segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A Mortificação do Pecado (VI)

Silas Roberto Nogueira

Podemos dizer que a mortificação dos feitos do corpo por meio do Espírito inclui as seguintes ações: 

Em primeiro lugar, você precisa estar ciente da sua superioridade. James Packer declara que “ninguém se encoraja muito para uma batalha sobre a qual ele pensa que não poderá vencer. Esperar a derrota é o meio para garanti-la... ao crente está vedado um tão desastroso pessimismo”. Paulo nos diz : “a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado...” (Rm 8.2). O que Paulo diz aqui é o Espírito Santo é aquele que nos livra do poder escravizador do pecado.[i] F. F. Bruce comenta “o conflito entre as duas naturezas prossegue, mas onde o Espírito Santo tem domínio e a direção, a velha natureza é compelida a recuar”.[ii] Dr. Lloyd-Jones comentou com acerto sobre isso:

Para começar, temos que entender espiritualmente a nossa situação, pois muitos dos nossos problemas são devidos ao fato devidos ao fato de que não compreendemos, e não lembramos, quem somos e o que somos como cristãos. [iii]

Em sua Primeira Epístola, Pedro nos diz que tudo o que diz respeito à piedade nos foi conferido em Cristo, 1.2-4:

“graça e paz vos sejam multiplicadas, no pleno conhecimento de Deus e de Jesus, nosso Senhor. Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo”

O que Pedro nos diz aqui é que nós temos plena suficiência em Cristo para a vida cristã e isto obviamente inclui poder para a mortificação do pecado pelo Espírito.  Na regeneração o Espírito nos vivificou (Ef .2.5; Cl 2.12,13,31) ou nos fez nascer de novo (Jo 1.12; cap 3; Tg 1.18; 1 Pe 1.3; 1 Jo 5.18). Na prática o que isso significa é que o Espírito Santo trocou o nosso coração e por um novo coração, Ez 36.26. Isso representa um poderoso golpe mortal contra a nossa velha natureza para que não sirvamos mais ao pecado e para que ele não tenha mais domínio sobre nós, Rm 6.6,14. Além disso, o Espírito veio habitar-nos, Ez 36.26,27; Rm 9-11. A habitação do Espírito Santo no crente é uma força opositora ao pecado (Gl 5.16,17) e lhe transmite poder para manifestar o caráter de Cristo, Gl 5.22. Em outras palavras, o Espírito Santo desperta o crente à obediência à verdade e o fortalece a agir conforme a verdade, Fp 2.13.    Martyn Lloyd-Jones comenta sobre isso:

Se você é cristão, o Espírito Santo de Deus está em você e está operando em você. Ele nos capacita, Ele nos dá força, Ele nos dá poder. Ele “medeia” para nós a grande salvação que o Senhor Jesus Cristo realizou por nós, e nos habilitou a desenvolvê-la. Portanto, o cristão nunca deve queixar-se de falta de capacidade e de poder. Um cristão dizer, “não posso fazer isso”, é negar as Escrituras. Um homem em quem reside o Espírito Santo nunca deve proferir tais palavras; é negar a verdade a respeito dele próprio.[iv]

Em segundo lugar, você precisa se submeter ao Espírito Santo, isto é, você precisa andar no Espírito. Paulo diz: “a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (v.4) . O andar cristão normal é no Espírito Santo – “nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito”. Aos crentes gálatas, Paulo disse: “Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne.” (5.16). Em outras palavras, a mortificação do pecado só pode ocorrer quando andamos no Espírito. Não consigo encontrar uma explicação melhor para o andar no Espírito do que a que Paulo oferece em Romanos 8.5: “Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito”.  Paulo define o andar no Espírito como uma inclinação dos pensamentos, dos afetos, dos interesses e dos propósitos. Em outras palavras, a inclinação representa o princípio governante da vida do homem. Aos crentes efésios Paulo expos a mesma verdade nos seguintes termos: “...não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (5.18).  Quando alguém está embriagado o poder dominante é a bebida, ele está sob o poder e a influência do álcool e o resultado é a “dissolução”. Por outro lado, quando o poder e a influência dominante é o Espírito os resultados são diferentes. Nós devemos ser cheios do Espírito Santo, devemos nos submeter ao Seu controle, ao Seu domínio, ao Seu poder, à Sua influência. Isso é o que distingue os filhos de Deus: “pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14).

Em terceiro lugar, você deve buscar crescimento espiritual. O apóstolo Pedro ordena “crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 3.18). James I. Packer cita John Owen quanto a isso:

Crescer, vicejar e aprimorar-se na santidade universal é o grande meio para a mortificação do pecado...Quanto mais abundarmos nos frutos do Espírito, menos preocupados ficaremos com as obras da carne... Isso é que derrota o pecado; sem isso, coisa alguma contribuirá para tal derrota.”
Então Packer prossegue:

Precisamos nutrir a nossa nova natureza com a verdade de Deus e exercitá-la continuamente na oração, na adoração, no testemunho e em uma obediência consistente e total. Deveríamos planejar a prática e o desenvolvimento de qualidades mais contrárias aos pecados dos quais precisamos nos desvencilhar: a generosidade, se o nosso problema é a cobiça; o hábito de louvar, se o problema é a autocompaixão; a paciência e a tolerância, se o problema é o mau temperamento; o planejamento da vida diária, se é a indolência; ou quaisquer outras qualidades. Precisamos interceptar as tentativas do pecado em recuperar o controle de nossos corações e poderes, mantendo-nos atarefados no serviço de Deus. Crentes débeis, descuidados, de corações e mentes divididas, jamais poderão mortificar o pecado”[v] 

O apóstolo Pedro afirma a nossa responsabilidade e diligência no desenvolvimento da nossa vida espiritual, 2 Pe 1.3-11. Owen deixa faz questão de esclarecer este ponto dizendo:
O Espírito santo não mortifica o pecado no cristão sem a obediência e a cooperação do cristão. Ele age em nós e sobre nós, do modo que for apropriado à natureza humana. ... Efetua em nós e a nosso favor, não contra nós ou sem nós. [vi]

Em quarto lugar, você deve ser vigilante quanto às tentações. Devemos orar para que Deus não nos deixe cair em tentação, Mt 6.13; Lc 11.4. Contudo, é nosso dever também fugir da tentação, Sl 18.23b. Packer comenta que “é pura presunção, e não fé, esperar que Deus, em seu poder soberano, mate em nós as concupiscências, ao mesmo tempo em que lemos má literatura, aceitamos más companhias e nos expomos às influências que fomentam as concupiscências; é mais provável atrair uma maldição do que uma benção.”[vii] Owen adverte:

Lembre-se, aquele que ousa brincar com as oportunidades para pecar ousará pecar. A maneira de evitar o adultério... é: “afasta o teu caminho da mulher adúltera, e não te aproximes da porta da sua casa” (Pv 5.8)[viii]

Em quinto lugar, você deve orar. O fato de mencionarmos a oração somente aqui não significa que você deve fazer tudo o que foi mencionado e, se não der certo, então você deve orar, mas fazer tudo o que foi mencionado em oração. Nossa oração deve incluir  um pedido de livramento das tentações – “não nos deixe cair em tentação” (Mt 6.13; Lc 11.4) , como o Senhor nos ensinou. John Stott comenta sobre esta petição na oração do Senhor:

O pecador cujo mal praticado no passado foi perdoado anseia ser libertado de sua tirania no futuro.
E o bispo J. C. Ryle declara:

Rogamos que ele, que ordena todas as coisas no céu e na terra, não nos deixe incorrer naquilo que é prejudicial às nossas almas, e que jamais permita que sejamos tentados acima do que somos capazes de suportar (1 Co 130.13).

A oração mortifica o pecado porque nos inclina cada vez mais para Deus, Sl 119.36, 112; Rm 8.6 (ARC). Aquele que não dedica tempo a oração não terá forças para mortificar o pecado.  


Continua  (parte final)

[i] Romanos, G. Wilson, p. 148
[ii] Romanos, Introdução e Comentário, F. F. Bruce, Vida Nova,  p. 130
[iii] Romanos, p. 185
[iv] Romanos, pp 183,184
[v] Vocábulos de Deus, p. 172
[vi] A Tentação, A mortificação, p. 107
[vii] Vocábulos de Deus, p 172
[viii] A Tentação, A Mortificação, p. 159

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Mortificação do Pecado (V)

Silas Roberto Nogueira

Chegamos agora à questão: como fazê-lo? Há três modos básicos de mortificar o pecado, pelo menos. Dois deles são humanos e um é divino. O primeiro consiste no método católico romano.  Há certas práticas do catolicismo que visam mortificação que podem ser consideradas absolutamente ineficazes, tais como vestir-se com panos de saco, fazer votos, penitências, jejuns, clausura ou autoflagelo. O segundo método consiste no legalismo. Lloyd-Jones referiu-se a esse método como “falso puritanismo”, diz ele:

Esse método pode ser descrito também como “falso puritanismo”. Digo “falso” puritanismo porque na realidade é uma negação dos ensinos do puritanismo. Alguns de nós experimentaram isso em sua vida. Eu, pessoalmente, fui criado nesse tipo de atmosfera. Os nossos mentores não nos ensinaram as grandes doutrinas puritanas; mas nos ensinaram uma espécie de prática puritana, sem dar-nos a doutrina, sem dar-nos a razão, sem dar-nos a verdade. Era um modo de viver imposto a nós com grande rigor, e constituía a principal característica dos não conformistas do fim do século dezenove e do começo do século vinte. Era o tipo de vida no qual você “desprezava os prazeres e vivia dias laboriosos”. Era uma religião sem alegria, uma forma de legalismo, uma tirania em que não havia felicidade, não havia gozo, não havia espírito de exultação. Era uma “religião do medo” que levava à morbidez e à introspecção, e muitas vezes ao desespero. Não passava de puro legalismo, um sistema de vida, um código de ética, um código moral imposto às pessoas de maneira errada. [i]

A crítica de Owen quanto aos métodos romanista e legalista consiste em que, primeiro, eles nunca fizeram parte do propósito de Deus no que diz respeito a esta finalidade e, em segundo lugar, tais métodos não se valem dos meios apontados por Deus de uma maneira adequada. Assim sendo, tanto um método quanto o outro são absolutamente ineficazes, seus adeptos não entenderam o que a Bíblia quis dizer sobre a mortificação dos “feitos do corpo”.

A pergunta que surge então é: qual o método certo quanto à mortificação? A resposta está no texto que temos estudado – “pelo Espírito...”, isto é, Ele é o meio pelo qual posso mortificar os feitos do corpo, o pecado.  Qualquer método que não leve em consideração o Espírito Santo para a mortificação do pecado não será eficaz. Owen assevera que a mortificação é obra que só o Espírito Santo pode efetuar pelas seguintes razões:

1)       Somente Ele convence, de modo claro e pleno, o coração da iniqüidade, da culpa e do perigo da corrupção, da concupiscência ou do pecado a ser mortificado. Sem essa convicção... nenhuma obra eficaz será feita.
2)       Somente o Espírito revela a plenitude de Cristo para nosso alívio, consideração que impede o coração de entrar em caminhos errados e em desânimo desesperador, 2 Co 12:8,9.
3)       Somente o Espírito coloca o coração na expectativa do alívio por parte de Cristo, o grande e soberano meio de mortificação, 2 Co 1:21,22.
4)       Somente o Espírito introduz a cruz de Cristo em nosso coração com seu poder para matar o pecado, pois pelo Espírito somos batizados na morte de Cristo.
5)       O Espírito é o autor e consumador de nossa edificação. Oferece novos suprimentos e influência da graça para a santificação, quando o princípio contrário é enfraquecido e abafado, Ef 3:16-18.
6)       Em todas as orações que a alma dirige a Deus nessa condição, tem apoio do Espírito. De onde vem o poder, a vida e o vigor da oração? De onde vem sua eficácia para prevalecer com Deus? Não provém do Espírito? Ele é o Espírito de súplica prometido aos que contemplam aquele a quem traspassaram (Zc 12:10), que os capacita a orar com gemidos inexprimíveis (Rm 8:26). Este é o grande e reconhecido meio da fé para prevalecer com Deus. Assim Paulo lidou com a tentação, qualquer que fosse “...roguei ao Senhor que o tirasse de mim” ( 2 Co 12:8). [ii]

Continua...

[i] Romanos, pp. 182,183
[ii] A Mortificação do pecado, John Owen, pp. 212-215 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Mortificação do Pecado (IV)

Por 
Silas Roberto Nogueira

Chegamos à palavra “mortificardes”. O termo explica-se por si mesmo. Paulo emprega linguagem figurada cujo sentido é o de amortecer, tornar inoperante, extinguir, tirar a sua força vital. Assim, o que o apóstolo conclama aqui é que devemos matar, amortecer, fazer nulo, dar cabo, enfraquecer, tirar a força do pecado em nós manifesto pelos feitos do nosso corpo. Comenta Owen:
A natureza pecaminosa (ou o pecado remanescente) é comparada a uma pessoa, “o velho eu”, com seus recursos, habilidades, sabedoria, sutileza, força, etc. Isto, diz-nos Paulo, precisa morrer. Precisa ser morto (mortificado), ou seja, sua força, poder e vida precisam ser tirados pelo Espírito. [i]

Nosso alvo é, pois, no poder do Espírito enfraquecer o pecado de modo que se torne inoperante. James I. Packer, com a sabedoria que lhe é peculiar, observou que “não nos é prometido que atingiremos o nosso alvo nesta vida, mas nos foi ordenado que avancemos na direção do mesmo, atacando aquelas inclinações e aqueles hábitos mediante os quais a presença do pecado é reconhecida. Não convém meramente que resistamos aos ataques do pecado; precisamos tomar a iniciativa contra ele. Nas palavras de John Owen, devemos procurar “não apenas desapontar o pecado, para que o mesmo não se manifeste...mas devemos buscar a vitória contra o mesmo e persegui-lo até a conquista total”. Está em pauta não somente uma contra-ofensiva, mas a erradicação do pecado. Matar, até onde isso nos for possível, é o alvo em vista”. [ii]

A mortificação é uma daquelas coisas que nos cabe fazer enquanto estivermos vivos, a forma verbal usada por Paulo aqui indica isso. A nossa alegria e vigor espiritual dependem da mortificação do pecado e nada é capaz de nos apartar disso senão o pecado. (Sl.51:12)  Owen nos adverte: “mate o pecado, ou ele matará a sua paz e gozo”.[iii]  Um outro ponto aqui quanto a mortificação, subjacente ao anterior, é que é uma disciplina dolorosa. Packer declara acertadamente que “os hábitos pecaminosos tornaram-se uma parte tão entranhada de nós mesmos que tentar destruí-los assemelha-se ao decepar de uma mão ou arrancar de um olho (cf. Mt. 5:29,30). O “eu” carnal, que naturalmente procura sobreviver, fará tudo quanto estiver ao seu alcance para impedir-nos de matá-lo”. [iv]

Em certo sentido a mortificação foi realizada, mas por outro lado, ainda não. Existe uma tensão entre o que já foi feito por Cristo na cruz e o que precisa ser feito pelo cristão diariamente. Isso é evidente em dois textos paulinos, o primeiro diz “fazei, pois morrer a vossa natureza terrena” (Cl. 3:5). O tempo verbal usado aqui indica uma ação já realizada (Rm. 6:3-11;Cl. 2:12,20). No entanto, no segundo texto, objeto de nosso estudo, Rm. 8:13 “se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis” – o apóstolo usa o tempo verbal presente, como já mencionamos, e isso implica em que a mortificação é uma tarefa contínua. John Owen reconheceu essa tensão:

Em certo sentido este é um fato que já ocorreu. Diz-se que o velho eu já está “crucificado com Cristo” (Rom.6:6). “Morremos com Cristo” (Rom.6:8). Isto aconteceu quando nascemos de novo (Rom.6:3-8). Entretanto, cada cristão tem os remanescentes de uma natureza pecaminosa que irão constantemente procurar se expressar. É dever de cada cristão mortificar os remanescentes desta natureza pecaminosa. Isto precisa ser feito continuamente de modo que aos desejos da natureza pecaminosa não seja dada oportunidade para se expressarem (Gál. 5:16) [v]

Continua...


[i] A Tentação, A Mortificação, p.89
[ii] Vocábulos de Deus, pp.168,169
[iii] A Tentação, A Mortificação, p.91
[iv] Vocábulos, p.169
[v] A Tentação, A Mortificação, p.90

domingo, 16 de janeiro de 2011

A Mortificação do Pecado (III)

Silas Roberto Nogueira

Consideremos agora a frase “mortificardes os feitos do corpo”.  Aqui Paulo apresenta o dever que nos cabe executar.  Aqui chegamos propriamente ao assunto, a mortificação.

Nossa abordagem, no entanto, focalizará primeiramente a frase “feitos [obras, ARC; atos, NVI] do corpo”.  O termo “feitos” refere-se às práticas pecaminosas características da natureza caída, Cl. 3:9; Gál.5:19.  Ao referir-se primeiro àquilo que fazemos através do corpo, Paulo deixa claro que não considera o corpo mau por si mesmo. O pecado acha expressão através do corpo, no entanto o pecado é um princípio interior, Mc. 7:18-23. Quanto a isso comenta Owen:
A maior preocupação de Paulo não é com os “feitos” externos, mas com suas causas internas. É com o desinibido desejo mal, o qual produz os feitos que precisamos lidar radicalmente. [i]

O uso do termo “corpo” chama a atenção. Usualmente Paulo empregaria o termo “carne”, no entanto optou por um equivalente, “corpo”. A razão para usar “corpo” aqui parece ser a fim de emprestar maior vivacidade ao que vem sendo dito. Seus leitores imediatamente entenderiam o uso do termo como que significando o instrumento que o pecado em nós usa para se expressar, Rm. 6:6,12. Não há nada que sugira que o “corpo” é inerentemente pecaminoso, ou que a matéria é má, como alguns hereges do passado ensinaram. O que Paulo realmente está ensinando aqui é que o pecado ainda está em nós, embora nascidos de novo, embora regenerados. O Dr. Lloyd-Jones, porém objetou que o sentido seja o equivalente à “carne”, para ele Owen escorregou aqui entendendo o termo “corpo” como “carne”, isto é, não entendendo o termo em seu sentido literal, diz ele:
Devemos tratar primeiro da palavra “corpo”, a qual significa o nosso corpo físico, a nossa estrutura física, como no versículo dez. Não significa “carne”. Até o grande Dr. John Owen perde o rumo neste ponto e trata o termo como significando “carne”, e não corpo. ...Ele se refere ao corpo físico, no qual o pecado ainda permanece...[ii]

Mas, em que pese a palavra do digníssimo Dr. Lloyd-Jones, Owen esta certo [pois incluiu o sentido literal ao dizer que  termo pode  expressar o indivíduo total] e, de fato não há divergência entre os dois modos de entender, mas são complementares, pois a conclusão é a mesma, o pecado remanescente. Assim, o Dr. Lloyd-Jones assinala com sabedoria:
...apesar do cristão ter sido regenerado, o pecado ainda permanece em seu corpo mortal. Daí o problema que há em viver a vida cristã, daí o conflito e a luta contra o pecado enquanto estamos neste mundo; pois o corpo ainda é a sede e instrumento do pecado e da corrupção. O nosso corpo ainda não foi libertado. Ele será libertado, mas, por enquanto, o pecado permanece nele. [iii]

A batalha é travada dentro de nós, no nosso interior: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer”, Gl. 5:17; Rm. 7: 15 segs.. Escreveu Owen quanto a isso:
“não é fácil expressarmos com que vigor e variedade o pecado se manifesta nesta questão. Às vezes, o pecado propõe diversões, às vezes causa exaustão, às vezes descobre empecilhos, às vezes desperta afetos contrários, às vezes gera preconceitos e, de uma maneira ou de outra, embaraça a alma, de tal modo a jamais permitir que a graça obtenha absoluto e total sucesso, na realização do seu dever. [iv]

Calvino acertadamente declarou que a vida espiritual não será mantida sem luta. É ilusão achar que haverá tempo de trégua nesta batalha senão até a morte. Paulo usou o tempo verbal presente – “milita” (Gl.5:17) o que indica que a batalha não terá fim enquanto não formos revestidos de incorruptibilidade. Há que se dizer que a ausência desse conflito interior indica igualmente a ausência do Espírito Santo, por conseguinte, o fato de que não se está em Cristo como se pensa.

continua...

[i] Idem, p.89
[ii] Romanos, p.179
[iii] Idem, p.180
[iv] Vocábulos de Deus, J. I Packer, Fiel, p.168

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A Mortificação do Pecado (II)

Silas R. Nogueira

Há duas coisas ainda a serem notadas quanto a essa relação antitética, observadas pelo Dr. John Murray.[i] A primeira é que é uma sequência inevitável e invariável, sendo estabelecida por Deus, nem Ele mesmo transgride ou infringe. Ele estabeleceu e fixou que a vida não provém de um viver carnal, fazer o contrário seria uma contradição de Si mesmo. A segunda é que a doutrina da segurança eterna do crente não anula esta sequência. Um mal entendido que perdura é o de que alguém será salvo mesmo que viva segundo a carne, a chamada teoria do crente carnal. No entanto, o que o texto deixa claro é que o viver carnal produzirá morte, não vida.

Uma segunda observação é a quem é dirigida essa exortação. A NVI supriu o texto com o pronome “vocês”, referindo-se obviamente aos membros da igreja em Roma, a quem Paulo anteriormente se referiu como “os que estão em Cristo” (v.1, cf. vv. 9,10,11,12).  Disso deduz Owen:
É estupidez e ignorância se esperar que qualquer um, exceto um verdadeiro cristão, desempenhe este dever. [ii]  

Os homens estão divididos em dois grupos – os que estão na carne e os que estão em Cristo, v.5. Não há, como se supõe um terceiro grupo, um meio termo entre os dois, mas somente esses dois. Não é ao primeiro grupo, o dos que estão na carne que Paulo conclama a mortificação, mas os que estão em Cristo. A razão para isso, segundo Paulo é que os que estão na carne - irregenerados - têm suas mentes, vontade e afeições (“cogitam” tem esse sentido) voltadas para as coisas da carne (v.5), ou seja, as coisas espirituais não lhes proporcionam prazer algum, são na verdade repugnantes. Mas o mesmo não se dá com aqueles que estão em Cristo – regenerados – eles são inclinados às coisas do Espírito, pois Ele os regenerou de modo que as suas disposições mentais, sua vontade e suas afeições foram renovadas e as coisas espirituais lhes são agradáveis, deleitosas. Portanto, a esses a chamada à mortificação é não somente aceitável como também possível e até mesmo prazerosa (Sl 40:8).

Em terceiro lugar devemos notar as palavras “mas, se pelo Espírito” (ARA; ACF).  Espírito é palavra que aparece neste capítulo 14 vezes. A ARC grafou espírito nos vv.10, 13,15 e Espírito nos vv.2,4,5,6,9,11 e 14. Contudo, aqui deve ser com maiúscula e não deve haver dúvidas de que é uma referência ao Espírito Santo, do contrário a causa eficiente da mortificação não seria Deus, mas o homem. Owen observou:
A mortificação baseada em nossas próprias forças, efetuada pelos meios de invenção pessoal, com a finalidade de uma justiça própria, é a alma e a substância de todas as religiões falsas existentes no mundo. [iii]

Quando o Dr. Lloyd-Jones chegou a esse trecho de suas exposições em Romanos declarou:
O Espírito é mencionado particularmente, como é natural, porque a Sua presença e a Sua obra constituem a singular e peculiar marca di verdadeiro cristianismo. É isso que diferencia o cristianismo do moralismo, do “legalismo” e do falso puritanismo – “pelo Espírito”! Como já vimos, o Espírito Santo está em nós, cristãos. Você não pode ser cristão sem Ele. Se você é cristão, o Espírito Santo de Deus está em você e está operando em você. Ele nos capacita, Ele nos dá força, Ele nos dá poder. Ele “medeia” para nós a grande salvação que o Senhor Jesus Cristo realizou por nós, e nos habilitou a desenvolvê-la. Portanto, o cristão nunca deve queixar-se de falta de capacidade e de poder. Um cristão dizer, “não posso fazer isso”, é negar as Escrituras. Um homem em quem reside o Espírito Santo nunca deve proferir tais palavras; é negar a verdade a respeito dele próprio.  [iv]

O Espírito Santo é quem torna o homem desejoso de mortificar sua natureza carnal e é o único a torná-lo capaz para isso, além disso, quando Ele exerce Seu poder soberano em nós e por nós, é impossível haver fracasso. Basicamente o que o Espírito faz é produzir seu fruto no homem interior (Gl 5:19-23) o que dizia Owen “tem um efeito dramático na raiz e no hábito do pecado – enfraquecendo-o, destruindo-o e removendo-o”.[v]  No entanto, Owen enfatizou que “a mortificação não é obra do Espírito de modo exclusivo do que todas as outras graças e obras o são. O Espírito é o autor de cada graça e de cada boa obra,e, contudo, é o cristão quem exercita estas graças e,de fato, realiza estas boas obras. Ele “é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade” (Fp. 2:13) [vi] “Porque todas as nossas obras tu as fazes por nós” (Is.26:12; cf. 2 Ts. 1:11; Cl. 2:12; Zc.12:10).  


Continua...



[i] Romanos, John Murray, Ed. Fiel, p.320
[ii] Op cit, p. 88
[iii] Romanos, Geoffrey B. Wilson, PES, p. 157.
[iv] Romanos, exposição sobre o capítulo 8:5-17, D. M. Lloyd-Jones, PES, pp.183,184
[v] A Tentação, A Mortificação, o que todo cristão precisa saber, p.104.
[vi] Idem, p.105

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A MORTIFICAÇÃO DO PECADO

(parte 1)


por 

Silas Roberto Nogueira 

“mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis.”
(Romanos 8:13 –ARA)

É verdade que o só ouvi falar em mortificação causa aversão em muitos evangélicos, especialmente aqueles que vieram do catolicismo romano.  Para tais pessoas a mortificação está ligada àquelas práticas penitenciais e ascéticas mais rigorosas, muitas vezes repugnantes, onde o fiel se submete à privação ou dor em busca da santificação ou participação nos sofrimentos de Cristo.

Aliada ao preconceito está a ignorância quanto ao assunto e sua relação essencial com a doutrina da santificação.  A superficialidade que impera no cristianismo moderno é proverbial e escancarou as portas para a introdução de conceitos equivocados quanto à santificação que fizeram com que o tema da mortificação fosse naturalmente negligenciado e considerado como supérfluo. 

No entanto, nem as reminiscências do catolicismo e nem a superficialidade são a causa principal do repúdio à mortificação. A causa concreta, progenitora de todas as outras é a nossa natureza carnal. A nossa natureza carnal se opõe vigorosamente contra a sua mortificação, de modo que há um intenso conflito em nós, em nosso interior. É exatamente aqui que muitos crentes perdem a batalha contra o pecado e isso por não compreender biblicamente e por não praticarem aquilo que as Escrituras ensinam sobre a mortificação.

A meu ver a mortificação é um tema bíblico cuja abordagem é urgente em nossos dias.  Penso que ninguém mais, além dos apóstolos, escreveu sobre o assunto melhor que os puritanos e, entre eles, sobressai John Owen. A primeira vez que li sobre o tema foi com James I. Packer e a menção era ao que Owen havia escrito, a quem ele atribui quase toda a luz que recebeu sobre o assunto. De fato Owen lança muita luz sobre a questão, luz tão intensa que atravessa os séculos e iluminando homens que já apalpavam na escuridão dos tempos modernos, superficiais e gratificadores da carne. Assim, ao abordar o assunto, teremos Owen diante dos olhos.

No texto acima, Romanos 8:13, Paulo confronta os crentes romanos com duas maneiras de viver. Uma maneira é “pela carne” a outra é “pelo Espírito”, a primeira maneira tem como resultado a morte (“caminhais para a morte”), a segunda, a vida (“vivereis”). Interessa-nos a segunda maneira de viver, aquela que resulta em vida e que, portanto implica na mortificação dos feitos do corpo.

Observemos cuidadosamente o texto. Embora em nossas versões a primeira palavra do versículo seja “porque” (ARA/ARC/ACF/VIBB) ou “pois” (NVI/BJ) para fazê-lo mais compreensível, no original grego a primeira palavra é “se”, uma condicional.  Owen assinala:

Paulo usa este “se” para indicar a conexão entre mortificar os feitos do corpo e o viver. É como se disséssemos a um homem doente: “se tomar o remédio, logo se sentirá melhor”. Ao homem doente se está fazendo uma promessa de melhoria na sua saúde, desde que siga o conselho que lhe é dado. Da mesma maneira, o “se” do nosso texto diz que Deus determinou “mortificar os feitos do corpo” como um meio infalível de conseguirmos “Vida”. Há uma conexão inquebrável entre verdadeiramente mortificarmos o pecado e a vida eterna. [i] 

É, portanto, uma questão de vida ou morte. Nas palavras de David Brown “se não matardes o pecado, o pecado vos matará”. Essa é uma questão crucial, eis a razão pela qual o assunto se reveste de um caráter urgente. 


continua....

[i] A Tentação, A Mortificação, o que todo cristão precisa saber, J. Owen, PES, p. 87.