terça-feira, 13 de dezembro de 2011

SALVAÇÃO SOMENTE PELA GRAÇA


Charles H. Spurgeon


"Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos" (II Tim. 1:9).

Se quisermos influenciar pessoas intelectuais, devemos usar bons argumentos. Pessoas não muito racionais podem ser influen­ciadas por emoção, sem argumentação alguma. O apóstolo Paulo queria influenciar Timóteo, seu filho na fé. Timóteo era um estudante diligente. Ele tinha habilidade intelectual. Tinha também a graça de Deus. Paulo sentiu que a melhor maneira de influenciar Timóteo era lembrá-lo de verdades da Bíblia nas quais Timóteo já havia crido.
Aqui se encontra uma lição para pregadores. Deve haver equi­líbrio na pregação. É bom e correto os pregadores apelarem aos sentimentos de seus ouvintes. Contudo, o bom ensinamento deve ter uma base firme em verdades bíblicas. É responsabilidade do pregador instruir no entendimento, bem como apelar ao coração. Se as doutrinas da Bíblia não são ensinadas ao homem, ele poderá facilmente se desviar para as falsas doutrinas. O apóstolo disse: "...levados em roda por todo o vento de doutrina" (Ef. 4:14). São as pessoas bem instruídas na verdade bíblica que não serão levadas por falsos ensinamentos.
Paulo quer manter Timóteo fiel à fé. Assim o apóstolo lembra--o que é a excelente doutrina da graça de Deus que rege a salvação do homem. No nosso texto o apóstolo Paulo apresenta um resumo do evangelho. Ele mostra o destaque dado à graça de Deus, a fim de ajudar Timóteo a ser corajoso em seu testemunho por Cristo.
Alguns achavam que verdades doutrinárias eram mera teoria.
Isso não é verdade. O entendimento claro da doutrina é que leva a uma vida santa e prática. A maneira mais garantida de se levar pessoas à obediência e santidade é ensiná-las a verdade de Deus revelada.
Consideraremos primeiramente a doutrina ensinada pelo após­tolo. Em seguida tentaremos mostrar como esse ensinamento deve afetar nossas vidas.

1. Pensaremos cuidadosamente sobre a doutrina ensinada gelo apóstolo, no nosso texto. Não queremos ensinar doutrina só porque é popular. Queremos apenas ensinar o que entendemos ser o significado verdadeiro do texto.
Muitos de vocês podem não gostar da doutrina que pregamos. Talvez possam até se zangar. Não podemos pregar para agradar nossos ouvintes. A aprovação de Deus será suficiente para nós embora pessoas possam nos contradizer. Que toda mente honesta esteja desejosa de receber a verdade da inspirada Palavra de Deus.
(I). O apóstolo expõe sua doutrina nas palavras do nosso texto. Paulo declara que Deus é o autor da salvação: "Quem nós salvou, e chamou". Ele claramente confirma o ensinamento de Jonas de que "... do Senhor vem a salvação" (Jon. 2:9). Salvação pelo homem não se encontra no nosso texto.
O fato de que a salvação é inteiramente do Senhor é muito claro neste texto.
(II). O apóstolo refere-se a todas as pessoas da Trindade. O Pai nos salvou. Deus Pai planejou o caminho da salvação. O pensamento que Cristo deveria sofrer como cabeça federal de Seu povo veio do coração do Pai. Esta mesma verdade é ensinada em outras passagens das Escrituras — I João 5:11, Ef. 1:3-6 e João 16:27.
Além disso, a dádiva de Cristo, o único Filho de Deus, veio do coração compassivo de Deus. Veja João 3:16. Deus, o Pai, esco­lheu pessoas que seriam redimidas. Elas são "chamadas por Seu decreto" (Rom. 8:28). Portanto, o plano de salvação veio da sabedoria e graça de Deus, o Pai.
(III). Oapóstolo não esquece da obra de Cristo, o Filho. Somos salvos através do Filho de Deus. Porventura não é Seu nome Jesus, que significa Salvador? O Filho de Deus nasceu no mundo como homem. Ele viveu uma vida perfeita. Demons­trou na Sua vida a retidão, com a qual o Seu povo se reveste. Por causa da morte cruel de Cristo na cruz o pecador pode ser limpo de seu pecado. O povo de Deus é aceito por meio da vida perfeita e da morte expiatória de Cristo Jesus. Diante do trono eterno o povo de Deus irá cantar: "...Àquele que nos ama, e em Seu sangue nos lavou dos nossos pecados... a Ele glória e poder para todo o sempre. Amém" (Apoc. 1:5-6).
(IV). O apóstolo nos lembra da obra do Espírito Santo, a terceira pessoa na Trindade. O Espírito Santo nos capacita a entender o evangelho. A mente humana por natureza não entende as coisas de Deus. O Espírito Santo influi na nossa vontade. Ele nos tira da nossa condição de rebeldia e ajuda-nos a obedecer à verdade. Acaso não é o Espírito Santo que nos renova? "... criados em Cristo Jesus para as boas obras..." (Ef. 2:10). Não é o Espírito Santo que nos ensina e nos conforta? O Pai planeja, o Filho redime, o Espírito Santo aplica esta redenção aos nossos corações e nós nascemos de novo. Portanto, o Pai, o Filho e o Espírito devem ser referidos como o Deus "que nos salvou".
(V. Dizer que nós nos salvamos a nós mesmos é ridículo. Na Bíblia, somos chamados de "templo santo no Senhor" (Ef. 2.21). O templo não construiu-se a si mesmo. Cremos que Deus, o Pai, foi o arquiteto do templo. Ele planejou, Ele forneceu os materiais de construção e Ele terminará a obra. Não haveria necessidade alguma de um redentor se pudésse­mos salvar a nós mesmos. Mas éramos escravos de Satanás e não tínhamos como por nós mesmos quebrar o poder do pecado que nos aprisionava. Poderia o rebanho de Deus, o qual Cristo tomou das garras do leão, ter se libertado a si mesmo? Não, não podemos acreditar que Cristo veio para fazer o que os pecadores podiam fazer por si mesmos. Podem os mortos por si mesmos se fazerem vivos? Quem pode dizer que Lázaro, morto no túmulo, veio à vida por ele mesmo? Ainda que Lázaro pudesse se ressuscitar dentre os mortos nem assim creríamos que os mortos em pecado pudessem se fazer vivos!
Pecadores salvos pela graça de Deus, tornam-se novas criaturas em Cristo. Como poderia a criação ter feito a si mesma? Se temos uma nova criação, deve ter existido um criador.
E, do ponto de vista espiritual, regeneração é obra inteiramente de Deus, o Espírito Santo. Ninguém ajuda o Espírito Santo na Sua obra de regeneração. A renovação da alma é operação dEle. Nós adoramos o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Reconhecemos que se somos salvos, é porque fomos salvos exclusivamente por Deus. A Deus seja toda a glória!
2. Quero dizer três coisas sobre a maneira pela qual Deus nos salvou.
(I) . Nossa salvação é completa. O apóstolo diz: "Que nos salvou". Crentes em Jesus Cristo são salvos no momento que colocam sua confiança em Cristo. Eles não esperam que sejam salvos. Deus salvou completamente Seu povo. Ele o escolheu para esta salvação. O preço total da salvação desses pecadores escolhidos por Deus foi pago quando Cristo morreu por eles na cruz. Cristo disse quando pendurado na cruz: "Está consu­mado" (João 19:30). Estávamos completamente perdidos por causa da desobediência de Adão. Fomos completamente salvos quando Cristo, o segundo Adão, terminou Sua obra redentora por nós.
(II). Meu segundo pensamento é que o texto diz: "Que nos salvou, e chamou". Será que Deus nos salvou antes de nos chamar? O texto diz que Ele assim o fez. Não sabemos que somos salvos até que o Espírito Santo opere em nossos corações, trazendo-nos a Cristo. Entretanto, no propósito de Deus e na redenção de Cristo, somos salvos antes de sermos chamados. O Senhor Jesus Cristo pagou as dívidas do Seu povo quando foi crucificado. Por conseguinte, vocês podem ver que fomos salvos antes de sermos chamados.
(III). Deus nos chamou para uma vida santa. Aqueles pecado­res pelos quais Cristo morreu são chamados pelo poder do Espírito Santo à santidade. Eles deixam seus pecados; tentam ser como Cristo. Antes de serem salvos amavam o pecado. A velha natureza deles amava tudo que era maligno. A sua nova natureza não pode pecar porque é nascida de Deus. Deus chama Seu povo à santidade. O povo de Deus não é santo porque quer que Deus o salve. Deus, através do Espírito Santo, opera a santidade nele. Portanto, o belo fruto espiritual que vemos num crente tanto é a obra de Deus quanto é o resultado da expiação pela qual Cristo o comprou. A salvação de um crente é unicamente pela graça. Deus é o autor dessa graça. Salvação tem que ser pela graça, pois não pode ser adquirida. A seqüência verdadeira é: Deus nos salvou antes de nos chamar. Esta ordem mostra que nossa santificação não é a causa, e sim o efeito, da nossa salvação.
3. Em nosso texto, o apóstolo diz: "não segundo as nossas obras". A atitude do mundo é: "Faça o melhor que puder e Deus o abençoará". A pregação do evangelho afirma que somos pecadores perdidos. Só merecemos ser condenados por Deus. Se haveremos de ser salvos, isso só será possível pela graça soberana de Deus. Ele tem que nos amar voluntariamente ou iremos para o inferno. Nossas próprias boas obras jamais podem nos salvar. Se boas obras pudessem nos salvar, a salvação não seria pela graça e sim pelas obras. Deus afirmou muitas vezes em Sua Palavra: "Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Ef. 2:9).
Na Epístola aos Gálatas, o apóstolo é bem resoluto a este respeito. "O homem não é justificado pelas obras da lei" (Gal. 2:16). Jesus Cristo é o "autor e consumador da nossa fé" (Heb. 12:2). Pecadores devem receber a livre salvação das mãos da graça divina ou devem obtê-la por seus próprios esforços. E impossível merecer salvação; há somente o caminho da graça. Nós só podemos ser "justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus" (Rom. 3:24).
Por que Deus fez a salvação possível somente através da fé? A Bíblia nos diz: "Portanto é pela fé, para que seja segundo a graça" (Rom.. 4:16). Não há mérito algum na fé. Fé é dom de Deus. Nossa salvação depende inteiramente da graça.
4. A próxima coisa a ser mencionada no nosso texto, é o propósito eterno de Deus. Quando somos salvos, não é de acordo com nosso propósito ou mérito, porém "segundo seu próprio propósito". "Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece" (Rom. 9:16). O que Cristo disse a Seus discípulos, Ele diz a nós: "Não me escolheste vós a mim, mas eu vos escolhi" (João 15:16). O ensino de Cristo é que "não quereis vir a mim para terdes vida eterna"(João5:40). Vocês não virão; vocês não podem vir, até que a Sua graça os traga.
"Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou o não trouxer" (João 6:44). "Todo o que o Paime dá virá a mim" (João 6:37). Estas passagens concordam com nosso texto.
Por que existem pessoas tão iradas contra o propósito de Deus? A nós, seres humanos, é permitido termos propósitos. Por que então Deus não pode ter um propósito? De fato, Ele tem um propósito! Ele governa no céu e na terra. Ele salva Seu povo "segundo seu próprio propósito".
5. Nosso texto diz: "seu próprio propósito e graça". O propósito de Deus está todo fundamentado na graça; graça, tudo baseado na Sua graça, do começo ao fim. Os homens são pecadores condena­dos. Mas eles geralmente querem fazer algo para merecerem seu próprio perdão. Deus afirma que um pecador não tem como ser salvo dessa maneira. Deus está disposto a recebê-lo, fraco e indigno, como você o é. Ele lhe dará salvação, todavia não pode vendê-la a você. A salvação de Deus é pela graça. Ele o convida sinceramente a vir a Cristo e a viver. No entanto, você jamais poderá vir, a não ser que o Espírito Santo o faça disposto a aceitar a misericórdia de Deus.
(I) . Salvação é referida na Bíblia como uma dádiva. "Graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos" (2 Tim. 1:9). Isto deveria nos manter humildes. Não podemos ser orgulhosos de algo que nos foi doado. O texto não nos diz: "a qual Ele nos vendeu", ou "nos propôs", mas "a qual nos foi dada". Portanto, nossa salvação é exclusivamente o dom da graça de Deus.
(II) . "Nos foi dada em Cristo Jesus". A graça de Deus vem a nós através de Cristo Jesus. Paulo afirma: "Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo" (Gal. 6:14). Salvação é um dom da graça.
(III) . Deus nos deu esta graça "antes dos tempos dos séculos". Deus vivia sozinho antes do mundo começar. Nós ainda não existíamos, portanto não podíamos fazer nada pela nossa salvação. Deus já reinava então, assim como Ele reina agora. Ele não tomou conselho de homem ou anjo porque nada até então havia sido criado. Ele nos deu salvação antes da funda­ção do mundo para que a nossa salvação pudesse ser totalmen­te pela graça, através de Jesus Cristo.
Você, meu amigo, pode não gostar do ensino do texto, mas creio que dei o verdadeiro significado dele. Peço que aceite o que Deus diz.
6. Vou tentar agora mostrar como o ensinamento deste texto pode ser usado por nós. Ele pode afetar a nossa maneira de viver. Creio que a doutrina da graça é tão cheia de poder hoje quanto no passado. Ela dá coragem ao homem que a recebe. Paulo exorta a Timóteo que não deve envergonhar-se. Deus lhe deu graça em Cristo Jesus antes da fundação do mundo.
(I). Um homem pode ser muito pobre em bens materiais. Este mesmo homem pode ser rico espiritualmente se ele conhece a graça de Deus. O nome de uma pessoa pode não estar nos livros de história do mundo, entretanto o nome do crente foi registrado no livro de Deus antes do início dos tempos. O homem que nisso crer será forte quando tiver que travar a batalha do Senhor. Os que crêem na livre graça de Deus têm confiança. Não têm medo. Eles sabem no que crêem. Até nossas crianças, às quais são ensinadas as doutri­nas da graça, sabem mais do que muitos adultos. Muitos não sabem no que crêem, pois eles ouvem pregações que não os ensinam realmente a verdade de Deus. Se uma pessoa recebeu as doutrinas da graça ela se apegará firmemente a elas. As doutrinas serão muito queridas a essa pessoa, e ela estará preparada a morrer pelas verdades que crê.
(II). Estas doutrinas da graça dão ao homem algo em que se segurar. Por outro lado, as doutrinas da graça seguram o homem! A pessoa que crê que a salvação vem de Deus e não do homem jamais abandonará este ensinamento. Todas as outras doutrinas são como chão escorregadio onde alguém pode facilmente cair. Se a salvação é por esforço humano, como pode você saber se seu esforço é suficiente? Se você tiver seus pés firmes nas doutrinas da graça não precisa ter medo de cair. Este fundamento é bem firme e o suportará. Apeguemo-nos firmemente à verdade do propósito eterno de Deus em Cristo Jesus antes do início dos tempos.
(III). Este ensinamento da doutrina da graça desmascara os falsos ensinamentos. Se dissermos às pessoas que elas são salvas por Deus, verão que não precisam de padres, missas e absolvições. A doutrina da graça é a verdade que Deus usa para sacudir os portões do inferno. Nos tempos quando a Igreja de Deus foi perseguida, os cristãos arriscaram suas vidas para ouvir esta verdade. Quando não era permitido que os cristãos se encontrassem em igrejas, eles se encontravam à noite em lugares secretos. Não tinham medo desde que pudes­sem ouvir a doutrina da graça de Deus. Eles correriam o risco de serem mortos se tão-somente pudessem ser alimentados pela pregação desta doutrina, a qual amavam. Quando o erro é pregado em tantos lugares, isto deve ser contra-atacado pela pregação das doutrinas da graça. Os inimigos de Deus não serão capazes de resistir a estas verdades.
(IV). Quando essas verdades são escritas no coração do ho­mem, elas farão com que ele busque a Deus. Ele saberá que Deus o salvou e passará a vida seguindo a Deus. Ele verá a mão de Deus em tudo. Ele adorará o Deus que já fez e continua a fazer tanto por ele. Ao mesmo tempo, esta doutrina faz com que o homem despreze a si mesmo. Ele sabe que não tem em si mesmo justiça nenhuma. Ele sabe que somente Deus o pode salvar. Ele se sente pequenino, mas contente. Ele se mantém humilde diante do propiciatório de Deus. Mas ele é ousado quando outros se opõem a ele. Que todos nós possamos conhecer o imenso poder que há na verdade da graça de Deus.
(V) . Esta preciosa verdade traz conforto ao pecador. O maior conforto do pecador é saber que a salvação é pela graça. Se os homens fossem salvos por mérito, por boas obras, aonde estaria você? E aonde estariam os bêbados, os blasfemadores e os impuros? Aqueles entre vocês que amaldiçoam a Deus em seus corações e não O amam, aonde estariam? Quando a salvação é inteiramente pela graça, sua vida passada, por mais impura que tenha sido, não é motivo para detê-lo de vir a Jesus. Cristo recebe pecadores. Deus escolheu alguns dos piores pecadores. Por que não então você? Ele recebe a todos que vêm a Ele. Ele não o lançará fora. Alguns chegaram a odiar a Cristo. Eles O insultaram frontalmente. Mas tão logo que eles clamaram: "Deus, tem piedade de mim, um pecador!" Ele teve misericórdia deles. Ele terá misericórdia de você, se o Espírito Santo o guiar a buscar misericórdia. Não haveria esperança alguma para você se me fosse necessário lhe dizer que você precisa conquistar sua própria salvação à parte da graça.
Contudo, a salvação é pela graça. Se você está morto em pecados, existe vida para você. Se você está nu, existe vestimenta para você. Se você se sente arruinado, existe salvação completa para você. Que você tenha a graça para se apoderar da salvação de Deus.
Então, você e eu cantaremos juntos os louvores da glória da graça divina.

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