera de nada.

Em segundo lugar Jacó usa de uma linguagem cortês, note – “meu senhor Esaú”, v.4,5. Ao enviar mensageiros, Jacó esperava “achar favor” (LXX, gr charis) aos olhos de Esaú, v.5. Contudo, ao retornarem os mensageiros sem uma resposta por parte de Esaú e ainda dizendo que ele vem ao encontro de Jacó com um pequeno exército (v. 6) é para ele um forte indicativo que não obteve aquilo que esperava v.7. O texto diz que Jacó ficou tomado de medo e muito consternado. O hebraico descreve Jacó como alguém que está excessivamente amedrontado e angustiado. Na sua oração Jacó revela o seu temor de que seu irmão viesse a mata-lo e aos seus (v.11). Mais tarde, em Betel, Jacó refere-se a esse momento como tempo de “angústia”, mas usa outro termo que quer dizer “adversidade” ou “tribulação”, 35.3.  . Assim, se a primeira estratégia falha, Jacó, sempre cheio de recursos emprega outra estratégia. O plano “b” é posto em prática.

Em terceiro lugar ele divide aqueles que estão com ele em dois bandos, v. 7. Pensava Jacó que se Esaú desse sobre eles, mataria o primeiro grupo e quando chegasse ao segundo, sua ira já estaria aplacada e assim, não os mataria ou que eles tivessem tempo de fugir enquanto o primeiro grupo era dizimado, v.8. No primeiro grupo, ao que parece estavam, além de alguns animais, os servos, no segundo, os membros de sua família, v.22. O grupo em que estava a sua família estava dividido assim: primeiro, as servas imediatamente seguidas por seus filhos, depois Lia e seus filhos e por último, Raquel e José, 33.2. Essa disposição deixa evidente o favoritismo de Jacó por Raquel e José.

Em quarto lugar, Jacó ora, vv.9-12. A oração de Jacó é uma oração pactual, reivindicando a proteção de Deu à luz de Sua ordem para que voltasse a Canaã. Uma análise dos vv.9-12 revela elementos de uma verdadeira oração:
·         Jacó reconhece a iniciativa divina nas manifestações de graça para com seu pai e para consigo mesmo, v. 9;
·         Jacó reconhece o seu próprio demérito diante de Deus e Deus como a fonte de todo o bem e do dom perfeito, v.10;
·         Jacó reconhece que é necessitado de proteção divina, v.11;
·         Jacó expressa sua fé na promessa de Deus, v.12.

Em quinto lugar, Jacó apesar de ter orado, apela ao suborno, v. 13-21. O presente era extravagante, pois 550 animais estavam sendo separados em três rebanhos para serem doados a Esaú.  A intenção de Jacó é expressa nas palavras “vou aplacá-lo com o presente mandado à minha frente; depois o verei face a face, talvez me aceite” (v.20). Sua mente aguçada considera as alternativas, avalia as chances e procura uma saída. Jacó ainda não aprendeu a depender totalmente de Deus para sua salvação.

O GRANDE MOMENTO – O CONFRONTO COM DEUS
Este é o grande momento na vida de Jacó, o confronto com Deus no vau de Jaboque. Depois desse confronto, Jacó não será mais o mesmo. Este confronto ilustra também o encontro de cada um de nós com Deus.

1.       O Confronto solitário, v. 24.
Comenta J. D. MacMillan a frase introdutória “Jacó, porém ficou só” “é um imediato e impressivo lembrete de que, na história das experiências espirituais pessoais da graça de Deus, há lugares e áreas nos quais somos levados à solidão”. O tipo de solidão aqui parece ser a solidão da alma, como fruto do pecado. O pecado causa separação em três áreas específicas da vida humana:
(a)    Separa o homem de Deus, Is 59:2
(b)   Separa o homem do homem, Gn 28:5 (Exílio de Jacó por causa do ódio de Esaú)
(c)    Separa o homem de si mesmo, Sl 86.11 (o termo “dispõe-me” no original hebraico tem o sentido unir partes que estavam separadas, lit. “une o meu coração para temer o teu nome”). O encontro com Deus promove a cura da personalidade partida, fracionada.
De repente a solidão é quebrada, Deus irrompe na história.

Assim como Deus irrompeu na história do patriarca, irrompe na nossa história.

2.       O Confronto é íntimo, v. 24b
Jacó estava só e de repente estava a sós com Deus. Deus entra em cena e de modo bastante definido. Deus está aqui na pessoa do Anjo da Aliança, uma teofania, um aparecimento do Cristo pré-encarnado na forma de homem. Note que o texto não diz “Jacó ficou só e lutou com um varão”, mas está bem claro que o ataque partiu do homem: “e um homem pôs-se a lutar com ele...”.  O embate partiu do varão, partiu de Deus. Está claro que não foi uma visão, mas um confronto literal, físico. O termo hebraico usado para “lutava” implica em contato físico íntimo, um abraço apertado como fazem os lutadores de luta romana. O termo hebraico traduzido por “lutou” em Oséias 12:4 indica que o varão dominava Jacó no embate.

Assim como o encontro de Jacó e Deus foi íntimo, nosso encontro com Cristo é pessoal, individual.

3.       O Confronto é acirrado, v. 25a
Jacó era um homem forte, vigoroso (29:2,10; Os 12:3). O Anjo do Senhor ajustou-se à força de Jacó (Sl 103:14 - “ele conhece a nossa estrutura”) e isso tornou o embate acirrado. O Anjo do Senhor poderia ter vencido facilmente o embate, contudo o Senhor queria que Jacó se lhe rendesse de modo voluntário, corporal e espiritualmente. Jacó combateu com todas as suas forças, até que o Anjo tocou-lhe de modo que o submeteu.

Assim como Jacó lutou bravamente, nós igualmente lutamos até que sejamos subjugados pelo grande Mestre.

4.       O Confronto é transformador, v.25b
O confronto de Jacó com o Anjo do Senhor foi transformador. Jacó nunca mais foi o mesmo, pois houve um toque sobrenatural. 

  •      Um toque suave. Seria necessário um toque tremendamente violento para provocar o deslocamento da coxa de um homem capaz num embate. É improvável que isso tenha ocorrido aqui. O termo hebraico traduzido por “tocou-lhe” indica que não houve violência. Em Isaías 6:7 o mesmo termo aparece, onde a brasa “tocou” os lábios do profeta e indica um toque suave, de dedo, não de punho. O toque a que Jacó foi submetido, portanto, foi sobrenatural. Assim como Deus tocou de modo suave, porém sobrenatural em Jacó, toca em nós.


  •      Um toque humilhante. Todo lutador tem orgulho de sua habilidade física, de sua destreza. A derrota é sempre humilhante. Jacó foi tocado no lugar de sua força, na sua autoconfiança, na sua autossuficiência. Mediante um golpe sobrenatural Jacó fica impossibilitado de prosseguir a luta. Assim como Deus soube onde tocar em Jacó, sabe o nosso ponto fraco e não deixará de explorá-lo de modo a submeter-nos.


O texto diz que ao amanhecer, quando Jacó ia ao encontro a Esaú –“mancava de uma perna” (v.31). Jacó levava consigo a marca da experiência pela qual havia passado um novo nome (v.28), a bênção de Deus (v.29) e o senso de ter visto Deus face a face e ter a sua vida preservada (v.30).  
Porventura, seria diferente conosco? Entraria Deus num embate por nossa alma e sairíamos do mesmo modo? Veríamos nós a Deus e continuaríamos os mesmos?


Até esse momento, o encontro mais importante para Jacó era com Esaú. Ele estava cheio de medo, temores. A única coisa que ocupava a sua mente era a sua vida e a vida de seus familiares. No entanto, quando estava lutando com Deus, a única coisa que preenche a sua mente é o seu oponente. Esse encontro entre Jacó e Deus foi transformador. Depois dele não há mais medo, Jacó mesmo vai à frente dos seus familiares ao encontro de Esaú (33:3a). Age com humildade (33:8, 5 “teu servo”, 8). Age com liberalidade (33: 10-11). Mas, acima de tudo não vê mais as pessoas como meio de obter vantagens, mas como indivíduos que possuem em si a imagem de Deus (ainda que desfigurada), 33:8.
Vejo nesse encontro de Jacó de Deus uma figura da regeneração. A regeneração é um ato de Deus, assim como foi um toque de Deus em Jacó. A regeneração é um encontro transformador. A regeneração muda a nossa vida de uma vez para sempre. A regeneração afeta o modo como vemos não somente as pessoas, mas sobre tudo o próprio Deus. Ninguém sai ileso de um encontro dom Deus.


4 comentários:

  1. Bela Palavra...estava pesquisando sobre a biografia deste patriarca, uma história linda de transformação de vida. Deus abençoe.

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  2. Silas, afinal Jaco lutou com um anjo ou o própio Deus???

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  3. Olá,

    A sua pergunta é respondida em Oséias 12:3,4.

    Forte abraço,

    Silas

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